“ Que imenso descanso, não dar nome às coisas! Que infinito espanto, olhar para um mundo sem nome

Paulo Borges


terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Não faz grande sentido dizer-se que os judeus deram um contributo para a cultura europeia. 
Se bem que religiosamente distintos da maioria demográfica de matiz cristã, afirmá-lo é partir do pressuposto que aquelas populações não são uma parcela dos povos que habitam este território continental e sim um mundo à parte, ainda que aí instalado. 
Ora esse sempre foi o princípio das diversas visões de exclusão a respeito de tais indivíduos, desde a inquisição ao nazismo, passando pelos fundamentos teóricos do racismo do século dezanove. Mas estamos a falar de ideografias, não de factos e, neste particular, aquelas não têm qualquer correspondência naqueles. Com efeito, desde que se fizeram diáspora em terras europeias, sempre se inseriram nos tecidos económicos dos territórios em que viveram e, mesmo tendo em conta os guetos, por via disso, igualmente fizeram parte integrante dessas sociedades. 
Desde logo ao nível gnosiológico, a afirmação inicial carece de toda e qualquer propriedade. Mais do que isso, enquanto preconceito ideológico que é, tem o efeito pernicioso de nos impedir de compreender o que realmente se verificou e verifica e que é muito simplesmente o facto de os judeus serem um dos elementos constituintes do que poderemos muito genericamente designar por cultura europeia. E eu acrescento que são um dos pilares mais importantes. 
Precisamente aquilo que de Nietzsche para cá se classifica depreciativamente como a “herança judaico-cristã” é o que nos distingue das outras grandes manchas culturais que perfazem as expressões da Humanidade sobre este planeta tão bonito. 
Todos nós temos, em boa parte, uma costela judaica, não porque tenhamos na nossa árvore genealógica alguém daquela Fé, mas sim porque transportamos conceitos e ideias, valores e instituições que têm origem mais ou menos remota no judaísmo e enculturámo-nos em mundos que se organizam também em redor desse legado. 
Só para vermos um exemplo primordial reparemos quão pouquíssimas vezes nos damos conta que a ideia de pessoa, a noção de indivíduo e a partir daí, um valor como o conceito de dignidade humana, não teriam sido possíveis de formular se não tivesse acontecido a revolução monoteísta a que a Revelação a Abraão deu lugar. 
Demo-nos ao trabalho de pensar e rapidamente concluiremos que, a partir dali, é muito aquilo que devemos aos descendentes de Isaac. 



Pois enquanto estive a escrever as palavras anteriores, mais uma vez na companhia dos King Crimson que estão a ser a banda sonora deste fim-de-semana, a Matilde, depois de feito o trabalho de casa, está a escrever frases de uma história infantil na videowriter. 
A mãe e a Margarida foram ao escritório para que o piolhinho treine a execução de uma pasta. 

Assim se faz o repouso de uma família, agora que os dias se enfrentam invariavelmente de manga curta. 



E o congresso do PSD lá continua oco como seria de esperar. 

Nada de novo e uma vez terminado, os problemas que o país enfrenta continuarão por enfrentar. 

Mas há a registar a curiosidade de escutarmos o líder do partido e primeiro-ministro acusando o clientelismo instalado na região autónoma dos Açores, onde alegadamente se vive num período de quase ditadura em que tudo tem que obedecer aos interesses do governo regional, o mesmo é dizer daqueles que lhe detêm as rédeas. 

Isto dito na presença de João Jardim não dá vontade de rir, nada que se pareça com isso. 

No entanto, pior foi a sua proclamação inflamada de responsabilização dos comunistas por eventuais problemas de falta de segurança no Euro 2004, tudo isso pela agitação que, segundo Durão Barroso, têm vindo a provocar nas forças da ordem. 

Não há palavras que descrevam a falta de bom gosto de uma acusação destas que está na melhor linha dos progroms estalinistas e maoistas sobre determinados estratos sociais. 
Mesmo no contexto do consumo interno de um congresso, não se admite este género de discursos. 


Mas é o entendimento da democracia subjacente a um tal modo de proceder que está bem de acordo com o homem que adiou uma visita de estado para ir assistir a uma final de futebol e prestar vassalagem a uma das figuras que mais tem contribuído para minar os valores do estado de direito em Portugal. 



Caracóis na Júlia, ao fim da tarde. 

Conversa com a Cláudia e o Afonso, acabados de chegar do Dubai, onde passaram uma semana de férias. 


E as pernas repousaram, assim como o espírito, sob o efeito de uma leve brisa amena. 

Uma família em paz, lanchando sob a piadeirada das asas preparando-se para a passagem da noite. 


Alhos Vedros 
  23/05/2004 

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