quinta-feira, 4 de junho de 2015

OS CAMINHOS DA AUTO-REALIZAÇÃO


POR
Abdul Cadre

Há quem entenda os caminhos da auto-realização como formas expeditas da conquista da felicidade. É um entendimento possível, desde que se tenha na devida conta que a felicidade não é um patamar a que se chega e pronto, sentamo-nos a descansar numa cadeira de baloiço, imaginando a vitória da permanência, mas permanente é apenas o desejo de ser feliz, não a felicidade. Aliás, de felicidade o que podemos falar é de instantes, coisa que de imediato se sabe quando um sapato desajustado nos rói o calcanhar. Todavia, há gente descalça que se sente feliz. Dizia Séneca que «um homem pode governar o mundo inteiro e continuar infeliz, se não sentir que é supremamente feliz. Alcançável e permanente poderá ser a serenidade e esta sim é um dos desideratos dos que fazem a via da auto-realização, que exige do buscador o uso inteligente da vontade e a educação ponderada (e não reprimida) da emoção.

No que concerne à emoção, cuidado com as fantasias new age e de marketing que pretendem impor um conceito um tanto abstruso de inteligência emocional, quando é evidente que as emoções não são nem inteligentes nem estúpidas. Pascal conhecia muito bem a profunda separação entre inteligência e emoção, duas forças (entre outras) formadoras do sentimento e alertava para o facto de os dois principais sustentáculos da verdade – razão e sentimentos – se enganarem mutuamente.

Tenhamos bem presente a etimologia da palavra emoção, que significa fora de si. Ora, quem está fora de si, dificilmente entende o que quer que seja, quando um dos significados de inteligência é precisamente entendimento.  Antigamente, quando se estudava metafísica, dizia-se que as potências da alma eram o entendimento, a memória e a vontade.

Dizem os psicólogos – por brincadeira, cremos nós – que a inteligência é aquilo que os testes de QI medem, tal como o tempo é aquilo que os relógios e os calendários dizem.

Nos meios espiritualistas, é mais comum falar-se de crescimento do que de auto-realização, eventualmente por receio de se confundir a descoberta e a realização do verdadeiro eu com o sucesso social, sendo que, todavia, este não seja por si só um impedimento daquele. O certo, porém, é que falar de crescimento serve apenas como metáfora, vale pela analogia com as etapas da adaptação mental ao desenvolvimento fisiológico, não sendo abusivo, nesta conformidade, falar-se de infantilidade e maturidade espiritual. Trata-se de uma simplificação, evidentemente, que não legitima descuidar-se esta grande diferença: o crescimento físico dá-se quer a gente queira quer não; espiritualmente, só se nasce e só se cresce pelo uso inteligente da vontade, ou, como diria Natália Correia: «a gente só nasce quando somos nós que temos as dores».
Eis a razão pela qual este crescer – que é inseparável da vontade –  merece bem o nome de auto-realização.

Mas bastará a vontade?
Parece-nos bem que não, pois há factores externos e internos susceptíveis de prejudicar a vontade e corromper as condições da auto-realização, como são as crenças, os hábitos arreigados, os preconceitos, as ideias assimiladas inconscientemente, isto é, a inércia e a rendição por comodismo aos modelos imperantes.

Ora, a auto-realização exige que se questione tudo, que se questionem permanentemente as ideias feitas, os hábitos adquiridos, os comportamentos esperados, porque não o fazer impede sabermos quem verdadeiramente somos, impede-nos de chegar à plenitude de seres concretos e únicos; não nos podemos limitar a ser viventes clonados, produtos de modelos, de conveniências, de ideias que nos inculcaram e que, por falta de discernimento, não percebemos que não são nossas, andam apenas por aí. São coisas externas que nos adormecem, impedem o nosso crescimento, não nos deixam respirar. Esperar que o exterior nos estenda uma passadeira para caminharmos seguros para o cerne de nós mesmos, mais do que uma ilusão, é uma estultícia. Quem espera receber do exterior comodamente e sem esforço aquilo que julga precisar e parece fazer-lhe jeito, viverá no medo permanente de que o exterior lhe tire a qualquer momento quanto lhe tenha proporcionado.

O que nos vem de fora é do domínio do efémero, enquanto a auto-realização – que é o transcender desse domínio – pertence ao permanente, que se alimenta do desejo de eternidade.
Em termos espirituais (que não mundanos), auto-realizarmo-nos é assumir – por vontade própria, por um exercício de vontade – a opção de caminhar (ou de não caminhar); não é adoptar modelos, porque os modelos vêm do exterior e a auto-realização só é possível com o que vem de dentro. É por isso que se trata de auto-realização e não de alo-realização; não é coisa que alguém possa fazer por nós. Quem se mova por hábitos, por rotinas, por modelos, por comportamentos extrictamente reactivos não pode ser, não pode chegar a ser quem verdadeiramente é: realiza apenas o que o exterior lhe impõe e reage tal como se espera que reaja e, desta forma, nem ele nem os outros saberão quem ele é, mas apenas como é. E não adianta arranjar hábitos novos por imitação daquilo que está em moda, nem adoptar ideias do arsenal volúvel do politicamente correcto, só porque os mais as usam, só porque os mais as aplaudem. Sendo postiços, nada disso é seu, são modelos velhos e gastos, coisas exteriores que, em certas condições, podem até ser cómodas e parecer úteis, mas aquilo que é útil – não há como fugir – utiliza-nos e o que é cómodo adormece-nos.

Livremo-nos de preconceitos e tenhamos a mente aberta, mas como dizem os ingleses, não tão aberta que os miolos nos caiam no chão, porque o que vale mesmo é procurarmos a nossa autenticidade, pormo-nos disponíveis para a descoberta da nossa plenitude. A todo o momento há que estar atento, há que ter consciência plena do que acontece à nossa volta e da nossa consequente resposta, observando tudo isso como se estivéssemos aos ombros do nosso próprio eu, com a objectividade de um cientista no seu laboratório.

Sem louvores nem condenações. Simplesmente observando muito atentamente. Só desta forma saberemos o que é interior e o que o não é. Só uma apropriada distância proporciona apreciar a harmonia de uma pintura.
As nossas crenças mais arreigadas não são verdadeiramente as nossas crenças, elas já existiam antes de nascermos para a presente vida, provêm da nossa circunstância e são modelos a que se torna cómodo aderir. Os modelos são gaiolas cujas grades são os dogmas que nos aprisionam, não nos deixando ser quem somos. Romper com os modelos, romper com os dogmas é uma condição imprescindível para se caminhar no sentido da auto-realização. Inclusive, em relação a esta, impõe-se romper com os modelos que propalam o caminho fácil e pronto do vem por aqui. Todo o caminho se faz caminhando, na dependência da inteligência dos pés, de ouvidos atentos ao que nos vem de dentro, não ao que nos vem de fora. Ulisses tapou os ouvidos com cera, para não ouvir as sereias. Não é avisado, por mais que o pareça, seguir as marcas deixadas por caminhantes que ninguém sabe porque caminhavam nem para onde caminhavam.

Seguir uma religião ou uma ideologia – não nos iludamos – é seguir um modelo, o que leva, invariavelmente, a que se engane aquilo que está dentro com uma miragem salvífica vinda de fora, mas que todavia julgamos nossa, interior. Os grandes místicos do passado sofreram na carne a incompreensão dos seus, daqueles que professavam a “mesma” crença; a perseguição, invariavelmente cruel e feroz, dos vigilantes dos modelos impostos. Por não corresponderem ao modelo, muitos foram condenados como heréticos.

É preciso que aprendamos por nós mesmos o valor da aprendizagem e tenhamos a noção de que a vida é a grande mestra e que a escola que ela nos proporciona é toda a nossa circunstância, onde naturalmente se inscreve a crença que nos inculcaram, a nossa ideologia, e também a reacção esperada aos estímulos. Saibamos do quanto tudo isso se harmoniza (ou não) com o que nos vem de dentro, cuidando de não nos iludirmos. Observemos cuidadosamente sem teorizar, sem juízos morais, até porque os juízos morais estão necessariamente aferidos pelos hábitos e pelos modelos. Se a nossa circunstância tem abundância de limões, façamos limonadas.

Todo o cuidado é pouco para evitar que os modelos exteriores se instalem, seja por insuficiência na atenção, seja porque caímos no erro de substituir uma ilusão por outra. Ao identificarmo-nos com um dado modelo, podemos desculpar-nos com o exercício do livre-arbítrio, mas na verdade é invariavelmente o seu encurtamento; é coartarmos a nossa liberdade de nos perguntarmos quem verdadeiramente somos, porque por aí apenas podemos aquilatar do quanto nos adaptámos em prejuízo do nosso crescimento.

O que se impõe é observar para descobrir e compreender, o que dispensa qualquer filtro do bem ou do mal, de nos pensarmos bons ou nos pensarmos ruins. O bom observador não faz pré-juízos, não se auto-limita pelo preconceito de assim não encontra, nem em si nem nos outros, defeitos, vícios, coisas ruins; encontra características. As suas, de que não goste, não as reprima, transmute-as pelo cultivo dos seus opostos; nos outros, se idênticas encontra, saiba que não são deles, mas suas, neles reflectidas. Não é segredo para ninguém que todos somos espelhos uns dos outros. Não nos envenenemos catando defeitos. No fundo, sabemos bem que aquilo que o vulgo chama defeito é apenas um défice, uma deficiência de qualidade.    
Falarmos de auto-realização, implica trazermos à colação aquilo que se designa em Psicologia como o sentido do eu. Todavia, o sentido do eu não é o eu, mas sim o seu reflexo e, neste entendimento, a auto-realização consistirá em ultrapassar o simples reflexo, isto é, a “normalidade” e atingir a “anormalidade” que é fazermos coincidir o reflectido com o reflector, que o mesmo é dizer coincidirmos com as características mais íntimas e profundas da própria alma.

Quando falamos de observar  para descobrir, que não se entenda este apelo como a valorização da objectividade em absoluto. Esta é sem dúvida um requisito inilidível de que observa, mas exige a consciência de que por mais objectivos que nos pareçam os sinais do mundo, só subjectivamente os entendemos e a maioria nem sequer entenderemos, por nos falhar a atenção e o discernimento. Realce-se que o que é preciso é não nos submetermos aos hábitos e às crenças, que é sobre eles que se constroem os modelos de aconchego e as rotinas.

O eu que não ultrapassou a condição de ser apenas reflexo de um reflexo faz parte do espectáculo do mundo e não pode ir além de medir os factos e as circunstâncias pelos critérios do agrado e do desagrado, tudo lhe sendo pontual e limitado. Na sua pequena visão dual, a principal característica é a discriminação e enaltece no seu agir o princípio do prazer, que invariavelmente será frustrado pelas contingências sociais, que o obrigarão a submeter-se ao princípio da realidade.

O eu reflectido está no mundo e é do mundo; o eu reflector, estando igualmente no mundo, não lhe pertence nem lhe é submissível, espera sim que o seu reflexo cresça no sentido do aperfeiçoamento do mundo, o que implica cultivar o Bem, o Belo e o Justo, única forma de actualizarmos as nossas potencialidades e gerirmos qualquer défice nas nossas características.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Politécnico de Setúbal alcança a melhor pontuação portuguesa na Shell Eco-Marathon 2015



Veículo destaca-se na categoria de protótipos a gasolina ao percorrer 435 quilómetros com 1 litro de combustível

A equipa SHELL ECO EST, do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), alcançou a melhor pontuação portuguesa na categoria de protótipos a gasolina da Shell Eco-Marathon 2015, classificando-se em 20º lugar, entre os 38 participantes que chegaram à prova final.

O protótipo conseguiu percorrer 435 quilómetros com apenas um litro de gasolina, superando a marca estabelecida pela equipa, designadamente de 300km/litro de combustível. Após uma competição intensa, com a necessidade de melhoria de alguns aspetos nos travões e nas rodas do veículo, João Gomes, Team Manager e estudante da Escola Superior de Tecnologia de Setúbal (ESTSetúbal/IPS), refere que "a equipa alcançou os seus objetivos, ao melhorar a marca do ano passado, estamos todos de parabéns, pois as expetativas iniciais foram largamente superadas".

De acordo com o estudante a experiência de participar na prova "contribuiu para melhorar o trabalho em equipa e adquirir experiência a nível da competição com outras equipas mais experientes ", pelo que para o próximo ano perspetiva-se " um novo desafio, uma vez que a competição muda-se para Londres, a equipa terá de trabalhar arduamente durante o ano para preparar tudo de forma a obter o melhor resultado possível no próximo ano".

O veículo foi criado e tem vindo a ser melhorado por estudantes dos cursos de engenharia mecânica, engenharia informática e engenharia do ambiente da ESTSetúbal/IPS, que desde há quatro anos participam na Shell Eco-marathon. Este ano, o projeto envolveu também estudantes do curso de comunicação social da Escola Superior de Educação (ESE/IPS), no âmbito da promoção do protótipo e da participação da equipa na competição.

Os trabalhos desenvolvidos na viatura foram coordenados por docentes da ESTSetúbal/IPS, contando, igualmente, com o apoio das empresas Honda, CityPrint, 3M, VPelículas, Grow, Legend Bikes, SKF, Extinsado e do KIP (Kartódromo Internacional de Palmela).



terça-feira, 2 de junho de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

PARA A MARGARIDA O QUARTO ANO


As pétalas que persistem apesar das turbulências. 
Em Lisboa, uma empresa de componentes incorpora nas suas estruturas e instalações um jardim-de-infância, um atl e uma escola do primeiro ciclo do ensino básico. Obviamente para os filhos dos trabalhadores que assim têm a qualidade de vida melhorada e são amplamente produtivos. 

Exemplos que em multiplicando muito contribuiriam para a nossa recuperação relativamente aos países mais desenvolvidos. 



Esta manhã aconteceu a apresentação do quarto ano e, claro, a Margarida esteve presente, aliás, toda a família que, da parte dos pais tal sempre aconteceu mas, desta vez, a Matilde fez questão de acompanhar a irmã, vá lá saber-se porquê. 


Como o tempo passa. 


A naturalidade foi a nota dominante, ou não fosse o piolhinho uma das veteranas da casa. Embaraços e tremuras são pré-história praticamente esquecida. 


Mas agora reparo como foi pobre a recepção da Matilde. 
De tão mal conduzida que foi a sessão, nem houve oportunidade para recomendações úteis aos alunos e aos pais e comparativamente com o já distante primeiro dia da mais velha, nem mesmo permitiu que a Professora falasse do método a usar para a aprendizagem da escrita e da leitura e não houve qualquer referência ao livro dinâmico que, julgo eu, irá repetir-se. Por experiência, observando o livro da Língua Portuguesa, sabemos nós que, à semelhança da Margarida, também a Matoldas experimentará a metodologia das vinte e oito palavras. Pena que nada tenha sido dito a esse respeito e que os adultos não tenham sido prevenidos sobre o que se irá passar e a melhor forma de lidar com isso. 

Cada vez mais damos conta da sorte que a Marga teve com a excelente Professora que lhe foi atribuída. 

Tal como nas anuidades anteriores, continuará o horário normal, de manhã, das nove horas ao meio-dia e trinta e à tarde da uma e meia às três e meia. 


A vida familiar não terá qualquer sobressalto. 



Mais um sinal do beijo que ao anel se deu. 

A deputada social-democrata Maria Elisa será substituída por, vejam só, o senhor Ribeiro Cristóvão, comentador desportivo da televisão pública. 
Bem, da bola à portuguesa ele deve perceber. 

Será que isto é inocente? 



O caso do ozono, como questão atmosférica, em geral, diz respeito a toda a Humanidade. Quer pela própria natureza deste universo, segundo a qual, pela circulação do ar, os problemas provocados num determinado ponto do planeta podem ter repercussões em outro(s) mais ou menos distante(s); uma vez que tais mazelas têm origem nas actividades económicas e da vida comum dos membros da nossa espécie, estamos perante matérias que podem interessar a todo e qualquer cidadão pelo que devemos informar-nos o melhor possível sobre esses assuntos e procurarmos agir de forma inteligente, isto é, se não obrigatoriamente definindo e clarificando os nossos pontos de vista, pelo menos e muito será, diga-se com franqueza, tentando manter as atitudes e os comportamentos mais consentâneos com um saudável relacionamento entre as nossas culturas e o meio físico que lhes serve de habitat. 
Apesar do muito que se tem escrito na última década sobre os fenómenos em causa, ainda continuamos sem conhecer todas as implicações que um efeito de estufa em crescendo ou a diminuição da película de ozono podem ter para a vida tal como a conhecemos. Nem estamos, por enquanto, habilitados a prever a eventual recuperação dos equilíbrios naturais em face de hipotéticas supressões das fontes do mal, assim como não estamos capacitados para, quanto ao ozono, reproduzir este último gás artificialmente de modo a colmatarmos perdas. 
Neste sentido, tenho para mim as palavras que, há muitos anos, escrevi num ensaio. Sem alarmismos desnecessários, não se trata de acreditarmos que podem ser encontradas soluções, trata-se de tudo fazermos para que elas sejam encontradas. (1) 

Mas por dizerem respeito a toda a Humanidade, os problemas atmosféricos em geral e os do ozono, em particular, também servem como tópicos de reflexão por onde poderemos desenvolver uma mentalidade universalista pois, logo à partida, nos remetem para a ideia da casa comum. 



Na Guiné-Bissau haverá um novo presidente, novo governo e serão marcadas eleições de que sairá um novo parlamento e, provavelmente, um outro presidente e um novo governo. E o mais certo é que o país que está no grupo dos cinco mais pobres do mundo aí continue a medrar num status quo de corrupção e desorganização em que melhor se salvam aqueles que permanecem activos de agriculturas de subsistência. 

É a África Sub-Sahariana continuando aquilo que sempre foi, com a terrível agravante de os mecanismos de morte serem agora muito mais letais. 



E à canícula desta nossa noite corresponde, em São Miguel, uma violenta tempestade trovejante. A ilha está completamente às escuras. 


E agora os anjinhos dormem; na rádio, as notícias das vinte e duas horas. 
Amanhã começarão as responsabilidades. 

Para a minha adorada Matilde, é um novo ciclo que se inicia. 



Ora se hoje comecei com um sinal de esperança, suspendo-me com um toque pessimista. 
A polícia alemã desmantelou um grupúsculo, uma célula neo-nazi que tinha como propósitos mais imediatos o levar a cabo atentados contra os alvos de sempre. 

É a extrema-direita a rugir para se medir em capacidade de salto. 


Estamos, naturalmente, na presença de minorias insignificantes. Mas com o tal pintor de aguarelas também foi assim. E a verdade é que as sociedades em que vivemos permanecem vulneráveis. Continua a ser muito fácil encontrar energúmenos para quem os pretos, os ciganos, os turcos ou os judeus são sempre culpáveis pelas misérias dos mundos em que vivem. Se deixarmos que a violência ganhe, o medo se encarregará de fazer o resto. 

A nós, portugueses, o totalitarismo espreita-nos de mais perto do que a maioria imagina. 



Por ora me calo. 
Amanhã começam as aulas para os meus anjinhos. 


Alhos Vedros 
  17/09/2003 


NOTA 

(1) Gomes, Luís F. de A., ANTROPOLOGIAS, RECURSOS E PALAVRAS, pp. 45/46 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Gomes, Luís F. de A., ANTROPOLOGIAS, RECURSOS E PALAVRAS, In “As Pancadinhas De Moliére: Coisas E Loisas De Um Antropólogo”, Prefácio do Autor, Dactilografado, Alhos Vedros, 1989

segunda-feira, 1 de junho de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (134)

    Dans le Blé, Berthe Morisot, 1875
Óleo sobre Tela, 47x69cm

Pintar palavras

Curar as dores

Sonhar as cores 

António Tapadinhas



domingo, 31 de maio de 2015


 
MIRADOURO 20/2015
 
(esta rubrica não respeita o acordo ortográfico)

Foto: João Ramos
 
 
Suspendeu-se até o canto dos pássaros congelado naquele cinzento de dia sem brilho.
Uma criança trazia uma chama mas um sopro gelado, surgido do nada, apagou-a.
Então, a criança, eliminou o nada preenchendo-o com a luz do seu riso gorgolejado.
Reacendeu-se a luz - e a chama - e os pássaros, de novo pássaros com asas e tudo, reinventaram-se em novos cantos e tudo se coloriu nas novas possibilidades de recomeços.
Elevaram-se no ar e no voltear do seu vôo desenharam estradas no ar para quem não tivesse asas mas, ainda assim, vontade para andar.
É verdade.
Vamos contar uma história mas, agora, nova.
E vai ser assim todos os dias.
Manuel João Croca

sábado, 30 de maio de 2015

Setúbal vale a pena...





Cartão Postal
Lucas Rosa


sexta-feira, 29 de maio de 2015

CARTA ABERTA A RENÉ DESCARTES

“ Penso, logo existo“. Será?
Caro amigo René,
Desculpa vir incomodar-te, mas gostaria de saber, se essa tua frase que se tornou famosa, ainda a afirmarias nos dias de hoje. Escrevo-te quando estamos no ano de 2015, em que estão a surgir grandes mudanças em todos os setores incluindo o da expressão, da investigação e da observação neste belo planeta onde tu deixaste obras muito importantes na área da Filosofia,da Física e da Matemática.
Permite-me dizer que hoje eu discordo dessa frase, o que provavelmente não seria a minha opinião no século XVII, data desse teu “ Discurso do Método “.
Quando afirmas “penso” logo queres dizer “eu”penso. Este eu é fruto da mente, que pensa. Logo dizes que existes porque tens mente. Então,quando eu durmo não penso, a mente não está presente, e será que eu não existo? Quem mantém este corpo vivo com todas as funções vitais energizadas?
Esse eu a que te referes é o temporal, é a tua personalidade, o corpo a quem deram um nome e com o qual tu te identificaste. É a imagem distorcida do teu verdadeiro Eu. Convido-te a fazeres uma experiência.
Faz o silêncio em ti, exterior e interior, quando a tua mente intrigada com esse teu estado te começar a en viar pensamentos e imagens não os negues e não te identifiques com eles, entrarás assim no estado de observador. Sem fazeres quaisquer esforço mantém-te
e verás que surgirá em ti alguém ou algo que observa o observador. Quem é? Vivências aí o estado de Consciência, o Eu, sem forma, pensamento ou sentimento, atemporal, sem nunca ter nascido, O que sempre foi, é e será. Nesse estado em que não pensas tu És, Existes.
Assim caro amigo René, não será que a frase atualizada será “ EU SOU,logo Existo “?
Esperando uma tua resposta,
O amigo e admirador,
António Alfacinha

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os Celtas


Que me perdoem os cientistas e investigadores, mas é muito interessante “viajar” pela História! Melhor ainda pela Protohistória.
Muito se ouve falar dos celtas, mas com absoluta certeza não se sabe muito sobre eles.
Dizem que terão “nascido” na Europa Central, mais ou menos onde é hoje o sul da Alemanha, leste da França e Áustria, Boémia e Eslováquia, ao lado da região que já se chamou... Galicia, sobre o que já escrevi em Outubro de 2012 (verhttp://fgamorim.blogspot.com.br/search?q=iberia ).
Mais curioso é saber que onde viveram, conforme as regiões, línguas e os tempos, se chamaram gália ou gaulia dos gauleses, galácia dos gálatas, galícia, gaélicos do Norte da Escócia e da Irlanda, os galegos da Galiza, e muitos, muitos outros nomes que se perderam, e ainda tribos comos os Boiens, uma das maiores tribos celtas, cujo nome parece significar “os terríveis”, também conhecidos por boers (em holandês significando paisano ou agricultor). O nome atual de Bohemia vem de Boio, terra dos Boiens.
Até os gálatas, mais conhecidos talvez pelas epístolas de São Paulo, eram “gauleses” que se aventuraram para leste, e após batalhas com uns e outros fundaram a Galátia que seria a parte central da hoje Turquia. Foram eles que fizeram de Ancyra, agora Ankara, o centro, a capital, de todas as tribos celtas que ocuparam a região.


Os celtas foram um povo – ou diversos povos? – extremamente guerreiro. Expandiram-se para o leste, assolando o sul da Rússia, a Grécia, o norte da Itália, praticamente toda a região da França, e mais da metade da Península Ibérica.
Hoje boa parte dos cientistas que se dedicam ao estudo das origens célticas, afirmam, com base em dados antropológicos e até de DNA, que eles foram da Península Ibérica para a Britânia, quando outros creem que terão ido diretamente da região da Germânia ou da Gália.
Entram nas Ilhas Britânicas, por volta do século V a.C.
Na Península Ibérica já se encontravam, segundo alguns autores (Políbio, Estrabão, Homero e muitos outros comparsas) talvez desde antes de 1.000 anos a.C. numa região encostada àquela que os romanos vieram a chamar Tartéssia, dos tartessos ou turdetanos. Esta seria onde hoje a parte ocidental da Andaluzia, e aqueles na Extremadura, estendendo-se pelo Sul do Alentejo e Algarve, como se vê no mapa abaixo.
40.000 anos a.C. os Neandertal já estavam no sul da Península Ibérica. No norte as pinturas de Altamira terão entre sido feitas entre 12.000 e 32.000 a.C.
9.000 a.C. há vestígios de migrações da região da Fenícia para o sul da Península e da expansão dos chamados “indo-europeus” pelo centro da Europa.
Em 1.800 a.C. tribos celtas já ocupavam a maior parte da Península, mesmo que os nomes das tribos fossem muito aleatórios porque quem escreveu sobre eles pouco ou nada sabia!

Como é de supor não havia fronteiras fixas entre os diversos povos primitivos naquele tempo, mas não é difícil calcular que entre os que viviam nos limítrofes se entrecruzassem, e assim os romanos, que melhor os descreveram, acabaram por englobar na Tartéssia o Algarve, o Sul do Alentejo e a parte sul da Extremadura, o que significa que os celtas teriam sido “incluídos” numa única região, a Baética.
O primeiro autor antigo a escrever sobre os celtas na Península terá sido Hecateo de Mileto (-548 a -475), que além de os colocar em Marssilia se refere também aoskeltoi, keltoi – celtas - o povo da Península.
Os Turdetanos eram considerados, pelos romanos, como os mais sábios dos ibéricos; faziam uso de um alfabeto e possuíam registros de sua história antiga, poemas, e leis escritas em verso com seis mil anos de idade, mas desconhece-se quando o tartessiano deixou de ser falado; Estrabão (c. 7 a.C.) registra que os Turdetanos e particularmente aqueles que vivem sobre o Baetis (Guadalquivir) mudaram completamente ao longo da ocupação romana, nem mesmo lembrando mais de sua própria língua.
Há documentos, sobretudo estelas que remontam a um passado muito remoto, com escrita até hoje indecifrável, com características fenícias e até misturadas com tipos de hieróglifos egípcios.
Ainda pelos antigos historiadores “sabemos” que terão sido os tartessos que, hábeis navegadores, práticos no tráfego sobretudo com a Fenícia, também foram os primeiros a navegar pelo Atlântico até as “Ilhas Cassiterites” (do grego kassiteros, estanho), onde se abasteciam deste metal.
Estas ilhas que mais tarde cartógrafos chegaram a colocá-las no lugar dos Açores, não é difícil concluir, digo mesmo concluir, que serão as Ilhas Britânicas, porque estas ficaram conhecidas por serem o principal fornecedor de estanho de “antanho” na Idade do Bronze.
Pensando neste conhecimento podemos começar a tirar algumas conclusões:
- Primeiro, é bem possível que os celtas tenham começado a ser conhecidos como tal, quando se juntaram (?!) no centro da Europa, Grécia e norte da Itália, apesar de serem inúmeras as tribos, mesmo sem unidade antropológica, a que hoje se lhes dá o nome genérico de celtas;
- Também é sabido que os povos celtas chegaram à Península Ibérica muito antes de às Ilhas Britânicas;
- Começaram por ocupar a Meseta Central da Península Ibérica, estenderam-se depois por quase todo Portugal, com os lusitanos e formando os Celtíberos, e sobretudo no Norte, Minho e Galiza, onde encontraram ricas jazidas de estanho, e dando à região o nome de Galecia ou Galiza;
- Daqui à Britânia... onde encontraram o mesmo estanho, não lhes deve ter sido impossível, até porque exportavam depois esse estanho dali também via Gadis;
- Assim também não custa supor que foi este um dos motivos que os levaram a ocupar a Britânia, tendo saído da Península Ibérica.
Além de todas estas hipóteses, há ainda a considerar a semelhança cultural, definida por espadas de bronze, pontas de lança, caldeirões, “garfos e espetos” estirados dos Tartessos à Galícia, Bretanha, Grã-Bretanha e Irlanda. No oitavo século a.C. uma nova elite levantou-se rapidamente entre os nativos parceiros comerciais dos fenícios.
  


Neste mapa vê-se bem o desenvolvimento da exploração de alguns metais: no sul da Península já se explorava o cobre 3.000 anos a.C.; o estanho, no Norte (entre Minho e margens do Douro) com mais de 2.500 a.C. e nas Ilhas Britânicas e Irlanda, um pouco mais tarde.
No entanto parece terem sido os ingleses que mais nos têm dado menções e elementos da história deste povo, ou grupo de povos que acabaram por falar a mesma língua, ainda hoje viva em muito lugar.
Sempre ferozes guerreiros, lutavam até entre si selvaticamente, mas vaidosos da sua aparência; usavam sabão especial e perfumes, túnicas de tecidos estampados e bordados, e adoravam carregar consigo cornetas e outras joias em ouro, em que eram exímios artistas.
Nas lutas aterrorizavam os inimigos, berrando que nem loucos e fazendo soar longas cornetas. Muitas vezes lutavam completamente nus com as suas longas cabeleiras, as tranças clareadas com limão!
Eram muito fechados nas suas hierarquias. O povo dividia-se em três principais classes:
- o rei ou a rainha;
- a classe superior, os guerreiros, com os seus grandes bigodes;
- e a classe baixa, escravos e trabalhadores, a maioria agricultores.
E os druidas sempre escolhidos entre gente da classe superior; muitos lutavam entre si para se fazerem notar e ganhar um lugar entre estes “sacerdotes”, que por vezes tinham mais poder do que os reis (tal como se passou e ainda passa em muitas outras religiões). O treino para se chegar a poder praticar o culto durava vinte anos!
Não iam à guerra, mas previamente aconselhavam o rei e os guerreiros sobre a melhor data para as batalhas, e sempre participavam do espólio colhido pelos vencedores.
Eram eles que estabeleciam a “ligação” entre o supernatural e os homens, e adoravam sobretudo dois deuses: Sucellos, o deus do céu e Nodens, o deus das nuvens e da chuva.
Vem de um banquete, em 355 a.C. entre Alexandre, o Grande, e alguns celtas no golfo da Jónia, (a caminho da sua invasão na Ásia Menor) a célebre frase que sempre se encontra nos maravilhosos livros do Asterix: Alexandre perguntou-lhes o que mais temiam neste mundo: “Que o céu nos caia sobre a cabeça! ”

Francisco Gomes Amorim
16/05/2015

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Feira da Ladra


partilho com todos os meus amigos e leitores espalhados pelo mundo este meu poema , hoje aqui feito fado , interpretado pelo fadista e amigo Jorge Miguel e emoldurado com este interessante VIDEO de sua autoria , a quem eu endereço os parabéns pelo excelente trabalho. Veja o vídeo clicando aqui:         
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Feira_da_Ladra/index.htm


terça-feira, 26 de maio de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

UM BELO FERIADO


Foi a enterrar o corpo de Victor Damas que sucumbiu em face de uma doença incurável. 

Dele guardo boas memórias futebolísticas de o ver entre os postes, com o leão ao peito, o melhor de todos os guarda-redes portugueses que até hoje vi jogar nos relvados. 
Vi-o, muitas vezes, quer contra o meu querido Barreirense, quer contra a CUF, de boa memória, ou o Benfica, o grande Benfica de Eusébio, no Estádio da Luz. Ainda me lembro bem da sua elasticidade que lhe permitia os golpes de rins impossíveis e as tiradas ao canto da baliza, ou as defesas por reflexo com que negava o orgasmo às multidões que em pé, tantas e tantas vezes, já ululavam pelo golo. 

Com vários campeonatos nacionais e taças de Portugal no currículo, creio que o pico internacional foi atingido com o Sporting do seu coração, numas meias-finais da Taça das Taças com o Dínamo de Leipzig da então República Democrática Alemã que fez o papel do desmancha prazeres que impediu a presença na final daquele ano de setenta e quatro. 
Posteriormente emigrado em Espanha, onde se distinguiu ao serviço do Santander, acabou um tanto ou quanto esquecido para os nossos estrategas e viu-se preterido por outros na camisola das quinas. 

Mas para mim ele foi, sem dúvida alguma, o melhor de todos os guarda-redes portugueses que eu alguma vez vi jogar. 


Deus o guarde no Colo da Eternidade. 



Relativamente à situação que encontrei quando a Margarida iniciou a sua vida de estudante, a Escola Básica que os meus anjinhos frequentam revela algumas melhorias que são de destacar, tanto no que diz respeito às instalações como na própria oferta do conteúdo do ensino ali ministrado. 
Das janelas que antes deixavam passar água às pinturas exteriores e interiores, bem como dos arranjos no recreio que muito melhoraram, em termos securitários, pavimentos e canteiros, aos acréscimos e renovação de materiais, de que a substituição de todo o parque de mesas e cadeiras é o ponto mais importante, vários são os melhorismos que obviamente contribuem para a qualidade de vida que a garotada ali encontra para aprender. E foi com grande satisfação que eu vi o meu pardalinho sentado em novas cadeiras que parecem confortáveis, tendo à disposição novos e bons tampos de material durável e facilmente manuseável. 
Relativamente ao segundo aspecto enumerado, é de sublinhar que, desde há três anos, os alunos têm, inserida no horário escolar, uma hora semanal de iniciação musical. 


Não há dúvidas que a associação de pais também terá a sua quota-parte nos louros destas reformas simples mas significativas. 
Mas devo dizer que a elas não serão estranhas as pessoas da senhora Presidente da Junta de Freguesia de Alhos Vedros, a Drª. Fernanda Gaspar que muito tem feito para que as propostas da associação sejam bem acolhidas e que teve a abertura de espírito para perceber a pertinência da aprendizagem da música de que tem sido a principal promotora entre os intérpretes do poder político da autarquia; e também o actual Vereador da Cultura, o Sr. António Canudo que para o cargo levou a maior preocupação com os problemas deste nível de ensino de que cabe ao poder local cuidar. 



O certo é que é neste edifício melhorado que a Matilde iniciará o seu caminho de estudante. 

Com horário matinal, entrará todos os dias às oito e sairá às treze horas. 


Melhor seria o turno da irmã. Mas não se pode ter tudo e tanto eu como a Luísa somos da opinião que, apesar disso, é preferível ela ficar com a Professora que vai ser a sua. 


Além de que a família não sofrerá quaisquer transtornos na hora das refeições que continuará a mesma e nos mesmos moldes. 


Sem embargo, é claro que à partida aquilo que à minha filha adorada espera será uma sobrecarga de trabalho. 

Para o saber dosear e minorar estamos nós, os pais, para o que deveremos ser imaginativos. 

Deus nos ilumine com a Sua Graça! 



Kumba Ialá foi apeado do poder na Guiné-Bissau. 
À semelhança daquilo que aconteceu em São Tomé e Príncipe, há uns meses atrás, novamente os militares pegaram nas armas e, tendo como argumento o objectivo de pôr cobro a índices de corrupção insuportáveis, deram voz de prisão ao Presidente, demitiram o Governo, o chefe das tropas rebeldes auto-proclamou-se na presidência e as oposições rejubilaram de imediato, tanto perante a queda do tirano – é assim que o ex-Presidente eleito é visto pelos populares, mesmo os da diáspora, como me disse ontem o senhor Iaia Baldé com quem estive à conversa sobre o golpe e com quem muito tenho conversado sobre a situação daquela ex-colónia portuguesa nestes últimos três anos e meio – como em face da promessa da rápida marcação de novas eleições e a consequente devolução do poder aos civis. 

É a África cansada da guerra e da fome, desesperada de cleptomanias que aceita calmamente estes jogos de soldadinhos. 
Faltam homens capazes de terem coragem para trilharem os caminhos que encham as barriguinhas e as despensas e que depois permitem alimentar os espíritos de coisas úteis e outras apenas etéreas. 
O povo é que continua com o mesmo chinelo e a vigarice, essa, seguirá dentro de momentos. 


Quem dera que eu estivesse redondamente enganado. 



Por cá continuamos na época dos fogos – é assim que a nossa comunicação social de m… (aterial indizível) se refere ao Verão das nossas matas. Só isto seria suficiente para qualquer alienígena compreender o desleixo, a desorganização e a incúria com que as florestas são vistas e tratadas entre nós. Seja como for, este ano, o saldo atinge proporções inimagináveis; já lá vão quatrocentos mil hectares de terra queimada. 

É uma vergonha o que se tem passado. Sem grande exagero, pode escrever-se que o país foi posto a ferro e fogo. Ao longo de uma quinzena de altas temperaturas, em Agosto, assistimos a uma guerra civil que teve de um lado labaredas verdadeiramente inteligentes e do outro as populações indefesas e bombeiros que deram o seu melhor para enfrentarem uma catástrofe que de natural pouco ou nada aparenta ter. 


Curioso é o afã de certo jornalismo em tudo fazer para passar a ideia de que tudo isto se deve a uma complexidade de factores de que o crime está excluído. Pode ser que assim seja, mas eu tenho as mais sérias dúvidas a esse respeito. 

Cá para mim trata-se de crime organizado. 
Há o padrão de todos os incêndios começarem sempre em vários pontos, regra geral, os de mais difícil acesso – para nem falar do caso, em Agosto, dos acessos bloqueados com toros de eucalipto, como se verificou, no início da calamidade, na Serra de Monchique – e de terem saltitado por todas as grandes manchas florestais do país, chegando a atingir uma dimensão e intensidade que forçaram aos pedidos de auxílio estrangeiro que acabou por se verificar. 

É claro que daí à culpabilização do Governo foi o salto de um pardal. 
E depois com as mortes provocadas pelo calor e uma ponte pedestre que caiu no IC19 depois de remodelada, muitas foram as cabeças de ministros que se pediram. 

Alguém quer o fim deste executivo e a instabilidade no país. Porque será? 


Tragicamente, este fenómeno coexiste no tempo com a prisão preventiva de grandes figuras públicas ou de gente como o Sr. Manuel Macedo, ex-operacional da rede bombista de setenta e cinco e posteriormente mentor da associação de amizade com a Indonésia que anexou Timor-Leste. 



Ai que felicidade a minha em ter uma filha assim, criança saudável e robusta, com apetite vulgar e todos os restantes indicadores físicos no domínio da melhor das normalidades. 
À data da última consulta com o Dr. Clington, em cinco de Setembro, registou trinta quilos e oitocentos gramas, para uma altura de cento e dezanove centímetros. 
Dorme entre as nove e as dez horas diárias, cresce regularmente e mostra ter os cinco sentidos bem despertos. 

Bem, todos os que tenham lido estes diários sabem que eu sou um pai que muito se orgulha das suas lindas filhas, não é? 

Mas dá gosto ver uma criança assim, normalmente sorridente e despreocupada, incrível e inesperadamente atenta ao que a rodeia, muito propensa ao humor tão apropriado e, de uma maneira geral, tão inteligente que só pode deixar antever uma argúcia e capacidades de raciocínio que farta alegria me incutem em vê-las em estas idades precoces. 

Ai como é doce o calor que nos afaga o peito quando nos rimos sob o efeito de uma das suas piadas ou dos reparos com que põe a nu a evidência de certas coisas. 
E gosta de brincar com carrinhos e bonecos e bonecas, sendo igualmente dispersável em jogos e, acima de tudo, dos puzzles que adora. 
Mas também se prende de amores pelo ar livre e as correrias e saltos, ou as simples passeatas que por aí se proporcionam e sendo forte de corpo e de ânimo, mesmo com nada ela é capaz de arranjar motes e materiais para brincar. 

“-Vá mãe. Vamos a uma corrida!” –Braçadeiras nos braços, atirando-se de imediato para o espelho que a praia-mar, na calmaria, faz na baía de Sesimbra. 

E já sabe andar de bicicleta com sprints e tudo. 

Pois mais etéreo é o meu rolar quando vou percebendo que ela é uma criança que se empenha em tudo o que faz e, ao longo dos seus espaços de aprendizagem, até ao momento, no jardim infantil, na ginástica ou na natação, revela a responsabilidade de cumprir o melhor possível aquilo que lhe é pedido. 
Ora aqui tenho a quase certeza de não errar se disser que fica orgulhosa com os bons resultados, mesmo apenas guardando a satisfação para si. 
Portadora de um vasto vocabulário que domina bem, constrói as frases na perfeição e explica-se com natural à vontade, ao ponto de com ela podermos estabelecer qualquer tipo de conversa. Tem a ligeireza de saber dizer quando não entende ou não lhe é possível entender um determinado assunto. 
Quando lhe dá para inventar palavras, então o encanto faz-nos os olhos brilharem de quê, digam lá vocês. 


“-Ó pai, vamos fazer telefones com os iogurtes do pequeno-almoço.” –Entrou ela pelo quarto, esta manhã, enquanto eu me vestia. E com aquele sorrisozinho desdentado, lá virou as costas para se ir entregar às suas engenharias. 


São conteúdos do meu Éden. 



Para um feriado bem passado, 
há que ser aproveitado. 


Ternuras de pai e filhas. 
Ao fim da tarde lá fomos para a festa da Moita, como todos os anos acontece. 
Hoje houve carrinhos de choque – infantis, claro está – e póneis. 

E no regresso gaivotas, muitas gaivotas lá no alto, demandando o mar. 



Dezasseis de Setembro, dia mundial para a protecção da camada de ozono que, entre nós, quase passou despercebido. No fórum da TSF desta manhã, discutiu-se a mudança de hora portuguesa para a correspondente aos fusos horários da Europa Central, coisa que já vigora entre nós sem qualquer um dos resultados que os seus defensores apresentam. Fosse assim tão fácil o desenvolvimento… Por sua vez, o jornal “Público”, onde uma pequena cacha dá conta de ozono em excesso na zona de Lisboa, (1) apenas uma palavra sobre um assunto que a todos nós afecta e para o qual todos nós somos obrigados a contribuir através dos comportamentos das nossas vidas ordinárias, justamente uma notícia para nos dizer que não respeitamos as leis internacionais sobre aquele gás atmosférico. (2) 



Em contra partida, naquele mesmo diário, podemos ficar a saber de uma carta pastoral sobre o bem comum, pelos Bispos portugueses, em que se identificam aquilo a que chamam pecados sociais. 

Pelo adiantado destas páginas e o caricato das ideias que mais parecem descrever um país sem rei nem roque, aqui transcreverei sete pecados que muito estiolam, entre nós, o bem comum. 
“-Os egoísmos individualistas, pessoais e grupais, sem perspectiva de bem comum mais, sem perspectivas do bem comum mais global; 
-o consumismo (…) fomentado pelos próprios mecanismos da economia, que gera clivagens entre ricos e pobres e gera insensibilidades a valores espirituais; 
-a corrupção, verdadeira estrutura de pecado social (…); 
-a desarmonia do sistema fiscal, que sobrecarrega um grupo e pode facilitar a irresponsabilidade no cumprimento das justas obrigações; 
-a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e feridos, que são atentados ao direito à vida (…); 
-a exagerada comercialização do fenómeno desportivo, que tem conduzido à perda progressiva do sentido do “jogo” como autêntica actividade lúdica e a falta de transparência nos negócios que envolvem muitos sectores e alguns profissionais dalgumas áreas do desporto; 
-a exclusão social gerada pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pela desigualdade no acesso à saúde e à educação, pelas doenças crónicas (…).” (3) 

Sobre o consumismo algo haveria a dizer e quanto aos eufemismos com que o fenómeno desportivo é tratado, importariam as clarificações que tão bem sabem separar o trigo do joio e isto sem termos que chegar a grandes particularismos. 

Mas é suficiente que nos recordemos, tal como num estado de Vilelas, o nosso grande objectivo é o Euro 2004 e a construção de dez – leram bem, são dez, uma dezena – estádios de futebol cuja maioria se destinará ao predominante uso das moscas. 


É a tragédia de um país que se vê bem representado por um presidente de um clube de futebol. Assim é que é, ele até bate na mulher. 



E agora o remanso da leitura, enquanto a noite se aquieta. 

Alhos Vedros 
  16/09/2003 


NOTAS 

(1) Sob a responsabilidade da redacção, OZONO A MAIS NA GRANDE LISBOA, p.46 
(2) Lusa, PORTUGAL NÃO RESPEITA A LEI DO OZONO, p. 28 
(3) Conferência Episcopal Portuguesa, RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA PELO BEM COMUM, p. 26 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Conferência Episcopal Portuguesa, RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA PELO BEM COMUM, In “Bispos Enumeram “Pecados Sociais” E Pedem “Paixão Por Portugal Melhor””, António Marujo, In “Público”, nº. 4926, de 16/09/2003 
Lusa, PORTUGAL NÃO RESPEITA A LEI SOBRE O OZONO, In “Público”, nº. 4926, de 03/09/2003 
Sob a responsabilidade da redacção, OZONO A MAIS NA GRANDE LISBOA, In “Público”, nº. 4926, de 16/09/2003

segunda-feira, 25 de maio de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (133)


Luís Galrito esteve no 29.º Aniversário da CACAV 
e foi uma agradável surpresa para quem ainda não o conhecia.

António Tapadinhas

A Mulher Da Erva

Velha da terra morena
Pensa que e já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
Saia rota
Subindo a estrada
Inda a noite
Rompendo vem
A mulher
Pega na braçada
De erva fresca
Supremo bem
Canta a rola
Numa ramada
Pela estrada
Vai a mulher
Meu senhor
Nesta caminhada
Nem m'alembra
Do amanhecer
Há quem viva
Sem dar por nada
Há quem morra
Sem tal saber
Velha ardida
Velha queimada
Vende a fruta
Se queres comer
A noitinha
A mulher alcança
Quem lhe compra
Do seu manjar
Para dar
A cabrinha mansa
Erva fresca
Da cor do mar
Na calçada
Uma mancha negra
Cobriu tudo
E ali ficou
Anda, velha
Da saia preta
Flor que ao vento
No chao tombou
No Inverno
Terás fartura
Da erva fora

domingo, 24 de maio de 2015



MIRADOURO 19 / 2015

(esta rubrica não respeita as regras do acordo ortográfico)


ACRESCENTEMO-NOS

Quando daqui por uns anos, quando os historiadores, sociólogos, antropólogos, politólogos e outros estudiosos se forem debruçar sobre este período que agora vivemos, ficarão decerto estupefactos com o nível de destruição conseguido em tão pouco tempo.
Destruição manifesta numa fractura social profunda que compromete qualquer contrato social indispensável para a estruturação de qualquer sociedade em bases dignas. As causas derivam da luta entre os dois grandes campos que constituem a sociedade em si: o trabalho e o capital. É evidente que dentro de cada um destes grandes campos haverá inúmeros grupos e grupinhos mas, apenas para simplificar, poderemos resumir assim o ângulo de observação para o que queremos dizer.
Tal separação esclarece quaisquer dúvidas relativamente à chamada luta de classes. É evidente que existe, continua e está bem viva como permanentemente podemos sentir e constatar.
Posto isto, não é para queixas que falamos do assunto. Os campos estão definidos e, como em qualquer luta, uns vão ganhando e os outros perdendo. Quem ganha exerce o “poder” da forma que melhor serve os seus interesses instrumentalizando os outros para os servirem. O que é paradoxal é que, tendo em conta a dimensão dos “exércitos”, sejam os que são menos, muito menos, que seguem vencendo sobre os que são mais, imensamente mais, e que continuam perdendo. Chegados aqui, evidencia-se imediatamente a realidade: tal só é possível porque os que são mais, imensamente mais, estão divididos.
Portanto, mais do que queixas importa alterar esta realidade que está na base do problema e trabalhar na construção da união. Não precisamos pensar tudo igual pois que tal não será possível nem sequer, porventura, desejável, mas precisamos secundarizar diferenças em prol do que é essencial.
Trabalho, Educação, Saúde, Justiça Social, Liberdade.
Agostinho da Silva falava dos três esses: Sustento, Saúde, Sabedoria. Creio que falamos da mesma situação e dos mesmos problemas.

Não é fácil? Concerteza que não e por isso mesmo é preciso arregaçar as mangas e começar a construir. Porque o tempo não pára mesmo que nós decidamos ficar parados no tempo.


(Lisboa. Num 1º de Maio. Foto de Edgar Cantante)

***

Para além dos equilíbrios no que é civilizacional e colectivo, há o individual que se soma e cria o outro. É por aí que se começa a construção e só cada um saberá do que mais necessita, que ingredientes lhe darão maior estabilidade. Por mim, frequentemente e creio que talvez desde sempre, encontro-o na Natureza. É ela que me ensina, permite a paz e garante energia para prosseguir. E prosseguir é inevitável já que desistir não podemos.

*

Temperatura amena e logo o campo a estender-se lânguido num torpor de preguiça. Não é preciso verbalizar para que a troca se dê. Sabendo ao que vamos a Natureza aceita e retribui.
A ribeira deslisa de mansinho, sem ruído, no cumprimento de missão ao encontro do seu destino. Artéria da Terra, corrente de vida.
Quanto mais nos afastamos das vozes que humanamente nos desconsideram afirmando desamor próprio de quem se perdeu de si próprio e tarda em encontrar o caminho de volta, melhor o silêncio reverbera no tambor da alma. E ela, de novo recupera o conforto langoroso do deleite.
Povoam-se, então, de afectos os espaços, preenchendo o vazio cerrado do olhar com lampejos de cor, ritmo e fantasia. Tudo se transforma em apaziguamento que compõe novos sons que entre si se harmonizam, integram e se completam em sinfonia sentimental.
Se as árvores nos acolhem em sombra e sossego e as aves nos desafiam nos trinados do seu canto emoldurando de imagens o momento, como recusar o convite das águas para com elas ir peregrinando o futuro? Não se recusa, vai-se pois já nos pesava a solidão.
Indo com as águas, sulcando-as, mergulhando e com elas nos fundindo, seguimos olhando. Margens que aconchegam sem abafar e uma outra música nasce e eleva-se.
Já se silenciaram as vozes iradas que solicitavam interlocução e percebe-se que este tempo é outro porque a dimensão é diferente. As coordenadas que a balizam alteraram-se. E sendo ainda nós na mesma e outra vez, ao alterarem-se as circunstâncias acedemos a outra esfera do sentir. Uma esfera mais desperta e receptiva. E é nessa nova ordem que sente e se pensa e disso faz registo.
A metamorfose da personalidade não é definitiva ou irreversível mas, declara-se possível e alternativa ao revelar-se. Percepciona-se assim a possibilidade de escolher. A possibilidade de mudar o registo e aceder a outras vozes e a outros lugares. 


Manuel João Croca


(A Ribeira da Seda em Cabeção. Foto de Joaquim Raminhos)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Fotografias com Música





"Interiores"
Fotografias de Lucas Rosa

Para ouvir as músicas clique nas fotos.