Luís Souta
Questionar a
escola
PERSPECTIVAS DA ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO
Outras razões
se podem avançar como explicativas para o não cumprimento da escolaridade
obrigatória de 12 anos. Com a crescente massificação na entrada, coube ao insucesso
escolar a função de manter a selectividade do sistema. A escola continuava fiel
à sua génese: «criada para desnivelar as diferenças entre seres humanos»
(Iturra, 1995:99). A instituição escolar não deu mostras de adaptabilidade à
heterogeneidade dos novos públicos, portadores de culturas e estilos de vida
bem distintos dos há muito dominantes no ensino. Exigiu-se, pelo contrário, a
descaracterização cultural dessas crianças e jovens. A assimilação era o
objectivo. A escola massificadora pautava-se por uma matriz estandardizada, unificadora
e de rejeição das diferenças, fossem elas de género, classe social, étnicas, religiosas,
linguísticas ou outras. Aos alunos exigia-se a aceitação do intocável modus vivendi
escolar. Nesta perspectiva, os saberes de que os alunos eram portadores eram
ignorados e depreciados, pois desconsiderava-se toda essa vivência exterior ao
aprendizado escolar. As relações com o meio e, em particular, com as famílias
eram evitadas. A escola fechada e centrada sobre si, auto-suficiente, era um
“bunker” para a transferência livresca do saber letrado, abstracto e
descontextualizado. No essencial, mantinha os traços fundadores e, naturalmente,
continuava a “produzir” um tipo de aluno – o homo scholaris – que,
também ele, não se distinguia das gerações precedentes. Hábitos, comportamentos
e valores reproduzem-se, num processo de ensino e aprendizagem marcados pela
continuidade e conservadorismo. De facto, a escola pouco tem mudado. O discurso
político, dos líderes pedagógicos ou dos reformistas vai-se alterando (ainda
que ao ritmo do “pêndulo oscilante”), mas a retórica e o texto legal não se
podem confundir com a realidade das práticas escolares, que a observação
participante e a literatura revelam como estáveis.
Reconhecer que também estes jovens eram portadores de um «capital cultural» e de formas próprias de entender e dar significado ao mundo real foi o princípio da mudança que ao respeitar a iden tidade do “outro” lhe atribui capacidades para um percurso de sucesso no seio escolar. Para tanto, a escola teria que repensar a sua escala de valores, abandonar a sua «cultura social de discriminação» (Afonso, 1998:272), legitimar um conjunto de saberes práticos que este tipo de alunos eram detentores e diversificar os métodos de ensino no sentido de uma maior individualização. Articular esses dois mundos – o escolar e o de origem dos alunos – passou a ser um objectivo de acção educativa, agora já numa lógica de «escolapara todos» a que, alguns, apelidam de «inclusiva». Os professores passam então a percepcionar o «meio» como uma recurso potenciador de aprendizagens significativas para os seus alunos e a ele recorrem como fonte de conhecimento, “laboratório” social e terreno pedagógico. Já Rui Grácio (1963:120-1) propunha:
Tal como o
exprime Telmo Caria «a etnografia cria condições para entender a cultura do
outro» (1999:27). A abordagem directa, personalizada e continuada junto das
populações permite conhecer as culturas em presença, na sua globalidade. O
conhecimento desses saberes particulares
possibilita a compreensão daquilo a que Raúl Iturra (1990) designa como a «memória
cultural» dos jovens estudantes, marcada pela genealogia, pelo local e pelasexperiências
do agir quotidiano. Na “posse” de tal conhecimento (que as histórias de vida mais
facilmente possibilitam), o professor saberá então articulá-la com a «memória
nacional», de que a escola é depositária. E deste modo o aluno deixa de ser
esse ente anónimo para passar a ser visto pelos professores como pessoa,
portadora de uma cultura. O desencontro entre o que e o como se ensina e o que e o como
aprende tende assim a ser minimizado. Utopia? Apenas o caminho que a
Antropologia da Educação tem vindo a desbravar.
Nota
1. “Elvira Leite. Tudo o que eles queriam era brincar na rua e uma sala para trabalhar”, Ípsilon, 25/08/2023, p. 8.
Referências
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