domingo, 5 de janeiro de 2014

 
 
 
 
OFERTA DE UM PEREGRINO QUE PASSOU POR MIM
 
Sentado sob a árvore e absorto nos meus pensamentos, fui resgatado à meditação pela voz irritada da funcionária municipal de limpeza, «chiça! que a merda da árvore parece que caga folhas».
Procurando encontrar a razão para a irritação da personagem, olhei na direcção da voz e percebi. Era Inverno, época em que as árvores de folha caduca perdem a folhagem, e a funcionária de limpeza pública tinha feito dois montes com as folhas caídas para as pôr no carro do lixo, quando uma nova rajada de vento fez cair da árvore mais uma enorme quantidade de folhas que pejaram o chão.
Aquela fora uma das causas apontadas pela edilidade, a par de que as raízes danificariam os esgotos, para, há algum tempo atrás, pretender abater a árvore, só não o tendo feito devido à mobilização de muitos moradores (entre os quais eu me incluí) que se opuseram a tal propósito, tendo mesmo organizado um abaixo-assinado em defesa da árvore.
Fiquei a observar as diligências da funcionária. Estava frio e de vez em quando sopravam umas rajadas de vento.
Estava nisto, quando vejo aproximar-se um homem que, num relance, tomei por um pedinte.
Aproximou-se e apesar do seu aspecto descuidado, percebi que não era pedinte nenhum. Era até alguém com qualquer coisa de especial.
As roupas eram bastante usadas e os sapatos velhos e gastos. O cabelo e a barba compridos, empastados, justificavam limpeza urgente e a intervenção de um barbeiro mas, algo no seu olhar indicava que não se tratava de nenhum “desgraçado”. O seu olhar era determinado mas polido e brilhante.
Cumprimentou-me, «bom-dia, pode dar-me um cigarro?», eu correspondi, «bom-dia como está, concerteza».
A conversa começou assim e discorreu a partir dali.
Perguntou-me porque observava com tanta atenção o trabalho da mulher e eu contei-lhe a história da árvore e ele perguntou, «gosta então de árvores?», «gosto. Muito.», respondi. Depois de dar umas fumaças no cigarro esfarelou-o entre os dedos e atirou-o fora. Olhei para ele interrogativamente. Apressou-se a responder «ah, eu não fumo pedi--lhe o cigarro só para meter conversa». O meu olhar intensificou-se e ele percebeu que a explicação era insuficiente. «Ao dirigir-me para aqui vi-o aí sentado, sozinho, ao frio e com este vento… achei estranho mas, talvez por isso mesmo, pareceu-me uma pessoa interessante e como ando à procura de situações interessantes dirigi-me a si para conversar um pouco. Espero que não leve a mal». Perguntei, «anda então à procura de situações interessantes, mas isso é alguma profissão?» Riu-se, «a profissão agora é desempregado. Era professor de filosofia, na situação de contratado, com os sucessivos cortes e remodelações fiquei nesta situação. Vivo com os meus pais mas a situação começou a ficar insustentável. Sempre a darem-me sugestões, para que emigrasse ou tentasse outra coisa, tanto esforço para nada, blá-blá-blá…, enfim saturei-me e decidi vir dar uma volta à procura das tais coisas interessantes, pensar na vida e no mundo e tentar encontrar uma saída», falou encolhendo os ombros. «Quer tomar alguma coisa?», que «só se for uma garrafa de água.»
Convidei-o a entrar no café do largo, e pedi duas garrafas de água.
«Então e donde é que é, de onde é que vem?», «sou de Vila Real (de Trás-os-Montes).  Decidi vir para sul e primeiro apanhei boleia de um camionista até Leiria, depois um outro trouxe-me até S. João da Talha, passei uns tempos em Lisboa e decidi continuar para sul. Apanhei o barco para o Barreiro e, durante a viagem, ouvi um grupo de jovens a falar desta terra e de uma Feira Medieval que iria decorrer, achei interessante e perguntei se essa terra era longe. Responderam que não e que se quisesse até me davam boleia, aceitei e cá estou eu. Sei que Feira começa hoje. Passei pelo recinto e parece-me ser uma coisa com alguma dimensão. E parece interessante, estou no sítio certo.»
O personagem era jovem – deveria andar na casa dos trinta e poucos – e confesso que gerava alguma empatia.
«Como é que se chama?», «Miguel, Miguel Torgal, acho que foi uma forma de o meu pai prestar homenagem ao poeta e escritor Miguel Torga de que era admirador, e você?», «eu sou José Paulo, e então, tem encontrado muitas coisas interessantes nesta sua aventura?», tirou a mochila que trazia a tiracolo, abriu-a e retirou de lá um livro. Percebi tratar-se de “A Educação de Portugal” de Agostinho da Silva, facto que me fez aumentar o interesse pelo personagem. «Grande homem», comentei. «Sem dúvida. Homem fascinante e cheio de sabedoria. Põe-nos a pensar, faz-nos pensar. É uma boa companhia.» Sorri e informei que infelizmente estava com pressa e tinha de me ir embora, talvez nos encontrássemos na Feira Medieval. «Tudo bem, se nos encontrarmos talvez possamos continuar a conversa mas, já agora e respondendo à sua pergunta, tenho deambulado, observado, lido e reflectido sobre vários assuntos e gostava de lhe oferecer uma coisa.» Retirou da mochila um papel dobrado em quatro e estendeu-mo, «está aí a súmula do que retive do que li, ouvi, vivi e observei desde que iniciei esta aventura. Veja e, se depois nos voltarmos a encontrar, talvez possamos falar sobre isso.» Agradeci e, já de saída, «foi um prazer, talvez nos encontremos mais logo», meti o papel no bolso e acelerei direito a casa.
Confesso que estava bastante curioso por desvendar o que o papel continha mas decidi que só o faria depois de despachar o que tinha para fazer (tratar do jantar), pois queria ver o que fosse com calma. Depois de tratar do que tinha de ser tratado, sentei-me no sofá e desdobrei o papel. Tinha escrito, numa letra equilibrada e elegante, aquilo que me pareceu um conjunto de princípios filosófico-orientadores. Eis o que dizia:
 
MANIFESTO PARA UMA VIDA FELIZ
 
1.    – O MELHOR DO MUNDO SÃO AS CRIANÇAS.
 
2.   – VESTIR UM LARGO SORRISO AO ACORDAR.
3.   – PARA QUE O COLHER SEJA UM DIREITO, O SEMEAR SERÁ UM DEVER.
4.   – DEDICAR UM MOMENTO DE CADA DIA AO CONTACTO COM A NATUREZA.
5.   DEVEMOS RESPEITAR A VIDA EM TODAS AS SUAS FORMAS.
6.   – FAZER COM QUE CADA DIA TENHA UM ACONTECIMENTO ESPECIAL.
7.   – NÃO SOMOS DONOS DO MUNDO SOMOS APENAS UM DOS SEUS OCUPANTES E, COMO TAL, DEVEREMOS RESPEITAR TODOS OS OUTROS.
8.   – DEVEMOS DAR A MELHOR ATENÇÃO AOS AMIGOS RECEBENDO E ACARINHANDO O CALOR QUE NOS TRANSMITEM. SÓ ASSIM O NOSSO CORAÇÃO SE MANTERÁ SEMPRE ANIMADO POR BATIDAS QUE NOS DÃO VIDA.
9.   – CADA UM É LIVRE DE SEGUIR O SEU CAMINHO DESDE QUE ISSO NÃO IMPEÇA O CAMINHO DO OUTRO.
10. – CADA UM DE NÓS É UM SER ESPECIAL E ÚNICO: QUE SEJA ESTE O PRIMEIRO PENSAMENTO DE CADA DIA!
11. 
12.   
 
Os números 11 e 12, em aberto, indicavam que o Manifesto, aquele Manifesto estava em construção e incompleto ainda, portanto e que, quase de certeza, não se ficaria pelos 12 pontos. Foi essa a impressão com que fiquei.
 


Manuel João Croca

sábado, 4 de janeiro de 2014

Medronheiro


por Miguel Boieiro

A tia Alzira herdou da casa paterna um velho alambique. Todos os anos ela ia às encostas do monte colher os medronhos que, após fermentados, seguiam para o alambique onde se destilava a famosa aguardente. A tia Alzira não bebe, apenas cheira, mas ficava felicíssima por oferecer a cada familiar uma garrafa de aguardente de medronho, fabricada artesanalmente pelas suas experientes mãos. Agora os achaques e a velhice não lhe permitem mais efectuar esse trabalho que, para ela, era uma espécie de missão. A verdade é que na chamada Zona do Pinhal (Centro de Portugal) os medronheiros são espontâneos, resistiram bem aos incêndios, mas ninguém se dá ao trabalho de apanhar os medronhos que, em catadupa, se esborracham no chão.

Quem já foi a Madrid, decerto se admirou com o emblema heráldico da cidade, constituído por uma ursa com as patas dianteiras apoiadas num medronheiro. Coisa curiosa, pois parece que os ursos se extinguiram na região por volta do século XI e os medronheiros não são ali espontâneos. Tecem-se várias conjecturas, mas ainda hoje não se conhece verdadeiramente o significado do escudo da faustosa cidade.

Postos estes dois parágrafos introdutórios, vamos então analisar as particularidades do Arbutus unedo L, arbusto rústico de crescimento lento, por vezes árvore, da família das ericáceas, originário dos litorais da Europa meridional, chegando a atingir as costas da Irlanda, porém aí com escassa frutificação.

O medronheiro possui um sistema radical potente, formando uma cepa grossa. O tronco tem casca pardo-avermelhada, gretada e escamosa. As suas folhas são persistentes, alternas, lanceoladas, dentadas, de verde-escuro lustroso, um pouco coriáceas e de pecíolo curto. As flores agrupam-se em ramalhetes terminais de cor branca levemente rosada em forma de campânulas viradas para baixo. Os frutos são bagas granulosas cilíndricas, comestíveis, algo verrugosas, de 20 a 25 mm de diâmetro, começando por ser verdes, depois amarelos, depois alaranjados e finalmente vermelhos quando maduros.

Os medronhos contêm açúcares, ácidos orgânicos, pectinas, taninos e vitamina C. São adstringentes quando não se encontram amadurecidos. Têm a particularidade de alcoolizar muito rapidamente, pelo que se aconselha a não ingerir grandes quantidades de repente. Parece, inclusive, que o termo latino unedo significa que convém comermos um medronho de cada vez para não ficarmos ébrios.
O medronheiro é muito apreciado como arbusto ornamental pois chega a ostentar, em simultâneo, os frutos e as flores, sendo estas destinadas à frutificação do ano seguinte. A madeira é densa, constituindo um bom combustível (carvão) e matéria-prima para ferramentas torneadas. Da aptidão dos frutos para confecionar aguardente já falámos, mas importa referir que também servem para fazer compotas e geleias.

As folhas do medronheiro são diuréticas, anti-sépticas das vias urinárias, sendo aplicadas para aliviar cistites, cálculos renais e disenterias.

Transcrevo, com a devida vénia, algumas mezinhas do curioso livro “Les Plantes Médicinales du Maroc” que adquiri, há alguns anos, em Marraquexe:

Diarreia – Decocção de 40 g das folhas num litro de água, ferver 10 minutos, filtrar, açucarar e beber. Este tratamento deve repartir-se por dois dias.

Cálculos urinários – Infusão de 20 g das folhas para um litro de água, deixando repousar 10 minutos. Beber uma chávena três vezes por dia em curas de três semanas que devem ser efetuadas várias vezes ao longo do ano.

Arteriosclerose – Maceração de 40 g das raízes secas cortadas em pequenos pedaços, num litro de água. Ferver em lume brando até que se evaporem dois terços do líquido. Deixar repousar e só filtrar no momento de beber. Deve-se tomar uma chávena em jejum durante três dias.

Quanto à famosa aguardente de medronho, bebida tóxica, como de resto todas as aguardentes, façam como eu. Aspirem apenas o seu delicado aroma frutado que faz crescer-água-na-boca e ativa as papilas gustativas. Vejam como se acelera de imediato o processo da digestão. Eis, só por si, um bom aperitivo e um óptimo digestivo!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 
 
D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
(3ª Série)
 
Luís da Silva Delgado
 
 
 


De um estudo da série “O Prado” saíu esta pequena tela a óleo de 20 x 25.

É uma pintura que ao olhar de alguns nada transmite, mas tudo depende do observador. Ele vê ou sente tudo aquilo que quiser ou entender.

Para mim ficarei pelo simples desenho e pela cor ténue de uma simples pintura.
 
 
 
 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Editorial


por Luís Santos



Este mês, no dia vinte e três, o “Estudo Geral” fará quatro anos de existência. Começa a ser um tempo de vida interessante para uma simples revista multimédia, em formato de blogue, que todo o santo dia vai insistindo em anunciar-se.

Nestes quatro anos, pela primeira vez, decidiu o nosso “Estudo” sair em editorial, e cá está ele.

Ao lembrarmos aqui o Rei D. Dinis, e logo por acréscimo a Rainha Santa Isabel, pois que foi ele o fundador de um outro Estudo Geral, pensamos sobretudo nele como “o plantador das naus a haver”, como sabiamente o designa Fernando Pessoa na sua Mensagem, caminho de poetas em terreno firme naquilo que é Portugal a renascer, e na história da Língua Portuguesa que foi, e vai, ao mundo.

Ou, quando Agostinho da Silva enquadra o seu culto popular do Espírito Santo numa Ilha dos Amores, não fora o velho do Restelo, é ainda da renascença portuguesa que se fala; tal como, naquela História do Futuro profetizada por Padre António Vieira, a partir de inspiração bíblica. Afinal, onde tudo se pode resumir a um Império de amor e serviço, valorizada que foi uma consciência cósmica, ou seja, aquele singelo momento sem tempo e nem espaço, em que se é, em que são todos.

O luso-brasileiro Agostinho da Silva que o tropicalista Gilberto Gil disse levar consigo em seu Ministério da Cultura do Brasil; tropicalista que Caetano Veloso também é.

Comemoram-se durante todo este ano, 2014, em Alhos Vedros, os 500 anos da atribuição da Carta de Foral. Em meados do próximo ano, 2015, terão passado 600 anos que D. João I, o Mestre de Avis, com todos seus filhos, a Ínclita Geração, e talvez mais o Condestável do Reino Santo Nuno Álvares Pereira, não interessa agora porquê, entre outros, para o bem e para o mal, deu o “tiro de partida” que iniciou a expansão ultramarina portuguesa. Ao que parece, terá sido ali no lugar do Cais Velho, no mesmo sítio em que se ergue ainda hoje o antigo Palacete dos Condes de Sampaio que, esperamos, possamos ajudar a preservar enquanto é tempo.

Por tudo isto estamos em festa e ficam desde já convidados.

Bem hajam.

Amém.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Tudo leva a crer que a refrega revolucionária passou e o país dá mostras de estar a entrar na normalidade da democracia, aparentemente, tendo atravessado a borrasca sem se desintegrar, ainda que o sobressalto tenha sido uma mudança de sociedade. Certo é que em Abril passado se realizaram as eleições para uma assembleia legislativa da qual emanou o primeiro governo constitucional que, por muitas que sejam as dificuldades, lá vai tomando conta dos assuntos públicos e das medidas que se impõem para que Portugal possa aceder ao patamar do mundo desenvolvido e, paralelamente, conseguindo com isso construir os mecanismos imprescindíveis a uma realidade baseada nos princípios da justiça social. Pelos vistos, a nossa comunidade, também ela, bolinou mais ou menos incólume em toda essa agitação e até foi capaz de dar conta da parte que lhe poderia caber no que toca a acolher os milhares de portugueses que a guerra civil em Angola e as independências forçaram a abandonar as antigas colónias e, por escassez de alternativas, a demandarem a metrópole em busca da reconstrução das vidas que, ao que se ouve dizer, na grande maioria dos casos, dramaticamente perderam. Demos trabalho a três famílias que para já se instalaram em casas pré-fabricadas que, no entanto, estão sendo substituídas por lares a sério numa ponta de terreno por detrás do bairro dos trabalhadores a que ficarão ligadas por uma rua entre o espaço devoluto e ajardinado que separa duas moradias da ala correspondente e onde, há muito, estavam edificadas as duas moradias que têm as vistas na direcção da estrada. Apesar deste movimento populacional repentino e massivo que, de uma maneira ou de outra, o tecido económico nacional terá que albergar e sustentar, há uma calmaria que se vai instalando ao tomar o lugar das marés vivas que invadiram as ruas e não sei porquê, estou confiante que daqui a uma dúzia de anos viveremos dias melhores e mais justos. Por isso penso que é melhor assim, em lado algum se viveu uma revolução permanente e ao mesmo tempo se criaram os meios que permitem redistribuir a riqueza gerada e as oportunidades para que os filhos dos mais pobres possam escolher o que acharem que é o melhor caminho para as suas vidas. Não sei muito bem o que possa ser o socialismo pois, pelo que se vai apurando, a verdade é que, pelo menos nestes últimos anos, com o movimento dos não alinhados, temos assistido à afirmação de vias alternativas, seja como for, pelo menos existem dois discursos distintos, um em torno do que podemos designar pela óptica comunista dos países socialistas, em crescendo de número no panorama mundial e o outro girando à volta dos partidos social-democratas e socialistas dos países da Europa Ocidental e do Norte, sendo ambos muitíssimo diferentes e correspondendo mesmo a modelos de sociedades antagónicas entre si. Com efeito, enquanto o primeiro se consolida numa economia estatizada e planificada onde a iniciativa privada e a propriedade foram praticamente banidas, depois de decretadas abolidas, o segundo, pelo contrário, conferindo especial atenção a estas que as leis protegem, alicerça-se plenamente na organização capitalista das actividades económicas que dessa maneira funcionam fora da alçada dos poderes políticos, à partida regulando-se pelas regras específicas dos mercados e apenas competindo ao estado agir no sentido de assegurar que tais entidades, particularmente as mais poderosas, não violem direitos daqueles que trabalham e simultaneamente controlar e gerir a repartição dos rendimentos globais que melhore a qualidade de vida em geral. Fico pois sem saber ao certo o que possa ser o socialismo uma vez que, mesmo descontando as perguntas de um lado e do outro, ao que parece, ambos têm atingido esse almejado nível de igualdade. Contudo, seja o que for, estou absolutamente convencida que o resultado do mesmo só pode ser medido, por um lado por uma situação de ausência de pobreza tal qual a conhecemos e da forma como se manifesta entre nós, portugueses e, por outro lado, pelo facto de os que por qualquer motivo não consigam abandonar o fundo da escala, terem, ainda assim, a possibilidade de verem os seus descendentes com acesso às mesmas chances que os outros, mais afortunados, para melhorarem as suas vidas. Fora disto não vejo que se possa falar de socialismo pois, pela simples acção da inércia, as desigualdades tendem inapelavelmente a impedir que os mais fracos possam ter e usufruir das oportunidades propícias à escolha livre de uma vida. Ora nós que por agora temos os principais sectores económicos nacionalizados, temos todas as condições para podermos organizar as coisas de maneira a alcançarmos tais objectivos. É então este o Portugal que a partir de amanhã abandonaremos para darmos início a uma viagem pelos diversos países europeus, com o propósito de visitarmos todos os pontos que, de acordo com os nossos interesses em geral, consideramos essenciais. Por causa disso, acabámos por ficar aqui até ao início deste novo ano; de acordo com a experiência que tivemos de visitar cidades a partir de Paris, para tanto utilizando a ferrovia, concluímos que teremos maior mobilidade, dado dispormos de todo o tempo que for preciso, se formos no nosso próprio meio de transporte. Matutámos e decidimo-nos por adquirir um furgão Volkswagen que nestes últimos meses, com a ajuda do Chico Sequeira que, apesar de há muito ter passado da sua posição de mecânico a dono de uma oficina e stand de peso e nomeada no ramo e na região, gosta destas coisas e ali deixou tamanho empenho e entusiasmo quanto o do meu amor que readaptou todo o interior como se de uma pequena roulotte se tratasse e pelo conforto e comodidades acrescentadas, do rádio ao leitor de cassetes para que tenhamos música, ao pequeno frigorífico e depósito de água para que tenhamos autonomia alimentar, sem esquecer a chauffagem para os dias frios, apesar de pouco entender destas coisas de automóveis, diria que fez ou melhor, diria que fizeram um bom trabalho.
O Vale da Esperança está mais lindo que nunca. Dá gosto ver as ruas limpinhas e todos os ajardinamentos tratados e decorados com flores que por ainda não ser Primavera permanecem em grande parte na latência das sementes e que tanto realce e perfume dão às fachadas das casas sempre arranjadinhas no que, aqui, na praça central, sobressai o casarão com os seus janelames e portadas antigas que o arvoredo que enverdece a colina e vai envolvendo a escadinha das nossas residências de piso térreo, embala ao sabor do vento. Da mesma maneira que é um encanto ruar pelo bairro dos trabalhadores onde os letreiros decorados dos serviços e uma ou outra loja que por ali abriram combinam tão bem com os vasos de flores que pintam as muradas baixas dos quintais. É tão fácil para as crianças seguirem até à escola que, nas traseiras do casarão, fica de frente para o centro médico com o seu espaço intercalar ordenado num parque de estacionamento a que os pinheiros mansos, ali plantados desde a primeira pedra, já vão conferindo sombra. Assim como é fácil seguir a pé ou de bicicleta para o trabalho. É tão bonito comprar o jornal da manhã e ter que dizer bom dia a rostos que se cruzam numa e noutra direcção, entrando por aqui e ali nas portas comerciais que estão abertas e a que um banco juntou um balcão e os correios um pequeno posto. E as actividades estão firmes, quer no domínio agrícola, quer no da agro-indústria que desenvolvemos quanto ao azeite e o tomate, ou o arroz e outros produtos alimentares, assim como nas cortiças expandimos as produções e abrimos outras unidades complementares e de suporte.
Sinto orgulho por ter contribuído para isto, sobretudo por isso me fazer sentir que a minha vida jamais terá sido em vão.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (61)

La Marriée, Marc Chagall, 1950
Guache e pastel, 68x53cm

A violência sobre um violino é uma violinência!
Sorriu? Ainda bem!
Vamos entrar o ano com um sorriso...
à saída, logo se vê! 

António Tapadinhas

domingo, 29 de dezembro de 2013

 
 
 
Nunca voltemos atrás
Tudo passou se passou
Livres amemos o tempo
Que ainda não começou
 
Agostinho da Silva
 
Mais um ano se aproxima do fim.
Que dizer do ano que agora finda?
 Muita coisa se pode dizer e, ao fazê-lo, discorrer como quem volta a percorrer os caminhos, ou então resumir procurando as palavras que possam condensar o que se viveu e sentiu e que, de uma forma ou de outra, ainda perdura.
A nível mais geral diria que foi um ano marcado pela grande ofensiva do capital financeiro que, recorrendo a um terrorismo social como me não recordo, vem implementando um estado de fascismo económico escondido atrás de uns enfeites que nos procuram vender como um tal liberalismo e com o qual nos deveríamos congratular por ser reflexo de uma sociedade desenvolvida e moderna já livre dos fantasmas socializantes ultrapassados e retrógrados. O cidadão não acredita, claro, até porque está cada vez mais, com «uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma», mas também não consegue atinar com a maneira de fazer parar o desvario selvagem de quem ocupa as cadeiras do “poder”. E seria bom que atinasse até porque a ofensiva veio para ficar e vai continuar se não por estes, pelos outros que com estes vêm alternando sem significativamente alterarem a música de fundo.
A nível mais pessoal diria que foi um ano em que se acentuaram situações de desconforto e se carregaram os tons do horizonte do futuro mais próximo. No intercâmbio humano com a tribo a que pertencemos acontecerem também algumas perdas irreparáveis por insubstituíveis.
A primeira das quais, naturalmente, a de Afonso que assim se chama o meu Pai.
Depois outros, próximos, que sentimos e percebemos que de nós se afastaram pelos caminhos da vida. Outros, porém, chegaram e por vezes suficientemente perto para podermos justificadamente esboçar a construção de algo em conjunto.
 
 E, entretanto, o tempo que nunca pára embora nem sempre se renove, pelo menos aparentemente.
 
O que mais desejo para 2014 é que, no plano social, consigamos o discernimento a arte e a habilidade para estancar o desvario e mudar o rumo e a toada.
 
A nível pessoal desejo poder ajudar com o meu contributo, para que colectivamente consigamos redesenhar um novo mapa com novas rotas onde cada um possa ter o seu espaço para caminhar sem pisar ninguém nem ser pisado e que as situações de desconforto possam ser neutralizadas e para que cada e todas as cores possam entrar na composição da paisagem na plenitude da sua matriz original.
 
E porque o meu Pai continua comigo nesta deriva, deixo-o aqui também para que o possam conhecer melhor um pouco.
 
AFONSO
 
De um imaculado silêncio
se eleva em memória clara
o teu legado mais profundo.
No deve e haver da vida
foste do Ser antes do ter
por ser mais ao teu jeito
e à tua medida.
O ter é breve e finito
só o Ser pode o desmesurado infinito.
Por isso tu foste, e és e serás
e juntos continuamos
enquanto em nós os caminhos não se acabarem.
 
Da tua família toda.
 



Manuel João Croca

sábado, 28 de dezembro de 2013

"Marcas nos Chãos", mais um livro de Leonel Coelho


Leonel Coelho, grande dirigente associativo em Alhos Vedros, aproveitando o dia da Festa dos seus oitenta anos convidou os amigos e lançou mais um livro, de seu nome "Marcas nos Chãos". Numa sala repleta de amigos coube a Dores Coelho, sua filha, a cuidada apresentação da obra que com a ajuda de outros familiares e amigos foi pintalgando com palavras algumas das suas passagens mais significativas. Trata este "Marcas nos Chãos" de um registo em tom etnográfico das múltiplas atividades, relações, alegrias e desvarios, próprios de pessoas, que viveram na região onde nasceu e cresceu o autor e seus ascendentes. Quadros de vida descritos por Leonel Coelho que vêm desde a sua infância e que correspondem a outras tantas marcas que ele trás mapeadas no rosto como nos é revelado pela oportuna capa do livro da autoria de Rafael Coelho, seu neto. Um lançamento de livro com sabor a uma ocasional homenagem, bem merecida, onde Leonel Coelho aproveitou também para relembrar o seu amigo José Afonso, em que a omnipresença da família se destacou em participação e onde a presença dos amigos não deixou de se fazer notar, enchendo por completo a velhinha sala da Academia.


Texto e Foto de Lucas Rosa


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 


avista em
o médico cirurgião
agarrado à parasitologia. 
  

Naquela casa,
onde já moram 164,
tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 27,7 milhões de visitas.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Poemas de Pedro Du Bois


ULTRAPASSAGEM

Ultrapasso
a mediocridade inerente
ao tempo: discorro
sobre o tema
           arbitro
sentenças e ouço na música
os compassos derradeiros.

Vergo a madeira
em extremo gesto.

A forma na conformação
              da hora ultrapassada
              em proezas. Ouço
              o recado e o apago.
 
(inédito)
 


VÍRUS

O vírus vive (morre) onde ataca. Destaca
a fragilidade aberta ao contato. Vivencia
o ato da disputa: o revés não o aniquila.
Feito paciente no horário determinado.
O corpo não permite ao vírus a entrada.
Cede no cansaço de anos de batalha.
O vírus permanece na oportunidade.
 


PAIXÃO

a paixão devora olhos e corações
de épocas e sentidos com que
passamos horas e dias frios
para chegarmos a esse tempo
e encontrarmos o vazio
de não havermos encontrado
a pronúncia exata das palavras
na maneira certa de dizer
estamos aqui e a paixão
permanece em nossos olhos
embaçados em lágrimas
de reconhecimento
como naquelas horas
e como serão em futuros
tempos de mãos entrelaçadas

chegamos sem esquecer e sobrecarregamos
a memória e as lembranças com as imagens
nas músicas em altos sons
       e perguntas presas
    em gargantas curtas
   de desejos e secura

a nossa história recortada em quadros
passados lentamente entre as lentes
dos óculos que usamos e nos servimos
para enxergamos o que não vimos cedo

estávamos cegos em blindagens jovens
e tínhamos a certeza de que as incertezas
seriam dos caminhos as trilhas e as armadilhas
que não nos pegariam na passagem

essa paixão extravasa a hora
fôssemos pessoas espiando
o lado de fora de cada um
meros espantalhos em hastes
de empregos e desesperanças
de que tudo termine logo após
o instante em que os corpos
se desencontrem

somos mais que paixões ardentes
dos dentes cravados das serpentes
ávidos pelo fim da história.
 
(Pedro Du Bois, inédito)
 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

MENSAGEM DE NATAL


É o poema declamado que nos convida à celebração do amor
no qual se resume o verdadeiro sentido do Natal.
Ouçam e vejam este meu último poema de Natal
em Poema da Semana aqui neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Mensagem_de_Natal/index.htm

DESEJOS DE BOAS FESTAS
Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia.
Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.euclidescavaco.com


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Definitivamente posso afirmar que me sinto como uma espécie de macaquinho que os miúdos tanto gostam de espreitar em Sete Rios. Vá lá que é mais do género da aldeia que, ainda que muitas vezes seja preferível mantermo-nos atrás das portas e postigos, a sensação das grades, apesar de tudo, não é a que mais avassala. Desde o princípio do ano passado que temos sido mais assiduamente visitados pelos mais variados tipos de gentes que aqui vêm, de uma maneira geral, para verem aquilo que lhes parece que é um mundo com uma maneira de viver diferente. Impressiona-me como é tão vulgar que se veja aquilo que se quer ver, como é tão natural que se observe e se interprete com os pressupostos e preconceitos que levamos connosco quando comunicamos com o que nos envolve e de tal maneira que, nos casos mais agudos, chegamos a olhar a realidade com quadros de modelos que construímos à anteriori e nem reparamos que os acabamos por confundir com aquela. Porque será isto tão corriqueiro entre o comum dos mortais? Pouco importa para o caso, a verdade é que temos visitas regulares de simples turistas da cidade que sentem curiosidade para ver como se pode viver no campo e ficam mais ou menos admirados e um tanto frustrados por não verem o que devem imaginar o que são casas medievais onde uns quantos rústicos continuassem a viver num misto de idade média e paraíso igualitário, mais ou menos colorido e aligeirado nos costumes consoante as idades dos forasteiros, isto, é bom de ver, para lá de toda a sorte de romarias que as mais variadas militâncias aqui descarregam aos fins-de-semana e que de vez em quando nos solicitam encontros de trabalho que, nesse capítulo por sempre partirem de entidades determinadas que se instalaram no tecido social e na economia do país, numa boa mão cheia de situações nos levaram a contactar tais interessados nesta nossa comunidade. Mesmo entre os mais esclarecidos me deparo com frequência com esse tal defeito de observação com a configuração da lente do que previamente pensamos a respeito delas. E só por isso apenas me cruzei pessoalmente com jovens idealistas ou arregimentados e portadores de um discurso mais que de uma vontade de ver e ouvir. Só tive um momento de dificuldade, quando uma jovem, vestida como se fosse uma velha dos campos, me quis convencer que nós temos a honra de representar aquilo que indubitavelmente, o advérbio foi ela que o aplicou, representa um verdadeiro exemplo de sucesso de uma experiência socialista. E para além de ser alegre e sorridentemente tratada por camarada, fiquei a saber que significo o futuro da Humanidade. Mas não é isso que diminui e muito menos inibe de me sentir um macaquinho de zoo e ainda mais perante o atípico antropólogo inglês que decidiu permanecer entre nós, pelo menos, ainda um outro ano mais. Num destes dias pediu que o recebesse e lhe concedesse uma entrevista para falar das minhas impressões a respeito dos primeiros anos desta aventura e as motivações que me levaram a juntar-me aos outros e para combinarmos novas conversas para apresentar os meus pontos de vista acerca da organização e evolução do sistema escolar que aqui instalámos. E não é que esse observador me surpreendeu quando depois de tergiversar em teorizações do que chamou de antropologia marxista, me confessou que tem em mente uma monografia que fará de nós uma espécie de aldeia comunitária dos tempos modernos e, com isso, nos apresentará como uma ilustração do que pode ser uma forma de economia e modo de vida alternativo ao capitalismo e à sociedade capitalista? E não tenho a certeza que ele tenha entendido o que lhe disse sobre a importância da ética num projecto destes. É que esta só pode ser entendida enquanto a consideração do discurso do outro –não porque tenham igual importância, a meu ver- no sentido em que devemos atender às diversas perspectivas que se estabeleçam em torno de um determinado problema. Sem isso jamais seremos capazes de escolher e ter um comportamento ético que é aquele que respeita o semelhante e procura estabelecer pontes que nos possam unir e permitir coexistir em paz e a capacidade de identificar e prosseguir objectivos comuns. A não ser assim, não teremos como obter o auto-consentimento sem o qual uma experiência destas só pode ser imposta e para que tenha sucesso, como a nossa vivência me autoriza a defender, depende da vontade de todos os envolvidos para que seja assim. Mas vamos a ver o que vai sair naquela monografia.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (60)

Centro Comercial, António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela, 80x100

No momento que comecei a escrever estas palavras faltavam 3 dias, 12 horas, 04 minutos e 02 segundos, para o Natal! Sei isto, porque tenho no computador um relógio enviado por um amigo, que está a fazer a sua contagem decrescente. 
Em Portugal, o comércio em geral irá facturar montantes aproximados ao total dos restantes onze meses do ano.
Todas as novidades aparecem nesta altura e as campanhas publicitárias são tão arrasadoras que não dão tréguas em nenhum sector da nossa sociedade. Esta data, agrava a tendência para fazermos as coisas como autómatos. Alguém anda a programar a nossa vida sem nos dizer nada: vamos para o trabalho à mesma hora, comemos e dormimos ao mesmo tempo. E agora, aquilo que nos interessa, fazemos as compras no mesmo mês do ano, com tendência para ser na mesma semana e, com o passar do tempo, no mesmo dia: o último...
A Teoria da Evolução, de Darwin, afirma que as espécies animais existentes na Terra, sofrem ao longo das gerações, uma modificação gradual que põe em evidência a selecção natural. Na luta pela sobrevivência, os mais bem adaptados são os que deixam mais descendentes.
Um Centro Comercial, no Natal, ou na altura dos saldos, é um espaço cheio de cor, de luzes berrantes, de homens e crianças berrantes, distribuído por diversos pisos, em que as pessoas se atropelam para chegar primeiro, chegar mais alto, lá no cimo da prateleira, onde está aquele brinquedo que ainda ninguém viu, onde está aquela folha verde, jovem, tenrinha e suculenta, a que só a girafa com o seu pescoço imenso poderá chegar...
Da conjugação destes dois conceitos tão diferentes, Centro Comercial e Teoria de Darwin, nasceu esta obra. Espero que gostem dela, porque apesar de tudo, 
EU ADORO O NATAL!


PS. Não se esqueçam de ser felizes... todos os dias!


domingo, 22 de dezembro de 2013




Neste tempo de Natal que mais uma vez se aproxima, continua a haver muitos excluídos, muita gente privada das mais elementares condições de conforto e subsistência. 
E poderia não ser assim, deveria não ser assim mas, como dizia o Gedeão, «enquanto tudo isso acontecer e o mais que se não diz por ser verdade o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!»


PRESENÇA DE DEUS EM MIM

 

Todo um silêncio

em derredor
apenas penetrado pelo som
da própria voz
ou pensamento.

Aí a minha mágoa
– toda feita doçura –
nasce algures
em um lugar
impreciso
entre alma
e consciência.

Nasce
exactamente
onde se encontra
a si própria
face a face
e se reconhece.

Mais a consciência
do chão
de onde levanta
voo
e cresce.





Desejo a todos os meus Amigos e Amigas um Natal Feliz.