quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Versículos


(Amor)
Um grande amor É!


Luís Santos

(Sonho) 
Os sonhos
são outros mistérios
formas de ser
momento de vida.
Etéreos.
Linguagem dos pássaros.


(Permanência)
Delicada atenção
Provas de amor
Cuidados como pérolas
Testemunhos de eternidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

OLÁ INVERNO!

Peguemos então em duas das perguntas que fizemos num artigo anterior. Comecemos pelas seguintes:
As associações de pais têm algum papel a desempenhar na vida escolar? Tais organismos podem produzir contributos benéficos para a vida escolar? 
As respostas são positivas e não é muito difícil encontrarmos argumentos que o sustentem. 
Desde logo pelo facto de os pais serem os primeiros responsáveis pela educação dos filhos, não é? 
Por muito que se objecte que as famílias já não são as únicas responsáveis pela socialização e enculturação dos seus filhos, ainda que se diga que repartem esses papéis com outros elementos das sociedades de que a escola, os grupos de amigos ou a televisão são elementos corriqueiros, como também, em tal co-responsabilidade, acabam por ter o prato mais leve da balança, sem embargo de tudo isso, a verdade é que os pais têm o dever de zelar pela educação dos filhos e isso significa que devem estar conscientes de que a transmissão de certos valores e regras de conduta parte, em primeiríssimo lugar, deles e só deles, o que traz implícito a permanência de uma atitude de acompanhamento para que haja sempre uma porta aberta ao aconselhamento ou à crítica e repreensão, se for esse o caso. 
Em conformidade, só pelo facto de eventualmente propiciar uma maior aproximação entre os progenitores e a realidade escolar, as associações de pais desempenham uma função positiva. Conhecer o meio onde alguém se move é um modo de se lhe estar próximo e há dados empíricos que provam que tais alunos, de maneira geral, têm comportamentos mais adequados para com a escola e o acto de aprender. 
Daqui resulta que a participação das associações de pais na gestão das escolas pode ter proveitos no que diz respeito à disciplina e à implementação de regras de boa conduta nos estabelecimentos de ensino. 
Não sendo tudo, não é, de modo algum, um contributo despiciendo. 
Fora disso e focando a lente na experiência da Associação de Pais da Escola Básica nº. 1 de Alhos Vedros, verificamos que um tal corpo jurídico tanto pode colaborar na identificação das lacunas nas condições de trabalho e vivência da população escolar, como funcionar como mais um parceiro de diálogo e de pressão para que surjam as respostas por quem de direito. 
Pois foi isso que sucedeu no contexto daquela cooperação de que saíram vários melhorismos como, por exemplo, obras que vinham sendo adiadas e se revelavam necessárias, tais como a reparação dos telhados e das janelas, ou os arranjos do recreio e dos canteiros em que se eliminaram falhas de segurança, mas também poderíamos acrescentar a troca do mobiliário ou as lombas e a sinalização que vieram abrandar certas velocidades incivilizadas que punham em risco físico as crianças que saíam pelo portão. 
Bem, estes motivos, digamos assim, egoístas, são suficientes para defendermos a existência das associações de pais. Contudo, existem outros de ordem colectiva, de que vamos apenas citar um. 
As escolas públicas são pagas com os dinheiros dos impostos pelo que nos diz respeito as aplicações que daqueles se façam. 
Ora com tudo isto está resolvida a primeira pergunta: vale a pena que os pais se envolvam no associativismo escolar? 
Claro que sim. 
Depois não poderemos olvidar que se pretendemos criar uma civilização de cidadania, então não nos devemos furtar às oportunidades para a intervenção cívica. 

Será este o segundo de uma série de artigos que conto publicar no jornal “O Rio” a propósito da associação de pais para o agrupamento vertical. 
Há que lançar a discussão em torno do objectivo de sabermos como é que aquela se comporá e de propostas a respeito do modo de funcionamento. 



Mal vai o mundo nesta quadra de natal. 

Os europeus continuam anestesiados pela crise económica que teima em fazer finca pé na economia alemã que parece não ter ainda recuperado do choque de integração da ex-RDA e mais recentemente do que resultou da adopção da moeda única europeia o que, pelo efeito de arrastamento, afecta os parceiros da União e gera um clima psicológico de pouca confiança e incerteza perante a crescente globalização dos mercados. 
Como praticamente não contam em poderio geo-estratégico pois, para tanto, não dispõem das necessárias forças militares, deixam que os discursos mais radicais proliferem e que os integrismos não só se mantenham de pedra e cal em algumas partes do mundo, como ainda se instalem no interior das demografias que habitam este espaço. Em França, por exemplo, está convocada uma manifestação de mulheres muçulmanas a favor do uso do véu nas escolas públicas. Alguém acredita que os mullahs não estão por detrás disto? 
Ora acontece que o futuro reclama que os ocidentais falem a uma só voz. 
Do ponto de vista do perigo que representa para a paz mundial e a própria Humanidade, o terrorismo da Al-Q aeda é uma ameaça semelhante ao nazismo e já declarou a guerra mundial que hoje em dia presenciamos. 

Será que assistiremos ao grito de vitória de fanáticos sobre um monte de cinzas? 
Enfim… 

E só assim se compreende que o Iraque continue a ser palco de um esforço dos aliados sem o empenho das Nações Unidas e da larga maioria das nações amigas. 



Ena, ontem, na festa da catequese, a Margarida participou num coro da sua classe que interpretou canções de natal. 
A restante família aplaudiu com um sorriso na boca. 

Agora que as amigas brincam na sala, o pai põe as letras em dia. 

Ainda há pouco, na Matriz da Vila, eu e a mãe escutámos um recital do coro da “Vélhinha”. 



O Inverno começa nevoento. 


 Alhos Vedros 
   21/12/2003

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (237)



As Árvores Vermelhas, Autor António Tapadinhas
 Óleo sobre Tela 50x40cm

Para provar o grau de simplicidade, que era um dos seus objectivos na pintura fauve, Matisse tentou convencer um amigo e companheiro de pintura, que um quadro criado por si (Cebolas cor-de-rosa, 1906), era de autoria do carteiro da vila. Ele não conseguiu convencer o amigo, como talvez eu não os conseguisse convencer de que estas árvores foram pintadas pelo meu neto.
Mas podem acreditar que a tinta gasta nesta tela, usada com parcimónia, daria para fazer uma centena, tal a quantidade que usei para conseguir o relevo, a textura e a profundidade que tinha planeado. 
Espero não ser traído pela qualidade da fotografia, para que possam apreciar a violência suave das cores…

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 7 de janeiro de 2017

Anjos à Solta ou "Elegância Bizarra"


ANJOS À SOLTA ou ‘Elegância Bizarra’
sobre o último livro de Luís Souta
por José Gil
«Toda a criança é um artista,
o problema é manter-se como artista depois de ter crescido»
Pablo Picasso

COMO CARTA CONFECCIONAL

«Contar histórias é transformar a vida na brincadeira mais séria»
Augusto Cury, 2004


Comprei este livro de Luís Souta Bichos à Solta, no início de Janeiro de 2017, para o oferecer à minha neta Caetana ainda muito nova para estas narrativas mas certamente impressionável pelas belas ilustrações da Constança e Lionor Dupic.

Livro bonito em A4 horizontal com uma capa e um miolo muito interessante na "mancha" comum aos designers contemporâneos. Sublinho a qualidade da capa, a modernidade da estampagem, das colagens e das ilustrações interiores nos 25 postais. Cores vivas e traço rigoroso a partir de imagens de animais ou muros tão em falta nas ilustrações de livros infantis. Aponto ainda uma influência de Picasso e o seu menino.
Parabéns Constança e Lionor.

O aspecto que mais pode seduzir a minha neta são as imagens e “há que ter em conta sempre que a imagem gráfica é anterior à escrita (Joan Costa, Design para os Olhos, Dinalivro, 2011).
Perfeição técnica fascínio visual como o flamingo. Citando novamente o autor de Design para os Olhos “a perceção icónica radicalmente diferente da perceção  textual”.
Por isso não o outro do mesmo mas o outro do outro.
Há um corpo narrativo. E um corpo gráfico que cria novas relações com o leitor sujeito de uma segunda ou terceira leitura.

Parece-me numa primeira leitura que são 25 textos simples para a minha filha Cristina, a mãe de Caetana. Postais/cartas escritos ao longo de 15 anos e assinados por golfinhos ou outros bichos como narradores/autor.

A designação "Juvenil" logo nas primeiras páginas afasta-o da "infantilidade" de certa literatura auto nomeada para crianças e situa-o numa faixa etária da juventude aos adultos.

Livro para todos comunitário. Desenhos e textos a ser com prazer “lidos” de formas diferentes por cada faixa etária em diferentes leituras ao longo da vida. Livro para guardar.
Celebração da natureza.

«A natureza e a ecologia interessam
intuitivamente às crianças»
CAPICUA
(ana matos fernandes)

Por outro lado - Lição de Como Ilustrar no nosso tempo com criatividade, domínio do ofício gráfico-digital, mas ainda mais me admirou a noção presente de teatralidade, corpos de animais em planos de cores quentes e frias num palco de personagens desenhadas em duas dimensões.
Design artístico para textos com luz e sombras. Brilhante cenógrafa, Lionor. E inclui planos e ritmos de linhas e cores, como no teatro plano sobre plano.

O livro publicado na Sitio do Livro, Edições Virgula, constitui na "Palavra Prévia" do autor e no belo prefácio de Paulo Borges uma leitura amadurecida o que se volta a sentir nos dois últimos Postais para uma Constança já maior e com outras preocupações para além dos bichos.

Anjos bichos ou bichos anjos em salvação de um meio ambiente poluído e destruído. Será que os animais sofrem como ou mais que nós? E pensam? E têm uma vida espiritual?
Que a natureza dos bichos e a nossa nas suas biodiversidades com o mundo vegetal se unam por um século diferente.

Anjos de uma "elegância bizarra" como a narrativa das histórias dos diversos postais (diria quase cartas confeccionais, pai-filha em crescimento). Quantas semelhanças tem a inocência da natureza e nos animais que os assemelha às imagens dos anjos de grandes desenhadores e pintores.

Volatilidade das "coisas" belas e inocentes como os golfinhos ou flamingos na espuma da defesa da natureza - direito à biodiversidade.
Uma preocupação social e ambiental "Unir a Humanidade pela defesa do Ambiente" e dos animais retratada na Declaração Final - "Declaração Universal dos Direitos dos Animais".

O discurso situa-se quase sempre nas "águas transparentes", o remetente pode ser um roaz do Sado ou outro bicho como múltiplas personagens ou heterónimos da fala do Pai, o espaço marítimo raramente em terra (Setúbal, Tróia, Alcácer), Cascais (Pai do Vento) ou das ilhas e Arquipélagos, de Espanha, América e Canadá.

Até à pagina 42 centra-se nos Golfinhos e Roazes e depois o Cavalo («Estou convicto que agora tens dois amores: equídeos e delfins»)... e também os hamsters, os esquilos, os flamingos, as cegonhas-brancas.
O autor num conjunto de Postais Ilustrados escreve a sua filha os comportamentos dos animais que vê, observa, e os seus envolventes ambientais, geralmente, mar, terra, ar.

Muito bem escrito numa ortografia antiga, anterior ao "Acordo", claro, coerente, cristalino ao longo de vários anos de diálogo desenvolvido por dias de celebração, citamos alguns:
Dia da Criança, p. 16
Dia dos Avós, p. 20
Dia Internacional da Dança, p. 28
Dia Mundial para a Preservação da Camada de Ozono, p. 34
Dia Mundial da Paz, p. 36
Dia Mundial do Ambiente, p. 42
Dia Mundial do Professor, p. 46
Dia Mundial da Água, p. 48
Dia Mundial do Teatro, p. 50
Dia Universal dos Direitos da Infância, p. 52
Dia Internacional da Família, p. 60
Dia da Paz e da Compreensão Mundial, p. 68.

A sublinhar destes dias a coerência dos temas, criança, infância, avós, família, professor, paz ou dança, teatro ou Ambiente, Água, Camada de Ozono,… Outros clusters de temas relacionados com os vectores do livro podíamos encontrar, pai filha ou filhas, livro infância criança, dança-teatro ilustrações.

Não posso terminar sem referir a quantidade e qualidade de notas de rodapé para um leitor mais entusiasmado nos Bichos e na Literatura e uma citação que é, como diz o autor, um Princípio de Vida digo eu como escreveu Goethe ler/viver/escrever "sem pressas e sem pausas". Grato, Luís.
Uma última palavra sobre o título o sublinhado de Bichos e não animais à solta. O universo de Miguel Torga e os seus bichos na ilustração do livro como um todo texto-imagem.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pitágoras, a sua Escola e os "Versos de Oiro"


por José Flórido
1/4/2017

 "Tal como o íman atrai o ferro, também os nossos pensamentos e os nossos atos atraem a resposta divina" (Pitágoras)

     Pitágoras nasceu na ilha jónica de Samos, por volta de 570 a. C. , tendo fundado em Croton, na Itália meridional, uma escola célebre, de carácter filosófico, religioso e político, onde floresceram as Ciências Matemáticas, a Música e a Astrologia, mas a disciplina do silêncio, o ascetismo, assim como a meditação e a contemplação, também faziam parte integrante do seu método de ensino.

    Diz-se que esteve no Egito e na Babilónia, onde adquiriu muito do seu saber. No Egito, estudou profundamente as Matemáticas sagradas, a ciência dos números ou dos princípios universais, que lhe permitiram compreender a involução do espírito na matéria e a sua evolução para a Unidade. As doutrinas dos outros filósofos, como Tales e Anaxandro, pareceram a Pitágoras contraditórias, levando-o, por isso, a procurar a síntese e a unidade. Considerou a existência de uma Lei Ternária, que rege a constituição do Cosmos, e de uma Lei Septenária, que preside ao seu desenvolvimento (e que se pode expressar através das sete notas musicais).

   O objetivo da escola de Pitágoras não era propriamente ensinar a Ciência esotérica a um círculo de discípulos escolhidos, mas, principalmente, aplicá-la à educação da juventude e à vida do Estado. Nesta escola, só aqueles que eram designados Mestres podiam ensinar as Ciências físicas, psíquicas e religiosas, sendo os jovens admitidos às lições dos Mestres e aos diversos graus de Iniciação, de acordo com a sua inteligência e boa vontade. Mas a aceitação dos noviços era difícil, porque Pitágoras impunha muitas restrições à sua entrada, dizendo que nem toda a madeira servia para fabricar a estátua de um deus. Porém, uma vez admitido, o noviço era convidado pelos outros jovens a participar nas conversas, onde acabava sempre por revelar o seu caráter e a sua verdadeira natureza. Pitágoras observava-o então de modo indireto. Estudava os seus gestos e as suas palavras, dando especial importância à sua maneira de rir, porque considerava o riso a revelação mais profunda da alma. O discípulo tinha então de se submeter a duras provas para se decidir da sua continuidade na escola. Uma dessas provas consistia em passar uma noite absolumente só numa caverna, onde se dizia que surgiam aparições aterradoras. Aqueles que não tinham coragem para suportar essa prova eram considerados demasiamente fracos e tinham de desistir. Outras vezes, após um dia de meditação sobre o significado de um determinado símbolo, o noviço entrava no círculo dos outros discípulos que lhe faziam perguntas a que ele não sabia ou que dificilmente era capaz de responder. Pitágoras observava de perto as suas reações. Se ele se enfurecia, era imediatamente eliminado da escola; mas, se, pelo contrário, era capaz de manter a calma e respondia com humildade e sensatez, dispondo-se a repetir tantas vezes a mesma experiência quantas fosse necessário para adquirir o conhecimento que lhe faltava, era felicitado pelos seus companheiros e poderia prosseguir na aprendizagem.

     Os VERSOS DE OIRO continham os princípios básicos do ensinamento pitagórico. De manhã até à noite, soavam aos ouvidos dos discípulos:

VERSOS DE OIRO DE PITÁGORAS
(Versão de Felix Bermudes (?))

Preparação  

Presta a Deus imortal o culto consagrado;
Conserva a tua fé; dos vultos do passado,
Ou santos ou heróis, louva a divina ação.

Purificação

Sê bom filho e bom pai; sê justo como irmão,
Amável como esposo; escolhe como amigo
Aquele que tiver luz para repartir contigo
E dê conselhos bons que o porte não desminta.

Se o fogo das paixões for cinza nele extinta,
Imita o seu exemplo, escuta o seu conselho,
Sê tu, para o refletir, um voluntário espelho;
Jamais te afastes dele por fútil discrepância;
Enjaula dentro em ti a fera da arrogância.

Sê sóbrio, ativo e casto; evita a irritação;
À raiva fecha a alma, ao ódio o coração.
Em público ou privado, o mal jamais pratiques;
E a quem te der lições, escuta e não critiques.
Respeita-te a ti próprio; o sábio verdadeiro
Nada diz, nada faz, sem refletir primeiro.

Sê justo. As más ações são catacumbas frias
Para sepultar, na morte, os bens e as honrarias;
Toda a riqueza é vã se foi contra um dever;
O fácil de ganhar é fácil de perder.
O cálix da amargura imposto pela sorte
Aceita-o, resignado. Ele te fará mais forte.
Em mil fiéis ao erro, um só busca a verdade;
Mas Deus protege o sábio e livra-o da maldade.

O filósofo aprova ou condena sem tédio
E onde encontra o erro incapaz de remédio,
Afasta-se e espera. "Afasta-se e espera!"
Grava bem esta lei. Medita-a, considera
Quanta inútil pendência ele pode evitar-te.

Com todos sê cortês; sê nobre em toda a parte.
Não dês exemplos maus; nem os sigas tão-pouco; 
Agir sem fim nem causa é proceder de louco.
Olhos e ouvidos cerra a todo o preconceito,
A todo o fanatismo ou julgamento feito
Preconcebidamente e só por teimosia;
Seja tua e só tua a razão que te guia.

Não pretendas fazer o que a tua ignorância
Não permitir. O tempo, a atenção e a constância 
Hão de trazer-te um dia o poder que te falta.
​Aprende a servir, eis a ambição mais alta
Que deve nortear a tua vida inteira.

Cuida bem do teu corpo, o trabalho aligeira
Quando ele se queixar, mas não lhe satisfaças 
Apetites boçais. As dores e as desgraças
Começam quando o corpo ordena mais que a alma;
Se o serves uma vez, já nunca mais se acalma.

Do luxo e da avareza os modos são iguais.
Diferentes na aparência, irmãos em tudo o mais.
Procura encontrar sempre o justo meio termo,
Pois nunca o corpo é são, estando o mental enfermo.

Formula ao despertar o teu programa honesto
E nunca para amanhã deixes ficar um resto.

Perfeição 

Antes de adormeceres, repassa no mental
As ações que fizeste, ou para bem ou para mal.
Não repitas as más, insiste só nas boas.
Estende a compaixão aos brutos e às pessoas.
E a cada novo esforço, a cada prova rude,
Acenderás em ti a luz de uma virtude.

Assim sublimarás a Tétrada sagrada,
A tua quaternária e cósmica morada,
Alma, espírito e corpo - um embrião de Deus.

Procura com fervor abrir os olhos teus
À luz que vem do Olimpo. O teu amor é vão
Se o Céu não te cobrir da sua proteção.
Só Ele pode acabar as obras que começas
E dar-te, para o bem, o auxílio que lhe peças.

Estuda a natureza, aprende a lei sublime
Que rege a imensidade e que à matéria imprime
A vida universal. Perante estudos sérios
Abrem-se a pouco e pouco a porta dos Mistérios.

Então descobrirás a luz do teu destino
Que, por sublime Amor do nosso Pai divino,
Te chama a colaborar no Plano do Universo
Com Deuses, de quem tu és "Uno - mas Diverso".

Então, desprezarás todo o desejo fútil.
Verás que o sofrimento é criação inútil
Dos erros e do vício e da maldade crua.
O homem vive e morre a procurar um bem
Sem nunca reparar no bem que em si contém.

Quem não souber ser bom não sabe ser feliz;
É náufrago num mar de praias sempre hostis,
E entre o fraguedo atroz que a riba lhe apresenta,
Não pode resistir nem ceder à tormenta
Porque não descobriu que transporta consigo
Um farol para o guiar a salvamento e abrigo.

Por entre os vendavais dessa jornada ignota,
Tem cada qual de abrir a sua própria rota.
Uma estirpe divina impõe à humanidade
Buscar no mar do erro o porto da verdade.
A Natureza ajuda o homem no caminho,
Nunca o desamparou, nunca o deixou sozinho.

Homem sábio, homem bom, tu que já penetraste
​Os mistérios da vida e meditaste o contraste
Entre o Bem e o Mal, concentra-te um momento
E medita que Deus, ao dar-te o pensamento
E muitos outros dons que refletem os Seus,
Fez-te um Ser Imortal, porque és tu próprio um deus!

in, 
http://joseflorido.weebly.com

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ALEXITEMIA



pelo litoral limite da praia azul
emocionalmente mudo
corro sobre a alma, voo,escrevendo
sem nada escrever 

estou na folha da confusão, amo-te
e espero imóvel a crise do sentimento
um azul projectado no infinito da baixa de cascais, primeira praia da manhã do primeiro dia do ano novo, vejo-te da janela da mesa onde escrevo em filigrana a minha febre

faltam-me as palavras na sua fuga
perdem o tampo da mesa de madeira dura, já há muito que não falo.

24-12-2016
José Gil


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A AVALIAÇÃO

É tão bom chegar a casa para almoçar e ver os meus amorzinhos brincando, serenamente, no aproveitamento de umas férias que tanto têm de bem-vindas como de merecidas. 
E o beijinho que se segue ao “-Olá, pai!” é tão doce, tão cheio de encantamento que eu, comparado com o tamanho da alegria que sobre mim cai, fico tão pequenino. 

Olho à minha volta e estou no Paraíso. 



Paraíso que infelizmente os homens teimam em não reconhecer neste rochedo cósmico que deveriam, permanente e humildemente, Agradecer. 


Pena que o país não partilhe o meu estado de alma, mas a verdade é que Portugal atravessa aquela que é a maior crise dos últimos vinte e cinco anos. 
Hoje ficámos a saber que o estado já não consegue cobrar os impostos dos contribuintes em falta pelo que entregou a colecta a uma seguradora, a “Sagres” que, garantindo uma cobrança mínima, procurará, a partir daí, executar o máximo de dívidas que totalizam milhares de milhões de euros. 
Isto é, a máquina fiscal revela-se impotente para cumprir as suas obrigações. Deste modo, a injustiça que a este nível se verifica permanecerá; pagam os que não têm qualquer forma de se furtar ao fisco e, com isso, são os trabalhadores por conta de outrem quem suporta as despesas correntes do estado. 

É pois natural que a justiça seja o que é. Um sistema em que as habilidades legais permitem que os poderosos se subtraiam às consequências de violarem a lei. Entre nós, o estado de direito é uma figura retórica. 

E o desemprego crescendo ao mesmo tempo que a economia não cresce e o investimento decresce. 


Está na hora dos cidadãos comuns começarem a expressar as suas preocupações e avançarem as suas sugestões e depois pressionarem quem decide a implementar as soluções para os problemas que nos inquietam. 
Basta que se constituam movimentos de contribuintes dispostos a encontrarem-se para discutir a sociedade portuguesa actual e proporem políticas e medidas que tenham em vista o propósito do necessário desenvolvimento entre os portugueses. Agrupando-se, os cidadãos poderão constituir o seu próprio lóbi. A imaginação tratará de identificar as expressões que a actuação do mesmo pode ter. 

Uma coisa é certa. A democracia em Portugal está bloqueada. 
Todo o bloco central está subjugado a poderes fáticos mais ou menos esconsos que impõem as suas conveniências e por isso condicionam a capacidade do poder de estado prosseguir políticas que tenham em vista o interesse público e o bem comum. 



Os europeus preparam-se para fazer descer uma sonda em Marte. Chama-se Beagle 2, em homenagem ao navio em que Charles Darwin fez a sua grande viagem durante a qual recolheu os elementos que mais tarde lhe permitiram sustentar as ideias que deram corpo à sua teoria da evolução das espécies. 
Se tudo correr bem, brevemente teremos mais dados sobre a superfície rochosa marciana e as possibilidades de algum dia ter existido água no estado líquido ou os vestígios de alguma vez ter aí acontecido o fenómeno Vida. 

Estranha espécie a nossa, capaz de sonhar o Infinito e tão perto da morte. 



A leitura de Amartya Sen é bastante instrutiva. Chama-nos a atenção para uma perspectiva de desenvolvimento que não cabe nas teorias econométricas que se baseiam no aumento dos rendimentos. 

E ao destacar vectores como a educação e a saúde, lança luz sobre as razões das incapacidades estruturais que na sociedade portuguesa impedem a nossa aproximação ao lado certo do mundo. 

Para continuar a ler com toda a atenção. 



Mas eu devo confessar a dupla emoção que tive, neste fim de tarde, com as novidades das avaliações das minhas filhas. 

Tanto uma como outra com todos os exercícios certos e sem correcções. No caso da Margarida, apenas com um número trocado numa das provas de Matemática e um tempo verbal alterado numa composição. De resto, às letrinhas e aos números tão bem grafados pelos meus amores e, no caso da Matilde, também aos desenhos e às ilustrações, nada mais se via que o vermelho da esferográfica com que as Mestras assinalaram o acerto das respostas. 

É indescritível a alegria que senti. 

Em conformidade, os registos de avaliação não poderiam ser melhores. 

A Matilde teve bom nos parâmetros de Língua Portuguesa e Estudo do Meio em que foi avaliada e suficiente nas expressões artística e motora. Quanto à componente da formação cívica, revela uma participação positiva na aula, com sentido de responsabilidade e sentido crítico e de respeito pelas regras de convivência. 
Segundo a Professora, é bem comportada; está atenta e aplica-se nas realizações que lhe são solicitadas. Além disso é prestável e simpática e cordial.
Agora vou transcrever a apreciação global: 
“A aluna conhece as palavras-chave dadas. (menina, menino, sapato, bota) 
Escreve e lê palavras novas formadas com as sílabas dadas. 
Copia de letra de imprensa para letra manuscrita. 
Em Matemática identifica os números até 5. Faz contagens progressivas e regressivas. 
Adquiriu as noções dadas.” 

“-É pardalito, parabéns filha. O pai ficou todo satisfeito e orgulhoso.” –Por entre um amplexo salpicado de beijos. “-Mas ainda fiquei mais contente por a Professora ter dito à mãe que tu te portas bem que estás com atenção e fazes os trabalhos como deve ser. Assim é que é, pardalito. O pai ficou todo satisfeito.” –Num abraço que chega até à alma. 


A Margarida teve muito bom em todos os parâmetros. Quanto ao comportamento nada a dizer. 
Escreveu a Professora: 
“A Margarida é uma criança interessada, atenta, participativa e procura saber sempre mais. A sua evolução, ao longo do período, foi muito positiva, atingindo plenamente os objectivos propostos em todas as áreas.” 

“-Uau, piolhito. O pai até ficou emocionado ao ver as tuas fichas de avaliação. Grande categoria, heim piolhito.” –Com brincadeiras de ternura. “-Mas gostei mais de ouvir que te portas bem e és educada. Assim mesmo, Margarida.” 


Que fiz eu para merecer isto? 



O nevoeiro envolvendo a noite. 
Os candeeiros do parque de estacionamento produzem tímidas manchas de claridade. 
Não se percebem as formas dos vultos que se ouvem a passar no asfalto. 

Ao frio da noite sobrepõe-se o calor deste lar. 


 Alhos Vedros 
   19/12/2003

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (236)

Paisagem, Autor António Tapadinhas, 1994Óleo sobre Tela colada sobre platex (meu primeiro quadro)


Ars longa, Vita brevis (A Arte é longa, a Vida é breve).
O primeiro aforismo de Hipócrates parece feito de propósito para esta situação: a perenidade da obra de Arte, em oposição à brevidade da vida humana.
Com o perigo de esgotar o meu latim, não resisto a citar o verso final de Virgílio, que nos avisa que o tempo passa e não volta mais, e que é demasiado precioso para o desperdiçarmos em futilidades:
Fugit irreparabile tempus!
São duas verdades de que eu cada vez mais tenho consciência, talvez devido à minha já provecta idade. É por isso que valorizo cada momento que vivo, como se fosse o último! Neste exacto instante, sou feliz: ergo a minha taça virtual cheia dum champanhe simbólico, que contém o elixir do amor e amizade de todos os que contribuíram para chegar até aqui. A todos, o meu muito obrigado!
Feliz 2017!

António Tapadinhas