quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

VACUIDADE E FÍSICA QUÂNTICA


"Para um budista Mahaya, que conhece o pensamento de Nagarjuna, há uma ressonância indubitável entre a noção de vacuidade e a nova física. Se, ao nível quântico, a matéria se revela menos sólida e definível do que parece, isto para mim signifia que a ciência se está a aproximar dos conceitos budistas de vacuidade e interdependência. Por ocasião de uma conferência em Nova Deli, ouvi Raja Ramanan, um físico chamado Sakharov indiano, estabelecer paralelismos entre a filosofia da vacuidade de Nagarjuna e a mecânica quântica. E depois de ter conversado ao longo dos anos com muitos amigos cientistas, adquiri a convicção de que as grandes descobertas da física desde Capérnico dão corpo à ideia de que a realidade não é aquilo que nos parece. Quando estudamos o mundo com uma potente lente de observação --- seja pelo método científico ou de análise meditativa --- verificamos que as coisas são mais subtis do que -- e nalguns casos contradizem --- os pressupostos da nossa visão do mundo baseada no senso comum" (DALAI LAMA)

Porque não sou cientista e reconheço a minha ignorância naquilo que diz respeito à física moderna, não estou autorizado a comentar estas afirmações. Neste caso, a simples percepção intuitiva de certas realidades não é suficiente. Será preciso também a intervenção da razão e da ciência objectiva. Mas, o Dalai Lama teve oportunidade de conviver com muitos amigos cientistas, entre eles o próprio David Bohm que, baseado nos seus trabalhos de física quântica, manifestou em certos aspectos convergência com Nagarjuna. Não deixo ainda de evidenciar que a Tradição Gnóstica Ortodoxa, por intermédio de um dos seus sistematizadores, Boris Moravieff, reconhece igualmente que a resolução do problema humano tem também de passar necessariamente pela convergência entre a Ciência Tradicional, a que se tem acesso por Revelação, e a ciência moderna que, partindo do exterior, se serve dos meios cada vez mais sofisticados de observação e de experimentação. Na sua obra, "Gnôsis", diz a determinada altura: "Nos seus laboratórios, a ciência contemporânea parece que em breve vai alcançar o ponto mais elevado da escala dos elementos mais subtis, e poder-se-á pensar que ela se encontra muito perto de atingir o ponto em que se vai cruzar com as buscas espirituais esotéricas (Gnôsis - 3º Volume - Ciclo Esotérico - pg 77). Penso que será interessante uma reflexão mais profunda sobre este assunto.

José Flórido (facebook)


sábado, 22 de janeiro de 2022

Graffitar a Literatura (I)

 

«O impossível resulta possível
apenas por capacidade do meu cérebro?
Ou do meu coração?
Que importa se eu não sei
Se o impossível tem sempre a possibilidade de ser realizado
Exigindo assim a sua dedifinição.»

(Jacinto Magalhães, Entre Mim e o Outro, 1978)

Graffiti na Rua da Irmandade, Ribamar (Ericeira)


Este humorado graffiti, assinado por Manifesto, preenche toda a fachada lateral (virada para a N247 que liga Ribamar à Ericeira) de um amplo edifício rectangular de dois pisos, tipo armazém. Construído em zona, hoje, de turismo jovem – World Surfing Reserve – o mural apresenta marcas gráficas desse contexto geográfico (fato de banho garrido, tatuagens, skate, texto em inglês). A juventude seria a destinatária preferencial desta mensagem artística – “Everything is impossible”. Um lema para quem é novo, numa idade em que tudo parece (ainda) ser possível de concretizar.

Os mais velhos já não vão tanto em slogans, precisam de leituras mais sólidas e profundas; talvez a Utopia de Thomas More (1516). «Texto literário? Filosófico? Prosa de ideias, relato de viagem, diálogo didáctico?» questiona Maria Alzira Seixo (Visão, 15/03/2007, p. 138), aquando da (excelente) edição da F.C. Gulbenkian.

Nas duas partes em que o livro se divide é-nos dado o «discurso de Rafael Hitlodeu [um marinheiro de idade avançada, Português de nascimento] sobre a melhor das repúblicas». 

«Na Utopia, porém, onde a propriedade privada não existe e os utopianos se ocupam a sério dos negócios públicos, porque o bem particular se confunde com o bem comum, o nome de república é duplamente merecido. (…)
Na Utopia, onde tudo pertence a todos, os cidadãos sabem que, se os armazéns e os celeiros públicos estiverem cheios, ninguém sentirá falta de nada para uso pessoal. Como tal, entre eles a distribuição dos bens não constitui um problema, e não há gente pobre e indigente. Quando ninguém deve nada, todos são ricos. Que maior riqueza pode existir do que a de levar uma existência alegre e livre de cuidados, sem preocupações com a subsistência e livre das queixas contínuas da mulher, preocupada com questões de dinheiro e com o dote do filho ou da filha.» (p. 165)

Já noutras áreas, designadamente nas de género, More não vislumbrou um cenário de igualdade, sendo evidente as marcas do contexto histórico-social em que viveu: 

«As esposas devem obediência aos maridos, os filhos devem-na aos pais, e os mais novos aos mais velhos.» (p. 86)
«Nos templos, os homens encaminham-se para a direita e as mulheres para a esquerda. Os homens sentam-se em frente aos seus chefes de família, e as mulheres em frente à matriarca. Deste modo, o seu comportamento em público pode ser visto por aqueles que os orientam e os dirigem. » (p. 160) 

Uma outra utopia, escrita anteriormente por Christine Pisan (1405) A Cidade das Mulheres (Coisa de Ler Edições, 2007), parece não ter tido repercussão em Thomas More quando idealizou esse “lugar nenhum” de uma sociedade perfeccionada – a ilha da Utopia, com as suas 54 cidades. 

Infelizmente, nos dias de hoje, não há lugar para utopias, pelo menos, no debate político. E essa devia ser, por excelência, a esfera onde se projecta o futuro: como organizar o que é “público” e gerir o “bem comum”. No entanto, no mundo académico há ainda quem se focalize, seriamente, nesta temática por considerar que «a utopia serve para nos fazer caminhar com sentido»; é o caso de Fátima Vieira, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assina a Introdução duma edição bem mais recente da Utopia de Thomas More (Público / Utopia & Conhecimento, nº 1, 2021); dela, sugerimos também duas entrevistas: ao programa “Câmara Clara” (RTP2, 14/10/2012) e à revista a Página da Educação (nº 200, Primavera 2013, pp. 6-15).

A ideia de “utopia” tem-se desgastado. Muito desacreditada no espaço comunicacional público (apelidar alguém de “ser utópico” anda perto do enxovalho intelectual). Pois é, «a utopia subverte», como o relembra Fátima Vieira (2013). Daí as emergentes tentativas de a ancorar mais à realidade; por exemplo, a adjectivação do conceito – Para uma Utopia Realista (Encontros de Châteauvallon, em torno de Edgar Morin, Instituto Piaget, 1998). Ou conceito criado por Immanuel Wallerstein em Utopistics or Historical Choices of the Tweenty-First Century (New York: The New Press, 1998):

«utopística é uma séria avaliação das alternativas históricas, o exercício do nosso julgamento face a uma racionalidade substantiva de uma alternativa possível de sistemas históricos. É a sóbria, racional e realística evolução dos sistemas sociais humanos, com os constrangimentos do seu contexto e as zonas abertas à criatividade humana. Não a face do perfeito (e inevitável) futuro. É antes um exercício, simultaneamente, nos campos da ciência, da política e da moral.»

Nesta linha, podemos inserir a canção de Bruce Springsteen que deu título ao álbum Working on a Dream (Sony Music, 2008), e que se tornou numa espécie de hino da primeira campanha presidencial de Barack Obama; estava-se então num patamar superior ao «I have a dream», formulado por Martin Luther King, em 1963. Quarenta e cinco anos volvidos, o “trabalhar” sobre o “sonho” deu resultado: a utopia concretizou-se; os EUA tinham um presidente negro (em dois mandatos consecutivos).

Essa ligação entre o Presidente (Obama) e The Boss (Springteen) teve, recentemente, novo desenvolvimento no livro Renegados. Nascidos nos EUA (Objectiva, 2021) que recolheu as conversas de ambos no podcast (Spotify).

Em tempos de cinzentismo e pensamento único, são os campos da arte aqueles que mais pugnam por manter a chama acesa:

«Pegue o tambor e o ganzá

Vamos pra a rua gritar

A palavra utopia.»

(“Samba da Utopia”, Jonathan Silva, 2018)


Post scriptum:

 Este mural desapareceu nos finais de 2021. Durou 7 anos! (havia-o fotografado no Verão de 2014). Nada mau para os padrões da “arte do efémero”. Os proprietários resolveram lavar a cara à casa, pintando-a de alto a baixo e, na voragem da limpeza, lá se foi o mural. E o edifício deixou de se distinguir dos outros daquela zona de veraneio: ficou asséptico, com muito menos encanto. A arte de rua, por aquelas bandas, parece “impossible”.


Luís Souta

(texto e foto)


Uma tese sobre Agostinho da Silva



"Um livro, assinale-se, não é coisa de pouca importância, porque acontece com alguma frequência que basta um livro para que o rumo da humanidade se altere por completo".

E outros livros existem que têm por detrás de si uma obra imensa, como é o caso deste que aqui vos deixo. Está em livre acesso no repositório da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e dele foram feitos até ao momento perto de 4.700 descarregamentos e 515 consultas. Podem descarregar gratuitamente AQUI: http://repositorio.ul.pt/.../1/ulsd071157_td_Luis_Santos.pdf

A pintura da capa "Flor do Lácio" é da pintora brasileira, mineira, Kity Amaral. Pode ampliar a imagem clicando em cima.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

SONHOS

Há 3 tipos de sonhos:

1º Os ditos normais, comuns, que pouco ou nada trazem à evolução do ser humano. O indivíduo tem a noção de estar no meio do sonho, consegue até modificá-lo, sair acordando e voltar a entrar nele. Os pesadelos estão incluídos neste grupo. Vêm do nível astral ou emocional.

2º Aqueles que são enviados pela Alma, são evolutivos, com informações e orientações precisas. Simbólicos, necessitam que a intuição do individuo já esteja presente.

3º Sonhos proféticos com origem na Alma e de níveis mais elevados. O sonho profético avisa o individuo para o que se aproxima, para experiências pelas quais terá que passar e às vezes avisa-o para o que ele pode e deve evitar.

António Alfacinha

Nota do editor: agradecemos a gentileza do autor em permitir a partilha deste seu texto.



Imagem de autor desconhecido

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Literatura: o pão nosso de cada dia (III)

 Luís Souta


O ESCRITOR

identidades e ambivalências

«a razão de ser do escritor é o protesto, a contradição e a crítica.»
(Mário Vargas llosa)

O homem de letras 1 é uma figura relevante e considerada em qualquer sociedade… letrada. Difícil é traçar-lhe o perfil, pois desdobra-se por múltiplas obras, por géneros diferentes, por estilos diversos, por um sem número de personagens e de narradores; por isso «[c]ostuma-se dizer que os escritores são um bocado esquizofrénicos» 2. «O escritor é como uma onda, mudando de configuração a cada momento» como dizia Manuel Rui citado por Suleimane Cassano que acrescenta «o escritor é uma entidade mítica (…) está constantemente a ficcionar-se» 3.



Ao longo da História, vários têm sido os contornos do debate (sempre recorrente) sobre as responsabilidades do escritor, enquanto intelectual privilegiado das nossas sociedades. Augusto Santos Silva (1997) diz-nos que, em Portugal, os «escritores pare[ce]m os intelectuais mais ‘autênticos’». E intelectuais são, de acordo com Eduardo Lourenço, «todos aqueles que por natureza são vocacionados para a autognose colectiva (artistas, historiadores, romancistas, poetas)» (1978:12) ou, na perspectiva de João de Almeida Santos, «aquele cujo pensamento produz efeitos reais sobre as ordens constituídas» (2000:213). Sem querer entrar no agastado, e datado, debate das concepções várias que lhe são imputadas, aqui se relembram as principais: «intelectual orgânico» (Grasmci), «intelectual autónomo» (Mannheim), «intelectual específico» (Foucault), «intelectual mediático» (Brenda). Em qualquer dos casos, eles teriam que preencher dois requisitos fundamentais: (i) pertencerem a um «campo» autónomo e actuarem de acordo com as regras que lhe são próprias; (ii) exercerem as competências específicas da sua actividade, sendo entendidos como produtores culturais a tempo inteiro. Por isso, Bourdieu considera-os seres «bidimensionais».


No caso particular do escritor, é através do que escreve e publica, em contextos de trabalho de uma certa adversidade e isolamento, que ele ganha autoridade social e não tanto pelo que é como pessoa ou profissional. É que raramente um escritor vive só da literatura 4, ainda que ambicione a “desocupação” como o relembra José Gomes Ferreira recorrendo ao verso de José Agostinho de Macedo: «Nunca um poeta bom teve outro ofício» senão o de cantar (1965:194). No entanto, poucos fazem da escrita a sua profissão 5, excepto para um punhado de “consagrados”… pelo mercado, e em regra, numa fase adiantada da sua carreira. O mais vulgar é o exercício de uma outra profissão (professor, médico, jornalista, etc.), como fonte de segurança económica, mas concebida como uma área “menor”, subalterna. O exercício da escrita, que exige tempo, energia e disponibilidade, acaba por se tornar tão absorvente, que para além dela pouco ou nada vale a pena. É isso que leva António Lobo Antunes a dizer (entrevista ao DNA, 08/12/2001, p. 15): «A minha vida faz pouco sentido fora da literatura…». E isto é mais evidente quando o escritor está “lançado”, ou seja, quando entrou numa cadeia de continuidade produtiva, e portanto se criaram expectativas em leitores e editores que aguardam (ou exigem) a publicação de uma nova obra. Como dizia Somerset Maugham «a literatura poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta.»


Uma outra particularidade, no grupo específico dos escritores, prende-se com a ausência de «território». Ao contrário do que sucede na maioria das actividades que são exercidas em locais ou instituições, eles próprios estruturadores e condicionadores do exercício profissional e das respectivas culturas e identidades grupais: os campos (agricultores), o mar (pescadores), as jazidas (mineiros), as fábricas (operários), as lojas (comerciantes), as escolas (professores e educadores), os hospitais (médicos e enfermeiros), os escritórios (advogados), etc. Nas profissões ditas liberais, tradicionalmente exercidas em espaços individuais isolados (o consultório médico ou o escritório de advogado, por exemplo), tem-se vindo a assistir a reagrupamentos em equipas de trabalho, fruto quer de um processo de proletarização quer da necessidade, face à competitividade dos mercados, de rentabilizar equipamentos (cada vez mais sofisticados e que implicam avultados investimentos financeiros). No caso dos médicos, é assim que se assiste à troca do consultório pelo centro de saúde ou pela clínica médica.


Pode-se dizer que os escritores, são um caso à parte, no que respeita à sua “territorialização”. Numa actividade muito solitária e apartada – «no silêncio e no isolamento em que trabalho» (José Saramago, 1971:135) –, os «exploradores profissionais da solidão», como os designa José Gomes Ferreira 6, têm uma necessidade imperiosa de socialização entre pares, de troca de produções, mas também do confronto de opiniões, de debate, e até de convívio, o que foi preenchido, num certo período, pelas «tertúlias»: os cafés – o Gelo, o Herminius, a Brasileira do Rossio, o Martinho da Arcada, o Montecarlo, a Orquídea, A Cubana, o Palladium, o Bocage, o Leão d’Ouro, o Portugal, o Itália, o Colonial, o Sequeira, o Ribadouro, as Pastelarias Veneza, Paraíso e Bijou, são alguns exemplos emblemáticos na cidade de Lisboa; eram esses “territórios”, informais e temporários, que possibilitavam um certo sentido gregário aos grupos, ainda que as afinidades ideológicas e as correntes literárias condicionassem fortemente a entrada nesses círculos. A este propósito, António Patrício escreveu, com certa graça, num dos seus contos: «As escolas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só matricular-se… e cozinhar» (1910:123). Nas tertúlias literárias desenrolavam-se processos de “iniciação”, cultivava-se uma aprendizagem informal de saberes e técnicas, “agarravam-se” ideias para futuros projectos, afinavam-se estratégias de intervenção do grupo 7. Curiosamente, a “morte dos cafés”, em especial na capital, e a sua substituição por estabelecimentos tipo “come-em-pé”, ajudaram a pulverizar esses grupos, remetendo cada um para a sua casa.


A inexistência de correntes literárias acentuou este movimento de fechamento no casulo. Ilustrativa é a afirmação de José Saramago, publicamente assumido como homem de partido e organização, quando anunciou numa entrevista (DNA, 12/12/1999, p. 20), a propósito das tertúlias: «nunca pertenci a grupos, vivi sempre muito só». Esta tendência para um certo tipo de clausura, e de solipsismo, pode originar uma vida “fora do tempo” ou «vidas pardas (…) e, aparentemente, pouco interessantes ou mesmo desinteressantes» em contraste com «as vidas muito extrovertidas e cheias de aventuras que são próprias dos escritores do século XIX», como o salienta António Tabucchi (entrevista ao DNA, nº 133, 05/06/1999, p. 16). Daí que, e ainda segundo Tabucchi, se assista também a uma mudança substantiva no enfoque temático do escritor: a literatura do século XX seria mais do imaginário, do virtual, do interior do que do mundo exterior.


E a literatura do século XXI? Estamos em crer que será sempre «um campo infinito de infinitas portas que nos conduzem por caminhos que vão ter ligações com outras portas» (Alberto Manguel, Ípsilon, 03/12/2021).


Notas

1. Etimologia de literatura, do latim littera: letra.

2. Mário de Carvalho na entrevista que me concedeu em Março de 2002.

3. In “Pontes Lusófonas”, encontros com escritores realizados no Maputo (DN, 17/09/1999, p. 42).

4. Aquilino Ribeiro desabafava, com ironia: «para se viver da literatura é necessário escrever um volume de 400 páginas, duas vezes por semana» in Dacosta (2001:143).

5. Há mesmo quem não considere que ser escritor é uma profissão, caso de António Tabucchi (DNA, nº 133, 05/06/1999, p. 15).

6. Segundo José Gomes Ferreira, em “O terrível ofício de poeta”, «aqui solidão não significa emparedamento ou incomunicabilidade, mas afastamento provisório para sublimar a virtude de certas forças que aproximam mais os poetas dos homens» (1965:280).

7. José Gomes Ferreira confessa: «Nunca frequentei salas de aula com tanto proveito. O que eu aprendi nessa Universidade verdadeira!» (1965:100). O actor e encenador Mário Viegas perfilha da mesma opinião: «Aprendia-se imenso nessas tertúlias, discutindo, convivendo, bebendo, engatando. Agora ninguém convive, ninguém fala. A cidade desertificou-se» in Dacosta (2001:112).


 Referências

DACOSTA, Fernando (2001) Nascido no Estado Novo. Lisboa: Editorial Notícias/ Obras de F.D.

FERREIRA, José Gomes (1965) A Memória das Palavras ou o gosto de falar de mim. Portugália/ Obras de JGF.

LOURENÇO, Eduardo (1978) O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3ª edição, 1988.

PATRÍCIO, António (1910) “Words…” in Serão Inquieto. Lisboa: Relógio d’Água/ Clássicos Portugueses, 1995.

SANTOS, João de Almeida (2000) Os Intelectuais e o Poder. Edições Fenda.

SARAMAGO, José (1971) Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 3ª edição, 1985.

SILVA, Augusto Santos (1997) Palavras para um País: estudos incompletos sobre o século XIX português. Oeiras: Celta.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

BOM ANO NOVO!

 Luís Santos


MEUS QUERIDOS AMIGOS

Estamos quase, quase, a terminar o período de isolamento obrigatório por termos apanhado o "corona" como graciosamente ouço dizer às jovens amigas da minha filha.

Apanhei eu, a São e os miúdos (ah, é verdade, já são adultos). A São e o Tomás tiveram mesmo de passar pelo Hospital, por mau estar físico, mas felizmente foi coisa que não se fez demorar. É verdade que não ganhámos para o susto e quase íamos abaixo. Ficámos entregues a nós próprios no nosso canto, com direito a um telefonema diário de uma mãe com mais de 80 anos, e uma ajuda ou outra de familiar próximo. Tivemos vários momentos muito, muito, difíceis, mas acreditámos sempre no melhor.

Agora que, creio, estamos à beira de voltar ao ritmo normal, digamos assim, não sei até quando, olho para os últimos seis meses deste ano e lembro-me que perdi o meu pai, uma tia, dois amigos irmãos, 2 amigos muito próximos, mais alguns que não eram tão próximos, mas que estavam perto, e um sem número de conterrâneos que vinhamos a fazer juntos a jornada da vida.

O que dizer de tudo isto?

Queridos amigos,

costumamos dizer repetidamente, incessantemente, sobretudo, aos nossos alunos, que a vida é uma dádiva mais que grandiosa, simultaneamente, rara e preciosa, como também nos ensinaram os budistas para que a desperdicemos e percamos tempo com coisas menores, ódios, invejas, mal querer, ainda que alguns, aparentemente, vivam luxuosamente e outros vivam sem nada. Mas, afinal, esta vida em que vamos caminhando, distraídos, como se vê, é curta e, no final logo se verá mais claro, muito mais claro, o que é melhor e o que é pior.

Fica um conselho do alto destes sessenta anos físicos, bem medidos: na medida do possível, aproveitemos o tempo de forma generosa, olhando para cada outro como se de si próprio se tratasse. Por tudo, sejamos gratos.

Posto isto, permitam-me que nestes desejos de BOM ANO NOVO PARA TODOS, deixe uma palavra de especial conforto para os que estão mais necessitados, porque mais sós, em maior sofrimento, mais afastados das alegrias e do champagne que em breve irão cruzar os ares.

Enfim, desejos de que o Ano de 2022 venha por bem para todos. 


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Um poema de JOSÉ GIL


Sebastião


O CATIVO DE FEZ,

" Quando parto

morro

pensas sempre tu

por isso enxugo

o teu rosto

nu"

António Reis,

a Isabel Pinheiro

a Maria Simas atriz favorita das favoritas

a Sandra Cordeiro atriz paixão

a Giulia Alessandra Atzori

a Raissa Segantini

a atriz Sofia Vicente,

a atriz Bruna Manguito

aos atores

Óscar Martins e

Rodrigo Teixeira Lourenço

Caminho de Cascais a Lagos

na flor seca da aridez do mar

em dia de tempestade

 

na doçura das tuas ondas

tudo passa com o vento

 

o ar fica sereno e limpo

o mar inquieto do afago de dezembro

na zona de vibração

de um dia de névoa

na matéria-prima do teu olhar

dança comigo morena  corpo de árvore

onde o animal jamais descansa

sou o desconhecido

no nevoeiro da madrugada na praia

do Sado ou em Lagos um rei adolescente,

José Gil

09:08h

15-12-2021

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O FIM

Crónica de Teatro de Maria Simas

Fotografia de Eugénia Matias

               “O Fim”, uma obra de António Patrício*, transformada num grande espetáculo de laboratório teatral com direção e encenação de José Gil, cedeu o palco a um conjunto de atores que já nos habituou à arte de bem representar, são eles José Caldeira Duarte, Lígia Cruz, Miká Nunes, Óscar Martins e Paula Reis. Luz, Fotografias e Som de Eugénia Matias - Grupo de Teatro do Politécnico De Setúbal.

 “Os dias últimos de um povo...”, “(...) com os navios estrangeiros à vista” em honra à receção do dia de aniversário da rainha, a esperança absurda no “Fado” em que a realidade é o impossível, rumo à queda da monarquia.

 É “O Fim”, uma obra simbólica de um clássico da Literatura Dramática Portuguesa do séc. XX,que conta a conturbada situação histórica e política do nosso país, no contexto europeu da época.

Uma narrativa cheia de metáforas e pormenores deliciosos da singularidade e riqueza da língua portuguesa.

É razão para aclamar bis

E assim aconteceu em duas sessões separadas por um curto intervalo, na Sala de Drama da Escola Superior de Educação de Setúbal.


 Maria Simas

 Setúbal 15 de Dezembro 2021


* António Patrício (1878-1930), escritor e diplomata português, dramaturgo e contista, dotadode uma escrita cheia de sensibilidade e ritmo poético, com uma linguagem cheia de simbolismo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Literatura: o pão nosso de cada dia (II)

 Luís Souta 


O LIVRO: do papel ao digital

«Está acabada a cultura baseada em livros que era partilhada

pelas «pessoas intelectuais» de todo o Ocidente e das suas colónias»

(Passos Perdidos, Paulo Varela Gomes, 2016:58)

 

Muito se tem discutido sobre o futuro do livro na sociedade da informação (ou «educativa», como Carneiro a classificou em 2001). Debate algo estranho e aparentemente deslocado no tempo, pois seria natural que, num macro contexto deste tipo, o livro ganhasse um estatuto e uma divulgação como nunca conhecera no passado. Só que outros fenómenos emergiram pujantes, designadamente o multimédia. Concorrente fortíssimo o audiovisual – «civilização videológica» – onde a imagem não exige o esforço de concentração e descodificação que a leitura implica (Sartori, 2000). Num tempo de fugacidade, de que o spot e o vídeoclip são o paradigma, a leitura de um livro, que exige tempo e continuidade, corre sérias ameaças.

1. A perenidade do livro

No romance Para Sempre, Vergílio Ferreira remete o livro para um passado de que hoje só nos restam imagens, memórias ou artefactos de museu: «O tempo do livro é o tempo do artesanato. Coisa destinada a um indivíduo, fabricada com vagares, consumida com vagares. (…) O tempo do livro é o do candeeiro de petróleo, o das meias de algodão feitas em casa à agulha, o das papas de linhaça e do óleo de fígado de bacalhau. O das ceroulas compridas com atilhos. É o tempo dos botins e das cuias, dos palitos para palitar os dentes depois da sobremesa. O tempo das perucas, das lamparinas e dos penicos. (…) O tempo do livro é o do carro de bois» (1983:106,107,108).

Numa posição mais confiante na durabilidade do livro, independentemente dos novos aparatos comunicativos, Miguel de Sousa Tavares, numa entrevista concedida à revista semanal Pública (04/03/2001, pp. 28-32), aquando da edição do seu livro Não te deixarei morrer David Crockett, defende «que os grandes leitores têm uma relação física com os livros (…) o livro objecto é aquilo que desperta a vontade, o verdadeiro prazer de ler. Acho que as pessoas que lêem a internet nem sequer são leitores. Um leitor é uma pessoa que adormece com o livro ao colo, acorda, escreve no livro ou não escreve, marca as páginas (…). Eu não acredito numa civilização que não lê.»

Mais peremptório ainda é António Barreto quando afirma, com convicção: «O livro é eterno» (2002:343).

Muitos são aqueles que questionam a prática generalizada da leitura de um livro (e em especial de um romance) num ecrã de computador. Hoje, o acesso ao livro electrónico (e-book) 1 é extremamente facilitado (em termos técnicos, operacionais e até financeiros). Mas a relação física e afectiva (o toque, o cheiro, a memória de uma oferta…) que o leitor estabelece com o livro enquanto objecto não é substituível pelos meios informáticos, que remetem o texto para o campo da virtualização. As potencialidades que são reconhecidas ao «hiperlivro» (por exemplo, a rapidez na pesquisa de um elemento do texto, seja uma frase, uma expressão, o nome de um personagem ou de um lugar, os links possíveis com outros textos e autores), dirigem-no mais para uma utilização pragmática e parcelar, ligada a actividades de análise e estudo, do que ao processo normal de uma leitura sequenciada, capítulo a capítulo.

A leitura em livro tem a vantagem de ser feita em casa, na rua, nos transportes, praticamente em qualquer lugar; ainda que a miniaturização dos computadores aproxime o portátil, o tablet ou o iphone dessas virtualidades atribuídas ao livro, há limites e obstáculos a superar (por enquanto?) como a autonomia energética, o acesso à rede wireless ou a dimensão reduzida da mancha gráfica (ainda que atenuada com os ecrãs suaves que não cansam a vista). Coisas menores, poder-se-ia dizer, preconceitos de uma geração que, tem dificuldades de adaptação na passagem do táctil para o digital (do palpável ao virtual). Uma geração que entrou em contacto com todos estes equipamentos numa fase muito adiantada da sua formação, com uma maturidade já definida e estilos de vida pessoal e de aprendizagem consolidados. Seriam então os jovens, já socializados com a informática desde muito cedo, os “coveiros” do livro.

Mas tal parece ser contrariado, entre nós, pelos dados divulgados por diversos estudos e sondagens. Livreiros e bibliotecas públicas mostram como a compra e a leitura de livros, entre os estratos mais jovens, é das mais florescentes. O Observatório das Actividades Culturais constata, em 2001, a manutenção da «centralidade simbólica» do livro, ainda colocado pelos jovens no topo hierárquico dos bens culturais, apesar de no dia a dia privilegiarem os meios audiovisuais.

Estamos numa nova fase de transição, onde as certezas são abaladas e as dúvidas mais que muitas. Algo de semelhante deve ter ocorrido em outros momentos da História, por exemplo, quando o pergaminho foi substituído pelo papel (Vallejo, 2019). E o livro continuou, ainda com maior vigor. Agora, «o mundo digital não é o inimigo maior dos livros, mas o modo de vida», como defende Zivkovic (2016).

 2. Escritores sem caneta

Mas as consequências do desenvolvimento informático não se colocam apenas no patamar do consumo. A própria literatura, na área da produção, enfrenta fortes desafios decorrentes da escrita cibernética. Num tempo de «aceleração» (Hartmut Rosa, 2005), quando se potencializa a “imaterialização de conteúdos”, se expande a interactividade, se alargam as redes a limites  inimagináveis, e quando a regra é “falta de tempo”, novos horizontes se rasgam à gente da escrita (que a tem como profissão ou como hobby). Uma nova geração de escritores irá irromper em definitivo, a que já não usa a “caneta” pois funciona permanentemente no teclado (o que se vai tornando vulgar mesmo para os escritores ‘clássicos’) e desconhece o ‘papel’ uma vez que a escrita entra de imediato nos circuitos electrónicos e fica disponível on-line. Em regra, os autores electrónicos criam o seu site pessoal e nele disponibilizam as suas obras, criam mailing lists, newsletters, fóruns de discussão o que lhes permite um contacto constante com os seus leitores. Este tipo de escritor dispensa assim as tradicionais estruturas intermédias: ele não só anula os círculos editoriais de impressão, como se livra de editoras e distribuidoras, com a vantagem de encurtar, de forma vertiginosa, os circuitos de divulgação, alargando imensamente o acesso à sua obra. Deste modo, temos reunidas numa só pessoa as tarefas e funções que se encontravam pulverizadas numa teia empresarial a jusante do acto da escrita. Em regra, essa cadeia de produção e prestação de serviços escapava ao controlo do escritor, ficando excessivamente dependente dela. E no fim, era ele o que menos beneficiava (financeiramente) com a venda dos seus próprios livros. A expansão vertiginosa da internet, do print-on-demand, e do e-business abrem enormes perspectivas neste campo, em especial, no que respeita à democratização editorial (dando outra visibilidade aos “escritores de segunda linha”). Nesta área, ainda em profundas e rápidas mutações, muito está por definir, designadamente os direitos autorais (copyright). Será que as contrapartidas para o escritor (mormente as económicas) vão consolidar esta dinâmica? Ou estamos apenas perante formas mais simplificadas e alargadas de acesso e/ou divulgação à obra literária?

A comunidade académica, mais do que a literária, tem utilizado intensamente a internet e disponibilizado muitos dos seus produtos científicos (artigos, relatórios, monografias) no suporte virtual. Muitos livros e revistas científicos, em papel, têm vindo a ser substituído, progressivamente, pelo ciberlivro (o uso generalizado do inglês, como língua franca das diferentes comunidades científicas, tem facilitado este processo de expansão).

3. Antropólogos nas tribos electrónicas

O campo virtual tem vindo igualmente a interessar os antropólogos. Esse movimento faz-se em dois sentidos: (i) no conhecimento das novas «tribos electrónicas» (Ramos, 1999), com os cibernautas, numa partilha de intensa comunicação, “habitando” uma “sociedade virtual” onde floresce uma cultura específica, a cultura cibernética, também ela com os seus rituais, jargões, valores, códigos e marginalidades (hackers); (ii) no recurso sistemático à internet para a condução da pesquisa etnográfica.

Ambas as situações colocam problemas metodológicos novos, nomeadamente no que respeita ao trabalho de campo e à observação participante, e até quanto ao próprio objecto da disciplina. Neste caso, poderíamos configurar semelhanças e diferenças com o histórico percurso desta nossa ciência social. Se estes grupos – os internautas – podem incorporar as categorias do “exótico” e do “minoritário” (todavia, com tendência para se esbater à medida que se vai massificando o acesso à net), já se distanciariam quanto ao carácter “primitivo”; aqui, bem pelo contrário, está-se perante elites (knowledge workers), numa área de ponta e de vanguarda (high tech) nesta modernidade centrada num bem que elas dominam – a informação e o conhecimento (sofisticado e tecnológico). Sabendo que as clivagens e desigualdades passam, nas nossas sociedades pós-industriais, por estar on-line ou off-line (German, 2000), estes seriam grupos bem posicionados nesse contexto de acentuada globalização. Um outro problema, que se cola ao seu estudo, prende-se com o facto de estarmos perante grupos altamente dispersos, ao nível do planeta, sem um território nem fronteiras e em permanente mobilidade demográfica. Portanto, na ausência plena de um “lugar antropológico”, entendido como espaço delimitado, relacional, identitário e histórico que, como sabemos, é um dos elementos centrais na caracterização de qualquer grupo social. Por outro lado, os cibernautas, enquanto ‘grupo’, revelam uma elevada transitoriedade no tempo: fazem-se e desfazem-se a todo o momento. Este seria um exemplo extremo de desterritorialização, um dos fenómenos caracterizadores da sociedade globalizada. Por tudo isto, a entrada da antropologia nestes domínios do “virtual”, traz novos argumentos para a reconfiguração conceptual de base com que temos operado até agora. Ela ilustra, de forma paradigmática, a questão das «novas escalas na abordagem antropológica» de que falava Silvano (1998). Sendo assim, importa reelaborar conceitos como cultura, campo, território, etc. E rever os procedimentos associados à interacção entre investigador e sujeito (que aqui se faz num quadro de uma certa invisibilidade, onde o face-to-face é, quanto muito, mediado por uma câmara e um monitor, e portanto a entrada do investigador no ‘grupo’ e a sua aceitação, são encarados numa outra dimensão).

Neste domínio, é particularmente interessante a experiência de pesquisa realizada pela antropóloga brasileira Rita Amaral (2001), conducente à sua tese de doutoramento sobre a “Festa à Brasileira” em cinco regiões do país. Ela utilizou a internet não só como fonte de dados complementares à pesquisa tradicional, como principalmente, pelo uso que deu às conversas e entrevistas efectuadas em chats. O antropólogo que faz do contacto directo e personalizado com os sujeitos de estudo, num território concreto (onde permanece de forma continuada durante um certo período de tempo), uma das suas especificidades metodológicas, já a sua “inserção” num campo virtual, de intermitência temporal, levanta enormes desafios à forma tradicional de conduzir a pesquisa.

O futuro é mesmo amanhã.

Nota

Quando o livro de Stephen King – Riding the Bullet, em 2000, ficou disponível apenas na internet, a procura foi tal que os servidores de duas grandes livrarias (Amazon e Barnes & Nobles) ficaram bloqueados.

Referências

AMARAL, Rita (2001) “Antropologia e Internet. Pesquisa e campo no meio virtual”. Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. 41, nº 3-4, pp. 31-44.

BARRETO, António (2002) Tempo de Incerteza. Lisboa: Relógio d’Água/ Antropos.

CARNEIRO, Roberto (coord.) (2001) “O Futuro da Educação em Portugal. Tendências e Oportunidades – Um Estudo de Reflexão e prospectiva”.

FERREIRA, Vergílio (1983) Para Sempre. Venda Nova: Bertrand Editora/ Obras de V. F., 10ª edição, 1996.

GERMAN, Christiano (2000) “On-line off-line: internet e democracia na sociedade de informação”. Sociologia – Problemas e Práticas, nº 323, pp. 101-116.

RAMOS, José Luís (1999) “Computadores, Internet e Aprendizagens. Novas Sociabilidades e Tribos Electrónicas”. Economia e Sociologia, Universidade de Évora, nº 68, pp. 97-119.

ROSA, Hartmut (2005) Aceleração: a transformação das estruturas temporais na Modernidade. Editora Unesp, 2019.

SARTORI, Giovanni (1997) Homo videns: Televisão e pós-pensamento. Lisboa: Terramar, 2000.

SILVANO, Filomena (1998) “As novas escalas na abordagem antropológica”. Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 11, pp. 59-71.

ZIVKOVIC, Zoran (2016) entrevista ao Ípsilon, 24/06/16, pp. 22-23.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

A propósito do 28º aniversário da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros

 

por Luís Santos


Caro vereador da CMM António Carlos Pereira

Caro Presidente da Junta de Freguesia de Alhos Vedros Artur Varandas

Cara Coordenadora da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros Rosa Ribeiro

Todos os presentes.


Agradecer, antes de mais, o convite para participar nas comemorações do 28º aniversário da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, neste dia 28, um número que certamente se relaciona com a unidade, a amizade e o reencontro.

Estamos aqui para dar os Parabéns à Biblioteca de Alhos Vedros que se integra, como sabemos, na rede pública de bibliotecas do Concelho da Moita, um serviço que se enaltece, porque é de uma nossa casa comum que se trata. Um espaço de todos, que visa servir a todos, criado para nosso usufruto coletivo. E, sendo nós, ao longo dos anos, frequentadores assíduos desta rede pública de bibliotecas, sobretudo, desta em que aqui nos encontramos, devemos agradecer os significativos momentos que, amiúde, por aqui fomos passando, fosse para ler o jornal, para trabalhar, ou para aproveitar das inúmeras iniciativas culturais que por aqui foram acontecendo. Memórias de bons tempos passados que, reconhecidamente, foram ajudando ao nosso desenvolvimento pessoal e social.

Lembrar dos inúmeros concertos de música, das tertúlias poéticas, dos lançamentos de livros, das noites de lua cheia, das exposições, das leituras de livros para grupos de crianças vindas dos infantários e escolas locais, do belíssimo empenho da Anabela, do Jacinto e da Élia, só para lembrar, entre muitos outros, os que aqui têm trabalhado nos últimos anos.

Alguns desses momentos em que fomos também protagonistas diretos, fosse para ler uma história para crianças, para lançar um livro, fazer uma comunicação sobre história local, integrar tertúlias poéticas, ou até para um momento de participação em criativo encontro de literatura erótica, lendo um poema do sadino Bocage, no mesmo dia em que fomos presenteados com um extraordinário concerto dado pela banda “Penicos de Prata”.

Quando pensamos na nossa Biblioteca, e nas pessoas e associações que com ela mais se relacionam, logo nos vem à memória, a Academia, o CACAV, a Alius Vetus e, respetivamente, algumas das suas dinâmicas mais marcantes, como sejam a Feira do Livro, a Escola Aberta Agostinho da Silva, a Feira Medieval, entre outras múltiplas iniciativas. Todas elas, associações que de alguma forma se têm relacionado com a publicação literária, ou científica, em comunhão com a animação do livro e da leitura.

E aqui chegados, à reconhecida importância que o livro e a palavra escrita têm no desenvolvimento humano, nunca será demais recordar que temos uma Feira do Livro que é das mais antigas do país, com 48 edições realizadas, desde 1972, e que só a nefasta e preocupante pandemia que atravessamos conseguiu interromper a sua contínua realização, ao longo de todos estes anos.

Entre todas estas dinâmicas associativas, e não esquecendo que a palavra escrita se relaciona com as mais variadas áreas da cultura e das artes, seja na música, no teatro, na dança, e por aí fora, não deixaremos de salientar da existência, entre nós, de um movimento de significativa dimensão que vai editando e publicando livros, revistas, jornais, pasquins. E se nos centrarmos exclusivamente na nossa vila, onde se reconhecem existir algumas particularidades culturais, logo se pensa num número anormal de gente que se dedica à arte da escrita para uma terra relativamente pequena.

E da mesma forma que se refere a existência de vários escritores, podemos dar conta de múltiplas dinâmicas literárias que se foram desenvolvendo entre nós, algumas delas em que tivemos participação direta como foram, entre outras:

i) o grupo “Do Convento”, onde se fazia “uma escrita em grupo, com cada um em seu sítio, à mesma hora” que, depois, desaguava em animadas tertúlias de café;

ii) ou, “O Largo da Graça”, uma linha editorial alternativa numa iniciativa de amigos, dada a dificuldade de se chegar às grandes editoras nacionais e a dinâmicas mais comerciais, até pelas crescentes dificuldades de publicação na área do livro, mas também pelos frágeis apoios aos autores locais. Esta linha editorial “O Largo da Graça” é, de resto, o pequeno exemplo de um alargado movimento de “edições de autor” que por cá existe e pontua;

iii) ou, por fim, falar do blogue/revista “Estudo Geral”, uma revista digital, multimédia, que tem sido feita por alguns de nós, já com mais de 10 anos, editada a partir de Alhos Vedros, mas que se foi disseminando por uma vasta internacional comunidade lusófona.

O “Estudo Geral”, uma revista que explora as novas possibilidades das linguagens digitais, onde facilmente se mistura o texto, a imagem e a música, e que tem também insistido na divulgação de livros e autores locais, a que os apoios da autarquia, até agora, pouco têm chegado. Por isso, acreditamos na necessidade de novos desenvolvimentos nas políticas ligadas ao livro, que mais apoiem a edição e os autores da região, nomeadamente, a partir da criação de uma linha editorial pública, de um destaque próprio nas bibliotecas locais, e no apoio ao lançamento e à aquisição dos seus livros, o que será uma forma de ajudar e dar relevo à valiosa riqueza literária que caracteriza a nossa comunidade.

Obrigado pela atenção.

28.11.2021

sábado, 27 de novembro de 2021

Biblioteca Municipal de Alhos Vedros



Domingo, 28 de novembro, 15,30h

No dia em que se assinala o seu 28° Aniversário, a Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, com os contributos da Junta de Freguesia de Alhos Vedros, convida associações de referência, autores locais e a população em geral para todos juntos, potenciando novas sinergias, assinalarmos a efeméride.

Assim, reconhecendo algumas dinâmicas literárias, mas não só, que ao longo dos anos, se têm desenvolvido na comunidade, convidamos Dores Nascimento, Luís Santos, Vítor Cabral e os Jograis do CACAV para, em jeito de roda coletiva e com a possível intervenção de todos os presentes, disso darem testemunho e animarem a nossa festa que contará com momento musical animado por Rui Pais.

 

domingo, 21 de novembro de 2021

ONDA DE LETRAS

 


"Quando me tiveres apagado, morto /ou só feito da matéria da memória, /dança uma dança por nada/e debruça em arco o teu corpo sobre o poço da morte/sobre o corpo dividido e espalhado pela última praia".

Manuel Gusmão

 

“ARTE” (Sem Medo) ÉS TU “

 “arte sem medo / arte para ser / arte verdadeira / movimento-amor.”

(Jorge Vicente)

 

A Isabel Pinheiro

A atores e atrizes favoritas

A Maria Simas a favorita das favoritas

Giulia Alessandra Atzori, a internacional e global como

Raissa Segantini

 

O mar revolto o corpo revoltado em ondas, o mar tem tantos

Rios como os dedos dos pés nos lábios

estou sob a Ponte 25 de Abril regresso de Setúbal Praias do Sado

Todos os dias ao fim da tarde, um rio largo e lindo

Prata azul para encantar os olhos até Cascais,

das janelas da Porta vê-se os olhos

Sonhadores o mais íntimo e coletivo que todos temos , à direita

a Tapada da Ajuda

Para continuar esta beleza arte sem medo,

arte para ser, arte ambiental, verdadeira

Movimento amor entre as ancas, para preparar

a ida amanhã de madrugada a Cascais

O cafezinho da Estação de S. João do Estoril

para acordar nos teus seios no correio em

Frente onde te envio as prendas de amor .

A dimensão infinita da tua excitação nos meus

Lábios, estou a aprender a correr na hidromassagem

para te apanhar nos momentos

Vulneráveis, tristes, temos que ser fortes todos

em versos de massinhas douradas

é no vazio que escrevo a tatuagem dos deuses com os lábios

voam as pernas na rua feliz de Stª Catarina em Lisboa, chegarei a Cascais, o Arco Íris sobre o mar e as rochas, não chove há uma semana

os carros lentos atravessam os jardins, quem faz as acácias florir

é o mundo amor entre os dedos como o leite de moça no peito de cerejas

da rocha da Praia da Conceição, avançaremos para dentro de

água 15º graus ninguém nos vê - é a bruma intensa da madrugada

depois vestimos os véus pretos em todo o corpo para abençoar oceano, viajaremos lindos

bebo demoradamente o cálice do namoro

um mamilo claro rosa

sem mexer o corpo, manhã cedo

depois do café leve e do duche

o hotel do Estoril já está barato

e tem vista para o oceano

aqui fico para escrever o livro

amor profundo, há que acertar

as palavras com os lábios e podemos

beber um no outro depois do mel

até ao mel amor, penetrar, a luz

as estrelas da canção e mais

ninguém saber a clementina doce

como um fado, Cascais,

tem fado e do melhor naquelas ruelas

onde nos beijamos noite adentro

podemos mergulhar de manhã e sonhar

amo-te os dedos

voamos como as grandes ondas

no oceano atlântico ou o mar mediterrânico

 

10:49h

12-11-2021

José Gil

sábado, 13 de novembro de 2021

Literatura: o pão nosso de cada dia (I)

 Luís Souta


«– A literatura é uma doença universal…

o sarampo das crianças e o reumático dos velhos…»

Uma Fábula (o Advogado e o Poeta), Teixeira de Pascoaes


I

O LIVRO E A ESCOLA

As sociedades letradas colocaram o livro como um bem único, central no combate ao esquecimento e na aquisição do saber. O livro é a memória. «O que não se escrever não consta» (Eduarda Dionísio in A Voz da Escrita de LS, p. 314), esvai-se, é como se não tivesse acontecido ou, como diz Italo Calvino, «todas as ‘realidades’ e ‘fantasias’ só podem tomar forma através da escrita» (1990:119). Ou ainda como Jack Goody (1986) demonstrou, a escrita acaba como elemento estruturador da organização social. Esta visão, chegaria ao limite quando Mallarmé, citado por Calvino (id.:166), afirma que «tudo no mundo, existe para acabar num livro». E como bem nos recorda Irene Vallejo (2019:38) «todo o livro é um passaporte sem data de caducidade.»

Quadro, em 3D, de Luana Costa (2021)

É evidente que os livros não são todos iguais, na importância que a sociedade lhes atribui. E que tal hierarquia se altera no curso histórico e no seio das diversas instituições. Numas – as igrejas – aprendia-se a ler para ter acesso aos livros sagrados. Noutras – as escolas – erigiu-se o livro como elemento primordial da sua acção. Era o ‘sagrado’ manual, instrumento básico de apropriação de conhecimentos e fonte de aprendizagem, e que já foi “livro único”, não permitindo outras alternativas, pelo menos no seu seio. Isso nos relembra, por exemplo, a escritora Ester de Lemos:

«Era proibido ler romances no Liceu» (1959:46).

Mas ainda hoje, mesmo nas aulas de Português e Literatura, e por paradoxal que isso pareça, o manual continua a ser “o Livro dos livros”1. Os princípios dominantes nas sociedades de mercado, uma econocracia que tudo transforma em mercadoria, e que procura satisfazer os “clientes” pondo à sua disposição opções credíveis de escolha, chegou também aos materiais escolares. Hoje a multiplicidade de manuais é tal (em formatos vários que vão da vetusta sebenta para decorar ao hodierno livro de fichas para exercitar, a que se juntou o «manual do professor»!) que, em torno dele, gira uma florescente actividade produtiva e comercial que, todos os anos lectivos, tem assegurada uma fatia certa e volumosa de compradores2 (quanto a genuínos leitores já é mais problemático, como o evidenciam as permanentes taxas de insucesso escolar). As editoras escolares são, no panorama editorial português, empresas que não sabem o que é a crise. Os estabelecimentos de ensino têm oficialmente que os adoptar, mesmo que alguns professores prescindam deles na sua actividade lectiva. A selecção de manuais é uma tarefa em que a pressão do marketing e as “contrapartidas” oferecidas pelas editoras acabam por constituir-se como factores condicionantes das opções pedagógicas de selecção3.

Agustina Bessa Luís, em entrevista ao Ensino Magazine (nº 43, Setembro 2001, pp. 1-3.), diz que «ler exige uma elevada concentração e um grande silêncio e não é uma criança qualquer que está em condições adequadas para o fazer.» Estamos cientes que os ambientes físicos, em casa, no trabalho, ou nos transportes públicos são pouco incentivadores a esse recolhimento. O ruído é um dos males das nossas modernas sociedades. Nos lares, os espaços reduzem-se em apartamentos claustrofóbicos, onde o televisor e o rádio, permanentemente ligados, são a ‘companhia’ possível. Mais recentemente, nos transportes públicos, passaram a “dar-nos música” (de fundo) e, para as viagens de longo curso, instalaram-se circuitos de vídeo interno, entrecortados por informações regulares sobre a estação que se segue. Ler, passou a ser uma tarefa cheia de obstáculos e distractores concorrenciais. Nas nossas escolas domina a “cultura do berro”, num barulho permanente (por vezes ensurdecedor) que já não se restringe aos espaços exteriores de recreio:

«O liceu era um inferno de barulho» (José Rodrigues Miguéis, 1973:100).

Dentro dos edifícios, nos corredores, e, pior um pouco, no interior das salas de aula, o ruído ou, na melhor das hipóteses, o burburinho de fundo é a tónica dominante na atmosfera escolar. Restam alguns nichos, onde o silêncio, propiciador de uma leitura concentrada e produtiva, reina – as bibliotecas (e mesmo muitas delas, têm-se vindo a transformar em locais de trabalho de grupo mais do que espaços íntimos e pessoais de pesquisa e leitura). Este clima institucional, reflexo mais uma vez do mundo circundante, denota também, neste domínio, o défice de cidadania. É em escolas onde a vertente de cidadania constitui preocupação constante da equipa docente e, em particular, de quem a dirige, porque inscrita como linha orientadora no seu projecto educativo e nas práticas quotidianas baseadas em metodologias fomentadoras da autonomia e responsabilidade, que se podem encontrar as excepções. Um desses raros exemplos foi-me dado presenciar na Escola da Ponte, em Vila das Aves, que o meu amigo José Pacheco pacientemente erigiu: uma escola de 1º ciclo onde o silêncio, o falar baixo, o tom moderado de voz nos constantes trabalhos em grupo, se impunham; mesmo após o fim das aulas, as tradicionais correrias na saída da escola, acompanhadas de um verbalismo esfuziante, ali não se verificavam. Isto quer dizer que não é assim tão utópico as escolas serem ‘oásis’ em muitas vertentes da sua vida organizacional (há quem prefira chamar-lhe “cultura de resistência”, os mais dados à ideologia, ao combate e à luta).

A mesma Agustina conta, numa outra entrevista, como ficou sem uma empregada doméstica quando esta identificou a sua potencial patroa: «Ai a senhora é a Dona Agustina! Pois fique a saber que para si não trabalho nem morta, porque fui obrigada a ler os seus livros na escola…» (DN, 15/07/00, p. 3, citado no editorial de Carlos Magno). Não se veja neste comportamento um mero caso pessoal, pois já o estudo realizado pelo Observatório das Actividades Culturais, em 1998-99 mas só publicado em 2001, chamava a atenção para o potencial efeito perverso na aquisição de práticas de leitura decorrentes da prescrição escolar da «leitura obrigatória». Para além da aversão e repulsa por essas obras literárias, quantas vezes dissecadas até à exaustão pelos “bisturis” estruturalista e didáctico, o Observatório alerta ainda para o risco que se corre de «diminuir drasticamente a disponibilidade dos jovens estudantes para outro tipo de referências literárias» (DN, 23/04/01, p. 39). Também aqui a diversidade cede ao cânone.

Vasco Graça Moura denunciava, de forma contundente (“Falhanços”, DN, 18/04/01, p. 9), o falhanço da escola no que respeita ao contacto com o livro e ao fomento da leitura: «continua a sair uma gente que já mal sabe falar a sua própria língua, a despreza manifestamente e não é capaz de pensar porque não a domina, uma gente que não conhece um só autor do passado, uma gente a quem não foi incutido o hábito da leitura, e muito menos o prazer da boa leitura, uma gente que nunca aprendeu para que é que serve um livro e quando muito sabe vagamente o que é uma fotocópia».

(continua)

Notas

1. Se era compreensível a importância do manual escolar em épocas de reduzida formação de docentes (por exemplo, aquando das regentes escolares), nos dias de hoje, em que o mestrado constitui a formação base de qualquer professor, já se torna difícil de entender (de acordo com critérios científico-pedagógicos) esta continuada dependência em relação ao manual.

2. No inquérito aos Hábitos de Leitura em Portugal (1997), os livros escolares surgiam em 2º lugar no género de livros mais lidos, com 17,3% (depois dos romances e a par com as enciclopédias/dicionários). Mas já quanto a «géneros de livros possuídos» os escolares (61,9%) e as enciclopédias/dicionários (56,8%) ultrapassam os próprios romances.

3. Só início do ano lectivo 2002-03, o ME decidiu limitar fortemente a acção no interior das escolas dos «promotores de livros escolares» (aparentados aos delegados de propaganda médica).

 

Referências 

CALVINO, Italo (1990) Seis Propostas para o Próximo Milénio (Lições Americanas). Lisboa: Teorema, 3ª edição, 1998.

GOODY, Jack (1986) A lógica da escrita e a organização da sociedade. Lisboa: Edições 70/ Perspectivas do Homem, nº 28, 1987.

LEMOS, Ester de (1959) Companheiros. Lisboa: Edições Ática, 2ª edição, 1962.

MIGUÉIS, José Rodrigues (1973) O Espelho Poliédrico. Lisboa: Estúdios Cor/ Obras de J.R.M., nº 5.

VALLEJO, Irene (2019) O Infinito num Junco. Lisboa: Bertrand Editora, 2020.