domingo, 15 de janeiro de 2012





IMITEM AS ÁRVORES DOS CAMINHOS QUE DÃO FLORES E FRUTOS MESMO SEM QUE LHES PEÇAM (José Gomes Ferreira)


 Numa altura em que tanto se fala de crise, endividamento, austeridade, … a par de algum desregramento na utilização dos dinheiros públicos por parte de alguns, é de assinalar pela positiva a solução encontrada pela Câmara Municipal da Moita para embelezar o espaço das rotundas na via que liga a Moita à nossa velhinha terra.

O embelezamento desses espaços com árvores é uma solução feliz e, cremos que, económica.









Torna-os vivos, na medida em que as árvores são seres vivos e generosos, renovados e harmoniosos, já que as árvores no seu crescimento sempre se vão naturalmente transformando, alegres e humanizados. Acresce ainda a vantagem de não retirarem visibilidade a quem circula.












Não querendo estar a meter o bedelho, até porque a solução encontrada nos merece aplauso, atrevemo-nos contudo a sugerir que a rotunda frente ao antigo forno da cal possa vir a ser igualmente contemplada com uma árvore. Na linha das já citadas, poderia agora ser um pinheiro-manso para manter o denominador na esfera das árvores típicas dos climas temperados mediterrânicos e que nos são comuns.




De qualquer forma, não queremos deixar de “parabenizar” a edilidade pela feliz iniciativa, esperando que o exemplo frutifique.

Fotos: Edgar Cantante;
Texto: João C.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O velho Fulô

Ao meus amigos um conto mineiro, verídico.
Um abraço
Maria Eduarda



Já bem velho, pra lá dos seus noventa e poucos anos, porém com uma saúde de despertar inveja ( morreu com 105 anos), o "nego" FULÔ, ainda sentia os arrebatamentos que a fogosa natureza africana lhe dava. Viúvo, vivendo com meus sogros, se apaixonou pela jovem empregada que trabalhava na casa. A idéia fixa de se casar com ela virou senil obsessão, a ponto de servir de
pilhéria para os netos. Levados da breca, resolveram pregar uma peça no velho assanhado . Telefonam da rua e mandam chamá-lo. Fazendo-se passar pela faceira morena, imitando-a, um dos rapazes faz declarações de amor e promete casamento. No dia seguinte, ao chegar para trabalhar, Helena, a empregada, se deparou com um Fulô todo animado querendo "tirar uma prosa", fazer os
preparativos para casar. O espanto da jovem e as gargalhadas da rapaziada, que tudo assistia, foram a água fria que esfriou o velho e mostrou o engodo, a esparrela de que fora vitima. A raiva dos primeiros dias, com o tempo, virou chantagem emocional. Fingindo-se abatido, doente, Fulô ameaçava se suicidar a toda e qualquer contrariedade que lhe davam.
Cansados de tanto " teatro" os endiabrados netos resolveram dar um basta àquela situação. Sem que ele visse, trocaram por açúcar o pó de veneno para ratos, e numa ocasião em que nego Fulô , pela centésima vez, pedia para morrer, um dos rapazes pegou o pó branco, despejou num copo com água e chegando no nariz dele disse:
" Tá bom, vô, se ôce quer morrer acaba logo com isso, bebe o veneno de rato", vai ser rápido. Fulô, arregalando os olhos e afastando o copo da cara disse:
-Moleque, tira esse negócio de perto de mim, só o cheiro mata!

Uberaba, 12/01/12
Maria Eduarda

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXII


Flor de Amendoeira Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Platex 15x15cm
(clique sobre a imagem para ver em pormenor)

No passado Sábado estive no céu! A visita à exposição, A Perspectiva das Coisas, patente no Museu Calouste Gulbenkian, foi a sensação que me deixou. Ver Cézanne, Monet, Manet, Matisse, Bonnard, Braque, Magritte, os nossos Vieira da Silva, Amadeo de Sousa Cardoso, Eduardo Viana e o génio louco Van Gogh, têm esse efeito sobre mim.
Com o trabalho tudo correu bem, o último quadro foram ramos floridos – tu verás, entre as minhas obras talvez a que fiz com mais paciência e melhor, pintada com calma e uma maior segurança das pinceladas. Estas palavras foram escritas por Van Gogh, numa carta ao seu irmão, depois de concluir um quadro, para oferecer ao seu sobrinho e afilhado, Vincent.
A obra, com o título, “Amendoeira em Flor”, óleo sobre tela, 73x92cm, está em Amesterdão, no Rijksmuseum Vincent Van Gogh. Todos os críticos, nos seus comentários, consideram este céu, o mais intenso, o mais brilhante, que o artista alguma vez pintou. Tinha a intenção de colocar aqui o quadro, mas fiquei completamente baralhado: se se derem ao trabalho, verificarão, nas centenas de reproduções que há no Google, as diferenças gritantes que existem entre cada uma delas.
Agora, já vi e já senti o verdadeiro azul do Mestre.
Neste Inverno, mais do que a queda de neve ou os gélidos ventos, imaginem as andorinhas pairando no ar, com o inconfundível aroma das amendoeiras em flor, anunciando a chegada da Primavera…

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dois Poemas



FRONTEIRAS

Na fronteira passo minha inexistência.
Trêmulas bandeiras desencontradas
evitam a minha mão. Desfaço os nós
presos ao estribilho e torno o hino
impatriótico na universalidade.

Espaço o caminho das ultrapassagens.
Ao lado é estar aqui na consequência.


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PARÊNTESES

ser a vida entre parênteses
na explicação dos teores ocultos
no desplante: mentir explicações
de contados elementos na imagem
modulada no limite do esgarçamento:
conta apresentada em favores;
desligar o som e explicar o silêncio
do quarto entreaberto em atos.
O sentido do rosto contra o espelho
melancólico das imagens. Texto
tosco das palavras sem sentido.

(Pedro Du Bois, inéditos)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


A SETA DO TEMPO

 
O tempo é a modos que uma marcha imparável que se materializa nas diversas mutabilidades da matéria múltipla nos muitos universos que, em conjunto vistos, perfazem a totalidade cósmica. Ele cresce em nós de um nada percepcionado, até à verificação, por vezes dolorosa, da sua omnipresença e, se estudarmos mais fundo, concluímos que apenas o anulamos em modelos ideais que, na realidade, a nada correspondem. O tempo tem uma seta, a da irreversibilidade, o que faz com que nos encontremos permanentemente no futuro, ainda que, de início, o não saibamos. Bem visto, o presente ou, se quisermos, os presentes são sempre uma convenção, têm a duração com que delimitamos uma qualquer acção de um qualquer elemento, pois o que acontece é uma infinita formação de porvires que, inevitavelmente, deixam rastos de passados. Não que seja obrigatório um movimento com determinado destino ou que as consequências necessariamente identifiquem uma espécie de pirâmide de complexidade. No que a nós, humanos, diz respeito, estou até convencido que vivemos num mundo de imponderabilidade onde as leis, se é que as possamos isolar, e, por inerência, as previsões, apenas conseguem uma aproximação de probabilidades. Seja lá como for, a verdade é que a seta do tempo está lá, indelével, sobre a ombreira do seu próprio portão.
É curioso como no princípio temos a impressão que tudo permanecerá como aos nossos olhos se apresenta. Eu escrevi curioso mas queria escrever engraçado, é esta a palavra mais acertada. E é engraçado porque mais tarde, mesmo sem que sejamos dados a grandes reflexões e erudições, basta que atentemos para acabarmos por concluir que a vida se vai fazendo numa colagem, mais ou menos ordenada, de permanências que em alguns casos desejaríamos perpétuas. Trata-se da seta do tempo, a nossa seta do tempo que, pela lufa-lufa, nos permite a experiência de um plural de vidas. E, agora sim, é curioso como certas pessoas interpretam o vai vem dos nossos quotidianos. A curiosidade reside no facto de curtas presenças se prolongarem tanto na memória. É assim, algumas almas, até por pormenores irrelevantes e sem explicação, depois de um laivo de cruzamento, permanecem, tenho para mim que devido à esquina que virámos e, provavelmente, em outras circunstâncias não viraríamos.
O Ricardo Jorge, o Tuberculoso, é um desses indivíduos. Estivemos próximos enquanto durou a comunhão de uma crença política, o que não chegou à conta de uma revolução e aconteceu era a adolescência meã.
Tinha sido miúdo criado num dos bairros de expansão da vila, onde as casas térreas e caiadas a cores de outras dignidades testemunhavam a fixação de povo oriundo de paragens alheias onde o pão era mais incerto. Os seus pais há muito que tinham imigrado do interior da peneplanície além do Tejo para, em conjunto, tentarem assegurar uma velhice livre de faltas a mais. A mãe procurava transmitir-lhe aquele espírito engenhoso que, dos malabarismos, tirava a multiplicação dos alimentos, sapiente que era de uma ciência de reciclagem muito antes dessa necessidade se ter estendido a tantos e tão diversificados aspectos do nosso mundo. E com isso contribuiu para que o salário de um empregado do comércio da grande cidade pudesse manter uma casa com dois rapazes de barriguinha satisfeita e roupa lavada. E ambos lhe exigiam que fosse respeitador, vestiam-se com o que de melhor tinham para os bailes festivos da colectividade do bairro e levavam-no em todas as ocasiões, mesmo às assembleias de sócios e, com as conversas de tacho, incutiam-lhe o interesse pelo que o rodeava. De resto, o catraio fez-se no areal que daquelas construções fazia ilhas, nas estações mais quentes, de um ondulado de cerealíferas selvagens. Disputava-se e media-se com os outros miúdos do lado de lá da via férrea, fronteira onde terminava a autonomia do centro da vila. Com eles jogou à bola e fez explorações velocipédicas, com eles se atreveu e arrependeu e lá chegou ao moço que eu vim a conhecer. Mas aquilo que o individualizava era a propensão para interrogar os mistérios do que nos era dado saber. Talvez daí aquele seu aparentar do avesso e aquelas suas hipóteses de curar constipações pelos choques de um isqueiro electrónico. Acontece que ele tinha carácter, não tirava partido do corpo gigantesco e evitava implicar com os outros ou, mais que isso, fazer-lhes mal. Quando as suas associações e non sense se expressavam em voz alta faziam-nos rir. E apesar do seu estar permanentemente a trepidar as realizações alheias, era uma companhia que mais valia ter do que não ter. E até que a Universidade e o casamento o levaram dali, o rapaz chegou a ser lendário, dele se contando genialidades como a lembrança de levar os borrachinhos recém-nascidos para o quarto, a fim de passarem a noite no aquecimento de uma estufa. Hoje acompanha a vida escolar das filhas que já transportou, brincalhão, sobre os ombros e ainda anda de mão dada com a mulher na rua, com quem já partilhou a troca de casas e de carros.
Estive aí um quinquénio sem o ver e, certo dia, à época do meu primeiro ano universitário, vim a reencontrá-lo na cantina do Instituto Superior de Agronomia, onde ele estudava e a partir de onde encontrou a profissão. Depois dos salamaleques esperados e das apresentações das respectivas namoradas, disparou uma pergunta que reatava uma conversa que interpretáramos em certo Inverno distante por uma boa meia dúzia de anos.
Afinal já era capaz de sustentar porque era muito mais importante acabar com a pobreza do que protegê-la que, bem ponderada a questão, era afinal ao que se limitavam os propósitos de muitos revolucionários bem pensantes que diziam ser a vanguarda do povo. E no que pessoalmente dizia respeito, em princípio, estava certo que a sua quota-parte seria cumprida.
“-Mas se alguma vez deixarmos de olhar para o nosso semelhante, se, mesmo podendo, não estendermos uma mão a outra ou se não evitarmos pisar quem está ao nosso lado, aí tornar-nos-emos em cruéis egoístas e a partir daí seremos capazes de todas as demências.” –Concluíu com a expressão de menino com que sempre dissera todos os disparates.

Amieira, 8 de Maio de 1998

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Largo da Graça



Dalai Lama e Tibete

No livro " O Ensinamento do Dalai Lama", escrito por Ele mesmo, diz-se que o Budismo é uma doutrina que visa a eliminação do sofrimento - de si próprio e de todos os seres. Como se poderá lá chegar? Através da meditação, da contemplação, da reflexão, respeitando todo um conjunto de princípios e de práticas.

Talvez se possa dizer que a principal orientação dada nesses ensinamentos é de que se deve amar mais os outros do que a si próprio. Servir os outros constitui-se no Budismo como a principal regra de vida.

Logo aqui, a clara relação que se pode estabelecer com uma dos mandamentos da mensagem cristã, "Ama o próximo como a ti mesmo", permite perceber que a mensagem budista tem infinitos pontos de contacto com a mensagem de Cristo.

Quanto à causa do povo tibetano, devo confessar que não conheço muito bem a sua história, mas reconheço-lhe alguns pontos semelhantes aos da causa que guiou o povo Maubere à independência. Quer dizer, o direito de um povo poder decidir sobre o seu destino, num território que lhe foi usurpado pela força, parece-me uma causa de direito inalienável.

Deveria ser pacífico, não?

(…)

Por ouvir falar em Teocracia, tenho para mim que Deus é Liberdade. Naturalmente, uma liberdade com regras, dada a necessidade de vivermos num Estado de Direito, onde a igualdade de todos perante a lei é (ou deveria ser) princípio basilar. Uma liberdade onde o processo de iniciação dos noviços seja feito de forma adequada para não deixar que ninguém se perca.

Desde a Revolução Francesa que temos vindo a aperfeiçoar um sistema político de democracia liberal, economia de mercado, capitalista, com maior ou menor intervenção por parte do Estado, sistema que saiu triunfante da “guerra fria", dada a súbita queda dos socialismos a leste, mas não de todos.

Os Socialismos hão-de voltar e veremos, lá mais para a frente, no que vai dar a aventura Chinesa deste Socialismo de Mercado. Esperemos que nos possa trazer um aperfeiçoamento que os liberalismos tardam em conseguir, embora estejamos de pé atrás… Dizemos os liberalismos porque eles não são todos iguais se comparamos, por exemplo, o norte com o sul da Europa.

De facto, esta nossa democracia liberal tem tantas limitações que se torna exasperante. Faltam-lhe mecanismos que lhe garantam um melhor funcionamento e que lhe reduzam os incríveis demagogismos, os clientelismos partidários, o situacionismo de "partidos" (quer dizer, de não serem inteiros, íntegros…), onde não seja necessário os políticos falarem aos gritos, numa indelicada poluição sonora, quais enganosos vendedores de banha da cobra.

Sente-se a falta de Algo, ou de Alguém, que esteja acima do Presidente (ou que o substitua!...), do Governo, dos Tribunais, mais lúcido, mais clarividente, que os possa orientar na sua limitada capacidade de gestão do tecido social. Esta inépcia política torna-se ainda muito mais gritante na administração autárquica.

Talvez no lugar de um Conselho de Estado devêssemos ter um Conselho de Sábios, com o maior respeito por aqueles senhores conselheiros, que muito úteis podiam ser nos desvarios mentais dos nossos líderes políticos. Talvez assim a Justiça legitimasse o Estado de Direito, a Educação formasse pessoas de eficaz participação social, os doentes tratassem da Saúde e o sustento desse muito mais para todos com muito menos trabalho.

Mas já agora, o que é um Sábio?

E não será que, com estas ideias, nos estamos a afastar de um sistema político de democracia liberal por troca com um sistema teocrático? De democracia plural mas radical? Ou será que é mais de tipo oligárquico, género socialismo de mercado? Decerto, anarquista e pacifista. Ecologista e que respeite mais os direitos dos animais. E não será possível juntá-los a todos?

É claro que necessariamente as Agendas Políticas se adequariam definitivamente aos Direitos Humanos.

Luís Santos

domingo, 8 de janeiro de 2012

ROSA DOS VENTOS




De que os tempos vão difíceis todos sabemos e não vale a pena bater mais no ceguinho. É hora, portanto, de aparelhar o barco, não esquecendo um esforço de manutenção reforçado para melhor resistir às vicissitudes da tormenta, e demandar outras latitudes de retórica e acção.


Depois de reforçada a embarcação, convém apetrechá-la dos instrumentos de orientação tidos por necessários e, nesse sentido, crê-se ser a "Rosa dos Ventos" algo de básico e essencial. Aqui fica pois uma ao dispor de quem dela achar necessidade desejando desde já que os ventos corram de feição, comprometendo-se a tripulação desta embarcação apodada de "Miradouro" a ir dando novas dos sítios por onde for aportando. Fica encontro marcado. Todos os domingos.                                                      


Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C. 
 

sábado, 7 de janeiro de 2012

EMIGRANTES - O MEU PARTIDO É PORTUGAL


Boicote do Envio de Remessas de Emigrantes – Um Apelo ao Gosto mediático mas infeliz

António Justo

"Osnabrück Não Desiste" surgiu, como protesto contra o encerramento do respectivo vice-consulado a efectuar-se a 13 de Janeiro. Ultimamente veio para a arena política com uma campanha que apela ao bloqueio de envio de remessas para Portugal. "Nantes não desiste" seguiu nas suas pegadas. Esta é uma reacção contra os cortes do governo efectuados nos postos consulares e no ensino.

Recomendar que se envie ou deixe de enviar dinheiro para Portugal é problemático, porque em toda a parte o dinheiro pode ser investido de forma produtiva ou de forma estéril e com esta iniciativa não se ajudam os portugueses nem Portugal.

Iniciar assim uma forma de campanha contra o Governo também não convence por instrumentalizar partidariamente um tema a favor da oposição, quando governo e oposição, no fundo, nunca tomaram a sério os emigrantes. Em nome de interesses parciais vai-se contra o todo. O factor/tema económico migrante tornar-se-ia relevante se integrado numa política estruturada de fomento regional.

A emigração sempre foi uma chaga aberta na nação. Foi sempre uma fonte lucrativa para o Estado para assim poder equilibrar o seu orçamento e, ao mesmo tempo, um meio de fomento gratuito/espontâneo das regiões do interior e uma maneira de não deixar cair muitas famílias na miséria.

"Osnabrück Não Desiste" fundamenta a sua iniciativa afirmando: "Quando o nosso país, a nossa pátria, nos vira as costas, vemo-nos forçados a fazer o mesmo, não enviando dinheiro para Portugal, não investindo em Portugal". Este apelo é demagógico e partidário. O nosso país, a nossa pátria não se pode identificar com o programa dum governo nem com os interesses duma oposição em combatê-lo. Governo e oposição são Portugal, numa perspectiva de terra livre de coutadas. (O PS deveria distanciar-se desta campanha organizada em cima dos joelhos por membros seus).

Sim, o meu partido é Portugal e o seu povo também. Portugal e os cidadãos têm andado demasiadamente preocupados com problemas de estômago e de vaidade para poderem estar atentos à sua missão histórica. Perderam-na de vista com o enterro de Camões.
Não seria legítimo reduzir os emigrantes a portugueses de desobriga nem utilizá-los para fins escuros.

O economista Pascoal de Lima, referindo-se à iniciativa de os portugueses emigrantes boicotarem o envio de remessas para Portugal diz: "É claro que pode ter um efeito teórico, e sobretudo a três níveis: aumentaria a pobreza, diminuiria o bem-estar das famílias e teria impacto na redistribuição das riquezas no país; representaria uma diminuição do crescimento, do emprego e da produtividade do trabalho e do capital; e pioraria a situação do défice da balança comercial portuguesa".

De facto, os emigrantes/lusodescendentes, em 2010 enviaram para Portugal 2.400 milhões de Euros. Os emigrantes portugueses da Alemanha, de momento 114.552, enviaram 120 milhões de Euros; o valor das remessas da França, com um milhão de portugueses, foi cerca de 180 milhões de euros.

Um sistema que produz emigrantes nunca é favorável ao emigrante. A má consciência nacional quer esquecê-los e o consequente sentimento de culpa quer desprezá-los.
Aqueles que saem são estigmatizados por uma inércia comodista que não tem nem faz por ter. A emigração, num país, já com valores mínimos de natalidade na Europa, fomenta a entropia, a inveja e o ressentimento. A emigração também tem contribuído, em Portugal, para o fomento dum espírito civil rotineiro, acomodado e oportunista. Ela condiz à letargia da nação que, em vez de se habituar a encarar os problemas de frente, foge deles, vivendo do subterfúgio. De facto, ao sair do país o potencial contestador dinâmico que criaria um clima de protesto contra as instituições estatais, evita-se a insurreição e propaga-se a acalmia. A força renovadora e crítica que poderia surgir da insatisfação dissolve-se no tubo de escape da nação que é a emigração.

A ostentação do dinheiro dos migrantes e a experiência acrescentada que trazem, da maior intervenção cívica dos países onde trabalham e da maior correcção cívica de instituições sociais e jurídicas, leva-os, quando estão de férias, a criticar um status quo que se sente provocado e se quer aceite. Isto acirra a inveja nos que ficam e conduz a uma agressão latente que se traduz num ignorá-los nos meios de comunicação social, interessados, quando muito, em histórias de coitadinhos.

A administração pública portuguesa, embora uma das mais modernas no mundo, a nível de dados e de serviços computadorizados, continua com um funcionalismo frequentemente antiquado, a nível de mentalidade.
O senhor licenciado que tem cargo é o senhor doutor e o outro que se encontra do outro lado do balcão é frequentemente reduzido a cliente ignorante que se procura despachar mas não servir.

Muitas repartições públicas ainda funcionam como um sistema a fundos perdidos. O “sistema dos amigos, e da companhia limitada dos camaradas” emperra o sistema.

É a lei do progresso na continuidade: a máquina do poder instituído em Portugal, antigamente, favorecia a burguesia; a partir da República favorece os parasitas e os oportunos. Antigamente, viam-se obrigados a sair, os pobres e os voluntariosos, hoje, o que é mais grave, são obrigados a sair também os académicos.

A situação de Portugal é tão séria que não será possível levantar-se sozinho dum pântano financeiro em que os crocodilos se encontram por todo o lado à cuca. Interessante seria se todas as comunidades portuguesas na Alemanha e na França levantassem a sua voz perante a opinião pública dos respectivos países solicitando que invistam em Portugal. Só o investimento estrangeiro poderá tornar-se numa medida racional que evite a bancarrota dos estados da periferia. Todas as outras medidas podem revelar-se num atentado à democracia.

António da Cunha Duarte Justo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Campanha para 2012



Já que colocam fotos de gente morta nos maços de cigarros,
por que não colocar também:
de gente obesa em pacotes de batata frita,
de animais torturados nos cosméticos,
de acidentes de trânsito nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas,
de gente sem teto nas contas de água e luz,
e de políticos corruptos nas guias de recolhimento de impostos?


Enviado por Francisco Amorim
Arquitetura & Decoração
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Barra - Rio de Janeiro - Tel.: 21- 2496-5884 / 21-9421-4836

Nextel : 21 7832-8005 / ID 55*98855*1


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXI

Escola Alfredo da Silva Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 84x92cm

Na minha viagem para a pequena praia fronteira à "Casa Fantasma" (ver LXVIII), depois de passar em frente da Escola Alfredo da Silva, tem de se circular por um estreito carreiro de areia solta, com pequenas dunas de ambos os lados, pontilhadas aqui e ali por tufos de eruca e cardos, as plantas que permitem a outras, como o gravieiro ou feno-das-areias, com sistemas radiculares mais eficientes, segurarem a terra para colonização de outras espécies.
Nestes carreiros encontram-se frequentemente sinais das actividades que marcaram a vida das populações ribeirinhas desta margem do Tejo: instrumentos de trabalho, pequenos cais, moinhos de maré, marinhas que foram de sal, embarcações a necessitar de reparação…
Esse caminho, com a sua beleza selvagem, serviu-me de inspiração para esta obra. Ainda lá está, mas o tecido urbano continua a aproximar-se…
Inexoravelmente?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um breve resgate fúnebre

Corpo que me preenches!!
Que andar levas tu em mim??

Ainda te vejo vivo meu bom amigo.
Que coisa esperas de mim?
Mais cicatrizes que te crio ignorando que vives?

A sede que trago comigo insaciável à nossa alma,
A tua predestinante obediência sempre às minhas ordens.
O que mais haverá que nos une?

Se não nos salvarmos um ao outro
Será o universo a escolher,
E a alavanca da morte rodará três vezes
Com o chão a ruir de baixo dos teus pés.

És a matéria viva que escolhi para me apresentar ao mundo,
Abriste o utero da mãe que nos contemplava estendida pela dor.
Ai! Se o poder que ainda detenho conservasse a luz dos teus olhos,
Se o mar febril te protegesse quando pousaste em terra virgem,
Teria nossa alma gritado “vitória” e em ti o sol de inverno nunca seria tão frio.

AH! Quem me dera
Ser a solidão a companhia de tudo,
Que todas as coisas nos possuíssem em sabedoria,
Que as almas se unissem para contemplar o mundo,
Que todas as emoções pensantes em verdade fosse o que há para lá dos livros
Que todos os deuses carregassem o universo rumo áquilo que é natural.

Ah meu corpo, tu quem sofres
Mártir de todas a minhas decisões demasiado confusas
Pela guerra que trago comigo todos os dias quando me levanto.

E quando te deitas a cama está fria,
Morreu o dia que a mortalha te cobre,
Ouve-se ao longe o uivo da insónia,
E a noite se estende para sempre na escuridão.

                                                                                                                Diogo Correia
                                                                                                            Lisboa  20/12/2011

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


TROÇAR NÃO É BONITO

 
Naquele tempo o mundo estava dividido em pobres, ricos e remediados. E o mundo estava ali, era vizinho, ao fim da rua, nas casinhas térreas de telha vã e sem luz eléctrica, no outro lado da rua, na mansarda bem alimentada e segura. O mundo estava sentado, ao meu lado, nos bancos da escola, na ardósia que poupava os cadernos de papel pardo aproveitados ao mais ínfimo espaço e nas malas de cabedal com estojos de lápis e esferográficas e caixas de lápis de cor às dúzias. Andava pela rua, em correrias de bola e esconderijos, vociferando palavrões. Não era o caso de que ele não se encontrasse nos bufetes das sociedades musicais e recreativas ou deixasse de se cruzar nos passeios e nas mesas de cervejas e hilariação. Mas a todos era comum o discurso da fartura, da escassez e da suficiência sobejante. O Marçal que, segundo o Chico Armando, vivia num chalé de prata, dada a chaparia reflectora que lhe amparava o telhado e a parede ventosa da barraca, o Marçal dizia que o Júlio do café era rico por ter carro e um estabelecimento e, por sua vez, o Pedrinho da Professora Arlete que também era dona de uma padaria, considerava-se um infeliz por não ter os mesmos carros eléctricos com que um amigo brincava sobre os mosaicos de um terraço debruçado para um ajardinamento de laranjeiras.
Era assim que todos conheciam o seu lado da linha e mesmo quando algum rosnava, se a coisa estava para lá da inveja, era aceite que apenas o esforço ordeiro e vagaroso poderia proporcionar a passagem de um estádio a outro, embora sempre dentro do respeito daquele equilíbrio em que o mundo estava repartido em três partes.
Talvez por isso os miúdos aparecessem com teorias de umbigo que apelidavam de vadios os gaiatos que não brincavam em casa ou, em contrapartida, chamavam de meninos da mamã a todos aqueles que não podiam beliscar as calças vincadas e os sapatos brilhantes. Bem, olhando o jardim a partir do ar aquecido por detrás dos vidros de janelões por onde passaria um homem em pé, minha irmã e primas riam com as macaquices do Bétis e dos mariolas que se enchiam de nódoas de terra lamacenta, no entanto, ainda agora estou em crer que dificilmente ultrapassariam as gargalhadas de quem atira a moeda à foca; e mais tarde vim a saber que, apesar de cobiçadas, ai não que não eram, apesar disso, a gentileza lhes era devolvida e elas eram tidas como inúteis que jamais serviriam para dar conta da casa de um homem. Hoje sou capaz de me recordar da confusão de quem se espantava com a troça e os remoques com que muitos caçoavam dos modos e dizeres de quem não tinha de seu, tal como me chocava a chacota com que as boas maneiras eram recebidas como caganças de quem tem a mania de ser superior aos outros. E os meus olhos tanto se perdiam nas recomendações da mãezinha, como nos sorrisos descuidados de miúdas que apenas se preocupavam em passar o tempo que lhes restava antes de começarem a trabalhar. É claro que eu também mostrava os dentes com as anedotas sobre as particularidades daqueles que proferiam mal as palavras ou manifestavam desconhecer tantas das coisas que vinham nos livros. Com isto não estou a apresentar uma defesa do miúdo que era, tão fácil que é admitir a graça do empregado do bar que confundia as toilettes com as tabletes e se apressava a apontar a montra a quem pretendia lavar as mãos. Fosse como fosse, à medida que fui crescendo, cada vez mais me foram confundindo aquelas carapaças com que se pretendia a imutabilidade da ordem.
Não sei dizer se a minha vocação literária adveio das minhas preocupações ou se estas se me revelaram por efeito daquela. Certeza tenho que ambas, são, em mim, uma atitude que data do despertar da puberdade. Provavelmente surgiram independentes e coexistiram e quando me foi dado a inventar o primeiro poema, a que não terá sido estranha a influência de quem falei em outra altura, é compreensível que tenham aparecido em conjunto e a peça em causa tenha registado a preocupação com a injustiça no mundo, o tal mundo que ainda estava dividido naquele triângulo primordial. Para o caso interessa que dali brotava a minha perplexidade.
E se ela tinha seara para a foice.
Até pelo simples facto de o mundo estar ali, como vizinho.
Pois quem não sabe que as pernas crescem e se fazem corredoras? Que a alma se agiganta e a omnipresença obrigatória de um tecto se transforma numa prisão?
Ora essa, como é que uma pessoa sensata poderia proibir um rapazola saudável de fazer a pira e meia e de cabecear para golo? Era isso que os meus pais pensavam, além de partilharem a opinião que não me fazia mal nenhum conviver com as outras crianças, muito pelo contrário e sempre eu me reparti entre amizades que não permutavam umas com as outras. Devo até confessar que isso me agradava. Ai não que não me sentia bem dentro das roupas irrepreensíveis com que desfrutava os sofás do A. J. para escutar as últimas novidades dos Beatles e dos grupos que vieram depois. Então não eram uma felicidade as brincadeiras e mais tarde conversas com o António João e as irmãs, a descoberta dos movimentos sob a intermitência das lâmpadas de néon e os lanches, no fresco das latadas do quintalão. Mas era tão bom trocar impressões sobre “Os Cinco” como nadar entre uma margem e a outra do esteiro, ou jogar às escondidas entre varinos e fragatas com aqueles fatos de banho roçados e fora de moda que raramente contactavam a frescura do oceano. E se me entusiasmavam as deambulações que A. J. e os outros faziam sobre a vida de outros planetas, também me empolgavam as opiniões do Chico e do Abílio sobre o Benfica e o futebol em geral e igualmente dava como incontornáveis as aprendizagens ornitológicas que fazia, quer junto de pessoas mais velhas, quer com os meus confrades das arolas e quejandos.
Creio que tão só por cretinice eu não teria compreendido quanto a sorte sorria a uns tanto quanto se negava a outros.
No entanto, quando por vezes me deixava pensar na quietude do meu conforto, o que ouvia eram as palavras do paizinho e da mãezinha, recordando-me o respeito que devia aos outros, tal como nós, todos eles filhos de Deus e, por isso, igualmente dignos.

Portel, 7 de Maio de 1998

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


PLANETA
DOS
PALHAÇOS

Manuel de Sousa
 Luanda - Angola
Capítulo 1 – A Guerra

Era um Planeta quase normal, que orbitava à volta de uma Estrela um pouco maior e mais avermelhada que o Sol, onde os tons das côres eram um tanto mais vivos e luminosos do que os da Terra.
Não fossem seus habitantes terem aspecto de palhaços, nao só porque passavam o tempo pintados e mascarados, mas porque, suas feições eram apalhaçadas e grotescas, em grande parte dos casos, e tudo o resto era aparentemente normal.
As côres da pele tambem poderiam variar de aldeia para aldeia e ir de um lado ao outro do expectro, e as feições diferenciadas, tornavam-se parecidas e características de e em determinados locais.
Os habitantes poderiam apresentar narizes redondos ou arrebitados ou mesmo, com outras variadas formas meio disformes, havendo uns que pareciam autênticos turbérculos, alguns parecidos com batatas e outros, com cenouras ou ainda, com mandiocas.
Para quem ouvisse falar pela primeira vez do Planeta dos Palhaços, iria pensar tratar-se de um Planeta onde só existiam palhaçadas, graças e muito humor constantemente, e sobretudo, paz e harmonia. Mas, pelo contrário, o Planeta estava em guerra há mais de mil anos e tudo porque, metade do Planeta era habitada pelos chamados Palhaços Tristes e a outra metade, pelos Palhaços Alegres.
Uns não podiam com os outros, pelo simples fato de uns apresentarem um semblante sempre carregado e triste e os outros, alegre e descontraído, apesar de ambos os lados, apresentarem o mesmo tipo de atitude apalhaçada que sempre caracterizou os palhaços.
Portanto, não se misturavam e os Tristes viviam em suas Cidades e Lugarejos e os Alegres nas suas respectivas Localidades. Havia uma fronteira que delimitava ambas as metades do Planeta e quem fosse apanhado no lado oposto, era simplesmente aprisionado e jogado em um dos muitos Vulcões existentes no Planeta.
Por vezes haviam batalhas para tentar invadir uma e a outra parte, mas que, acabavam invariavelmente em um empate, pelo que nem uma nem a outra obtinha grandes vantagens.
Ao longo dos mil anos que já demorava a guerra, ninguém se lembra de alguma vez ter havido um casamento ou qualquer tipo de relacionamento ou amizade que fosse, entre a parte de lá e a parte de cá do Planeta, pelo que os Palhaços Tristes casavam entre si e os Palhaços Alegres com as respectivas consortes Alegres.
Mas tudo isto, estaria para breve, em mudança...

Capitulo 2 – O Encontro

Andavam ambos procurando cogumelos para a janta, quando de tanto procurar e procurar, se perderam no meio de uma floresta frondosa e que era tida como sendo cheia de acontecimentos de mistério.
A floresta em questão, era localizada num sítio muito remoto, no sopé de uma região montanhosa fronteiriça onde poucos se atreviam a ir, à exceção de um determinado Palhaço Alegre, tido muito aventureiro e destemido, e de uma determinada Palhaça Triste, também considerada corajosa e tida a aventuras.
Um ramo partido, num lado e um barulho de susto feminino, no outro, despertaram os sentidos a ambos e logo levantaram as cabeças para ver o que os provocara. Deram os dois a olhar um para o outro.
Não sabiam bem o que dizer um para o outro, sobretudo, quando viram serem um e outro, de lados inimigos. Apanhados pela surpresa, a princípio mantiveram o silêncio e um certo ar de espanto.
Olharam ambos em redor, para ver se havia mais alguém, mas nada viram para além deles e das árvores que os rodeavam e dos picos das montanhas lá mais para cima, para os lados do horizonte celeste.
Talvez porque se desse conta de já estar meia perdida e de talvez até, de já estar por distração, no território dos Palhaços Alegres, lá encheu os pulmões de ar e com um ar triste, disse, - Ó Palhaço Alegre, quem és tu e o que fazes no meu lado da fronteira?
Em resposta e ainda meio surpreendido, o Palhaço Alegre respondeu, - Quem está no território alheio és tu!
Ficaram nesta teimosia um bom par de horas e chegaram até a jogar um ao outro, os cogumelos que haviam apanhado para os cestos que ambos traziam a tiracolo.
Já sem nada nos respectivos cestos e com cogumelos espalhados por todo o lado em redor, lá tiveram o consenso de parar o ato agressivo e de voltar a dialogar.
A Palhaça foi a primeira a tomar a iniciativa, dizendo, - Ouve bem! Quem és e o que fazes aqui tão longe da tua Aldeia?
Ele respondeu, - Sou o Príncipe Supremo da Côrte dos Palhaços Alegres e vim aqui para apanhar os meus cogumelos favoritos e tu, quem és afinal?
Ela retorquiu, - Eu sou a Princesa Herdeira da Côrte dos Palhaços Tristes e um dia serei a Rainha de todo o Reino dos Palhaços Tristes e também vim aqui apanhar os cogumelos mais raros e gostosos do Planeta, mas contudo, ainda não respondeste o que te fez passar para o meu lado da fronteira?
Não querendo continuar a teimar de que lado da fronteira estava, ele prosseguiu dizendo, - Minha linda Palhaça Triste, se achas que estou no teu lado da fronteira, pois e apesar de não ver marca nenhuma em lado nenhum que o diga, vou já embora, para não termos que continuar esta teimosia sem graça alguma.
Ele interferiu de imediato, - Palhaço Alegre, o melhor será apanhares os meus e os teus cogumelos, ao invés de perderes tempo com palavras, devolvendo após isso os meus, para que eu também vá embora, pois, já me estou a sentir meio perdida e tão logo será noite para voltar para casa. Se não volto antes do anoitecer, decerto que meu Pai, o Rei dos Palhaços Tristes vai mandar os seus principais exércitos à minha procura e se te apanharem perto de mim, não sei o que te poderão fazer!
De forma estranha, ele viu-se a apanhar os cogumelos de ambos e a colocá-los em primeiro lugar no cesto dela, para depois apanhar os que restavam para o seu cesto. Findo isso, viu que ela havia se sentado num tronco seco ali perto, observando e esperando até ele apanhar o último.
Findo isso, ele dirigiu-se a ela.
- Então, Cara Princesa, ainda aqui estás? Pensei que mal te devolvesse o cesto, que te punhas a caminho dos teus, para evitar que eles venham à tua procura e acabem nos achando aos dois.
Ela olhou para os olhos dele e disse:
- Estava somente a brincar contigo, pois, já passei outras noites nas florestas e em outros lugares recônditos, completamente sozinha e já todos estão habituados que eu regresse sempre sã e salva a casa, pelo que não te deves preocupar com isso. Além disso, já nem eu nem tu teremos tempo para sair daqui antes do anoitecer e tão pouco para chegar a casa a horas, pelo que, o melhor será procurares um abrigo para ambos, onde possamos estar protegidos contra os animais selvagens e as intempéries.
Ele ficou calado por uns momentos, em tom de quem buscava resposta, para dizer:
- Mas isso não me parece sensato de forma alguma. E se vêem em nossa busca de parte a parte e nos apanham juntos, o que irão fazer connosco?
- Para já, não sabem bem onde procurar na floresta e ainda mais à noite. O mais óbvio, será que nos procurem só a partir do amanhecer. Enquanto isso, podemos muito bem passar a noite protegidos e juntos, numa das muitas grutas que por aqui existem, sem termos que nos expor cada um à sua sorte e aos inúmeros perigos que por aqui há à noite -, disse ela.
Assim, ele procurou um abrigo e quase de imediato encontrou uma gruta, que parecia ser cômoda para os dois passarem a noite em paz. Buscou alguns gravetos e folhas secas e fez duas fogueiras, uma perto da entrada, onde já tinha colocado algumas espinheiras, para evitar os animais selvagens, e uma outra fogueira, junto ao local onde iriam repousar.
Pousaram os respectivos cestos num dos cantos e o melhor que puderam, deitaram-se um junto do outro, e sem saberem bem porquê, talvez pelo frio que fazia na gruta, acabaram por se agarrar um ao outro. Os narizes desproporcionados de um e do outro, não tornava o repouso lá muito confortavel e acabaram por passar a noite meio acordados, quase até ao amanhecer.
Mal acabaram de colocar os cestos a tiracolo e de se lavarem ali perto num pequeno regato, começaram a ouvir sons de cães e de gente vinda de ambos os lados da floresta.
Ele foi dizendo:
- Parece que está vindo gente à minha procura do lado de lá da minha fronteira, pelo que o melhor é nós nos separarmos aqui e irmos cada um na sua direção, pois, também há gente vindo do teu lado e que muito naturalmente, vêm à tua procura.
Ela respondeu de forma surpreendente, - Nunca te esquecerei. E só vou fazer o que me pedes, para que tu não sejas feito prisioneiro, se apanhado junto a mim. Hei-de fazer tudo para te ver novamente, mesmo estando os nossos lados em guerra.
Ele olhou para ela, mais estupefacto que nunca e quase a gaguejar, mas com semelhante coragem, disse:
- Não sei bem o que aconteceu entre nós, mas algo de muito mágico e forte, talvez vindo da floresta, nos modificou durante a noite, e, agora só te tenho a ti na cabeça, pelo que, também farei tudo para te voltar a ver.
Ainda antes de partir na direção oposta, ela virou a cabeça para trás e disse:
- Daqui a um mês, regressarei aqui para te encontrar, pelo que espero que cá estejas então!
Ele concordou:
- Assim será da minha parte!
Cada um correu o mais que pode, de encontro às vozes que vinham de ambas as partes da fronteira, para evitar que um ou o outro pudessem ser vistos de parte a parte.
A guerra continuou e os planos de invasão e de novas batalhas iam-se revezando e renovando. Muitos continuaram a serem feitos prisioneiros, pelo que nada previa que haveria um fim para tal conflito entre Palhaços Tristes e Alegres.

Capitulo 3 – O Reencontro e a Paz

Um mês depois e depois da continuação da guerra que já durava mil anos, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres encontrou-se, como prometido, com a Princesa Herdeira dos Palhaços Tristes, no local da floresta combinado.
Contudo, não tendo tomado as precauções e pelas suspeitas que haviam levantado na última vez, em que tinham vindo as partes de cada um deles à procura de ambos, lá estavam pela segunda vez frente a frente, movidos por uma ânsia como ambos nunca tinham antes sentido. No mês que estiveram cada um para seu lado, um fogo ardente e quase insuportável havia crescido no peito de um e do outro, e só este novo encontro veio conseguir acalmar.
Sem palavras, só mexendo os olhos no sentido dos dele, ela esticou as duas mãos fechadas na direção dele e abrindo-as, deixou ver duas pérolas do tamanho de ovos de pomba, sendo uma de prata com um sinal de menos a preto e outro de ouro, com um sinal de mais a vermelho, correspondentes, o primeiro, ao sexo feminino e o segundo, ao sexo masculino.
Ele ficou simplesmente abismado a olhar para ambas as palmas das mãos dela, sabendo que aquelas eram as sementes plantadas no primeiro encontro de ambos, e não se contendo, agarrou as mãos dela com as dele, fazendo-o de forma a envolver aconchegadoramente ambas as pérolas. Um brilho imenso saiu dos dois pares de mãos entrelaçadas, ocultando-as numa intensa bola de luz multicolorida, com raios saindo em todas as direções, para se espalharem pela floresta, num autêntico espectáculo de luz. A luz das mãos foi aumentando até envolver os dois numa única esfera enorme de luz, que irradiava luz para todos os lados. Vieram de todos os cantos da floresta, pássaros e outros animais silvestres e selvagens, acordados e espantados com o estranho fenômeno, atraídos pela intensa radiância ali produzida, que a tudo iluminava como se tivesse de repente virado dia.
No Mundo dos Palhaços, os bebês depois de concebidos pelo contacto, nasciam de pequenas esferas, que mais não eram que ovos de Palhaço, e era na mistura e na simbiose das mãos do casal paterno e da luz que eles produziam neste ato, que se desenvolviam as crianças Palhaços.
Ainda eles estavam envolvidos pela radiante e faiscante luz, quando de um lado e do outro da floresta, apareceram hordas de Palhaços Tristes e de Palhaços Alegres, fortemente armados de todo o tipo de armas, prontos para a batalha, quando se depararam com um dos mais intensos espetáculos de luz e côr já antes visto por um ou o outro lado.
Frente a frente e prontos para um choque violento, ambos os exércitos pararam por momentos face a tal deslumbrante e mágico espectáculo.
Instantes mais tarde, a luz começou a perder intensidade, até que quando foi diminuindo a sua intensidade, se viram no seio do sítio de onde provinha, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres, a Princesa dos Palhaços Tristes e duas crianças já meio crescidas, embora ainda recém nascidas, provindas das duas pérolas que a Princesa havia apresentado ao Príncipe. Pela primeira vez em mil anos, haviam nascidos duas crianças Palhaço de uma relação entre um Palhaço Alegre e uma Palhaça Triste e, ainda por cima, de Principes Herdeiros a ambos os Tronos do Planeta dos Palhaços.
Nem o Rei dos Palhaços Alegres, Pai do Príncipe Supremo, nem o Rei dos Palhaços Tristes, Pai da Princesa Herdeira, à frente de cada um dos exércitos oponentes, sabia agora o que fazer perante tal situação tão desconcertante e complexa, quando até ali haviam estado em guerra permanente.
O que fazer? Prender a ambos e condená-los à morte nos Vulcões ou simplesmente ir avante com uma grande batalha para ver quem ganhava a contenda e ficaria com o poder de prender quem quer que fosse aqui na questão.
Perante tal situação nunca antes vivida e face a tal enlace, só havia agora a via da conversa. Assim, ambas as partes decidiram montar uma tenda gigantesca a meias, metade situada no lado de cà e a outra, no lado de lá da fronteira. No centro, numa das partes laterais, ficaram sentados lado a lado, o Príncipe e a Princesa e os seus dois recém nascidos Filha e Filho, que já andavam e mexiam tão bem como uma criança Terrestre de 5 anos.
As conversas começaram, com ambos os Reis a tomar a palavra. O Rei dos Palhaços Tristes foi o primeiro a pronunciar-se, - Sua Alteza o Rei dos Palhaços Alegres, como sabe a nossa guerra tem mil anos de idade e não foi feita para parar, mas com este acontecimento não previsto, o que poderá propor Sua Alteza perante ambas as Côrtes?
O Rei dos Alegres, diz por sua vez:
- Sua Alteza Rei Palhaço Triste, perante tal acontecimento, só temos duas opções! Jogá-los aos Vulcões aos dois ou então, jogar as crianças de ambos e deixá-los a eles vivos e a sofrer do castigo de tal ato e fruto proibidos, perpretado perante nossos dois Povos.
O Rei dos Tristes, por sua vez disse:
- Sua Alteza dos Palhaços Alegres, sou obrigado a estar plenamente de acordo com as duas opções, pois, entre nós não poderá haver mais sensata solução para esta questão. Entre nós há guerra a mil anos e não será por esta bizarra ocorrência, apesar de ter sido perpretada pelos Principes Supremos, herdeiros de ambas as Côrtes, que vamos simplesmente perdoar-lhes e deixar as coisas assim, pois, a guerra tem de continuar entre nós, saibamos qual foi o motivo que a motivou ou iniciou ou não!
Nisto, ouviu-se uma voz vinda do alto da tenda e como se esta fosse transparente e trespassável, surge do nada um imponente Anjo todo vestido de branco sedoso, que mais parecia constituída por faixas sobrepostas de luz pura e luminescente, que a pairar no alto, disse, - Escutai-me bem ó Reis Palhaços! Mil anos de guerra já bastam. Chegou a hora do entendimento e da paz, e esses, ei-los aqui ao vosso lado simbolizados, são o Príncipe dos Palhaços Alegres e a Princesa dos Palhaços Tristes, que acabaram de à vossa frente, de selar um verdadeiro tratado de amor e de harmonia entre os vossos dois Povos. De ora em diante, eles como Principes Herdeiros de ambos os Reinos, casarão e serão o supremo símbolo da união dos Povos do Planeta dos Palhaços, e seus filhos chamar-se-ão em lembranca disso, Amor, ele, e Harmonia, ela...
A partir deste momento, todos aqueles que tiveram no lado da guerra, irão servir como Palhaços num Planeta chamado Terra e lá, a título de redenção pelos seus atos, irão servir para fazer rir, ou no papel de Bobos das Côrtes Terrestres, ou como simples Palhaços nos Circos e noutras atividades circenses, para animar crianças humanas e por aí afora.
Os Nobres e os mais Altos Dignatários, esses irão criar Escolas para ensinar a arte da Palhaçada aos Terrestres, para que aqueles se distraiam e aprendam a rir, a humorizar e a brincar, sobretudo, naqueles momento em que isso for necessário, e naqueles maiores períodos mais sombrios, de crise ou de tristeza e onde haja necessidade de manter a fé, a boa disposição e a moral, acima de tudo.
Dito isto, todos aqueles mentores, fazedores e partidários da guerra, foram levados pelo Anjo para a Terra e por lá andam até os dias de hoje como Palhaços, enquanto no Planeta dos Palhaços, reina agora a união, a paz plena, o amor e a harmonia...

MANUEL DE SOUSA
Luanda – Angola

Dedicado a todas as Crianças, aos Adultos de todas as Nações e à Consciência Sublime acima de tudo, sobretudo daquela que vela pela permanente Conservação da Vida Animal e Vegetal em todo o Planeta.

Estória de Natal, escrita a 27 de Dezembro de 2011, em Luanda, Angola.