quarta-feira, 23 de maio de 2018


Os Celtiberos

Por volta de 2.000 a.C. começaram a chegar os celtas – Κελτοί em grego – que aparecem na literatura só no século V a.C. Chamaram-se celtas, gálatas– Γαλατάς –, e gaulos ou gauleses  Γάλλοί. O primeiro autor que se refere aos celtas terá sido Hecateu de Mileto(550 a. C.- 476 a. C.), que quando fala de Massalia, diz que fica perto da cidade de Nurax, céltica (Nearchi?). Isso mostra que em certa altura os celtas ocupavam quase toda a Europa central e daí se espalharam pela Itália, Suíça, Boémia, Ilhas Britânicas e pela Península Ibérica, arrastando com eles parte dos povos da Aquitânia, os bascos (?).


Por este mapa de Hecateu, herdado de Anaximandro (!) desenhado meio milénio a.C. vê-se que os celtas estavam já espalhados por toda a parte... que a geografia dele conseguia abranger! E até os Cítios (Scythios e os Trácios) teriam a mesma origem dos celtas, mas não pertenciam ao mesmo grupo. Vê-se até que estariam na Macedónia, que se chamou Galaica, antigo nome de Briântica, na Trácia, e daí seguiram para a Ásia Menor, ocuparam a parte central da hoje Turquia, onde fundaram Ankara.
Por volta de 1750 a.C. toda a atual França estava ocupada por gauleses, celtas, no sul misturados com os lígures, povo ibérico.
Num pequenino livro de poche que há muitos anos comprei, “Os Iberos”, livro já perdido (!) com muita singeleza mostrava como tinha sido o desenvolvimento da Península a partir dos povos iberos e celtas. Os iberos, regra geral, incineravam os seus mortos, guardavam as cinzas numa pequena urna, enquanto os celtas lhes davam sepultura ao corpo.
Um mapa mostrava toda a região da costa mediterrânea e do Algarve com a indicação dessas sepulturas, somente urnas, e à medida que se caminhava para norte apareciam indicações de mistura de ritos iberos e celtas, e no Norte desapareciam as pequenas urnas.
Aos celtas um povo, ou um aglomerado de povos, que ocupou bem mais de metade da Europa, as Ilhas Britânicas e chegaram até Roma, não lhe foi muito difícil ocuparem a Meseta Central da Península e o Norte.
Os romanos, começaram a dar batalha aos celtas, derrotados quando eram parte do exército cartaginês de Amilcar Barca, e foram depois atrás destes. A história da romanização da Península começa pela guerra entre Roma e Cartago. Estes depois de perderem o poderio naval decidiram invadir a Ibéria, iberos e celtas, e formar com eles exércitos para irem atacar Roma. E assim Roma foi avançando, derrotando os cartagineses que já ocupavam boa parte da Península, mas não foram bem recebidos. O primeiro combate importante entre cartagineses e romanos na Península foi a Batalha de Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (atual Tarragona). Os Cartagineses, sob comando de Hanão, foram derrotados.  Indíbil caudilho dos Ilergetes, povo ibero que combatia ao lado dos Cartagineses, terá sido capturado. Quando a vitória romana parecia próxima, acudiu Asdrúbal Barca, com reforços, que dispersaram os romanos sem os derrotar. Assim, as forças opostas regressaram às suas bases - os Cartagineses a Cartago Nova (Cartagena) e os Romanos a Tarraco (Tarragona) - e só no ano seguinte a frota de Cipião venceu Asdrúbal Barca. Depois chegaram reforços de Roma, permitindo o avanço dos Romanos em direção a Sagunto. Durou mais de dez anos esta luta Roma-Cartago na Península, até que os romanos saíram vencedores e começou então a administração romana da Península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, agora integradas no território controlado por Roma.
Levou quase 200 anos para ocuparem toda a península, tendo sofrido muitas derrotas, porque pensavam que ao entrarem na Ibéria iam simplesmente e como “meninos bonitos”, pacificar povos belicosos. Tiveram que lutar muito. Em 182-178 a.C. começam por se chocar com os povos que habitavam o vale do Ebro, entre eles os belos, titos e lusones, estes, apesar de longe, aparentados com os lusitanos.
Em 133 a.C. atacaram Numância, com uma bestialidade inesquecível. Povo arévaco, celta, decidiu lutar e resistir. Um cerco de onze meses, quando conseguiram entrar não tinha um único ser vivo. Os “bonzinhos administradores” romanos destruíram totalmente a cidade e todos os que, fora dela conseguiram apanhar foram degolados. Entretanto os romanos, habituados a comer cereais, tinham que se alimentar de carne! Cozida ou assada dizimou filas de romanos com a disenteria!!
Deram-se mal com os lusitanos, talvez o povo maior de toda a Península. Maior e tão aguerrido ou mais que outros. Viriato não era aquela figura bonitinha de pastor da Serra da Estrela, mas um grande general comandante de imensas forças.
A sua história começa quando o pretor romano Sulpício Galba em 150 a.C. reuniu 30.000 homens dizendo-lhes que receberiam terras e viveriam sossegados. Os romanos colocaram-nos em três acampamentos e os obrigaram a entregar todas as armas, e depois que estavam desarmados mandou as legiões que matassem a todos. Foram assassinados uns 20.000 lusitanos escapando entre eles Viriato que, a partir daí, começou a lutar ferozmente contra os romanos traidores que faziam sempre esta perfídia.
Ataca e sumia com extrema rapidez o que levou Plínio a criar a lenda de que as éguas lusitanas, prenhes só do vento Zéfiro, parem os “Filhos do Vento”, os cavalos mais velozes da Antiguidade.
Vede além no alto cerro a cena que aparece
Todas as éguas ao Zéfiro voltadas
Estáticas sorvendo as auras delicadas
Basta aquilo, e acontece amiúde este portento,
Sem cônjuge nenhum, grávidas só do vento...
Geórgicas de Virgílio (70-19 a.C.)
Derrotou os romanos por diversas vezes e na última, em vez de os aprisionar e degolar todos (!) decidiu fazer a paz e foi nomeado pelo senado romano amicus populi romani.Roma não tinha qualquer intenção de respeitar o tratado, e assim ordenou a Cipião que “comprasse” três amigos e generais de Viriato e o traíssem. Estes o assassinaram enquanto dormia!
Conhecido entre os romanos como dux Lusitanorum, como adsertor (protetor) da Hispânia e até como imperador! Segundo o historiador grego Diodoro da Sicília (ca 90 – 30 a.C.)“Enquanto ele comandava ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele.”
Com traições e bestialidades os romanos “administraram” a Península Ibérica, derrotando todos os povos que se lhe opuseram.
É conhecido o sangue “quente” dos hispânicos. À medida que as legiões romanas se aproximavam de um povo o senado reunia e reconhecendo a sua incapacidade militar propunha render-se, para ainda guardarem uma parcela de poder. Os jovens não aceitavam isso, e chegaram a fechar uma casa do senado e largar fogo com todos os senadores lá dentro. Eles queriam ir à luta! Ainda hoje é assim: os jovens... 

Já nesse tempo havia um entendimento e colaboração entre lusitanos e galaicos. Só depois de assassinarem Viriato é que os romanos conseguem entrar e derrotar a Galícia. A seguir os astures, os cantábricos e todos os outros até aos limites do Pirineus.
Só terminaram as guerras de conquista em 19 a.C. que começaram 200 anos antes!
Sobre os lusitanos fica por esclarecer uma pergunta: não eram iberos, nem celtas. Povo indo-europeu, de onde vieram e quando?
Todos os povos da Península eram bons artífices; trabalhavam o ouro, prata, cobre, estanho, ferro, etc. Nos túmulos dos grandes chefes têm-se encontrado espadas com trabalho lindíssimo

                 

Vamos voltar agora à pergunta do texto anterior: DONCÔVI?
A maioria dos que lerem isto devem ter, pelo menos uma costela portuguesa; os lusitanos, povo indo-europeu, ninguém sabe de onde vieram; os primeiros iberos terão sido os descendentes dos primeiros povos da Mesopotâmia, Pérsia e Afganistão, que caminharam desde o médio oriente contornando o Mediterrâneo, cerca de 15 a 20.000 anos a.C.; os gregos, da Lídia, terão sido depois os colonizadores de Tartesso; os cartagineses, os tais semitas, do sudeste da Península; os gregos do nordeste. Depois os celtas invadiram e ocuparam a Meseta Central e misturaram-se com os povos do norte; os bascos serão uma mistura de aquitanos, celtas e iberos; alguns povos celtas, sempre na Península, falavam o gaulês da Bélgica, outros com metade das palavras vindas da Ilíria (região da antiga Jugoslávia); entretanto chegaram mais cartagineses, com berberes e povos africanos nas suas fileiras e logo a seguir os romenos, outra mistura de soldadesca; quando estes se retiraram entraram os visigodos, povo originário da Escandinávia (os ostrogodos foram para o leste da Europa); mais ou menos ao mesmo tempo os suevos saíram da hoje Polónia e ocuparam a Galícia (foram eles que começaram a usar a palavra Portucale); junto com toda essa turma dos druidas chegaram ainda os vândalos, mas demoraram-se pouco; não tardou que Roderico fosse um falhado e Tarik levou os árabes, mouros, para

Foi assim que Tarik acabou com Roderico. Um infiel contra um infiel !

a Península em 771, e só de lá começaram a ser empurrados três séculos depois, com a ajuda de normandos, franceses, germânicos e ingleses, e saíram de vez em 1492. Os hispânicos respiraram um pouco porque se entretinham a batalhar-se uns com os outros: lioneses, aragoneses, catalães, navarros, castelhanos e portugueses.
Neste meio tempo começaram as navegações e o encontro como novos e desconhecidos povos: africanos, índios das Américas, hindus, malaios, etc.
Surge Napoleão e lá vêm os franceses; e os ingleses para “ajudarem” a arrumar Portugal.
Depois... só do meu lado encontro, não muito para trás, um pouco dos jurunas ou carajás ou mundurucus, um vovô da Suíça, margens do Reno, outro da Normandia, um de Códova, outros bascos de Oyarzum e Alquiza, mais para trás uma vovozinha linda de morrer, uma moura encantada de olhos verdes, que fez vibrar o coração de Lovesendo Ramires, e foi também vovozinha de Egas Moniz (meu primo... um pouco afastado já) e bem mais perto nasceram em Belém do Pará, em A-Ver-O-Mar, Barquinha, Sintra e Lisboa, e eu, no Porto.
Deu para entender? DONCÔVI ? Dificilmente haverá gente mais misturada do que os que tenham, mesmo umas gotas só, de sangue lusitano!
É por isso que eu digo: mestiçagem é o melhor. De qualquer côr ou credo.
Quem souber mais qu’o diga!
Para terminar um pequeno trecho do “Romance d’A Pedra do Reino” do grande Ariano Suassuna:
“... sou o único escritor e escrivão-brasileiro a ter integralmente em suas veias sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia do Reino do Brasil!”
Somos primos!

Francisco Gomes Amorim
10/05/2018


terça-feira, 22 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Em Havana, a noite tem sono na luz. 
Não é só a ausência de comércio que lhe retira os néones e as intermitências dos letreiros e dos apelos publicitários que não estão lá; é sobretudo a rede pública que se exprime em candeeiros de sombras, a condizer com as ruas pouco animadas e com mais recato do que seria de esperar num país com um clima tão quente. 

Mas estamos numa terra que sofre um embargo económico – patético, deve dizer-se – há mais de quarenta anos. 
A riqueza pública não pode ser muita e isso reflecte-se na luz que os homens podem ou não acrescentar à noite. Tal como nas casas de cada um, uma lâmpada é o quanto basta por divisão. 

E depois há os olhos e os ouvidos do imperador e as fardas que pedem a identificação às pessoas em plena calle e que de certeza jamais permitiriam que alguém se lamentasse em público por viver assim.



Os cubanos ganham médias de quinze, vinte, trinta euros por mês. 
Tão pouco.
Mas o estado zela por eles que não pagam impostos e têm a educação e a saúde gratuitas. 

No entanto, há tanta tristeza nos olhos que se cruzam connosco nas ruas. 



Visita ao museu colonial, onde se pode ver como era o interior das casas dos terratenentes, a nobreza de ascendência espanhola pois, pelos quadros das madonas e dos senhores que se vêm nas paredes, os pretos eram escravos e os mestiços moleques. Não por acaso, a élite comunista, ainda hoje, é composta maioritariamente por brancos. 
Pelas porcelanas e os cristais e o mobiliário, mas também pelas divisões e funções correspondentes, podemos adivinhar o nível de conforto dos que tudo tinham e o contraste com a vida de trastes do pé descalço que carregava com tudo. 

Em frente ao palacete de um fidalgo que teve papel proeminente na luta pela independência e que libertou os escravos para que combatessem as tropas espanholas, a fim de a tranquilidade do homem não sofrer beliscaduras, lá está o pavimento feito de madeira. 



Curiosamente, numa ilha em que os índios conheceram a extinção física, o nome de Havana deriva de um cacique que outrora viveu na vizinhança desta baía prazenteira. 



Cada sala de museu tem uma ou várias funcionárias com o imprescindível de nada fazerem. 
Mas aproveitam para tentar ganhar mais uns cobres com os turistas. Pelo cuidado e circunspecção com que agem, dir-se-ia que correm riscos; contudo, não se inibem de propor a troca de moedas cunhadas com o rosto de Guevara ou o convite à fotografia do visitante, seguramente na esperança da gorjeta. 

Aqui tudo é do estado. 

Mas nota-se um esforço nas entrelinhas para completar os parcos orçamentos que têm nas bodeguitas de prateleiras vazias o quase nada que o para lá dos alimentos tem para mostrar e que esses dólares extraordinários podem complementar num mercado negro que certamente existirá. 

Quando quisemos regressar do forte que outrora serviu na linha defensiva contra os ataques de piratas, alugámos o serviço de um particular que nas horas vagas, certamente, faz de taxista com o seu velho modelo que ele mesmo mantem capaz de lhe render o equivalente a muitos ordenados. 
Por acaso reparei que estava um polícia por perto que, se não viu, fez vista grossa e foi um dos funcionários da segurança que chamou o chauffeur quando lhe perguntámos se ali poderíamos apanhar transporte para o centro da cidade. 

Será que isto é uma economia tolerada pelas autoridades ou revelará ela uma corrupção larvar das mesmas? 
A verdade é que as caixas de coíbas que pela calada se vendem nas ruas, para lá das falsificações que os incautos sempre engolem, as verdadeiras têm necessariamente que ter origem nas fábricas que os produzem. A menos que hajam produtoras clandestinas. 

Será que os riquexós que se vêm por aqui e por ali também são propriedade do estado? 



La revolution es un Chevrolet antiguo. 
O parque automóvel simboliza a capacidade edificadora de um regime que pouco mais fez que os complexos desportivos para os jogos pan-americanos de noventa e um. Tal como nas grandes obras que parecem ser, todas elas, anteriores ao socialismo, também os modelos que circulam têm o cunho dos anos, muitos anos; no entanto, os carros americanos da época do rock around the clock e até mais velhos, do tempo da segunda guerra, esses só dão um colorido pitoresco à paisagem pois os seus proprietários são exímios nas manutenções e, se necessário, até são capazes de fabricarem as peças que faltam. 


Mas o iate em que Fidel e os seus companheiros e seguidores desembarcaram para la lucha, para que se conserve, lá está em redoma de vidro, no exterior, em jardim anexo ao Museu da Revolução, onde uma chama permanente celebra os heróis caídos, mas também onde se pode aprender um pouco da história de um país que nunca teve tempo para ser ele próprio. 


Não perco a sensação que certas nuances de Havana me recordam La Valetta. 


A noite da capital tem o semblante dos lugares em que aos corpos nada mais resta que o alargarem-se em declínio. 


     Havana 
 30/03/2004

segunda-feira, 21 de maio de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (305)

Eu próprio, Henri Rousseau, 1890
Óleo Sobre Tela, 143x110cm

Henri-Julien-Félix Rousseau nasceu em Laval, a 21 de Maio de 1844 e morreu em Paris a 2 de Setembro de 1910. Era conhecido também pelo público como o douanier (aduaneiro) por ter trabalhado como inspetor de alfândega. A sua obra foi pouco apreciada pelo público geral e pelos críticos seus contemporâneos tendo sido constantemente remetida para o grupo da arte naïf e primitivista.
Expõe pela primeira vez no "Salão dos Rejeitados", em 1885, quando já contava quarenta e um anos.
Rousseau gabava-se de ter descoberto um género novo: o retrato-paisagem.
Este auto-retrato é um dos quadros decisivos da sua carreira, em que manifesta a ambição de ser um artista universalmente conhecido.

Selecção de António Tapadinhas

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Conferência sobre o Futuro Aeroporto



Reportagem da Alhos Vedros TV sobre Encontro promovido por um grupo de cidadãos, onde se abordou a proposta governamental de localização do futuro aeroporto subsidiário ao da Portela, se vir a localizar na Base Aérea do Montijo.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

LAU GOD DOG - Recalque



Um álbum, uma história. Cada música, uma emoção. #MeioCãoMeioDeus
"Recalque", segundo single do álbum de estreia, "Meio Cão Meio Deus", que foi lançado a 10 de Maio. O álbum que parte da história mental do criador para se tornar universal: cada música corresponde a um estado de espírito, tentando ser uma expressão o mais perfeita possível da emoção que lhe dá o nome.(...)". Pode aceder a mais informações sobre este tema e álbum, no YouTube, ao aceder a este videoclip.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Almoço na “Bodeguita del Médio”, o restaurante onde Hemingway tinha por hábito comer enquanto esteve em Havana, onde morreu, num quarto de hotel que ainda hoje pode ser visitado, encenando mais ou menos o espaço que o escritor deixou, quando partiu, onde nem faltam alguns objectos do homenageado. 

É claro que há um certo aproveitamento turístico do nome daquele homem das letras. Mas é natural e normal que assim aconteça, é até uma das maneiras de preservar a sua memória e a verdade é que a admiração que lhe expressam parece-me sincera.
Reparei que é um dos poucos autores estrangeiros que merece destaque nos escaparates e, numa livraria perto da “Floridita”, onde, segundo dizem, tomava os seus murritos, logicamente merecendo honras de montra. 

O panorama editorial não me parece dos mais edificantes. Se a pequenez será compreensível, atendo às debilidades económicas do país, já o predomínio da literatura política e ideológica terá certamente que ver com o cariz do regime. 

De qualquer forma foi agradável almoçar num local em que o azul das paredes está todo ele decorado pelos grafismos dos inúmeros visitantes que pretendem deixar testemunho da sua passagem. 
Também eu dediquei uma frase ao Mestre. 



Para nos deslocarmos na cidade vale a pena usarmos os serviços do “coco-car”, uma espécie de triciclo com motor e uma carroçaria que imita o feitio de um coco, para fazer jus ao nome. Como o trânsito não tem densidade para que seja caótico e muito menos perigoso, ainda que um tanto ruidosos, permitem-nos deslocações com rapidez, ao mesmo tempo que possibilitam que apreciemos a expressão do traçado da urbe. 
Enquanto na parte antiga a fórmula pedestre, especialmente no que diz respeitos aos cruzamentos com a população local, é a melhor maneira de apreciarmos o fluir de uma malha de quarteirões rectilíneos e apertados nas ruas transversais, já na cidade mais recente é muito agradável disfrutar as vias arborizadas sobre a cadência do “coco-car”. 


Café a meio da tarde no Floridita onde, a um canto do balcão, lá está a estátua do Hemingway junto da qual são muitos os turistas que tiram fotografias. 

Foi ali que ficámos a saber da possibilidade de visitar o tal quarto de hotel. 

O problema é que o tempo que temos é limitado e por isso preferimos ver a pintura cubana. As belas artes ficam do outro lado da avenida. 



Depois do jantar assistiremos a um espectáculo de música cubana que, de acordo com o que nos disseram no hotel onde estamos hospedados, é o que melhor existe em Havana. 


     Havana 
 29/03/2004

segunda-feira, 14 de maio de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (304)


 The Market Cart, Thomas Gainsborough, 1786
Óleo sobre Tela

Thomas Gainsborough, nascido em Suffolk, a 14 de Maio de 1727, faleceu em Londres, a 2 de Agosto de 1788.
Foi um dos mais célebres artistas do Arcadismo.

Estudou em França no atelier de Hubert François Gravelot e no estúdio de um pintor em voga na Corte de nome Francis Hayman.

Decidido a tornar-se um pintor influente na corte inglesa, foi viver para Bath, onde se tornou o pintor preferido da nobreza e da alta burguesia, principalmente devido aos retratos que executava. No entanto, na sua obra também é frequente encontrar paisagens.

Foi um dos fundadores da Real Academia de Londres.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Firmino Pascoal - Mukua Difuba

HOJE LANÇAMENTO MUNDIAL DE:
Firmino Pascoal - Mukua Difuba feat. Ritta Tristany (Audio e Official Video)
2018 Firmino Pascoal
Voz: Firmino Pascoal
Percussão: Yuri Oliveira
Coros: Ritta Tristany e Nando Araújo (Yami Aloelela)
Guitarras e Arranjos: Nando Araújo (Yami Aloelela)
Fotografia e Vídeo: Luís Ferreira da Luz

com distribuição digital Farol Música, Lda. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Manuel (D'Angola) de Sousa


“De Degrau Em Grau Subo Ao Ingreme Céu Escorregadio Da Mitologia Psicotrópica”

Subo degraus da escadaria e desço graus do termómetro
Ascendo com o ar e a ambição ao tôpo da montanha
Trepo que nem um bode montanhês as íngremes encostas
Pulo de um lado para o outro de penhasco para falésias

O mêdo que tenho do mêdo é tanto que me pélo
Receio não sabêr lidar com os tremores que sinto
Escorrego ao mínimo sinal de pavôr de um terrôr maior
Não controlo as emoções e nem o sentimento mitológico

Acredito nas sombras e em tudo o que mexe aparentemente
Escondo os olhos da claridade e da penumbra também
Vejo mal um simples e suspeito barulho no meio do nada
Vislumbro silhuetas em formas indistintas na escuridão

Queimo calorias e outras porcarias que colecto por aí
Bem desejo reciclar tudo o que é lixo atómico ou simbólico
Há que aprender a fazer coisas que sempre pensei sabêr
Ando errado e troco os pés e os cotovelos e tudo o mais

Rapo e raspo tachos furados feitos de alumínio reaproveitado
Minero antigos resquícios de inteligência em profundas minas
Cavo buracos nos cérebros alheios com o pensamento furador
Influencio sem querer e de propósito mentes cultas e ocultas

Quero lá saber se sei ou sou um inculto em plenitude total
Saiam as palavras como me saírem da boca sinto-me feliz
Gingo até de contente por dizer significâncias distorcidas
Pouco me importa se sou ou não realista e minto ao quadrado

Convenço-me amiúde ao espelho que o melhor é ser vaidoso
Acredito em ilusões e em miragens no deserto sem árvores
Que se lixem as boas maneiras e a ética que poucos usam…
Arrepender-me-ia por obrigatória dôr própria de consciência se estas fossem atitudes minhas…

Acabaria por auto-condenar-me a ficar calado e quieto na mansidão da eternidade moral…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 8 de Maio de 2018, em Alusão à necessidade de existirem práticas de educação forte e de ética e moral firmes, sobretudo no sistema educacional total, a fim de que tenhamos uma Sociedade muito mais harmoniosa e consciente e virada para as questões ambientais e o comportamento digno, de boas maneiras e honesto…

“Viva a Verdade e a Realidade Prática acima de tudo, como valores orientadores essenciais da Sociedade…”

terça-feira, 8 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A praça da revolução é um imenso terreiro rodeado de edifícios governamentais e pela sede do Partido Comunista no seu ponto mais alto. Ao centro e bem ao estilo da arte imponente da consagração dos poderes políticos, um monumento a uma revolução anterior àquela que agora as multidões festejam e apoiam, ao sabor dos longos discursos do comandante supremo, o camarada Fidel que permanece fiel, hasta la vitória, ao socialismo que o Che, o ícone de la revolucion o muerte, lá está, numa das fachadas, em contornos de ferro a preto, para lembrar aos cubanos o muito que devem à imposta igualdade que, só na aparência das pretensões, gerou uma sociedade de iguais. 


Mas a cidade é bonita, mesmo tendo em conta as chagas que a economia estatizada lhe provocou, a luz que envolve o casario espreitando o mar, deixa-nos ver o rosto de uma urbe cheia de personalidade, ainda que nos últimos decénios possa ter perdido a alma. 

É lamentável o estado de degradação a que se deixaram chegar muitos edifícios, literalmente a cair, em alguns casos, esventrados e sujos naqueles em que podemos, eufemisticamente, falar de envilecimento. 
É incrível como há pessoas a morar em tais buracos, sem janelas e com as paredes das varandas caídas. Mas os inquilinos lá estão, olhando o oceano, sempre olhando o oceano e a roupa estendida assim o indica, em andares feitos quintais pelas ruínas que só tem paralelo no caos que são os emaranhados de fios que instalam uma electricidade de lâmpadas tristonhas. 


Há gente que na rua aborda o estrangeiro de mão estendida, por um dólar, curiosamente, uma das moedas correntes no país. 
E também há quem pretenda vender charutos que, sendo uma forma disfarçada de pedir, não deixa igualmente de ser expressão de vigarices várias. 

Contudo, nas ruas, não se avista a população raquítica e estropiada das metrópoles dos países pobres e, seja lá como for, todos andam vestidos e calçados. 



Na cidade velha sente-se ainda a expressão da colonização espanhola, com os palacetes virados para o centro de um jardim interior e as varandas de madeira trabalhada que aqui não foram fechadas por vidraças. 

Há um grupo carnavalesco cubano animando as ruas e as praças têm estátuas dos homens que lutaram pela independência. 

A Catedral, do século XVII, tem o calcário corroído pelo ar que sopra do mar e por dentro ostenta a modéstia da devoção em país oficialmente ateu. 



Regresso ao hotel para o jantar e o necessário repouso. 



Acabei de ler o trabalho de Helena Matos sobre Salazar. 


Dado o erro do vendedor do Círculo de Leitores, li primeiro o segundo volume, mas não faz mal. 


Não sendo o trabalho de uma historiadora, antes algo na esteira de uma análise de conteúdo da imprensa da época e, a partir daí, o registo da imagem que o próprio quis dar de si, para o que teve a cobertura e o empenho activo de alguns dos seus acólitos. 

O resultado é uma leitura incontornável para quem queira compreender o salazarismo e as suas especificidades, enquanto regime totalitário, no contexto dos congéneres nazismo alemão e fascismo italiano. 
Fica clara a criação do mito salazarista de competência e clarividência, tal como da vontade e disponibilidade do homem para exercer o poder de forma absoluta. 
E lá está bem nítida a ideologia nacionalista e católica, o ruralismo assente no poder do pater famílias, como a marca mental que caracterizou o fascismo português que, se após a segunda guerra mundial se transformou num anacronismo incapaz de se renovar e responder aos desafios do desenvolvimento capitalista que então se verificou, não deixou por isso de ter o mesmo culto do chefe que os congéneres e de pretender organizar todos os detalhes da vida dos portugueses enquanto foi vitoriosa. 

Agora fico cheio de curiosidade pelo primeiro volume. 



A noite, em Havana, tem o timbre de um país policiado. 


     Havana 
 28/03/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Matos, Helena, SALAZAR, Vol. 2, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003

segunda-feira, 7 de maio de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (303)


Praça do Castelo, Autor, Denis Mandarino
40 x 100 cm


Denis Mandarino, nascido em São Paulo a 7 de maio de 1964 é um compositor, escritor e artista plástico brasileiro.

Escreveu em 1995 a Teoria da Percepção Quadridimensional, na qual afirma que os conceitos por detrás da perspectiva renascentista envolvem quatro dimensões, em vez da tridimensionalidade que habitualmente lhe é atribuída.

Em 2007, publicou um manifesto literário propondo o Versatilismo.

"No Versatilismo não existem concursos de arte, pois nenhum homem, ou grupo, está apto a julgar o trabalho de outro(s) homem(ns). Um crítico de arte analisa uma situação sempre de um ponto de vista profundamente limitado, porque limitados são os seus conhecimentos. Os concursos e prêmios podem ser formas de dirigir a opinião pública e, desse modo, valorizar este ou aquele artista em busca de vantagens financeiras ou sociais, entretanto éticas iniciativas culturais são louváveis."

Fonte: Universidade de São Paulo - Trecho do Manifesto Versatilista (2007)

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cacaueiro


"Se entre pedras pode haver uma flor, porque é que entre nós não pode haver amor?" Surripiei esta romântica frase  de uma ervanária de Viana do Castelo aquando da estada no Hotel da Fábrica do Chocolate e visita ao respetivo museu.
O cacaueiro vai ser o protagonista da próxima lição de fitoterapia.

Miguel Boieiro


Depois de ter andado por várias roças de cacaueiros na ilha de São Tomé, visitei na Tasmânia (Austrália) a fábrica de chocolates da Cadbury e, mais tarde, o magnífico Museu do Chocolate da cidade de Colónia (Alemanha). Modéstia à parte, este era já um currículo chocolateiro invejável, mas faltava ainda conhecer a Rota do Chocolate organizada pelo Cacau Clube de Portugal, cujo itinerário abrange Aveiro, Porto e Viana do Castelo. Esta persistente “cacaufilia” foi estimulada pela tertúlia “Do Cacau para o Chocolate”, realizada em março na Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal, brilhantemente dirigida pelo professor gastrónomo Virgílio Gomes e pela leitura da obra, que vivamente recomendo, “Um Ano de Chocolate”, de Odete Estêvão.

Na Rota do Chocolate há a destacar a visita à “Feitoria do Cacao” em Aveiro, a pernoita no Hotel Fábrica do Chocolate, integrando a visita ao respetivo museu interativo na antiga fábrica de chocolates vianense, em Viana do Castelo e finalmente o passeio pelas tradicionais chocolatarias do Porto: “Equador”, “Maria Chocolate” e “Chocolataria das Flores”. Não é possível mencionar neste singelo escrito os riquíssimos pormenores, sentires, saberes e sabores que o cronista fruiu, mas deu para refletir e aprender. Condensa-se, a seguir, numa síntese imperfeita, de formulação obviamente discutível, algo do muito que foi apreendido.

O cacaueiro, ou seja, o Theobroma cacao é uma pequena árvore que geralmente não excede os 6 metros de altura, existente apenas nas regiões tropicais, mais propriamente numa faixa que raramente ultrapassa a latitude de 20 graus acima e 20 graus abaixo da linha do equador. Desenvolve-se em solos férteis com pluviosidade elevada, temperaturas que variam entre os 18 e os 32 graus centígrados e à sombra de árvores de maior porte.

Os botânicos incluíram o cacaueiro na família das Malvaceae. A planta é perene, estando em flor e frutificando durante todo o ano. É uma espécie caudiflora, ou seja, as flores e os frutos surgem ao longo do tronco principal e nos ramos adjacentes. As folhas são grandes, pecioladas, elípticas ou oblongas e alternas. As flores surgem aos cachos, muito pequenas, esbranquiçadas, em forma de estrela. Os frutos são carnosos e oblongos, cuja cor que, contudo, não indica o estado de maturação, vai do amarelo ao vermelho e quando secos passam a castanho-escuro. No seu interior, as sementes de cacau (30 a 40 por fruto) encontram-se encapsuladas numa polpa branca agridoce que serve para preparar uma excelente bebida refrescante, como a que nos foi dada a provar à chegada ao Hotel Fábrica do Chocolate.

As civilizações pré-colombianas desde há 1500 anos a.C. já utilizavam uma bebida amarga confecionada com as sementes do cacau, a que chamavam tchocolat, considerada estimulante e afrodisíaca. Diz-se que o imperador azteca Montezuma bebia, por dia, 50 malgas dessa bebida para aumentar o seu vigor. Acrescente-se que Theobroma se decompõe em theo (deus) e broma (alimento), logo, “alimento dos deuses”. O seu valor era tal que chegavam a utilizar as sementes como moeda de troca.

Os espanhóis trouxeram para a Europa essa bebida divina a que se adicionou açúcar, frutas e especiarias como a baunilha, entre outras. A massa do cacau originou a tablete de chocolate. A junção de leite em pó foi uma invenção de Henri Nestlé que teve enorme sucesso e o chocolate, finalmente, universalizou-se.

A maturação dos frutos demora, em regra, 5 a 6 meses. A colheita é feita manualmente e os frutos são esventrados para retirar as sementes, grãos, castanhas, ou favas, como também são chamadas. Dá-se depois a fermentação e a secagem. Nas respetivas fábricas do chocolate procede-se à torrefação, à retirada da casca, à moagem para obter a pasta de cacau que contém cerca de 50% de gordura (manteiga de cacau), ao envelhecimento, à conchagem, à temperagem e à moldagem. Bem, o processo é complexo e este escriba não dispõe de conhecimentos suficientes para detalhá-lo. Quem quiser saber mais visite, por favor, a Feitoria em Aveiro e o Museu em Viana.

O cacau proporciona um sem número de especialidades gastronómicas bem mencionadas no admirável livro de Odete Estêvão. A manteiga de cacau que derrete à temperatura do corpo humano (36 graus centígrados) é usada em medicina e em cosmética. O cacau serve para confecionar batons, champôs, velas, sabonetes, cervejas, sorvetes, geleias …

Ninguém é alérgico ao cacau, pelo contrário. As alergias que porventura poderão surgir são devidas, ou ao leite, ou à lecitina de soja, ou ao açúcar ou a outras incorporações adicionadas nos chocolates.
O cacau é muito rico em antioxidantes e contém centenas de compostos úteis para a saúde, entre os quais, teobromina, cafeína, cálcio, cobre, ferro, magnésio, manganês, potássio, zinco, vitaminas B, C, E e provitamina A. O chocolate negro (com mais de 70% de cacau e sem açúcar) é um superalimento com as seguintes propriedades no que respeita à saúde: antidepressivo, estimulante da serotonina/cérebro, preventivo das doenças degenerativas, diminui o risco de enfarte, melhora a circulação, combate as doenças intestinais, aumenta a sensibilidade à insulina, baixa o colesterol, possui ação anti-inflamatória, fornece energia e desperta o humor e a boa disposição.

Chega?

quarta-feira, 2 de maio de 2018

EG99



ESTUDO GERAL
abr/mai     2018           Nº99

"Não basta ouvir o silêncio fora. É preciso silêncio dentro. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia"
(Rubem Alves)

Sumário
dueto luso-brasileiro
uma outra nau
sobre livro de Eduardo Aroso
para livro de Pedro Martins sobre Jaime Cortesão (no prelo)
ensaio, gentilmente partilhado no EG pelo autor
na Síria...
teatro politécnico
a novela literária do Estudo Geral, às terças
acrílico sobre tela
Alhos Vedros TV, entrevista de Luís Santos e realização de Luís Rosa



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terça-feira, 1 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Havana, finalmente!

A viagem foi cansativa. Mais de dez horas dentro de um avião e, à chegada, duas horas de autocarro entre o aeroporto de Varadero e a capital.

Agora o quarto do hotel e a noite de sono que nos espera e que esperamos seja revitalizador.
Há um mundo a descobrir a partir de amanhã.


E o mar, visto do Malecón, dá sinais de vida com a espuma que salta sobre o passeio costeiro.

A cidade tem o silêncio das vias sub-aproveitadas pelo tráfego.


     Havana
  27/03/2004