quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Textos de José Flórido

 

LÍNGUA E LINGUAGEM

ORIGEM CONVENCIONAL OU NÃO CONVENCIONAL DA LÍNGUA


"O Deus eterno formou de terra todos os animais dos campos e todas as aves do céu, trazendo-os à presença de Adão para que Adão visse como Ele os nomearia e para que todo o nome que Adão viesse a dar a cada ser fosse o seu verdadeiro nome" (Génesis II - 19,20)

"A minha pátria é a língua portuguesa" (Fernando Pessoa)


Língua e linguagem não são a mesma realidade: A língua é um código constituído por um conjunto de símbolos; a linguagem é a utilização oral ou escrita desse código durante o processo de comunicação. Assim, a linguagem apoia-se na língua.  Mas esta, do ponto de vista da maior parte dos linguistas do nosso tempo, tem apenas uma origem convencional. Por isso, Pierre Guiraud afirma num dos seus livros sobre 'Semântica' que um dos postulados da linguística moderna é o facto da língua constituir uma série de símbolos arbitrários, 'não existindo qualquer relação natural entre o nome e o objecto nomeado'. Será, portanto, em virtude de uma relação meramente convencional que as palavras "cavalo", "cheval", 'horse' ou 'pferd' designam o mesmo animal. Mas será mesmo assim? Não pensam desse modo os que defendem a origem transcendente da língua. Alguns fundamentam-se na Tradição bíblica, segundo a qual (atente-se na citação acima apresentada), "Deus determinou que fosse atribuído a cada ser, não um  nome qualquer, mas o seu 'nome' (1) verdadeiro". E é interessante constatar que já vem de há muito  tempo essa controvérsia: Assim, entre os defensores da formação arbitrária das palavras, destacamos Demócrito e Aristóteles, sendo um dos seus principais argumentos (que ainda o é no nosso tempo) que se a formação das palavras não fosse arbitrária, existia apenas uma única língua. Mas entre os defensores da origem sagrada da língua, citamos Heraclito, Sócrates, Pitágoras e Platão, segundo os quais, os primeiros homens, dotados de linguagem, teriam, graças à sua intuição, atribuído os nomes em conformidade com a realidade intrínseca dos seres.

No entanto, a questão parece longe de estar resolvida. E tudo o que diz respeito ao segredo das 'palavras',  assume especial importância, a partir do momento em que se reconhece que as línguas, apesar da sua diversidade, se formam e evoluem segundo um processo  natural, expressando a psicologia e a história de cada povo. Foi certamente o que  Fernando Pessoa revelou, quando afirmou que "a sua pátria era a língua portuguesa". Não estava a pensar somente na origem 'convencional' da nossa língua. Pois, ainda que se não deva excluir uma certa arbitrariedade na sua formação, há, com certeza, outra realidade mais profunda por detrás, e para além de tudo isso..      

(1)   Note-se que 'nome' (do lat. 'nomen') significava propriamente a "essência" de um ser.

José Flórido, 4.9.2022


Comentário:

Luis Santos

Querido Amigo, vamo-nos permitir pensar em voz alta a partir das suas belíssimas palavras, por isso, perdoe as banalidades das perguntas que o seguem:

Trouxe-nos à memória um livro de há muito tempo que tem como título "A Escrita começa na Suméria". Não fazemos ideia da sua veracidade, mas faz pensar entre a expressão oral (linguagem) e a expressão escrita (língua), sendo provável que esta se tenha desenvolvido a partir daquela, na múltipla, imensa, diversidade linguística que conhecemos, na Torre de Babel.

Vem-nos também à memória o latim (e também a flor do lácio, a bela designação do poeta Olva Bilac sobre o ramo do latim donde terá derivado a Língua Portuguesa), hoje uma língua morta, mas também o sânscrito e as linguagens védicas somente na sua expressão oral, antes de terem forma escrita, talvez raiz mais funda das línguas indo-europeias... claro que o latim instituído no império romano lhe é posterior, mas, pergunte-se, donde vem o latim?

Situamo-nos, depois, no Velho Testamento "no início era o Verbo", ou seja, o som que, posteriormente, ganharia forma escrita. O som criador, o Verbo capaz de criar os céus e a terra. E naturalmente pergunta-se: será que a língua escrita alguma vez Lhe conseguiu equivaler-se? Ou, por outro lado, será que a Pátria do nosso querido poeta, a Língua Portuguesa, outrora língua franca no Índico, herança templária, alguma vez se Lhe tenha aproximado? Certamente tentou, agora que tenha conseguido lá chegar, duvida-se, não acha? Mas É a Hora.

 

A PALAVRA E O CONHECIMENTO SECRETO


"No princípio era o Verbo... " (João, 1, 1-4).

"No princípio era Brahma e com Ele estava "Vâk", a Palavra" ( dizem os textos védicos).

"O Verbo é chamado no Islão, "Kalimat Allâh" (a Palavra de Deus)

.

Como complemento de uma Reflexão anterior sobre a controvérsia entre o convencionalismo ou não convencionalismo da Língua, onde se põe em questão se existe ou não existe uma relação natural entre o nome e o objecto nomeado, transcrevemos este texto:

"Todas as tradições primitivas, gnósticas ou cabalistas ensinam que há um nome supremo, chave de todas as coisas, mas, também, que cada coisa e cada criatura possuem o seu verdadeiro nome em que se acha contida e expressa a sua natureza essencial, a sua situação e o seu papel na harmonia universal. Esta ideia está presente nas antigas civilizações. Conserva-se secreto o verdadeiro nome de Roma e dizia-se que Cartago fora destruída quando os romanos, por traição, ficaram a conhecer o seu nome oculto".

(...)

A linguagem é uma substância e uma força material, concebida não como uma evasão mental, uma operação abstracta, mas sim como um elemento do corpo e da natureza. Do mesmo modo que o espírito e a matéria, o significante e o significado  confundem-se na unidade.

Desta maneira, a maioria dos sistemas mágicos baseia-se no tratamento da palavra considerada como força realmente actuante. Existem palavras secretas, demasiadamente poderosas para serem manejadas pelos não iniciados e sobre as quais pesam interdições, como há palavras que constituem instrumentos operacionais da encantação e do exorcismo," (Louis Pawels, Jacques Bergier - "O Homem Eterno").

Este assunto, embora pareça de somenos importância para a generalidade das pessoas, representa, quanto a nós, uma questão fundamental, que exige um estudo profundo. Aquilo que, à primeira vista, parece não significar mais do que um entretenimento intelectual, pode, como neste caso, ser responsável pelo processo de degenerescência em que se encontra a sociedade moderna. Despertemos.

José Flórido
5.9.2022

 

Comentários:

Luís Santos

Será que esse(s) "nome(s) supremo(s), chave de todas as coisas", essas vibrações, ritmos, sons, esses mantras(?), "essas reentrâncias que se inscrevem no ar", podem ter plena correspondência entre tradição oral e escrita? Será que é neste sentido que se deve interpretar "a minha pátria é a Língua Portuguesa"? 

José Flórido

É uma observação muito pertinente. E a minha opinião talvez seja esta: Se há uma razão transcendente no facto da' minha Pátria ser a Língua portuguesa', então, esse nome supremo tem de estar presente nessa verdade. Mas, oportunamente, regressaremos a este tema... Abraço.

sábado, 3 de setembro de 2022

Literatura: o pão nosso de cada dia (VII)

 Luís Souta

REALIDADE OU FICÇÃO? 

«a fonte de todos os erros da crítica era uma confusão ingénua entre a literatura e a vida. (…)

A vida era um sistema aberto e a literatura um sistema fechado.»

(A Troca, David Lodge, 1995:39) 

As ligações, proximidades, e sobreposições entre o mundo real e o mundo ficcional são, com certeza, das questões mais antigas e recorrentes nos debates sobre literatura. Tendo presente o alerta de Earl Miner (1992) para uma destrinça significativa, a de que a «literatura é ficção», na perspectiva do mundo Ocidental, enquanto que na perspectiva do Oriente asiático a «literatura é factual», iremos aqui sintetizar alguns posicionamentos, a partir, principalmente, do contexto português.

Ainda que Aquilino defenda que não se deve «conceber o romance como um traslado da vida ou o depoimento num tribunal» (1969:16), que o colocaria na categoria de um realismo documental, o facto é que, para outros (Alexandre Pinheiro Torres e a imensa plêiade dos neo-realistas) «a verdadeira ficção se constrói sempre a partir da própria realidade e a grande razão para criar um romance é ainda a verosimilhança da sua história, intriga e enredo romanesco»1. No extremo, podemos ter a abolição completa dessa linha que separa a realidade e a ficção. Por exemplo, António Alçada Baptista reconhece a «impossibilidade de escrever coisa que não tenha conseguido viver»2. E Teolinda Gersão generaliza-o: «nós só escrevemos sobre aquilo que conhecemos»3; daí ela apontar duas qualidades intrínsecas ao escritor «ser um bom observador» e «ter os pés bem assentes na realidade».

Um dos nomes maiores do movimento neo-realista, Alves Redol, “à maneira de prefácio” ao seu livro Fanga, afirma que «as obras se parecem mais com o seu tempo do que os seus autores» (1963:38).

Compare-se, por sua vez, com o que Miguel Torga enuncia: «De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstracção. É um ser real, que existe no real. Por isso, não poderá evadir-se da vida, que o marca e é marcada por ele. A fundura dessas mútuas cicatrizes é que varia» (1953:77). Ambos perfilham da ideia de ligação estreita ao tempo (histórico) e sendo por ele “marcados”; quer se acentue a influência directamente na obra ou no autor, é sempre essa realidade que acaba por condicionar o produto literário. Basta lembrar que os livros de Torga, em particular os três volumes de A Criação do Mundo, têm muito de autobiográfico; e em Redol, mesmo as personagens por ele criadas partem de uma realidade vivida. Podemos assim dizer que os dois posicionamentos se conjugam.

Por sua vez, Irene Lisboa, logo na abertura da sua novela autobiográfica Começa Uma Vida (1940), confessa não saber, com exactidão até que ponto se manteve fiel à realidade, e atribui as “culpas” à essência da própria memória por essas eventuais efabulações: «Que tom dei eu às coisas conhecidas que contei – o de fábula ou de realidade? Aí está um ponto sobre que posso ter dúvidas. E tê-las sobretudo pelo gosto da memória, que sem querer tudo nivela e suaviza, que de paixões e de banalidades tira indiferentes histórias, novelas…»

«Memória e imaginação (…) são a matéria-prima do escritor», segundo Mário Ventura. Ora o balancear desigual destas duas componentes é que dará, relativamente ao real, o grau de afastamento (maior enfoque no imaginário) ou de proximidade (acentuação da memória). E neste caso, a tendência para a procura de identificações dessa escrita com eventuais episódios autobiográficos. Daí o aviso prévio de Júlio Conrado na sua novela O Deserto Habitado (1974:10): «inspirada na vida real mas sem conotações biográficas.»

Mas até neste registo (o das reminiscências), são inevitáveis falhas e incorrecções da memória. A precisão dos factos, dos locais e, acima de tudo, dos comportamentos e discursos das pessoas perde-se no tempo, mesmo para aqueles a quem se reconhece uma “memória de elefante”. Mais ainda, quando esse processo de recuo temporal se faz muitos anos depois dos acontecimentos, como é o caso dos tempos de escola; em regra, não há deles registos escritos, pois na infância e juventude o primado da oralidade sobrepõe-se à escrita, que em alguns casos se ficou, quando muito, pelo “diário” de juventude4, redigido com outros objectivos que não o de um memorando para uso futuro. Por isso, é de esperar que essas lembranças não reflictam com exactidão o real acontecido.

Mas mesmo assim, seria então mais plausível que o género autobiográfico, que se traduz quer em «memórias» e «confissões» quer em «diários» e «recordações» quer em «autobiografias», fosse o melhor depositário dessa fidelidade ao passado vivido, a “garantia da verdade”, face ao seu carácter testemunhal onde há identificação plena entre autor e narrador. Puro engano, pois, como o garante Torcato Sepúlveda, «a autobiografia pode ser tão mentirosa como o romance»5. Curiosamente, Ruben A. escolheu como epígrafe, para os seus três volumes de autobiografia O Mundo à Minha Procura, a frase síntese de Henry Miller em The Books in My Life (1963) «Autobiography is the purest romance. Fiction is always closer to reality than fact.»6

Na produção literária, são vulgares os traços comuns entre personagem e autor, sem que tenhamos forçosamente que estar a falar de auto-retrato ou autobiografia. Como o nota João Aguiar o «jogo entre autor e personagem é muito pouco claro, muito pouco racional, muito equívoco, mesmo para o próprio autor. Onde é que nós começamos e acabamos? Onde começa a personagem e ela acaba, é complicado dizer»7.

O escritor Manuel da Fonseca declara numa entrevista8: «Uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo – nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo.» Para numa outra entrevista, à Gazeta Musical de Todas as Artes, em 1960, esclarecer como incorpora o real no seu processo interior de criação: «É preciso que a realidade seja já em mim pura invenção para que eu a reconstrua, para que eu a cante»9. E Alexandre O'Neill, posicionando-se numa outra corrente literária (esteve muito ligado aos surrealistas), corrobora o processo descrito anteriormente, quando escreve, na poesia intitulada “Seixos”: «A sua memória tinha passado toda para a sua imaginação…» (1982:476). O imaginário e o real são assim uma realidade indivisível. E do poeta e do prosador já não sabemos se são ficcionistas da realidade ou realistas ficcionistas. Uma questão de ângulos de visão?

Urbano Tavares Rodrigues parece mais cauteloso no “jogo de duplas realidades”, a exterior e a interior ao escritor: «ao tentar reproduzir a realidade de certo modo crio uma realidade paralela que tem as bases no meu mundo pessoal»10.

Já Fernando Pessoa, na sua singularidade, coloca-nos numa outra dimensão. Encarar a realidade como interior a nós próprios e atribuir-lhe veracidade e autenticidade decorrentes dessa génese: «as verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, Deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas». Célebre o primeiro verso da poesia “Autopsicografia” – «O poeta é um fingidor» (1994:110) – glosado em múltiplos contextos de análise. Nesta lógica do «Sou já quem nunca serei / Na certeza em que me minto.» (Poesia Inéditas, p. 72), o poeta não nos mereceria “confiança” como mediador do nosso desejo de conhecer melhor o real. Mas num outro poema – “Isto” – acaba por clarificar melhor que fingimento é esse: «Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração» (1994:111).

Em Vergílio Ferreira, no romance Para Sempre (1983), podemos encontrar pontos de convergência com as posições acima enunciadas por Fernando Pessoa: «E nós diremos então que o real não existe, que a palavra não o designa mas se basta a si mesma e em si mesma se fecha. Nós diremos então que o real é uma ilusão incrustada na própria palavra que o diz. Nós diremos então que a vida mental do homem é uma ficção de si própria.»

Atente-se, ainda, em dois poetas mais próximos da nossa contemporaneidade: Eugénio de Andrade considera que «a poesia é a ficção da verdade» (1995:19) e Pedro Tamen, reconhecendo o carácter confessional e realista da sua obra, declara ser «raro o poema meu que não tem por trás, simplesmente de uma maneira transfigurada (e transfigurada por defesa), elementos concretíssimos do quotidiano»11.

António Lobo Antunes, em entrevista ao Notícias Magazine12, aborda a questão da realidade vs ficção nos seguintes termos: «As crónicas também são ficções, como tudo. O Malcom Lowry dizia que não era mentiroso, criava ficções autobiográficas13. Nós partimos de uma base real e depois inventamos sempre um pouco. É inevitável.» Por sua vez, no livro que reúne as crónicas de José Saramago pode ler-se: «Todas as minhas histórias são verdadeiras, só que às vezes me foge a mão e meto na trama seca da verdade um leve fio colorido que tem nome fantasia, imaginação ou visão dupla» (1971:61).

Assim, entre a “pura invenção” e o “realismo puro” há um sem número de outras gradações que decorrem da vontade de produzir cruzamentos e misturas, conjugando a realidade e a ficção (esse «difícil caminhar na zona cinzenta dos limite de uma e de outra»14). No entanto, importa ter presente as palavras quer de Mário Dionísio, de sentido contrário à proposta do realismo stendhaliano: «A arte não pode espelhar a natureza, mesmo que o queira» (1973:125), quer as de José Saramago «o objecto da arte não é a imitação» (1984:109).

Em suma, «a realidade tem muitas faces» como diz Pascoaes (1937:73) e apesar dos textos ficcionais serem, muitas das vezes, «mais reais do que a própria realidade», para Clara Rocha «a reconstrução do real é a própria verdade do literário» (1992:38). Ideia que podemos ver retomada no livro A História de Murasaki da antropóloga Liza Dalby, especialista em cultura japonesa, em que sustenta: «a ficção cria a sua própria verdade» (2000:452).

E um aviso adicional chega ainda de Bourdieu: «Objectivar a ilusão romanesca, e sobretudo a relação com o mundo dito real que ela supõe é lembrar que a realidade pela qual medimos todas as ficções não é mais do que o referente reconhecido de uma ilusão (quase) universalmente partilhada» (1992:56).

Um esclarecimento final chega-nos de Raúl Iturra, que dedica um ensaio de Antropologia da Educação a responder à pergunta “O que é a ‘realidade’?”. Partindo da ideia, cada vez mais consensual, que a realidade é uma construção social, ele acaba por nos levar a um ancoradouro de convergência onde a dicotomia entre realidade e ficção se tornaria numa (quase) osmose. Iturra adverte-nos que a «realidade é um conceito que reflecte o ser humano na sua dupla dimensão de pensador e manipulador do seu contexto.» O real seria então «uma visão imaginária, uma percepção imaginária da consciência» (2000:28), quantas vezes um conjunto de ideias fantasmagóricas, no dizer de Freud.

E assim sendo, não se vê qualquer impeditivo de as incorporar num acervo de fontes (tidas como “respeitáveis”) para a compreensão da sociedade, das interacções que nela se desenrolam e, em particular, do ser humano, «esse poço sem fundo» (Teolinda Gersão15), esse «labirinto de si mesmo» (Saramago, 1984:97).

 

Notas

1. Serafim Ferreira “Alexandre Pinheiro Torres ou a história como ficção literária”, a Página, nº 92, Junho, 2000, p. 29.

2. Entrevista de António Alçada Baptista ao DNA, nº 144, 28/08/1999, p. 22.

3. Entrevista de Teolinda Gersão ao Ensino Magazine, nº 14, Abril 1999, p. 15.

4. José Gomes Ferreira fala no «fadário diarístico que me persegue desde a infância» (Passos Efémeros, 1990, p. 11).

5. Público, suplemento “Leituras”, 1995.

6. «Sabe-se hoje que a George Sand se confessava mais e melhor nos romances do que na autobiografia deliberada» (Miguéis, 1973:298).

7. Entrevista de João Aguiar ao DN, 31/03/2001, p. 36.

8. Citado no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. IV, 1998, p. 458.

9. Citado no prefácio de Mário Dionísio à 5ª edição do livro Poemas Completos de Manuel da Fonseca, 1975, pp. 18-19.

10. Entrevista de Urbano Tavares Rodrigues ao Ensino Magazine, nº 10, Dezembro 1998, p. 4.

11. Entrevista de Pedro Tamen ao DNA, 23/02/2002, p. 14.

12. Entrevista de António Lobo Antunes ao Notícias Magazine, nº 404, 20/02/2000, p. 34.

13. «Memórias ficcionadas» foi como categorizámos o nosso livro A Escola da Nossa Saudade (1995) e Mário Ventura (2001) classificou o seu Quarto Crescente como «A ficção da verdade».

14. João Paulo Borges em entrevista ao Ípsilon, 26/11/2021, p. 20.

15. Teolinda Gersão in entrevista citada, p. 14.

 

Referências

ANDRADE, Eugénio de (1995) O Sal da Língua. Porto: Fundação Eugénio de Andrade/ Obra de E.A., nº 26.

BOURDIEU, Pierre (1992) As Regras da Arte: Génese e Estrutura do Campo Literário. Lisboa: Editorial Presença, 1996.

CONRADO, Júlio (1974) O Deserto Habitado. Lisboa: Prelo Editora/ Autores Portugueses.

DALBY, Liza (2000) A História de Murasaki. Lisboa: Gótica/ Cavalo de Tróia, 2001.

DIONÍSIO, Mário (1973) A Paleta e O Mundo 1. Mem Martins: Publicações Europa América.

FERREIRA, Vergílio (1983) Para Sempre. Venda Nova: Bertrand Editora/ Obras de V. F., 10ª edição, 1996.

ITURRA, Raúl (2000) “O que é a ‘realidade’? Ensaio de Antropologia da Educação”. Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. 40, nº 3-4, pp. 23-30.

LISBOA, Irene (1940) Começa uma Vida. Lisboa: Editorial Presença/ Obras de I.L., vol. III, 1993.

MINER, Earl (1992) “The fiction of fact, the fact of fiction”. Dedalus – Revista Portuguesa de Literatura Comparada, nº 2, Dezembro, pp. 13-21.

O'NEILL, Alexandre (1982) Poesias Completas (1951-1986). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda/ Biblioteca de Autores Portugueses, 3ª edição, 1995.

PASCOAES, Teixeira de (1937) O Homem Universal. Lisboa: Edições Europa.

PESSOA, Fernando (1994) Antologia Poética. RBA Editores-Público/ Clássicos, nº 9.

ROCHA, Clara (1992) Máscaras de Narciso: estudos sobre a literatura autobiográfica em Portugal. Coimbra: Almedina.

REDOL, Alves (1963) Fanga. Mem-Martins: Publicações Europa-América/ Obras completas de A.R. nº1, 10ª edição, 1980.

RIBEIRO, Aquilino (1969) Portugueses das Sete Partidas. Venda Nova: Bertrand/ Obras completas de A. R., 6ª edição, 1992.

SARAMAGO, José (1971) Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 3ª edição, 1985.

SARAMAGO, José (1984) O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 4ª edição.

TORGA, Miguel (1953) Diário. Vol. VI. Coimbra.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

RETIRO

 Paulo Borges

Temos a alegria de vos propor este Retiro que dedicamos ao Amor e à experiência meditativa do elemento Fogo, no contexto da mandala das cinco energias seguindo a tradição budista tibetana.

O retiro decorrerá sob o signo da poderosa força inspiradora, motivadora e irradiante que é o amor, relacionada com o elemento Fogo, a cor vermelha e a sabedoria que reconhece, aprecia e ama todos os seres e fenómenos.

Abrir o coração e reconhecer todo o imenso potencial amoroso que há em nós é o desafio deste Retiro que decorrerá no Santuário Dewachen, rodeados de uma diversidade e abundância naturais, com uma alimentação consciente e nutridora, propiciando estados de consciência mais abertos e livres.

Tal como tudo o que aqui aspiramos fazer, trata-se de descobrir o ser real sob as máscaras do eu imaginário.

O retiro inspira-se na proposta do meu novo livro: Presença Plena https://www.penguinlivros.pt/.../farol/livro/presenca-plena/

domingo, 28 de agosto de 2022

O TRABALHO SOCIAL E A LIBERDADE

 Luís Santos

Imagem do google

Hoje, estive à conversa com um dos seniores da terra, amigo, oitenta e tal anos, pessoa de incrível jovialidade física e invejável lucidez. Escorreitamente dizia ele: "Em meados da década de 50 do século passado, com dezoito anos, trabalhava na CUF (Companhia União Fabril), e depois de alguns estudos e formação, fui aumentado para 4 escudos (2 cêntimos). Na altura, alguns tinham um dia de folga ao domingo. Depois, apareceu a semana inglesa, onde se começou a descansar também ao sábado à tarde...".

E dizemos nós, a folga ao domingo foi um luxo que as sociedades industriais pariram, porque no seu início a regra era os operários começarem a trabalhar aos 6,7,8 anos de idade, 12 horas por dia, muitas vezes sempre de pé, sem folgas, sem segurança social, apoio na saúde ou licença de maternidade…

Hoje, entre apoios sociais vários, vamos nas 35/40 horas de trabalho por semana e começamos a experimentar a semana de 4 dias, o que será uma realidade para breve e, certamente, que o tempo do “fim de semana” não vai parar de aumentar, mesmo que, neste processo de emancipação do trabalho, às vezes, seja preciso que a orquestra faça uma pausa para, depois, continuar a tocar. Por isso, fundamental mesmo, cada vez mais, é aprender a assobiar com as mãos nas algibeiras, porque, embora estejamos a meio do caminho, a libertação e a aproximação da humanidade de um mundo com cada vez menor dependência do trabalho está para continuar.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Literatura: o pão nosso de cada dia (VI)

 Luís Souta
(texto e foto)

À memória de Ana Luísa Amaral (1956-2022).
Que saudades já tenho do programa
“O Som Que os Versos Fazem ao Abrir”,
conversas semanais da poeta-professora com Luís Caetano, na Antena 2!


LITERATURA E COMPREENSÃO DA CONDIÇÃO SOCIAL E HUMANA 

«porque viver é decifrar o mundo» 
(“Largos os dias”, António Salvado)
 

«Escrevo para compreender» di-lo José Saramago1. O mesmo poderia dizer o investigador social. E aqui encontramos um ponto fundamental de intersecção entre estes dois grupos de intelectuais. Conhecer o mundo (o de hoje ou o do passado), compreender a riqueza e a complexidade do ser humano nesse devir histórico, nas suas múltiplas dimensões, nos seus variados contextos, são finalidades comuns que, afinal, ambos abraçam. De tal modo, que o escritor Alçada Baptista, quando lhe perguntaram o motivo por que escrevia, respondeu:

«A escrita é um meio de investigação»2.

Longe, portanto, de se oporem, os seus produtos – literários e científicos – devem antes interligar-se, complementar-se, ajudando-se mutuamente nessa tentativa, sempre inacabada, de reduzir as trevas e iluminar as sombras da vida das sociedades e dos homens. Mesmo quando não se quer ficar apenas pela “compreensão” dos fenómenos e se procura dar outra “utilidade” social àquilo que se produz, o debate interno dentro de cada um dos campos acaba por assumir contornos de alguma similitude: por exemplo, na literatura, o romance como forma de intervenção social e cultural (neo-realistas) vs a arte pela arte (presencistas); na ciência, os adeptos da investigação pura vs os defensores de uma investigação aplicada. Diferentes posicionamentos, que conduzem a clivagens dentro dos respectivos campos. Não é só a questão da autonomia do desenvolvimento das respectivas actividades, onde a liberdade é o valor supremo a preservar em ambas, que se coloca. É a dimensão política dessa mesma actividade que ganha relevo. E, como sabemos, a esfera do político é factor mais de divisão que de unidade.

Eduardo Prado Coelho, entre muitos outros críticos, escritores e pensadores, considera que

«o romance é, como todas as formas de arte, um meio de conhecimento do mundo»3.

José Saramago (1984:298) dirá, de «aqueles eternos insatisfeitos», os poetas, que essa sua “insatisfação” é já «um particular conhecimento do mundo» (1971:98). Desiderato intrínseco à poesia que Sophia de Mello Breyner Andresen via como a perseguição do real. Urbano Tavares Rodrigues cola-se nesta linha de pensamento e alarga essa finalidade (quantas vezes apenas implícita) à esfera do conhecimento do próprio escritor:

«a literatura, muito em especial, é uma forma, uma tentativa de chegar ao conhecimento e do enunciador se conhecer a si próprio, e de procurar a sua relação com o mundo e as coisas»4.

Edgar Morin corrobora e vai mais longe:

«A literatura, a poesia e a grande arte do nosso século, o cinema5, são escolas de vida, que nos mostram a complexidade dos seres humanos e das suas relações. São escolas onde aprendemos a conhecer o ser humano, não tanto do ângulo impessoal das ciências objectivas, mas como indivíduos que, enquanto sujeito, vive, sofre, ama e odeia, num turbilhão de relações humanas» (1998:4).

Mário Ventura, escritor e também muito ligado ao cinema (fundador do «Festroia» e seu director durante anos), reconhece, no entanto, o papel primordial da escrita:

«Para compreender [o mundo], a literatura continua a ser muito mais eficaz»6.

Compreensão em sentido amplo, mas partindo do particular, do caso concreto. Pois como nota Damon Galgut, vencedor do Man Booker Prize de 2012:

«Quanto mais confiamos no acto de ser local e específico mais universais nos tornamos.»7

A literatura opera mais na esfera do privado do que na esfera pública. Ela “entra” na vida íntima das famílias, descreve espaços e pormenores, revela sentimentos e desejos profundos de cada um dos seus membros, tira das memórias pessoais os registos que, tornados escrita, ficam e perduram. Assim, arrancando das “trevas” do anonimato, do esquecimento, do quotidiano, se recuperam modos de estar, fazer e sentir daqueles que não constam dos arquivos nem aparecem na História, mas têm história e que na escrita criativa do romancista (contista, poeta ou dramaturgo) se tornam “estórias”, que lemos, partilhamos e com as quais nos identificamos. Daí, Honoré de Balzac ter defendido, no prólogo de A Comédia Humana, que o romance é a história privada (secreta) das nações. É essa enorme diversidade de locais, pessoas, acontecimentos, pensamentos e acções, enredadas na técnica inconfundível da narrativa, que faz de um grande romance uma escrita sobre a vida, tal como o defendia o poeta francês Claude Roy. E faz da literatura uma fonte inesgotável de informação e conhecimento, e de uma enorme eficácia nos processos de aprendizagem.

Ora, se nos reportarmos ao mundo escolar, esta função da literatura ganha todo o sentido e amplia, a uma escala imensa, esse universo de descrição (quantas vezes etnográfica) da vida anónima de cada escola. Traz-nos a dimensão do particular, do individual, do concreto vivido e experienciado. Não na lógica de uma História da Educação, mais atraída pelos tombos, na expectativa de aí encontrar o (ainda) desconhecido “documento oficial”, mas de uma “história privada” das escolas, dos alunos, dos professores, das famílias… O acesso aos textos literários constitui, assim, uma ajuda fundamental para a compreensão do mundo académico e para um melhor entendimento da diversidade dos seus agentes. A literatura, na sua especificidade de contar e de nos oferecer saberes, permite uma outra leitura do real, sem deixar, no entanto, de evocar ideias, sensibilidades e particularismos de uma época, em concreto. Devemos ter presente, como nos relembra a escritora Teolinda Gersão, que

«a literatura está sempre marcada por uma determinada época e tem sempre algo de datado»8.

Fernando Dacosta chama a atenção para os condicionalismo existentes durante um período muito peculiar da nossa história – o Estado Novo, fortemente condicionado pela falta de liberdade de expressão, designadamente da imprensa, e como a literatura acaba por captar o real, desempenhando a função de “espelho” social. Os escritores funcionariam assim como uma espécie de “pintores” impiedosos da vida portuguesa:

«Amputados pela Censura Prévia, os jornais não exprimiam as realidades profundas das populações. Eram os romances que o faziam, com tiragens de dezenas de milhares de exemplares, levados, uns, pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, outros pelas estruturas clandestinas da oposição» (2001:186).

Para daí concluir que:

«A sina dos escritores é não calarem as bofetadas que vêem ser dadas à sua volta» (id.:348).

A literatura, apesar dos seus detractores econocratas, continua a ter um lugar insubstituível na sobremodernidade (Augé, 1992) e a ser um tesouro inesgotável de prazer, deleite e sabedoria. O escritor Olivier Rolin (1947-), autor de Porto-Sudão (Prémio Femina, 1994), considera que

«só a Literatura pode dar conta da complexidade humana, e não a História ou a Sociologia».

Também Stephan Ellenwood, presidente do departamento de Currículo e Ensino da Universidade de Boston, encara a literatura como uma verdadeira “escola” para o entendimento da condição humana e desde finais dos anos 80 tem vindo a desenvolver um «projecto de educação do carácter» tendo a literatura como instrumento básico; daí resultou a publicação, em 1993, da antologia The Art of Loving Well, um conjunto de textos clássicos e contemporâneos (mitologia, ficção e biografia), com intuitos interdisciplinares e que permite aos alunos a abordagem à complexidade humana, designadamente aos valores e à ética9.

 

Notas

1. Entrevista de José Saramago ao DN, 18/11/2000, p. 45.

2. Entrevista de António Alçada Baptista ao DNA, nº 144, 28/08/1999, p. 20.

3. Eduardo Prado Coelho, Público, 2001.

4. Entrevista de Urbano Tavares Rodrigues ao Ensino Magazine, nº 10, Dezembro 1998, p. 2.

5. Augusto Abelaira dizia que «o grande romance, hoje, é escrito pelos grandes cineastas» (intervenção no clube de leitura “Sei Apenas Soletrar”, 28/06/2003).

6. Entrevista de Mário Ventura ao DN, 19/08/2001, p. 38.

7. Entrevista de Damon Galgut ao Ípsilon, 07/01/2022, p. 5.

8. Entrevista de Teolinda Gersão ao Ensino Magazine, nº 14, Abril 1999, p. 15.

9. “The Art of Teaching”, Update: Boston University School of Education Newsletter, Fall, 2002, p. 3.

 

Referências

AUGÉ, Marc (1992) Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Venda Nova: Bertrand Editora, 1994.

BALZAC, Honoré de (1829) A Comédia Humana. Porto Civilização, 1978.

DACOSTA, Fernando (2001) Nascido no Estado Novo. Lisboa: Editorial Notícias/ Obras de F.D.

MORIN, Edgar (1998) “Rumo a um novo contrato social?”. Fontes UNESCO, nº 106, Novembro.

SARAMAGO, José (1971) Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 3ª edição, 1985.

SARAMAGO, José (1984) O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 4ª edição.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Regina Correia lê «Desadormecer», de Paulo Landeck


Regina Correia lê "Desadormecer", de Paulo Landeck. Aventureiro de terra e mar, tendo viajado pelos oceanos e pelas sete partidas, estudando as aves e os macacos nus que, segundo Desmond Morris, nós somos, Paulo Landeck parece fazer jus ao nome, ou não lembrará terra aquele "Land..." e o convés de um navio aquele "...Deck"?

Há momentos de partir, há momentos de pensar em partir, há momentos de observar. Abre-se a janela do mundo para se ver o mundo numa rua. Mas está frio, e o coração arrefece, ali, no Everest glacial. Há tanto para fazer, tanto que desadormecer. Até o carro hesita em partir, engasgado, aquecendo com esforço para se fazer ao frio que lhe pede para ficar. Depois, finalmente, desaparece, e leva o mundo inteiro consigo, atirando no fumo do escape a pertinácia da solidão.

João Nuno Azambuja

Ver Aqui: https://fb.watch/e_4mFlGtMC/ (pode aceder na coluna direita do blogue)


terça-feira, 16 de agosto de 2022

À Janela

 


Simplesmente uma janela com paisagem a tremer de calor, mas o rigor da geometria geralmente causa-nos boa impressão.

Luís Santos

domingo, 24 de julho de 2022

Graffitar a Literatura (XXIX)

"O Beijo"

~

Foto: Eva Costa

 Lisboa, Rua do Conde de Redondo


«...um romancezinho, desses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo...»

(Eça de Queiroz)


«Contei-lhe que há muito a desejava e recordei-lhe as minhas breves tentativas de aproximação. Ela não teve dificuldade em compreender que se visitava Sonis tantas vezes era unicamente por ela. Não demorei a arrancar-lhe uma meia promessa de que um dia se encontraria comigo em Paris e que lhe poderia escrever com uma letra feminina, dado que nem o Papá nem a Mamã lhe vigiavam a correspondência se os sobrescritos parecessem enviados por uma mulher que podia ser uma cliente. Pedi-lhe o beijo prometido e expliquei-lhe que não desejava a estúpida e fraterna pressão dos lábios.

– Quero um verdadeiro beijo à francesa – disse-lhe.

Riu. Percebi que me compreendera. (pp. 18-9)

(…)

Na carruagem do comboio voltei apertar a minha Lilian nos braços e verifiquei encantado que ela me beijava naturalmente, inserindo-me a língua eternamente na boca. Os lábios dela davam a sensação se colarem aos meus e tenho a certeza de que o meu beijo suave e o toque da minha língua sobre a garganta, orelhas e olhos lhe devem ter dado o prazer que uma rapariguinha sente.

“Os teus beijos endoidecem-me!” ou “A tua boca enlouquece-me!” Eram duas das suas frases favoritas, quando se afastava do meu abraço tremendo de prazer para voltar a beijar-me uma e outra vez logo a seguir.

Era indubitável que não sentia repugnância física por mim porque acontece frequentemente uma mulher pensar que deseja um homem e quando este finalmente a abraça, haver qualquer coisa, um cheiro, a pele, a forma de abraçar, a respiração, a mais pequena insignificância capaz de destruir bruscamente todas as ilusões que albergava. Lilian gostava visivelmente que a abraçasse e os meus lábios agradavam-lhe tanto como os dela a mim.» (pp. 23-4)

Estes dois extractos foram retirados do livro Memórias Eróticas de um Burguês (Suburban Souls, na 1ª edição inglesa, de 1901), de autor anónimo (Lisboa: Edição Livros do Brasil, s/d, 458 p.), escrito entre Julho de 1899 e Janeiro de 1900. A obra assenta numa estrutura predominantemente epistolar (a correspondência define os limites temporais da história: entre 20 de Outubro de 1897 e 31 de Dezembro de 1899). Tempos de fim de século em que se começava a vulgarizar a máquina de escrever:

«Na minha encomenda (…) enviei um curioso recorte do Figaro e uma passagem do último romance de Zola que acabara de sair copiados à máquina, pois para mudar o curso aos meus tristes pensamentos comprara uma máquina e andava a praticar.» (p. 419)

«Vejo que está a recorrer à máquina de escrever. Tenho a certeza de que fará como eu e de que, depois de adquirir prática e embora por vezes bata mal uma tecla, achará tão fácil que não mais o conseguirão convencer a utilizar a caneta.» (p. 421)

«Só comecei a escrever à máquina no dia 26 depois de duas lições com uma jovem de dedos elegantes. Tinha um trabalho em que necessitava de o fazer. Resolvi tentar e aluguei uma “Nompareil” por um mês. Julguei que poupava algum dinheiro, mas estou a gastar uma fortuna em borrachas.» (p. 422) 

O narrador diz que «esta narrativa é verdadeira» (p. 436) e dedica «este romance de sórdida sensualidade» à sua heroína, «uma das mulheres mais depravadas do mundo». Nele desenvolve as suas teorias «de amor e afecto verdadeiro» (p. 434), analisando, principalmente, a complexa teia de relações entre Jacky e Lilian mas também o clima (algo incestuoso) da família desta (Eric Arvel, o Papá-padrasto, Adèle, a Mamã, e Raoul, o irmão), através de uma «escrita psicológica em que o autor tenta penetrar no mais íntimo das almas dos seus personagens sensuais e revelar os motivos, desejos, ciúmes, etc., que os impelem» (p. 431).

O quadro quotidiano de costumes é profícuo, ainda que pouco se diga sobre o contexto político-ideológico da época, apenas algumas referências ao processo Dreyfus e respectivo posicionamento de alguns dos protagonistas do romance. Mas, em contrapartida, são múltiplas as alusões à imprensa (com alguns excertos nos “Apêndices”, pp. 437-457) e ao campo literário: Émile Zola, Conan Doyle, Memórias de Casanova e esse mimo intitulado A Etnologia do Sexto Sentido, do qual são transcritas algumas passagens (sobre o hímen, a vulva e o buço) cuja ‘cientificidade’, hoje, nos fazem sorrir.

Aquilo que sexualmente chocou a moral vitoriana da altura e que acarretou o longo “esquecimento” da obra e o total olvido do seu autor, nos dias de hoje (quase) tudo nos parece banal (podendo-se ver cenas semelhantes num qualquer filme ou série televisiva a circular na nossa aldeia global). A grande diferença está no lugar da mulher na sociedade: como ela se vê e os outros a percepcionam. E não são apenas os olhos do “macho-burguês” Jacky (que não reconhece capacidades intelectuais igualitárias na sua amante: «As mulheres são astutas e espertas – não inteligentes, porque a malícia e astúcia não implicam inteligência» (p. 414), Lilian, por exemplo, remata algumas das cartas, dirigida ao seu amado, neste teor: «A sua inteiramente submissa escrava (p. 68), A sua escrava adora-o e anseia por o ver (p. 101). Por isso, creio que este man oriented book não deve ser muito atractivo para o hodierno mundo feminino. 

Este mural de MRDHEO (Porto, 1985) preenche toda a fachada lateral da residência de estudantes universitários na Rua do Conde de Redondo (no cruzamento com a Rua Luciano Cordeiro), em Lisboa.

«Nome de rua quieta

onde à noite ninguém passa.

Onde o ciúme é uma seta,

onde o amor é uma taça.

Nome de rua secreta

onde à noite ninguém passa.

Onde a sombra de um poeta

de repente nos abraça.» (p. 214)

 Fragmento de “Nome de Rua” (in Obra Poética, vol. I) de David Mourão-Ferreira (1927-1996), o nosso grande poeta do amor e da cidade de Lisboa. Um gentleman de cachimbo (num tempo em que tal era possível de enxergar nos ecrãs da televisão) muito empenhado na divulgação literária.

Será que o graffiter estaria a pensar noutro fumador inveterado – Humphrey Bogart –, aqui com Ingrid Bergman, no icónico filme Casablanca (1945)? Suposições de quem vê… já que a arte de rua prescinde título, legenda ou sinopse. 


Luís Souta

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Daqui até Já - recensão

por Manuel João Croca

Euedito, 102 págs.

Terminei de ler a obra DAQUI ATÉ JÁ do Amigo e nosso conterrâneo Luís Carlos dos Santos.
Conheço o Autor há já bastantes anos (quase desde sempre), temos até partilhado várias coisas. Sobretudo ideias que sempre surgem nas conversas. Isto para dizer que o “universo” do Autor não me é de todo desconhecido mas, ainda assim, parti para a leitura do livro como quem vai de viagem. Não com o desassossego e a agitação que as viagens por vezes comportam – embora pessoalmente, e com o passar dos anos, tenha aprendido a domesticar esses estados de alma que se tornam cansativos por vezes - , antes pelo lado da sede de descoberta que as viagens quase sempre acalentam.
Embalado pelo título que considero muito feliz (e não fora a “abundância” de letras quase se poderia considerar um mantra) e pela capa atraente (de uma paisagem que conheço bem exceptuando a “chuva de luz” que em boa hora o Autor captou) larguei-me à descoberta.
E os caminhos foram muitos e as latitudes longínquas (mesmo que “cá dentro”), fartei-me de andar embora sempre com gosto e prazer.
De facto, partindo de Alhos Vedros – esta nossa “terra velha” que afinal parece que está mesmo ligada a algumas das mais notáveis realizações que a alma lusa engendrou – acabamos por chegar a Ceuta e até ao Oriente, fazendo escala em muitos lugares que acabaram por corporizar o “império” português do antigamente.
Acabamos também por perceber (ou talvez pressentir) que, afinal, esta propensão para a criação artística em várias áreas e domínios que caracteriza as gentes da nossa terra vem lá de muitro detrás. Se calhar, se calhar…
Se calhar Luís Vaz de Camões e a sua/nossa epopeia a cantar-lhe no peito, se calhar Gil Vicente e a arte multifacetada de variar as formas de contar e dizer, Álvaro Velho concerteza.
Está bom de ver que é um livro de história que nos conta histórias mesmo quando se aventura pelo território das religiões. Também as religiões têm histórias na sua história. E também têm filosofia, claro que sim. Do Ocidente ao Oriente.
Aproximando-nos do fim(?) somos surpreendidos por uma curiosa nota biográfica. Os caminhos de dentro, portanto. Mas, ainda assim e também aí, fartamo-nos de viajar.
Como dizia o amigo Vítor Ribeiro aquando da apresentação da obra , "é sem dúvida um livro de leitura agradável que nos transmite conhecimento, crescimento e boas vibrações."
Inteiramente de acordo. E a prova é que, apesar da mundividência dos caminhos percorridos, não cheguei cansado.
Cabe agora a cada um(a) aceitar o desafio de entrar por esses caminhos e depois contarem-nos como foi. Vão que vale bem a pena.

MJC
06 Julho, 2022

domingo, 17 de julho de 2022

O Valor da Liberdade

 por Luís Santos

Eu não quero ter poder, mas apenas liberdade, de falar aos do poder do que entenda ser verdade. (Agostinho da Silva)

e estávamos nós a pensar que,

não ter partido político não é o mesmo que dizer que não se exerce ação política, nem que não se saiba do materialismo histórico, ou da ética protestante e do espírito capitalista;
não ter pertença a determinada religião, não significa a inexistência de espiritualidade, ecumenismo, sem que se seja proselitista, nem que não se saiba da importància do sofrimento, ou daquele "nada que é tudo";
poder falar como os ingleses, não quer dizer que se seja inglês, não gostar destes russos ainda que se possa admirar a intercontinental Rússia, ou poder ir à Índia sem abandonar Portugal e a Língua Portuguesa, todas as línguas.
A Paz É o Caminho.