domingo, 20 de fevereiro de 2022

É a Hora!

 Paulo Borges

Viver num silêncio maravilhado é a grande alternativa à coisificação e dessacralização do mundo. Quanto Mais crianças, menos capitalistas.

(Foto: manhã de bruma no santuário Dewachen)

Na tradição tibetana diz-se que virá um tempo em que poderes bárbaros se estenderão sobre toda a Terra, dotados de armamento e tecnologia hiper-destrutivos, pondo em risco todos os seres e formas de vida: é então que os guerreiros e o reino de Shambhala se manifestarão, armados de sabedoria e compaixão, e desmantelarão por dentro os poderes bárbaros, vendo que são construídos pela mente e pela mente serão desfeitos.

Na tradição bíblica, no livro de Daniel, o rei Nabucodonosor vê em sonhos uma tremenda estátua em forma humana, composta de ouro, prata, bronze e ferro, como spés de ferro e barro. Subitamente, uma pedra surge, sem mão que a lance, embate violentamente nos pés da estátua, que se desfaz em pó levado pelo vento, enquanto a pedra se converte numa montanha que enche a terra inteira. Na tradição ocidental, com particular repercussão em Portugal - com várias interpretações em Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva -, a estátua são os poderes político-civilizacionais e a pedra transformada em montanha é o reino da consciência divina chamado Quinto Império.

Cada vez mais sinto que Shambhala e Quinto Império dizem o mesmo e que todos e cada um de nós somos chamados a ser - Agora - a divina pedrada e o relâmpago que rasgue e ilumine toda a treva.

Preparemo-nos, porque É a Hora!

Nota: O título e a junção da epígrafe ao texto são da responsabilidade do editor.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Amoríndios

Luís Santos



"(...) quem se priva de tempo e sonho nada mais tema fazer do que marcar a data do enterro"
Agostinho da Silva, 1971

Ponto de chegada, influência de um ideial sincrético, ecuménico, traduzimos por palavras o que nos chega de testemunhos plurais de Amigos que muito prezamos: Cada um de nós faz parte de uma entidade Absoluta, omnipresente, aque uns chamam Deus e outros Natureza, sendo que para nós é uma forma diferente de dizer a mesma coisa, cada Um, um extraordinário corpo/alma(s), onde está incluído todo o Amor divino.

Nós nos explicamos tanto quanto podemos, quanto nos permite esta aura de boa aventurança que vivemos.

Amoríndios, é o que é.

Na foto, A Árvore do Amor, de José Batista, desta vez também em música de Gilberto Gil, o nosso ministro da cultura: https://www.youtube.com/watch?v=3eKnerBU4HY

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Literatura: o pão nosso de cada dia (IV)

 Luís Souta


OS ESCRITORES: capital simbólico e associativismo

À memória do amigo Júlio Conrado
(1936-2022)

«Os escritores vivem sempre os dramas do seu tempo. (…)
Uns esmagados por eles, outros lutando para os ultrapassar».

(Alves Redol, O Cavalo Espantado, 1960:291)


As condições em que o escritor trabalha são muito peculiares, como o evidenciava Maria Velho da Costa na intervenção de tomada de posse como presidente da direcção da APE em 1976: «o escritor, trabalhador à distância, trabalhador no silêncio, decifrador e criador de sinais por espécie de alquimia de cujos processos nem sempre é totalmente consciente»1. Esta actividade intelectual, incentivadora de individualismo e propiciadora da concorrência2 coloca dúvidas quanto ao tipo de elos de união e sentido de grupo entre gente tão díspar e dispersa. Miguel Torga era peremptório: «Os artistas não constituem uma classe» (1976:19).



No entanto, tal não invalidou a criação da SPE (Sociedade Portuguesa de Escritores), em 1956, e a sua “reabilitação” institucional, em 1973, com a designação de APE (Associação Portuguesa de Escritores), onde se vislumbrava uma certa dimensão “para-sindical” no reivindicar de um «estatuto do escritor»3. A ditadura do Estado Novo, acabou por fornecer o “cimento” aglutinador dos escritores – o antifascismo. Nessa “frente intelectual oposicionista” encontramos «a grande maioria dos escritores e poetas significativos portugueses», como o reconhecia o próprio Torga (1976:72). Nesse, como em outros períodos particularmente tensos e conturbados da vida política, o escritor «é sempre uma voz que fala por todos» (Torga, 1976:65), uma espécie de “consciência nacional”, de alguém que se pauta por uma «ética da responsabilidade».

   

Os escritores seriam como que «instituições de liberdade», no dizer de Bourdieu (1992:294). Daí a sua semelhança a um «grupo manifesto». Mas essa força é intrínseca à própria literatura. No dizer de Serafim Ferreira «o “espaço literário” é aberto, total e absolutamente povoado: as visões, sonhos e fantasmas de cada escritor são afinal de todos nós»4. E é nesses processos de identificação que se encontram muitas das raízes mobilizadoras, de empenhamento e procura de um sentido para a vida. Claro que, o atribulado e conflituoso processo de transição democrático (1974-75), também neste como na maioria dos campos, abriu fissuras, aprofundou clivagens, levou a rupturas. Têm demorado a sarar, mesmo na fase de “normalização” em que temos vivido nos últimos anos e que coincide com a «regressão dos intelectuais».


Um outro problema tem a ver com a própria existência ou não de «campo literário»5 em Portugal, tal como Bourdieu (1992) o definiu em As Regras da Arte: Génese e Estrutura do Campo Literário (e cuja operacionalização se poderia verificar na criação de associações de classe, de revistas, prémios literários, crítica especializada). Enquanto António Sousa Ribeiro (1995) o toma como um dado objectivo e a partir dele analisa o papel dominante dos escritores entre os intelectuais num período «singular» da nossa história – do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 – já Avellar George (2000) coloca reservas à existência desse campo, em função da não autonomia dos escritores relativamente ao poder político, quer antes do encerramento da SPE6, em 1965 (e aí nega o conceito contraditório de «campo literário do poder» de Ramos do Ó), quer nos primeiros tempos do pós 25 de Abril. Num caso, era a política de António Ferro e a tentativa de “certificação”, por parte do Governo, da qualidade literária dos escritores (e dos artistas de um modo geral) pela atribuição dos prémios literários pelo SPN/SNI. No outro, era a vontade explícita, agora por iniciativa dos escritores, de uma intervenção na “política cultural”, no desejo de agirem segundo formas «socialmente úteis»; era o “clima” da altura em que ninguém devia ficar de fora do processo de reconstrução do país, designadamente nas chamadas «campanhas de dinamização cultural», na tão propalada aproximação «ao povo», considerado numa dupla vertente, como fonte inspiradora e destinatário preferencial da obra literária. Quer num quer noutro caso, era o fenómeno de atracção ao poder que punha em causa, para grupos importantes de escritores, a autonomia do campo literário, onde a liberdade de criação, a independência e a autonomia plena e desinteressada constituiriam o seu «capital simbólico» por excelência.


Os escritores portugueses sentem-se, ontem como hoje, num dilema que os acompanha e que se prende com a procura dos eixos em torno dos quais se dá a construção da sua identidade. Se nos tempos de altas percentagens de analfabetismo e de baixa escolarização, o acesso aos bens literários estava fortemente condicionado por esse handicap, não é menos verdade que hoje, num contexto educativo e cultural bem diferente, outros obstáculos se ergueram à fruição desses produtos de criação literária. A sociedade mediatizada está mais culturalizada o que não quer dizer necessariamente mais culta. E, mais do que isso, que tenha crescido a apetência pela leitura. Ou pelo menos por aquela que se enquadraria nos padrões de qualidade de que os escritores se reclamam. Os processos de democratização da cultura têm levado à trivialização da mesma. Os produtos tornam-se mais “rasteiros” e triviais para poderem ser captados pelo grande público. Promove-se a cultura da banalidade, do efémero e do fugaz. Ora o que floresce, quais cogumelos em dias de humidade, são os subprodutos literários, consubstanciados na denominada literatura (ultra) light (há quem a designe também como literatura “cor-de-rosa”, “comestível” ou de “consumo”), uma «escrita de telenovela» (no dizer de Eduarda Dionísio, 2002) que não exige esforço ao leitor. Daí uma certa impotência face aos mecanismos do mercado livreiro, ao “gosto” do grande público (que compra o que é publicitado na TV). E, ainda, a dificuldade de se constituírem como referentes desse património comum que é a língua, da qual são, simultaneamente, os seus preservadores (uma espécie de “guardiões do templo”) e transformadores, através da invenção e recriação verbal. Não é de estranhar, pois, alguma frustração perante a incapacidade de contrariar um processo, que se afigura imparável, de importação de vocábulos estrangeiros (antes o francês, hoje anglo-saxónicos) sempre que surgem novas realidades sociais ou tecnológicas. O escritor António Alçada Baptista constatava que a nossa língua tem vindo a ser atacada por «frequentes necroses no seu vocabulário»7. São estes dois fenómenos – a explosão da literatura light e o abastardamento da língua – que acentuam também um certo sentimento de “orfandade”, que já vem de trás: «Os escritores (…) acham-se esquecidos. Como o foram ontem, como o foram quase sempre», não só pelo poder, a que se referia Fernando Namora8, mas também pelos media e por muitos leitores. Talvez por isso, muitos escritores se tenham virado para as instituições de ensino, colaborando em iniciativas diversas («Olimpíadas da Leitura», sessões nas escolas…) como um investimento que se deve promover a montante, numa fase etária em que os «hábitos operativos» se estão a formar.


Notas

1. Maria Velho da Costa, Seara Nova, nº 1567, Maio de 1976, p. 39. 
2. Concorrência negada por José Saramago quando afirma: «nenhuma obra que se publica tira o lugar a outras obras e a outros autores, o espaço da literatura é infinito» (entrevista ao DNA, 12/12/1999, p. 21). Pois é, dito por quem vende milhões…
3. Hoje, a APE está mais focada nos prémios literários e na evocação de escritores do cânone.
4. Serafim Ferreira, “A Literatura (sempre) em questão”, a Página, nº 104, Julho, 2001, p. 28.
5. Bourdieu define «campo» como o universo relativamente autónomo de relações específicas definido por uma lógica e um sistema de referências comum. Esse sistema determina um “espaço dos possíveis”, dentro do qual os agentes lutam pela afirmação e dominação.
6. Sobre o processo de extinção da SPE, cf. Orlando Costa (1996:941-944), Avellar George (2000:470-488), Notícias Magazine, nº 522, 26/05/2002, pp. 64-67.
7. António Alçada Baptista “Lembrança de Alexandre O’Neill”, Notícias Magazine, nº 495, 18/11/2001, p. 146.
8. Fernando Namora “Um coração parado”, O Jornal, 29/08/1975, nº 18, p. 11.

Referências

BOURDIEU, Pierre (1992) As Regras da Arte: Génese e Estrutura do Campo Literário. Lisboa: Editorial Presença, 1996.
GEORGE, João Pedro de Avellar (2000) “Campo Literário Português? O caso da extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965”. Revista de História das Ideias, vol. 21, pp. 461-499.
TORGA, Miguel (1976) Fogo Preso. Coimbra, 2ª edição, 1989.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

VACUIDADE E FÍSICA QUÂNTICA


"Para um budista Mahaya, que conhece o pensamento de Nagarjuna, há uma ressonância indubitável entre a noção de vacuidade e a nova física. Se, ao nível quântico, a matéria se revela menos sólida e definível do que parece, isto para mim signifia que a ciência se está a aproximar dos conceitos budistas de vacuidade e interdependência. Por ocasião de uma conferência em Nova Deli, ouvi Raja Ramanan, um físico chamado Sakharov indiano, estabelecer paralelismos entre a filosofia da vacuidade de Nagarjuna e a mecânica quântica. E depois de ter conversado ao longo dos anos com muitos amigos cientistas, adquiri a convicção de que as grandes descobertas da física desde Capérnico dão corpo à ideia de que a realidade não é aquilo que nos parece. Quando estudamos o mundo com uma potente lente de observação --- seja pelo método científico ou de análise meditativa --- verificamos que as coisas são mais subtis do que -- e nalguns casos contradizem --- os pressupostos da nossa visão do mundo baseada no senso comum" (DALAI LAMA)

Porque não sou cientista e reconheço a minha ignorância naquilo que diz respeito à física moderna, não estou autorizado a comentar estas afirmações. Neste caso, a simples percepção intuitiva de certas realidades não é suficiente. Será preciso também a intervenção da razão e da ciência objectiva. Mas, o Dalai Lama teve oportunidade de conviver com muitos amigos cientistas, entre eles o próprio David Bohm que, baseado nos seus trabalhos de física quântica, manifestou em certos aspectos convergência com Nagarjuna. Não deixo ainda de evidenciar que a Tradição Gnóstica Ortodoxa, por intermédio de um dos seus sistematizadores, Boris Moravieff, reconhece igualmente que a resolução do problema humano tem também de passar necessariamente pela convergência entre a Ciência Tradicional, a que se tem acesso por Revelação, e a ciência moderna que, partindo do exterior, se serve dos meios cada vez mais sofisticados de observação e de experimentação. Na sua obra, "Gnôsis", diz a determinada altura: "Nos seus laboratórios, a ciência contemporânea parece que em breve vai alcançar o ponto mais elevado da escala dos elementos mais subtis, e poder-se-á pensar que ela se encontra muito perto de atingir o ponto em que se vai cruzar com as buscas espirituais esotéricas (Gnôsis - 3º Volume - Ciclo Esotérico - pg 77). Penso que será interessante uma reflexão mais profunda sobre este assunto.

José Flórido (facebook)


sábado, 22 de janeiro de 2022

Graffitar a Literatura (I)

 

«O impossível resulta possível
apenas por capacidade do meu cérebro?
Ou do meu coração?
Que importa se eu não sei
Se o impossível tem sempre a possibilidade de ser realizado
Exigindo assim a sua dedifinição.»

(Jacinto Magalhães, Entre Mim e o Outro, 1978)

Graffiti na Rua da Irmandade, Ribamar (Ericeira)


Este humorado graffiti, assinado por Manifesto, preenche toda a fachada lateral (virada para a N247 que liga Ribamar à Ericeira) de um amplo edifício rectangular de dois pisos, tipo armazém. Construído em zona, hoje, de turismo jovem – World Surfing Reserve – o mural apresenta marcas gráficas desse contexto geográfico (fato de banho garrido, tatuagens, skate, texto em inglês). A juventude seria a destinatária preferencial desta mensagem artística – “Everything is impossible”. Um lema para quem é novo, numa idade em que tudo parece (ainda) ser possível de concretizar.

Os mais velhos já não vão tanto em slogans, precisam de leituras mais sólidas e profundas; talvez a Utopia de Thomas More (1516). «Texto literário? Filosófico? Prosa de ideias, relato de viagem, diálogo didáctico?» questiona Maria Alzira Seixo (Visão, 15/03/2007, p. 138), aquando da (excelente) edição da F.C. Gulbenkian.

Nas duas partes em que o livro se divide é-nos dado o «discurso de Rafael Hitlodeu [um marinheiro de idade avançada, Português de nascimento] sobre a melhor das repúblicas». 

«Na Utopia, porém, onde a propriedade privada não existe e os utopianos se ocupam a sério dos negócios públicos, porque o bem particular se confunde com o bem comum, o nome de república é duplamente merecido. (…)
Na Utopia, onde tudo pertence a todos, os cidadãos sabem que, se os armazéns e os celeiros públicos estiverem cheios, ninguém sentirá falta de nada para uso pessoal. Como tal, entre eles a distribuição dos bens não constitui um problema, e não há gente pobre e indigente. Quando ninguém deve nada, todos são ricos. Que maior riqueza pode existir do que a de levar uma existência alegre e livre de cuidados, sem preocupações com a subsistência e livre das queixas contínuas da mulher, preocupada com questões de dinheiro e com o dote do filho ou da filha.» (p. 165)

Já noutras áreas, designadamente nas de género, More não vislumbrou um cenário de igualdade, sendo evidente as marcas do contexto histórico-social em que viveu: 

«As esposas devem obediência aos maridos, os filhos devem-na aos pais, e os mais novos aos mais velhos.» (p. 86)
«Nos templos, os homens encaminham-se para a direita e as mulheres para a esquerda. Os homens sentam-se em frente aos seus chefes de família, e as mulheres em frente à matriarca. Deste modo, o seu comportamento em público pode ser visto por aqueles que os orientam e os dirigem. » (p. 160) 

Uma outra utopia, escrita anteriormente por Christine Pisan (1405) A Cidade das Mulheres (Coisa de Ler Edições, 2007), parece não ter tido repercussão em Thomas More quando idealizou esse “lugar nenhum” de uma sociedade perfeccionada – a ilha da Utopia, com as suas 54 cidades. 

Infelizmente, nos dias de hoje, não há lugar para utopias, pelo menos, no debate político. E essa devia ser, por excelência, a esfera onde se projecta o futuro: como organizar o que é “público” e gerir o “bem comum”. No entanto, no mundo académico há ainda quem se focalize, seriamente, nesta temática por considerar que «a utopia serve para nos fazer caminhar com sentido»; é o caso de Fátima Vieira, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assina a Introdução duma edição bem mais recente da Utopia de Thomas More (Público / Utopia & Conhecimento, nº 1, 2021); dela, sugerimos também duas entrevistas: ao programa “Câmara Clara” (RTP2, 14/10/2012) e à revista a Página da Educação (nº 200, Primavera 2013, pp. 6-15).

A ideia de “utopia” tem-se desgastado. Muito desacreditada no espaço comunicacional público (apelidar alguém de “ser utópico” anda perto do enxovalho intelectual). Pois é, «a utopia subverte», como o relembra Fátima Vieira (2013). Daí as emergentes tentativas de a ancorar mais à realidade; por exemplo, a adjectivação do conceito – Para uma Utopia Realista (Encontros de Châteauvallon, em torno de Edgar Morin, Instituto Piaget, 1998). Ou conceito criado por Immanuel Wallerstein em Utopistics or Historical Choices of the Tweenty-First Century (New York: The New Press, 1998):

«utopística é uma séria avaliação das alternativas históricas, o exercício do nosso julgamento face a uma racionalidade substantiva de uma alternativa possível de sistemas históricos. É a sóbria, racional e realística evolução dos sistemas sociais humanos, com os constrangimentos do seu contexto e as zonas abertas à criatividade humana. Não a face do perfeito (e inevitável) futuro. É antes um exercício, simultaneamente, nos campos da ciência, da política e da moral.»

Nesta linha, podemos inserir a canção de Bruce Springsteen que deu título ao álbum Working on a Dream (Sony Music, 2008), e que se tornou numa espécie de hino da primeira campanha presidencial de Barack Obama; estava-se então num patamar superior ao «I have a dream», formulado por Martin Luther King, em 1963. Quarenta e cinco anos volvidos, o “trabalhar” sobre o “sonho” deu resultado: a utopia concretizou-se; os EUA tinham um presidente negro (em dois mandatos consecutivos).

Essa ligação entre o Presidente (Obama) e The Boss (Springteen) teve, recentemente, novo desenvolvimento no livro Renegados. Nascidos nos EUA (Objectiva, 2021) que recolheu as conversas de ambos no podcast (Spotify).

Em tempos de cinzentismo e pensamento único, são os campos da arte aqueles que mais pugnam por manter a chama acesa:

«Pegue o tambor e o ganzá

Vamos pra a rua gritar

A palavra utopia.»

(“Samba da Utopia”, Jonathan Silva, 2018)


Post scriptum:

 Este mural desapareceu nos finais de 2021. Durou 7 anos! (havia-o fotografado no Verão de 2014). Nada mau para os padrões da “arte do efémero”. Os proprietários resolveram lavar a cara à casa, pintando-a de alto a baixo e, na voragem da limpeza, lá se foi o mural. E o edifício deixou de se distinguir dos outros daquela zona de veraneio: ficou asséptico, com muito menos encanto. A arte de rua, por aquelas bandas, parece “impossible”.


Luís Souta

(texto e foto)


Uma tese sobre Agostinho da Silva



"Um livro, assinale-se, não é coisa de pouca importância, porque acontece com alguma frequência que basta um livro para que o rumo da humanidade se altere por completo".

E outros livros existem que têm por detrás de si uma obra imensa, como é o caso deste que aqui vos deixo. Está em livre acesso no repositório da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e dele foram feitos até ao momento perto de 4.700 descarregamentos e 515 consultas. Podem descarregar gratuitamente AQUI: http://repositorio.ul.pt/.../1/ulsd071157_td_Luis_Santos.pdf

A pintura da capa "Flor do Lácio" é da pintora brasileira, mineira, Kity Amaral. Pode ampliar a imagem clicando em cima.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

SONHOS

Há 3 tipos de sonhos:

1º Os ditos normais, comuns, que pouco ou nada trazem à evolução do ser humano. O indivíduo tem a noção de estar no meio do sonho, consegue até modificá-lo, sair acordando e voltar a entrar nele. Os pesadelos estão incluídos neste grupo. Vêm do nível astral ou emocional.

2º Aqueles que são enviados pela Alma, são evolutivos, com informações e orientações precisas. Simbólicos, necessitam que a intuição do individuo já esteja presente.

3º Sonhos proféticos com origem na Alma e de níveis mais elevados. O sonho profético avisa o individuo para o que se aproxima, para experiências pelas quais terá que passar e às vezes avisa-o para o que ele pode e deve evitar.

António Alfacinha

Nota do editor: agradecemos a gentileza do autor em permitir a partilha deste seu texto.



Imagem de autor desconhecido

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Literatura: o pão nosso de cada dia (III)

 Luís Souta


O ESCRITOR

identidades e ambivalências

«a razão de ser do escritor é o protesto, a contradição e a crítica.»
(Mário Vargas llosa)

O homem de letras 1 é uma figura relevante e considerada em qualquer sociedade… letrada. Difícil é traçar-lhe o perfil, pois desdobra-se por múltiplas obras, por géneros diferentes, por estilos diversos, por um sem número de personagens e de narradores; por isso «[c]ostuma-se dizer que os escritores são um bocado esquizofrénicos» 2. «O escritor é como uma onda, mudando de configuração a cada momento» como dizia Manuel Rui citado por Suleimane Cassano que acrescenta «o escritor é uma entidade mítica (…) está constantemente a ficcionar-se» 3.



Ao longo da História, vários têm sido os contornos do debate (sempre recorrente) sobre as responsabilidades do escritor, enquanto intelectual privilegiado das nossas sociedades. Augusto Santos Silva (1997) diz-nos que, em Portugal, os «escritores pare[ce]m os intelectuais mais ‘autênticos’». E intelectuais são, de acordo com Eduardo Lourenço, «todos aqueles que por natureza são vocacionados para a autognose colectiva (artistas, historiadores, romancistas, poetas)» (1978:12) ou, na perspectiva de João de Almeida Santos, «aquele cujo pensamento produz efeitos reais sobre as ordens constituídas» (2000:213). Sem querer entrar no agastado, e datado, debate das concepções várias que lhe são imputadas, aqui se relembram as principais: «intelectual orgânico» (Grasmci), «intelectual autónomo» (Mannheim), «intelectual específico» (Foucault), «intelectual mediático» (Brenda). Em qualquer dos casos, eles teriam que preencher dois requisitos fundamentais: (i) pertencerem a um «campo» autónomo e actuarem de acordo com as regras que lhe são próprias; (ii) exercerem as competências específicas da sua actividade, sendo entendidos como produtores culturais a tempo inteiro. Por isso, Bourdieu considera-os seres «bidimensionais».


No caso particular do escritor, é através do que escreve e publica, em contextos de trabalho de uma certa adversidade e isolamento, que ele ganha autoridade social e não tanto pelo que é como pessoa ou profissional. É que raramente um escritor vive só da literatura 4, ainda que ambicione a “desocupação” como o relembra José Gomes Ferreira recorrendo ao verso de José Agostinho de Macedo: «Nunca um poeta bom teve outro ofício» senão o de cantar (1965:194). No entanto, poucos fazem da escrita a sua profissão 5, excepto para um punhado de “consagrados”… pelo mercado, e em regra, numa fase adiantada da sua carreira. O mais vulgar é o exercício de uma outra profissão (professor, médico, jornalista, etc.), como fonte de segurança económica, mas concebida como uma área “menor”, subalterna. O exercício da escrita, que exige tempo, energia e disponibilidade, acaba por se tornar tão absorvente, que para além dela pouco ou nada vale a pena. É isso que leva António Lobo Antunes a dizer (entrevista ao DNA, 08/12/2001, p. 15): «A minha vida faz pouco sentido fora da literatura…». E isto é mais evidente quando o escritor está “lançado”, ou seja, quando entrou numa cadeia de continuidade produtiva, e portanto se criaram expectativas em leitores e editores que aguardam (ou exigem) a publicação de uma nova obra. Como dizia Somerset Maugham «a literatura poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta.»


Uma outra particularidade, no grupo específico dos escritores, prende-se com a ausência de «território». Ao contrário do que sucede na maioria das actividades que são exercidas em locais ou instituições, eles próprios estruturadores e condicionadores do exercício profissional e das respectivas culturas e identidades grupais: os campos (agricultores), o mar (pescadores), as jazidas (mineiros), as fábricas (operários), as lojas (comerciantes), as escolas (professores e educadores), os hospitais (médicos e enfermeiros), os escritórios (advogados), etc. Nas profissões ditas liberais, tradicionalmente exercidas em espaços individuais isolados (o consultório médico ou o escritório de advogado, por exemplo), tem-se vindo a assistir a reagrupamentos em equipas de trabalho, fruto quer de um processo de proletarização quer da necessidade, face à competitividade dos mercados, de rentabilizar equipamentos (cada vez mais sofisticados e que implicam avultados investimentos financeiros). No caso dos médicos, é assim que se assiste à troca do consultório pelo centro de saúde ou pela clínica médica.


Pode-se dizer que os escritores, são um caso à parte, no que respeita à sua “territorialização”. Numa actividade muito solitária e apartada – «no silêncio e no isolamento em que trabalho» (José Saramago, 1971:135) –, os «exploradores profissionais da solidão», como os designa José Gomes Ferreira 6, têm uma necessidade imperiosa de socialização entre pares, de troca de produções, mas também do confronto de opiniões, de debate, e até de convívio, o que foi preenchido, num certo período, pelas «tertúlias»: os cafés – o Gelo, o Herminius, a Brasileira do Rossio, o Martinho da Arcada, o Montecarlo, a Orquídea, A Cubana, o Palladium, o Bocage, o Leão d’Ouro, o Portugal, o Itália, o Colonial, o Sequeira, o Ribadouro, as Pastelarias Veneza, Paraíso e Bijou, são alguns exemplos emblemáticos na cidade de Lisboa; eram esses “territórios”, informais e temporários, que possibilitavam um certo sentido gregário aos grupos, ainda que as afinidades ideológicas e as correntes literárias condicionassem fortemente a entrada nesses círculos. A este propósito, António Patrício escreveu, com certa graça, num dos seus contos: «As escolas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só matricular-se… e cozinhar» (1910:123). Nas tertúlias literárias desenrolavam-se processos de “iniciação”, cultivava-se uma aprendizagem informal de saberes e técnicas, “agarravam-se” ideias para futuros projectos, afinavam-se estratégias de intervenção do grupo 7. Curiosamente, a “morte dos cafés”, em especial na capital, e a sua substituição por estabelecimentos tipo “come-em-pé”, ajudaram a pulverizar esses grupos, remetendo cada um para a sua casa.


A inexistência de correntes literárias acentuou este movimento de fechamento no casulo. Ilustrativa é a afirmação de José Saramago, publicamente assumido como homem de partido e organização, quando anunciou numa entrevista (DNA, 12/12/1999, p. 20), a propósito das tertúlias: «nunca pertenci a grupos, vivi sempre muito só». Esta tendência para um certo tipo de clausura, e de solipsismo, pode originar uma vida “fora do tempo” ou «vidas pardas (…) e, aparentemente, pouco interessantes ou mesmo desinteressantes» em contraste com «as vidas muito extrovertidas e cheias de aventuras que são próprias dos escritores do século XIX», como o salienta António Tabucchi (entrevista ao DNA, nº 133, 05/06/1999, p. 16). Daí que, e ainda segundo Tabucchi, se assista também a uma mudança substantiva no enfoque temático do escritor: a literatura do século XX seria mais do imaginário, do virtual, do interior do que do mundo exterior.


E a literatura do século XXI? Estamos em crer que será sempre «um campo infinito de infinitas portas que nos conduzem por caminhos que vão ter ligações com outras portas» (Alberto Manguel, Ípsilon, 03/12/2021).


Notas

1. Etimologia de literatura, do latim littera: letra.

2. Mário de Carvalho na entrevista que me concedeu em Março de 2002.

3. In “Pontes Lusófonas”, encontros com escritores realizados no Maputo (DN, 17/09/1999, p. 42).

4. Aquilino Ribeiro desabafava, com ironia: «para se viver da literatura é necessário escrever um volume de 400 páginas, duas vezes por semana» in Dacosta (2001:143).

5. Há mesmo quem não considere que ser escritor é uma profissão, caso de António Tabucchi (DNA, nº 133, 05/06/1999, p. 15).

6. Segundo José Gomes Ferreira, em “O terrível ofício de poeta”, «aqui solidão não significa emparedamento ou incomunicabilidade, mas afastamento provisório para sublimar a virtude de certas forças que aproximam mais os poetas dos homens» (1965:280).

7. José Gomes Ferreira confessa: «Nunca frequentei salas de aula com tanto proveito. O que eu aprendi nessa Universidade verdadeira!» (1965:100). O actor e encenador Mário Viegas perfilha da mesma opinião: «Aprendia-se imenso nessas tertúlias, discutindo, convivendo, bebendo, engatando. Agora ninguém convive, ninguém fala. A cidade desertificou-se» in Dacosta (2001:112).


 Referências

DACOSTA, Fernando (2001) Nascido no Estado Novo. Lisboa: Editorial Notícias/ Obras de F.D.

FERREIRA, José Gomes (1965) A Memória das Palavras ou o gosto de falar de mim. Portugália/ Obras de JGF.

LOURENÇO, Eduardo (1978) O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3ª edição, 1988.

PATRÍCIO, António (1910) “Words…” in Serão Inquieto. Lisboa: Relógio d’Água/ Clássicos Portugueses, 1995.

SANTOS, João de Almeida (2000) Os Intelectuais e o Poder. Edições Fenda.

SARAMAGO, José (1971) Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editorial Caminho/ O Campo da Palavra, 3ª edição, 1985.

SILVA, Augusto Santos (1997) Palavras para um País: estudos incompletos sobre o século XIX português. Oeiras: Celta.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

BOM ANO NOVO!

 Luís Santos


MEUS QUERIDOS AMIGOS

Estamos quase, quase, a terminar o período de isolamento obrigatório por termos apanhado o "corona" como graciosamente ouço dizer às jovens amigas da minha filha.

Apanhei eu, a São e os miúdos (ah, é verdade, já são adultos). A São e o Tomás tiveram mesmo de passar pelo Hospital, por mau estar físico, mas felizmente foi coisa que não se fez demorar. É verdade que não ganhámos para o susto e quase íamos abaixo. Ficámos entregues a nós próprios no nosso canto, com direito a um telefonema diário de uma mãe com mais de 80 anos, e uma ajuda ou outra de familiar próximo. Tivemos vários momentos muito, muito, difíceis, mas acreditámos sempre no melhor.

Agora que, creio, estamos à beira de voltar ao ritmo normal, digamos assim, não sei até quando, olho para os últimos seis meses deste ano e lembro-me que perdi o meu pai, uma tia, dois amigos irmãos, 2 amigos muito próximos, mais alguns que não eram tão próximos, mas que estavam perto, e um sem número de conterrâneos que vinhamos a fazer juntos a jornada da vida.

O que dizer de tudo isto?

Queridos amigos,

costumamos dizer repetidamente, incessantemente, sobretudo, aos nossos alunos, que a vida é uma dádiva mais que grandiosa, simultaneamente, rara e preciosa, como também nos ensinaram os budistas para que a desperdicemos e percamos tempo com coisas menores, ódios, invejas, mal querer, ainda que alguns, aparentemente, vivam luxuosamente e outros vivam sem nada. Mas, afinal, esta vida em que vamos caminhando, distraídos, como se vê, é curta e, no final logo se verá mais claro, muito mais claro, o que é melhor e o que é pior.

Fica um conselho do alto destes sessenta anos físicos, bem medidos: na medida do possível, aproveitemos o tempo de forma generosa, olhando para cada outro como se de si próprio se tratasse. Por tudo, sejamos gratos.

Posto isto, permitam-me que nestes desejos de BOM ANO NOVO PARA TODOS, deixe uma palavra de especial conforto para os que estão mais necessitados, porque mais sós, em maior sofrimento, mais afastados das alegrias e do champagne que em breve irão cruzar os ares.

Enfim, desejos de que o Ano de 2022 venha por bem para todos. 


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Um poema de JOSÉ GIL


Sebastião


O CATIVO DE FEZ,

" Quando parto

morro

pensas sempre tu

por isso enxugo

o teu rosto

nu"

António Reis,

a Isabel Pinheiro

a Maria Simas atriz favorita das favoritas

a Sandra Cordeiro atriz paixão

a Giulia Alessandra Atzori

a Raissa Segantini

a atriz Sofia Vicente,

a atriz Bruna Manguito

aos atores

Óscar Martins e

Rodrigo Teixeira Lourenço

Caminho de Cascais a Lagos

na flor seca da aridez do mar

em dia de tempestade

 

na doçura das tuas ondas

tudo passa com o vento

 

o ar fica sereno e limpo

o mar inquieto do afago de dezembro

na zona de vibração

de um dia de névoa

na matéria-prima do teu olhar

dança comigo morena  corpo de árvore

onde o animal jamais descansa

sou o desconhecido

no nevoeiro da madrugada na praia

do Sado ou em Lagos um rei adolescente,

José Gil

09:08h

15-12-2021

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O FIM

Crónica de Teatro de Maria Simas

Fotografia de Eugénia Matias

               “O Fim”, uma obra de António Patrício*, transformada num grande espetáculo de laboratório teatral com direção e encenação de José Gil, cedeu o palco a um conjunto de atores que já nos habituou à arte de bem representar, são eles José Caldeira Duarte, Lígia Cruz, Miká Nunes, Óscar Martins e Paula Reis. Luz, Fotografias e Som de Eugénia Matias - Grupo de Teatro do Politécnico De Setúbal.

 “Os dias últimos de um povo...”, “(...) com os navios estrangeiros à vista” em honra à receção do dia de aniversário da rainha, a esperança absurda no “Fado” em que a realidade é o impossível, rumo à queda da monarquia.

 É “O Fim”, uma obra simbólica de um clássico da Literatura Dramática Portuguesa do séc. XX,que conta a conturbada situação histórica e política do nosso país, no contexto europeu da época.

Uma narrativa cheia de metáforas e pormenores deliciosos da singularidade e riqueza da língua portuguesa.

É razão para aclamar bis

E assim aconteceu em duas sessões separadas por um curto intervalo, na Sala de Drama da Escola Superior de Educação de Setúbal.


 Maria Simas

 Setúbal 15 de Dezembro 2021


* António Patrício (1878-1930), escritor e diplomata português, dramaturgo e contista, dotadode uma escrita cheia de sensibilidade e ritmo poético, com uma linguagem cheia de simbolismo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Literatura: o pão nosso de cada dia (II)

 Luís Souta 


O LIVRO: do papel ao digital

«Está acabada a cultura baseada em livros que era partilhada

pelas «pessoas intelectuais» de todo o Ocidente e das suas colónias»

(Passos Perdidos, Paulo Varela Gomes, 2016:58)

 

Muito se tem discutido sobre o futuro do livro na sociedade da informação (ou «educativa», como Carneiro a classificou em 2001). Debate algo estranho e aparentemente deslocado no tempo, pois seria natural que, num macro contexto deste tipo, o livro ganhasse um estatuto e uma divulgação como nunca conhecera no passado. Só que outros fenómenos emergiram pujantes, designadamente o multimédia. Concorrente fortíssimo o audiovisual – «civilização videológica» – onde a imagem não exige o esforço de concentração e descodificação que a leitura implica (Sartori, 2000). Num tempo de fugacidade, de que o spot e o vídeoclip são o paradigma, a leitura de um livro, que exige tempo e continuidade, corre sérias ameaças.

1. A perenidade do livro

No romance Para Sempre, Vergílio Ferreira remete o livro para um passado de que hoje só nos restam imagens, memórias ou artefactos de museu: «O tempo do livro é o tempo do artesanato. Coisa destinada a um indivíduo, fabricada com vagares, consumida com vagares. (…) O tempo do livro é o do candeeiro de petróleo, o das meias de algodão feitas em casa à agulha, o das papas de linhaça e do óleo de fígado de bacalhau. O das ceroulas compridas com atilhos. É o tempo dos botins e das cuias, dos palitos para palitar os dentes depois da sobremesa. O tempo das perucas, das lamparinas e dos penicos. (…) O tempo do livro é o do carro de bois» (1983:106,107,108).

Numa posição mais confiante na durabilidade do livro, independentemente dos novos aparatos comunicativos, Miguel de Sousa Tavares, numa entrevista concedida à revista semanal Pública (04/03/2001, pp. 28-32), aquando da edição do seu livro Não te deixarei morrer David Crockett, defende «que os grandes leitores têm uma relação física com os livros (…) o livro objecto é aquilo que desperta a vontade, o verdadeiro prazer de ler. Acho que as pessoas que lêem a internet nem sequer são leitores. Um leitor é uma pessoa que adormece com o livro ao colo, acorda, escreve no livro ou não escreve, marca as páginas (…). Eu não acredito numa civilização que não lê.»

Mais peremptório ainda é António Barreto quando afirma, com convicção: «O livro é eterno» (2002:343).

Muitos são aqueles que questionam a prática generalizada da leitura de um livro (e em especial de um romance) num ecrã de computador. Hoje, o acesso ao livro electrónico (e-book) 1 é extremamente facilitado (em termos técnicos, operacionais e até financeiros). Mas a relação física e afectiva (o toque, o cheiro, a memória de uma oferta…) que o leitor estabelece com o livro enquanto objecto não é substituível pelos meios informáticos, que remetem o texto para o campo da virtualização. As potencialidades que são reconhecidas ao «hiperlivro» (por exemplo, a rapidez na pesquisa de um elemento do texto, seja uma frase, uma expressão, o nome de um personagem ou de um lugar, os links possíveis com outros textos e autores), dirigem-no mais para uma utilização pragmática e parcelar, ligada a actividades de análise e estudo, do que ao processo normal de uma leitura sequenciada, capítulo a capítulo.

A leitura em livro tem a vantagem de ser feita em casa, na rua, nos transportes, praticamente em qualquer lugar; ainda que a miniaturização dos computadores aproxime o portátil, o tablet ou o iphone dessas virtualidades atribuídas ao livro, há limites e obstáculos a superar (por enquanto?) como a autonomia energética, o acesso à rede wireless ou a dimensão reduzida da mancha gráfica (ainda que atenuada com os ecrãs suaves que não cansam a vista). Coisas menores, poder-se-ia dizer, preconceitos de uma geração que, tem dificuldades de adaptação na passagem do táctil para o digital (do palpável ao virtual). Uma geração que entrou em contacto com todos estes equipamentos numa fase muito adiantada da sua formação, com uma maturidade já definida e estilos de vida pessoal e de aprendizagem consolidados. Seriam então os jovens, já socializados com a informática desde muito cedo, os “coveiros” do livro.

Mas tal parece ser contrariado, entre nós, pelos dados divulgados por diversos estudos e sondagens. Livreiros e bibliotecas públicas mostram como a compra e a leitura de livros, entre os estratos mais jovens, é das mais florescentes. O Observatório das Actividades Culturais constata, em 2001, a manutenção da «centralidade simbólica» do livro, ainda colocado pelos jovens no topo hierárquico dos bens culturais, apesar de no dia a dia privilegiarem os meios audiovisuais.

Estamos numa nova fase de transição, onde as certezas são abaladas e as dúvidas mais que muitas. Algo de semelhante deve ter ocorrido em outros momentos da História, por exemplo, quando o pergaminho foi substituído pelo papel (Vallejo, 2019). E o livro continuou, ainda com maior vigor. Agora, «o mundo digital não é o inimigo maior dos livros, mas o modo de vida», como defende Zivkovic (2016).

 2. Escritores sem caneta

Mas as consequências do desenvolvimento informático não se colocam apenas no patamar do consumo. A própria literatura, na área da produção, enfrenta fortes desafios decorrentes da escrita cibernética. Num tempo de «aceleração» (Hartmut Rosa, 2005), quando se potencializa a “imaterialização de conteúdos”, se expande a interactividade, se alargam as redes a limites  inimagináveis, e quando a regra é “falta de tempo”, novos horizontes se rasgam à gente da escrita (que a tem como profissão ou como hobby). Uma nova geração de escritores irá irromper em definitivo, a que já não usa a “caneta” pois funciona permanentemente no teclado (o que se vai tornando vulgar mesmo para os escritores ‘clássicos’) e desconhece o ‘papel’ uma vez que a escrita entra de imediato nos circuitos electrónicos e fica disponível on-line. Em regra, os autores electrónicos criam o seu site pessoal e nele disponibilizam as suas obras, criam mailing lists, newsletters, fóruns de discussão o que lhes permite um contacto constante com os seus leitores. Este tipo de escritor dispensa assim as tradicionais estruturas intermédias: ele não só anula os círculos editoriais de impressão, como se livra de editoras e distribuidoras, com a vantagem de encurtar, de forma vertiginosa, os circuitos de divulgação, alargando imensamente o acesso à sua obra. Deste modo, temos reunidas numa só pessoa as tarefas e funções que se encontravam pulverizadas numa teia empresarial a jusante do acto da escrita. Em regra, essa cadeia de produção e prestação de serviços escapava ao controlo do escritor, ficando excessivamente dependente dela. E no fim, era ele o que menos beneficiava (financeiramente) com a venda dos seus próprios livros. A expansão vertiginosa da internet, do print-on-demand, e do e-business abrem enormes perspectivas neste campo, em especial, no que respeita à democratização editorial (dando outra visibilidade aos “escritores de segunda linha”). Nesta área, ainda em profundas e rápidas mutações, muito está por definir, designadamente os direitos autorais (copyright). Será que as contrapartidas para o escritor (mormente as económicas) vão consolidar esta dinâmica? Ou estamos apenas perante formas mais simplificadas e alargadas de acesso e/ou divulgação à obra literária?

A comunidade académica, mais do que a literária, tem utilizado intensamente a internet e disponibilizado muitos dos seus produtos científicos (artigos, relatórios, monografias) no suporte virtual. Muitos livros e revistas científicos, em papel, têm vindo a ser substituído, progressivamente, pelo ciberlivro (o uso generalizado do inglês, como língua franca das diferentes comunidades científicas, tem facilitado este processo de expansão).

3. Antropólogos nas tribos electrónicas

O campo virtual tem vindo igualmente a interessar os antropólogos. Esse movimento faz-se em dois sentidos: (i) no conhecimento das novas «tribos electrónicas» (Ramos, 1999), com os cibernautas, numa partilha de intensa comunicação, “habitando” uma “sociedade virtual” onde floresce uma cultura específica, a cultura cibernética, também ela com os seus rituais, jargões, valores, códigos e marginalidades (hackers); (ii) no recurso sistemático à internet para a condução da pesquisa etnográfica.

Ambas as situações colocam problemas metodológicos novos, nomeadamente no que respeita ao trabalho de campo e à observação participante, e até quanto ao próprio objecto da disciplina. Neste caso, poderíamos configurar semelhanças e diferenças com o histórico percurso desta nossa ciência social. Se estes grupos – os internautas – podem incorporar as categorias do “exótico” e do “minoritário” (todavia, com tendência para se esbater à medida que se vai massificando o acesso à net), já se distanciariam quanto ao carácter “primitivo”; aqui, bem pelo contrário, está-se perante elites (knowledge workers), numa área de ponta e de vanguarda (high tech) nesta modernidade centrada num bem que elas dominam – a informação e o conhecimento (sofisticado e tecnológico). Sabendo que as clivagens e desigualdades passam, nas nossas sociedades pós-industriais, por estar on-line ou off-line (German, 2000), estes seriam grupos bem posicionados nesse contexto de acentuada globalização. Um outro problema, que se cola ao seu estudo, prende-se com o facto de estarmos perante grupos altamente dispersos, ao nível do planeta, sem um território nem fronteiras e em permanente mobilidade demográfica. Portanto, na ausência plena de um “lugar antropológico”, entendido como espaço delimitado, relacional, identitário e histórico que, como sabemos, é um dos elementos centrais na caracterização de qualquer grupo social. Por outro lado, os cibernautas, enquanto ‘grupo’, revelam uma elevada transitoriedade no tempo: fazem-se e desfazem-se a todo o momento. Este seria um exemplo extremo de desterritorialização, um dos fenómenos caracterizadores da sociedade globalizada. Por tudo isto, a entrada da antropologia nestes domínios do “virtual”, traz novos argumentos para a reconfiguração conceptual de base com que temos operado até agora. Ela ilustra, de forma paradigmática, a questão das «novas escalas na abordagem antropológica» de que falava Silvano (1998). Sendo assim, importa reelaborar conceitos como cultura, campo, território, etc. E rever os procedimentos associados à interacção entre investigador e sujeito (que aqui se faz num quadro de uma certa invisibilidade, onde o face-to-face é, quanto muito, mediado por uma câmara e um monitor, e portanto a entrada do investigador no ‘grupo’ e a sua aceitação, são encarados numa outra dimensão).

Neste domínio, é particularmente interessante a experiência de pesquisa realizada pela antropóloga brasileira Rita Amaral (2001), conducente à sua tese de doutoramento sobre a “Festa à Brasileira” em cinco regiões do país. Ela utilizou a internet não só como fonte de dados complementares à pesquisa tradicional, como principalmente, pelo uso que deu às conversas e entrevistas efectuadas em chats. O antropólogo que faz do contacto directo e personalizado com os sujeitos de estudo, num território concreto (onde permanece de forma continuada durante um certo período de tempo), uma das suas especificidades metodológicas, já a sua “inserção” num campo virtual, de intermitência temporal, levanta enormes desafios à forma tradicional de conduzir a pesquisa.

O futuro é mesmo amanhã.

Nota

Quando o livro de Stephen King – Riding the Bullet, em 2000, ficou disponível apenas na internet, a procura foi tal que os servidores de duas grandes livrarias (Amazon e Barnes & Nobles) ficaram bloqueados.

Referências

AMARAL, Rita (2001) “Antropologia e Internet. Pesquisa e campo no meio virtual”. Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. 41, nº 3-4, pp. 31-44.

BARRETO, António (2002) Tempo de Incerteza. Lisboa: Relógio d’Água/ Antropos.

CARNEIRO, Roberto (coord.) (2001) “O Futuro da Educação em Portugal. Tendências e Oportunidades – Um Estudo de Reflexão e prospectiva”.

FERREIRA, Vergílio (1983) Para Sempre. Venda Nova: Bertrand Editora/ Obras de V. F., 10ª edição, 1996.

GERMAN, Christiano (2000) “On-line off-line: internet e democracia na sociedade de informação”. Sociologia – Problemas e Práticas, nº 323, pp. 101-116.

RAMOS, José Luís (1999) “Computadores, Internet e Aprendizagens. Novas Sociabilidades e Tribos Electrónicas”. Economia e Sociologia, Universidade de Évora, nº 68, pp. 97-119.

ROSA, Hartmut (2005) Aceleração: a transformação das estruturas temporais na Modernidade. Editora Unesp, 2019.

SARTORI, Giovanni (1997) Homo videns: Televisão e pós-pensamento. Lisboa: Terramar, 2000.

SILVANO, Filomena (1998) “As novas escalas na abordagem antropológica”. Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 11, pp. 59-71.

ZIVKOVIC, Zoran (2016) entrevista ao Ípsilon, 24/06/16, pp. 22-23.