Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


terça-feira, 17 de setembro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
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Não sabemos e provavelmente nunca chegaremos a saber o que levou os humanos a sedentarizarem-se. Mais uma vez temos suficiente informação arqueológica que nos permite esboçar o modo como um tal fenómeno se processou e compreender genericamente as suas causas imediatas. Mas dificilmente seremos capazes de virmos a identificar os motivos específicos e particulares que terão levado um ou mais grupos humanos a decidirem permanecer num determinado lugar, abandonando a itinerância que até então fora o seu modo de vida. 
Os nossos ancestrais sempre tinham vivido em bandos que, de acordo com o efeito do ritmo das estações sobre a vegetação e as plantas e o ritmo de migração das espécies animais de que se foram alimentando, ora se estabeleciam num sítio que exploravam em termos de caça e recolha, ora daí rumavam a outro; em contextos geo-físicos mais severos materializando deambulações mais erráticas, ao mesmo tempo que em zonas mais fartas as itinerâncias teriam maior pendularidade entre locais que, sob diversos aspectos, da riqueza alimentar à segurança se apresentavam como os mais favoráveis. 
A cadência solar delimitava o pulsar do quotidiano dos bandos que se desenvolviam em torno da execução e preparação das ferramentas afectas à caça e da confecção dos alimentos e que incorporava naturalmente a manufacção das variadas peças usadas, desde os agasalhos aos ornamentos, passando por instrumentos como agulhas ou sacos para o transporte de comida e até dos bebés. 
Homens e mulheres e crianças acordavam com o desfazer da aurora, em momento de caça sairiam os batedores com os seus apetrechos na demanda das presas, enquanto as fêmeas e os que ficavam, certamente acompanhados pelos latentes, ao colo das mães e com os mais novinhos em redor, se dedicavam a vasculhar arbustos e arvoredos circunvizinhos para reunirem os tubérculos ou os frutos, as raízes e os bolbos que asseguraram a sua dieta diária. 
Aquelas pessoas estavam perfeitamente adaptadas e preparadas para levarem a efeito os nomadismos e, quando depois do ocaso, se reuniam em torno do lume para as suas últimas palavras ou actos antes do sono, nunca lhes deveria ocorrer o desejo de se confinarem a um espaço. 
Acontece que a nossa espécie teve tanto de corajosa como de inteligente e só isso explica que se tenha adaptado aos climas mais agrestes e aí sobrevivido, com o que enfrentou uma diversidade de ambientes, com o que enfrentou uma diversidade de ambientes climáticos e ecossistemas em que, em muitos outros casos terá encontrado uma abundância de alimentos que não se esgotava regularmente com a passagem das estações. 
É natural que tenham sido essas as contingências genéricas da sedentarização que, como é hoje aceite pelas provas arqueológicas de que dispomos, é anterior à agricultura. Quer em zonas costeiras que as correntes bafejavam com fartura de recursos alimentares, quer em vales abrigados ou perto de rios e lagos em que a vegetação permitia recolher comida ao longo de todas as translacções terrestres, é provável que as populações se tenham habituado a deixar-se ficar e a passagem dos anos tenha sedimentado o novo costume em modo de vida. 
O que não sabemos e provavelmente nunca saberemos é como isso começou. Porque se deu esse primeiro passo e a que propósito. 
Ora é aqui que poderemos usar a imaginação literária e fazermos da ficção uma técnica para narrarmos uma dada realidade. 
Não será grande ousadia supor que ao longo das dezenas de milhares de anos de itinerância, os indivíduos da nossa espécie tenham estruturado formas de família a partir do consanguíneo e das relações de aliança que as uniões e respectivas descendências iam formando. Nas duras condições que os homens então enfrentavam, a esperança de vida não seria longa e alguém que ultrapassasse o trigésimo aniversário seria velho, ainda que fosse capaz de se locomover e acompanhar os demais. E é precisamente este o ponto em que eu gosto de introduzir o imaginário e pensar que foram os afectos que, um dia, incentivaram alguns dos mais novos a quererem ficar para trás com outrem mais idoso e já incapaz de, por si só, subsistir ao rigor de um isolamento que, como é fácil de entender, seria vulgar provocar a morte de quem era abandonado pelo grupo. Pois eu gosto de acreditar que foi essa expressão de solidariedade que fez com que certos bandos se habituassem a viver permanentemente num lugar para não deixar que os seus entes queridos morressem sozinhos e a verdade é que, ainda anteriores ao viver sedentário, aconteceram rituais funerários que seguramente, entre outras coisas, podem eventualmente ilustrar os laços que os vivos viviam entre si. 
O sucesso de tais corajosos, por seu turno, terá funcionado com efeito de demonstração para outros e dessa forma, em várias zonas do planeta e começaram a incorporar os hábitos de uma vida sedentária, no contexto da qual o homem viria a inventar a agricultura e com isso a, por outro lado, a dar origem à economia de produção que viria a alterar para sempre o modo de aquisição dos alimentos e dos bens necessários à sobrevivência das populações humanas.

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