De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Graffitar a Literatura (XXVIII)


"Sinais da decadência - PVG"



«A nossa natureza reside no movemento; a calma absoluta é a morte.»
Blaise Pascal (1623-1662), Pensées, obra póstuma 
  
Estes são uns inusitados tempos em que a terrível pandemia é ampliada pela «virulência do jornalismo dos últimos dias (…) na informação poluente que as televisões nos fornecem» (António Guerreiro, Ípsilon 10/04/20, p.30). Parece estarmos a viver num contexto de «fim do mundo», déjà lu na ficção científica, só que, agora, transformaram-nos em actores de uma dessas narrativas distópicas.
Não é por acaso que, desta vez, vos trago dois murais do Bairro do Fim do Mundo, em São João do Estoril (Cascais), um escritor falecido em Abril (dia 30, de há quatro anos) – Paulo Varela Gomes (1952-2016) –, e o seu livro póstumo – A Guerra de Samuel e outros contos – editado, também num mês Abril.
1. O Bairro do Fim do Mundo é uma urbanização que tem a sua génese nos anos 70 do século passado. Ali se construíram 141 barracas que chegaram alojar 278 famílias. No início do PER, em 1993, o bairro albergava 619 pessoas (principalmente ciganos e africanos dos PALOP). As últimas 20 barracas viriam a ser demolidas em 09/06/09. Hoje, é um agradável e animado bairro social recheado de graffitis e murais! Escolhi dois para ilustrar este texto: o primeiro é uma marca identitária do bairro a que se pertence com orgulho. O segundo, o planeta Terra com a morte nas suas entranhas, é uma metáfora do tempo presente, e ilustrativa dessa decadência que o autor, que este mês aqui vos trago, defende no seu derradeiro livro.
2. Paulo Varela Gomes (PVG) foi professor de História no ensino secundário e professor associado na FCT da Universidade de Coimbra. Doutorou-se em Arquitectura e os seus trabalhos, como académico e crítico, centraram-se na história da arquitectura e da arte. Foi delegado da Fundação Oriente em Goa (1996-98 e 2007-09). Quando se aposentou, em 2012, dedicou-se, por inteiro, à literatura, tendo nesses quatro anos de vida, escrito seis livros (apesar de já minado por um cancro): livro de crónicas (escreveu regularmente no PúblicoJLExpressoBlitzOuro e Cinza (2014), e os romances O Verão de 2012Hotel (2014), Era Uma Vez Em Goa (2015), Passos Perdidos (2016), todos editados pela Tinta-da-china. Recebeu o Prémio PEN Narrativa e o Grande Prémio do Romance e Novela da APE 2015.
Mas a sua vida literária não começou nessa finitude da vida, como me deu conta num e-mail enviado, em resposta a um convite que lhe endereçara para participar no ciclo de Encontros sobre “Literatura & Educação ” que co-organizei com o autor deste blogue (LCS):
«Quanto ao romance Encontro à beira do Arno (Hiena Ed., 1999) está esgotadíssimo e assim espero que permaneça. Já não me reconheço nesses e em outros livritos que escrevi há trinta anos, excepto uma coisa chamada Peep Show (Black Sun Editores, 1987). Não é mau, experimental qb e “literatura maldita” mais que qbE assinada Heliogábalo, saiu nos Quatro Elementos Editores» [grupo editorial a que pertenceu juntamente com escritor Mário de Carvalho].
Foi também autor de documentários televisivos, designadamente “O Mundo de Cá” (1995), sobre a presença portuguesa no Oriente (cf. entrevista aos autores desta série
– PVG e Camilo Azevedo, Público Magazine, 15/10/95, pp. 19-24).
Para o conhecimento mais aprofundado de PVG, sugiro igualmente a leitura da entrevista concedida a António Guerreiro (“Retrato do escritor enquanto reaccionário e comunista utópico”, Ípsilon, 01/03/13, pp. 22-4).
O lisboeta, urbano e cosmopolita, Paulo Varela Gomes recolheu-se ao mundo rural onde veio a falecer na sua casa de Podentes, em Penela, a 30 km de Coimbra.
3. A Guerra de Samuel e outros contos (2017) «tem, tanto no tema como no tom, o aspecto de um texto testamentário: é uma visão decadentista do mundo e da civilização, e uma concepção da história que exige uma posição política face a ela» (“Histórias deste mundo e do outro”, António Guerreiro, Ípsilon, 09/06/17, pp. 28-9).
«Capítulo 4 - Nota sobre o tema “sinais da decadência”:
A decadência manifesta-se nas comunidades a que pertencemos por sete sinais que são as sete velas apagadas que nos vêm do futuro e os sete anjos com trombetas que não conseguimos ouvir. São estes sinais: o desfazimento da unidade, a in-diferença entre comunidades, a indistinção entre o bem e o mal, a ignorância da História, o desamor à terra, o abandono da criatividade.» (p. 33)
O autor desenvolve, depois, cada um destes sete sinais. Destaco aqui apenas um:
«O terceiro sinal da decadência – e o mais grave, porque é intercomunitário – é a indistinção entre o bem e o mal.
Muitos se têm espantado com o extraordinário retrocesso civilizacional ocorridos nas últimas décadas, no Ocidente, em relação às promessas do iluminismo e, mais tarde, do socialismo: o cinismo da acção política, a impunidade dos grandes grupos económicos, o terrorismo do estado, a indiferença de massas cada vez maiores de cidadãos perante toda e qualquer causa que não possa ter solução a curto prazo, a violência como modo de resolver conflitos e de exprimir o desequilíbrio e a raiva individuais ou de pequenos grupos. Na vitória da amoralidade que hoje campeia, teve peso determinante a actividade da mais poderosa máquina de produção e reprodução ideológica que a humanidade conheceu: a indústria visual norte-americana.» (pp. 35-6)
«Os julgamentos de Nuremberga, um dos acontecimentos mais importantes da história ideológica da humanidade, e um momento em que a decadência do Ocidente foi detida, vieram apor ao primórdio da lei o selo da legitimidade, declarando que massacrar é sempre um crime e quem o comete deve ser sempre condenado.» (p. 38)
«Olhando para o que sucede hoje em dia no coração das sociedades ocidentais, verificamos que, nos últimos trinta ou quarenta anos, a ideologia triunfante fez caducar tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos como as decisões de Nuremberga e promoveu a indiferença perante a desonestidade política, legitimou o assassinato e a tortura, fez passar por normal uma desigualdade socioeconómica como a história nunca conheceu.» (p. 39)

A personagem Samuel «tem traços de profeta bíblico» e o seu «pequeno ensaio» sobre a decadência «é como que uma aula somada a um sermão, constitui uma perturbadora experiência ao mesmo tempo filosófica e paranormal» (p. 32).
Talvez por tudo isto, o crítico literário António Guerreiro, na sua coluna de opinião no Ípsilon, 21/11/14, p. 33, tenha colocado o seu amigo Paulo Varela Gomes na categoria de «reaccionário letrado».

Luís Souta (texto e fotos)

Sem comentários: