sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Divino Palhaço Augusto


Palhaço, sonho de menino.

E tu palhaço que és
Poeta sensível, criador de sonhos
E sábio em dom de palavra.

És aquela criança que brinca e dorme
No berço ao lado de sua mãe.
E perdes na vida como eterno perdedor,
Que necessitas de sorrisos para te manteres vivo.
E é lá, é lá na pista que tu os encontras.

Por isso vai palhaço, vai.
Mostra ao mundo o que sentes em tons de ironia,
E quando atinges o auge começas a voar,
A voar, a voar transcendendo deuses e coros celestes,
Indo para lá da caixa de jóias, que sonhaste
Conter o universo inteiro, dentro de teu quarto.

Por isso vai, vai.
Voando sobre o espaço gozando o mistério,
Quebrando o gelo de neptuno,
Mergulhando nas lavas quentes do sol,
E com um sorriso, sobes as escadas que dão até á lua,
E abraças-a com aquele abraço de ternura de criança
Como só tu sabes dar.

E quando te encotras, voltas ao circo.
Após um espetáculo brilhante
Estás sozinho no camarim a chorar,
Um choro te corrói por dentro
Vendo o mundo ideal que julgavas no berço
E que nunca existiu.

Porque és diferente palhaço,
No dom que tens de fazer rir
Quando no fundo queres chorar,
E quando olhas para o sorriso de uma criança,
Ves-te nela como sendo tu a sorrir para o palhaço.

Olho para a lua e vejo teu rosto triste Augusto,
Secando os olhos de tanto choro e riso,
Levando sempre contigo o eco de mais uma gargalhada.



                                                                                     Diogo Correia


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

A ORIGEM
 


CAROLA JUSTO

Acrílico 30x40
 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, é possível conviver com as figuras do passado. Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será.


dá a mão à escritora

e depois sobem até


onde já moram 160.

Naquela casa tudo está a acontecer,
cada vida / cada conto.

Por isso já recebeu mais de 27,1 milhões de visitas.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


Desde muito novinha que a Raquel deu mostras de uma inteligência fora do vulgar que a poderia catapultar para os altos voos que hoje são os seus. Lembro-me bem dela, desde pequenina, sempre muito senhora de si e concentrada nas brincadeiras que fazia com os outros miúdos e que nunca deixava de conduzir quando os trilhos ameaçavam seguir por agitações que não eram do seu agrado. E especialmente recordo-me da cumplicidade que na adolescência mantinha com o Carlos Manuel e, muito embora saiba que é uma parvoíce os pais pensarem esses futuros a respeito dos filhos, me levavam a pensar se um dia não viriam aqueles dois a unir os seus destinos. Não foi isso que veio a suceder, mas na memória ficaram-me as conversas em que aquela revelava um conhecimento muito acima das outras raparigas e rapazes, já de si, praticamente todos num plano superior àquilo que podemos supor que é a mediania nacional, bem como uma capacidade de argumentação que lhe franqueavam as portas para leituras próprias e pontos de vista pessoais sobre os assuntos que lhe despertavam atenções e interesses particulares. Tenho bem presente como ela era obstinada com o cumprimento dos deveres e como se mostrava incansável em obter informação e sabedoria a partir de toda e qualquer fonte que estivesse ao seu alcance, naturalmente com relevo para os livros que, ainda a partir da puberdade, a acompanhavam por onde quer que andasse. Mais tarde, quando esta filha do Quico me passou pelas mãos, não tive qualquer dúvida em perceber que tinha pela frente uma alma especial e em antever que ela só poderia ir longe com todo aquele gosto e empenho não só na procura de saberes e competências, como igualmente o desejo incondicional de alcançar um aperfeiçoamento constante e de em tudo colocar o melhor de que era capaz. Parece que a estou a ver, com o nariz arrebitado que um franzir o sobrolho muito peculiar acentuava, toda ela interessada em me ouvir responder às suas dúvidas sobre se determinadas ideias que estava a desenvolver a respeito de um qualquer romance tinham razão de ser, se eram sustentáveis, sobretudo no âmbito em que ela o fazia, se não haveria uma qualquer maneira de mostrar que eram falsas, palmilhando ao meu lado o trajecto entre a escola e a porta da minha casa, tantas e tantas vezes entrando para que eu não tivesse que interromper algum pensamento ou alguma observação em curso. Não me admirei pois quando ela se graduou com notas máximas e foi convidada para o lugar de assistente e a partir daí rapidamente partiu para uma carreira académica que tem sido brilhante e numa dezena de anos a colocou no patamar do concurso para o título de Professora Catedrática e ao longo da qual acumulou uma meia dúzia de estudos publicados em outros tantos livros e um bom número de pequenos artigos e ensaios estampados em jornais e revistas que lhe configuram uma obra assinalável. Por saber fica sempre o carácter dos filhos, mesmo quando estamos conscientes daquilo que lhes transmitimos em termos de valores e princípios, em aberto fica impreterivelmente a moldagem com que as vicissitudes da vida vão condicionando as possibilidades dos comportamentos individuais e a erosão que estes possam provocar naqueles ou a robustez com que induzem a pessoa a navegar as dificuldades e desafios que se lhe deparem. Pessoalmente estou convencida que se aqueles tijolinhos fundamentais forem bem incutidos, independentemente da personalidade de cada um, não serão as agruras por que passará que os irão alterar e, pelo contrário, será com eles que ele guiará os passos a dar e, nos momentos decisivos, sempre aqueles acabarão por vir ao de cima. E a verdade é que a Raquel que tem o nome da mãe, não foi apenas uma menina inteligente e com um amanhã promissor no que concerne à busca de um ganha pão. Ao mesmo tempo, ela sempre se revelou uma criança educada e prestável, respeitadora do próximo e, mesmo quando parecia estar a ser arrogante pela veemência e convicção com que defendia os seus pontos de vista, algo que, no entanto, não a impedia de reconhecer erros e voltar atrás, pode-se até dizer humilde e solidária. É pois, na minha opinião, isto que explica que esta mulher que está na força da idade e com tudo para ter uma vida regalada para lá do trabalho e que não tendo os compromissos de uma família e vivendo só, bem se poderia dar ao luxo das passeatas e usufrutos do que em termos culturais a cidade de Lisboa, onde reside, tem para oferecer e agora, com a Fundação Calouste Gulbenkian em pleno, já vai apresentando uma variedade significativa e interessante, é pois o seu bom carácter que explica que uma pessoa como ela se disponha e disponibilize para gastar tempo e energias para vir aqui à nossa associação animar sessões de leitura e ministrar cursos no domínio da literatura, naturalmente abertos a qualquer um e que ela prepara e apresenta com o mesmo rigor e exigência com que prepara cada uma das suas aulas, na Faculdade, ou aí orienta uma tese de licenciatura. Bem que ela tinha arcaboiço suficiente para muito simplesmente chegar aqui e debitar o que tivesse que abordar, quanto muito tomar umas notas e fazer um pequeno guião que, pelo menos, lhe servisse para limitar e para que não se perdesse no que houvesse para dizer. Mas o que acontece é que ela não se poupa a esforços e manifestamente não quer ficar por aí, como me confidenciou em certa ocasião, uma vez que não é capaz de pôr de lado a ideia de que ao querermos oferecer algo aos outros, então deveremos certificarmo-nos que em nenhuma circunstância lhes estamos a dar gato por lebre. Por isso se dá ao pormenor de planear adequada e detalhadamente cada sessão, sequer descurando as especificidades de qualquer plateia que seja chamada a enfrentar. Como seria de esperar, estas suas lições são invariavelmente objecto do maior interesse e creio que ao falar por mim posso incluir todos aqueles que ao longo desta mão cheia de anuidades têm assistido a estes seus regressos regulares a este mundo onde nasceu e foi criada. Ora foi isso que voltou a suceder com o curso que ontem terminou a respeito de Raul Brandão que eu praticamente não conhecia e de quem quero agora ler a obra completa, a começar pelas “Memórias” que pura e simplesmente me pareceram ser uma verdadeira delícia.
Mas eu acho que prefiro registar essas notas à parte, talvez amanhã. Neste momento é demasiado tarde para estar a conceder-lhes um início, até pelo facto de nunca saber o que possa vir a sair e o Manuel que tudo indica estar a regressar à normalidade, pois não mais deram sinais as manifestações de indisposições que o incomodaram durante praticamente todo o Verão, mesmo assim o meu amorzinho precisa que lhe dê carinho, muito carinho que é o melhor tónico para o ânimo e este é a melhor muralha e o primeiro recurso que temos à mão para encararmos e respondermos a um problema de saúde, qualquer que ele seja.
E depois é tão doce e confortável dormir enroscada entre os seus braços, sentindo o seu calor crescer em mim.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (41)

Os Bêbedos, José Malhoa, 1907
Óleo sobre Tela, 150x200cm

Fado, Malhoa e o que mais adiante se verá...

Estava a jantar com minha mulher,
algo que não faço tantas vezes como devia
num restaurante de que eu gosto muito, porque para além da excelente qualidade da comida,
o que por si só, já seria um bom motivo para o frequentar
também aprecio o bom gosto das telas expostas,
são todas minhas
quando o meu amigo Bernardo, dono do restaurante,
curiosamente, quando estive no Rio de Janeiro, fiz questão de passar um dia na “Ilha do Bernardo”, para lhe trazer uma lembrança da “sua” ilha
me pediu para atender um senhor, construtor civil, que queria fazer-me um pedido.
normalmente é para ver se eu concedo um desconto nalguma obra exposta
Acedi, sem grande esperança. Afinal, estava redondamente enganado com as suas intenções!
acontece aos melhores!
O senhor queria que eu lhe fizesse uma tela, grande,
grande – substantivo, não, grande – adjectivo
para colocar na adega da sua casa, que seria inaugurada dentro de alguns meses. Quando comecei a dar a desculpa habitual para me esquivar a aceitar compromissos,
estilo: “Não tenho tempo! Estou muito ocupado”
o senhor não quis ouvir as minhas razões
era construtor civil, lembram-se?
e disse-me que até tinha ideia do que queria. Aí eu fiquei atento!
construtor civil com ideias, coisa estranha!
Queria que eu fizesse um quadro ao estilo de Malhoa,
José Malhoa, pintor português, naturalista, 1855-1933
com aquela conhecidíssima figura da sua obra “Festejando o S. Martinho”.
repetida em reproduções baratas, ad nauseum
Achei um bom desafio: não tinha muita paciência para pintar como Malhoa,
à data da sua morte o seu estilo já era contestado pelos mais novos
mas como também não tinha dinheiro, resolvi aceitar a encomenda.
mal como se verá!
Para não fazer uma cópia do óbvio, resolvi criar uma composição com duas obras de Malhoa e seleccionar cartazes da época
para o meu ego não ficar muito ferido
para pregar nas paredes da tasca onde se iria passar a cena.
Triste!
Para dar algum realismo às paredes, adicionei areia à tinta,
as pintinhas, suponho que parecem aquelas coisas que as moscas deixam nas paredes
e o claro-escuro do interior, mais escuro ainda, como é costume para ouvir os acordes plangentes da guitarra e os sons maviosos do fadista.
e ninguém notar se quisermos dormir uma soneca!
Quando a obra ficou pronta, combinei com o meu amigo Bernardo, colocá-la no restaurante e o senhor construtor passar por lá para a poder apreciar em todo o seu esplendor. Adorou-a! Mas
há sempre um mas
não lhe convinha fazer mais despesas, naquela altura!
a crise toca a todos, não é? Menos aos pintores, acho eu...
E assim fiquei com uma obra que está exposta no “Restaurante Napolitano” do meu amigo Bernardo.
acreditam que já foi mandada guardar por um senhor que teve de sair para os Açores?
Até hoje!


Para finalizar a história aqui está o meu quadro:

Vai um Copo? António Tapadinhas, 2003
Acrílico sobre Tela 100x120cm





domingo, 11 de agosto de 2013

 
 
TALVEZ DESTINO
 
É uma voz tão antiga e de toada tão doce
compondo lendas, histórias, baladas
numa língua de trovar.
Vem de pais, de egrégios avós e
se mais antiga a memória fosse
decerto encontraríamos sempre
esta vocação de deslumbrando-se,
deslumbrar.
 
 

Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

sábado, 10 de agosto de 2013

Projeto Passo Fundo


ESPINHA

Retiro a espinha do peixe
              espinho a mão
              na flor
           o espinhaço quebrado
           ao assim mesmo
           das ordens desconstituídas.

Reprovo o pão ingerido
como providência na ânsia do ar
                              faltante.

(Do peixe o espinho retirado
 se aloja a contento: bastante
 para a sufocação).


(Pedro Du Bois, inédito)







sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Flora na Islândia


A primeira sensação após aterrarmos no aeroporto de Keflavik, a cinquenta e tal quilómetros de Reykjavik, é que estamos numa terra inóspita, sem vegetação, coberta de pedras vulcânicas, cujo negrume nos faz lembrar a ilha do Pico.

Depois, os nossos sentidos ficam espevitados perante a exuberância de flores de todas as cores que encontramos à beira de estradas e caminhos. É preciso notar que nos reportamos ao mês de julho e que aqui, junto ao círculo polar ártico em que os verões são curtíssimos, as plantas têm pressa em reproduzir-se e assim propagar as respetivas espécies. Tal é a lei biológica a que obedecem todos os seres vivos, sejam plantas, animais ou pessoas.

Nesta altura, as margaças, os dentes-de-leão, as rosas vilosas, as tanchagens e as labaças, pela magnitude e beleza das suas hastes florais, provocam os insetos e os ventos para que os ajudem nas operações de polinização. Na verdade, espanta como aqui as folhas e as flores são tão grandes, bem maiores do que as que se acham no nosso clima mediterrânico.

Do hotel onde estávamos hospedados até ao Centro Cultural Harpa, local onde decorreu o 98º Congresso Universal de Esperanto, era cerca de meia hora caminhando a passo largo por um rossio paralelo à orla marítima. Esse passeio pedestre que efetuámos todos os dias, durante uma semana, permitiu que observássemos a vegetação que espontaneamente surtia nas faixas separadoras das vias.

A primeira surpresa foi a de depararmos com a tussilagem (Tussilago farfara) - erva medicinal que oportunamente será objeto de croniqueta própria - já sem flores, apenas com as suas grandes folhas basais que se assemelham a cascos de equinos. A seguir, vieram as flores douradas do taraxaco (Taraxacum officinale) - outra consagrada planta curativa, o tomilho lilás (Thymus praecox) - muito frequente nesta ilha vulcânica, os enormes amores-perfeitos (Viola tricolor), a saxífraga (Saxifraga cespitosa), a prunela (Prunella vulgaris), a potentila (Potentilla anserina), a labaça (Rumex longifolius), a alquimila (Alchemilla vulgaris), a valeriana (Valeriana dioica), a angélica (Angelica archangelica), a tanchagem (Plantago major), a roseira (Rosa villosa) - talvez a flor mais cheirosa que aqui se encontra em estado silvestre. Todas estas espécies, e muitas mais, são ruderais em plena cidade de Reykjavik.

Na Islândia não se veem florestas e a maior parte das árvores que avistámos resultam de cuidadosas plantações. Ainda assim, são proeminentes várias espécies de betuláceas (Betula ermanii, Alnus trabeculosa, Betula pubescens - de folha miúda), de rosáceas (várias espécies de Sorbus), de ciperáceas e de ericáceas.

Nos terrenos adjacentes às quedas de água de nome Hraunfossar encontra-se uma vegetação típica composta por arbustos (birch), cavalinhas rasteiras, tomilho e uma curiosa junça que dá pela designação científica de Eriophorum viridicarinatum. Esta planta deita uns tufos compridos de cor alva que parecem algodão. Em vão procurámos saber se deles extraem algum aproveitamento, pois são muito macios e abundantes. A nosso ver, talvez servissem para encher almofadas. Todavia, não chegámos a nenhuma conclusão.

Dedicámos uma manhã a visitar o Jardim Botânico de Reykjavik, em claro prejuízo da nossa participação no Congresso, mas foi uma opção assisada, já que o Jardim, embora não muito extenso, é dos mais belos que temos visto. O espaço é por demais aprazível por também integrar uma enorme cidade desportiva e um zoo. No percurso pedestre que efetuámos, por entre veredas verdejantes, encontrámos uma colónia de mais de duas dezenas de Coprinus comatus, cogumelos comestíveis que, quando envelhecem, se liquefazem em tinta preta, suscetível de ser usada para escrever. Dado o inusitado achado, não quisemos deixar de o registar.

O Jardim possui uma coleção de cerca de 5 milhares de espécies, dando-nos uma ideia da enorme diversidade vegetativa da zona norte-atlântica banhada pela Corrente do Golfo. Trata-se de um espaço, de visita gratuita, que proporciona educação ao público e aos estudantes de todas as idades, para além de constituir um importante centro científico no campo da biologia. Contrariamente ao que antes imaginávamos, o Jardim Botânico é praticamente desprovido de estufas, se excetuarmos a que integra o Café Flora, aprazível recanto de convívio e entretenimento. Aqui vimos uma videira com cachos de uvas já quase maduras e uma figueira.

A coleção contém 350 espécies das cerca de 485 plantas vasculares existentes em toda a Islândia e várias secções, a saber:
- Plantas vivazes (jardim sistemático);
- Jardim de roseiras com espécies do país (a já citada Rosa villosa) e de outras regiões do mundo;
 - Jardim de rododendros;
- Plantas específicas do hemisfério norte;
- Arboreto com 3,6 hectares de árvores provenientes de várias origens;
- Arbustos das regiões montanhosas;
- Hortaliças e plantas medicinais
Todas as plantas encontravam-se devidamente identificadas através da sua nomenclatura binominal em latim.
Gostaríamos ainda de mencionar algumas curiosidades botânicas, nomeadamente algumas flores pouco usuais relativamente aos nossos parcos conhecimentos de amador:
- As papoilas árticas de cor branca, amarela e laranja (Papaver radicatum), as espetaculares papoilas azuis (Meconopsis grandis) e as vermelhas, muito brilhantes (Papaver bracteatum).
- As lupinas azuis (Lupinus nootkatensis), leguminosas semelhantes às que vimos na Patagónia.
- As duas espécies de arméria (Armeria maritima e Armeria ruscinonensis).
- As calêndulas de cor laranja.
- As sete espécies de Sorbus.
- As borragináceas que incluem seis variedades de pulmonária.
- A famosa Stevia rebaudiana (planta do açúcar), cujas folhas se apresentam bem maiores do que a que possuímos no nosso quintal.

Que nos desculpem os leitores e especialmente os botânicos encartados para algum eventual erro e as muitas omissões que este escrito contém. Afinal o que se pretende é tão só suscitar curiosidades e apetências para o vastíssimo campo da flora e bem assim, da fitoterapia que, na Islândia, ocupam um lugar preponderante.


NOTA - Obras consultadas:
Grasagardur Reykjavíkur
Medicinal Plants of Iceland de Arnbjörg Linda Jóhannsdóttir
Icelandic Herbs de Anna Rósa Róbertsdóttir


Agosto de 2013
Miguel Boieiro

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

SEM TÍTULO
 


CELESTE BEIRÃO

Acrílico sobre Tela


 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013


                      S A U D A D E

De uma mão translúcida
que acaricie a minha face
De uma estrela
que no firmamento
me indique o Caminho
De uma porta aberta
num coração iluminado
Da Vida
que me aguarda
no amanhã
Do berço
que foi o meu
num Cosmos
que espera o meu regresso
De sentir a pulsação
da grandeza dos Universos
Da essência
da minha Natureza
Do bater do coração cósmico
que a todos alimenta
Da ansiedade
das crianças do amanhã
aguardando o mergulho
nesta densidade
Do pobre e do rico
que ao regressarem a Casa,
sorriem da ingenuidade
das suas vivências
Das vestes
que foram as minhas
numa Eternidade
nunca interrompida
Da dança Cósmica,
não visível
por breves segundos,
que marcam a nossa passagem
por este belo planeta azul


antónio


terça-feira, 6 de agosto de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Sempre me admirei com aquelas pessoas e uso este termo para fugir ao vocábulo mulheres, pois o mesmo sentimento atravessa igualmente os homens e é também por eles expressado, mas sempre me admirei com aquelas pessoas que, uma vez os filhos criados e longe dos ninhos, tendo por isso regressado à simples vida de casal, dizem sentir uma enorme perda e uma estranheza absoluta relativamente a um dia a dia que já foi o seu e em que ficaram libertos de um ror de preocupações a que de tal modo se tinham habituado que, precisamente por deixarem de estar lá, deixam um espaço em branco nas horas que, não sendo preenchido, gera o tal vazio a que muitos se referem. É um problema real e efectivo que tenderá a agigantar-se à medida que houver mais gente reformada e, como tem vindo a acontecer nos últimos anos, a esperança de vida for aumentando e, nos países mais afortunados, ela já começa a ultrapassar os setenta anos de idade. Pelo que me é dado observar por aqui, eu diria que encerra alguma gravidade, pois tenho reparado que há alguns homens que se travaram de encontros e de amores com a bebida justamente por ocasião desse movimento natural nas fases vitais de cada um. As mulheres estão sempre mais protegidas nestas coisas e, se a memória não me engana, creio até já ter falado sobre isso a propósito da aposentação do senhor Abel e da dona Noémia. Mas não deixo de olhar com uma ponta de humor aquelas fêmeas que, depois de verem a ninhada partir, se dedicam a cuidar dos cães e dos gatos. Mais do que a expressão de uma falta de tempo, é isso uma manifestação de um vácuo interior de cada um. E depois, se não formos capazes de nos redescobrir na paixão é porque não houve amor entre marido e mulher ou, se o houve, há muito que terá deixado de luzir. Não é este o meu caso, melhor será até dizer o nosso caso, visto que tanto eu como o Manuel, se bem que possamos sentir a falta dos nossos filhos e seria hipócrita se não admitisse que lhes sinto a ausência, a começar pelo cirandar que desinquietava a casa e as desarrumações que as suas brincadeiras traziam e que são bem patentes sempre que levo a chave à fechadura e com o girar da porta verifico estar tudo no lugar mas que, concomitantemente, transmitiam ao lar o calor do testemunho de uma vivência plena e especialmente durante as refeições em que as conversas se atropelavam no fluir de uma alegria associada à partilha de uma vida comum e isto apesar de, decorridos todos estes anos em que nos vemos nesta condição, uma tal estranheza esteja agora mais esbatida, apesar de tudo isso ambos acabámos por nos reencontrar com o prazer que sempre sentimos pela presença do outro e as pequenas delícias que só por essa via nos podemos mutuamente ofertar. Para além disso, o Manuel mantém a sua vida autónoma e os seus interesses particulares que o preenchem e em que se sente feliz e eu, pela minha parte, depois de liberta dos afazeres profissionais, mantenho gostos cuja satisfação me deixa em êxtase até que o sono me força à entrega incontornável de lhe obedecer. Não serei pois alguém que precisa de descortinar preocupações adicionais para encontrar um sentido para me erguer da cama todas as manhãs, mas não consigo deixar de andar um tanto ou quanto preocupada com o meu amor que, neste Verão, tem padecido de uma indisposição quase permanente. Nesta última semana, pelo menos, a coisa aliviou e ele tem passado bem, mas nos meses anteriores foram mais os dias em que as refeições lhe caíram mal, invariavelmente provocando azias e ardores na barriga do que aqueles em que os alimentos simplesmente foram ingeridos com prazer e digeridos sem qualquer problema. Inicialmente a Viviana pensou tratar-se de uma gastrite e depois, pela persistência dos sinais e incómodos, ainda aventou a hipótese de alguma úlcera o que, feitos os exames e análises devidas, se veio a verificar não ser. Provavelmente terá sido algum desarranjo provocado por uma qualquer causa alimentar não identificada e que por motivo desconhecido se terá prolongado mais que o habitual. Para já o diagnóstico é esse e, como disse, por agora tudo parece ter voltado à normalidade. Mas mentiria se pretendesse transmitir a ideia de não ter ficado preocupada, sobretudo por pensar que uma tão longa indisposição não terá sido fruto do acaso, ainda que não tenha como não aceitar a opinião médica que referi e que por enquanto é a última palavra sobre o sucedido. Não sei o que pensar. Não deixa de ser estranho que ele tenha perdido peso repentinamente, embora seja verdade que inverteu a tendência e está aquele praticamente todo recuperado. 
Eu sofro por ver o meu amor triste.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (40)

Maternidade, Almada Negreiros, 1935
Óleo sobre Tela, 100x100cm

O Primeiro Passo


Profundo silêncio se fez naquele instante

O tempo pára
E o homem chora

As lágrimas estancam a dor
Sem perder o brilho

Fez-se ali
A luz da esperança

Impassível a natureza dita
Um novo passo para o retorno a vida

Nasce a esperança
Em forma de criança

Lento
O tempo em tempo se revigora
Sem claudicar caminho

Preguiçoso
Geme o Sol entre as ramagens
Despejando o desejo do amar

Brisa perpassa sulcos da face envelhecida
Indo morrer num peito que é só saudade

Eis me aqui de corpo inteiro
Imaculado
Puro
Um fiel amante.

Jorge Lemos

Jornalista, poeta, escritor, historiador, fundador da Academia 
Metropolitana de Letras, Artes e Ciências. 

domingo, 4 de agosto de 2013

 
 
R O T A Ç Ã O
 
Chegou a noite do dia porque o Sol se cansou e precisou ir descansar para  outro lado ainda que não muito longe daqui.
Foi iluminar e aquecer outras gentes, outros lugares.
Daqui a pouco volta, outra vez, como sempre.
Há coisas assim, certas.
Mas, nem essa certeza retira encanto à sucessão.
Cá estaremos, animados, para o saudar.
Porque ele gosta e nós também.
 
 
Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca
 

sábado, 3 de agosto de 2013

A Filosofia do Pátio das Cantigas


Pode até não ter graça, mas façam de conta que estou a propor analisarmos o país à luz da filosofia do Pátio das Cantigas.
Num pátio, como se sabe, todos são primos e primas e o que importa é a marcha à fulambó e saltar à fogueira nos santos populares. No fim, o Evaristo casa a filha com o marçano e todos lá vão cantando e rindo: ailó, ailó, ailó-ailó-ailó…
Sem qualquer xenofobismo, é curioso de se ver que o estado-maior desta desgovernança a mando do barão (ou será conde?) de Boliqueime tinha como cabeças de cartaz o canadiano Álvaro, o alemão Gaspar, os angolanos (almas gémeas) Relvas & Passos. Saídos os mais estrangeiros (ou estrangeirados?) morte lenta e chico esperto, surge a moçambicana que não mente, nunca mente – única coisinha fofa assim no mundo – e que todavia mente com quantos dentes tem (verdadeiros e postiços), faltando-lhe apenas o do siso.
A moçambicana foi professora do Coelho, no curso da treta que lhe foi oferecido por bons serviços prestados à fábrica de laranjas e laranjinhas. Há que agradecer as boas notas e recomendações, que este é o país das cunhas e dos empenhos, onde o povo bate palmas, mesmo que em missa, mesmo que em funeral.
E por falar em laranjinhas, aquela escola de penduras e conspiradores dá os seus frutos. O Passos não percebe nada de economia, de finanças, de bom senso, de ética e fala um português de arrepiar. O homem fala, fala e não diz nada, limita-se a dar pontapés na gramática. No entanto, quando se trata de conspirar, merece nota vinte. Ele, com o beneplácito do senhor reformado que está em Belém, deu um nó cego ao Seguro que ficou seguro pelo pescoço, e acorrentou ao esterquilínio do governo o Paulinho das feiras e submarinos. Melhor ainda: amansou a revolta do laranjal e parte para as autárquicas como se fosse o Evaristo do tens cá disto.
Neste momento vai gente a passar na rua. São desempregados, naturalmente. E cantam: ailó, ailó, ailó-ailó-ailó…
Isto é um pátio, e num pátio não se passa nada…
   

ABDUL CADRE


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Livros d'África


Gonçalo Rego



Licenciado em História, professor e jornalista, nasceu em Pinelo, Trás-os-Montes. A infância e adolescência foram passadas na ilha Terceira, nos Açores, em Angola e na ilha da Madeira. Veio a fixar-se no Barreiro onde passou a residir a partir de 1979. Foi fundador do jornal “Voz do Barreiro” e da “Rádio Margem Sul” e colaborador assíduo do “Jornal do Barreiro”.
Em 2004, através da EYAEL Editora, publica a sua primeira novela, “LAURA”, que conta uma história de amor vivido no decorrer do Portugal colonial em finais dos anos sessenta do século XX quando, em Angola, imperava a discriminação através da cor da pele; em Portugal continental, a sede do Império, era o estatuto social que dividia as pessoas.
É neste contexto que Carlos Macedo, enfermeiro e dentista em Angola, na pequena vila de Calulo, concelho do Libolo, parte um dia para Portugal em gozo da licença graciosa. Em Lisboa conhece Laura, criada de servir numa casa rica, e apaixonam-se um pelo outro. É então que começa a luta do casal contra as barreiras sociais, numa Lisboa provinciana e conservadora.

Mas, sobre Angola, eis como o Autor recorda e descreve a vila de Calulo:
“A vila de Calulo, cujo acesso por estrada asfaltada só foi concluído em 1972, era um pitoresco e dinâmico povoado. No centro, um belo jardim em alameda a desembocar no largo onde estavam os Bancos, a Administração, o casario mais antigo. Uma rua subia em direcção à Escola Preparatória e Hospital. Nessa rua estava o edifício dos Correios, uma Escola Primária, a Farmácia, a Fazenda, as grandes casas comerciais e o Cinema. Mais acima uma vivenda onde funcionava a PSP. Uma outra rua ligava o Largo à Igreja e a uma avenida ladeada de vivendas modernas.
A dois passos do centro, o Campo de Futebol, ponto de encontro da população em domingos de animados desafios. O futebol também servia de pretexto para concorridas excursões, quando havia jogos fora.
(…) A população branca formada por comerciantes, produtores de café e funcionários públicos, para além dos professores da Escola Preparatória e das muitas escolas de ensino primário espalhadas pelo concelho, conhecia-se e dava-se bem. Sobretudo a comunidade branca e mestiça. Quanto aos negros, apenas aqueles, muito poucos, que detinham cargos de responsabilidade na Administração Pública, tinham acesso à convivência da comunidade branca, com excepção dos dias de futebol e do cinema.

O início da guerra colonial e o seu impacto no quotidiano de Calulo são assim descritos pelo Autor:
“O conflito armado no Norte de Angola criara um tipo de solidariedade que envolvia praticamente todos os brancos. Alguns, aqueles que tinham vivido o início da guerra em 1961, consideravam essa solidariedade como que um modo de sobrevivência do sistema.
Poucos fazendeiros brancos se apercebiam da evolução que se estava a processar em todo o lado. A hipótese da independência quase não era abordada em público. Era uma espécie de tabu. Para a população negra e mestiça, assim como para os brancos mais jovens naturais de Angola, a política estava sempre na ordem do dia.”



Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 1 de agosto de 2013