sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Livros d'África


Gonçalo Rego



Licenciado em História, professor e jornalista, nasceu em Pinelo, Trás-os-Montes. A infância e adolescência foram passadas na ilha Terceira, nos Açores, em Angola e na ilha da Madeira. Veio a fixar-se no Barreiro onde passou a residir a partir de 1979. Foi fundador do jornalVoz do Barreiroe daRádio Margem Sule colaborador assíduo doJornal do Barreiro”.
Em 2004, através da EYAEL Editora, publica a sua primeira novela, “LAURA”, que conta uma história de amor vivido no decorrer do Portugal colonial em finais dos anos sessenta do século XX quando, em Angola, imperava a discriminação através da cor da pele; em Portugal continental, a sede do Império, era o estatuto social que dividia as pessoas.
É neste contexto que Carlos Macedo, enfermeiro e dentista em Angola, na pequena vila de Calulo, concelho do Libolo, parte um dia para Portugal em gozo da licença graciosa. Em Lisboa conhece Laura, criada de servir numa casa rica, e apaixonam-se um pelo outro. É então que começa a luta do casal contra as barreiras sociais, numa Lisboa provinciana e conservadora.

Mas, sobre Angola, eis como o Autor recorda e descreve a vila de Calulo:
“A vila de Calulo, cujo acesso por estrada asfaltada só foi concluído em 1972, era um pitoresco e dinâmico povoado. No centro, um belo jardim em alameda a desembocar no largo onde estavam os Bancos, a Administração, o casario mais antigo. Uma rua subia em direcção à Escola Preparatória e Hospital. Nessa rua estava o edifício dos Correios, uma Escola Primária, a Farmácia, a Fazenda, as grandes casas comerciais e o Cinema. Mais acima uma vivenda onde funcionava a PSP. Uma outra rua ligava o Largo à Igreja e a uma avenida ladeada de vivendas modernas.
A dois passos do centro, o Campo de Futebol, ponto de encontro da população em domingos de animados desafios. O futebol também servia de pretexto para concorridas excursões, quando havia jogos fora.
(…) A população branca formada por comerciantes, produtores de café e funcionários públicos, para além dos professores da Escola Preparatória e das muitas escolas de ensino primário espalhadas pelo concelho, conhecia-se e dava-se bem. Sobretudo a comunidade branca e mestiça. Quanto aos negros, apenas aqueles, muito poucos, que detinham cargos de responsabilidade na Administração Pública, tinham acesso à convivência da comunidade branca, com excepção dos dias de futebol e do cinema.

O início da guerra colonial e o seu impacto no quotidiano de Calulo são assim descritos pelo Autor:
“O conflito armado no Norte de Angola criara um tipo de solidariedade que envolvia praticamente todos os brancos. Alguns, aqueles que tinham vivido o início da guerra em 1961, consideravam essa solidariedade como que um modo de sobrevivência do sistema.
Poucos fazendeiros brancos se apercebiam da evolução que se estava a processar em todo o lado. A hipótese da independência quase não era abordada em público. Era uma espécie de tabu. Para a população negra e mestiça, assim como para os brancos mais jovens naturais de Angola, a política estava sempre na ordem do dia.”



Tomás Lima Coelho


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