quarta-feira, 22 de abril de 2015

700 Refugiados naufragados no Mediterrâneo


Drama dos Refugiados - Um Problema sem Solução?

António Justo

As notícias catastróficas sobre refugiados que tentam atravessar o Mediterrâneo para a Europa multiplicam-se de dia para dia; o número  de naufragados subiu, esta última semana, já para mais de mil.

Segundo a agência da ONU para refugiados do ACNUR, deu-se agora (19.04.2015) a maior tragédia no Mar Mediterrâneo com refugiados. A 10 km da Líbia afundou um arrastão com 700 pessoas a bordo, dos quais apenas 28 puderam ser salvos.
Dias antes, segundo a organização de ajuda humanitária Save the Children tinha naufragado já um navio ao largo da costa da Líbia, com 560 refugiados/imigrantes. A Guarda Costeira italiana ainda conseguiu salvar 144 dos naufragados.
Desde o início deste ano, já foram salvos 19.000 imigrantes.

Operações de salvação de imigrantes/refugiados - Mare Nostrum e Frontex
Em Novembro de 2014, a Itália deu por finda a operação (“mare nostrum”) de salvação de migrantes vindos das costas da Líbia” e iniciada depois do naufrágio de Lampedusa onde morreram 400 imigrantes líbios em Outubro de 2013. Esta operação italiana custou 114 milhões de euros e conseguiu salvar 150 mil vidas em perigo de naufragar no mediterrâneo.

Para poupar dinheiro e para, alegadamente, não facilitar o trafego dos traficantes contrabandistas de refugiados e para não se tornar num incentivo para outros refugiados, a UE não continuou a missão salvadora “mare nostrum”, criando, em vez dela, uma patrulha (“Triton”) a operar no alto-mar mediterrânico que faz o rastreio de barcos (impedir barcos ilegais e salvar pessoas). A Marinha dos estados membros e a Agência de Patrulha de Fronteiras (Frontex) só podem operar no âmbito de 30 milhas náuticas das fronteiras da UE, o que facilita a vida aos traficantes de imigrantes/refugiados.

Entre os Estados membros não há acordo em criar estratégias mais eficientes atendendo também à situação mercantil com os refugiados e aos concorrentes interesses e compromissos históricos dos diferentes países europeus em relação a África. (A Inglaterra não participa na Frontex).

Por outro lado, uma política de distribuição equitativa dos imigrantes pelos diferentes países membros revelar-se-ia injusta. A agravar a situação está o facto de a grande maioria de imigrantes serem muçulmanos e estes se organizam em guetos que se definem, geralmente, na autoafirmação e contraposição em relação à cultura não muçulmana. Por um lado, os imigrantes/refugiados trazem sangue novo e contribuem para o rejuvenescimento de uma Europa já envelhecida, por outro trazem imensos custos, a curto prazo, no que respeita a medidas de alojamento, formação escolar, profissional e de integração no mundo social e laboral.

A UE encontra-se dividida entre o combate às organizações de tráfico (quadrilhas de contrabando) que fomentam o trafego com refugiados cobrando entre 4.000 e 7.500 Euros por pessoa, pela sua passagem para a Europa, em condições míseras e desumanas, e o regime jurídico a aplicar: as autoridades europeias têm dúvidas sobre a definição do estatuto dos refugiados que se for de ordem económica, não dá direito a asilo, e se for de ordem política implica o direito a asilo no país onde aportarem.

Esta nova catástrofe motivou a intenção de criar novas iniciativas a nível europeu. Neste sentido pensa-se na extensão da missão de salvação “mare nostrum” a nível europeu e a medidas nos países costeiros africanos. “Mare nostrum” tinha a vantagem de detectar o perigo nas zonas costeiras da Líbia.

Muitas das famílias dos refugiados/imigrantes vivem em situações críticas no que respeita à segurança, à corrupção das autoridades da alta jerarquia e a dificuldades económicas e por isso procuram enviar os seus jovens mais robustos para a Europa para que, uma vez que tenham um lugar de trabalho, possam enviar dinheiro para elas.
As nações e a ONU enviam bastante dinheiro para projectos de desenvolvimento e de infraestruturas mas, como não há controlo, muito do dinheiro é desviado, enquanto projectos pequenos, a nível regional de Autarquias, Aldeias, no dizer de Cap Anamur, são eficientes: “à medida que se sobe na jerarquia aumenta a corrupção”.

Rotas dos refugiados ilegais
Segundo menção da imprensa alemã, as rotas de proveniência da maior parte dos refugiados ilegais, em 2014, foram: Europa de Leste com 1.270 refugiados (vindos do Vietnam, Afeganistão e Geórgia), Europa do Sul com 43.360 refugiados (do Kosovo, Afeganistão e Síria), Grécia com 8.360 (da Albânia, Macedónia e Geórgia), Mediterrâneo Oriental com 50.830 refugiados (da Síria, Afeganistão e Somália), Canárias com 275 refugiados (de Marrocos, Guiné e senegal), Mediterrâneo Ocidental com 7.840 refugiados (dos Camarões, Algéria e Mali) e Mediterrâneo Central com 170.760 refugiados (da Síria, Eritreia e Somália).

A esperança desesperada tenta a ilegalidade como meio para melhorar a vida. Fogem do Iraque, da Síria, da Líbia, do Afeganistão, do Iémen, de Marrocos, de Mali, etc. Fogem à guerra, à injustiça e à pobreza. Explorados por quadrilhas traficantes, vêem a sua vida ameaçada até atingirem a cortina europeia da Itália, Grécia, Bulgária ou Espanha. Chegados a um país europeu vêem-se confrontados com burocracias e costumes estranhos bem como com o receio de parte da população dos países de recepção que vêem a sua identidade cultural ameaçada e as finanças das comunas sobrecarregadas.

Devido à contínua afluência de refugiados à Alemanha já se observam actos de vandalismo contra casas que são preparadas para a recepção de refugiados e uma crescente oposição de grupos que se manifestam contra políticos que a nível local tomam iniciativas de criar lugares de alojamento para refugiados. Por outro lado assiste-se na população alemã a uma grande participação em medidas de ajuda concreta a refugiados.

Para não se sobrecarregar a sociedade com problemas de integração a sociedade acolhedora terá de garantir o sucesso aos refugiados que encontrem guarida entre nós, indo de encontro às suas necessidades humanas, nos diferentes níveis de acolhimento. Por outro lado os migrantes muçulmanos terão de mostrar mais vontade de respeitar a mentalidade dos países acolhedores não se rebelando contra a integração.

Num barco saído da Líbia (14.04.2015), com 105 imigrantes, tripulantes muçulmanos lançaram 12 cristãos ao mar, encontrando-se agora 15 dos prováveis assassinos (da Costa do Marfim, Mali e Senegal) a contas com a justiça italiana em Palermo. A realidade ultrapassa a nossa fantasia: no mesmo barco, na procura de salvação em terras cristãs, imigrantes muçulmanos perseguem companheiros cristãos em nome da sua religião! Em casas para refugiados na Alemanha tem havido contendas entre refugiados que se agridem devido à sua diferença religiosa.

Muitos africanos passaram o primeiro colonialismo na sonolência e agora como imigrantes têm medo de ser colonizados pelo ocidente civilizado. Antigamente os "chefes" forneciam escravos à Europa em troca de algum dinheiro e hoje fornecem-nos matéria-prima deixando os seus cidadãos passar mal.

Combater as causas e não apenas as consequências da catástrofe humana, será a grande tarefa da UE, procurando fomentar perspectivas de vida digna nos seus países de origem e criando um ambiente favorável à integração dos hóspedes chegados. Sem uma abertura mútua entre hóspedes e hospedeiros acumular-se-ão problemas e criar-se-ão situações futuras perigosas para toda a população.

António da Cunha Duarte Justo
Jornalista


terça-feira, 21 de abril de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


PASSA A VIDA NUM AI


Por meus olhos cerrados 
Vagueiam mil vozes, 
Dispersas aos quatro ventos 
Cruzam-se mares e terras 
Sentem-se vidas 
Sete vezes perdidas 
Sete vezes abraçadas.

Por meus olhos abertos 
Passa a vida num ai, 
Pela mão de um fio, 
Nos braços de um papagaio azul.

Sinto que passo 
Sinto-me escoar 
Por entre os fios do tempo.

Nada fica.

Nada permanece. 
Sinto-me areia 
Da praia 
Varrida pelas ondas, 
Sempre pronta a receber, 
Sempre pronta a deixar-me absorver...

E sempre pronta a renovar-me 
Em cada acto de escrita... de reescrita...

Gostaria de ser assim, 
Como sou e me sinto: 
Um viajante 
Das palavras 
Das vidas que me rodeiam 
Do meu tempo e do meu espaço.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (128)

Estudo Conforme o Retrato do Papa Inocêncio X realizado por Velazquez,

 Autor Francis Bacon, 1953, Óleo sobreTela, 153x118cm   

                                                                                                                         Breviário Rústico – 33
“-Santidade!” -disse o camarlengo ao Papa Francisco - “ela afirmou que eles têm os cofres cheios e depois o chefe confirmou isso com todas as letras!”“-Hum…” – disse o Papa –“E o que diz São Lourenço disso?”“-Santidade, São Lourenço diz que não se entende com aquela contabilidade criativa.”“-Mas a que propósito me vens tu falar disso agora?”“-É que, Santidade, há aquela contazinha antiga, do tempo do Vosso antecessor Lúcio II; as tais 4 onçazinhas de oiro do tal Afonso Henriques, que era um bocadinho intempestivo.”
Aníbal Guerreiro de Sousa

domingo, 19 de abril de 2015


MIRADOURO 15 / 2015
(esta rúbrica não respeita as regras do acordo ortográfico)


Pensamentos Vagabundos

Do tempo que passa e passou restam memórias. Recordações que nos visitam e que conotamos em função do estado do tempo que interiormente medra.
Umas vezes, gratidão pelo vivenciado, outras, frustração pelo desperdiçado.
Lembramos frequentemente pessoas importantes nas nossas vidas.
As mais importantes.
Aquelas que nos são inquestionáveis
Todos “temos” pessoas assim.
Algumas já não estão por cá e são-nos inacessíveis.
Com algumas, comungámos respiração e sonhos, realizámos projectos, construímos amor na harmonia possível dos dias partilhados. Com outras, talvez nem tanto e daí a sensação insuportável de falha. De que algo, talvez não fundamental mas seguramente importante, ficou por declarar, algo que se não chegou a manifestar em toda a sua extensão e que decerto se justificava.
Parece que é mais fácil e infalível a transmissão de aversões do que a declaração de amores.
No amor falha-se mais.
Não deveria ser mas, parece que é.

                                                                                                               Manuel João Croca



sexta-feira, 17 de abril de 2015

Xiquitsi - Música Clássica de Maputo



 Coro e Ensemble Xiquitsi - Para ouvir clique na imagem


O projecto Xiquitsi é um dos projetos administrados pela Kulungwana, a  Associação para o Desenvolvimento Cultural, que foi adquirindo ao longo dos anos a necessária experiência para gerir projetos em diversas áreas de atividade cultural. Com apoio financeiro do Reino da Noruega, dos patrocinadores e das receitas próprias tem conseguido levar a cabo interessantes e diversificados projetos.

Conta para o efeito com uma Direção Executiva e respectiva assistente e pessoal na área de acolhimento e contabilidade que asseguram a atividade corrente dos projetos. No site da Kulungwana (www.kulungwana.org.mz) podem ser conhecidas as atividades desenvolvidas ao longo dos anos.

A Kulungwana organizou desde 2005, oito edições do Festival Internacional de Música de Maputo. A música clássica e o jazz acústico foram os géneros musicais privilegiados.

Entre 2005 – 2012 os festivais que reuniam músicos internacionais e nacionais permitiram um intercâmbio importante e criaram a oportunidade para o público jovem em particular, conhecer de perto um género musical e instrumentos menos divulgados em Moçambique. O acolhimento do público e estudantes tem sido muito positivo e as solicitações de promover este tipo de evento ao longo do ano, tem vindo a crescer.

Nossos aplausos para este projeto. E amiga Zé continue a dar-nos conhecimento sobre as ações da  associação Kulungwana. Isto, sim, é lusofonia.

Saudações,
Margarida Castro 
(in, Diálogos Lusófonos)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

MARGENS DA VIDA
Uma composição poética feita poema da semana que nos convida a reflectir sobre a nosso percurso terreno que poderá ver e ouvir nos seguintes links:

versão declamada:
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Margens_da_Vida/index.htm

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Apontamentos Políticos


Duas Teorias Renascentistas: Maquiavel e Thomas More


Nicolau Maquiavel

Florença, pintada por Canaletto,
 e Maquiavel em pintura de Borgo Sansepolcro, século XVI.

Um dos representantes das novas ideias políticas é Nicolau Maquiavel cujo pensamento se apresenta como um produto típico do Renascimento. Nasceu em Florença, em 1469. O seu livro mais importante para a história do pensamento político é “O Príncipe”, publicado em 1513.

Neste livro, ele propõe-se procurar “qual é a essência dos principados, quantas espécies de principados existem, como se adquirem, como se mantêm e porque se perdem”. Mais concretamente, em relação aos principados italianos, ele procura definir as condições de que depende a ordem e de como é possível estabelecer um Estado estável que era coisa difícil de conseguir nos tempos que corriam.

A sua proposta sobre o poder político, onde se louva a arte da guerra, pois que o homem é “mau por natureza”, é que uma vez alcançado devia ser assegurado sob quaisquer circunstâncias. Para ele, a manutenção do poder é a verdadeira essência da política. Antes de um comportamento ético deverá estar a astúcia do “príncipe”, que deve ser capaz de tomar a decisão certa na altura certa em relação a forças antagónicas que constituem aa sociedades humanas. Assim, a religião ou a moral deverão constituir, antes de mais, instrumentos políticos face à necessidade de manutenção do poder. Nele, o "príncipe", o monarca, confunde-se com o próprio estado e a sua proposta passa por uma inteira centralização do poder, um sistema político designado de "absolutismo monárquico".

Maquiavel é considerado um dos fundadores da Ciência Política. Depois de Aristóteles é ele quem avança mais um passo no desenvolvimento desta ciência, pois ele tenta analisar o que as sociedades são, em vez do que deveriam ser. Embora tenha contribuído para o desenvolvimento da ciência política, alguns autores de espírito mais humanista referem-se às suas ideias como sendo, antes, por razões óbvias, um passo atrás.

Como é sabido Maquiavel(ico) ficou na linguagem corrente como sinónimo de sistema de ação que usa da velhacaria, da perfídia e da astúcia, para atingir os seus fins, sem se preocupar com os meios que utiliza. Mas há muito quem se refira ao exagero da adjetivação, pois que paralelamente à necessidade de preservação do poder, havia que tomar decisões que zelassem pelo equilíbrio do estado e pela sua coesão social Esta ambivalência de princípios é designada nele pela “crença na dupla moralidade”.


 Thomas More

Execução de Thomas More
pintura de Antoine Caron (séc. XVI).

Um outro nome do Renascimento muito importante para o desenvolvimento das ideias políticas é Thomas More que, todavia, se situa nas antípodas da maneira de pensar de Maquiavel.

Nasceu em Londres em 1478 e a sua principal obra é “A Utopia”. Morreu no cadafalso por se ter recusado a repudiar a chefia espiritual do pontífice, tal como exigia Henrique VIII. A Igreja Católica acabou por lhe prestar justo reconhecimento ao canonizá-lo em 1935.

Para além de um crente fervoroso era um incondicional humanista. As suas principais influências encontram-se em Platão e Santo Agostinho. Embora ao descrever esta sua obra não faça referências ao Evangelho, as preocupações morais do humanismo cristão estão sempre presentes e levam-no a criticar duramente os problemas políticos do seu tempo. Ele vê o homem como um sujeito capaz do bem, onde a mãe natureza trata todos por igual, e as sociedades humanas com possíveis reinos de paz, onde a guerra deveria ser evitada a todo o custo.

A descrição da sua “Utopia” é precedida de um diálogo em que More faz crítica à organização social do seu tempo: os príncipes só pensavam na guerra, preocupando-se pouco com a administração dos Estados sob seu domínio. A organização política da sociedade revelava inúmeros problemas, onde um número excessivo de nobres e ociosos, com as suas clientelas, viviam à custa do trabalho dos outros; tal como se verificava também a existência de um grande número de mendigos que também nada produziam. Em França e em Inglaterra, o cenário era idêntico.

A Utopia, cuja primeira edição é publicada em 1516 e ainda hoje constitui obra muito referenciada, representava uma proposta alternativa à realidade vigente. More descreve uma ilha imaginária que apresenta um Estado e organização social perfeitos. No fundo uma sociedade absolutamente igualitária, de produção coletivista, com costumes, instituições e leis iguais, onde, numa expressão, “tudo é de todos”. Constitui com “A Cidade Bela” de Platão, as primeiras propostas de sociedades comunistas da história.


Luís Santos

terça-feira, 14 de abril de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


O CÁGADO E A LUA

No fundo do poço
O Cágado Vagaroso
Nada, nada sem parar...
À noite, passa o tempo
A brincar...
É que a sua amiga Lua
Nas suas águas vem descansar!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (127)

Fulgurante como mil sóis, António Tapadinhas, 2008
Acrílico sobre Tela, 40x50cm

Rómulo de Carvalho, poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, licenciado em Ciência Físico-Químicas, professor, que conheci na Escola Veiga Beirão. Tinha como poeta o pseudónimo de António Gedeão. Pedra Filosofal, Enquanto. Lágrima de Preta e Calçada de Carriche são alguns dos seus mais célebres poemas.
 Nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906 e morreu em Lisboa a 19 de Fevereiro de 1997. 
É dele o "Poema da Morte na Estrada".

António Tapadinhas
  
Poema da Morte na Estrada


Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo
sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos. 

domingo, 12 de abril de 2015


MIRADOURO 14 / 2015

(Esta rúbrica não respeita as normas do acordo ortográfico)



Ando
 mas,

ainda assim,

e s
p e
r o

talvez por o andar ser

sem destino.


Talvez por não saber onde ir.


Talvez que andando

se faça caminho

ou seja o caminho


que se faça em mim.


                                                                                                        Manuel João Croca


Foto (pormenor): Edgar Cantante

sábado, 11 de abril de 2015

Erva-prata


por Miguel Boieiro

Sei agora que há diferentes plantas com a designação popular de erva-prata. Quando era criança os meus pais advertiam-me com frequência para não misturar no forrejo uma tal erva-prata rasteirinha e de flores brancas. Ela não matava os bichos mas conferia um sabor muito desagradável ao leite e à carne, de tal maneira que os mesmos não se podiam tragar.

Num exame escrito da disciplina de Matérias-Primas do antigo Instituto Comercial de Lisboa, para além do que se encontrava nas respetivas sebentas que presidiam ao estudo, atrevi-me a falar de uma erva que, depois de comida pelas vacas, transmitia ao leite odores e sabores desagradavelmente enjoativos. A professora, que não conhecia tal facto, ficou estupefacta com o à vontade do aluno, mas a ausência do nome científico acabou por colocar um ponto final no assunto. Humildemente acrescento que ainda não detetei a respetiva designação binominal latina e assim, não posso, por ora, caracterizar tal erva-prata com o necessário rigor.

A que desta feita venho abordar é talvez, de todas as ervas-prata, a mais divulgada em Portugal. Dá pelo nome de Paronychia argentea e pertence à família das Caryophyllaceae. Há também quem a conheça por paroníquia, paroninquia-de-clusío, erva-gelada e erva-do-orvalho. Os americanos chamam-lhe “Algerian Tea” o que, desde logo, indicia a sua origem mediterrânica.

Trata-se de uma herbácea perene com brácteas secas que fazem lembrar papel translúcido. Nasce espontaneamente nos terrenos arenosos ou pedregosos expostos às radiações solares e encontra-se com frequência nas clareiras das matas xerófitas, solos incultos, bermas dos caminhos, dunas e areias litorais formando vistosos tapetes. Possui vários caules prostrados de cor avermelhada. As pequenas folhas são opostas, ovais ou ligeiramente lanceoladas com pecíolos curtos. Na floração aglomerada, o que desperta a atenção são as brácteas prateadas, protegendo e quase escondendo o respetivo perianto. Dificilmente se enxergam as minúsculas flores axilares de tons amarelos, com cinco sépalas e cinco pétalas. Elas são hermafroditas, beneficiando da polinização facultada por pequenos insetos.

A Paronychia argentea é bem visível nos “chás” compostos vendidos nas ervanárias visto que, pelo seu aspeto singular, se distingue facilmente das outras espécies.
Considera-se que possui propriedades diuréticas, adstringentes e vulnerárias.
A medicina popular utiliza-a, desde remotas eras, para os problemas dos rins e do fígado, dores abdominais e albuminúria e ainda para tratar transtornos gastrointestinais de cães e gatos.
O Dr. Lyon de Castro aconselhava o infuso de 30 g da planta num litro de água para tomar três vezes por dia, fora das refeições.

Consultei vários tratados estrangeiros de plantas medicinais e não encontrei, em nenhum deles, qualquer referência à erva-prata. Isso faz supor que o seu uso é essencialmente devido à tradição popular que se transmite oralmente através das sucessivas gerações. A corroborar esta ideia temos o interessante livro de recolhas do historiador Domingos Boieiro. Na sua obra “Ervas e Mezinhas – Corpo e Alma – Cadernos da Memória do Alandroal” este meu “primo alentejano” regista o resultado de várias entrevistas feitas a camponeses idosos do seu concelho onde a Paronychia argentea aparece elencada como erva diurética e adstringente. Na página 64 refere-se mesmo que “o chá de erva-prata é excelente para fazer funcionar o aparelho urinário e em banhos serve para diminuir as secreções glandulares e limpar a pele”.

Por fim, devo acrescentar que encontrei também uma menção à erva-prata no pequeno dicionário “Nomes Vulgares de Algumas Infestantes e Respetivo Nome Botânico”, de Fátima Rocha, publicado em 1979 pela Direção Geral de Proteção da Produção Agrícola do Ministério da Agricultura.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Apontamentos Políticos


(Fonte da Imagem: Wikipédia, autor desonhecido)


 A Idade Moderna: O Renascimento

A partir do século XVI abre-se um novo período na história do pensamento europeu que vai corresponder ao desenvolvimento de um novo paradigma político. Se até aqui as ideias dominantes se subordinavam, em larga medida, a uma lógica religiosa católica, um conjunto de novos acontecimentos vão impor uma lógica de pensar mais assente na razão, diretamente ligada aos avanços que o pensamento científico vai conhecer. Doravante, uma tensão constante entre religião e ciência, com um domínio crescente desta, vai marcar o domínio na explicação da realidade para os próximos séculos.

Os acontecimentos mais importantes que assinalam esta significativa rutura paradigmática são os seguintes: Renascimento, centralização do poder, Reforma, Descobrimentos e Contra-Reforma.

O Renascimento marca um retorno (um renascer) à Antiguidade Clássica, à filosofia grega, interrompendo o domínio exclusivo da lógica católica que, como vimos, se desenvolveu durante toda a Idade Média. Uma nova teoria que substituiu a terra pelo sol quanto à centralidade que ocupavam na organização planetária, designada por heliocentrismo, proposta avançada por Copérnico e solidificada, entre outros, por Galileu, vem destronar a lógica geocêntrica ptolomaica que afirmava o planeta terra como o centro do universo, à volta da qual todos os planetas giravam, inclusive o sol.
O heliocentrismo costuma ser o acontecimento por excelência que mais marca o início do Renascimento, mas a par dele existem muitas outras descobertas científicas e filosóficas igualmente importantes, como será o caso, por exemplo, da sistematização do método experimental feita por Déscartes que vem abrir portas a uma lógica científica que urge.

A centralização do poder político exprime-se na formação das grandes monarquias europeias, tal como ocorreram em Inglaterra, França e Espanha. Tempos em que imperam políticas de absolutismo real, em que um só, rodeado do seu séquito, centra unilateralmente em si o poder da decisão política.

A Reforma que constitui um movimento de protesto religioso que nasce no interior da própria Igreja e vem criticar alguns dogmas católicos que careciam de sustentação. Este acontecimento centrado na Alemanha, liderado por Martinho Lutero, em 1517, e que depois se vai impor, sobretudo, nos países do norte da Europa, vai quebrar a unidade religiosa que até então vinha a caracterizar a parte ocidental do continente, cindindo daí para a frente ainda mais a Igreja, em católicos e protestantes. Os ortodoxos e os anglicanos são as outras grandes religiões cristãs que se constituíram em rutura com a Igreja Católica.
Em reação à forte dimensão que os Protestantes vão adquirir, por um lado, e aos avanços da ciência, por outro, vai-se criar um movimento jesuíta que tenta proteger a Igreja do seu enfraquecimento crescente que se designa por Contra-Reforma.

Por fim, assinale-se a importância que os Descobrimentos portugueses e espanhóis tiveram neste período com as grandes viagens ultramarinas, quer no que diz respeito ao grande incremento das trocas comerciais, que trouxeram novas possibilidades ao mundo, quer no levar do monoteísmo cristão ao mundo e nas crenças da Jerusalém Celeste, que nas palavras de Luís de Camões podemos traduzir pelo seu Canto sobre a “Ilha dos Amores”.

Em suma, podemos dizer que o início da Idade Moderna caracteriza-se, por um lado, por um renascer das ciências gregas entre uma lógica católica que dominava e, por outro, por uma doutrina monoteísta cristã levada ao mundo por portugueses e espanhóis que se continua a afirmar.

Luís Santos

Nota: A segunda imagem, um dos símbolos do Renascimento, "O homem vitruviano", é da autoria de Leonardo Da Vinci.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Carta para a Presidente Dilma Rousseff


Desta carta foi enviada cópia para:
Supremo Tribunal Federal
Presidente do Senado Federal
Presidente da Câmara dos Deputados
E para as sedes dos seguintes partidos: PMDB, PSDB, PT, PSOL
Não vai dar em nada, porque ninguém vai sequer discutir cortar na própria carne!!!
Mas...


Excelentíssima Senhora Presidente da
República Federativa do Brasil

Há poucos dias, num pronunciamento televisivo, a Senhora disse que queria que TODOS participassem na reconstrução deste maravilhoso país, e para isso pediu que lhe escrevessem dando sugestões, para pudesse estabelecer um diálogo aberto entre todos.
Com todo o respeito aqui vão algumas que considero básicas para transformar esta “brincadeira infeliz” em que temos vivido, numa verdadeira República.
a).- Começar, desde já, por PROIBIR toda a despesa dos governos federais, estaduais ou municipais em propaganda, nas TVs, rádios e imprensa. Assim os órgãos de informação deixariam de estar “gratos” a quem tanto e tanto dinheiro lhes dá e passariam a informar com mais isenção. Além disso seriam menos alguns bilhões de reais a saírem dos cofres públicos com total inutilidade para o país.
b).- Acabar também com os enfadonhos “Horários Gratuitos”, enfadonhos e carregados de promessas falsas, mentirosas.
c).- Acabar com a impunidade de TODOS os políticos e juízes, ficando unicamente como exceção o/a Presidente da República, enquanto estiver no exercício do seu mandato.
d).- Acabar com a reeleição.
e).- Acabar com a concentração de impostos no Governo Federal. A situação atual permite, como total descaramento, favorecer aqueles “mais amigos”. A distribuição de impostos pelos Estados mais pobres deverá ser determinada ano a ano, de acordo com a evolução desses Estados.
f).- Proibir, em TODOS os níveis de governos e judiciário o uso de automóveis, ou outras viaturas para serviço pessoal. Mesmo para ministros, juízes em qualquer escalão hierárquico, governadores e todos mais.
g).- Um dos grandes problemas do país tem sido a corrupção. Assim que um servidor seja apontado como participante de algo ilícito, deverá ser imediatamente suspenso das suas funções até que o tribunal julgue o seu caso.
h).- Outro assunto que continua a preocupar a população é o crescimento desproporcional de menores envolvidos em crimes. É urgente reduzir a idade penal, como muito países o têm já feito há muitos anos.
i).- O maior problema do Brasil, além de todos acima expostos é a educação. A formação de professores de conveniente nível é o primeiro passo. Outro problema da mesma área é a proliferação de faculdades de péssima qualidade, que roubam, enganam, os alunos que têm o azar de acreditar que um almejado diploma os vai ajudar na vida. Todas essas faculdades que não atinjam o nível que o MEC determinar deveriam ser imediatamente fechadas e os alunos devidamente indenizados pelo logro em que caíram e pelos anos perdidos.
j).- Limitar o número de partidos políticos à quantidade mínima necessária para haver liberdade de discussão de ideias.
k).- Impor pesadas multas, pesadíssimas, a quem for flagrado a destruir a Amazônia ou qualquer outra região florestal ou reserva natural. Incluir nessas penas a possibilidade de prisão.
l).- Reduzir o número de ministérios e secretarias de Estado a, pelo menos, um terço do atual. É natural que essa redução leve a substanciais melhorias e rapidez no tratamento dos assuntos que lhe competem e no atendimento ao público em geral.
Senhora Presidente:
Peço-lhe que aceite estas sugestões, e que, se as julgar úteis, as mande analisar. Todos queremos um país digno, e respeitado. A primeira coisa a fazer é governar para que aqui dentro todos se respeitem, o que hoje não se verifica.
Apresento a Vossa Excelência os meus respeitos

Francisco Gomes de Amorim

terça-feira, 7 de abril de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


SENTIMOS

Sentimos
Que somos
Sem nunca desistirmos
De ver a nossa imagem
Na imagem dos outros
Que nos cercam
E acercam
E continuamos
A sentir um ser
Pulsar dentro de nós
Que quer sair
Como as palavras
Numa aragem azul
Numa voragem doce
Num pensamento múltiplo,
Num pensamento único.
E seguimos procurando
Sentir a vida
De um ser
Que rodopia com as palavras
Que se enlaçam,
Entrelaçam,
Jogam e dançam
E saem,
Finalmente,
Criando a nossa própria imagem
Cheia de sons e perfume,
Só nosso,
Indizível,
Sensível apenas
E somos nós
E sou eu.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (126)

Voo, Autor António Tapadinhas, 1996
Óleo sobre Tela, 46x38cm

PÁSSAROS COLORIDOS
já não se cantam hinos
as madrugadas sonolentas
cobriram-se de pássaros coloridos
que mergulharam as asas
numa só garganta
sorri os meus lábios
falei ao mundo
cresci 
olhei de longe
vi
são pássaros coloridos
de cores indefiníveis

Carlos Fernando Bondoso

domingo, 5 de abril de 2015


A mulher do aposentado Velho Artur


O banco do jardim sentava semi-confortavel Artur, o velho pensionista, de olhos fitos no eucalipto que avistava  ao longe.
  Os dias que este colhia e a idade amassava, corroendo-lhe o corpo ao longo dos anos, eram para si nada mais nada menos que um pacto feliz que fizera com a morte. Dir-se-ia mesmo que estavam unidos por união de factos tanto através do silêncio com que encarava a árvore como pelo negro dos dias que se iam multiplicando no seu corpo, que apesar de negros não lhe prestavam dor física alguma.
  Por isto Artur, o velho pensionista era feliz com a sua morte, que lhe trabalhava a alma e a carne sem dor alguma. Sentia mesmo que estava unido a ela pelas melhores razões pensando de quando em quando: “Chegaste, ai estás perfeita de ti em mim sem dor alguma na tua foice”.
 
Houve um breve movimento de cabeça que o fez fixar a visão num formigueiro do outro lado do passeio á sua frente, deu um toque com a  bengala no chão enquanto observava as formigas devorando um escaravelho de estrutura grande para a sua classe. De barriga para cima esperneava-se em rápidos movimentos enquanto as formigas lhe trespassavam o crustáceo do corpo num último adeus á vida.
  O velho observava sereno, o bicho de mãos dadas com a sua morte. “ Sim havia dor naquele corpo” pensava.
Levantou a bengala e com um suspiro e um lento fechar e abrir de olhos bateu com a bengala no chão. Pensava no sol, na lua, no tempo e na pensão salarial que de há trinta anos até àquele dia nunca havia falhado.
 Avistou num canteiro próximo, deitada entre meio das folhagens, uma cadelinha de rua com cinco cachorrinhos mamando euforicamente nas tetinhas da mãe. “Quando se nasce a morte vem a reboque, quando nascemos estamos para morrer” pensou o Velho.

A generosa relação que ele tinha com sua morte fazia-o viver uma vida que o levava a crer que estava morto, de certo modo achava-se morto com a vida que tinha, mas não sentia qualquer remorso com isso nem tão pouco sentia a dor predominante da morte.
  Mas isto que Artur pensava, começou-o a pensar a partir do momento em que se reformou, “Depois da reforma cai nos braços da bela foice ela que faça de mim o que quiser, será sempre bela enquanto não me beijar a dor”.

Bocejou, e pegou na bengala semi-estendida no banco e bateu com ela no chão quatro vezes, mais quatro, e mais quatro, começou a assobiar ao som da bengala, pegou no chapéu, levantou-se e começou a andar e tropeçou num ferro junto ao caminho com uns chinelos que mal lhe protegiam os pés. Resmungando agarrado ao pé disse para si: “Porra, já te disse que não me beijes assim”

                                                                                                  Diogo Correia

    04-04-2015

sábado, 4 de abril de 2015


BELO

Na hora
em que a cidade
inicia seu recolhimento

- nessa época de noites
resfriando ares –

esqueço as lições de casa
os tormentos
e as tormentas

quedo em silêncio
e da janela assisto
a beleza em sua natureza.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Tudo começa num plim


HISTÓRIA CONCISA
DA 3ª GUERRA MUNDIAL

O jovem fez um manguito,
a polícia entrou em choque
e logo lhe caiu em cima
com toda a força do crachá
e do chanfalho.

Levaram-no para a esquadra
e a bordoada só acabou quando
o pai dele, que era general,
veio com a tropa atrás pôr fim
ao arraial, ocupando a esquadra
e prendendo os polícias todos.

A assembleia representativa
dos que pastoreiam o povo não gostou
e em nome do bom dinheiro
e da paz que o dinheiro exige
para uma boa reprodução,
berrou pela destituição
do casernático general.

A tropa não gostou e vai daí ós pois
invadiu o parlatório e fuzilou logo ali
os palradores menos ágeis incompetentes na fuga.
Os grisalhos, já se vê.

A Europa não gostou,
fez discursos em alemão
bateu os calcanhares e decretou
sanções económicas que tornaram
o pão mais caro e o bacalhão também.

O povo deu vivas e bateu palmas
às forças armadas de urtigas no cano
e deixou de pagar impostos,
passando à dieta de meia sardinha.

Wall Street, preocupada,
pôs de orelhas em pé a inteligência pentagónica
e o presidente, agora branquelas, deu ordens imediatas
para acabar com a anarquia.

Ao primeiro míssil,
uma barragem da EDP ficou escaqueirada
e os chineses não gostaram:
associaram-se de imediato aos putínicos
para ensinar aos arrogantes
boas-maneiras e respeitinho.

O petróleo subiu de preço
e as sete magníficas esfregaram as mãos.

Os judeus associaram-se com o Assad,
exterminaram os palestinianos
e toda a gente gritou: até que enfim.

De imediato, o Irão, apoiado nos bons ofícios
da Le Pen, exterminou os judeus
e toda a gente gritou: até que enfim.

O petróleo subiu de preço.

O Tio Sam pediu auxílio ao estado islâmico
e acabou com os aiatolas.

O petróleo subiu de preço.

A coligação sino-russa lançou
uma saraivada de mísseis
que derreteram as montanhas rochosas:
pum-pum-pum-pum…
e o petróleo subiu de preço.

A América estrebuchou,
o arroz subiu de preço,
os chineses morreram de fome,
os russos de bebedeira
e o estado islâmico especializou-se
em sanduiches de areia.

Numa base lunar,
o estado maior das sete magníficas
repartia os lucros e estabelecia os planos
para a reconstrução das coisas de escaqueirar.

Foi assim.

A 4ª segue depois do intervalo,
que o mundo ainda não acabou.


ABDUL CADRE

quinta-feira, 2 de abril de 2015


Montanha

na recta final dos seios, procuro a montanha num dia lindo de sol
o cristal da sorte. Procuro contigo a fonte do prazer para uma nova
semana, toda a velocidade passa em cada segredo madrugador
transporto beijos e mamilos para entrar ou sair da praia dia a dia

bebe-se a ginja na oratória dos dias claros transparências de peixe
no mesmo dia das flores no teu colo
folhas de rosa na piscina
do teu corpo

José Gil