quarta-feira, 8 de março de 2017

Um Encontro de Escritores


Francisco Gomes de Amorim

1ª Parte

Corria por Lisboa um  amante da história e das letras, à procura dum restaurante suficientemente grande que, por uma noite, pudesse fechar as portas para receber um elevado e muito especial número de convivas. Fechar as portas em sentido literal.

Isto porque os convivas, sobretudo os mais antigos e de elevada estirpe, não gostariam de ser vistos pelo público, muito menos entrando em lugares normalmente reservados a “plebeus”.

Nada encontrou em Lisboa, nem Porto, nem, correndo o país, em qualquer restaurante mesmo nos melhores hotéis, que lhe servisse para os fins em vista. Lembrou-se que um convento seria a melhor solução; lugares tranquilos, longe do mundo externo, e acabou por se fixar no Mosteiro de Alcobaça.

Levou tempo a convencer o Dom Abade que precisaria de uma sala, grande, fechada, onde ninguém pudesse entrar, nem por qualquer buraco espreitar. O refeitório do convento, espaçoso, seria o ideal. Argumentou como pôde: só o utilizariam a partir das 20 horas, pagaria o que fosse necessário, mas impunha uma condição: ninguém poderia ver quem lá iria estar dentro.

- Dom Abade: não tem que se preocupar, são todos pessoas da maior respeitabilidade. Depois lhe venho contar quem aqui esteve.

As instruções foram precisas: nada de cozinhados. Nada. Eles, os convivas, talvez quarenta ou cinquenta, não vêm comer. Só encontrar-se e conversar. Mas quem sabe se lhes apetecerá beber qualquer coisa, de modo que se porá à sua disposição, somente algo para quebrarem um pouco a « sede » e para alegrar o convívio, sobretudo vinhos. Os melhores.

Continuando, foi dizendo que tudo isso correria por sua conta, o Mosteiro não gastaria um cêntimo, e com a conveniente antecedência traria as bebidas, variadas, vinhos branco e tinto, vinho do Porto, outros vinhos generosos, vinho verde, aguardente e água. Todas as garrafas estarão abertas. Não precisaremos nem de saca-rolhas. Copos, sim, de todos os feitios, e à descrição. Muitos copos. Se o mosteiro não tiver, também posso trazer umas dúzias de copos. Não precisa ficar preocupado porque ninguém se vai embriagar e criar problemas. Não são necessárias cadeiras, só pequenas mesas espalhadas “aqui e além” onde os convivas possam depositar os copos vazios.

Como certamente vai sobrar muita bebida, desde já ela fica oferecida ao Mosteiro, esperando que os monges dela possam fazer bom uso, assim como dos copos.

Pessoal para servir, nem um. Não há necessidade. E que ninguém, rigorosamente ninguém, ali entre ou vá espreitar. Será eventualmente necessário fechar alguma janela porque não se deverá poder ver quem lá estiver.

O tranquilo Dom Abade julgava estar perante um louco. Para que se juntarem num restaurante se não iam comer? Só beber? Nunca tinha visto tal. O organizador do encontro limitou-se a responder perguntando quanto queria que lhe deixasse como pagamento ou contribuição para o acontecimento, o que o religioso deixou ao critério dele e, ainda cético, se ofereceu para colocar lá na sala alguns sumos das boas frutas da região, o que foi aceite com muito agrado. Foi-lhe então entregue então um envelope com generosa quantia.

- Aqui tem o seu dinheiro, Dom Abade. No dia seguinte eu venho acertar eventuais contas do que for necessário. Amanhã, a partir das oito da noite só poderão aqui entrar, além de mim estes poucos senhores cujos nomes estão nesta lista; eles sabem que ficarão numa sala separada, porta aberta para o salão onde não poderão entrar. Serão os testemunhos da reunião. E que ninguém mais saiba disto. E o senhor, Dom Abade terá que manter todo este assunto em segredo de confissão.

Face ao entusiasmo do visitante e do dinheiro, vivo, em notas, o Dom Abade, apesar de desconfiado, acedeu.

- Mais uma coisa só: onde tem aqui um altar dedicado a São Pedro?

Dom Abade levou-o a meio da nave central da bela igreja, e deixou-o ajoelhado, parecendo rezar com fervor.

Pouco demorou a tirar do bolso uma lista. Ajoelhado, humilde (pleonasmo: ajoelhar é já um ato de humildade!) frente à imagem do Santo e sem muito mais rezas diz-lhe:
- São Pedro, preciso de um grande favor. Tenho aqui uma lista de pessoas que gostaria que deixasse, amanhã, virem à terra. Por pouco tempo. Só algumas horas.
- Meu filho aqui não há ontem nem amanhã, e muito menos horas. Aqui só há o momento presente. O que não importa, porque tudo pode ser controlado. Mas o que vão eles fazer aí na Terra, quando aqui estão gozando a suprema felicidade?
- Será uma pequena reunião de escritores da língua portuguesa, incluindo até um que viveu antes de haver esta língua. Um encontro a que poucos, muito poucos vão ter oportunidade de assistir, e onde imagino se vão trocar curiosas ideias do tempo de cada um. Já todos aí estão a descansar, mas nós que os estimamos muito e estudamos, queremos ter o inestimável prazer de os poder ver.
Mas, querido São Pedro, tem que os deixar vir vestidos como andaram quando vivos, no seu tempo, pela Terra, independente de uns terem sido ricos e outros até pobres. Será uma ajuda para os podermos distinguir. Só os poucos vivos que assistirão ao encontro vão reparar nesses desprezíveis detalhes. Ah! Um outro detalhe: alguns eram judeus ou cristãos novos.
- Aqui não há judeus, nem há religiões. Há só Paz eterna para quem a mereceu quando peregrinou por essas bandas.
- Que bom, Santo Pedro.
- Mas estranho pedido esse, meu filho. Jamais alguém me apresentou semelhante ideia! Dizem que eu tenho as chaves do céu, mas aqui eu não mando nada. Somos todos iguais. Não sei como satisfazer este pedido que, devo dizer, até me parece interessante. Espera um instante que vou falar ao Pai.
Como no céu também não há instantes, de seguida São Pedro continuou.
- Vão poder ir sim. Não preciso da lista que trazes contigo, porque consigo ler o que te vai na alma. À hora combinada aparecerão, um de cada vez, sem ordem das hierarquias desse mundo. Vai em paz.

Já mais animado o nosso promotor da festa guardou a lista para depois conferir se viriam todos. Não que desconfiasse da palavra do Santo, mas para que ele próprio se não perdesse, e até porque talvez algum não tivesse ganho ainda... os céus!

Os convidados, terráqueos, autorizados a assistir, foram os seguintes de que só se indicam umas letras para não serem depois assediados por jornalistas e outros curiosos: CC, HS, AP, LS, e MC.

Refeitório arrumado, mesas encostadas às paredes, abertas as garrafas com as bebidas, os copos ao lado, arrumados, aproximam-se as vinte horas, o nosso “inventor” do encontro, nervoso, olha para o relógio a intervalos de poucos segundos. O que se iria passar?

De repente surge o primeiro, logo o mais fácil de identificar, zarolho (sem aquela ridícula coroa de louros na cabeça), calça a meio da coxa e uma capa pelas costas, só podia ser o Luis Vaz, de Camões! Olhou em volta, parece não ter visto o anfitrião, nem podia porque o anfitrião era um ser vivo e os convidados figuras etéreas (mas que iam beber vinho !) e com dois passos estava em frente das garrafas. Olhou para todas as garrafas, escolheu como bom conhecedor, encheu um copo de vinho verde e derramou-o num só trago! Ahhh ! Que saudades !

Entretanto chega Brás de Albuquerque só reconhecido porque Camões ao vê-lo exclamou, alegre:
- Brás, aliás Afonso, vamos falar um pouco das nossas aventuras, ou desventuras, na Índia! Tu não estiveste por lá mas sabes de muita coisa. Vem beber à saúde daqueles tempos. Vinho verde da minha região ou da tua quinta ?

Num instante aparecem mais três, quatro, cinco, e o anfitrião começa a ficar baralhado sem saber quem era quem. Reconhece Alexandre Herculano, impossível de não ser reconhecido, vê-o dirigir-se a um personagem, de roupa vistosa, longa barba branca, ar altivo apesar de se ver já de idade avançada, e muito respeitosamente se dirige a ele: 
- D. Alfonsi a Domino, quod est honor
Afonso X respondeu-lhe em castelhano, língua que ele havia introduzido oficialmente em Castilla y Leon em substituição do latim. Entretanto, garganta seca, pediu que lhe servissem um copo de vinho generoso.

- Dom Afonso, este é um vinho das encostas do rio Douro. Duero para usted. É ouro líquido para se beber!

Logo ao lado deles estava outra figura ímpar, que fez questão de beijar a mão de seu avô. Herculano logo o reconheceu também e não conseguiu calar o que sentia:
- Senhor Dom Dinis, o maior rei que Portugal teve!

Dom Dinis, em grande respeito por seu avô :
Tanto e tão bem fizeste, meu Senhor e Rei, que eu seguindo vosso exemplo aboli também o latim em Portugal. Institui não o castelhano mas o que mais se fala no meu reino: o galaico-português!  
   
E vinham-se juntando mais, encantados pela presença de tão destacadas figuras. Um deles, magrinho, nariz proeminente, bigode bem aparado, óculos pince nez, ajoelha-se em frente de Dom Dinis, olha-o bem nos olhos e diz-lhe:
- Meu querido e maior rei, o plantador de naus a haver! e deixa correr, de emoção duas lágrimas.

Já corre para se juntar ao poeta, roupa simples, humilde, o sapateiro de Trancoso, que Pessoa apresenta ao Rei:
Senhor, aqui está o homem que previu o grande futuro de Portugal no Mundo, tudo iniciado pela gestão do vosso reinado!

António Vieira esticava a cabeça para ouvir o que diziam do Futuro. Dom Dinis que o viu mandou-o aproximar-se mais para o abraçar. Sabia da sua História, e no seu íntimo agradecia-lhe a expansão do nome de Portugal. Neste pequeno grupo Agostinho da Silva tinha que estar; encantava-se na presença do grande soberano, mas sobretudo bendizia a herança da Santa Rainha, ausente, mas muito estimada, e queria apresentar ao rei a também sua visão Império do Menino, a que se juntou, para aplaudir, Ariano Suassuna.

Ao grupo inicial, ia-se juntando um sem número dos muitos poetas coevos porque ali se encontrava o Mestre. Bernardim Ribeiro, a quem Camões perguntou pela “Menina e Moça e seu roussinol”, um canto triste de quem cantou a dor da Menina; Sá de Miranda com sua longa barba, que depois de abraçar efusivamente o seu amigo Bernardim, brincou com Camões dizendo-lhe:
Sabes bem, grande mestre, que se te salvaste do naufrágio, não te salvas que se tenha espalhado por toda a parte o teu imenso engenho e arte! Aprendeste que o Amor é fogo que arde sem se ver, mas Amor é cego minino e a Fortuna é cega mulher!

João de Barros aguardava a troca das amabilidades poéticas para se voltar para a Índia! Camões,  Afonso de Albuquerque, Diogo do Couto, Garcia de Orta e até Duarte Nunes de Leão, que reclamava por não encontrar à disposição entre as preciosidades etílicas nem que fosse uma só garrafa da sua terra, o clássico Pera Manca, um vinho da minha terra que se cultiva há milhares de anos e que os romanos vinham aqui buscar para se deliciarem em Roma! André de Resende coadjuvou : 
-­ Tens razão Duarte Nunes. 

Todos riram e Afonso de Albuquerque correu para lhe oferecer um copo do que de melhor a Quinta da Bacalhoa produzia! Duarte Nunes:
Obrigado. É bom, mas não se aproxima do Pera Manca, amigo Brás.
- E eu que o diga, confirmou Bernardim, orgulhoso do seu Torrão!

Não seria tão bom, mas Brás foi notando que só à conta dele uma garrafa inteira já se tinha evaporado!

Bocagemagro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão na altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio e não pequeno, irreverente,atento à troca de ideiais não se conteve. Sadino, sai em defesa dos moscateis de Setubal que costumava beber em níveas mãos, por taça escurae com seu geito descontraido fez com todos provassem o cantado nectar, aprovado por unanimidade.

Os que andaram pelas Índias, cutucaram Camões:
- Mestre Luiz, nunca revelaste onde era a Ilha dos Amores, mas eu que por lá andei recordo bem uma das que mais me prenderam o coração: a Ilha de Mussa Ben-Bique! Não andavam as belas deusas pela floresta, que não havia, mas vi-as tocar o alaúde e a qunan, a que nós chamávamos harpa, e o nosso desejo se acendia mesmo que as carnes não fossem tão alvas!
- Tens razão Garcia, eu que por lá passei e vi muitas daquelas deusas de ébano, não as esqueci nunca. Como poderia? Depois de meses de mar...

Gaspar Correia com um suspiro acrescentou:
- Ah! A ilha dos sonhos e dos amores era essa mesma, Diogo do Couto. Passei a minha vida, quase toda na Índia e lembro do grande Vice-Rei Afonso de Albuquerque que volta e meia me falava das "deusas daquela ilha"!

Seguia a conversa sobre a Índia, mas havia que escutar outros grupos.

Camões vê entre os de outras gerações alguém que queria muito cumprimentar. Ali estava outro poeta, elegantíssimo, casada ver de bronze com botões de amarelo dourado, colete branco de grandes bandas, calça cor de flor de alecrim, gravata de cores lubricas e luvas cor de palha!
- João Batista! Que ideia ter escrita aquele belo poema Camões! Muito me sensibilizou e fez até nascer almas poéticas em jovens simples!
- Luiz Vaz, deverias ter visto a magnífica peça de teatro que fez em meu nome! Foi um imenso sucesso!
E conseguiu um efeito especial do Castelo da Almada a arder dentro do teatro!
Exclamou Manuel de Sousa Coutinho.
- Sabem onde me inspirei? Numa barraca de marionetes na Póvoa de Varzim! E que bela obra também a tua Frei Luís de Sousa, sobre o grande arcebispo Dom Frei Bartolomeu!

A reunião estava animada, a noite virava e ainda duraria muitas horas.

2ª Parte
Continuava animada a conversa naquele inusitado encontro em Alcobaça.
Rodeavam agora Dom Dinis todos aqueles que haviam passado pela sua Universidade lembrando que fora este grande rei que, em 1290 instituira o Estudo Geral Português, com a assinatura do documento “Scientiae thesaurus mirabilis”. Parecia, e era (e continua a ser!) a maior figura da história de Portugal.

Propunham até, os antigos alunos, ali fazerem uma serenata ao grande Rei, e o lembraram, meio em segredo, para não melindrarem a memória de Dom Afonso o quarto, de seu filho Pedro Afonso que tanta obra deixou. Ainda ensaiaram uma pequena trova de D. Dinis, mas em voz baixa já que os outros convivas estavam, também em animada conversa: "Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! ai Deus, e u é?

João Rodrigues, depois Amato Lusitano, lamentava ter ido estudar em Salamanca por ser considerado na altura de sangue sujo. Brilhou pela Europa, assim como Abraão Zacuto Lusitanum de quem Dom João III se serviu, mas não impediu que fosse igualmente expulso de Portugal. António Vieira conversava com eles que sabiam que ele também havia sofrido semelhante perseguição, bem como outro brilhante conviva Garcia de Orta.

Até o grande mestre Damião de Gois, de família nobre, por melhor e mais profundamente pensar foi perseguido pelo mesquinho clero e acabou, ao que dizem, assassinado! E espero que ninguém se esqueça do que sofreu o também grande Diogo do Couto.

Lamentavam todos os presentes que os sefarditas tivessem sido expulsos dum país que eles tanto amavam e continuaram a respeitar mesmo longe. E, pior, expulsos por quem deles se serviu, D. João III, esmagado sob o peso da beatice dominicana. Herculano, ouviu falar neste rei e não se conteve, seu ar austero: 
- Era um homem medíocre, inábil, fanático, inábil para governar por si próprio". 
António Vieira, mais cordato:
Aproveitemos este encontro, este convívio e procuremos esquecer as nossas desventuras. Vamos beber um bom vinho das terras de Garcia de Orta, não direi à nossa saúde porque... mas ao nosso encontro.

Muito mais grupos se formavam sem que alguém fosse impedido de circular.
Já Dom João, o primeiro, beijara a mão de seu bisavô, e presenciado o respeito de que ficou sempre merecedor, num instante se viu rodeado pelos amigos, entre eles Dom João de Ornelas cujo semblante não negava o prazer de estar no “seu” antigo mosteiro!

E pelos cronistas! Fernão Lopes, que elogiava o trabalho de Duarte Nunes ao refundir as crônicas dos reis da primeira dinastia, e a dos três primeiros reis da dinastia de Avis, na Segunda Parte das mesmas crônicas, o que foi apoiado por Gomes Enes, de Zurara, e Herculano que ainda acrescentou:
Na opinião do 1° Marquês de Alegrete, foi Duarte Nunes de Leão quem abriu caminho à crítica da História em Portugal, escrevendo com juízo e madureza, certamente enquanto apreciava o seu tão famoso e elogiado vinho!
O que ele também fez. Herculano estava eufórico. Ele, sempre aquela cara fechada, enigmático, exultava com os personagens que tão bem conhecera no Tombo.
E chegados estavam agora os filhos Dom Duarte e Dom Pedro.
Bonito esse vosso livro meu filho, o Leal Conselheiro. Exemplo de um homem honrado que bebeu, sobretudo de sua mãe, a delicadeza e o comportamento exemplar. Pena que meu neto Afonso tenha sido tão ingrato com seu tio Pedro, que foi o melhor conselheiro que poderia ter encontrado.

Dom Pedro, que foi Duque de Coimbra, duque de Treviso, Cavaleiro da Ordem da Jarreteira, ar triste, no íntimo o filho preferido de seu pai, que sempre amou seu irmão e seu sobrinho, perdoava, mas não podia esquecer o que lhe fizeram.
-  São águas passadas. Penso em meu irmão Henrique e o quanto ele teria gostado de ler a carta de Pero Vaz, de Caminha. Aproxima-te Pero Vaz, para te abraçar em nome de meu irmão Henrique.
-  E tu também Pero de Magalhães, o homem que veio de Gand para nos dar a primeira descrição, em história, das Terras de Vera-Cruz! E pensar que tudo isto devemos ao grande rei, nosso antepassado, com a sua grande visão.

Poucas eram as figuras femininas, entradas no Mosteiro sem o conhecimento do Dom Abade, mas ali estava Florbela Espanca, por especial deferência de São Pedro, que advogara em sua defesa a escrita libertina, os vários casamentos que não deram certo e as tentativas de suicídio, porque sabia o quanto ela havia sofrido.
Florbela?Aqui ?Acabo de sair de um outro encontro, feminino, porque não gostei do que disse a Soror Mariana, a fazer-se de vítima arrependida, quando já se sabe que não foi ele que escreveu as cartas ao francês ! Mas eu...
Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Alegra-te Florbela. És muito estimada e admirada entre todos – disse-lhe Guiomar Torrezão que “representava” a luta pela emancipação das mulheres.
Ao ver Guiomar, Camilo fez questão de abraçá-la, e agradecer-lhe a carta que ela lhe escreveu “Há muito que penso em escrever um artigo substancial sobre Camilo...” e Guiomar retribuiu lembrando a carta dele: “Beijo as mãos de V. Exª pela fineza dos seus cuidados com a minha esquisita existência.”

Carolina Michaelis de Vasconcellos, nascida em Berlim, mas portuguesa por casamento e coração, notabilizou-se na história e poesia dos antigos do seu novo país, divulgando-os por toda a Europa. Já havia recebido os cumprimentos de Sá de Miranda que tão bem havia estudado e ajudado a difundir, as homenagens de Herculano e Antero de Quental (cuja vida suplantou em virtude o desastre da sua morte) lembrando as suas trocas de correspondência, sempre com um belo caráter de respeito próprio de uma grande dama e de grandes homens. Por fim e seu imenso espanto é com o próprio Camões quem lhe vai agradecer os Estudos Camoneanos que mais ainda o engrandecera, sobretudo junto ao povo germânico.

Um pouco afastados conversam já Camilo e Herculano que, maliciosamente, lhe pergunta pelo cão que aquele lhe dera e após a sua nomeação para a Academia de Ciências de Lisboa lho pedira de volta! Camilo, mordaz, esboçou uma desculpa, o que, coisa rara, fez aparecer um largo sorriso na cara de Herculano.

Bernardo Correa de Melo, o Conde de Arnoso, ao lado da Ramalhal figura, ria-se com aquela conversa, e Eça, que havia escutado Garrett falar na sua terra, a bela Póvoa de Varzim, pergunta a Antero se, lá no etéreo, em que pouco nos vemos, também lhe chamam, como ao grande apóstolo Simão, São Pedro, o Santo Antero!
Aproveitemos e vamos brindar a este encontro, mas com vinho especial de Tormes que, no meio de tantas delicias etílicas, encontrei! É o vinho do Porto no seu melhor! E esquecer a triste e cómica Questão Coimbrã!
- Imodéstia tua Eça, com o vinho! Mas sabes bem que quem moveu esses ridículos combates coimbrões foi a vaidade ferida dos mestres e dos pontífices! O espírito de rotina violentamente incomodado! Melhor mantermos o nosso Bom Senso e Bom Gosto para saborearmos o teu bom vinho e a magnífica companhia dos que aqui se encontram!
Esqueçamos as cartas que José Feliciano de Castilho, dizendo tanto disparate, publicou no Brasil, onde os homens de Bom Senso deram, não atenção mas até risada de desprezo.
- É verdade, atalhou Machado de Assis. Vivia-se uma época em que era permitido publicarem-se calúnias, mas os homens sensatos, se as liam, logo rasgavam esses escritos. Um dos que sofreu com isso foi o grande mestre Gilberto Freyre, usado como argumento político duma ditadura poderosa e logo a seguir insultado pelos revoltosos!
- Não há melhor meio para conhecer o homem português do que ler as obras de Gilberto Freyre, um homem simples mas com uma obra extraordinária. Foi às origens e mostrou como se adaptou aos trópicas e criou o homem brasileiro.
Palavras de Ariano Suassuna, sempre alegre e comunicativo, rendia assim homenagem a quem deu partida para que aparecessem depois os grandes romances sobre o homem brasileiro.
Foi isso Ariano, assim criei Grande Sertão:Veredas, Sagarana, e outros cantando baianos e mineiros, e você com o extraordinário Auto da Compadecida e tantas outras obras magníficas mostrando o Nordeste do Brasil.
- Rosa, não esqueça João Cabral de Melo Neto. Camões cantou a epopeia dos portugueses. João Cabral o sofrimento dos nordestinos, como naquele incomparável poema Morte e Vida Severina.

Luis Augusto Palmeirim, até então calado, deliciado a ouvir tantos colegas de letras, ele que teve o condão de “descobrir” novos talentos, estava entusiasmado com a conversa que entretanto derivara para o Brasil.
- Que maravilha! Já chegámos ao Brasil. Os nossos irmãos de Além o Grande Rio Atlântico. Mas não podemos passar incólumes pelos Açores. Aqui ao lado, calado, o que não é seu natural, está o homem do Mau Tempo no Canal!
Vitorino Nemésio, habitualmente bem disposto, alegre, brincalhão, rendia-se aos que o rodeavam,
Desse Mau Tempo, Luis Augusto, tantos e tantos saíram para irem povoar novos mundos. Desde a América do Norte ao Brasil, para onde levaram o culto do Espírito Santo que a nossa grande Rainha Santa Isabel nos confiou.
- E o que me dizes dos que foram e criaram raízes por África, Ásia, Japão?
- Muito. Mas, como descobri no meio de tantas garrafas uma de vinho do Pico, vou afinar a garganta com uma delícia da minha terra, e do Antero, e já volto.

Nós também voltaremos, com a continuação deste Encontro de Escritores, daqui a uns dias.



Encontro de Escritores (1º testemunho)


Perante uma ideia tão brilhante e tão habilmente desenvolvida, esta testemunha, aqui, deste lado do charco, só pode curvar-se em humilde vénia.

Por uma vez, estive na presença de génios das letras muitos dos quais admirei e admiro. Que sorte! Em boa verdade, limitei-me a ficar sentadinho no meu canto a assistir mudo de espanto e veneração.

Na certeza de que não terei outra oportunidade assim, nem enquanto terráqueo, nem já como alma penada. Presumo que o Além Celestial, tal como o Inferno de Dante, também deve estar organizado segundo um modelo ptolomaico, com todos estes génios lá em cima, bem junto ao Altíssimo.

Ora eu o mais a que posso aspirar é quedar-me logo pelo r/c do Paraíso, a fazer umas palavras cruzadas ou a jogar uma partida de Go, se por lá houver parceiro(a).

Um dia destes, logo que tenha tempo e haja engenho, irei convocar amigos do movimento "Claridade" e outros poetas, uns lusos, outros nem tanto, que ficaram melindrados por não terem sido também convidados para a tertúlia. En passant, consta que a vida no Paraíso é um bocado monótona. Como é só paz celestial, os vivos debates de ideias a que eles estavam habituados não têm como medrar. Uma pasmaceira!

Abraço

António Palhinha Machado

Encontro de Escritores (2º testemunho)


Foi James Joyce que me sugeriu a busca da epifania das coisas e dos lugares. No sentido filosófico e não propriamente no transcendental mas, de facto, não sou capaz de deixar de imaginar as pessoas que estiveram ligadas a essas coisas e a esses lugares conferindo-lhes a essência que sempre procuro pelo que, mesmo sem um esforço especial, me chego relativamente perto da transcendência sem, contudo, lhe tocar. É claro que não chamo os espíritos sobre uma mesa de pé de galo nem dou a mão a xamãs; limito-me a imaginar as pessoas que por ali andaram e se mais houver, não é para aqui chamado. E com esta imaginação, tudo ganha uma expressão muito especial. Eis a busca do significado que tantos escritores tentam; alguns, em vão. Sugiro a quem me lê que faça esse tipo de exercício mental que, por enquanto, não paga imposto.

Compreende-se, assim, o entusiasmo com que correspondi ao desafio que o Francisco me lançou para testemunhar os seus «encontros» e para eu próprio contar o que nesse âmbito me aprouvesse. Sobre as descrições que o Francisco nos trouxe, posso dizer algo; sobre as descrições dos meus «encontros», outros que opinem.

Transcendências e seus rituais postos de parte ab initio, trouxe-nos o Francisco uma encenação de grande efeito pois foi escolher um local por onde passaram muitas histórias - tantas que será por certo impossível descrevê-las exaustivamente. Mais: esse local foi conhecido de quase todos os escritores (se não mesmo de todos) por ele convidados pelo que, directa ou indirectamente, explícita ou implicitamente, formatou a cultura de todos os invocados. Ou seja, o refeitório dos frades do Mosteiro de Alcobaça sendo, por definição, um marco inultrapassável da nossa Cultura, é cenário natural a todos os invocados que pertencem – uns mais militantemente do que outros - à esfera da lusofonia e não obrigatoriamente à da lusofilia.

Mas o Francisco, elegante como sabemos, foi buscá-los à lusofonia e «deixou para lá» essa questão mais diáfana que é a lusofilia. Eu próprio o fiz nos meus escritos mas, dentre os que foram menos afáveis para connosco, portugueses de Portugal, só invoquei aquelas duas Senhoras que, na aflição, nos procuraram e nos deram tudo o que tinham: a vida1.

A vastíssima cultura do Francisco sobra em relação ao espaço que decidiu conceder aos seus escritos. Poderia continuar, não sei até onde… A sua arte literária permitiu-lhe tecer diálogos interessantíssimos que a todos nos deu asas à imaginação e que, também eles, poderiam continuar por aí além…

A propósito dos diálogos entre escritores que viveram temporalmente tão longe uns dos outros, lembrei-me da Rainha de Sabá e do Rei Salomão2 que talvez nunca se tenham encontrado e que, mesmo assim, conseguiram fazer um filho, o primeiro Imperador da Etiópia. Mas como a fé não se discute, fiquemos assim.

Resta-me uma questão final: como é que uma Cultura tão policromada como a Lusíada em que ainda hoje, neste início do séc. XXI, proliferam hostes de analfabetos, tem conseguido produzir tantos escritores e poetas? E são tantos que nem conseguimos listá-los sem grandes omissões. Ensaio uma resposta bastamente discutível: é muito mais fácil romancear e versejar do que mourejar.
Salvo melhores opiniões.

Grande abraço ao Francisco e que continue…

HS – Henrique Sales da Fonseca
Janeiro de 2017

Encontro de Escritores (3º testemunho)


Luís Santos

Sonhei com Alcobaça
e do sonho que sonhei
sonhei que sonhava
de um sonho em que acordei
e não era eu que ali estava,
era a alma de Portugal
egrégora universal

Ainda nos lembra os picos da Atlântida, de que os Açores são parte. As conversas telepáticas, o brilho dos cristais, das viagens espaciais. Rememorações ancestrais. Das asas, dos voos. Das pedras piramidais, dos enormes templos. Dos sacerdotes e dos deuses das jornadas iniciáticas. Das festividades, das homenagens, dos rituais.

Ainda nos lembra das árvores. Nossas casas. Das árvores e dos frutos. Dos guinchos e das poças de água em que bebiam e chapinhavam, e às vezes até lutavam, com paus, com ramos, que se foram tornando pontiagudos. Grupos enormes, famílias extensas. Nómadas à procura de tempos quentes, e das marés. Das fogueiras e das cavernas.

Do ferro e dos arados. Das cabanas em círculo de entre-ser e dos centros das aldeias em que dançámos e se contavam estórias sobre estórias. De tudo se falava e de nada se escrevia. Riscos e desenhos, pinturas no chão e nos corpos. E se percutiam as danças onde se saltava bem alto em frente delas para mostrarmos da imensa leveza, da elevação.

Matriarcais saudades de jovens amazonas que viviam nos campos de escravizantes agriculturas. Quando se deixaram as deambulações, de bichos à solta, e se fixaram os animais e as terras, e se construíram as cercas para as crianças e as mulheres, das escolas e dos lares e das mamas, do leite. Da carne.

Do peixe e daqueles pescadores da Judeia, de Belém, entre os latins romanos do império que rendiam os gregos, mas só nas armas que não na filosofia. Da democracia, mas não para mulheres e escravos e estrangeiros, metecos aristotélicos e platónicas curtes, por sua vez, herdeiros de socráticos devaneios. Da maiêutica, da arte de dar à luz, do mundo das ideias.

Afinal, o Amor. A universal fraternidade. O céu infinito. O Amor... e a cruz. Jesus! Para tanto sofrimento que nos redima. Então e da meditação, do Buda, que nos livra do sofrimento? Do possível transcendental salto védico que nos livre daqui.  Do Deus no lugar do homem que, doravante, será parte de Deus. Da oração, do silêncio, do deserto. De Ti!

Cadê a deusa-mãe, cadê os celtas. Cadê celtas e iberos, endovélicos lusitanos.  Dos bárbaros godos e visigodos que depois voltaram. Os pagãos, as forças da natureza, as mágicas alianças. Avalon. Os druidas, as poções, dos milagres, da cura e a doença. A lógica analógica, a consciência cósmica. A totémica identidade. Todos indo-europeus, todos cristãos virados pelo avesso, anunciada evangelização.

O crescente lunar e a arabesca astronomia. Das bússolas, do astrolábio. Do Maomé e do Alcorão. De Meca, de Medina e da mesquita. Das deusas encantadas, enamoradas. Dos cânticos de amor. Desgostos do Amor. Da “xaria”. Da expansão e da desejada reconstrução do "mare nostrum". De Poitiers e de Carlos Magno, Urbano VIII de joelhos, imperador da cristandade.

Da reconquista católica. Dos cruzados e das cruzadas. Raimundo e Henrique, Teresa e Urraca. Afonso de Castela. Do Condado Portucalense. Guimarães. São Mamede, 24 de junho de 1128. Um rei sonhado e a sonhar com cristo-rei. Vai e funda o meu reino, vai Henriques. E ele foi.

E lá foi fazer o que Ele quis. Vai Dinis. Vem Santa Isabel. Vinde Língua Portuguesa. Vinde todos os peregrinos, toda a ordem do templo, ordem de cristo. Venha o espírito santo. O pai, o filho e a Jerusalém Celeste.  Vinde vendavais que rumorejam nos pinhais, venham todas as naus. Todas as ilhas dos amores.

Alhos Vedros, 31/1/2017

Encontro de Escritores (4º testemunho)


Ilust.mo Senhor
J.R.C.C.C.,

Soube por um dos muitos que diariamente chegam a este páramo onde jornadeio há 126 anos, que um bisneto meu também de nome Francisco Gomes, não de Amorim e sim do Porto, se deu à extravagância de, ao jeito de Camões, fazer um concílio dos deuses da literatura em português.
Já não será um jovem, cuido eu, essa vergôntea; e digo cuido eu, porque com o tempo perdi a noção do tempo, preocupação que, aliás, seria uma desnecessária perda de tempo.
Cuido, no entanto, que esse meu bisneto não terá nada de peco; antes possuirá um espírito culto e dado a aventuras requisitando arrojo de alma e estrambótica fantasia. Não sei a quem ele possa sair assim ainda tão vivaço! A mim creio que não, pois fui o mais obscuro dos literatos e se me meti em altas cavalarias foi por força dos tufões da vida, logo à nascença.
Bem procurei, nas folhas noticiosas daqui, esta ou aquela local que me dessem conta de um tal Encontro de Escritores, em Alcobaça.
Não me espanto que a iniciativa não tivesse tido a publicação devida. E sabe V. Senhoria por quê?
A imprensa, nomeadamente a de Lisboa, é, raríssimas excepções, valhacouto de insignificantes, que exploram o ofício por todos os meios que lhe possam render dinheiro, influência ou qualquer outra coisa útil. Como todos os meios lhes servem, ninguém honesto os estima, não quer nada com eles, e afasta-se, deixando-lhes o campo livre.
A maioria compõe-se de asnos e maus; só eles são grandes e ilustres;  fazem-se mutuamente imortais; e os que vivem fora das suas cortes (?) podem ter talento, produzir bem e muito, que os jornais não se ocupam deles. A imprensa não serve, geralmente, senão para os pulhas se celebrarem e aplaudirem uns aos outros, explorando a patifaria e a decadência dos costumes, sem pudor e sem honra.

Seu ex corde,
Francisco Gomes de Amorim
(desencarnado em 1891)
CC – José Rodrigo C. da Costa Carvalho

Encontro de Escritores (Última Notícia de Alcobaça)


Recordam-se vocês do bom tempo d’outrora,
Dum tempo que não volta mais
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos de pardais?

- Esta quadra de Guerra Junqueiro, fez-me voltar aos tempos de Coimbra onde começavam, um pouco a medo, a chegar alguns conhecimentos sobre a história dos territórios do ultramar e do longínquo Japão de Wenceslau de Morais. Talvez se tivesse iniciado com Cadornega, Elias Alexandrino da Silva Correa, seguidos de outros, como António Enes, Mouzinho, Brito Camacho e por aí vai. Eu, insular, plantado quase a meio caminho entre a Europa e África não podia ficar indiferente. Bem mais tarde apareceram Castro Soromenho, Ralph Delgado, Alda Lara, Agostinho Neto, sobre Angola, Jorge Barbosa de Cabo Verde, Amilcar Cabral da Guiné, José Craveirinha de Moçambique e tantos outros que ficaria aqui a enumerá-los o resto do tempo que nos concederam.
Com sua barba hirsuta, branca, ar triste e cansado Wenceslau de Morais limita-se a dizer:
- Tokushima! Tokushima! E minhas amadas Ko-Haru e Ó-Yoné. Vivo agora com elas eternamente!
Cadornega, que sorrateiramente foi para Angola com 16 anos, para evitar a fúria da malfadada Inquisição:
- Vitorino! Não imaginas como foram complicados e difíceis aqueles primeiros anos em Angola! Enfrentar as sempre falsas populações do interior com quem queríamos simplesmente comerciar e levar a palavra de Cristo, lutar contra um clima insalubre e ainda ter que enfrentar os hereges holandeses! Não sei como consegui resistir tantos anos. E as guerras, sempre insanas, de parte a parte.
- Cadornega! Eu que nasci “americano-português” na Ilha de Santa Catarina, no Brasil também vivi uns largos anos em Angola, e deixei escrito o que lá vi e aprendi. Mas pouca gente sabe disso e pouca importância dão. Fui depois, cansado, acabar os meus dias na minha terra, mas sempre com uma estranha saudade de África!
- Como se admirar por isso, meu caro Elias Alexandrino? Vocês devem saber, que eu, jornalista, acabei por ser “obrigado” a ir para Moçambique, com a finalidade de pôr ordem no caos que por lá se vivia. Por um lado os nativos e, pior, os ingleses que nos queriam correr da Delagoa Bay, fornecendo armamento aos zulus para que eles corressem com os portugueses. Valeram-me aqueles homens da fibra dos que sempre fizeram história na nossa terra: Paiva Couceiro, Mouzinho, Ayres d’Ornelas, Caldas Xavier, Azevedo Coutinho e muitos outros. Pacificou-se – não totalmente – o país que pôde começar a progredir, e demos definitivamente o recado aos gulosos ingleses!
- António Enes! Antes dessas lutas e acordos de pacificação já nós, na companhia de Brito Capelo e Serpa Pinto, tínhamos corrido, a pé, a maioria do interior africano, ligando Angola a Moçambique. Tivémos nossas desavenças, o que considerámos normal, mas desbravámos parte dum mundo desconhecido da Europa. Hoje, se pudesse, repetiria a façanha!
- Queria ver hoje alguém repetir esse feito, Roberto Ivens.
Oliveira Martins, que pairava “guloso” entre tantos grupos sobre quem ele havia estudado e escrito, desde D. João I a Camões e às epopeias marítimas, ouvia entusiasmado os “africanos”. Pensava em Bernardo de Brito e suas Histórias Trágico Marítimas, nos trabalhos vividos por quem se aventurou por esses mares nunca dantes navegados, e cochichou com Joaquim Pedro Celestino Soares:
- Não acabaram as aventuras do mar no tempo das descobertas. Mas o teu livro “Quadros Navais” continuou a mostrar a valentia e determinação dos nossos marinheiros.
- Agora não há mais perigo, porque o Portugal glorioso e orgulhoso das suas marinhas, desde o grande rei Diniz, hoje quase nem barquinhos de pescadores tem. Tenho ouvido, que ainda há um português, vivo, que constantemente luta contra essa vergonha marítima e ninguém o ouve! Que tristeza.
- Eram simpáticas, sim as viagens de navio entre Portugal e Ultramar. E tempo houve em que as relações entre as populações nativas e os portugueses eram fáceis e agradáveis. Mas depois do Tratado de Berlim tudo se complicou. Apesar disso manteve-se uma união que poderia ter sido mais um caminho para a concretização do 5º Império, como tão bem, ultimamente frisou Agostinho da Silva. Até eu que fui estudar para Portugal, porque era um pouco “a nossa terra”, acabei perseguido por tentar valorizar os povos da minha terra, e fui obrigado a pegar em armas contra um governo cego, covarde e mudo.
- Antes de ti, Agostinho Neto, comecei eu também a ficar mal visto por ter escrito o que vi e vivi em Angola e tive também de ir embora, para onde não me incomodassem. Infelizmente não tive o prazer de assistir à Independência dessa terra para onde fui acabado de nascer.
- Soromenho, até hoje o teu nome é respeitado. Tu foste um percursor da literatura “de dentro para fora”! Cantaste a triste vida do angolano pobre, como era maltratado, e isso desagradou às governanças, mas fez escola. Eu chorei a vida triste dos segregados. Nasci em Benguela, uma cidade com convívio especial mas, ainda assim com imensas desigualdades. Tentei lutar com a minha poesia. “E apesar de tudo, Ainda sou a mesma! Livre e esguia, filha eterna de quanta rebeldia me sagrou. Mãe-África!” Usando até metáforas para chamar a atenção, como “À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro...”
- Alda! Alda! Como chorámos, todos, quando nos deixaste. Não havia uma só boca, independente da cor de suas peles que não cantasse os teus poemas, muitos deles a quem entretanto corriam lágrimas pela cara! Não só pela beleza da poesia como pela consciência da mensagem que transmitia.
- Meu irmão! Talvez o maior sonhador que Angola terá conhecido! O Antero de Quental de Benguela dos quintalões, sempre à procura daquilo que só encontramos quando deixamos a nossa carne entregue à Terra que nos viu nascer. Em todos os que conheceste deixaste um amigo, um admirador e... até um quanto de inveja em cada um deles por te verem alegre e triste, descontraído e preocupado mas sempre com uma palavra de esperança para todos.
- Eu que o diga, que te conheci bem, bebi dos teus pensamentos, do grande Tomaz Vieira da Cruz, aprendi a conhecer o Sul de Angola com os trabalhos do Padre Carlos Estermann, saboreei os contos do humilde Oscar Ribas, e entusiasmei-me completamente com uma simples “ordem” do Rui de Noronha que lá de Moçambique nos deu o caminho: “África, surge et ambula”! E quanto mais me entusiasmava mais me perseguiam e acabei, com a “ordem existente”, por perder alguns amigos, como o José Luandino que passou quase treze anos atrás das grades! Foi quando aproveitou para escrever. E que bem escreveu! Ganhou um duplo prémio! O Prémio da Melhor Novela, pelo livro Luuanda, que lhe atribuiu a Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1965, quando estava preso, e o gozo que lhe terá dado ver que esse prémio provocou um tremendo pavor e confusão no covarde governo que até, tão ridiculamente, proibiu que os jornais divulgassem o prémio ganho por um presidiário!
- Tão caricata a atuação do Governo que logo extinguiu essa Sociedade de Autores. Lembras bem disso, com certeza, Mário de Andrade! Eu sempre tive presente um pequeno poema do cabo-verdiano Jorge Barbosa que, sobretudo nos Estados Unidos continua a ser como notícia, revoltante:

“Ocorrência em Birmingham”
John 
de Birmingham, Alabama, USA
entrou na tabacaria.
Foi insultado
soqueado
expulso.
Na rua
o polícia
espancou
derrubou
cuspiu
prendeu o desordeiro.
Negro safado!

Coisas parecidas presenciei, sempre que um idiota se julgava superior. Fui para Lisboa onde estudei agronomia, e o que é curioso é que lá me dava bem como todos os colegas. Quando regressei à Guiné é que vi que não podíamos continuar a ser assim tratados.
- Amilcar Cabral, foste um exemplo, e sempre admirado. Malditos para sempre os que te mataram fazendo crer que foram os portugueses. Bem dizias tu: “Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós”. Apesar de estares a comandar a luta armada, a tua morte, em Portugal foi sentida.
- Hoje, lá onde estamos não há amigos ou inimigos, mas deixa-me tratar-me por amigo, José Craveirinha. Tu, filho dum humilde e bom português que sempre foi um simples operário em Moçambique, que “nasceste a primeira vez em 28 de Maio de 1922 entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Num bairro de pobres”, e que lutaste entre duas pátrias, pai e mãe que sempre se amaram, e assim desde cedo viste que a cor da pele só encobre os corações. Com razão és conhecido como o maior poeta de Moçambique.
- Contigo aprendi a amar ainda mais este país, e do mesmo modo sem conseguir conviver em paz entre o novo Moçambique e o velho Portugal.
- O mesmo comigo Rui Knopfli. Nasci no velho Portugal, saí de lá menino, voltei para cursar Belas Artes. Mas logo regressei a Angola que já considerava a minha terra. Não creio que alguém possa passar incólume por África. A paixão pelas belezas naturais, sobretudo pelo seu povo, amável, bonito, acolhedor. Senti-o e vivi essa paixão em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e até Brasil, pela pintura e pela poesia. Eu, que no fundo não era mais do que um pintor, me atrevi com a poesia, inspirado em tantos amigos, alguns dos quais não tive oportunidade de conhecer, mas que lia com avidez.
Entretanto São Pedro fazia chegar aos ouvidos do organizador do Encontro que era preciso desocupar o refeitório. Estava quase na hora dos monges irem tomar a sua primeira refeição da manhã, e não podiam descobrir aquela “festa”.
Há muito, uns quantos convidados já se haviam retirado, a começar pelo velho Rei Afonso X. A animação agora estava em África, e pelas caras de todos via-se que ficariam ali... eternamente.
Neves e Sousa, “ouviu” também o chamado de São Pedro e pediu para terminar o Encontro, que considerou uma das grandes dádivas do Céu, com dois pequenos poemas que o levavam, como a todos os outros a se embalaram na música suave dos povos de África.
- Deixem-me terminar este nosso fantástico Encontro com uns pequenos poemas a começar por este do Grande Tomaz Vieira da Cruz, que até música tem:

Quissange - Saudade Negra
Não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de música dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!

E da nossa África negra, que procurámos cantar e pintar, uma saudação de Mário de Andrade:
Minha avó negra, de panos escuros
da cor do carvão
Minha avó negra, de panos escuros
que nunca mais deixou.
Andas de luto.
Toda é tristeza

De repente o refeitório ficou vazio!

Francisco Gomes de Amorim 

18/01/2017

Depois do Encontro de Escritores


É verdade! Acabou o Encontro em Alcobaça.
As testemunhas saíram rapidamente, de fininho, e o organizador esperou que os monges aparecessem para “prestar contas” ao Dom Abade.
Este nada vira, ouvira ou sentira e estava extremamente curioso para saber o que se teria passado, tanto mais que as testemunhas tinham ido embora sem falarem com alguém.
No refeitório estavam as garrafas que sobraram – muitas delas vazias – uns quantos copos espalhados pelas diversas mesas, mas tudo arrumado, sem o menor sinal de qualquer distúrbio.
- Meu amigo, afinal o que se passou aqui, que ninguém viu a não ser as testemunhas à chegada? Não se ouviu um ruído, uma voz, nada?
- Dom Abade, a única coisa que lhe posso dizer é que nem eu nem qualquer das testemunhas tocou nessas garrafas! Mas quanto a contar-lhe o que se passou... impossível. Eu seria amarrado e mandado para um sanatório de loucos e, como pode imaginar é tudo quanto eu não quero!
- Nem em segredo de confissão?
- Nem assim, Dom Abade, também meu amigo. Gostaria que o senhor me dissesse se lhe devo alguma coisa, se notou algum estrago, enfim, quero sair daqui de consciência limpa.
- Não nos deve nada. Está tudo perfeito e isso ainda mais me intriga.
- Então, se me der licença gostaria de ir novamente até ao altar de São Pedro.
- À vontade. Já sabe o caminho.
- Muito obrigado por tudo. Quem sabe se um dia eu ainda lhe conte alguma coisa. Vou pensar nisso. E terá que ser em segredo de confissão e com um psicólogo ao lado para que me julguem louco!
A caminho do altar já foi ouvindo:
- E então gostaste do Encontro?
Olhou à sua volta, a Igreja vazia e reconheceu, no seu íntimo a voz de Simão Pedro.
Ajoelhou frente ao altar e respondeu sem abrir a boca:
- Querido São Pedro. Creio que jamais alguém terá tido um presente dos céus como este. Estou tão emocionado que tenho que ir repousar a cabeça. Mas antes vim dizer-vos só: Obrigado.
- Agora vou eu ver o que eles terão a me dizer! E, se tiver oportunidade, não deixarei de te transmitir.
- Obrigado. Muito obrigado.
Nem para casa foi. Precisava digerir tudo aquilo e precisava de solidão. No primeiro hotel que encontrou pediu um quarto sossegado, sem ruídos de rua e que lhe levassem algo para comer e uma garrafa de vinho.
Ele mesmo estava sem saber se aquilo a que tinha assistido fora real ou só um sonho, e se estaria ainda a sonhar.
O hotel deu-lhe um quarto no último andar, janelas de vidro duplo, e uma bela vista para o “seu” Mosteiro.
Feliz mas confuso – e com alguma fome! – começou por ir assinalando na lista que inicialmente tinha feito, para saber quem tinha estado presente.
Logo de entrada notou a falta de Gil Vicente! Porquê? Uma personagem tão importante! Estranho.
Ouviu então aquela voz, já sua conhecida:
- Gil Vicente continua melindrado porque teimam em não lhe reconhecer o mérito de ter feito, por suas mãos, aquele maravilhoso ostensório que está no Museu. Diz que se incomoda quando dizem que “se atribui a Gil Vicente” em vez de afirmarem diretamente que foi obra sua. Por isso não apareceu!
- E Fernão Mendes Pinto?
- O mesmo. Levaram séculos para lhe reconhecer o valor e a veracidade do que escreveu! E ainda se sente insultado quando por maledicência lhe chamavam o “Fernão Mentes? Minto!” querendo fazer graça que o ofendia.
- Duas jóias na nossa literatura! Se houver um próximo Encontro serão os primeiros a convidar.
Continuava a correr a lista e via que teria sido impossível que todos tivessem comparecido. O número dos que apareceram já daria para ali terem ficado até... até...
Só então reparou que uma grande quantidade deles estava anotada numa segunda folha! Talvez São Pedro tivesse, ele mesmo visto que seriam demais e não “olhou” para esta outra página.
Lá estavam, do Brasil, Machado de Assis, José de Alencar, Gonçalves Dias, Castro Alves, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Raul Pompeia, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, os poetas Mário de Andrade, Vinicius de Morais e Carlos Drummond de Andrade, os Inconfidentes Tomás António de Gonzaga que foi deportado para Moçambique, Gregório de Matos e Cláudio Manuel da Costa, e ainda mais uns tantos que o Brasil foi, e é, rico em artistas; de Angola, Uanhenga Xitu, Ferreira da Costa, Alexandre Lobato, Lucio Lara, e mais e mais, de Moçambique Noémia de Sousa (esteve em Beja !), Malangatana, Glória de Sant’Anna, Rui de Noronha, e de Portugal outra infinidade a começar por Santo António e seus Sermões,  João de Deus, Julio Diniz, Fialho de Almeida, Jaime Cortesão, Alves Redol, Teófilo Braga, Raul Brandão, Miguel Torga, o Dr. Adolfo Rocha, e... para que reler mais esta interminável lista?
Pensou:
- Quem sabe ainda organizarei outro Encontro. Mas para já vou ver se consigo “digerir” este!
Saboreava o ter visto, e ouvido, personagens quase míticas como Dom Diniz e seu avô Afonso X, Dom Pedro duque de Coimbra, parecia ouvir Bandarra a falar sobre as suas profecias que só se viriam a confirmar daqui a... um monte anos, entretanto os olhos iam-se fechando, começava a ver um céu estrelado e a ouvir Abraão Zacuto a mostrar-lhe as constelações e como poderia navegar, depois, com a voz sempre suave de Alda Lara, que lhe recitava um dos seus poemas. adormeceu!
E continuou a sonhar. Sonhou com livros, com os autores e a ver uma miríade de leitores a quererem todos comprar as exíguas edições.
Tudo no seu sonho em vez de lhe dar descanso à cabeça, que continuava entre feliz e confusa, mais o confundiam.
Umas horas depois sossegou. Acordou tarde. Olhou em redor e procurava alguma coisa que não sabia o que era.
- Será que que sonhei tanto tempo e com tantos escritores. E porquê estou a dormir neste hotel em frente ao Mosteiro da Batalha? Como posso ter a certeza que vi o grande Rei Dom Diniz e tantos escritores? Será que estou a ficar louco?
Viu a seu lado as listas dos “convidados” e pensou que teria sido uma “indigestão” literária que lhe tinha feito mal à cabeça. Mas outra lista, pequena tinha os nomes duns amigos, as testemunhas.
Chamou um deles pelo telefone. Atendeu a mulher.
- O Henrique ainda dorme. Chegou ontem muito perturbado e não quis falar sobre o que se tinha passado. De princípio até pensei que tinha sofrido um acidente, mas está muito bem de saúde. Mas a cabeça... está um pouco febril.
Chamou outro. A informação que recebeu não variou muito.
O terceiro, mais calmo atendeu.
- Manel, estou confuso. Queres-me dizer o que se passou ontem?
- Mais confuso estou eu e, como sabes, costumo ter um raciocínio calmo. Mas entre confuso e calmo estou maravilhado com o que vimos.
- Temos que nos encontrar. Hoje não, que eu estou demasiado baralhado. Amanhã, num lugar onde ninguém nos ouça.
- Antes de desligares: porque não convidaste os teus dois bisavôs? E o Saramago?
- Não me digas nada porque estou com medo de ter ficado avariado da cabeça. Amanhã com mais calma falaremos. Mas sobre o Saramago posso já adiantar-te que, para mim é persona non grata. Um cara que foi mau, vingativo, perseguiu os colegas do jornal, e por fim escreveu livros duma senilidade nojenta! Nem o São Pedro sabe por onde ele anda! Certamente em lugar mais quente do que nas Canárias!
Desceu do hotel, já tarde, cheio de fome. Pagou a conta e em vez de procurar o carro, foi andar um pouco. No Largo do Mosteiro encontrou um restaurante. Aspecto agradável. Sentou-se na esplanada, bem fronteiro ao Mosteiro, sem conseguir dele tirar os olhos. Pediu costeletas de carneiro,  e vinho bebeu do melhor que “A Casa” dispunha, uma garrafa de Ramisco da adega Regional de Colares, colheita de... Refez as forças.
Sem poder conduzir por ter bebido, andou algumas horas a pé à volta do Mosteiro.
Finalmente meteu-se no carro e foi embora.
Sem saber ao certo o que se tinha passado.


21/01/2017
Francisco Gomes de Amorim 

terça-feira, 7 de março de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

2º. VOLUME

O SEGUNDO PERÍODO 


O RECOMEÇO DAS AULAS


Uma chuva de meteoritos caiu ontem sobre o território da Península Ibérica. 
Foram as bolas de fogo que as populações do Minho e um pouco por toda a Espanha avistaram. 



Eu é que tive um começo de semana alucinante. Dispus de meia hora de repouso para almoçar e nada mais. Estou com doze horas de trabalho e o cansaço faz-me desejar o repouso de uma noite de sono. 



A grande e boa novidade é que a “Spirit”, a sonda norte-americana que ontem amarteou numa baixa latitude Sul, já enviou muitas imagens para a Terra e tudo indica que se prepara para começar o trabalho de pesquisa na superfície rochosa do planeta vermelho. 
E finalmente os olhos humanos viram o Sol a partir de Marte, uma moeda luminosa num fundo escuro. 

Brevemente avolumaremos os conhecimentos sobre o vizinho das mil e uma ficções. 



E os meus amorzinhos lá retomaram o ritmo das épocas laborais. 
No fim da tarde, ao dia escolar seguiu-se a aula de ginástica. 

Agora dormem que também para elas a fadiga deve ser grande. 


Na aula de hoje, a Professora teve o cuidado de não forçar os alunos e depois de falarem sobre as férias que passaram, ao jeito de exercícios de recapitulação, tiveram que copiar as palavras dadas; menina, menino, bota, sapato e uva. Pinturas e desenhos completaram o tempo útil da manhã. 

Segundo a Matilde, os miúdos irão usufruir de aulas de patinagem na Moita. 
Confesso que a ideia me parece um tanto estranha. Amanhã, a Luísa informar-se-á junto da Professora. 



Agora fico por aqui. 
A noite está fria e luada. 


Alhos Vedros 
  05/01/2004

segunda-feira, 6 de março de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (245)

Praia das Maçãs, Malhoa, 1918Óleo sobre Madeira, 690x870mm

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação, sem propósito, sem nexo, sem consequência,
sempre, sempre, sempre,
esta angústia do espírito por coisa nenhuma,
na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
é agora uma coisa onde estou fechado,
que só posso conduzir se nele estiver fechado,
que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
no pavimento térreo,
sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
e ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
 Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
e, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
à porta do casebre,
o meu coração vazio,
o meu coração insatisfeito,
o meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…


Poesias de Álvaro de Campos

domingo, 5 de março de 2017

"Meditação e experiência do Real"


Fr. Laurence Freeman e Paulo Borges

Partilha e diálogo entre as visões e vivências de dois representantes da tradição cristã e budista sobre a relação entre meditação e experiência da realidade última. Seguir-se-á um debate com os presentes. Será também a oportunidade para um encontro inter-religioso e haverá uma meditação no final.
Laurence Freeman OSB é um monge beneditino da Congregação de Monte Oliveto e Diretor da Comunidade Mundial de Meditação Cristã, uma comunidade contemplativa ecuménica. Professor internacional, conferencista e líder de retiros, é o autor de muitos artigos e de livros que incluem: “O Ser Altruísta”, “Jesus: O mestre interior”, “Primeira vista: A experiência da fé” e “Campo da Beleza”.
É Diretor da Meditatio, o programa de divulgação externa da comunidade, que envolve o mundo secular nos temas Educação, Saúde Mental, Negócios, Dependência e Recuperação, Ciência, Meio Ambiente e Medicina. O Pe. Laurence tem conduzido diálogos e iniciativas pela paz como “O Caminho da Paz” com o Dalai Lama e é activo no diálogo inter-religioso com líderes de outras religiões. Ele recebeu a Ordem do Canadá em 2012 em reconhecimento ao seu trabalho em prol do diálogo inter-religioso e da promoção da paz mundial. O Pe. Laurence lidera o ensino da meditação cristã às crianças e aos estudantes, visando a recuperação da sabedoria contemplativa na Igreja e na sociedade em geral.
Paulo Borges é professor de Filosofia e Meditação, Pensamento Oriental e Filosofia da Religião no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Sócio-fundador e ex-presidente da União Budista Portuguesa. Sócio-fundador e presidente do Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética.
Autor de centenas de conferências e artigos em revistas científicas e obras colectivas, publicados em Portugal, Espanha, França, Itália, Roménia, Alemanha e Brasil, bem como de 43 livros de ensaio filosófico, poesia, ficção e teatro. Praticante de meditação e da via do Buda desde 1983, na escola Nyingma do budismo tibetano, integrando a partir de 2012 os ensinamentos de Thich Nhat Hanh, sendo desde 2015 filiado na escola Linji (Rinzai) do budismo Ch’an / Zen. Co-organizador das duas vindas de S. S. o Dalai Lama a Portugal. Realizou desde 1999 centenas de conferências, workshops, cursos e retiros de meditação e introdução ao budismo por todo o país. É autor de "O Coração da Vida" (guia prático de meditação).
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Organização: Seminário Permanente "Vita Contemplativa - Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea" do Grupo de Filosofia Prática do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa / Comunidade Mundial para a Meditação Cristã.
Apoio: Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética.
Local: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Anfiteatro III
Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa (Metro: Cidade Universitária)
Entrada Livre

quarta-feira, 1 de março de 2017


ESTUDO GERAL
Fev/Mar              2017          Nº85


"...espero que o povo português se especialize no imprevisível."
Agostinho da Silva


Sumário 


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