segunda-feira, 12 de agosto de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (41)

Os Bêbedos, José Malhoa, 1907
Óleo sobre Tela, 150x200cm

Fado, Malhoa e o que mais adiante se verá...

Estava a jantar com minha mulher,
algo que não faço tantas vezes como devia
num restaurante de que eu gosto muito, porque para além da excelente qualidade da comida,
o que por si só, já seria um bom motivo para o frequentar
também aprecio o bom gosto das telas expostas,
são todas minhas
quando o meu amigo Bernardo, dono do restaurante,
curiosamente, quando estive no Rio de Janeiro, fiz questão de passar um dia na “Ilha do Bernardo”, para lhe trazer uma lembrança da “sua” ilha
me pediu para atender um senhor, construtor civil, que queria fazer-me um pedido.
normalmente é para ver se eu concedo um desconto nalguma obra exposta
Acedi, sem grande esperança. Afinal, estava redondamente enganado com as suas intenções!
acontece aos melhores!
O senhor queria que eu lhe fizesse uma tela, grande,
grande – substantivo, não, grande – adjectivo
para colocar na adega da sua casa, que seria inaugurada dentro de alguns meses. Quando comecei a dar a desculpa habitual para me esquivar a aceitar compromissos,
estilo: “Não tenho tempo! Estou muito ocupado”
o senhor não quis ouvir as minhas razões
era construtor civil, lembram-se?
e disse-me que até tinha ideia do que queria. Aí eu fiquei atento!
construtor civil com ideias, coisa estranha!
Queria que eu fizesse um quadro ao estilo de Malhoa,
José Malhoa, pintor português, naturalista, 1855-1933
com aquela conhecidíssima figura da sua obra “Festejando o S. Martinho”.
repetida em reproduções baratas, ad nauseum
Achei um bom desafio: não tinha muita paciência para pintar como Malhoa,
à data da sua morte o seu estilo já era contestado pelos mais novos
mas como também não tinha dinheiro, resolvi aceitar a encomenda.
mal como se verá!
Para não fazer uma cópia do óbvio, resolvi criar uma composição com duas obras de Malhoa e seleccionar cartazes da época
para o meu ego não ficar muito ferido
para pregar nas paredes da tasca onde se iria passar a cena.
Triste!
Para dar algum realismo às paredes, adicionei areia à tinta,
as pintinhas, suponho que parecem aquelas coisas que as moscas deixam nas paredes
e o claro-escuro do interior, mais escuro ainda, como é costume para ouvir os acordes plangentes da guitarra e os sons maviosos do fadista.
e ninguém notar se quisermos dormir uma soneca!
Quando a obra ficou pronta, combinei com o meu amigo Bernardo, colocá-la no restaurante e o senhor construtor passar por lá para a poder apreciar em todo o seu esplendor. Adorou-a! Mas
há sempre um mas
não lhe convinha fazer mais despesas, naquela altura!
a crise toca a todos, não é? Menos aos pintores, acho eu...
E assim fiquei com uma obra que está exposta no “Restaurante Napolitano” do meu amigo Bernardo.
acreditam que já foi mandada guardar por um senhor que teve de sair para os Açores?
Até hoje!


Para finalizar a história aqui está o meu quadro:

Vai um Copo? António Tapadinhas, 2003
Acrílico sobre Tela 100x120cm





domingo, 11 de agosto de 2013

 
 
TALVEZ DESTINO
 
É uma voz tão antiga e de toada tão doce
compondo lendas, histórias, baladas
numa língua de trovar.
Vem de pais, de egrégios avós e
se mais antiga a memória fosse
decerto encontraríamos sempre
esta vocação de deslumbrando-se,
deslumbrar.
 
 

Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

sábado, 10 de agosto de 2013

Projeto Passo Fundo


ESPINHA

Retiro a espinha do peixe
              espinho a mão
              na flor
           o espinhaço quebrado
           ao assim mesmo
           das ordens desconstituídas.

Reprovo o pão ingerido
como providência na ânsia do ar
                              faltante.

(Do peixe o espinho retirado
 se aloja a contento: bastante
 para a sufocação).


(Pedro Du Bois, inédito)







sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Flora na Islândia


A primeira sensação após aterrarmos no aeroporto de Keflavik, a cinquenta e tal quilómetros de Reykjavik, é que estamos numa terra inóspita, sem vegetação, coberta de pedras vulcânicas, cujo negrume nos faz lembrar a ilha do Pico.

Depois, os nossos sentidos ficam espevitados perante a exuberância de flores de todas as cores que encontramos à beira de estradas e caminhos. É preciso notar que nos reportamos ao mês de julho e que aqui, junto ao círculo polar ártico em que os verões são curtíssimos, as plantas têm pressa em reproduzir-se e assim propagar as respetivas espécies. Tal é a lei biológica a que obedecem todos os seres vivos, sejam plantas, animais ou pessoas.

Nesta altura, as margaças, os dentes-de-leão, as rosas vilosas, as tanchagens e as labaças, pela magnitude e beleza das suas hastes florais, provocam os insetos e os ventos para que os ajudem nas operações de polinização. Na verdade, espanta como aqui as folhas e as flores são tão grandes, bem maiores do que as que se acham no nosso clima mediterrânico.

Do hotel onde estávamos hospedados até ao Centro Cultural Harpa, local onde decorreu o 98º Congresso Universal de Esperanto, era cerca de meia hora caminhando a passo largo por um rossio paralelo à orla marítima. Esse passeio pedestre que efetuámos todos os dias, durante uma semana, permitiu que observássemos a vegetação que espontaneamente surtia nas faixas separadoras das vias.

A primeira surpresa foi a de depararmos com a tussilagem (Tussilago farfara) - erva medicinal que oportunamente será objeto de croniqueta própria - já sem flores, apenas com as suas grandes folhas basais que se assemelham a cascos de equinos. A seguir, vieram as flores douradas do taraxaco (Taraxacum officinale) - outra consagrada planta curativa, o tomilho lilás (Thymus praecox) - muito frequente nesta ilha vulcânica, os enormes amores-perfeitos (Viola tricolor), a saxífraga (Saxifraga cespitosa), a prunela (Prunella vulgaris), a potentila (Potentilla anserina), a labaça (Rumex longifolius), a alquimila (Alchemilla vulgaris), a valeriana (Valeriana dioica), a angélica (Angelica archangelica), a tanchagem (Plantago major), a roseira (Rosa villosa) - talvez a flor mais cheirosa que aqui se encontra em estado silvestre. Todas estas espécies, e muitas mais, são ruderais em plena cidade de Reykjavik.

Na Islândia não se veem florestas e a maior parte das árvores que avistámos resultam de cuidadosas plantações. Ainda assim, são proeminentes várias espécies de betuláceas (Betula ermanii, Alnus trabeculosa, Betula pubescens - de folha miúda), de rosáceas (várias espécies de Sorbus), de ciperáceas e de ericáceas.

Nos terrenos adjacentes às quedas de água de nome Hraunfossar encontra-se uma vegetação típica composta por arbustos (birch), cavalinhas rasteiras, tomilho e uma curiosa junça que dá pela designação científica de Eriophorum viridicarinatum. Esta planta deita uns tufos compridos de cor alva que parecem algodão. Em vão procurámos saber se deles extraem algum aproveitamento, pois são muito macios e abundantes. A nosso ver, talvez servissem para encher almofadas. Todavia, não chegámos a nenhuma conclusão.

Dedicámos uma manhã a visitar o Jardim Botânico de Reykjavik, em claro prejuízo da nossa participação no Congresso, mas foi uma opção assisada, já que o Jardim, embora não muito extenso, é dos mais belos que temos visto. O espaço é por demais aprazível por também integrar uma enorme cidade desportiva e um zoo. No percurso pedestre que efetuámos, por entre veredas verdejantes, encontrámos uma colónia de mais de duas dezenas de Coprinus comatus, cogumelos comestíveis que, quando envelhecem, se liquefazem em tinta preta, suscetível de ser usada para escrever. Dado o inusitado achado, não quisemos deixar de o registar.

O Jardim possui uma coleção de cerca de 5 milhares de espécies, dando-nos uma ideia da enorme diversidade vegetativa da zona norte-atlântica banhada pela Corrente do Golfo. Trata-se de um espaço, de visita gratuita, que proporciona educação ao público e aos estudantes de todas as idades, para além de constituir um importante centro científico no campo da biologia. Contrariamente ao que antes imaginávamos, o Jardim Botânico é praticamente desprovido de estufas, se excetuarmos a que integra o Café Flora, aprazível recanto de convívio e entretenimento. Aqui vimos uma videira com cachos de uvas já quase maduras e uma figueira.

A coleção contém 350 espécies das cerca de 485 plantas vasculares existentes em toda a Islândia e várias secções, a saber:
- Plantas vivazes (jardim sistemático);
- Jardim de roseiras com espécies do país (a já citada Rosa villosa) e de outras regiões do mundo;
 - Jardim de rododendros;
- Plantas específicas do hemisfério norte;
- Arboreto com 3,6 hectares de árvores provenientes de várias origens;
- Arbustos das regiões montanhosas;
- Hortaliças e plantas medicinais
Todas as plantas encontravam-se devidamente identificadas através da sua nomenclatura binominal em latim.
Gostaríamos ainda de mencionar algumas curiosidades botânicas, nomeadamente algumas flores pouco usuais relativamente aos nossos parcos conhecimentos de amador:
- As papoilas árticas de cor branca, amarela e laranja (Papaver radicatum), as espetaculares papoilas azuis (Meconopsis grandis) e as vermelhas, muito brilhantes (Papaver bracteatum).
- As lupinas azuis (Lupinus nootkatensis), leguminosas semelhantes às que vimos na Patagónia.
- As duas espécies de arméria (Armeria maritima e Armeria ruscinonensis).
- As calêndulas de cor laranja.
- As sete espécies de Sorbus.
- As borragináceas que incluem seis variedades de pulmonária.
- A famosa Stevia rebaudiana (planta do açúcar), cujas folhas se apresentam bem maiores do que a que possuímos no nosso quintal.

Que nos desculpem os leitores e especialmente os botânicos encartados para algum eventual erro e as muitas omissões que este escrito contém. Afinal o que se pretende é tão só suscitar curiosidades e apetências para o vastíssimo campo da flora e bem assim, da fitoterapia que, na Islândia, ocupam um lugar preponderante.


NOTA - Obras consultadas:
Grasagardur Reykjavíkur
Medicinal Plants of Iceland de Arnbjörg Linda Jóhannsdóttir
Icelandic Herbs de Anna Rósa Róbertsdóttir


Agosto de 2013
Miguel Boieiro

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

SEM TÍTULO
 


CELESTE BEIRÃO

Acrílico sobre Tela


 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013


                      S A U D A D E

De uma mão translúcida
que acaricie a minha face
De uma estrela
que no firmamento
me indique o Caminho
De uma porta aberta
num coração iluminado
Da Vida
que me aguarda
no amanhã
Do berço
que foi o meu
num Cosmos
que espera o meu regresso
De sentir a pulsação
da grandeza dos Universos
Da essência
da minha Natureza
Do bater do coração cósmico
que a todos alimenta
Da ansiedade
das crianças do amanhã
aguardando o mergulho
nesta densidade
Do pobre e do rico
que ao regressarem a Casa,
sorriem da ingenuidade
das suas vivências
Das vestes
que foram as minhas
numa Eternidade
nunca interrompida
Da dança Cósmica,
não visível
por breves segundos,
que marcam a nossa passagem
por este belo planeta azul


antónio


terça-feira, 6 de agosto de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Sempre me admirei com aquelas pessoas e uso este termo para fugir ao vocábulo mulheres, pois o mesmo sentimento atravessa igualmente os homens e é também por eles expressado, mas sempre me admirei com aquelas pessoas que, uma vez os filhos criados e longe dos ninhos, tendo por isso regressado à simples vida de casal, dizem sentir uma enorme perda e uma estranheza absoluta relativamente a um dia a dia que já foi o seu e em que ficaram libertos de um ror de preocupações a que de tal modo se tinham habituado que, precisamente por deixarem de estar lá, deixam um espaço em branco nas horas que, não sendo preenchido, gera o tal vazio a que muitos se referem. É um problema real e efectivo que tenderá a agigantar-se à medida que houver mais gente reformada e, como tem vindo a acontecer nos últimos anos, a esperança de vida for aumentando e, nos países mais afortunados, ela já começa a ultrapassar os setenta anos de idade. Pelo que me é dado observar por aqui, eu diria que encerra alguma gravidade, pois tenho reparado que há alguns homens que se travaram de encontros e de amores com a bebida justamente por ocasião desse movimento natural nas fases vitais de cada um. As mulheres estão sempre mais protegidas nestas coisas e, se a memória não me engana, creio até já ter falado sobre isso a propósito da aposentação do senhor Abel e da dona Noémia. Mas não deixo de olhar com uma ponta de humor aquelas fêmeas que, depois de verem a ninhada partir, se dedicam a cuidar dos cães e dos gatos. Mais do que a expressão de uma falta de tempo, é isso uma manifestação de um vácuo interior de cada um. E depois, se não formos capazes de nos redescobrir na paixão é porque não houve amor entre marido e mulher ou, se o houve, há muito que terá deixado de luzir. Não é este o meu caso, melhor será até dizer o nosso caso, visto que tanto eu como o Manuel, se bem que possamos sentir a falta dos nossos filhos e seria hipócrita se não admitisse que lhes sinto a ausência, a começar pelo cirandar que desinquietava a casa e as desarrumações que as suas brincadeiras traziam e que são bem patentes sempre que levo a chave à fechadura e com o girar da porta verifico estar tudo no lugar mas que, concomitantemente, transmitiam ao lar o calor do testemunho de uma vivência plena e especialmente durante as refeições em que as conversas se atropelavam no fluir de uma alegria associada à partilha de uma vida comum e isto apesar de, decorridos todos estes anos em que nos vemos nesta condição, uma tal estranheza esteja agora mais esbatida, apesar de tudo isso ambos acabámos por nos reencontrar com o prazer que sempre sentimos pela presença do outro e as pequenas delícias que só por essa via nos podemos mutuamente ofertar. Para além disso, o Manuel mantém a sua vida autónoma e os seus interesses particulares que o preenchem e em que se sente feliz e eu, pela minha parte, depois de liberta dos afazeres profissionais, mantenho gostos cuja satisfação me deixa em êxtase até que o sono me força à entrega incontornável de lhe obedecer. Não serei pois alguém que precisa de descortinar preocupações adicionais para encontrar um sentido para me erguer da cama todas as manhãs, mas não consigo deixar de andar um tanto ou quanto preocupada com o meu amor que, neste Verão, tem padecido de uma indisposição quase permanente. Nesta última semana, pelo menos, a coisa aliviou e ele tem passado bem, mas nos meses anteriores foram mais os dias em que as refeições lhe caíram mal, invariavelmente provocando azias e ardores na barriga do que aqueles em que os alimentos simplesmente foram ingeridos com prazer e digeridos sem qualquer problema. Inicialmente a Viviana pensou tratar-se de uma gastrite e depois, pela persistência dos sinais e incómodos, ainda aventou a hipótese de alguma úlcera o que, feitos os exames e análises devidas, se veio a verificar não ser. Provavelmente terá sido algum desarranjo provocado por uma qualquer causa alimentar não identificada e que por motivo desconhecido se terá prolongado mais que o habitual. Para já o diagnóstico é esse e, como disse, por agora tudo parece ter voltado à normalidade. Mas mentiria se pretendesse transmitir a ideia de não ter ficado preocupada, sobretudo por pensar que uma tão longa indisposição não terá sido fruto do acaso, ainda que não tenha como não aceitar a opinião médica que referi e que por enquanto é a última palavra sobre o sucedido. Não sei o que pensar. Não deixa de ser estranho que ele tenha perdido peso repentinamente, embora seja verdade que inverteu a tendência e está aquele praticamente todo recuperado. 
Eu sofro por ver o meu amor triste.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (40)

Maternidade, Almada Negreiros, 1935
Óleo sobre Tela, 100x100cm

O Primeiro Passo


Profundo silêncio se fez naquele instante

O tempo pára
E o homem chora

As lágrimas estancam a dor
Sem perder o brilho

Fez-se ali
A luz da esperança

Impassível a natureza dita
Um novo passo para o retorno a vida

Nasce a esperança
Em forma de criança

Lento
O tempo em tempo se revigora
Sem claudicar caminho

Preguiçoso
Geme o Sol entre as ramagens
Despejando o desejo do amar

Brisa perpassa sulcos da face envelhecida
Indo morrer num peito que é só saudade

Eis me aqui de corpo inteiro
Imaculado
Puro
Um fiel amante.

Jorge Lemos

Jornalista, poeta, escritor, historiador, fundador da Academia 
Metropolitana de Letras, Artes e Ciências. 

domingo, 4 de agosto de 2013

 
 
R O T A Ç Ã O
 
Chegou a noite do dia porque o Sol se cansou e precisou ir descansar para  outro lado ainda que não muito longe daqui.
Foi iluminar e aquecer outras gentes, outros lugares.
Daqui a pouco volta, outra vez, como sempre.
Há coisas assim, certas.
Mas, nem essa certeza retira encanto à sucessão.
Cá estaremos, animados, para o saudar.
Porque ele gosta e nós também.
 
 
Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca
 

sábado, 3 de agosto de 2013

A Filosofia do Pátio das Cantigas


Pode até não ter graça, mas façam de conta que estou a propor analisarmos o país à luz da filosofia do Pátio das Cantigas.
Num pátio, como se sabe, todos são primos e primas e o que importa é a marcha à fulambó e saltar à fogueira nos santos populares. No fim, o Evaristo casa a filha com o marçano e todos lá vão cantando e rindo: ailó, ailó, ailó-ailó-ailó…
Sem qualquer xenofobismo, é curioso de se ver que o estado-maior desta desgovernança a mando do barão (ou será conde?) de Boliqueime tinha como cabeças de cartaz o canadiano Álvaro, o alemão Gaspar, os angolanos (almas gémeas) Relvas & Passos. Saídos os mais estrangeiros (ou estrangeirados?) morte lenta e chico esperto, surge a moçambicana que não mente, nunca mente – única coisinha fofa assim no mundo – e que todavia mente com quantos dentes tem (verdadeiros e postiços), faltando-lhe apenas o do siso.
A moçambicana foi professora do Coelho, no curso da treta que lhe foi oferecido por bons serviços prestados à fábrica de laranjas e laranjinhas. Há que agradecer as boas notas e recomendações, que este é o país das cunhas e dos empenhos, onde o povo bate palmas, mesmo que em missa, mesmo que em funeral.
E por falar em laranjinhas, aquela escola de penduras e conspiradores dá os seus frutos. O Passos não percebe nada de economia, de finanças, de bom senso, de ética e fala um português de arrepiar. O homem fala, fala e não diz nada, limita-se a dar pontapés na gramática. No entanto, quando se trata de conspirar, merece nota vinte. Ele, com o beneplácito do senhor reformado que está em Belém, deu um nó cego ao Seguro que ficou seguro pelo pescoço, e acorrentou ao esterquilínio do governo o Paulinho das feiras e submarinos. Melhor ainda: amansou a revolta do laranjal e parte para as autárquicas como se fosse o Evaristo do tens cá disto.
Neste momento vai gente a passar na rua. São desempregados, naturalmente. E cantam: ailó, ailó, ailó-ailó-ailó…
Isto é um pátio, e num pátio não se passa nada…
   

ABDUL CADRE


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Livros d'África


Gonçalo Rego



Licenciado em História, professor e jornalista, nasceu em Pinelo, Trás-os-Montes. A infância e adolescência foram passadas na ilha Terceira, nos Açores, em Angola e na ilha da Madeira. Veio a fixar-se no Barreiro onde passou a residir a partir de 1979. Foi fundador do jornalVoz do Barreiroe daRádio Margem Sule colaborador assíduo doJornal do Barreiro”.
Em 2004, através da EYAEL Editora, publica a sua primeira novela, “LAURA”, que conta uma história de amor vivido no decorrer do Portugal colonial em finais dos anos sessenta do século XX quando, em Angola, imperava a discriminação através da cor da pele; em Portugal continental, a sede do Império, era o estatuto social que dividia as pessoas.
É neste contexto que Carlos Macedo, enfermeiro e dentista em Angola, na pequena vila de Calulo, concelho do Libolo, parte um dia para Portugal em gozo da licença graciosa. Em Lisboa conhece Laura, criada de servir numa casa rica, e apaixonam-se um pelo outro. É então que começa a luta do casal contra as barreiras sociais, numa Lisboa provinciana e conservadora.

Mas, sobre Angola, eis como o Autor recorda e descreve a vila de Calulo:
“A vila de Calulo, cujo acesso por estrada asfaltada só foi concluído em 1972, era um pitoresco e dinâmico povoado. No centro, um belo jardim em alameda a desembocar no largo onde estavam os Bancos, a Administração, o casario mais antigo. Uma rua subia em direcção à Escola Preparatória e Hospital. Nessa rua estava o edifício dos Correios, uma Escola Primária, a Farmácia, a Fazenda, as grandes casas comerciais e o Cinema. Mais acima uma vivenda onde funcionava a PSP. Uma outra rua ligava o Largo à Igreja e a uma avenida ladeada de vivendas modernas.
A dois passos do centro, o Campo de Futebol, ponto de encontro da população em domingos de animados desafios. O futebol também servia de pretexto para concorridas excursões, quando havia jogos fora.
(…) A população branca formada por comerciantes, produtores de café e funcionários públicos, para além dos professores da Escola Preparatória e das muitas escolas de ensino primário espalhadas pelo concelho, conhecia-se e dava-se bem. Sobretudo a comunidade branca e mestiça. Quanto aos negros, apenas aqueles, muito poucos, que detinham cargos de responsabilidade na Administração Pública, tinham acesso à convivência da comunidade branca, com excepção dos dias de futebol e do cinema.

O início da guerra colonial e o seu impacto no quotidiano de Calulo são assim descritos pelo Autor:
“O conflito armado no Norte de Angola criara um tipo de solidariedade que envolvia praticamente todos os brancos. Alguns, aqueles que tinham vivido o início da guerra em 1961, consideravam essa solidariedade como que um modo de sobrevivência do sistema.
Poucos fazendeiros brancos se apercebiam da evolução que se estava a processar em todo o lado. A hipótese da independência quase não era abordada em público. Era uma espécie de tabu. Para a população negra e mestiça, assim como para os brancos mais jovens naturais de Angola, a política estava sempre na ordem do dia.”



Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Duetos



Eu e uma oliveira milenar
Foto de Lucas Rosa





TESTEMUNHO

Sou testemunha circunstancial:
não guardo mágoas
não transbordo
viajo em barco atracado
no cais da eternidade
(traduzo: espaço perdido
 no tempo confundido em lastro).

Avisto a terra conhecida e do alto
do mastro aviso aos navegantes:
terra entrevista
              terra até à vista.

(Pedro Du Bois, inédito)


terça-feira, 30 de julho de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ontem houve uma daquelas noites que nos vão perdurar na memória até que os dias se apaguem. Só posso lamentar que, de qualquer maneira, não tivéssemos gravado o que se passou uma vez que, para os meios disponíveis, o filme dos acontecimentos estaria, desde logo, fora de questão.
“Esta Noite O Amanhã”, foi o nome que os organizadores escolheram para o encontro que abriu com uma peça de Lopes Graça, pelo conjunto de câmara, um quarteto de cordas que o professor de música dirige, para evoluir num intercalar de poesia e pequenas sequências de interpretações que foram de um pequeno recital de guitarra clássica por um dos miúdos da aldeia e que mostrou ser um verdadeiro virtuoso naquele instrumento e na imaginação com que dele faz uso, apresentando-nos interessantíssimas versões de temas populares numas misturas a soar a jazz e, estranhamente, a fado e que para mim foi a pérola do serão e que, precedido por uma excelente actuação do coro da sociedade filarmónica da Vila, antecedeu o centro do cartaz com a hora e meia de actuação do Dr. José Afonso e do Padre Francisco Fanhais que, ora acompanhados por outros dois músicos, ora sozinhos em cena, nos presentearam com um espectáculo que nos fez cantar e rir, aplaudir e pensar e no fim, mal as últimas palmas se aquietaram e as pernas começaram a endireitar-se, ali manteve muitos de nós numa conversa de sentimentos dúbios de esperança e alento para a ideia de que este mundo de injustiça não poderá perdurar para sempre. Foi pois um seroar que se espreguiçou na madrugada e que a todos inundou de alegria. E devo acrescentar que dentro desta matriz, há muito que não presenciava uma coisa tão agradável e, é bom sublinhá-lo, de tamanha elevação.
É claro que o mérito vai inteirinho para os intérpretes que tudo executaram sem falhas e, em mais que um caso, com uma perfeição que a nenhum envergonharia fosse lá onde fosse que tocasse. Aliás, isso é um dos aspectos que geralmente me aborrecem nestes eventos, pois os participantes costumam encarar as suas interpretações quase como secundárias em relação àquilo que pretensamente pensam ter para dizer, com isso se despreocupando com o desleixo de falhas e desafinações e, para meu gosto e mesmo que não seja essa a sua intenção, como certamente não será, acabando por tratar a plateia segundo aquele velho ditado do para quem é bacalhau basta e, desse modo, afastando sem ter chegado a atrair. Desta vez foi diferente e todos se comportaram como qualquer profissional o faria se estivesse a pisar o palco mais importante do mundo. Para esse resultado muito deve ter contribuído o rigor e formalismo de uma organização que saiu da cabeça dos mais novos que são, afinal, quem assegura toda a animação cultural da nossa associação e foram ao pormenor de criarem efeitos de luz para distraírem as atenções dos diligentes arrumadores que retiraram e colocaram utensílios e suportes em sítios previamente estudados e assinalados e, ao mesmo tempo, serviram de ponto de demarcação entre as partes sucessivas que um discretíssimo apresentador foi apenas identificando. Não tenho dúvidas que uma tal condução das entradas e saídas dos músicos e recitadores foi o principal constrangimento para a eventualidade de participações menos cuidadas, pois, estando, tudo a correr tão bem, ninguém queria correr o risco de ficar lembrado por estragar algo tão bonito. Por isso digo que a ovação vai directa para os artistas, sendo as congratulações para repartir entre estes e quem cuidou para um acontecimento à altura do que podemos designar por uma noite memorável.
É o valor inestimável que têm estas casas como a nossa associação cultural.
Naturalmente estamos a falar de trabalho amador e geralmente de qualidade um tanto ou quanto duvidosa, contudo, nem por isso menos relevante ou importante. Que mal poderá haver por gente simples e humilde decidir representar o Bernardo Santareno? Será que o Autor fica diminuído por isso? Não me parece e se ao que faz de actor isso até pode confluir para lhe preencher a vida e a alma, ao que está no lugar do público, na larguíssima maioria, trata-se da única forma de poder assistir a teatro e a gozar os prazeres que lhes estão associados. Quem diz esta diz as restantes manifestações culturais, a começar pelas leituras que uma biblioteca à mão e para tanto orientada, proporciona e incentiva. Não haverão vantagens em uma população ser tanto mais culta quanto possível? Haja liberdade para isso e é justamente esta nuance que mais assusta os ditadores, não que um povo culto deles possa estar a salvo, antes pela percepção de isso só acontecer à medida que a liberdade se consolida e alarga. E o que estes espaços populares permitem é precisamente o sentido inverso dessa lógica, o proporcionarem aos mais pobres as possibilidades de usufruírem de alimentos do espírito a que as suas bolsas não chegam e as distâncias dos centros maiores ainda mais obstáculos colocam. Espanta-me como há quem desdenhe deste género de associativismo pois isso só pode decorrer da falta de compreensão daquilo que acabei de dizer e quando isso parte de gente que se diz progressista, então é um dos indicadores para percebermos estar perante um pateta qualquer.
Curiosamente a PIDE não andou por aí, pelo menos que alguém o tenha percebido. Não é que isso me entristeça, muito pelo contrário, ou que preferisse a presença tutelar desses esbirros o que de modo algum é ou poderia ser o caso. Bem vistas as coisas, nem as conversetas se teriam prolongado sob as estrelas se essa canalha por aqui tivesse andado com a sua sinistra vigilância. Mas fico curiosa por pensar que tão agradável ausência possa ter a ver com o facto de eu, de alguma maneira, estar a ser uma colaboradora do Ministério da Educação Nacional e, por essa via, estar a colaborar e a contribuir mesmo que indirectamente, para levar os objectivos do governo a bom porto. Não sei porquê mas, apesar disso, tenho as minhas dúvidas. Provavelmente andarão mais preocupados e ocupados a armadilhar as veleidades da campanha oposicionista para as eleições do próximo mês e a que mais do que um movimento democrático decidiu concorrer. Fosse esta a razão e teríamos aí um motivo adicional para gargalhar à custa do tirano. É que pela primeira vez em vinte e tantos anos de vida e muitos mais espectáculos realizados, gritou-se abertamente abaixo o fascismo e viva a liberdade que foi como alguns reagiram ao refrão dos “Vampiros” do baladeiro de Coimbra.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (39)

Two Camels and a Donkey, Paul Klee, 1915
Colecção Privada

REENCONTRO

Nasceram os dois naquele dia, naquela aldeia, naquele lugar longe e frio de um mundo que eu não conheço, mas do qual ouvi falar.
Iguaizinhos… ambos gordinhos de alegria e de carnes, com umas belas bochechas rosadas e espalhando saúde.
Os dois irmãos desde cedo que tinham tido sortes diferentes.

Um, ainda bebé, foi-se embora com o tio.
O outro ficou naquela terra fria e longe, acabando por crescer de um modo completamente diferente do seu irmão. Por agasalho usava peles de animais e como alimento comia uma espécie de papa da qual apenas o mais velho da aldeia conhecia o segredo. Todos sabiam, no entanto, que aquela espécie de papa podia, de uma vez só, alimentar corpo e alma, tal era o conforto que causava em quem dela se nutrisse.
A mãe dos dois rapazes nunca aceitou a ausência do outro filho e, desde o dia em que, sem uma lágrima, ambos se separaram, nunca mais falou. Olhava, quieta, o longe dos caminhos e, num sorriso que apenas o seu outro rapaz conseguia ver, trazia para perto a presença de quem muito cedo havia partido. Pode dizer-se que, durante muito tempo, era aquele sorriso adivinhado o que mantinha os dois filhos, o de longe e o de perto, ligados àquela mulher séria e triste de ausência.
O rapaz de perto era muito sossegado. Por companheiros tinha apenas um camelo cor de mel, do qual raramente se separava, e um pequenino livro de páginas velhas e gastas. Nessas páginas moravam histórias escritas por alguém que as pensou daquela maneira – mas que o menino não conseguia ler – e moravam também outras que o menino todos os dias inventava.  
Eram histórias muito diferentes umas das outras, mas todas elas falavam de um rapaz de faces rosadas, de cabelos vermelhos e compridos, vestido com peles de animais mais coloridos do que aqueles que povoavam a aldeia. Certamente, pensava o menino, eram animais do reino das cores, onde existiam todas as memórias e lembranças, mesmo aquelas dos tempos que ainda haviam de vir.  

Um dia, muito cedo, o rapaz acordou com uma espécie de ideia mal amanhada de um sonho que teimava em não se mostrar completo. Comeu as papas, ainda mais depressa do que o costume e sentiu-se logo muito bem. Fechou os olhos, respirou fundo e buscou, num lugar morno e sem tempo, o pensamento dos sonhos.  
Esperou.
Demorados dois dias, o pensamento chegou. Trazia com ele um homem sorridente e um menino rosadinho e gorducho… naquele sonho a mãe do menino falava com uma voz muito nova e dizia «meu filho». Se não fossem as palavras, juraria que se tratava da sua mãe. Era igualzinha, mas essa, a do sonho, tinha um riso muito claro e uma voz muito doce. Tal como as outras mães da aldeia, aquelas que o menino via às vezes da janela do seu quarto a passearem com meninos que deviam todos ser irmãos de outros meninos.  
Como era um sonho, não estava ainda acabado… quem seria o homem sorridente? Não era dali, certamente… porque os seus pés estavam ligados à barriga por dois pauzinhos de pele colorida. E os homens da aldeia – aqueles que o menino via atrás das mães da aldeia, a passearem com meninos que deviam todos ser irmãos de outros meninos – tinham os pés ligados às saias da pele de animais menos coloridos do que os animais do reino das cores.
Também lhe parecia que o seu sonho tinha dentro uma memória de coisas para acontecer… mas não tinha a certeza. Ficou contente.
O menino contou o sonho ao seu amigo camelo.  
E o camelo, que era, como todos os camelos, muito sábio, sorriu. Num sorriso igualzinho ao da mãe do menino quando, quieta, olhava o longe dos caminhos e trazia para perto a presença de quem muito cedo havia partido.  
Nesse mesmo dia, mais tarde, o menino já quase preso ao sono, ainda viu a sua mãe e o camelo… ambos sorriam com um sorriso muito claro… e ambos falavam com uma voz muito doce.
Adormeceu serenamente. Estava contente.

De manhã, quando acordou, a sua mãe tinha no corpo peles de animais coloridos e no rosto um sorriso claro e cheio. A sua voz, de nova, fez-se verdade.
«Levanta-te, meu filho e vem comigo», disse-lhe.
O menino sorriu e foi. Sem medo e sem silêncio de mãe.
Estava frio.  
Abriu a porta.
Do outro lado da porta, um menino de faces rosadas, vestido com peles de animais coloridos, mostrava no corpo o riso da alma.

Por trás, o camelo sorria.