sábado, 15 de fevereiro de 2014

Avaliação dos Municípios do Distrito de Setúbal no Ranking dos 308 municípios portugueses


Caras amigas e caros amigos:

Conhecem este ranking dos 308 municípios nas vertentes: Investimento (Negócios) / Turismo (Visitar) / Talento (Viver), publicado em 2014 pela Bloom Consulting?

Vejam em que posição relativa fica o vosso município, quer na Península, quer no Distrito de Setúbal (ou noutra zona, se for o caso).
Abaixo apresento a lista organizada dos 9 municípios (Península) e dos 13 municípios (Distrito de Setúbal) que retirei e tratei a partir do PDF do Bloom Consulting (que vai em anexo).

Sobre a empresa Bloom Consulting:
«Ao longo dos últimos dez anos a Bloom Consulting tem desenvolvido diferentes estratégias de «Country», «Region» e «City Branding» por toda a Europa, EUA e Brasil, trabalhando especificamente para diferentes líderes políticos e ministérios com o objetivo de gerir a marca de cada território como um ativo económico e político.
Sediada em Madrid, a Bloom Consulting possui ainda escritórios em Lisboa, São Paulo e Los Angeles. Merecedora de reconhecimento por parte dos principais meios de comunicação internacionais, a Bloom Consulting, bem como o seu CEO, José Filipe Torres, um dos 3 principais especialistas mundiais no desenvolvimento de estratégias nesta categoria (fonte: countrybrandingwiki.org), têm surgido recorrentemente em inúmeros artigos de publicações tão prestigiadas como o jornal The Economist, a revista Forbes ou a CNN.
A Bloom Consulting publica anualmente o Bloom Consulting Country Brand Ranking ©, onde mais de 220 países são analisados relativamente à sua «Country Brand».
Com base neste know-how, a Bloom Consulting desenvolve, pela primeira vez o Bloom Consulting Country Brand Ranking ©, projeto onde a eficácia de cada um dos 308 Municípios portugueses foi avaliada e classificada de acordo com a sua performance nas vertentes de Investimento (Negócios), Turismo (Visitar) e Talento (Viver).
Nunca um ranking tão completo e detalhado foi desenvolvido para todos os municípios portugueses.»

Distrito de Setúbal
Municípios
Posições relativas entre os 308 municípios
1.º - Setúbal
13.ª posição
2.º - Almada
18.ª posição
3.º - Sesimbra
28.ª posição
4.º - Sines
29.ª posição
5.º - Seixal
44.ª posição
6.º - Montijo
46.ª posição
7.º - Palmela
58.ª posição
8.º - Alcochete
70.ª posição
9.º - Grândola
79.ª posição
10.º - S. do Cacém
85.ª posição
11.º - A. do Sal
130.ª posição
12.º - Barreiro
177.ª posição
13.º - Moita
229.ª posição

 Manuel Henrique Figueira



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Viver em Alhos Vedros, por Fernanda Gil



Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
(3ª Série) - 07
 
FOTOGRAFIA
 
José Augusto do Nascimento
 
 
 
 
A água
gotejando sobre o rubi
Estética sublime de brilhos, transparências e liberdade.
 
                                                                (texto de Dores Nascimento)
 
 
José Augusto Gil do Nascimento nasceu em Alhos Vedros, em 1954.
Em 1982 adquiriu a sua 1ª câmara fotográfica (Zenit).
Seguiu-se a aquisição de literatura, com a qual se familiarizou com os fundamentos da fotografia.
O gosto pela fotografia acompanha-o desde então, sempre aplicado de modo puramente amador.
Foi, no entanto, com a adesão à fotografia digital, em 2005, que se verificou um forte incremento da sua atividade fotográfica.
Ao longo destes anos tem participado em alguns concursos, a nível local, designadamente:
  - Na 2ª bienal de fotografia da Moita, com um portfólio de quatro trabalhos admitidos a exposição;
  - Nos jogos florais comemorativos do 475º aniversário do Foral de Alhos Vedros, organizados pela CACAV, onde obteve uma “Menção Honrosa” na modalidade de fotografia;
- Em concurso organizado pela Junta de Freguesia da Baixa da Banheira, onde obteve o 1º prémio, ex aequo.
Em 2010 expôs 72 trabalhos em 3 ocasiões e locais diferentes:
- Na Capela da Misericórdia, em exposição integrada na Feira do Livro de Alhos Vedros;
- No Moinho de Maré, em exposição integrada nas festas de Alhos Vedros;
- No Grupo Recreativo Familiar (GRF), no Bairro Gouveia, em exposição integrada nas comemorações do aniversário da coletividade.
Em 2012 participou com 12 trabalhos numa exposição coletiva no Convento Madredeus da Verderena, Barreiro.
 
 
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A árvore guarda a lã negra do corpo

a minha mulher amor profundo, Solange,


estou na travessa da misericórdia
vejo o oceano ao fundo e os barcos
que me levam ao brasil, mergulho 13º graus
nado na tua direcção de itabira, procuro o
conventinho com a água salvadora de Açaí
quero os teus seios para morder toda a manhã
mergulho por fé no amor, quero-te tanto amor
as vielas de Cascais histórico estão cheios
de saldos de casacos vermelhos e pretos
viva a rua direita, é a minha rua dos gelados
e este café internet que me traz até ao teu
coração e razão, casa comigo amor cedo

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


      
Ai estou tão contente, tão contente que até sinto dificuldade em coordenar as ideias e os factos que quero registar. Sinceramente, voltei a passar pela mesma euforia que antecedeu o dia em que aqui chegámos há cinquenta e sete anos e que se prolongou por aqueles árduos e longos meses em que pusemos de pé as casas que vieram a ser as nossas e que depois se transformou na alegria que permaneceu ao longo da vida e que apesar das dificuldades e revezes, das aflições e angústias que atravessamos e as dores e tristezas que sofremos, só veio a ser decepada quando o ardil das boas intenções de ganâncias disfarçadas pôs termo à experiência que a comunidade do Vale da Esperança representou e desta vez não foi só a euforia, tive direito ao bónus de não ter agarrada a estranha mistura da angústia que então me deixava na dúbia hesitação do receio que tudo viesse a correr mal, muito pior do que o nosso esperançoso optimismo nos consentiria antever. Há um bom semestre que a ideia caiu à fala e foi germinando e alastrando, ganhando forma e consistência nas conversas que um pequeno círculo de sangue novo foi mantendo entre si, muitas delas à mesa dos meus jantares que, desde a primeira hora, me fizeram partilhar o segredo da possibilidade de um relançamento da cooperativa e do estilo de vida que aqui se viveu e de que eu fui narradora até à exaustão da minha provecta idade, mas também com o gozo de reviver momentos gloriosos e de perceber estar a ser bebida por uma plateia interessada em aprender referências de comparação para os seus próprios planos. Nem me quis antecipar para não transformar a esperança em falsas esperanças, embora cedo me tenha parecido que as intenções eram sólidas e as vontades determinadas, não tanto em fugir do mundo, como disse o João Alan, neto do José Pedro e que de uma maneira ou de outra queria lançar-se na actividade agrícola, antes por se recusarem a acreditar que não há qualquer alternativa à sociedade de consumo e à escravidão perante a lógica dos saldos imediatos que tomou conta de tudo, quase se diria até das próprias relações familiares que se medem pela facilidade com que estalam divórcios porque afinal, o dia a dia do lar não era o doce que se pensava. Sim, simplesmente respirar acima do totalitarismo dos relógios e da felicidade que se esgota naquilo que se tem. Eu via-os sorridentes e compenetrados nas opiniões e anseios em troca e ia compreendendo que aqueles jovens estavam prontos e prestes a darem os mesmos passos dos avós, convictos de pretenderem existir e não apenas estar vivos, partilhando esforços e preocupações de modo a ficarem libertos da tirania de terem que prover ao sustento no mercado de trabalho e depois, como é tão frequente, terem que produzir gastos e obrigações que implicam o aumento do trabalho no inverso do cada vez menos espaço para os afectos e o mero usufruir da frescura de uma brisa no rosto. No entanto contive-me e quis esperar pelas decisões que foram tomadas e pelos braços que se atiraram ao muito que há para erguer. É como disse com um sorriso maroto o Manuel, o meu querido neto mais velho que se resignou a ser médico como o pai e o seu bisavô e agora quer seguir o papel de um clínico de família que, ao mesmo tempo, se ocupará de assuntos de lavoura, é um enorme desperdício que uma piscina daquelas seja um buraco sujo onde os lixos dos ventos e das chuvas se acumulam. E agora que os filhos do Adão aceitaram continuar e unir esforços para que voltemos a ter uma cooperativa activa, posso finalmente escrever que este sinal de esperança não se ficou pelo caminho e acabou por dar fruto. O Amos e a Sofia que já não escondem o desejo de vivierem juntos, como ele continua a soletrar com o ar mais sério deste mundo, mas como ambos dizem ser preferível ao casamento, juntaram-se-lhes e a verdade é que projectos não faltam e bom senso para lhes dar forma progressiva e ponderada, sem as precipitações dos castelos que de areia se edificam, também não. Mas dá gosto vê-los falar da recuperação das vinhas e da produção de vinhos de qualidade, assim como do aproveitamento de parte das casas do antigo bairro operário para turismo rural que esta imensa propriedade pode oferecer e que na área que sempre permaneceu selvagem tem o acréscimo da observação da fauna e até da flora e que na piscina que outrora foi da associação, uma vez recuperada, tem já um equipamento de apoio usualmente apelativo neste género de empreendimentos e a que um museu sobre a própria comunidade do Vale da Esperança conferirá uma mais-valia de interesse e, porque não, de receita. E se há materiais para o fazer e bom. E a proposta em torno das energias renováveis e de produção de tecnologias para o aproveitamento da água que o Amos, com o seus servicios e os tu que digo, sem esquecer o pequeno primo Matilde que de vez em quando telefona à Sofia, a dizer que também quer vir para aqui com o namorado, pretende pôr em prática, também me pareceu exequível e cheio de potencialidades. Que o ânimo está alto e robusto e as forças em alta, dá conta todo o trabalho de limpeza e arranjos que já conseguiram nos campos ou a recuperação dos armazéns que depois foram garagens no sopé da colina do depósito de água e ver que é assim deixa-me tão, tão contente. 
 É tão bom, tão bom ver este lugar voltar a ganhar vida.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

REAL...IRREAL... SURREAL...



Carola Justo

2012

Pássaros com cálice

40x50

Acrílico


Nota: O António Tapadinhas teve de levar o computador à revisão e pediu-me para o substituir na produção desta rubrica semanal que é da sua responsabilidade. Vai daí, deixo uma maravilhosa pintura de Carola Justo como, de resto, tem sido a norma da sua gentil colaboração no "EG". Além do mais, entre um mundo colorido de estonteante beleza com que somos prendados, um cálice sagrado e dois pássaros azuis que cruzam a manhã da eternidade. (Luís Santos)


domingo, 9 de fevereiro de 2014



(O Miguel Torgal voltou a não dar notícias. Vou ficar à espera da próxima semana.)

* * *

Foto: Edgar Cantante


“ (…) Às vezes aqui faz frio
Às vezes eu fico imóvel (…) ”

XUTOS E PONTAPÉS


Acordei e levantei-me de mansinho sem fazer barulho.
Tomei um duche, fiz a barba e vesti-me.
Saí de casa ainda o resto da família dormia.
Estava num daqueles dias em que apetecia andar de mansinho para não empatar o andar dos outros.
Falar de mansinho para não abafar a fala dos outros.
Olhar de mansinho para todos poder abarcar no embalo que o olhar alcançava.
Estava num daqueles dias em que até parecia que o coração não cabia no peito e o trazia na concha das duas mãos entrelaçadas.

A moça do café entornou a bica, queimando-me a mão e sujando-me a camisa e as calças e eu disse «deixe lá que acontece a todos».
O ministro falou, na televisão, e não me irritei.
Duas pessoas na mesa ao lado falavam das últimas da “Casa dos Segredos” e pensei que «enfim, é um direito que lhes assiste».
Uma mãe contava a uma sua amiga os carinhos do filho e senti-me também acarinhado. Duplamente acarinhado.
Um dos nossos “desamparados” pediu uma moeda, eu dei.
Outro pediu um cigarro, eu dei e ofereci lume.
Abreviei a leitura do jornal porque percebi que na mesa ao lado também queriam ler.
Na padaria, uma senhora idosa, deixou cair as moedas da carteira e ajudei a apanhá-las. E sorri-lhe.
Ao sair da padaria um carro passou a acelerar por uma poça de chuva, encharcou-me e abanei a cabeça.
Simplesmente abanei a cabeça.
Fui à mercearia, cumprimentei amigos e ri com as piadas habituais.
Também participei.
Pensei, é bom morar numa terra onde todos se conhecem.
Saí da mercearia e recomeçou a chover.  
Lá me ajeitei com os sacos e o guarda-chuva aberto.

Prestes a entrar em casa, frente à minha porta, um homem remexia no contentor do lixo. Não era daqui pois não o conhecia.
Sôfrego, comia directamente os restos de comida que apanhava.
Chamei-o.
Ele veio meio desconfiado.
«Está de chuva», disse-lhe.
«Pois está», respondeu.
«Quer estas bananas?»
Ergueu o olhar surpreso, «dá-mas?»
«Sim, dou.» E no saco das bananas juntei um pão, um queijo fresco e uns torresmos.
Estendi-lhe o saco e ele perguntou «é pra mim? Dá-me?»
Acenei que sim com a cabeça e entrei no prédio.
Quando entrei em casa, a raiva que as lágrimas molhavam, toldava-me o olhar.
Tentei suste-las mas só consegui que um soluço, ou guincho ou ronco animal arrancado das entranhas e arranhando no trajecto rebentasse.
Parti um copo.
Peguei noutro e enchi-o de água.
Bebi.
Sentia humilhação.
E cansaço.

Deitei-me no sofá e tapei-me com um édredon.
Fiquei ali deitado, de olhos abertos e a sentir-me gelado.
A minha mulher abeirou-se e perguntou «que é que se passa?»
«Dá-me um beijo», pedi.
Ela deu olhando-me interrogativamente.
Fechei os olhos por momentos.
Ela retirou-se deixando-me ali.
O corpo tardava a aquecer.
Manuel João Croca


 Foto: Edgar Cantante


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário,
é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 


arriba a


e vê a ceifeira alentejana


ser assassinada por um tenente da GNR. 
  
Naquela casa,
onde já moram 165,
tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 27,8 milhões de visitas.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Livros d'África



JOAQUIM DE LISBOA (Joaquim da Silva Caetano Serra)

Nasceu em Cernache do Bonjardim em 1946. Aos 17 anos partiu para Angola para trabalhar empregado numa fazenda de café do Golungo Alto. Mais tarde ingressou no BCCI, em Luanda, cidade em que se manteve até 1975, o ano do regresso a Portugal.
Foi um regresso muito pouco habitual, mesmo naqueles dias de confusão, onde se verificaram todo o tipo de originalidades na hora da partida: houve quem trocasse automóveis por um saco de batatas ou por um simples pacote de cigarros.
Mas o Joaquim e mais cinco compinchas resolveram bater todas as originalidades: fazer a viagem de traineira!!!
“(…) E tínhamos então: um pescador reformado; o seu ajudante; dois comerciantes de Bairro; um electrotécnico; e eu do ramo bancário. Assim sim!... Já formávamos uma equipa polivalente capaz de enfrentar Oceanos e tempestades!”

E com tal “polivalência” se fizeram ao mar, corajosamente. As tropelias dessa jornada são-nos contadas pelo Joaquim de Lisboa com um imenso humor (o que ameniza bastante as situações difíceis que tiveram de enfrentar), misturadas com lembranças da sua vida em Angola no livro “NA ROTA DE DIOGO CÃO”, numa Edição de Autor de 2005.
“(…) Durante o dia (…) vimos um remoinho de mar que nos sobressaltou e donde se elevava uma espécie de vapor. Pensámos em primeiro lugar num submarino e já nos julgávamos a ser perseguidos, ou pior, embatidos, mas o tio Zé afiançou-nos que seria “apenas” uma baleia. Quando tentei saber mais e lhe perguntei quantas baleias já havia visto, respondeu-me:
- Nenhuma!
Fiquei descansado e esclarecido…”

Havia também assuntos sério a debater:
“(…) Abordámos o assunto em conversa e debatemos o que se faria se um de nós “batesse a bota” por doença ou acidente. Pode parecer coisa pouco importante para debater mas chegámos à conclusão que nada havia a fazer senão sepultar no mar aquele que no mar tinha morrido e… tentar salvar os restantes.
Eu por mim dispenso tal funeral até porque sou detentor de um talhão no cemitério de Caconda.”

E conta que o ganhou por ter descoberto naquele cemitério a sepultura do famoso naturalista José de Anchieta, ali falecido em finais do século XIX. O administrador, que não sabia(!!!), ofereceu-lhe o tal talhão fúnebre.
As memórias de Angola são imensas e pontilham todo o livro:
“(…) Mas quando, sem trabalho ou incertezas, desejávamos bater-nos com uma farta churrascada de peixe cacusso, rumávamos ao Porto Quipiri ali para os lados do Caxito nos arredores de Luanda, onde um pescador local, o Atanásio – às vezes no decorrer da festa e no despejar das cervejas já nos enganávamos e chamávamos-lhe, carinhosamente, Satanás! – previamente avisado, lançava as redes na lagoa e ao outro dia lá estavam prontos e esperando por nós os cacussos que, assados na brasa e decorados de gindungo, deixavam um cristão a pensar porque é que a gula era… pecado!!!”

Foi uma aventura heróica, a viagem do Joaquim e dos seus companheiros. Mas lá para trás ficou algo: a saudade.
“(…) A vida ia continuar, e daí para a frente, todas as noites as saudades de Angola viriam visitar-me, trazendo-me à lembrança uma terra que, com tudo o que continha e por estranho feitiço, eu tinha sido “condenado” a amar.”


Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
3ª Série - (06)
 
PINTURA
Luís da Silva Delgado 
 
 
  

O ENGRAXADOR
óleo sobre platex
29 x 37

O engraxador é um óleo/platex com 29 x 37 e foi pintado em 1990.
Falar do engraxador é falar do “Alhos Vedros” nome pelo qual era conhecido o Aníbal, figura típica da vila que além de operário na Corticeira Ibérica foi o único engraxador de Alhos Vedros.
Era aos fins de semana ou nalguma tarde de Verão que desempenhava esta tarefa no Café do Berto (Teco) ou no Café do Júlio, com o intuito de aumentar o seu salário.
Figura pacata conhecia de cor todos os clientes e tinha uma hábil maneira de os cativar. Quando acabava uma graxa e não vinha outra, chegava-se bem perto de um cliente e perguntava se não queria nada dele. O cliente acabava sempre a olhar os sapatos e a dizer, «então vamos lá.»

Luís da Silva Delgado




LUIS DA SILVA DELGADO  
Nasceu em Amêndoa- Mação em Novembro de 1955.
Em 1987/88-Frequentou a 1ª Fase do Curso de Pintura no ARCO, durante três semestres.
 ·        EXPOSIÇÕES:  
1989 - Concorrente seleccionado ao Prémio “ O Vinho e a Vinha” das Caves  Aliança na S.N.B.A. – Sociedade Nacional de Belas Artes;
1999 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
2001 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
2003 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso  Madeira, A. V. ;
2004 - Participa na colectiva - 1º Salão de Pintura integrada nas Confª Primavera A. V.;
2004 - Exposição individual na Biblioteca Bento de Jesus Caraça – Moita;
2005 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L., que lhe atribui o prémio "Incentivo ás Artes”;  
2005 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso Madeira, onde lhe foi atribuído o Prémio Revelação - Alhos Vedros;
2005 - Exposição individual no Posto de Turismo – Moita;
2007 - Exposição individual ”Mulheres”, no Fórum José Manuel Figueiredo ,Bx. Banh.;
2007 - Concorrente seleccionado ao Prémio Joaquim Afonso Madeira;
2010 - Exposição individual ”Casas da minha Terra”, na Gal. Munic. do Barreiro;
2013 - Exposição individual na Biblioteca de Alhos Vedros;
2013 – Exposição ”Encontros de Primavera”, no moinho de maré em A. Vedros;
2013 – Exposição individual no Centro Cultural Elvino Pereira (Mação)
2013 – Exposição individual na Casa da Cultura de Mora
 
Está representado em várias colecções particulares e institucionais.
Actualmente é operário fabril, numa empresa de produtos químicos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRIANGULAÇÃO


Daomé – São Salvador da Baía – Alhos Vedros
(Texto ainda por publicar)

SINOPSE

    
“El-Rei morreu! Viva El-Rei!”
     A D. João V sucedeu D. José I.
     Sebastião José de Carvalho e Melo, um estrangeirado, ascendeu ao Poder.
     Na missionação do Brasil, destacava-se o jesuíta italiano Gabriel Malagrida.
     Da “costa dos escravos” para o Brasil, o tráfico negreiro estava no auge.
     Nos areais de Chega Nego, cercão da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, decorria o leilão de “cabeças de alcatrão”, que haviam aportado no tumbeiro Esperança - uma galera comandada pelo capitão Da Silva.
     O padre Malagrida acorreu ao “mercado”, a fim de atiçar consciências. Mas foram em vão as suas súplicas.
     No estrado surdiu um jovem, porte altivo, que a todos abalou pelo seu denodo. O jesuíta comprou-o, para espanto e escárnio dos circunstantes.
     No Colégio de São Salvador, no Terreiro de Jesus, o jovem negro encetou a aprendizagem da cultura do homem branco, alcançando esmerada educação. De forma natural, granjeou a estima de todos. Kéhindé, de seu nome na Língua Yorubá, recebeu o nome cristão de António.
     Entre Kéhindé e o sacerdote estreitaram-se laços, que a vida pôs à prova.
     Catequizado e alforriado, António Kéhindé deixou a Capital da colónia e acompanhou o clérigo para São Luís, no Maranhão, onde prosseguiu a sua formação.
     Em janeiro de 1754, por solicitação da Rainha-mãe, o padre Gabriel Malagrida rumou a Portugal. Consigo viajou António Kéhindé.
     Impedido de contactar a Rainha, por deliberação expressa de Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário Régio, o missionário teve de se exilar em Setúbal.  
     No mercado do Sapal, na Vila do Sado, António Kéhindé travou conhecimento com José e o pai, carreteiros alhosvedrenses. Desde logo nasceu entre eles uma genuína amizade.
     Nas longas ausências do padre Malagrida na Capital do Reino, a fim de acudir aos chamados do Superior do Colégio Jesuíta de Lisboa, Kéhindé passou a viver em Alhos Vedros, em casa de José e dos pais - Ti João Zebedeu e Ti Josefa - auxiliando-os na labuta quotidiana.
     Malgrado a prática da escravatura na Vila ribeirinha, uma vez conhecida a sua condição de homem livre, António Kéhindé integrou-se, gradualmente, na comunidade local.
     Culto, bem-falante e com boa aparência, “trajando que nem os senhores” aos domingos e festas de guarda, Kéhindé despertava o interesse das moças casadoiras.
     Profundas transformações ocorreram no vetusto povoado, e um invulgar enlace sucedeu, quebrando tabus ancestrais.
     Também em Alhos Vedros se viveu o terramoto de 1 de novembro de 1755.
     Obstando as teses racionalistas do Secretário Régio, o padre Malagrida, imbuído de acalorado misticismo, asseverou terem sido castigo divino as causas do abalo telúrico, inculpando o Povo e a Família Real, pela decadência dos valores morais da sociedade.
     Arqui-inimigo da Companhia de Jesus, Sebastião José de Carvalho e Melo tinha de a aniquilar, assim como ao intrépido e incómodo missionário.
     O atentado contra D. José I, perpetrado na noite de 3 para 4 de setembro de 1758, despoletou uma catadupa de acontecimentos. Incriminados os Távora, as execuções ocorreram em Belém.
     O padre Malagrida, apelidado de herético e, depois, culpado do crime de lesa-majestade, foi entregue ao Tribunal do Santo-Ofício.
     Kéhindé teve descendência em Alhos Vedros.
     As invasões napoleónicas impeliram a Família Real à fuga para o Brasil, deixando o Reino a saque. Terminadas as invasões, o Reino seguia absolutista, cerceado da liberdade de pensamento e de expressão.
     A Junta Governativa semeou ódios.
     O General Gomes Freire de Andrade foi eliminado, o mesmo sucedendo a vários de seus correligionários.
     Venceram os ideais do Liberalismo, a que se seguiu a Vila-Francada.
     Tempos conturbados se viveram em Alhos Vedros, na família de António Kéhindé.


Francisco José Noronha dos Santos