sábado, 7 de março de 2015

A escravidão no Brasil


 Escravos numa fazenda, Rugendas, 1830
Fonte: Wikipedia livre


Escravos e seus filhos numa fazenda de café (1885)
Fonte: Wikipédia Livre
Marc Ferez


A escravidão no Brasil foi mais que um marco histórico, foi fator determinante na cultura e genética da sociedade brasileira. Foi o regime produtivo que utilizou a força de trabalho dos escravos, índio e africano, para viabilizar economicamente o país quando colônia e império.  À principio, após o descobrimento, o branco conseguiu com o índio, através de escambo, elementos comerciáveis; ervas, plantas exóticas e animais que levava às Cortes européias com grande alarido. O pau-brasil, árvore tintureira, produzia um produto usado na coloração de peças e tapeçaria que atingia bons preços no Velho Mundo. Era adquirido com o índio que o trocava por quinquilharias, machados e facões com portugueses e estrangeiros, principalmente franceses.  Quando os olhos da coroa portuguesa se voltaram finalmente para a sua colônia americana, no sentido de produção econômica, o plantio de cana-de-açúcar, já experimentado nas ilhas atlânticas (Madeira e Açores) se apresentou como o caminho. Precisou-se, então, de braços para a lavoura. Portugal na ocasião não devia ter mais que dois milhões de habitantes. Já espoliado de gente que trabalhava nas outras colônias periféricas e Oriente, a solução foi procurar na exploração da escravidão americana e africana mão-de-obra para o serviço.  

 Durante três séculos, os índios foram caçados, escravizados e aculturados. Obrigados à lida que feria seus conceitos de trabalho e liberdade, revoltavam-se, fugiam, pereciam rapidamente. Usados como guias nas florestas, matrizes dos primeiros bandeirantes brasileiros, desbravadores intrépidos e alargadores de fronteiras, porém não resistiam aos iniciais contactos com o europeu. A vírus imunologicamente deficientes, contraíam doenças comuns aos brancos que os dizimavam aos “montes”. Só as gerações que se seguiram às primeiras miscigenações, herdaram de seu pai branco a imunidade de que precisavam. Até o século XVII o índio foi o suporte maior da força de trabalho do país.

Nas plantações de cana-de-açúcar e engenhos do nordeste, nos garimpos, nas minas de ouro e pedras preciosas do centro-oeste, na lida do dia-a-dia das fazendas dos barões do café, nas regiões urbanas do sul e sudeste, a mão-de-obra escrava estava sempre presente. Era preciso cada vez mais gente. O escravo africano foi a resposta à demanda brasileira.

 Mais adaptados ao trabalho duro, eram trazidos para o Brasil em condições degradantes e insalubres nos porões dos navios negreiros. Amontoados, muitos morriam na viagem atlântica, que durava perto de dois meses, em percentagens que variavam de 20 a 50% da carga humana. Mesmo assim eram solicitados em quantidades crescentes de Angola, Mina, Moçambique, à medida que as áreas de plantações aumentavam e a riqueza mineira se expandia. Traficado, quando os interesses da Inglaterra proibiam a escravidão no alvor da era industrial, num Brasil reticente ao emprego da mão- de- obra livre e de economia dependente da escravidão, seu preço crescia a cada travessia. Ter escravos era sinal de distinção social, ostentação e abastança.  Ao senhor proprietário conferia-se mais facilmente até sesmarias, pois se subentendia que tinha condições, financeira e humana, de ocupá-las e explorá-las, expandindo o território produtivo e a riqueza nacional.

   Se para o europeu (do norte) o trabalho era fator dignificante e autonômico, para o branco, latino, era indicador de categoria social. Quem estava no topo se obrigava a submeter o dominado através da opressão e do trabalho forçado.  Trabalho manual era para os oprimidos e escravos, era degradação maior na escala social. Para o escravo o trabalho era a evidência dessa situação, da submissão, do sacrifício, da falta de liberdade, da desestruturação familiar, do desrespeito entre os homens e suas vontades. Para o escravo a liberdade era a ausência de obrigações e de servidão. A escravidão subvertia  o sentido do trabalho, degradava-o.

No Brasil escravagista, senhores e escravos conviviam numa associação de produção e afetividade onde os valores morais e a ética entravam em choque com as dificuldades e culturas de cada grupo social. O resultado é que depois de tantos anos de convivência e miscigenação houve um caldeamento genético-cultural, aonde atitudes e pensamentos vão se refletir na formação da sociedade brasileira como um todo na pós- abolição.

A escravidão propiciava à promiscuidade nas senzalas e aos relacionamentos escusos entre o senhor e a escrava. Incitava à poligamia e à fragilidade afetiva, gerando uma família mestiça, ignorada, paralela à oficial, sem laços estreitos ou reconhecidos entre pais e filhos. Separados da família escrava, ao serem vendidos, negros e mulatos, sem direitos, acesso à educação e à paternidade assumida, sofrendo preconceito racial de ambos os lados, ficavam à margem da sociedade ao ganharem a liberdade, na alforria ou na pós-abolição.  Nas periferias, subúrbios e morros das cidades, os pobres, imigrantes miseráveis e ex-escravos, se abrigavam nos “bairros africanos”, embriões das futuras favelas que surgiram e tomaram identidade com a ocupação do Morro da Providencia (RJ) pelos esquecidos e abandonados soldados da nação, que retornaram da guerra dos Canudos em 1897.   

Nas roças do interior mineiro, liberto, o negro africano muitas vezes ficava como agregado.  Não era incomum haver entre o dono da terra e ele laços de amizade. Possuidores de pouca cultura e cabedal, trabalhavam lado a lado na luta pela subsistência, moravam em casas rústicas, nas mesmas áreas. Só os grandes senhores, ricos fazendeiros e latifundiários viviam com conforto, cercados de gente que lhes mantinha a segurança e o poder. Muitos dos seus ex- escravos e ex-escravas, mesmo depois da abolição, continuaram como peões, vaqueiros, cozinheiras, amas-de-leite, arrumadeiras, passadeiras, dos seus antigos senhores, agora como empregados. No interior sertanejo não havia outras opções a fazer; ficar no mesmo lugar, como empregado/ou agregado, se o patrão permitisse, ou cair na estrada sem rumo certo...

No Brasil, a escravidão seguiu a rota da economia. Em 1822, ano da independência brasileira, no país havia um população de 1 347.000 brancos e 3.993000 negros e mestiços. Os cativos eram mais concentrados em Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, e Rio de Janeiro. A lavoura e a mineração pediam muitos braços para a lida.  Até a abolição de escravatura, a força de trabalho no país foi majoritariamente escrava.

A partir de 1850, no auge da produção açucareira, o trafico negreiro foi severamente reprimido por leis internacionais policiadas pela Inglaterra. Os grandes plantadores, dependentes da escravatura, necessitaram de outras forças de trabalho, que surgiram com mobilização dos escravos internos, nascidos ou não no país. Os ladinos conhecedores das manhas e língua portuguesa, os escravos boçais, naturais da África, e os imigrantes europeus, passaram a labutar lado a lado, com discordâncias, com erros e acertos, até que o trabalho assalariado assumisse de vez a sua função.
Com o inicio da era industrial e a forte concorrência brasileira ao açúcar da Guiana Inglesa, a vigilância estrangeira ao tráfico negreiro se fazia cada vez mais intensa, nos mares e nos portos. Interessava gente livre para consumir e menos braços no Brasil para produzir!  Enquanto os ingleses obrigavam e condicionavam o reconhecimento da independência brasileira ao fim do tráfico de escravos (que continuava de forma crescente para responder à demanda mineradora e lavoureira), as companhias inglesas de mineração em Minas Gerais (Congo Seco, Morro velho, Cata Branca, São João Del Rey) mantinham uma vasta população de escravos na extração do ouro... 

 A poderosa economia cafeeira, consumidora voraz de braços negros, mantinha o tráfico negreiro apesar da repressão inglesa e das leis do governo imperial. Buscavam-se escravos no nordeste e aonde houvesse.

Mas com o tempo, a situação pouco a pouco mudava. As constantes fugas de escravos estimuladas pelos abolicionistas, as revoltas com mortes nas fazendas, anteviam a proximidade da abolição. Os baixos salários dos trabalhadores livres, e os altos preços dos escravos, tornaram o investimento no negro africano de pouca valia. Contratos com imigrantes europeus (ilhéus, portugueses, italianos, alemães,...) para trabalhar nas plantações de cana e café, já experimentados, foram incrementados. A mão-de-obra livre nacional, apesar de acessível, não era bem vista, tinha fama de ser preguiçosa e avessa ao trabalho. Era pouco procurada.

No inicio a contratação de imigrantes para substituir a mão de obra escrava teve dificuldades pela má propaganda que os governos europeus (da Suíça, Alemanha, França e Itália) faziam do tratamento que os fazendeiros dispensavam aos seus colonos. Diziam que seus compatriotas eram tratados como escravos. Ao que parece só os ilhéus aceitavam dividir as tarefas com os negros.  Finalmente, com a abolição da escravidão, abertura de estradas, melhoria dos transportes, maquinarias, e adequações do trabalho livre nas áreas rurais e urbanas, o país entrou na era agroindustrial.  

 De 1831 a 1850 perdurou o tráfico negreiro. Apesar das leis imperiais (Ventre livre em 1871 e dos Sexagenários em 1884), que tiveram pouca repercussão na pratica, só a 13 de maio 1888, a princesa Isabel, assinou a Lei Áurea, com a abolição definitiva da escravidão no Brasil. Porém, o ex-escravo sem apoio legal e projetos de inserção social, sem estar preparado para concorrer a vagas de trabalho assalariado, no inicio da industrialização e da urbanização do país, viu-se marginalizado pela sociedade, executando serviços sem qualificação profissional, de baixa renumeração e projeção social. Até hoje os herdeiros dos quilombos e descendentes dos escravos, que são a maioria da população brasileira, lutam para combater as desigualdades sociais que só desaparecerão quando os governos da república derem educação pública de qualidade para todas as suas crianças. 

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 26/02/15

Fonte dos dados:
Wikipédia
Da Senzala À Colônia (Viotti da Costa)


quarta-feira, 4 de março de 2015

Teoria Política



"A Escola de Atenas", do pintor italiano Rafael 
(ao centro, os filósofos gregos Platão e Aristóteles) 


A Democracia e os Filósofos Gregos

Em certa medida, muitas das ideias políticas que se trocam nos dias de hoje já se faziam em moldes idênticos entre os principais filósofos da Grécia Antiga. Por exemplo, a democracia como sistema político, e o elogio da democracia que é feito nos discursos de Péricles, um dos grandes e reconhecidos líderes políticos de Atenas no séc. V antes de Cristo, marcado pelo espírito da igualdade e da liberdade, não se fica atrás dos melhores discursos dos nossos democratas.

Por outro lado, para Platão, outro dos grandes pensadores desse tempo e que nasceu precisamente no ano em que Péricles morreu, a proposta política era outra. Ele considerava que a liderança política devia caber aos espíritos mais esclarecidos. O poder, dizia ele, devia ser exercido por quem estivesse mais livre "das sombras da caverna", quer dizer, os que melhor soubessem interpretar e executar as ideias superiores, como a sabedoria e a justiça, e não pelo povo mais dominado por ideias de opinião, do que se designa vulgarmente por “senso comum”. Preferível à democracia, cuja etimologia significa “o poder pelo povo”, ele propunha uma “sofiocracia”, o poder pela sabedoria, onde caberia aos sábios o dever de gestão política de toda a comunidade. Em vez de uma sociedade regida por ideias democráticas ele preferia uma sociedade de tipo mais oligárquico em que deviam ser os espíritos mais clarividentes a governar. Foi a partir deste princípio, a par de outras ideias que não cabe aqui agora desenvolver, que Platão propôs a organização da “Cidade Bela”.

Uma outra ideia fundamental da ideologia política de Platão, indubitável crente na existência e imortalidade da alma humana, é que a organização política devia ser feita respeitando uma dimensão integral do homem, sob pena de prejuízo de boa harmonia individual e social.

Platão teve um aluno na “Academia” durante 20 anos (!), de seu nome Aristóteles, que hoje é considerado um dos pioneiros da ciência política moderna, pois que refletiu sobre alguns dos diferentes tipos de organização política que, até ali, teriam existido. Porém, Aristóteles, embora a longa aprendizagem com Platão, não haveria de seguir as ideias do seu Mestre. Para ele, o regime político não devia ser definido e executado exclusivamente pelos mais sábios, mas deveria também ter a participação do povo. Uma proposta política que ganhou o nome de “politeia”, defensora de um regime misto que juntasse alguns princípios oligárquicos com princípios democráticos, por assim dizer, onde sabedoria e vontade popular pudessem coexistir. Se Platão é considerado um idealista, dada a proeminência das ideias nas suas propostas filosóficas e políticas, Aristóteles é considerado um realista porque para ele, que considera a política uma dimensão intrínseca da natureza humana, a gestão da “cidade” deve ser definida a partir dos próprios factos, ou seja, das relações e do debate entre todos os cidadãos e não exclusivamente a partir de uma minoria esclarecida, como propunha Platão.

Concluindo, como se vê, já entre os filósofos gregos, com os quais nasceram muitas das ideias políticas que hoje nos regem, muito se poderá dizer sobre a questão da democracia constituir o regime ideal dos diferentes sistemas políticos possíveis. E, de facto, num olhar rápido, a ideia de que se deve entregar exclusivamente a uma vontade popular, eventualmente, pouco esclarecida, a decisão do sufrágio governativo, pode muito bem considerar-se uma ideia política muito discutível.

Também é bom que se diga que, só por si, constitui a ideia de democracia um saco muito grande, onde cabe muita coisa distinta… Uma coisa é certa, o princípio da liberdade (até de não ser livre), e já agora o da fraternidade e da igualdade, valores tantas vezes facilmente deturpáveis, devem estar na base dos bens políticos mais inalienáveis para os regimes que se vão definindo e que se querem pacíficos.


Luís Santos
2/3/2015

terça-feira, 3 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


D. Formiga
Fina cintura
Sai pela fechadura,
Desce pela porta
E vai
Para o jardim,
Comer uma torta!

segunda-feira, 2 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (121)

Rhapsody in Blue, António Tapadinhas,
Óleo sobre Tela, 80x100 cm

Inalo ainda as frases de incenso
parábolas
na boca incinerada e abrangente.
Corro num azul incoerente, semântico
e estético, discreto mas incogniscível. É incrível
o vazio, o espaço azul, o espectro
do incomensurável interior do azul. É incrível
a ordenada inscrição dos signos
na floresta indizimável das palavras. É incrível
a fenda aberta a fogo nos cristais do corpo indestrutível.
A água ilesa e eficaz navega a íris incrédula
e dissonante. O mar indiscernível pensa.
Pensa a indecifrável fórmula do peixe perfeito,
pensa a inconcebível arquitectura  do navio inato,
o mar indiscernível pensa a construção
definitiva
da onda que se desfaz.

José Beiramar

domingo, 1 de março de 2015



MIRADOURO O9 / 2015
 
Conselho da terra girando sobre si própria.
Ama tudo o que contem um dia, neste dia o que conta é amar.
Ontem amou-se, hoje se ama, amanhã se amará.
Não tires o amor da viagem que fará teu dia.
Para amar basta ser e não pensar ou deixar fluir a consciência na corrente do dia, que longo vai, amando de tanto te contemplar.
                                                                                       
                                                                                                          Diogo Correia
                                                                                                               Madrid
                                                                                                           29/08/2011
 
Editorial - Março 2015
por Manuel João Croca


DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA.
 

Rápidamente se aproximam novas eleições.
A frequência com que se vão divulgando sondagens só o confirmam. Altura talvez apropriada para repetir aqui algumas ideias já libertadas anteriormente.

Os políticos e os partidos políticos só ganham justificação se com a sua acção contribuírem para a resolução dos problemas das pessoas, possibilitar-lhes uma vida mais amena e feliz já que é para isso que a política serve, é isso a política.

Como problemas das pessoas entendam-se as questões relacionadas com o trabalho, a educação, a saúde e a justiça económica e social, sendo que todas as restantes serão derivadas e sucedâneas destas. Se não for para isto, a política tenderá a evoluir para um exercício de retórica onde a demagogia e a arte de bem falar (muitas vezes sem nada dizer) ganharão a primazia e, para a defesa de interesses em lugar de princípios e valores.

Cada um deverá fazer a sua própria leitura a partir do que observa e verifica e das ideias e sentimentos que tal lhe proporciona mas, talvez seja tempo de cada um assumir um papel mais activo e participativo nesta chamada vida política e que mais não será que o exercício da cidadania. A participação na actividade social e política não se esgota nos partidos políticos. Muito longe disso, há muitas outras formas de organizar e concretizar a nossa participação e muitas outras poderão ser criadas se disso houver vontade. Parece-me ser essa a condição primeira para democratizar a democracia e rasgar outros horizontes quando os que nos oferecem não nos servem.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2015


Contempla tudo o que percepcionas sem lhe conferires as identidades habituais em que o concebes e encerras, os mil e um rótulos colados pela cultura que te mantém ignorante. Vê assim todas as formas, cores e volumes. Escuta assim todos os sons. Vivencia assim todos os fenómenos mentais. Acolhe todos os seres como pura energia com forma, cor e movimento. Acolhe todas as palavras como pura vibração sonora, sem lhes conferires qualquer significado. Acolhe todos os pensamentos e emoções como bolas de sabão insubstanciais e efémeras que se formam, transformam e dissipam no espaço aberto e vazio da consciência. Algo morrerá em ti, mas renascerás infinitamente pujante e vivo num estranho mundo, bem mais íntimo, deslumbrante e real do que esse sonho alucinado em que habituado, esquecido e alienado te arrastas e sucumbes.

Paulo Borges
Círculo do Entre-Ser




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Os manezinhos da ilha


Foto: Santo Antonio de Lisboa ( Florianópolis). Arquivo pessoal da autora.*

Uns dos primeiros colonos europeus a deitar raízes e marcar terreno no solo deste imenso país foram os açorianos. A principio individual e esparsamente, e mais tarde em levas migratórias colonizadoras, planeadas pelo reino, que se espalharam desde o norte (Maranhão, Amazonas) ao sul do país, mais notadamente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a presença açoriana foi mais numerosa e evidente.

 O colonos começaram a chegar a Santa Catarina a partir do ano de 1748. Eram grupos de casais e aparentados fugidos de desastres naturais ( em geral erupções vulcânicas) e da superpopulação que lhes traziam nas ilhas dos Açores crises de subsistência. As viagens e primeiras acomodações eram patrocinadas pelo Estado Português que precisava, por sua vez, ocupar o território e defender suas fronteiras americanas dos espanhóis. As promessas governamentais (D. João V) de lhes dar apoio financeiro, parcelas de terra, apetrechos agrícolas, umas poucas vacas e um asno, choupanas para abrigo e assistência no primeiro ano de Brasil, nem sempre foram cumpridas. Ao chegarem numa terra estranha, idealizada pelas quiméricas histórias de fartura e riqueza, de luxuriante beleza, mas ocupada por florestas cerradas e índios hostis, sem condições de habitação decente, seus ânimos, já abatidos pela crueza e insalubridade da viagem, arrefeciam. Ingênuos, rudes, crédulos, no entanto pressentiam que era uma viagem sem volta. Teriam pela frente uma nova epopéia, a da sobrevivência.

 Saíram dos Açores para Santa Catarina de 1748 a 1752 cerca de 6000 pessoas. Entre as viagens e as iniciais dificuldades na Terra, supõem-se que perto da metade tenha perecido. Esses primeiros colonos sobreviventes foram distribuídos no Desterro (antiga capital de Santa Catarina), Lagoa da Conceição, na enseada do Brito, São José e Laguna. Em Porto Alegre ( Porto de Dornelas) até 1752 estabeleceram-se 60 casais . Aí a terra foi favorável ao cultivo do trigo,feijão, milho, cevada, vinha, cânhamo,etc. Construíram moinhos e azenhas.  Criaram gado, miscigenaram-se, formaram estâncias, fizeram-se tropeiros, abriram caminhos para  outros lugares.

 Em Santa Catarina, a terra arenosa não favoreceu ao cultivo do trigo, aprenderam então com o índio a consumir a mandioca (mansa) no lugar desse cereal. Novas técnicas de artesanato, pesca e cultivo adquiriram. A vinha, o algodão, o linho tiveram algum sucesso apesar dos recrutamentos militares periódicos que desviavam os homens das atividades agrícolas. As lutas pela sobrevivência foram longas e intensas. Tiveram que se adaptar, superar dificuldades e deficiências, distâncias, faltas e doenças. Mesmo assim, quase esquecidos, colocaram em ação a tecnologia que trouxeram consigo. Construíram embarcações, engenhos e teares, abriram clareiras na mata, plantaram a vinha e os alimentos para subsistência. Levantaram casas, fabricaram louça, cestos e panos. Introduziram a renda de bilro, caçaram a onça que comia seu rebanho, tendo seus cães como fiéis companheiros ( daí a grande quantidade de cães que ainda vagueia pela ilha de Santa Catarina), e a baleia para produzir óleo usado nas construções e como combustível. Enfim, fundaram vilas, projetaram fronteiras, fizeram revoluções, quiseram até ser um outro país!

 Apesar do analfabetismo que nos primórdios medrava entre eles, passaram sua cultura, costumes e crenças , religiosidade, gastronomia e identidade para seus filhos. Apegados à família, ciumentos de suas mulheres, mesmo na pobreza e com as limitações que a terra e a política lhes impuseram, fizeram-se felizes e hospitaleiros.

 Os mais aventureiros partiram para o sudeste e centro-oeste onde o ouro e as pedras preciosas, atrativas,  reluziam. Muitos sucumbiram nas picadas e nas contendas, pela vida e pela fortuna, em busca do El-dourado. Os bem sucedidos enriqueceram, transformaram-se em grandes fazendeiros, latifundiários, chamaram amigos e parentes, daqui e /ou de além-mar, e com  aventureiros de outras plagas, fizeram no interior brasileiro uma nova casta de gente que por largo tempo dominou a política das terras sertanejas.

 Os que ficaram no Desterro agruparam-se, formaram famílias que se dispersaram em pequenos sítios e áreas. Isolados, agregados por natureza, as uniões entre essas famílias cada vez mais aparentadas deixavam a cada geração mais seqüelas. A consangüinidade determinava nascimentos de crianças com maior número de deficiências físicas e mentais.
Mas os tempos rolaram, os séculos se sucederam, as contendas apaziguaram. Os caminhos melhoraram, por terra e por mar o espaço foi cada vez mais conhecido e pelo estrangeiro nacional (paulista, rio-grandense do sul e mineiro,...) e internacional visitado, (inglês, uruguaio, argentino,...). Santa Catarina viu os colonos imigrantes italianos, alemães, polacos, russos, chegarem e fazerem das suas terras focos de beleza e prosperidade.

Hoje, os descendentes dos primeiros colonizadores açorianos, os manezinhos da ilha, podem ainda ser encontrados nas pequenas comunidades de Florianópolis e algumas regiões costeiras de Santa Catarina. Porém, essa pequena população de “nativos” já se encontra em vias de extinção pelas miscigenações genéticas e culturais atuais, e pela voraz expansão imobiliária que, apesar das leis ambientais, nem sempre respeitadas, vem desde 1960 assolando a capital do estado, expulsando o nativo de seu resguardado habitat, degradando impunemente a natureza e ocupando áreas que deveriam ser de preservação ambiental.  Resultado da conhecida má política que só vê os ganhos pecuniários imediatos para um pequeno grupo de fortes proprietários, e que despreza o futuro de qualidade para o restante da comunidade ilhoa.
Morros desbastados da sua natural cobertura verde, ocupados perigosamente por construções levantadas em áreas de risco, com a complacência irresponsável da autoridade pública, vias congestionadas por gente deseducada que joga lixo nas praias e estradas, poluindo o visual e o meio ambiente, violência urbana crescente, cada vez mais incontrolável, é o panorama que se vislumbra em Florianópolis atualmente. Urge que haja políticas inteligentes e políticos eficientes que promovam o desenvolvimento seguro e sustentável desse rico patrimônio da natureza. “Enquanto houver algum recanto paradisíaco guardado por um “manezinho” risonho e pescador, enquanto ainda sobrarem locais intocados pelo homem “civilizado” e” empreendedor” a Ilha de Santa Catarina merece ser apreciada.

Maria Eduarda Fagundes

Tupaciguara, 14/02/2015

Tirei essa foto numa das minhas freqüentes viagens a Florianópolis. Santo Antonio de Lisboa é um sítio (beira-mar) da Ilha de Santa Catarina (Norte da ilha), fica bem perto de Sambaqui. Foi um dos lugares escolhidos pelos primeiros açorianos quando lá chegaram.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Os Correios do Brasil e o estúpido


por Francisco Gomes Amorim

Já um dia contei uma triste história: os medicamentos no Brasil custam entre 3 e 5 vezes mais o que custam em Portugal, na Argentina e maior ainda a diferença para os EUA.
Aos velhos, aliás os de idade mais avançada, é recomendável tomar uns comprimidos que, dizem, retardam a evolução da artrite, e artrite na minha idade tem-se até no pensamento. Uma droga que acredito não sirva para nada mas... chama-se Glucosamina – Condoitrina. Dou até ao nosso cão. Jogar dinheiro fora.

Pela Internet encontrei um fornecedor que me cobrou, por um pacote que dá para cinco meses o mesmo que o brasileiro de trinta dias. Encomendei, e da primeira vez com um bônus – leve dois pague um – o que me deu para dez meses. Depois voltei a encomendar, tudo foi chegando, até que este último ficou retido na Alfândega.

Veio um telegrama duplo dos Correios:
Por interesse da fiscalização sanitária exercida pela ANVISA*, neste recinto alfandegado da ECT (Empresa dos Correios) fica o interessado NOTIFICADO a apresentar no prazo de 30 (trinta) dias ... a seguinte documentação:
a) Apresentar prescrição do profissional...etc.
Endereço: Todos Ponta do Galeão, s/n 1° andar – Galeão – Rio de Janeiro.

Passa o Carnaval e o estúpido, este que se assina, depois de ter pesquisado em vários programas da Internet o dito Todos Ponta do Galeão, o que todos ignoraram, como eu, sai de casa cedo, temendo confusão para encontrar o Todos..., lá vai a caminho de um endereço que nem o Papa sabe onde fica. Mas como dizia Galeão, objetivo Aeroporto.

Uma festa. Começa pela Polícia que diz para ir aos Correios, logo ali, ó... Não. Não era ali, nem eles sabiam onde seria. Mas tem outra loja dos Correios no 1° andar.
Bingo, bem diz o telegrama que é no 1° andar. Não era. Nem eles sabiam onde ficava, nem o que significava o GEARA/CTCI-RJ (Gerência da Atividades de Recinto Alfandegado – Centro de Tratamento dos Correios Internacional).

Por milagre, surge, abrindo uma porta, um funcionário que sabia onde era!
O senhor volta tudo para trás, passa junto ao aeroporto militar, vira à direita e entra na segunda rua à direita.

Lá vai o estúpido. A segunda rua à direita era de sentido proibido. Anda mais um pouco, pára mais duas vezes, inquire, alguém explica onde ficam os Correios, e... finalmente, aparece um edifício dos ditos Correios.

No portão, fechado com dupla segurança, explico ao que vou.
É no edifício aqui ao lado mas só abre ao meio dia.
Só ao meio-dia???????????? !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eram 10:30. Um calorzinho razoável.

Meio dia?
Sim. Abre ao meio dia e fecha às nove da noite.

Mas isso deve ser caso único no país inteiro.
O que é que o senhor quer? Eu sou só o segurança.

Eu sei que você não culpa alguma, mas isto é uma sacanagem! Não vou esperar. Mas faça-me um favor: quando vir alguém que trabalhe lá dentro diga-lhe que esteve aqui um velho, que saiu cedo de casa, andou cinquenta quilómetros, pagou estacionamento no aeroporto, e duas vezes o pedágio, e não quis sofrer o vexame de ficar aqui uma hora e meia a assar neste sol. Ele que metam o frasco com o meu medicamento no... você imagina onde, né?

Ele riu, assentiu com a cabeça, dizendo que sabia onde eles deviam meter o frasco, e eu bati em retirada.

Para variar, aquilo no middle of no where, cheio de ruas e caminhos para desviar da Linha Vermelha, mas tabuletas indicando qual direção a seguir... NADA. NADINHA. À brasileira.

Pergunta mais uma vez a um motorista, que, à boa moda carnavalesca, mas simpático, explicou exatamente, muito amável, o caminho mas na direção oposta! Ele também estava meio perdido.
Mais 16 quilómetros para só depois encontrar onde fazer o retorno.
119 quilómetros rodados.
R$ 14,00 de estacionamento
2 x R$ 5,90 de pedágio.
Remédio... nada.

Os Correios do Brasil já foram um lixo há uns 50 anos. Depois, organizados, eram os melhores do mundo. Uma carta para a Europa e de lá para cá, demorava uns 3 dias. Hoje demora 3 SEMANAS... quando chega, porque algumas ficam pelo caminho perdidas. Incrível.

Há mais de um mês aguardo a chega de um DVD que a minha filha mandou de Londres. Penso que eles devem estar a fazer sessões lá nos Correios para distrair o pessoal.
Mas não há crise. Vou deixar a artrite descansar por uns tempos. Tempo, de qualquer modo é o que agora tenho de menos.


*ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – com quem já há uns anos, a propósito do preço dos medicamentos troquei uns e-mails absolutamente hilários. Devia ser, também, no tempo do Carnaval.

20/02/2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


Existência, essência


Existência,
Essência
Vem até nós
Através dos
Céus mais negros,
Mais solitários
Ou solidários.
Existência,
Essência
Eleva
O âmago dos meus sentidos,
Provoca o meu ser
Seguindo o ritmo
Do violino ou da bateria,
Seguindo o ritmo
De uma guitarra eléctrica
Ou seguindo o ritmo
De toda uma orquestra!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (120)

Gitano, Nonell, 1901
Óleo sobre Tela, 73x61cm
O MUDO

Nascera cedo demais para ser noite mas já muito tarde para ser ainda de dia. Contaram-lhe que as primeiras palavras da sua mãe tinham sido: «Era capaz de ter já outro» e isso tanto poderia ser bom como mau sinal. Ainda miúdo, escaparam-se-lhe as palavras todas com um susto que apanhou por causa de um cão que, na verdade, não lhe chegou a fazer mal, mas que era enorme e negro e lhe aparecera de repente e sem aviso. 

Já homem, muitas vezes, era apenas o “Mudo” e, com o tempo, tinha encontrado uma forma astuciosa de usar a seu favor a pena das pessoas que lamentavam muito mais do que ele próprio o facto de não conseguir falar. 
Era mudo, mas não era surdo. Desenrascava-se bem com os gestos e sabia perfeitamente como chegar onde queria. O tempo que seria de falar, usava-o para pensar e observar outras vidas e assim fora desenhando a sua, de forma irrepreensível. Tudo estava perfeitamente alinhado e medido para cada um dos seus dias. 
Naquela manhã, ainda cedo, ia ver o lixo e procurar uma qualquer coisa de valor no contentor verde, perto do cemitério do bairro. Mais difícil do que permanecer pendurado de forma perfeita entre a parte de dentro e a parte de fora do contentor, era conseguir encontrar alguma coisa que valesse o esforço. O valor das coisas, ele achava-o conforme o uso que lhes atribuía e de tal forma tinha aprimorado as suas recolhas que nem o mais pequeno músculo de seu corpo se moveu quando, saída a direito do contentor verde, a sua mão lhe mostrou um saco cheio de notas. Sorriu ligeiramente e colocou-o de parte, como fazia sempre. Chegaram-lhe às mãos outras coisas que foi ignorando, entre as quais um relógio de parede, uma boneca de pano, um bebé e um chapéu de senhora.
O “Mudo” olhou o tempo e cumpriu-o, respeitando o costume de ali passar trinta minutos todas as segundas feiras. Passado esse tempo, recolheu o saco das notas e saiu. Passou a porta do cemitério, virou à direita, depois à esquerda e chegou a uma casa amarela. Empurrou a porta, entrou e dirigiu-se devagar ao cofre grande que dava por mobília junto a um colchão atirado a um canto de uma vida passada fora dali. Abriu-o e colocou lá o saco das notas. Atribuiu-lhe um número e deixou-o à espera. Sorriu ligeiramente, como fazia sempre.

Tomou banho, vestiu-se e saiu. 

Era um homem bonito e, às vezes, muito bem vestido. Chamava-se Nuno. Ouvia perfeitamente, embora não falasse. E tinha encontrado uma forma astuciosa de usar a seu favor a pena das pessoas que lamentavam muito mais do que ele próprio o facto de não conseguir falar.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 22 de fevereiro de 2015

 
 
MIRADOURO 08 / 2015





Cabeção. Dois dias de trabalho, com os meus Irmãos, nas velhas vinhas herdadas de avós e pais. Podar as cepas, limpar as oliveiras e queimar ramas e vides. Soube bem. Amassou o corpo mas deu para limpar a cabeça, relativizar contradições, pacificar emoções que de vez em quando descambam em stress. Como prémio adicional o facto de, apesar de os trazer sempre comigo, me sentir muito próximo dos meus progenitores. Quase sentia, na entrega àqueles trabalhos, que os homenageava em cada gota de suor.
Alterou-se a paisagem rural da minha terra. As tradicionais culturas têm vindo a perder espaço para outras que exigem menos desvelos e dispensam o acompanhamento permanente.
Os frutos secos (pinheiro manso) têm vindo a ocupar terra outrora consignada a vinhas e olivais. Ainda me lembro quando, aqui há uns anos atrás, os senhores da CEE atribuíam subsídios para arrancar oliveiras. O meu Pai ficou incrédulo “agora pagam-nos para não trabalhar?” foi o comentário desconfiado. Não arrancou nenhuma. Para além do mais por uma questão afectiva. Aquelas árvores tinham sido plantadas pelo seu Pai e meu Avô. Creio que, como era hábito nele, tomou a decisão mais certa.

Depois de financiarem o desinvestimento na Agricultura, Pescas e Indústria a troco de subsídios e empréstimos chorudos os senhores da CEE puseram-nos ondes nos queriam.
Ou seja, numa posição de dependência total mesmo em áreas em que tal não era necessário ou se justificasse. Claro que contaram com a colaboração de políticos nacionais vendidos a interesses que não os dos povos mas que decerto acautelaram os seus interesses próprios, incluindo-se aqui os da sua tribo mais chegada.
Quem assim nos colocou sabia ao que vinha, jogava um jogo com várias etapas. Quando nos viram assim vulneráveis e indefesos puseram em prática a usura e agiotagem. O resto é o que se sabe. Perda de soberania e de direitos sociais. O pacto social, construído ao longo de décadas ou séculos entre estados e cidadãos, atraiçoado e destruído em poucos anos. Os donos da Europa instrumentalizaram políticos sem valores, projectos, ideias ou dignidades em serventuários de projectos que não nos servem nem permitem crescer. E quando perante tanta subserviência rastejante alguém se ergue em defesa dos mais desfavorecidos e desprotegidos, amplificam a voz do dono bradando a plenos pulmões que há que esmagar a sublevação.
Não sou grego nem pertenço ao Syriza, não conheço sequer em pormenor qual o seu programa político, mas congratulo-me com a voz que tem levantado em nome do respeito pela dignidade humana. O mesmo poderei dizer em relação ao Podemos aqui na vizinha Espanha.
Os tempos estão difíceis, a luta é deveras desigual e não sei como tudo acabará mas há atitudes que nos resgatam a esperança e avivam a chama de um orgulho que transportamos em nós: Somos humanos. Sentimos, pensamos, podemos escolher. Podemos dizer sim ou não. E é a consciência disso que nos torna a alma maior.
 
Manuel João Croca

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sabia que a burka é proibida no Algarve desde MDCCCXCII?


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A nossa costela árabe a funcionar... 
Uso da burka ou do chador proibido no Algarve:

«Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mês, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no 
Artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto.»

Raul Brandão escreve a propósito do biôco (ou biuco) algarvio, no seu livro "Os Pescadores", em 1922:

"Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.

É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho.

É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."

Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”

Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.


  Margarida Castro

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Quaresma


Acabou o carnaval, uma parte bela da vida dedicada mais ao exterior, para se seguir uma outra parte, também bela, que é a vida interior. Com a quarta-feira de cinzas começa a quaresma (quarenta dias antes da Páscoa) em que cristãos e muitos não cristãos procuram dedicar espaço também para o jejum e abstinência. Quaresma é, para os cristãos, um tempo de purificação em que se participa na entrega e sofrimento da vida de Jesus, para preparar em si mesmo a realização da Páscoa. Trata-se de superar a rotina da vida para possibilitar a experiência da vida interior. Com o jejum adquire-se maior sensibilidade e maior presença de espírito nas relações humanas e espirituais.

Segundo a tradição, o jejum e abstinência implicam uma tríade: jejuar, rezar e dar esmolas. Tudo isso deve acontecer no silêncio e discrição para se não alimentar a ambição nem o narcisismo; isto tem como finalidade purificar a pessoa de maneira que se torne mais aberta e sensível para o próximo e para Deus, para o corpo e para a alma.

Há várias formas de jejum, entre elas, renúncia a tabaco, álcool, dispensa de doces, jejum do Telemóvel, do querer levar a sua avante, etc. Deste modo fortifica-se também a vontade e ajuda-se a suportar a frustração. As satisfações exteriores diminuem-se um pouco para beneficiar as interiores. Tem-se o benefício de se sentir um tempo, uma pausa do habitual aparentemente inútil e sem um objectivo concreto. Isto possibilita a vivência de experiências diferentes das habituais e dá oportunidade à criatividade e à intuição.


António da Cunha Duarte Justo


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ideias Políticas


Foto de Lucas Rosa


O Tempo Livre


Empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. 
(Agostinho da Silva, Considerações,"Por um fim de batalha", Textos e Ensaios Filosóficos I, Âncora Editores, p.117)

A propósito das propostas de regulamentação do serviço profissional que têm vindo a ser implementadas nos últimos tempos por novas tendências políticas, tem-se vindo a propor generalizadamente que o número semanal de horas de trabalho deva ser, pelo menos, de 40 horas. Alguns setores profissionais, sobretudo entre o funcionalismo público, vêm-se batendo pela preservação das 35 horas, como uma conquista libertária a que se chegou, antes da pressuposta crise económica que atravessamos.

Ao que parece, a par das políticas de austeridade que se instalaram no nosso país, tornou-se moda de mau gosto, grosso modo, o aumento do número de horas de trabalho e a diminuição dos salários, o corte de alguns feriados e a redução do número de dias de férias, entre outras medidas económicas igualmente neo-depressivas. É que nem ao Carnaval nos queriam deixar brincar.

Considerando nós que mais tempo de trabalho constitui uma medida repressiva que corresponde a uma perca de liberdade, já que menos tempo passamos a ter disponível para livre usofruto da Vida, não podemos deixar de achar que esta "modinha" liberal nos está a pôr a pata em cima e a carregar com força.

Ora, pelo contrário, num país em que o desemprego muito aumentou devido a estas novas políticas, em vez de carregar alguns com mais horas de trabalho, antes se devia de o reduzir e distribuir o excedente do serviço por quem não o tem. Como há muita gente que precisa de trabalhar, assim se "matavam dois coelhos com uma só cajadada", quer dizer, ocupavam-se os mais necessitados e libertavam-se os mais sobrecarregados. Pois não é a liberdade o grande chavão da democracia?

É a partir deste tipo de leveza, apostando numa melhor organização política da Vida, que acabará por se trocar depressões coletivas pelo beneficio de todos. Palavra de ordem interessante aquela dos tais mosqueteiros em que eram pela capicua literária de "Um por todos e todos por Um", em vez da voragem insaciável da indústria dos números.


Luís Santos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


O GATO PLIMPLIM


O gato Plimplim
Gosta muito de brincar!
Atirou a bola ao ar
E ouviu tlimtlim.
O que foi?
Um prato que acabou de quebrar!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (119)

Máscara, Autor António Tapadinhas, 2002
Acrílico sobre papel Canson 400g, 32x24cm

Em 2002 fiz um cruzeiro nas Bahamas. Saí de Miami no luxuoso paquete “Majesty of the Seas”, direito a Nassau, onde bebi rum no “Nassau´s Pirate Pub”, passei um dia numa ilha minúscula com o nome de ”CocoCay”, concessionada para uso exclusivo dos participantes no cruzeiro, onde nos vinham servir as bebidas enquanto nadávamos nas suas águas cálidas. E nem digo quem e como nos serviam as bebidas…
Depois desta viagem de sonho, ao contrário do que seria de esperar, escrevi um conto de terror, que tem o seu início em Nassau. 
Este meu trabalho, que serviu para ilustrar o conto, é inspirado nas máscaras nativas que estão presentes em quase todas as lojas para turistas. 

António Tapadinhas