quinta-feira, 9 de abril de 2015

Apontamentos Políticos


(Fonte da Imagem: Wikipédia, autor desonhecido)


 A Idade Moderna: O Renascimento

A partir do século XVI abre-se um novo período na história do pensamento europeu que vai corresponder ao desenvolvimento de um novo paradigma político. Se até aqui as ideias dominantes se subordinavam, em larga medida, a uma lógica religiosa católica, um conjunto de novos acontecimentos vão impor uma lógica de pensar mais assente na razão, diretamente ligada aos avanços que o pensamento científico vai conhecer. Doravante, uma tensão constante entre religião e ciência, com um domínio crescente desta, vai marcar o domínio na explicação da realidade para os próximos séculos.

Os acontecimentos mais importantes que assinalam esta significativa rutura paradigmática são os seguintes: Renascimento, centralização do poder, Reforma, Descobrimentos e Contra-Reforma.

O Renascimento marca um retorno (um renascer) à Antiguidade Clássica, à filosofia grega, interrompendo o domínio exclusivo da lógica católica que, como vimos, se desenvolveu durante toda a Idade Média. Uma nova teoria que substituiu a terra pelo sol quanto à centralidade que ocupavam na organização planetária, designada por heliocentrismo, proposta avançada por Copérnico e solidificada, entre outros, por Galileu, vem destronar a lógica geocêntrica ptolomaica que afirmava o planeta terra como o centro do universo, à volta da qual todos os planetas giravam, inclusive o sol.
O heliocentrismo costuma ser o acontecimento por excelência que mais marca o início do Renascimento, mas a par dele existem muitas outras descobertas científicas e filosóficas igualmente importantes, como será o caso, por exemplo, da sistematização do método experimental feita por Déscartes que vem abrir portas a uma lógica científica que urge.

A centralização do poder político exprime-se na formação das grandes monarquias europeias, tal como ocorreram em Inglaterra, França e Espanha. Tempos em que imperam políticas de absolutismo real, em que um só, rodeado do seu séquito, centra unilateralmente em si o poder da decisão política.

A Reforma que constitui um movimento de protesto religioso que nasce no interior da própria Igreja e vem criticar alguns dogmas católicos que careciam de sustentação. Este acontecimento centrado na Alemanha, liderado por Martinho Lutero, em 1517, e que depois se vai impor, sobretudo, nos países do norte da Europa, vai quebrar a unidade religiosa que até então vinha a caracterizar a parte ocidental do continente, cindindo daí para a frente ainda mais a Igreja, em católicos e protestantes. Os ortodoxos e os anglicanos são as outras grandes religiões cristãs que se constituíram em rutura com a Igreja Católica.
Em reação à forte dimensão que os Protestantes vão adquirir, por um lado, e aos avanços da ciência, por outro, vai-se criar um movimento jesuíta que tenta proteger a Igreja do seu enfraquecimento crescente que se designa por Contra-Reforma.

Por fim, assinale-se a importância que os Descobrimentos portugueses e espanhóis tiveram neste período com as grandes viagens ultramarinas, quer no que diz respeito ao grande incremento das trocas comerciais, que trouxeram novas possibilidades ao mundo, quer no levar do monoteísmo cristão ao mundo e nas crenças da Jerusalém Celeste, que nas palavras de Luís de Camões podemos traduzir pelo seu Canto sobre a “Ilha dos Amores”.

Em suma, podemos dizer que o início da Idade Moderna caracteriza-se, por um lado, por um renascer das ciências gregas entre uma lógica católica que dominava e, por outro, por uma doutrina monoteísta cristã levada ao mundo por portugueses e espanhóis que se continua a afirmar.

Luís Santos

Nota: A segunda imagem, um dos símbolos do Renascimento, "O homem vitruviano", é da autoria de Leonardo Da Vinci.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Carta para a Presidente Dilma Rousseff


Desta carta foi enviada cópia para:
Supremo Tribunal Federal
Presidente do Senado Federal
Presidente da Câmara dos Deputados
E para as sedes dos seguintes partidos: PMDB, PSDB, PT, PSOL
Não vai dar em nada, porque ninguém vai sequer discutir cortar na própria carne!!!
Mas...


Excelentíssima Senhora Presidente da
República Federativa do Brasil

Há poucos dias, num pronunciamento televisivo, a Senhora disse que queria que TODOS participassem na reconstrução deste maravilhoso país, e para isso pediu que lhe escrevessem dando sugestões, para pudesse estabelecer um diálogo aberto entre todos.
Com todo o respeito aqui vão algumas que considero básicas para transformar esta “brincadeira infeliz” em que temos vivido, numa verdadeira República.
a).- Começar, desde já, por PROIBIR toda a despesa dos governos federais, estaduais ou municipais em propaganda, nas TVs, rádios e imprensa. Assim os órgãos de informação deixariam de estar “gratos” a quem tanto e tanto dinheiro lhes dá e passariam a informar com mais isenção. Além disso seriam menos alguns bilhões de reais a saírem dos cofres públicos com total inutilidade para o país.
b).- Acabar também com os enfadonhos “Horários Gratuitos”, enfadonhos e carregados de promessas falsas, mentirosas.
c).- Acabar com a impunidade de TODOS os políticos e juízes, ficando unicamente como exceção o/a Presidente da República, enquanto estiver no exercício do seu mandato.
d).- Acabar com a reeleição.
e).- Acabar com a concentração de impostos no Governo Federal. A situação atual permite, como total descaramento, favorecer aqueles “mais amigos”. A distribuição de impostos pelos Estados mais pobres deverá ser determinada ano a ano, de acordo com a evolução desses Estados.
f).- Proibir, em TODOS os níveis de governos e judiciário o uso de automóveis, ou outras viaturas para serviço pessoal. Mesmo para ministros, juízes em qualquer escalão hierárquico, governadores e todos mais.
g).- Um dos grandes problemas do país tem sido a corrupção. Assim que um servidor seja apontado como participante de algo ilícito, deverá ser imediatamente suspenso das suas funções até que o tribunal julgue o seu caso.
h).- Outro assunto que continua a preocupar a população é o crescimento desproporcional de menores envolvidos em crimes. É urgente reduzir a idade penal, como muito países o têm já feito há muitos anos.
i).- O maior problema do Brasil, além de todos acima expostos é a educação. A formação de professores de conveniente nível é o primeiro passo. Outro problema da mesma área é a proliferação de faculdades de péssima qualidade, que roubam, enganam, os alunos que têm o azar de acreditar que um almejado diploma os vai ajudar na vida. Todas essas faculdades que não atinjam o nível que o MEC determinar deveriam ser imediatamente fechadas e os alunos devidamente indenizados pelo logro em que caíram e pelos anos perdidos.
j).- Limitar o número de partidos políticos à quantidade mínima necessária para haver liberdade de discussão de ideias.
k).- Impor pesadas multas, pesadíssimas, a quem for flagrado a destruir a Amazônia ou qualquer outra região florestal ou reserva natural. Incluir nessas penas a possibilidade de prisão.
l).- Reduzir o número de ministérios e secretarias de Estado a, pelo menos, um terço do atual. É natural que essa redução leve a substanciais melhorias e rapidez no tratamento dos assuntos que lhe competem e no atendimento ao público em geral.
Senhora Presidente:
Peço-lhe que aceite estas sugestões, e que, se as julgar úteis, as mande analisar. Todos queremos um país digno, e respeitado. A primeira coisa a fazer é governar para que aqui dentro todos se respeitem, o que hoje não se verifica.
Apresento a Vossa Excelência os meus respeitos

Francisco Gomes de Amorim

terça-feira, 7 de abril de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


SENTIMOS

Sentimos
Que somos
Sem nunca desistirmos
De ver a nossa imagem
Na imagem dos outros
Que nos cercam
E acercam
E continuamos
A sentir um ser
Pulsar dentro de nós
Que quer sair
Como as palavras
Numa aragem azul
Numa voragem doce
Num pensamento múltiplo,
Num pensamento único.
E seguimos procurando
Sentir a vida
De um ser
Que rodopia com as palavras
Que se enlaçam,
Entrelaçam,
Jogam e dançam
E saem,
Finalmente,
Criando a nossa própria imagem
Cheia de sons e perfume,
Só nosso,
Indizível,
Sensível apenas
E somos nós
E sou eu.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (126)

Voo, Autor António Tapadinhas, 1996
Óleo sobre Tela, 46x38cm

PÁSSAROS COLORIDOS
já não se cantam hinos
as madrugadas sonolentas
cobriram-se de pássaros coloridos
que mergulharam as asas
numa só garganta
sorri os meus lábios
falei ao mundo
cresci 
olhei de longe
vi
são pássaros coloridos
de cores indefiníveis

Carlos Fernando Bondoso

domingo, 5 de abril de 2015


A mulher do aposentado Velho Artur


O banco do jardim sentava semi-confortavel Artur, o velho pensionista, de olhos fitos no eucalipto que avistava  ao longe.
  Os dias que este colhia e a idade amassava, corroendo-lhe o corpo ao longo dos anos, eram para si nada mais nada menos que um pacto feliz que fizera com a morte. Dir-se-ia mesmo que estavam unidos por união de factos tanto através do silêncio com que encarava a árvore como pelo negro dos dias que se iam multiplicando no seu corpo, que apesar de negros não lhe prestavam dor física alguma.
  Por isto Artur, o velho pensionista era feliz com a sua morte, que lhe trabalhava a alma e a carne sem dor alguma. Sentia mesmo que estava unido a ela pelas melhores razões pensando de quando em quando: “Chegaste, ai estás perfeita de ti em mim sem dor alguma na tua foice”.
 
Houve um breve movimento de cabeça que o fez fixar a visão num formigueiro do outro lado do passeio á sua frente, deu um toque com a  bengala no chão enquanto observava as formigas devorando um escaravelho de estrutura grande para a sua classe. De barriga para cima esperneava-se em rápidos movimentos enquanto as formigas lhe trespassavam o crustáceo do corpo num último adeus á vida.
  O velho observava sereno, o bicho de mãos dadas com a sua morte. “ Sim havia dor naquele corpo” pensava.
Levantou a bengala e com um suspiro e um lento fechar e abrir de olhos bateu com a bengala no chão. Pensava no sol, na lua, no tempo e na pensão salarial que de há trinta anos até àquele dia nunca havia falhado.
 Avistou num canteiro próximo, deitada entre meio das folhagens, uma cadelinha de rua com cinco cachorrinhos mamando euforicamente nas tetinhas da mãe. “Quando se nasce a morte vem a reboque, quando nascemos estamos para morrer” pensou o Velho.

A generosa relação que ele tinha com sua morte fazia-o viver uma vida que o levava a crer que estava morto, de certo modo achava-se morto com a vida que tinha, mas não sentia qualquer remorso com isso nem tão pouco sentia a dor predominante da morte.
  Mas isto que Artur pensava, começou-o a pensar a partir do momento em que se reformou, “Depois da reforma cai nos braços da bela foice ela que faça de mim o que quiser, será sempre bela enquanto não me beijar a dor”.

Bocejou, e pegou na bengala semi-estendida no banco e bateu com ela no chão quatro vezes, mais quatro, e mais quatro, começou a assobiar ao som da bengala, pegou no chapéu, levantou-se e começou a andar e tropeçou num ferro junto ao caminho com uns chinelos que mal lhe protegiam os pés. Resmungando agarrado ao pé disse para si: “Porra, já te disse que não me beijes assim”

                                                                                                  Diogo Correia

    04-04-2015

sábado, 4 de abril de 2015


BELO

Na hora
em que a cidade
inicia seu recolhimento

- nessa época de noites
resfriando ares –

esqueço as lições de casa
os tormentos
e as tormentas

quedo em silêncio
e da janela assisto
a beleza em sua natureza.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Tudo começa num plim


HISTÓRIA CONCISA
DA 3ª GUERRA MUNDIAL

O jovem fez um manguito,
a polícia entrou em choque
e logo lhe caiu em cima
com toda a força do crachá
e do chanfalho.

Levaram-no para a esquadra
e a bordoada só acabou quando
o pai dele, que era general,
veio com a tropa atrás pôr fim
ao arraial, ocupando a esquadra
e prendendo os polícias todos.

A assembleia representativa
dos que pastoreiam o povo não gostou
e em nome do bom dinheiro
e da paz que o dinheiro exige
para uma boa reprodução,
berrou pela destituição
do casernático general.

A tropa não gostou e vai daí ós pois
invadiu o parlatório e fuzilou logo ali
os palradores menos ágeis incompetentes na fuga.
Os grisalhos, já se vê.

A Europa não gostou,
fez discursos em alemão
bateu os calcanhares e decretou
sanções económicas que tornaram
o pão mais caro e o bacalhão também.

O povo deu vivas e bateu palmas
às forças armadas de urtigas no cano
e deixou de pagar impostos,
passando à dieta de meia sardinha.

Wall Street, preocupada,
pôs de orelhas em pé a inteligência pentagónica
e o presidente, agora branquelas, deu ordens imediatas
para acabar com a anarquia.

Ao primeiro míssil,
uma barragem da EDP ficou escaqueirada
e os chineses não gostaram:
associaram-se de imediato aos putínicos
para ensinar aos arrogantes
boas-maneiras e respeitinho.

O petróleo subiu de preço
e as sete magníficas esfregaram as mãos.

Os judeus associaram-se com o Assad,
exterminaram os palestinianos
e toda a gente gritou: até que enfim.

De imediato, o Irão, apoiado nos bons ofícios
da Le Pen, exterminou os judeus
e toda a gente gritou: até que enfim.

O petróleo subiu de preço.

O Tio Sam pediu auxílio ao estado islâmico
e acabou com os aiatolas.

O petróleo subiu de preço.

A coligação sino-russa lançou
uma saraivada de mísseis
que derreteram as montanhas rochosas:
pum-pum-pum-pum…
e o petróleo subiu de preço.

A América estrebuchou,
o arroz subiu de preço,
os chineses morreram de fome,
os russos de bebedeira
e o estado islâmico especializou-se
em sanduiches de areia.

Numa base lunar,
o estado maior das sete magníficas
repartia os lucros e estabelecia os planos
para a reconstrução das coisas de escaqueirar.

Foi assim.

A 4ª segue depois do intervalo,
que o mundo ainda não acabou.


ABDUL CADRE

quinta-feira, 2 de abril de 2015


Montanha

na recta final dos seios, procuro a montanha num dia lindo de sol
o cristal da sorte. Procuro contigo a fonte do prazer para uma nova
semana, toda a velocidade passa em cada segredo madrugador
transporto beijos e mamilos para entrar ou sair da praia dia a dia

bebe-se a ginja na oratória dos dias claros transparências de peixe
no mesmo dia das flores no teu colo
folhas de rosa na piscina
do teu corpo

José Gil



terça-feira, 31 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


A CAROCHA VAIDOSA

Carocha vaidosa
Pulando airosa
Aí vai ela
De lenço às bolinhas
Salto alto,
Pensa que é atriz!
Cuidado carocha vaidosa
Olha que cais e partes o nariz!

segunda-feira, 30 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (125)

Os Grandes Amigos, Georg Baselitz, 1965
Óleo sobre Tela 250x300cm

Amo devagar os amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder

domingo, 29 de março de 2015


(Esta rubrica não respeita as regras do acordo ortográfico.)


MIRADOURO 13 / 2015





ESPARGOS

(Asparagus)

Cheguei cedo ao terreno da Cristina e propus-me ir apanhar alguns espargos antes do almoço. Munido de navalha e saco embrenhei-me pelos pinhais que ali há, acompanhado pelo cão que, ainda que velhote e invadido de reumático, quis ir comigo. 

Fui andando e apanhando, aqui e ali e mais além, outro e outro e mais outro depressa consegui colher um molhinho. Andava nisto, quando me deparei com um homem já idoso dedicado à mesma ocupação. Aproximei-me e perguntei-lhe se gostava de espargos. Disse que gostava muito e que a sua mulher logo decidiria como os cozinhar. Gostei do homem, era simpático e já um pouco trôpego. Espreitei para o balde que trazia e concluí que dificilmente conseguiria colheita que permitisse a confecção de qualquer refeição. Ofereci-lhe os que tinha apanhado dizendo-lhe que juntos talvez já dessem para fazer umas migas, passando a explicar-lhe como se faziam as migas lá minha terra. Agradeceu, ouviu interessado, fez algumas perguntas e concluiu-se com um «deve ser bom ». 
Continuando a conversa fiquei a saber que se chamava Manuel, que nascera perto de Loulé há já 85 anos, que havia sido carpinteiro e que agora vivia com a filha porque as finanças lhe tinham ficado com uma pequena vivenda de que era proprietário e onde morava, devido a algumas dívidas que não conseguira pagar. Tinha sido proprietário de uma pequena carpintaria mas com a crise …, a filha era divorciada e viviam com algumas dificuldades, já que as reformas eram pequenas. Soube ainda que tinha umas vértebras de metal, que já fora operado à próstata e a uns pólipos - «cortaram-me vinte centímetros de intestino» - e que na próxima 2ª fª ia ser internado para nova operação aos intestinos.
Disse-lhe algumas palavras de ânimo relativizando a operação próxima e fui à cata de mais espargos para ver se se conseguiriam as tais migas. O homem por ali ficou deambulando lentamente.  

Simpatizei com o velhote e, mais do que a delicada operação, seguia incomodado com o facto de lhe terem tirado a casa. Mesmo sem saber os pormenores nem a dimensão das culpas que eventualmente lhe caberiam, incomodava-me o facto de cada vez ser mais frequente no nosso país este tipo de ocorrência. Tirar o lar a uma família em dificuldades????! só em situações muito extremas, quando estivessem esgotados todos os procedimentos possíveis para resolver o problema e, mesmo assim…

Nos tempos presentes o mundo pensante que nos des-manda propõe-se tirar-nos cada vez mais direitos, regalias, até mesmo o sustento se o conseguirem. Empobrecer-nos, em suma.
Em contraponto, o mundo não pensante, a Natureza sempre generosa, oferta-nos e permite-nos sempre alguma colheita.
Precisamos ultrapassar rapidamente esta fase, esta ordem e este sistema, encontrar outros e novos intérpretes, nós, todos nós, e aprender mais com a Natureza e as lições que  nos deixa

Procurei o Ti Manel (tenho a certeza que ele não se ofenderá com este tratamento familiar) e ofereci-lhe o novo molhinho que tinha colhido. Ficou todo contente e eu também. Apertámos as mãos e seguimos cada um para as nossas casas.

Quando cheguei a minha mulher perguntou «então os espargos, não havia?», «havia mas dei-os a um amigo» e fomos almoçar.

Manuel João Croca

(fotos retiradas da internet)


sábado, 28 de março de 2015

A vida tem-me oferecido a felicidade de conhecer pessoas excepcionais, do Dalai Lama a Agostinho da Silva. E ainda estou sob o impacto da última: o Professor José Pacheco, o grande pedagogo da Escola da Ponte, o homem que se define como "um louco com noções de prática" e que declarou em 2008 que "A medida de política educativa de maior impacto seria a extinção do Ministério da Educação". Com ele aprendi "que na aula não se aprende nada" e a necessidade de passar da trans-disciplinaridade para a indisciplinaridade (porque a realidade é integral e alheia às divisões das disciplinas ditas científicas) e tive o privilégio de o ouvir acentuar que uma vaga educativa virá em breve do Sul que vai varrer os métodos anglo-saxónicos e norte-americanos com dois nomes de educadores apenas: o brasileiro Lauro de Oliveira Lima e o português Agostinho da Silva. Estou nessa.






Paulo Borges


quinta-feira, 26 de março de 2015

Cerrados (5)






Kity Amaral

Título: Cerrado azul e bizarro
Técnica: acrílica sobre tela
Dimensões: 80x120 cm
Data: 2005


quarta-feira, 25 de março de 2015

Apontamentos Políticos


São Tomás de Aquino


 O Céu e as Gentes
Foto de Lucas Rosa

Com a queda definitiva do Império Romano no ano 476, no meio do caos que se instala, já então transformada numa poderosa organização política, social e religiosa, o poder da Igreja permanece intacto.

Deste período até ao reinado de Carlos Magno, num período aproximado de 3 séculos, assiste-se a intensas relações entre a Igreja e os nobres, até que se chegue a uma clara divisão do poder: os príncipes cristãos devem servir-se do sacerdócio nas coisas que se referem à salvação e os padres devem respeitar o que for estabelecido pelos príncipes no que respeita aos acontecimentos temporais.

As ideias de Santo Agostinho acabam definitivamente por ser postas em prática no reinado de Carlos Magno. Este foi proclamado Imperador pelo Papa tornando-se no chefe temporal de toda a comunidade cristã que tinha no Papa o chefe espiritual. É esta divisão entre o poder espiritual e o poder temporal que, do ponto de vista político, caracteriza toda a Idade Média

Já no século XIII surge São Tomás de Aquino outro dos grandes pensadores políticos da Igreja que acaba por ter uma ação determinante no desenvolvimento das ideias políticas no continente europeu.

São Tomás de Aquino nasceu em Itália, em 1225. As suas obras foram numerosas e a mais importante é a “Summa Theologica”.
Como pensador político, recebe sobretudo a influência de Santo Agostinho e de Aristóteles, o que se vai traduzir na junção entre o pensamento cristão e a filosofia grega, ou seja, a um pensamento de hegemonia católica que havia perdurado durante todo o período medieval, São Tomás de Aquino vai abrir as portas a uma lógica de cariz mais científico que terá como consequência novos desenvolvimentos políticos.

Apoiando-se em Aristóteles, por um lado, vem sustentar que o Estado tem por natureza dar aos homens as condições para uma vida mais digna: “O fim do Estado é o Bem Comum”. Mas, por outro, de acordo com Santo Agostinho, as ações dos homens não se esgotam nas suas relações com o Estado, já que em todos sobreleva um fim natural que é a sua união com Deus.

Aliada à ideia de “bem comum”, também a ideia de Justiça à semelhança do que acontecia com Aristóteles, aparece como o conceito supremo que deve orientar as ações do Estado.

S. Tomás de Aquino considera que a monarquia constitui a melhor forma de governo para se atingir a unidade social. Como ele sustenta, se “no corpo só há um coração, nas sociedades mundanas só deve haver um governante”.

Embora este nosso pensador não conceba uma conceção laica do Estado, também não defende a subordinação do poder temporal ao poder espiritual. Segundo ele, ao lado do poder temporal dos príncipes, deve existir o poder espiritual do pontífice. Ambos têm origem em Deus, mas ambos são reciprocamente independentes e cada um tem o seu fim próprio – em assuntos espirituais deve obedecer-se ao poder espiritual, em assuntos políticos deve-se maior obediência ao poder secular.

Só em virtude da superioridade do fim sobrenatural da Igreja relativamente aos fins terrenos que pertencem ao Estado, se poderia falar em subordinação deste ao primeiro. Tal subordinação, porém, é tida como limitada enquanto importante para que a alma humana possa chegar à salvação.


Luís Santos


terça-feira, 24 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


25 DE ABRIL DE 1999

25 passados 
5 000 esperanças sentidas. 
Abertos os 
Braços 
Risos 
Iluminaram a 
Liberdade que 
1 vez sentida 
9 vozes se juntaram, 
9 punhos se ergueram 
9 (e novos) sonhos continuaram!

segunda-feira, 23 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (124)

Homenagem a Picasso, Fernando de Azevedo, 1981
Colagem sobre Coolagem

EU

Não tenho que

Porque o ter que já é não ser
Por vir de alguém e não de mim
E o nós também 
Não é daqui
Pois cada um é só por si
O que já for sem ter que ser 
Serei ou não o que souber
Do que puder
Seja o que for
Mas só serei o que quiser
Sem ter que ser
Como quem quer nunca morrer
Serei assim
Dentro de mim o que já for
E o que ao ser em mim servir

Serei ou não 
O que quiser 
Ou não quiser
Viver de mim

Maria Teresa Bondoso

domingo, 22 de março de 2015




MIRADOURO 12 / 2015

NO FÓRUM


O avô explicava e o neto ouvia (de vez em quando perguntava).
Falavam de qualquer coisa.
Da loja que fechara e da outra que ao lado abria, do tempo quente do verão e do outro em que chovia.
Falavam de coisas simples, triviais, do que na vida acontecia e eu, ao assistir aquilo, sem saber bem porquê sorria.
Observava e sorria perguntando-me sobre o porquê da vida assim, tão simples, poder ter tanta magia.
Sem muito pensar compreendi.
Pois claro, lá está.

Manuel João Croca

sexta-feira, 20 de março de 2015

21 de Março, Dia Mundial da Poesia, da Árvore, da Floresta, da Discriminação Racial, um dia depois do início da Primavera na zona temperada do hemisfério norte.



LIVRO DE POESIA DE ABDUL CADRE 


Eis a nossa lembrança:
Um livro de poemas que o autor partilha através da eBooksBrasil, sem custos.
Para aceder ao livro, CLIQUE NA CAPA e boa leitura.





quinta-feira, 19 de março de 2015

"Flores Voando"





Carola Justo

"Flores Voando"

Acrílico

60x50cm


quarta-feira, 18 de março de 2015

Apontamentos Políticos


O Cristianismo e Santo Agostinho


CLICAR NA FOTO
Fotografias com Música 
Lucas Rosa


A Grécia Antiga, com os seus brilhantes filósofos, produziu um pensamento político de valor muito considerável. A organização das “cidades-estado” na Grécia Antiga, e a autonomia política que as caracterizava, acabou por revelar um conjunto de diferentes regimes políticos que foi oscilando entre sistemas mais oligárquicos ou mais democráticos. Por isso, pelo avanço das ideias políticas, da ciência, costuma considerar-se a civilização grega como o berço da civilização ocidental.

A Grécia acabaria por ser conquistada militarmente pelo Império Romano no século II a.C., mas dada a fortaleza das suas ideias, embora perdesse a soberania territorial, os romanos haveriam de sucumbir à força dos seus filósofos que acabariam por colonizar grande parte do pensamento dominante.

No interior do Império Romano, equivalente à dimensão da filosofia grega, só a revolução cristã haveria de ter um efeito semelhante. As ideias de paz, tolerância, caridade, fraternidade e igualdade, entre as possibilidades da salvação da alma e do Amor, tal como propostas por Cristo, acabaram por revolucionar todo o Império e, a seu tempo, o mundo inteiro. Sobretudo, a ideia de igualdade, pois que todos os homens são ditos como irmãos, onde cada um deve respeitar todo o próximo como se de si próprio se tratasse, num tempo em que uma mentalidade esclavagista era absolutamente dominante, acaba por constituir um princípio de libertação que a plebe vai segurar de mãos juntas.

As ideias cristãs haveriam de se estender a todo o Império Romano. De um pequeno conjunto de dogmas, de um povo, inicialmente perseguido e aprisionado, o cristianismo acabaria por se expandir e ganhar título de religião oficial de todo o Império, em meados do século IV. E se a parte ocidental do Império estaria para ruir em breve, o que aconteceu no ano de 410 às mãos das invasões bárbaras, o cristianismo solidificou-se de tal forma que o Império caiu, mas Ele não.

Um dos primeiros grandes pensadores políticos da Igreja é Santo Agostinho. Na sua obra mais referenciada, A Cidade de Deus, Santo Agostinho vai adequar a filosofia cristã ao pensamento político. Embora as ideias de Cristo anunciem um novo paradigma político que vai abrir as portas de um novo período da História da Humanidade, a Idade Média, as novas teorias políticas fazem ainda ressoar algumas das ideias dos filósofos gregos, sobretudo Platão e Aristóteles, agora já marcados por essas novas ideias de igualdade e de Amor que entre eles tinham diferentes contornos.

A Cidade de Deus faz uma dissociação entre duas pretensas “cidades” que coexistem entre os homens, uma pertença de Deus, outra pertença do Mundo. Grosso modo, a primeira, caracterizada por uma comunidade de todos os que vivem no mundo segundo o espírito cristão e buscam a justiça divina, a Igreja; a segunda, pelo grupo dos que vivem segundo a carne e apenas para satisfação dos seus desejos de concupiscência e domínio, o Estado fora da Igreja.

Ora, sendo o Estado para Santo Agostinho, mais inclinado para o reino do demónio, em consequência da natureza corrompida do homem, ele propunha transformá-lo numa comunidade de paz e de justiça, realizando neste mundo a Cidade de Deus. A transformação dos Estados em comunidades onde reinassem a paz e a justiça só se conseguiria, portanto, pela conversão ao cristianismo e pela subordinação à Igreja.

As ideias de Santo Agostinho acabariam por ser levadas à prática a partir do século IX, no reinado de Carlos Magno, precisamente nas cerimónias de Natal do ano 800, perante o qual o Papa haveria de se ajoelhar e considerá-lo como Imperador de toda a cristandade, reservando para si o título máximo da espiritualidade, acentuando assim uma bipartição do poder político, um temporal outro espiritual.

Entre outros factos importantes, Carlos Magno tinha-se oposto e derrotado os árabes na batalha de Poitiers, em França, impedindo que a expansão árabe se alargasse mais ainda pelo território europeu, o que na altura constituía um perigo eminente para todo o mundo cristão. Esse crónico conflito entre cristãos e árabes que, quase incompreensivelmente, ainda hoje continua a fazer história.


Luís Santos