O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A IMORALIDADE DA MORAL


Abdul Cadre

 Histon, 2 de Abril de 2017

Andava eu no secundário, e era um tempo em que se impunha à miudagem uma disciplina indecente a que os ditadores da formatação ideológica e da castração do espírito crítico chamavam «Religião e Moral». Creiam que era uma coisa medonha que chegava a ser repugnante. Imoral, pode dizer-se.

No entanto, veja-se o paradoxo, isto proporcionou alguns resultados positivos, que não estavam previstos nas intenções dos cruéis mandadores. Dava-se o caso de alguns dos jovens menos formatáveis criarem anticorpos de tal ordem que tudo o que ali se dissesse, por verdade que fosse – e é claro que não era – logo era tido por mentira.

Num dos anos, nesse tempo de tortura, aparecia-nos a dar aulas um padre, que era uma caricatura digna de ilustrar A Velhice do Padre Eterno. Baixote, a condizer com o seu próprio carácter, todo vestido de gato pingado, tinha tonsura e guarda-chuva e começava todas as aulas com um peditório, ou antes, uma extorsão aos pobres desgraçados de quantos tostões pudesse. Era para a Conferência de São Vicente de Paula, dizia ele, e quando a colheita não lhe parecia suficiente, por critérios que só ele sabia, berrava desalmadamente que éramos todos hereges, comunistas, pagãos e outras coisas mais.

Um dia, um mal-avisado gaiato lembrou-se de dizer que, mesmo que tivesse, não dava nem um tostão para aquilo, dado não ser católico e os pais já terem requerido autorização para não assistir àquela catequese.

De que te havias de lembrar, rapaz!
Se ainda fores vivo – isto foi há tantos anos! – estarás de certo lembrado das chapeladas que apanhaste  no lombo e dos impropérios que ouviste…

Bom foi o guarda-chuva, devido a tanta raiva, ter-se partido. Melhor ainda foi ter chovido a  cântaros e o cangalheiro de Cristo, se ter visto obrigado  a regressar ao seu abrigo cavernoso que imaginávamos como próprio de qualquer lobisomem, com a sua encharcada farda de luto colada ao corpo.

Uma contínua, que  muito lamentava a nossa sorte, vendo a nossa satisfação pela molha do padre, chegou ao pé de nós e disse: «não fiquem assim tão satisfeitos, porque erva ruim não morre».

Nós não desejávamos a morte da aventesma, bastava-nos que partisse uma perna.

Sem comentários: