“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

terça-feira, 4 de abril de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A ENERGIA E O FUTURO

Ora aí está algo de que o povo da Invicta se deveria orgulhar. 
Os Serviços de Transportes Públicos da Cidade (STCP) que já têm a maior frota de veículos movidos a gás natural preparam-se agora, em conjunto com uma mão cheia de outras cidades numa dezena de países de vários continentes, para experimentarem a utilização de um autocarro movido a hidrogénio que, para já, os cientistas pensam ser uma energia virtualmente inesgotável e limpa. 
Estamos face a face com o futuro. 
É hoje um dado adquirido que os combustíveis fósseis são não só finitos como, a manterem-se as actuais taxas de consumo, terão um prazo de duração que não se poderá prolongar por muitos séculos, para além do pormenor, digamos assim, não menos relevante de não se conseguir que as suas aplicações energéticas deixem de contribuir para o agravamento de problemas atmosféricos globais como o efeito de estufa ou a diminuição da película de ozono. 
Não é pois apenas o futuro da Humanidade que implica a alternativa a este género de recursos; o mesmo se passa quando pensamos em termos de desenvolvimento a nível mundial, na medida em que seria impossível estender os actuais padrões de vida das sociedades ocidentais a todo o planeta tendo por base os actuais meios de transporte baseados nas tecnologias que fizeram a modernidade do século passado. 
Daí a importância de fontes de energia limpas e tão abundantes como é o caso do hidrogénio. 

E a experiência neste domínio em que, entre outras, participa uma cidade portuguesa, deveria ser motivo de orgulho para nós que tão precisados andamos de nos vermos ao espelho com maior auto-estima. 
Mas também é claro que para os pacóvios que falam do Norte e do Porto como a sua capital, é mais importante que o jogo de abertura do europeu de futebol aconteça no estádio do dragão. 


Seja como for, este pioneirismo que é de todo louvável, põe ainda mais a nu a acusação sibilina, por parte de um físico como João Magueijo que denuncia a inexistência de investigação científica e de produção de ciência nas universidades nacionais. Ora não estamos a falar de um cientista qualquer, mas sim de alguém que está a produzir teoria inovadora e a laborar numa das mais prestigiadas universidades mundiais. E ele é peremptório ao dizer ser “(…) impossível fazer ciência em Portugal (…)” (1) e explica porquê. 

O problema é que sem ela não tiraremos todo o partido possível do ensaio de uma energia apontada ao futuro. 


E pensar que tudo isto acontece oito anos depois da vitória eleitoral da paixão que Guterres dizia ter pela educação. 



Pois este sórdido caso do abuso e exploração sexual de crianças da Casa Pia evoluiu agora da palhaçada para a imoralidade mais abjecta. 

Num oportuno congresso de psiquiatria em que oportunamente fora convidada uma especialista norte-americana que oportunamente tem chamado a atenção para a falibilidade dos testemunhos dos pretensos abusados sexuais em criança e de quem a defesa de Carlos Cruz oportunamente queria ouvir o testemunho no processo em que é acusado, nesse congresso oportunamente promovido por um dos gurus que hablán en los medios de comunicacion, com o oportuno desiderato de discutir a fiabilidade da memória, falou o insigne psiquiatra Dr. Pio Abreu para dizer que um abuso sexual feito por uma pessoa famosa é mais fácil de suportar pela vítima. 

Enquanto decorria esta sem vergonhice, nos Açores ficaram em prisão preventiva oito dos doze detidos em mais um caso de pedofilia. 
E o padrão repete-se, gente influente, um médico bem colocado e as vítimas que sobem à tona de muitos anos de silêncios forçados. 



Por sua vez, a democracia, em Portugal, ascendeu ao patamar da farsa. 
Nós ouvimos os políticos que participam num programa televisivo, “O Debate da Nação” e escutamos palavras vãs, sabedoria de cordel e argumentação interesseira. 



Com a primeira sessão de patinagem e a necessidade de reformularem o horário da aula de educação moral e religiosa, ontem, os alunos acabaram por não ter preocupação com a matéria curricular. A manhã completou-se com a educação musical. Mas trouxeram trabalhos para casa. 



E hoje, enquanto a Luísa e as miúdas foram para a festa de anos do Manuel, o filho mais velho da Teresa e do João, eu fiquei em casa para tratar das futuras obras no sótão. 

São amigos de escola primária que laboram no ramo que nos farão o trabalho. 

Esta tarde identificámos o que pretendemos e tirámos as medidas. Segunda ou terça-feira virão mostrar à Luísa o catálogo das janelas e a madeira que fará o tecto. 

Começaremos as obras no início da Primavera. 


Aumentam as necessidades da família e a casa tem de crescer com alegria. 


 Alhos Vedros 
  10/01/2004 


NOTA 

(1) Magueijo, João, FALTA CLIMA CIENTÍFICO, p. 20 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Magueijo, João, FALTA CLIMA CIENTÍFICO, Entrevista por Filomena Naves, In “Diário de Notícias”, nº. 49231, de 10/01/2003

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