O oceano é um Upanishad, a terra um Sutra, o sol um Corão, o vento um Evangelho. E tu uma deusa-deus que se rebola a nascer e morrer e a rir e chorar pelas colinas do tempo e do espaço até que regresses ao Infinito de onde tudo vem e de onde nada jamais saiu a não ser na mente estúpida que acredita piamente nas histórias que a si mesma conta para se distrair do Extraordinário que é. (Paulo Borges)


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

DIA AZIAGO

Onze de Março é dia de infâmia. 

Má fama já ele tinha, entre nós, portugueses, pelo que ocorreu há vinte e nove anos atrás quando uma tentativa de tomada de poder pessoal, pelo general Spínola, levou à morte de portugueses e por um fio não fez estalar uma confrontação armada que muito bem poderia ter degenerado em guerra civil mas, por reacção, acabou por iniciar o período revolucionário em curso em que se inventou o socialismo à portuguesa a propósito do que se nacionalizou a economia, com isso destruindo o nosso tecido empresarial e, em contrapartida, criando uma cultura de funcionalismo público entre as massas trabalhadoras cujo resultado acabou por ser a austeridade imposta pelo FMI. Não tivéssemos entrado na então Comunidade Económica Europeia e, provavelmente, seríamos hoje tão miseráveis como os albaneses. Ainda assim, foi com todo esse arraial que os dirigentes políticos puderam lançar as bases da partidocracia que se veio a estabelecer no país e que tanto atrofia e bloqueia o nosso desenvolvimento. 

Bem, mas isto são contas de outro rosário que agora podemos deixar de parte. 


É que pouco passavam das sete, em Madrid, em hora de ponta, quando várias bombas rebentaram em vários comboios em três estações da capital, provocando inúmeros estragos materiais e a morte de mais de duas centenas de pessoas e acima do milhar de feridos, muitos em estado grave. 
Mais uma vez as imagens mostram o horror dos corpos espantados de sangue e perplexidade, com os materiais, em fundo, retorcidos em posições bizarras, tal não foi a potência de cada explosão. 

O governo espanhol atribuiu o morticínio à ETA. Mas ao certo ainda não se sabe e se um porta-voz do Harri Batasuna veio negar a responsabilidade dos independentistas bascos, a verdade é que aquela organização se mantem em silêncio. 
Não há dúvida alguma é que estamos perante mais um crime hediondo do terrorismo. 


Ora nada há que justifique um acto destes, não há qualquer argumento político ou ideológico que justifique o massacre de populações indefesas que foi o que aconteceu. Aliás, tenho para mim que sequer devemos reconhecer tal argumentário num caso como este. Esta é uma acção criminosa, como os seus autores vulgares assassinos. 


Há quem aponte o dedo para a constelação da Al-Qaeda, pois as características do crime, quer pela pujança organizativa que pressupõe e que supostamente falta à ETA, debilitada pelas prisões dos principais dirigentes e operacionais que a política de Aznar acabou por conseguir, quer ainda pelo estilo de grande aparato em que o mesmo se traduziu, lembram mais o modos operandi dos bandos de Bin Laden do que os nacionalistas bascos. 

Esperemos pois pelas investigações ou as eventuais reivindicações que venham a ser feitas. 

Seja lá como for, esta é a linguagem do terror; morte e destruição. É com isso que os terroristas impõem o medo que verga as populações aos seus ditames e tiranias pois nada mais pretendem que o poder absoluto. 


Passa pois a ser o dia onze de Março um dia de infâmia que a todos os amantes da paz e da liberdade, a todos os que gostam da democracia, não pode deixar sem, por um lado, um profundo pesar pelas vítimas e, por outro lado, a mais funda repulsa pela barbaridade perpetrada. 



E hoje, as minhas filhas lá foram ao teatro. 
Rica escola!
Mas eu não tenho dúvidas quanto à pertinência destas actividades nesta idade escolar. 
Trata-se de uma forma de permitir o acesso aos alunos mais pobres a espaços de cultura de que eles estão natural e potencialmente arredados. 

Mas parece-me que a peça foi demasiado experimental para o gosto da Margarida. 
“-Tem algum jeito, pedirem ao público para desmontar o cenário?” 

Contudo, a Matilde esteve atenta. Devo confessar que foi com certo orgulho que falei com ela sobre o enredo que narrou com toda a fluência e a segurança de quem tinha visto com olhos de ver. 


Como eu sou feliz por ver estes anjinhos crescerem. 



Esta noite rezamos por todos aqueles que perderam a vida neste dia de infâmia. 


Alhos Vedros 
 11/03/2004

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