segunda-feira, 13 de maio de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (28)




 Estudo feito a partir do retrato do Papa Innocent X, 
       de Diego Velásquez, pelo artista irlandês, 
Francis Bacon, 1953, Óleo sobre Tela, 93,2x76,5cm

TERRITÓRIOS DE SOLIDÃO

Solidão
é o mundo a fechar-se no centro de um mim
emparedando a alma no medo de ser assaltado.
É marcar por traços a passagem dos dias
sem curiosidade de olhar por cima do muro.
É uma luz que se apaga ao começo da noite,
distância que não confronta nem sequer contesta.
É escutar o som do cabelo a crescer até cobrir o corpo todo
e ter um copo em cada mão para se brindar ao que seja.

Solidão
é um olhar que já não procura
num tempo sem emoção
e quando já sem chama e apagada
a lenha se torna carvão.

Solidão…
(podemos começar outra vez)
solidão é
sob um céu rutilante de estrelas
sentir um adeus de velas no mar.

Manuel João Croca


domingo, 12 de maio de 2013

 





                                                     RETRATOS - V
 
 
Árvore
Pedra
Luz
Som
 
Sangue
Carne
Nervo
Osso
 

Corpo e alma

Alma e ser

Ser e  sonho
Sonho paz
 
Paz agora
Agora sempre

Sempre nada

Nada tudo
 

Tudo sim

Tudo não

Não quero não
Sim, quero sim.
  
Manuel João Croca

sábado, 11 de maio de 2013

A Disputa



uma história antiga da região onde vivo...  O Triangulo Mineiro 

Foto: arquivo particular  

Devido à dificuldade em se manter a lei, na época do Brasil Império, o interior foi entregue à Guarda Nacional, entidade formada pelos chefes políticos locais, em geral fazendeiros de grandes latifúndios, que recebiam uma carta patente assinada pelos próprios funcionários do Império, e mais tarde pelos funcionários da República, até 1930 quando foi extinta.
Amparados pelos poderes político e policial, esses Coronéis eleitos pelo governo, nomeavam para cargos políticos locais, a seu bel-prazer, amigos, correligionários, parentes, em geral gente de destaque social, que em rede de amizade e fidelidade lhes garantia o prestígio. A soldadesca era escolhida pelos seus feitos, em lutas e brigas onde demonstravam valentia.
Cercado por capangas e jagunços que lhes davam a “respeitabilidade” os  Coronéis eram como se fossem reis no Sertão Brasileiro. Disputas, querelas, desentendimentos, eram frequentemente resolvidos à bala, às claras ou em emboscadas, em caminhos ou lugares estrategicamente escolhidos. Em geral conhecia-se ou desconfiava-se quem eram os executores, gente contratada para trabalhos dessa índole, que depois do “serviço” desapareciam nos matos, fazendas, ou  em sítios longínquos.  Os contratantes nunca eram descobertos ou denunciados, principalmente se fossem poderosos, pois nada acontecia a eles.
 Naquele final de tarde, na birosca da estrada que levava às fazendas da Descarga, a raia miúda, após a lida, contava os “causos” embalados por doses de uma envelhecida” branquinha”. Foi quando, por ironia do destino,  Zacarias e Tomé, dois importantes fazendeiros, antigos amigos de infância, ali se encontraram. Desde que um curso de água de uma copiosa mina que nascia nas terras de um deles foi desviado para  irrigar uma plantação, tirando a água que abastecia um pequeno córrego que atravessava os campos do outro, que a amizade entre eles azedou. Entre um copo e outro de pinga o assunto da água veio à baila. Em instantes a discussão surgiu e se acalorou. Pressentindo um desfecho violento entre os dois homens,  os "catireiros" suspenderam as negociatas, os peões deixaram nos pratos os “engasga-gatos” (bolinhos de carne bastante apimentados, fritos na hora, em gordura de porco) e  se afastaram devagar, enquanto  o dono da venda, preocupado,  procurava com olhar a lazarina que  pendurada na parede aguardava ser solicitada...
Anoitecia. Atrás das colinas, no céu uma luminosa faixa vermelha, rastro de um sol que aos poucos se escondia, e o canto estridente das cigarras previam um dia seguinte calorento. A Vésper,  já se mostrava, límpida,clara como um grande diamante. Era a hora em que nas fazendas todos param para rezar a ave-maria, quando um tirou ecoou no ar espantando as aves que em brusca revoada  se alçaram das árvores,  onde se aninhavam. Dentro da bodega, a cena trágica.  Zacarias caído de bruços sobre balcão, varado por uma bala certeira no peito. Tomé, exangue, ainda com a arma na mão,  olhou ameaçador para o quitandeiro e  assistentes e, incisivo,  deixou um recado: 
- Avisem aos filhos deste traste e  a quem quiser contestar o direito que tenho sobre a mina e o trajeto do córrego que quem não aceitar a minha decisão, vai acabar como ele.   E se saiu esporando o cavalo baio rumo à cidade.
O  tempo passou. O incidente parecia estar enterrado junto com o morto da Descarga
Na pequena cidade novas eleições se avizinhavam. No mistifório político,  na alternância do “ sai tu que agora estou eu”, quem sempre ficava no poder era o Coronel ou seus subalternos.   Na Câmara, Conservadores e Progressistas  expunham seus planos e projetos.  O Coronel Tomé, Conservador, no meio da sala, sentado à mesa, comandava os trabalhos .  Acompanhando os  Progressistas os filhos e herdeiros do falecido Coronel Zacarias militavam as sutis diferenças, em aparente cortesia.
Do  lado de fora da janela aberta, por onde entrava uma pequena aragem, um homem de chapéu de abas largas inclinado sobre a testa,  se misturava, despercebido,  a outros elementos que, curiosos,  se postavam para ver as discussões que agitavam o ambiente.  Debaixo de paletó trazia um 38,  municiado e niquelado como exigia  a profissional eficiência. Na cintura a inseparável peixeira,  para a remota eventualidade do revólver falhar. Dali,  daquele ângulo,  seria quase impossível para um atirador com fama de Tonicão errar. Como um felino, calmo e frio, seguia os mínimos movimentos da sua presa, esperava apenas o momento certo da ação.  Foi rápido e preciso. Quando Tomé se levantou e pediu a palavra, não teve tempo de começar o discurso. Para o pasmo da plateia, quase que imediatamente recebeu um tiro que lhe vazou o olho direito e tirou a vida. O matador não teve tempo de verificar o resultado do seu "trabalho", aproveitando o tumulto e o corre-corre  da turba, desapareceu  na estrada, se acoitou para os lados de Goiás.
Por alguns anos a fama de Tonicão correu por aquelas bandas. Praticava o tiro ao alvo periodicamente em garrafas dispostas lado a lado, mirando a boca do gargalo. Perito no que fazia, resolveu definitivamente brigas e disputas de muita gente, de quem lhe pagava mais. Mas  como todo o matador profissional, não viveu muito tempo. Acabou assassinado, com um tiro,  quando entrava num bar, de ré,  para não ser surpreendido pelas costas. Outro, como ele, esperava-o lá dentro, atrás do balcão...
Maria Eduarda   Fagundes
Uberaba, 21/04/13

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Poemas que se encontram





CASCAIS 22

pelo ar aberto que bate junto ás veias
abre-se a página do oceano, a rede é fina
são sete horas, estou a fazer o calçadão
não passas na música espiritual, comes o
pão dos nove cereais
o desemprego assusta o sol que se derrama
na manhã quente junto à praia
ficarei cor de chocolate onde espero o teu
corpo rosa carne viva e os teus cabelinhos
nos meus dedos de hortelã, o chocolate
derrete onde a folha azul voa com versos
não tenho língua só voz para dizer do nosso
amor - estamos em Maio e Cascais nasce cedo






Pazciência
Fernanda Leite Bião[1]

Gosto do gosto da paz
Esta paciência amistosa com o zum zum zum.

Chuva mansinha que cai após o reinado do sol rei
O balançar das árvores alegres
As formigas que se sacodem e retornam a sua rotina
E as janelas que lentamente se abrem com o movimento do próprio céu.

Oh terra cheirosa, molhadinha e lamacenta!
Oh natureza abençoada e certeira!
Quem as criou nos fez bem!
A sua limpeza limpinha nos traz a paz escondida.



[1] E-mail: fernandabiao@gmail.com.



REQUERER

Requeiro
visto
de saída

em nova vida
me arrependo
na continuação da busca

requeiro visto de entrada
e regresso ao prazer atávico
do seio materno

saio em vida envelhecida
de reconhecimento e prodigalidade.

(Pedro Du Bois, inédito)

http://pedrodubois.blogspot.com

quinta-feira, 9 de maio de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

PÁSSAROS AO LUAR
 


LUÍS DELGADO

Óleo sobre tela 92 x 73
 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Encontros de Primavera, no Moinho de Maré em Alhos Vedros


PROGRAMA

10. Maio, 6ª feira:
  • 21,00 h. - Abertura
  • 21,30 h. – Inauguração da Exposição de Pintura de LUIS DELGADO E CELESTE BEIRÃO e apresentação do Programa dos “Encontros de Primavera – 2013”;
  • Evocação / Comemoração do 27º Aniversário da CACAV
11. Maio, Sábado:
  • 15 h. – Abertura da Exposição;
  • 16 h. – “AS ORIGENS DO JAZZ” com Iuri Gaspar      (Prof.na Escola de Jazz do Barreiro)
  • 22 h. – Actuação de um sexteto da Escola de Jazz do Barreiro;
Iuri Gaspar – piano; Diogo Correia – saxofone;  José Soares – guitarra;
José Canha – contrabaixo; Luis Gaspar – bateria; Francisco Andrade - saxofone
  • 23,30 h. – Encerramento.
12. Maio, Domingo:
  • 15 h. – Abertura da Exposição;
  • 16 h. – Palestra sobre “UM OLHAR SOBRE O PANORAMA GERAL DAS ARTES PLÁSTICAS NOS SÉCULOS XX E XXI” com Maribel Sobreira e Fabrícia Valente
( Mediadoras culturais no CCB e Colecção Berardo) Documentários; Debate
  • 20 h. – Encerramento.
17. Maio, 6ª feira:
  • 20,30 h. – Abertura da Exposição;
  • 21,00 h. Apresentação do Livro “O ANO EM QUE PIGAFETTA COMPLETOU A CIRCUM-NAVEGAÇÃO” de Luís Cardoso (Escritor Timorense) - Sessão de Autógrafos.
seguido de debate  “EM TEMPOS DE CRISE, QUE LITERATURA?”  com a participação de Luís Cardoso, João Rodrigues (Editor da Sextante) Sousa Pereira(Director do Jornal “Rostos”).
  • 23,30 h. - Encerramento
18. Maio, Sábado:
  • 15 h. – Abertura da Exposição;
  • 16,00 h. Cinema (Serão exibidas uma série de curtas sobre a CRISE em várias partes do Mundo.). No final da projecção haverá troca de opiniões sobre “EM TEMPOS DE CRISE, QUE CAMINHOS PARA O CINEMA ALTERNATIVO?” com (moderadores a anunciar)
23,30 h. - Encerramento
19. Maio, Domingo:
  • 15 h. – Abertura da Exposição;
  • Apresentação do novo livro de Luís Gomes: “HISTÓRIAS DA MARGEM SUL”.
  • Projecção do diaporama “O POVO” de Pablo Neruda. Locução de António Tapadinhas
  • Declamação de poesia. Performance a cargo de António Tapadinhas
  • Beberete / convívio.
  • 20 h. – Encerramento dos Encontros de Primavera.



"O Projecto da Página em Branco"





































Recomendaram-nos a publicação de uma página em branco para ver o que acontecia. Chamaram-lhe "O Projecto da Página em Branco". Ao que parece, uma ideia de escrita em grupo para participar "quem quiser, quando quiser". Basta ir nos comentários e, se for caso disso, escrever. Tudo sujeito às mais elementares regras da boa vizinhança. Boas Leituras.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Mahler traz-me à memória, posso falar assim, os meus amigos Félix e Éster que não mais vi e de quem nada mais soube desde o dia distante em que se despediram com um até logo e entraram para o táxi que os levou daqui. O que será feito deles? Onde estarão? Como viverão? Será que estão bem? Terão filhos? Sequer sei se ainda estarão vivos, muito embora seja esse naturalmente o meu maior desejo, tal como o de que se sintam felizes e com saúde, estejam lá onde estiverem. A amizade é um sentimento curioso. À semelhança da paixão surge por acaso e sem que tenhamos que explicar porquê. Nasce da empatia e consolida-se pelo trato, mas já não depende deste para se manter pois, ao contrário da paixão, não é um afecto fugaz e resiste à separação dos amigos que desse modo se vêem para todo o sempre, a menos que algo muito forte aconteça no sentido de lhe colocar um ponto final. E eu tenho a certeza que se os voltasse a ver, hoje, os abraçaria com o mesmo carinho que procurei transmitir no momento da despedida e se haveria de gostar ouvi-los contar as peripécias dos tempos de hiato, seguramente reataria conversas de antanho com a mesma vivacidade e a frescura na memória como se estivéssemos perante a continuação de um dia seguinte. Daquilo que conheci deles e a década de convívio e partilha de vida foi intensa e demasiadamente difícil e árdua para que se não revelasse o carácter e a capacidade de cada um de nós, pelo que me foi dado saber dos respectivos percursos, sinceramente jamais estranhei o silêncio e a incomunicabilidade a que ambos se remeteram e quando até o Artur deixou de ter para onde enviar o que ia narrando deste nosso pequeno mundo e de como a escola de música deu frutos e a pesquisa que haviam iniciado se foi robustecendo ao longo das muitas caminhadas e serões de trabalho persistente e metódico, nem aí me admirei que repentinamente e sem qualquer explicação, daqueles companheiros apenas tivesse ficado a sensação de se terem esfumado, simplesmente desaparecido por algum desses caminhos do mundo. Infelizmente vivemos num país mentalmente pequenino, desde logo por todos os dias andar submetido à capação de ideias, não vão formularem-se aquelas que possam levar a inquietação a expressar a vontade de alterar o rumo das coisas, igualmente pelo facto de termos apenas acesso a notícias coarctadas pela censura e, em tal estado, acabarmos por tão só conseguir um reduzido número de dados e um parco conhecimento sobre uma série de assuntos e outros tantos eventos. Editam-se poucos livros e vendem-se ainda menos e as possibilidades de aquisição de publicações estrangeiras que já de si aqui chega muito escassa, é complicada e desesperadamente morosa. Para além das trivialidades, os jornais não passam de uma pequena, não será exagero dizer, uma pequeníssima janela sobre o que se vai passando lá fora e as rádios não têm entre nós uma tradição de relatar o que se passa fora dos noticiários e, sem paralelo à excepção da importância de um conflito como foi a segunda guerra mundial, raramente fazem uma reportagem no exterior de um país estrangeiro. Pode ser que a televisão altere isso um pouco e contribua para nos aproximar um pouco mais da realidade mundial, no entanto não acredito que o possa fazer numa cultura censória como é a nossa. É pena, mas é assim que as coisas se passam entre nós. Seja como for, por isso sei pouco sobre Israel e muito menos sobre como se vive lá. Não será muito difícil de imaginar que a população vá passando por algumas dificuldades e a vida, ali, não seja propriamente dito um mar de rosas, afinal trata-se de um estado recente e onde haverá muito a fazer para alcançar os padrões de vida das nações mais ricas, para além desse aspecto fundamental de ter por vizinhos inimigos declarados e implacavelmente empenhados na sua destruição, tal e qual um prisioneiro que partilhasse a cela com quatro outros que pretendessem aniquilá-lo e que, na verdade, por repetidas vezes lhe fizeram a guerra, muito embora, pelo menos até agora, sempre tenham sido derrotados. Se é daí que parte a razão de ser desta falta de contactos daqueles amigos, não sei. Não me espantaria que o fosse, mas pelo empenho que me lembro de os ver pôr em tudo o que faziam, o mais certo é que tenham desligado por mera falta de oportunidade para escrever as novidades ou simplesmente perguntarem como estamos. Tenho-os no coração e sei que andem por onde andarem, sempre desejarei o melhor para eles que é a felicidade que podemos ir encontrando na vida que levamos. O mundo é que parece ter dado um trambolhão que anda de pernas para o ar. Esta lógica da disputa entre os dois blocos que a guerra da Coreia veio a estabelecer como irredutíveis e inconciliáveis e que mesmo depois das teorias da coexistência pacífica entre os dois sistemas, defendidas pelo líder soviético Nikita Krutchov, tudo indica permanecerem na intenção de combater o outro sem tréguas, algo que pode até derivar num conflito atómico que seria uma perfeita tragédia –ainda hoje morrem pessoas no Japão por causa dos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui – a lógica desta disputa tem provocado alterações que mais se assemelham a contra-sensos que à própria defesa dos interesses de que aqueles se reivindicam. Depois de ter sido um dos primeiros países a reconhecer Israel e de até haverem afinidades entre os ideais de que o Félix chegou a falar nas cartas que remeteu para o Artur a respeito dos kibutz e as cooperativas socialistas que fazem a agricultura colectivizada de muitos países comunistas ou socialistas, como eles dizem, mormente na União Soviética, esta, desde o problema do Suez em que Nasser enfrentou e derrotou ingleses e franceses, é a principal ou pretende vir a formar-se como a principal aliada dos regimes nacionalistas que se estão a estabelecer entre os estados árabes daquela região do mundo. Por sua vez, os Estados Unidos da América, a outra grande potência rival, apesar de ter combatido e vencido a Alemanha nazi e os seus aliados do Eixo, em particular o Japão com quem travou directamente o conflito mais duro, em nome da liberdade e da democracia, andam agora a apoiar tudo o que há de pior nas ditaduras que têm por ideologia a forte e feroz oposição ao comunismo. Aliás, deve ser por isso que Salazar lá se vai conseguindo manter no poder e Portugal movimentar-se nas teias das relações internacionais, agora que enfrenta a guerra pela independência nas três maiores colónias africanas. Há quem diga que assassinaram o Presidente Kennedy porque ele queria retirar as tropas americanas do Vietname e fazer a paz com os vietnamitas do norte que instalaram aí mais um dos regimes comunistas no continente asiático. Pessoalmente não acredito nisso pois até foi durante a sua presidência que os militares americanos começaram a desempenhar um papel directo naquela guerra que há muito estalou na antiga colónia francesa. Além disso, pelo modo enérgico como reagiu ao problema dos mísseis que os russos queriam instalar em Cuba, não me parece que ele fosse muito dado a grandes contemplações para com os povos que decidiram enveredar pelo socialismo e estou convencida que tudo estaria igual se ele estivesse vivo, continuando Salazar a tirar partido da missão de que se reclama de conter a expansão do comunismo no mundo, particularmente em África que bem agitada anda por tais ideais e com isso a resistir a esta estrondosa onda de choque que abalou este nosso Portugal e que ao contrário do que eu esperava não deixa rasto de poder vir a provocar a alteração do regime, pelo menos nos tempos mais próximos. E depois os negócios têm aumentado a olhos vistos e se mais conseguíssemos produzir, mais conseguiríamos escoar para Angola e Moçambique, sobretudo para a primeira e até já tivemos que desviar transacções que temos com o Brasil e alguns países europeus e isto porque as autoridades não veriam com bons olhos qualquer falta de empenhamento no esforço nacional para mantermos aqueles territórios sob administração portuguesa e esses ganhos que obtemos, mais ou menos chorudos outros obtêm e essa é uma torneira que, a manter-se, deixará que brote aquilo que continuará a lavar os crimes e todas as injustiças que o salazarismo tem feito os portugueses viverem.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (27)


Taller de  Costura, Botero, 2000
Óleo sobre Tela, 205x143cm

 HISTÓRIAS

Há muito, muito tempo, num reino distante e verde, vivia uma princesa muito bonita e bondosa chamada Maria Rosa. Com ela vivia apenas um gato de patas compridas.
Pormenores sem importância nesta história, mas que servem para a começar. 
Pois é assim que se começa uma história.
 

Na realidade, a mulher não é bonita, nem bondosa, nem princesa. Também não se chama Maria Rosa.
 
É feia, gorda e bêbada. Chama-se Valentina e tem um gato feito de loiça que vive no patamar. No nosso patamar…
O que tem de especial o gato da minha vizinha não são as patas. É, antes, a capacidade de continuar pacientemente à espera que eu lhe dê um pontapé.
 

A outra, a princesa bonita e bondosa,
 
a Maria Rosa,
 vivia num palácio e tinha muitos criados. 
Um alisava-lhe os cabelos, outro vestia-lhe o colete e outro massajava-lhe os pés. A princesa gostava tanto do seu gato que ela própria, com as suas mãos macias e longas, lhe alisava o pelo, lhe vestia o colete e lhe massajava as patas.
 
A Valentina faz rissóis para fora.
 
No patamar. No nosso patamar…
E não tem quem a ajude.

No meu patamar pintado de verde, mora um príncipe. Chama-se Miguel e é estrábico. Tem mamas como as mulheres, mas anda a fazer um tratamento… ou lhe caem as mamas, ou lhe cai o resto. O cabelo já lhe caiu, mas, por enquanto, é segredo.
Às vezes, a minha vizinha, de tão gorda e de tão feia, descai-se e chama-o “Miguel Careca”.
 
Ele pensa que é da bebida... e as coisas lá vão andando.

Há dias, a Valentina, bêbada, queimou-se toda.
 
O Miguel, do tratamento das mamas tinha lá uma pomada e foi o que lhe valeu.
 
Até a Maria Rosa, a princesa desta história,
 
veio do reino encantado
 
parou quando aqui chegou
olhou o Miguel de lado
o gato ficou deitado.
 
E a Valentina. Sorriu.

Agora já não é gorda.
 
O Miguel mudou de nome.
 
Chama-se Maria Rosa, tem um gato de verdade e mora noutra cidade. É feliz.

O gato da Valentina partiu-se.
No patamar. No nosso patamar…
Mas não fui eu.





Maria Teresa Bondoso


domingo, 5 de maio de 2013

                                           

                                              RETRATOS - IV




Ando pela rua
e vejo
os rostos
das pessoas.

Pessoas que são
a nossa gente,
eu, tu, nós,
todos.

Rostos
assustados,
acabrunhados,
destruídos.

Não!
Não pode haver
desculpa
para quem
nos quis assim.



Manuel João Croca




Pintura de Luís Delgado (óleo s/ platex)


sábado, 4 de maio de 2013

Plantas que Curam



por Miguel Boieiro

Chufa

O Homem, como elemento integrante da Natureza, deve procurar, onde vive, todas as condições necessárias ao seu equilíbrio biofísico.
A alimentação diversificada que logra tirar partido do meio natural, das suas peculiaridades climatéricas e da especificidade física e química dos solos e dos aquíferos, constitui um dos principais vetores da saúde das populações.
Diversificar, em termos de alimentação racional, significa enriquecer a dieta, educar o paladar viciado por uma ementa padronizada e artificial de duvidosa qualidade, e até completar uma restauração individual e coletiva demasiado carente.
Vem isto a propósito da divulgação de uma plantinha que, por graça, digo que serve para fazer leite e café, a qual tem todas as condições para ser cultivada com êxito em grande parte do nosso País. Ela necessita fundamentalmente de terrenos leves e arenosos e de atributos climáticos de tipo atlântico-mediterrânicos.
Importa desde já esclarecer que não me movem intuitos científicos ou económicos, para os quais não me encontro suficientemente preparado e que a outrem competem. Apenas pretendo despertar curiosidades no campo da alimentação natural, segundo uma perspetiva atraente, útil e acessível à maioria das pessoas.

A plantinha em questão denomina-se chufa, ou amêndoa-da-terra, por ser uma oleaginosa substituta da amêndoa, ou ainda, juncinha-mansa por se parecer com a junça, essa terrível infestante que alastra pelos nossos campos. A parte comestível é constituída pelos seus tubérculos acastanhados de formato ovoide irregular, os quais terão, no máximo, 2 cm de comprimento.
Estes pequenos tubérculos possuem cerca de 30% de fécula ou amido, 14% de açúcar, 20% de um óleo finíssimo de qualidade comparável ao azeite e 28% de proteína. Como se constata, trata-se de um produto altamente nutritivo, mas igualmente delicioso.

A Cyperus esculentus L. (seu nome científico) pertence à família das ciperáceas e é conhecida e utilizada desde remotas eras. Foram encontradas sementes, ou melhor, tubérculos, em sarcófagos egípcios de há 2000 anos a.C.
O cultivo da chufa generalizou-se na Europa a partir do século VIII, por ação dos árabes, e hoje está mais divulgado em Espanha (Andaluzia e sobretudo, província de Valência).
Costumo afirmar que com a chufa se obtém simultaneamente leite e café, o que causa o maior espanto aos desprevenidos. Na verdade, os tubérculos moídos num moinho de café ou noutra máquina apropriada do tipo “1,2,3”, a que se junta água, formam a famosa “horchata de chufa”, tão conhecida em Valência, Granada ou Córdova, onde a encontramos amiúde nas “gelatarias”.

Mas vamos explicar melhor como se faz este leite vegetal. Colocam-se os tubérculos de molho durante 24 horas. Seguidamente lavam-se em várias águas para desprender a terra que trazem agarrada. Procede-se depois à trituração, finda a qual, se junta água a gosto. Agita-se bem para favorecer a dissolução e côa-se através de um passador fino. A quantidade depende de cada um. Quem desejar um leite espesso e nutritivo deve usar, como mínimo, 250 g de chufa para um litro de água. Pode adoçar-se com açúcar ou mel (preferível) e beber frio ou quente, consoante o gosto do consumidor.
E como se faz o “café”? Pega-se simplesmente nos resíduos da trituração depois de obtido o leite e torram-se os mesmos em forno brando. O produto final dá origem a uma bebida muito agradável que substitui o chá ou o café. Experimentem!
Há também quem consuma a chufa de outras maneiras. Os espanhóis comem-na crua e demolhada como os tremoços. Outros utilizam a farinha de chufa como aditivo em pastelaria.

Vamos agora à plantação. O solo tem de ser leve e silicioso, como já foi dito, e conter alguma humidade pelo que convém regá-lo assiduamente. São de rejeitar terrenos declivosos e pedregosos. A cultura é excecionalmente produtiva, basta dizer que um só tufo pode gerar, nas condições mais favoráveis, até um milhar de tubérculos. A “sementeira” processa-se em março e a colheita em setembro. Os pequenos tubérculos são colocados a uma profundidade de 2 cm, separados de 6 cm e em filas paralelas distanciadas entre si de cerca de 30 cm, levando, obviamente, algum estrume bem curtido. Aquando da colheita, que é a parte mais trabalhosa, convém lavá-los e secá-los bem para permitir uma conveniente conservação. Se não se conseguir adquirir as sementes no nosso país, é fácil obtê-las em Espanha.
E pronto, fica feito o repto aos amantes da agricultura e até aos grandes agricultores. Quem sabe se a cultura da chufa não será um bom negócio?
Mas para isso, fica também a sugestão aos que prezam uma sã alimentação. Experimentem o leite de chufa e também o café e irão ver como são saborosos e nutritivos. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Livros de África


Escritor, regente agrícola, antropólogo, realizador de televisão, cineasta, artista plástico e poeta, tal é o currículo deste angolano, por opção, nascido em Santarém em 1941. Vivendo a infância e juventude em Moçâmedes (actual Namibe), cedo começou a acompanhar o pai, caçador, pelas areias quentes do deserto do Namibe. Aí se cruzou muitas vezes com os Kuvale, povo de pastores nómadas que ali vivem com o seu gado. Através desses contactos aprendeu a conhecê-los e fez amigos. Essa amizade perdura para além da morte: a sua campa, simples, está situada em pleno deserto do Namibe, sempre cuidada, onde parece não haver vivalma. Mas é apenas um local simbólico: as suas cinzas foram espalhadas pelo deserto, por sua expressa vontade, onde certamente cantam poemas ao sabor do vento.

No seu livro “VOU LÁ VISITAR PASTORES”, publicado em 1999 pelo Círculo de Leitores, debruça-se sobre os usos e costumes dos Kuvale com um olhar que transcende a mera antropologia. Diria eu que é com um olhar de amizade e respeito. “(…) O que me lembro é de durante a noite em que fiquei sozinho, enquanto me interrogava sobre o que fazia ali e sobre o que já tinha escrito e haveria de escrever e dava conta que o “meu livro”, aquele que andava a procurar desde a minha adolescência e decidira por fim escrevê-lo para poder contar-me a mim mesmo o que sempre quisera saber sobre os Kuvale e ninguém mo dizia porque afinal ninguém o sabia, esse livro jamais eu o faria, e nem podia, porque andava a vivê-lo.”

É um olhar livre de preconceitos, humilde, onde o autor sabe muito bem que ali, no deserto, entre os Kuvale, tem tudo a aprender. “(…) Mas ele sabe muito melhor do que eu que é entre a terra, o espaço (território) e a água que tudo se joga na vida dele, comum, quotidiana, verdadeira. Ele fala-me com grande precisão nos capins e nas ramas que a terra dá, e onde as há e em que tempo, e quando é que convém que o gado as coma, do sal que ocorre aqui e só tem mais é muito para lá. (…) E das águas do chão, boas e salobras, tanto para os carneiros como para os bois, mais para os carneiros, a água doce não os cria bem, eles gostam é dessa, assim com sal, que lhes faz nascer as crias e aqui é que aumentam mais.”.

Sabedoria. E depois há ainda que apreciar a bela prosa poética com que o livro é escrito. Mas, para isso, o melhor é lê-lo.

Deixo-vos um poema do Ruy Duarte de Carvalho:






Das águas que o rino* escolhe
da pedra a que o vento encosta
do unto a que o tempo obriga
dos sais que a estação abriga
do pasto a que o gado aspira
da lua em que o vento vira
não há pastor que não saiba.
Não há pastor que não saiba de alguma curva da infância.

(in, Hábito da terra, 1988)

(*) rinoceronte


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 2 de maio de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

TABERNÁCULO COM MENORAH
 


CAROLA JUSTO

Acrílico 50 x 50
 

quarta-feira, 1 de maio de 2013




clicar




Versículos




Alimentação

O homem é um tigre
com uma Costela vegetariana.
O Futuro.


Luís Santos