quinta-feira, 17 de abril de 2014



D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA

3ª Série - (16)

AZULEJARIA

Luís Cruz Guerreiro






Chegada do Rei D. João I a Alhos Vedros
(308 cms. de largura, 112 cms. de altura)


No remoto ano de 1415, quando a peste assolava Lisboa, o rei D. João I refugiou-se em Alhos Vedros, pequena vila da outra margem, onde ainda esse mal não tinha chegado.

Os painéis do "Forcas Bar", em Alhos Vedros, retratam a chegada do rei, o julgamento e o enforcamento de um condenado no terreno onde hoje está situado o Forcas-Bar. Estes painéis foram feitos na AAG, no ano de 1992.

Sempre achei estranho a Igreja Matriz estar voltada de costas para a Vila, depois de recolher diversos depoimentos entre os quais o do Padre Carlos, cheguei à conclusão que esse facto se devia à Igreja estar virada para o rio, que foi assoreando até deixar de existir defronte da Igreja.

Esta reconstituição histórica baseia-se nesta probabilidade.  
                                                                                                                                          (Luís Cruz Guerreiro)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Precisamos de uma reforma dos municípios?


 Manuel Henrique Figueira
Munícipe em Palmela

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados.

Tivemos a «reforma administrativa do poder local… [para] melhorar a gestão do território e a prestação de serviço público aos cidadãos».
Podou o elo mais fraco, 1165 freguesias em 4256. A reforma enunciou belos princípios, fez documentos prévios e leis em catadupa, gastou recursos escassos e energias bastas em discussões estéreis a partir de velhas trincheiras: o essencial ficou, excepto nas pobres freguesias. Não era preciso mudar o mapa anacrónico das freguesias, alheio à realidade do país? Era, mas por vezes o que mudou piorou e o que melhorou é curto para o esforço e recursos gastos: são as reformas (centralizadas) do poder local. Em Palmela há um mau exemplo: a união de Marateca e Poceirão. Nos processos endógenos às pessoas e territórios, sem a «mão invisível» do poder central, pode haver bons exemplos: a racionalização das freguesias em Lisboa (de 53 para 24).

Num país que só fala de reformas, onde se está contra o statu quo, processos burocráticos e centralizados de decisão da vida das pessoas geram anticorpos contra a mudança, vista com indiferença, desdém ou forte oposição.

Precisamos de profunda reforma dos municípios? Os vesgos e os cativos de agendas além lá dos interesses das pessoas dizem que não. A mentalidade conservadora salazarenta da frase «está tudo bem assim e não podia ser de outra forma» resistiu a 40 anos de democracia e empapou muitas mentes, até de quem se diz nos antípodas do político de má memória para tantos de nós.

Olhe-se o anacrónico mapa municipal em tempo de Internet, de informática na administração, de rede viária que cruza concelhos em minutos e o país em horas: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Palmela).

Teve origem nas reformas liberais (Dec. n.º 25, 26/11/1830: juntas de paróquia – em 1916 chamadas freguesias; Dec. n.º 26, 27/11/1830: municípios) mal atribuídas a Mouzinho da Silveira: antecederam-no e continuaram depois dele (1835, 1836, 1878, etc.). Passos Manuel extinguiu 498 concelhos medievais para «criar circunscrições… maiores», evitar a existência de «concelhos pobríssimos», «aumentar os meios financeiros» (Código Administrativo e Dec. de 6/11/1836). Em 1878, na Reforma Rodrigues Sampaio, havia 295 municípios, hoje há 308.

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados. Exemplos do anacronismo: Barreiro tem 36 Km2 e 78 mil hab., Moita 55 km2 e 66 mil hab. quando só a cidade de Setúbal tem 102 mil. Que sentido o Montijo ter dois territórios (56 km2 e 291 km2)? Alcochete e Moita já pertenceram ao Montijo.

Mais exemplos: Marvão tem cerca de 100 habitantes e a freguesia 486, mas há município e freguesia nesse território; o distrito de Santarém tem 21 concelhos (Entroncamento 14 km2, Barquinha 49 km2), 170 freguesias, 6726 km2 e 452 mil hab. (67 hab./km2). No entanto, o de Viana do Castelo tem só 10 concelhos (o menor, Cerveira, 108 km2), 256 freguesias, 2218 km2 e 245 mil hab. (110 hab./km2). A qualidade dos serviços prestados aos munícipes no distrito é pior? Não! Mas a taxa média do IMI (0,328) é das mais baixas do país e Caminha, P. de Coura e P. de Lima devolvem de 2% a 5% de IRS. Acaso?

Ganhando-se escala baixam os custos, sobem os recursos, há melhor serviço às populações. Isso implica limpar a «tralha burocrático-político-administrativa» que atrapalha e sorve recursos… mas alimenta clientelas: freguesias, municípios (sobreposição inútil em tantas vilas), empresas municipais, associações de municípios, comunidades intermunicipais (muitos municípios integram duas), áreas metropolitanas, assembleias distritais, NUTS, etc. Perante a hipótese desta «limpeza», à maioria dos autarcas podemos aplicar a conhecida frase como metáfora: «quando ouço falar de cultura [reforma] puxo logo a pistola».

terça-feira, 15 de abril de 2014


Ideologias incendiárias com Lógicas claras mas fora da Razão

Ao Arroteamento da Paisagem natural segue-se o da Paisagem cultural


António Justo

A selva da consciência humana vai avançando e recuando à medida dos fogos que se ateiam aqui e acolá. Os séculos XIX e XX foram os séculos que mais se aproveitaram da pirotecnia ideológica (fascismo, socialismo e capitalismo) e tudo isto debaixo do céu iluminista duma razão pura e de uma ciência convencida. O início do séc. XXI sofre as consequências até ao desatino porque a camada dos que têm acesso ao saber é incomparavelmente maior; o problema vem porém dum saber adquirido à primeira vista. Um saber que não cria saber fundado mas destinado apenas a fazer opinião passível de ser cultivada nos vasos da varanda democrática. No absolutismo cultivava-se o dogma absoluto, em democracia cultiva-se a opinião relativista para se ter verdades para todos os partidos. Não ponho as mãos no fogo da ideologia porque me chega o adubo das suas cinzas!...


Valores abstractos não comprometem os Governantes

Torna-se interessante observar a cumplicidade e coerência entre economia, sistema de governo e de pensamento no suceder-se das várias épocas históricas. Se na Idade média com a sua suserania económica agrária (reguengos, coutos e coutadas) imperava o rei/suserano como representante de Deus na terra, hoje em democracia e em nome do povo, cada vez impera mais um estado corrupto sem referências éticas e menos ainda religiosas. O secularismo estatal quer falar apenas de valores abstratos, sem pai nem mãe, e assim confirmar o que o bispo Agostinho de Hipona constatava, no seu tempo: um Estado sem um fundamento moral claro não é mais que “uma grande quadrilha assaltante de ladrões”. Por isso o Estado, embora de direito, não quer saber do bem e do mal. Deste modo os poderosos grupos, ideológicos, políticos, económico e dos Média, tornam-se nos formadores duma opinião pública à medida dos seus interesses particulares. Quer-se uma sociedade também sem religião nem modelos; o maior modelo humano da História, Jesus de Nazaré, tornar-se-ia numa provocação.

Na Europa, no tempo das invasões bárbaras a vida era dominada pelo medo real da morte, das pestes e dos assaltos bárbaros. A vida era violenta e o ambiente rude, o que se repercute também na mentalidade desse tempo. A violência, o medo e a necessidade de defesa levou os habitantes a construir castelos nos cimos dos montes e os fiéis a construir igrejas com janelas estreitas para impedirem os assaltos. Neste ambiente fomenta-se uma consciência do direito, impregnada na necessidade de justiça, que se formula numa espiritualidade de direito e se expressa então no Jesus severo e justiceiro adaptado à época.

O fogo do amor abranda todos os fogos sejam eles materiais ou espirituais, porque queima os medos pela raiz.

A necessidade de desenvolvimento e a fome levou ao arroteamento de grandes florestas na Europa. Por todo o lado, a natureza recuou, à medida que a população aumentava. Dá-se uma progressão na cultura e um recuo na natura. No seculo XV a população de Portugal era entre um e dois milhões de habitantes, a França tinha entre 10 e 14 milhões e a Espanha andava pelos cinco milhões.

Ao fogo do dogma religioso sucede-se o fogo do dogma racionalista/secular com o dogma da opinião embutida no relativismo. No processo da evolução os fogos do inferno deram lugar aos fogos das ideologias. Ao arroteamento das paisagens geográficas da Europa segue-se o arroteamento da sua paisagem cultural, com o desbaste do que ela tem mais sagrado. Na luta pelo próprio biótopo vital ou ideológico cada um procura escavar a própria trincheira para daí fazer fogo com uma argumentação lógica mas não racional. A lógica ideológica pega nuns tantos factos históricos tirados da cor local histórica e do contexto, organizando um fio condutor lógico ad hoc e convincente para quem não conhece o resto dos factos. 


O Medo como Instrumento de Governo e de Domínio

A religião procurava relegar a vingança dos fogos do dia-a-dia para o fogo do inferno, adiando o medo para o fim-do mundo. O secularismo hodierno procura relegar a vingança das injustiças do dia-a-dia para um futuro de progresso, adiando o medo de eleição em eleição ou para um futuro melhor. Pirómanos de um lado e de outro: cada qual amarrando o futuro à sua ideologia.

Incendiários por todo o lado, teístas colocando o fogo nos campos dos ateístas e incendiários progressistas colocando o fogo no campo dos conservadores e da religião: todo o mundo a dar continuidade à cultura da guerra e ninguém interessado em integrar.

Na luta contra o medo tudo luta com o medo de morrer sozinho, tudo procura tornar-se proprietário da razão; esta e á a mecha de fogo mortal mais eficaz mas que, num outro ideário, se poderia transformar na mecha da paz.

Numa sociedade cada vez mais distante da vida moral e da lei da causa e do efeito sofre-se de um reducionismo monocausal, procurando explicar as próprias dores da mente com qualquer coisa que lhe engane a fome.

No carrossel das opiniões e das lógicas tudo anda atordoado. A expressão cristã não pode porém reduzir-se a uma herança assim como a sua crítica não pode ser reduzida a uma época ou sistema político. A interculturalidade não seria beneficiada se fundamentada nas culpas sejam elas a nível de medos ou de coerções, sejam elas mesmo, de caracter intelectual subtil.

Tanto a delinquência como a benignidade dum povo são retratadas nos seus costumes, na sua ética e nas suas leis.
Hoje é fácil falar-se com o rei na barriga; para isso basta falar de antanho, falar dos outros, a partir do trono duma própria opinião tendente a justificar a própria insatisfação/frustração.

O filósofo Epicteto dizia “Não há falta de provérbios, os livros estão cheios deles, o que falta são pessoas que os apliquem”! Eu acrescentaria: Não chega um provérbio ou uma citação para conhecer uma pessoa, é preciso ler o livro inteiro e mesmo assim continuarei a não poder perceber os mistérios que a pessoa alberga e que o livro não consegue revelar!

A ideologia do pensar politicamente correcto que nos domina tornou-nos indiferentes.
Entre o texto e o contexto prospera a opinião de um texto descontextuado. O sentido do texto só está no contexto! Por isso há que perguntar o que está por trás de uma opinião e que interesses serve, antes de nos deixarmos levar por lógicas que se revelam contra a razão! Hoje na barafunda das lógicas argumentativas tudo serve para atacar as raízes da nossa civilização.

António da Cunha Duarte Justo


segunda-feira, 14 de abril de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (75)

Baigneuse a Sainte-Adresse, Raoul Dufy, 1930
Óleo sobre Tela, 33x44cm

No Mar, podemos encontrar o imperceptível, tudo o que a nossa imaginação for capaz de criar. Durante anos, passei muitas noites à pesca nas praias, desde o Meco até Sagres, a respirar o ar salsuginoso, revigorando os pulmões e a mente com o sonho de peixes míticos e de sereias verdadeiras.

O invisível acaba, muitas vezes, quando se abrem os olhos...

António Tapadinhas

sábado, 12 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM




Arte suprema

Tenho tido o privilégio de regularmente ser desafiada por pessoas amigas ligadas às artes plásticas, a transcender as minhas antigas aprendidas convicções acerca do que é a arte.

A mais recente teve a ver com a vinda a Portugal do artista japonês Orimoto. Já falaremos dele.
O seu trabalho e de outros, como Vik Muniz, trazem-nos uma atualização das antigas e eternas discussões acerca da arte. Tempos houve, e de algum modo é um conceito de que somos ainda herdeiros, em que se concebia a arte como algo de separado. O artista tinha a sua vida, esta podia influenciar e influenciava o que criava, isso podia ou não ser expresso, e a criação passava a ser um objeto separado de tudo. Comerciável. Refiro-me, essencialmente, às artes plásticas. E havia o público que depois usufruía do objeto, expressando ou não o que via e sentia.

Por seu lado, os místicos sempre afirmaram que a máxima expressão da arte é a própria vida. Viver seria, segundo eles, o expoente da expressão artística e a arte de viver seria incomparavelmente superior a qualquer outra forma criativa e dispensava a criação de outros objetos adicionais. Viver era a própria arte.

Pondo de lado algumas manifestações pseudo-artísticas que pela crueldade se afastam da ética que, segundo o meu sentir não pode estar ausente da estética (não me refiro à moral, que é outra coisa), a arte contemporânea, e concretamente Orimoto, traz uma expressão radical da arte que, sem ser mística, se aproxima muito da conceção mística da vida enquanto arte.

A sua expressão parte da experiência de vida com a mãe, doente de Alzheimer. O escritor francês Christian Bobin, que viveu uma situação semelhante, creio que com o pai, deixou também impressionar a sua escrita pela experiência da perplexidade. Orimoto vai radicalmente muito mais longe. Mais longe, até, do que Vik Muniz, que fizera de uma espécie de “residência” artística e humana num aterro, uma marca de diferença na vida das pessoas que lá viviam, co-criando a partir do lixo, que era o seu trabalho.

Mas Orimoto não precisou de se deslocar a lado nenhum. Para além das suas esculturas vivas e em movimento, com o pão, a sua principal musa inspiradora está ali em casa, vive com ele, é a mãe e tem Alzheimer. O que ele faz é o que faz qualquer filho nestas circunstâncias, está com ela, vivem um quotidiano a dois, dá-lhe afeto, abraça-a e faz-se fotografar com a mãe. Com uma diferença. Introduz símbolos: pneus velhos, velhos bonecos de peluche, assim restituindo dignidade aos objetos que já ninguém valoriza, desse modo resgatando a dignidade da mãe, que pela idade e doença a sociedade pôs de lado. E mostrando tudo isto como arte. A arte é a vida, quando a vida é amor. Um místico não o demonstraria melhor.


Risoleta C. Pinto Pedro

quinta-feira, 10 de abril de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
3ª Série - (15)
FOTOGRAFIA
José Augusto do Nascimento
A pacífica coexistência das espécies e o esmagador equilíbrio
das tonalidades do preto e branco na magnífica paisagem
bucólica deste Alhos Vedros ímpar na diversidade.
                                                                                                        (texto: Dores Nascimento)
* * * * * * *

JOSÉ AUGUSTO DO NASCIMENTO
Nasceu em Alhos Vedros, em 1954.
Em 1982 adquiriu a sua 1ª câmara fotográfica (Zenit).
Seguiu-se a aquisição de literatura, com a qual se familiarizou com os fundamentos da fotografia.
O gosto pela fotografia acompanha-o desde então, sempre aplicado de modo puramente amador.
Foi, no entanto, com a adesão à fotografia digital, em 2005, que se verificou um forte incremento da sua atividade fotográfica.
Ao longo destes anos tem participado em alguns concursos, a nível local, designadamente:
- Na 2ª bienal de fotografia da Moita, com um portfólio de quatro trabalhos admitidos a exposição;
- Nos jogos florais comemorativos do 475º aniversário do Foral de Alhos Vedros, organizados pela CACAV, onde obteve uma “Menção Honrosa” na modalidade de fotografia;
- Em concurso organizado pela Junta de Freguesia da Baixa da Banheira, onde obteve o 1º prémio, ex aequo.
Em 2010 expôs 72 trabalhos em 3 ocasiões e locais diferentes:
 - Na Capela da Misericórdia, em exposição integrada na Feira do Livro de Alhos Vedros;
- No Moinho de Maré, em exposição integrada nas festas de Alhos Vedros;
- No Grupo Recreativo Familiar (GRF), no Bairro Gouveia, em exposição integrada nas comemorações do aniversário da coletividade.
Em 2012 participou com 12 trabalhos numa exposição coletiva no Convento Madredeus da Verderena, Barreiro.
Actualmente está patente uma sua exposição, sobre Alhos Vedros, no Restaurante “Os Arcos” em Alhos Vedros.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS


por Francisco José dos Santos Noronha


«Memória do terramoto de 1531»

«Guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo.»
Bernardo Rodrigues, Anais de Arzila, 1561


EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS

«No início do ano de 1531, Lisboa conheceu uma crise sísmica que culminou no dia 26 de janeiro com um abalo de grande intensidade (provável magnitude 6.5 – 7.0), com origem na zona de falhas sísmicas do Vale Inferior do Tejo. Posteriormente, e ao longo de todo o ano, sucederam-se réplicas e sismos de menor intensidade. A destruição causada terá sido significativa, tanto na capital como nos arredores. Em Lisboa, cerca de 25% dos edifícios terão sofrido estragos significativos e, pelo menos 10% ter-se-ão desmoronado (cerca de 1500 habitações). A cidade contaria com cerca de 100 mil habitantes, dos quais entre 20 mil a 30 mil terão perdido a vida. Há referências a grande devastação em residências e oficinas, em particular na Rua Nova, a principal artéria comercial da cidade, e na rua dos Fornos, bem como edifícios nobres gravemente danificados (Paço da Ribeira, Paço dos Estaus, Convento de São Domingos, Sé, Convento do Carmo, Igreja de São João da Praça, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos).» (NUNES, Maria Paula, PROVIC, PUBLICAÇÃO MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL/N.º 47/FEVEREIRO 2012/ ISSN 1646 – 9542, p. 3)

Receoso pela sua segurança e pela dos seus, o Rei deu ordem para que desocupassem o Real Paço da Ribeira e se trasladassem para Enxobregas. Posteriormente, também por deliberação Régia, foram instalar-se no Paço Real de Santos. Dada a proximidade de Lisboa, o Monarca continuava a não se sentir resguardado da epidemia. Ordenou, então, que a Real Família embarcasse para o Barreiro e Lavradio.

Destas terras da borda-d’água, acompanhado de um séquito de Cavaleiros e homens d’armas, o Soberano encetou a caminhada para Sul e alojou-se no Paço Real de Almeirim. Certo dia de Janeiro, cavalgou até Benavente e aí se alojou. A 26 do dito mês, a terra tremeu enfurecida! «O Paço de Benavente, onde o Rei D. João III se encontrava, não terá resistido aos efeitos do terramoto, forçando o monarca a procurar refúgio, primeiro em Alhos Vedros e, mais tarde, em Azeitão.» (Idem)

Em Alhos Vedros, onde se terá alojado el-Rei?
Mas sabe-se que se achava na Vila, a 27 de Janeiro de 1531, data em que redigiu uma Carta Régia enviada ao Governador Cível, D. Fernando de Castro. (inCatálogo dos manuscriptos da Bibliotheca Eborense”, p. 88)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Setembrista


por Miguel Boieiro


Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.

A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.

Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.

O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.
Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.


A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.
Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.
O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.

Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (74)

Baixa-mar, Autor António Tapadinhas, 2000
Tinta da China sobre papel Kraft, 100x100cm
Esta peça ganhou a menção honrosa no "Prémio de Desenho Américo Marinho", da Câmara Municipal do Barreiro.

Será que uma imagem vale, mesmo, mais do que mil palavras?

domingo, 6 de abril de 2014


                       (13 - 2014)


ARCO-ÍRIS

A Mãe-Natureza é uma grande mestra, assim consigamos apreender as suas lições.
Cada um à sua maneira é claro.
Não se queixa ou lamenta nem se detém com pena de si própria.
Elabora-se e pronto, já está.
E assim, na sua imensa dádiva e generosidade, nos vai brindando com sucessivas lições de renovação, resposta plena aos desafios da vida.
Ela é em si mesma a Renovação e a Vida.
Dela a exortação para que assoemos as almas lacrimejantes em soçobros de carpideiras e que suspendamos as queixas.
Não há razões para queixas.
Queixamo-nos de quê, de quem?
Por aqui cada um cumpre o seu papel.
Se os outros cumprem o deles que cada um se prepare para poder cumprir o seu.
Assumidamente do jeito que a cada um couber e que cada um souber.
Já sem queixa ou pena, antes com a dignidade e persistência que a compreensão traz.
Eu, por mim, vou tentar não me esquecer disto.

Manuel João Croca


Foto: Edgar Cantante

sábado, 5 de abril de 2014

Petúnia espalmada entre verdes e rios





Petúnia espalmada entre verdes e rios
8x13 cm
técnica mista sobre papel
2004

Kity Amaral
(Cristiana Penna de Amaral)

Belo Horizonte / BRASIL

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Livros d'África



José Eduardo Agualusa

Não me é fácil escolher um livro na já vasta obra deste angolano nascido no Huambo em 1960, membro da UEA – União de Escritores Angolanos, por ser um dos meus escritores angolanos preferidos. Por isso pego na sua segunda obra que, tal como a primeira, “A Conjura”, concentra a história no século dezanove, um período que me apaixona. Intitula-se “A FEIRA DOS ASSOMBRADOS” e relata o espanto e medo supersticioso dos habitantes do Dondo quando vários corpos quase decompostos ali chegaram trazidos pelas águas do rio Kwanza, talvez resultado de alguma cheia inesperada e repentina, no dia 31 de Janeiro de 1899.

Naquele tempo o Dondo já não era a terra onde se viam chegarcaravanas, quibucas que vinham de todos os sertões, carregadas de assombros e poeiras.” O Dondo era agora “apenas um sufocante morredouro de velhos, um lugar sem paradeiro no mundo, onde apenas arribam multívagos, quifumbes, homens sem nome, sem rosto e sem destino.”

Mas, com a chegada daqueles infelizes mortos trazidos pela corrente do rio, a pasmaceira da vila agitou-se e, durante algum tempo, houve assunto que se discutisse. Foi precisamente no meio daquele desastre que arribou ao Dondo o sapateiro José Maria Vieira de Carvalho, “mulato quase branco, talvez filho de Luanda ou de Benguela, mas isso nunca se chegou de saber.” O certo é que tinha uma capacidade que logo se tornou notada e requisitada: era vedor. Como disse então o Major Albérico Santoni, boticário da vila, “ele é capaz de ver com o corpo todo”. Também não tardou que o apelidassem de feiticeiro, dado o seu ar “caladiço, murmuribundo, aonde quer que chegasse parecia que a noite chegava também e por isso lhe deram o nome de Cacoco, o mocho, ave de sombras e agouros. Bêbado, transbebido, crescia-lhe a voz em abruptas revelações: dizia que as almas do purgatório estão aprisionadas dentro de esferas de vidro; falava, com fervor, na transmutação dos metais. Vaticinava desgraças e prodígios.”

É um livro soberbo, com uma escrita belíssima e cativante, apesar de pequeno (pouco menos de 80 páginas), mas que aconselho vivamente.

Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 3 de abril de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
3ª Série - (14)
 
AZULEJARIA
 
Luís Cruz Guerreiro
 
 

Painel Santa Casa da Misericórdia de Alhos Vedros
Largura 196 cm x 126 cm de altura
Este painel é uma reconstituição histórica do Largo da Misericórdia de Alhos Vedros no séc. XVIII. Aparecem também no painel D.Leonor, que foi a impulsionadora das Misericórdias em Portugal e no Brasil e o Rei D.Manuel I, que desenvolveu a Saga dos Descobrimentos marítimos. Foi até agora a encomenda da Junta de Freguesia de Alhos Vedros que mais trabalho de pesquisa me deu, mas que também melhor resultou, em minha opinião.
                                                                                 (Luís Cruz Guerreiro)
 
 
 
 

quarta-feira, 2 de abril de 2014


bebe o medronho com os figos e segura os seios fartos

Cascais 1001

a minha mulher linda Solange , a mulher mil mar

Com a tempestade da alma não consegui mergulhar nem nadar
no teu colo da praia da Conceição hoje de manhã antes de ir para
Setúbal, muito chuva o lugar da mulher de mais de mil poemas
poemas ao corpo, à vila de Cascais e ao oceano salgado que me salva os pés
cinco horas da madrugada muito escuro para descobrir a altura
das ondas, mudou a hora que ma mudou a alma, espero dia e noite
pela madrugada de 1 de Agosto mulher muito bonita em Itabira
vamos noivar a Serpa, vamos celebrar a união em Benfica junto
de minha mãe, irmãos, sobrinhos, cunhados(as), neto Guilherme, primos
vamos ainda 1,2,3 retratar a infância como um retrato na casa de
minha mãe redonda em Armação de Pera, fazemos 8 anos de namoro
só a areia nos adormecerá na luta por um futuro juntos

José Gil

terça-feira, 1 de abril de 2014

Editorial


por Diogo Correia


Embalo de Abril


Os campos e as terras húmidas e Abril entrando no mundo pelo tempo, seu mestre amigo.
Uma borboleta pousa dourada as finas patas pelo rasgo de sol numa flor. O orvalho cintilando pérolas em constantes gotículas de água escorrendo ao ritmo primaveril pela folha de uma rosa.
  Naturalmente Abril tem mais sabor quando a primavera trás um pouco de sol consigo ainda que a chuva dê aquela fragância perfumada a terra molhada fazendo cantar os pássaros, incentivando os insetos depois da nuvem passar e dar lugar ao sol.
 
Manhãs ternas de airosos montes, os malmequeres vislumbram o céu pleno em segredo, o beija-flor amanhece com o dia ainda prematuro. “ São tão joviais estas gerbérias” - diz a abelha de namoro assente.
 Abril repara à sua volta as tardes, frescas, simples, românticas de olhos que se espalham nos canteiros. No pico de seu dia as árvores saúdam o vento em danças de cortesia e a lagarta que sobe a árvore pela vida que tem, carrega em paz  a ponta de uma folha que encontrou no chão.
  O crepúsculo lá longe, de onde a primavera apareceu, chegou ao fim. As folhas vão rompendo dos ramos pela noite que as embala até o dia nascer. De vez em quando a coruja do telheiro ruge ouvindo as estrelas que lhe fazem voar de asas largas num abraço á noite.

Mil águas vão de Abril em punho marchando sobre cravos vermelhos, os homens lavam a roupa suja pelos tanques da cidade, o dia que se levanta conhece as lendas que a noite deixou e as aves da manhã pairam no ar colorindo o céu.