Para a
Matilde e a Margarida,
as minhas filhas adoradas.
BOM DIA SRª. PROFESSORA!
Aleluia! Aleluia!
A Matilde entrou para a escola.
Esta manhã, pelas onze horas, lá foi a família rumo à chamada para o dia de apresentação.
Dia especial, é claro, até a irmã mais velha que, por sua vez, começará depois de amanhã, qual veterana, lá acompanhou a Matoldas à sessão inaugural, na qual ficamos a conhecer a Mestra e as normas do estabelecimento cujo edifício, afinal, a mais novinha já conhecia, quer por via das bisbilhotices da Margarida, quer no domínio das actividades do jardim-escola que frequentou até ao início deste Verão.
Como é bom de ver, houve as fotografias da praxe quando o pai retornou a casa para o almoço.
O evento é que esteve um tanto ou quanto desorganizado pelo que não deu para recolher grandes impressões, tanto pela parte da novel aluna, como do ponto de vista dos progenitores.
A recepção conjunta a três turmas do primeiro ano não me pareceu a melhor forma para explicar o que quer que fosse. Demasiada densidade de população é o que dá: barulho que se sobrepõe às mensagens.
E que impressão me causam os pais indisciplinados dando tão negativos exemplos aos filhos.
Mas como se não fosse isso suficiente, a Professora que fez as honras do convento, não só não soube conduzir os acontecimentos, atrapalhando-se e baralhando-se em algumas situações, chegando mesmo a mostrar não saber o que dizer ou fazer, como ainda se revelou incapaz de calar as inconveniências, com isso permitindo uma espécie de caos que, pela predominância, pode muito bem dizer-se que teve fóruns de cidade.
Foi ao ponto de interromper a Professora da Matilde quando esta fazia as suas recomendações quanto ao comportamento.
Talvez por isso o meu pardalito nada tenha adiantado sobre o sucedido e a pessoa que lhe irá ensinar as primeiras letras e a acompanhará neste primeiro ciclo do ensino básico.
Deus acompanhe este meu anjo para que tudo corra bem e ela venha a desempenhar a contento tudo aquilo que lhe seja confiado.
Seja como for, parece que estamos em boas mãos.
Trata-se de uma Professora efectiva nesta escola há vinte e três anos e de acordo com o testemunho de ex-alunos que passaram, no passado Junho, para o ciclo preparatório, é uma docente cumpridora e disciplinada, capaz de transmitir os conhecimentos de modo a que as crianças aprendam.
Com o tempo, tiraremos as conclusões.
Por ora sabemos ainda que se chama Manuela Palma.
E assim cá estou eu, novamente, para mais um diário que tinha data marcada e que será o último deste ciclo de volumes centrados nas vidas das minhas queridas filhas.
Que, diga-se para primeiro dia, toda a família vai bem, com a graça de Deus. Saúde e harmonia quanto baste que o resto é o dia a dia de um lar tranquilo e acolhedor.
São tão doces, os fins das jornadas.
E porque o calor permanece, ainda este último Sábado estivemos a banhos, em Sesimbra que, para o pai, foi dos momentos de descontracção de um fim-de-semana repousante que bem veio a calhar depois de algumas semanas de trabalho intenso.
Pela primeira vez li uma obra de Agostinho da Silva.
“Reflexão”, um ensaio que, a propósito da literatura portuguesa, acaba por ser uma divagação a respeito da nossa cultura e a respectiva singularidade original, a partir da qual, sempre segundo o Autor, podem muito bem encontrar-se os parâmetros de uma filosofia de vida, tendo por base o humanismo cristão, com as consequentes implicações na organização social a partir do comunitarismo rural. (1)
Quanto a isto direi que é uma proposta, como tantas outras. Ao nível filosófico nada tem de novo e no que à prática do quotidiano respeito diz, estamos perante um idealismo que facilmente se aceita e em que se podem encontrar pistas interessantes para um futuro que se pretenda ordenar. Ainda assim não andaremos longe daquilo que podemos apreender em certas perspectivas ecologistas, se bem que muito antes destas, justiça seja feita ao nosso compatriota. (2)
Já sobre a vertente que destaca a natureza missionária da cultura lusíada, aí coloco as minhas mais sérias reservas. Esse é um caminho que facilmente resvala para discursos e visões xenófobas e racistas da História; tirando todas as consequências daquela ideia, chegaremos sempre a patamares em que nos vemos forçados a sustentar o determinismo biológico de que há povos naturalmente melhores que outros.
Do pensador, chamemos-lhe assim, talvez fosse melhor seguir o exemplo prático e debruçarmo-nos sobre aquilo que ele fez ou propôs que se fizesse. Creio que das ideias de Universidades Populares, à confiança nas expressões civilistas, há bons exemplos em que poderemos beber ensinamentos para o presente.
Teoricamente, é provável que, no século vinte, tenha sido o melhor expoente da defesa dos ideais do Quinto Império que o Padre António Vieira anunciara trezentos anos antes, em muitas das suas prédicas. (3) Não me parece é que isto reflicta muito mais do que a pobreza do pensamento filosófico feito por portugueses na modernidade.
Razão tive eu quando grafei uma palestra do Professor, “(…) fazendo-o de forma que as ideias surgissem coerentes e claras, preferencialmente, em concomitância, respeitando o estilo oratório.” (4)
É que o estilo do homem tem um ritmo vincadamente deste último nível, provavelmente, direi eu agora, por influência e em homenagem ao Mestre Vieira.
Avaliando por esta obra que acabei de ler, mais me convenço que, para realizar a grafação da palestra que a CACAV publicou em noventa e seis (5), tomei então a decisão certa.
Portugal é que vai mal
coitado
de tanta operação venal,
amordaçado.
Tenho visto confirmados os meus maiores receios.
O país está dominado por teias de interesses a que nada nem quem quer que seja consegue fazer frente.
Infelizmente, vivemos numa partidocracia oligárquica que é a forma em que se consubstancia o mosaico socio-cultural subjugado por tiranias larvares e sociologicamente dispersas, em que aos mais poderosos assistem as possibilidades de imporem os seus interesses e vontades e aos mais fracos o direito de servirem de base a uma pirâmide de onde excepcionalmente se conseguem erguer, afastados entre si por uma massa disforme dos que pululam para se aguentarem à tona de água e daqueles que, por diversas razões, acabam estatelados no fundo.
Mas estas são lamúrias de que acabarei por falar adiante.
Do abuso sexual de crianças às manigâncias no mundo da bola e das autarquias locais, passando, naturalmente, pelas nebulentas inter-secções entre o poder político e universos suspeitos, muitas são as meadas desta tragédia portuguesa.
No mundo vivemos sob os efeitos da guerra que se iniciou com o massacre da população norte-americana e o bombardeamento do Pentágono, em onze de Setembro de dois mil e um.
Os aliados que se empenharam na resposta ao terrorismo da Al-Qaeda e afins, depois de derrubarem os talibãs no Afeganistão e o regime de Saddam Hussein, no Iraque, agora estão a braços com a necessidade imperiosa de pacificação do Médio Oriente, ao mesmo tempo que terão que cooperar para a reconstrução das terras da antiga Babilónia.
Trabalhos de Hércules que por inimigos têm todos aqueles para quem o mundo livre não passa de um emaranhado de injustiças.
E eu que me senti tão satisfeito com a atitude que a Matilde revelou enquanto decorria a algazarra da apresentação.
Sossegada, atenta e compenetrada, deu-me tanta vontade de abraçar a pardaloca com os bracinhos cruzados sobre a mesa.
Mas eis que os dias vindouros precisam de motes pelo que hoje me despeço.
Até amanhã!
Alhos Vedros
15/09/2003
NOTAS
(1) Silva, Agostinho da, REFLEXÃO, pp 105 e ss
(2) Schumacher, E. F., SMALL IS BEAUTIFULL
(3) Vieira, Padre António, SERMÕES ESCOLHIDOS
(4) Gomes, Luís F. de A., NOTA DE ABERTURA, p. 11
(5) Silva, Agostinho da, NAMORANDO O AMANHÃ
CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
Gomes, Luís F. de A., NOTA DE ABERTURA, in “Namorando O Amanhã, de Agostinho da Silva, CACAV (1ª. Edição), Alhos Vedros, 1996
Schumacher, E. F., SMALL IS BEAUTIFULL, Advertência do Editor, Tradução de Cardigos dos Reis, Publicações Dom Quixote, 1980
Silva, Agostinho da, REFLEXÃO, Prefácio de F. da Cunha Leão, Guimarães Editores (3ª. Edição), Lisboa, 1996; NAMORANDO O AMANHÃ, Nota de Abertura de Luís F. de A. Gomes, CACAV (1ª. Edição), Alhos Vedros, 1996
Vieira, Padre António, SERMÕES ESCOLHIDOS, Selecção, Introdução e Notas de Maria da Graça Morais de Sá, Ulisseia (2ª. Edição), Lisboa, 1984