quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Literatura, o Suicídio e a Cura


por: Risoleta C. Pinto Pedro

A literatura pode ser vista como lenitivo e bálsamo, mas também como  instrumento de compreensão e estudo dos processos psicológicos, nomeadamente os que conduzem ao suicídio e à morte. Ou à redenção e à vida.

O bálsamo encontra-se no refúgio de um livro, no sentimento de segurança que este dá pelo acolhimento, pela alternativa a um mundo que se sente como hostil, pela entrada no universo imaginado e inspirador do poema ou da ficção.

A compreensão dos processos encontra-se na análise do grito de dor dos poetas ou escritores, mais ou menos sincero, mais ou menos fingido, ou ainda sinceramente fingido:
Fernando Pessoa verbaliza-o como ninguém: “Que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.“

O que distingue o suicídio de muitas outras causas de morte é principalmente a urgência e a falta de esperança. O suicida não quer ou sente que não pode esperar. Quer o alívio já. O ser encontra-se tão desesperado, tanto desacredita da vida, que nem por esse final descanso ele espera. É como se tudo tivesse de depender dele, como se qualquer alívio, ainda que sob a forma de morte, tivesse de ser ele a auto proporcionar-se. Não admira que esteja cansado. É demasiada carga sobre um pobre mortal. Só a vida dá bastante que fazer. Ser-se também senhor da morte já é trabalho para deuses.

O suicida vê-se como uma ilha única num mar hostil. A literatura mostra que o sofrimento, o desespero, o sentimento de sem saída é vivido pela humanidade desde sempre. O cansaço é velho como o ser humano, a rebeldia do coração universal, a impotência é humana, a incapacidade para lidar com isso, antiga e partilhada.
O sentimento de vingança do ser humano em relação a si próprio ou em relação ao mundo em si simbolizado, aparece denunciado neste poema do século XV:

“Coração, já repousavas,
já não tinhas sojeição,
já vivias, já folgavas;
Pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida, que já vivias;
sofre, pois te tu perdeste;
sofre, pois não conheceste
como t'outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
sofres, pois te não lembravas
das dores de que escapavas,
sofre, sofre, coração!”

Jorge de Aguiar [Séc. XV-XVI]

É a impaciência em relação a si mesmo, a incapacidade para viver a repetição, para re-sentir aquilo que o fez sofrer, a ausência de qualquer tipo de auto-compaixão, a vingança contra si. Que no limite pode assumir a auto-destruição. Uma forma de se vingar da vida e de todos os que com ele coabitaram o mundo e não o salvaram.
Antes, D. Dinis censurara os trovadores provençais por não levarem o amor a sério e por sobreporem o fingimento à sinceridade dado apenas fazerem versos na Primavera, isto é, inspirados pelo exterior. Contrapõe  com a autêntica dor que habita o seu coração, que antecipadamente responsabiliza pela sua morte. Podemos entender esta morte como a disposição de um amante para ir até às últimas consequências do amor que não recusa, apesar da dor, ou uma morte simbólica, a morte do artificialismo e da superficialidade aqui simbolizada pelos provençais. É esta morte que lhe dará vida, visto que ele é um guerreiro, vencedor sobre os floreados poéticos, sacerdote de um culto sério e arriscado que é o amor. Outro nome para vida.

Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar

[…]
Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven [en] qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.

Já no século XX, 1916, em Paris, o poeta Mário de Sá-Carneiro, posterior suicida,  encena burlescamente a sua morte. Um funeral ridículo, ou uma espécie de vingança de si mesmo. Pos-mortem:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

“A um morto nada se recusa, “ ou a esperança de que a morte traga, finalmente, aquilo de que a vida foi avara: a festa, o amor, a atenção, a satisfação dos mais loucos caprichos. ~

Este poema e o de Jorge de Aguiar (não o de D. Dinis), são expressões de ressentimento em relação a si mesmo ou em relação ao mundo. O ressentimento é o que verdadeiramente mata, é uma corda de enforcado, um veneno, um revólver dentro do ser, uma espécie de canivete suíço auto-suficiente até para a morte. Agindo activa ou passivamente. Rápida ou lentamente.

No poema de Jorge de Aguiar , o poeta recriminava o coração por ser recalcitrante, por não ter aprendido com a dor passada por não deixar de amar.

Ora o coração sabe, melhor do que ninguém, do que precisa. E do que ele precisa, ainda que doa, é de amar. O coração não é um simples cofre ou reservatório de sangue, é um motor de amor.

E aqui entramos na nossa mais remota tradição poética, aquela que igualmente dá a palavra ao homem e à mulher, através das cantigas de amor e de amigo.
Nas de amor: o respeito por um código, como um protocolo, a honra, a palavra.
Nas de amigo a saudade, a espera, a emoção. Assim se completam.

Falo da incontornável tradição cavaleiresca dos séculos XII a XIV, a ordem de cavalaria a que obedeciam os trovadores, aqueles que estão nas fundações dos também designados por Fiéis do Amor.

Como afirma Pedro Martins em O Céu e o Quadrante: “a poesia portuguesa conhece desde a sua génese, uma dimensão iniciática que a vincula à sabedoria.”
António de Macedo refere a mesma ordem dos trovadores, de natureza iniciática e dispondo de linguagem cifrada, que aqueles que não aprofundaram reduzem a mero artifício literário. Ela está cheia de referências ao «Amor cortês», à «Senhora», à «formosa Dama Fulana ou Sicrana».  Mas a realidade não é apenas de ordem sentimental. As «Leis do Amor», rigorosas e bem delineadas, eram verdadeiros graus de Iniciação com, segundo António de Macedo “seus ritos, chaves e limites”:
«O primeiro grau é o de feignaire, hesitante, ou melhor: aspirante; o segundo é o de pregaire, postulante; o terceiro é o de entendeire, auditor; e o quarto é o de drutz, amigo ou iniciado. Este último grau era atingido quando, tendo chegado ao 3º grau, entendeire, o fiel auditor era finalmente brindado com o AMOR DA SENHORA, mediante um beijo que ela lhe dava: o osculum fraternitatis. Depois disto ele tornava-se um drutz, um iniciado, um amigo, um verdadeiro Fiel do Amor, servente incondicional da Domina Lux, Senhora-Luz - e a partir de então ele passava a ter o direito de baptizá-Ia» (Aroux 1854, 461-462).

Ora este é o caminho do um ao três. Pela união com a amada, a criação de algo novo a que se dá um nome novo. A criação do novo que é, simultaneamente, a salvação pelo verbo. A palavra poética.

Sendo o suicídio, no limite, um saudável anseio, pois no fundo o que impulsiona o suicida é a cessação do sofrimento, ou um grito de socorro, logo, algo a que poderíamos chamar o impulso para o bem estar ou a felicidade, o problema não está no propósito, mas no método.

Porque no fundo aquilo por que anseia o suicida é aquilo por que anseia toda a humanidade num universo dividido: o regresso ao Paraíso.

O Paraíso pode ser a infância ou, recuando ainda mais, aquele momento de beatitude da total osmose com a mãe quase Deus da gestação, onde a proteção era praticamente divina, ou, se quiserem, podemos recuar ainda mais, a algo que não sabemos, a tal saudade do que não conhecemos, e que o poeta porta Fernando Pessoa define no poema “Não sei se é sonho se realidade” como:

“Ali, ali,/ a vida é jovem e o amor sorri”

 Mas também ele diz:

“Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.”

Nada nos garante que a morte, e sobretudo a violência auto-imposta da privação da maior das dádivas, traga aquilo a que a alma aspira. Há até, quem acredite que o que acontece é precisamente o oposto, mas não vamos entrar por aí, que não é por isso que aqui estamos.

Ou melhor, como canta o poeta da Mensagem, é preciso “passar além do Bojador” se queremos “passar além da dor”, é preciso percorrer até ao fim o caminho de dor e de dualidade, porque como afirma no poema anteriormente citado:
“é em nós que é tudo”

É a expressão de uma quase omnipotência que não nos separa do mundo, mas mostra o nosso poder interno de destruição. Ou de restauração. Sendo esta construída dentro de nós, mas com o outro, através do poder do amor. Como os poetas iniciados tão bem sabiam, tão bem continuam a saber.

Percebemos assim que a dualidade está em nós e a resolução dela também.
Que o caminho não é o do dilacerado dois recuando para o impossível e inalcançável um, porque do passado histórico, aquele que não volta nunca mais, se é que alguma vez existiu fora da nossa imaginação, mas o da conciliação do aparentemente inconciliável, a ilusória dilaceradora briga, e transformando a luta de Jacb com o anjo no abraço do tango. A transcendência é isto. Não a fuga, mas a dança depois da luta, em que nasce um terceiro elemento a que poderíamos chamar a Esperança, o Espírito Santo, o V Império ou o presente eterno desde sempre em potência dentro de nós. O caminho do 2 ao três, a dualidade que, grávida, cria. Não a que recua.

Ou, como acreditaram os trovadores poetas, os iniciados cavaleiros fiéis do amor, a cura está no amor, morrer por amor é matar em si aquele que quer matar-se e fazer viver aquele que ama como quem diz fiat, ou como quem canta. A palavra poética.
Prossigamos com a poesia:

“Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.”

Miguel Torga (Libertação)

“Sobre os teus versos, só a eternidade.
Pobre é o meu canto.
Sobre os teus versos é que o tempo há-de
erguer as catedrais do nosso espanto.”

António Arnaut

Há nos dois poemas, quer no que serve de epígrafe, quer no poema de António Arnaut, a alusão a dois criadores: “os meus versos” e “o teu canto”, num caso;  “os teus versos” e “o meu canto”, no outro.

No primeiro, o canto ergue-se sobre os versos, no segundo os versos erguem-se sobre o canto. Sobre ambos, a eternidade e as catedrais de espanto.

A eternidade não é a morte, mas a vida. A eternidade é erguida sobre os versos, os “teus”, os versos do poeta, responsáveis pelo espanto de quem os recebe, espanto tornado em catedrais. Assim sendo, a salvação pela poesia: por quem a cria e por quem a recebe. Sendo que quem cria é, também, quem a recebe e aquele que a recebe, ou leitor, é também, de alguma forma um co-criador com o poeta. Como bem se viu no poema com sua epígrafe.

É também deste olhar criador e libertador que fala Pascoaes. E do seu in-verso:
“[…]
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! – E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu...
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.
[…]”

 O Poeta, o alquimista do Amor, esse que não receia beijar a Lua,  não recusou acompanhar a amada, esteve com ela no infernal céu, esse lugar sedutor, mas regressou ao mundo, porque detém a palavra de Amor e poder do beijo que é uma espécie de abraço em forma de sopro, processo iniciático de alta e alva magia que é a palavra poética, transformadora  do ardente incêndio em fresca lua. A Amada não conseguiu, ficou no Céu, um lugar longínquo para onde fogem os que  temem e não vencem o temor da Lua incendiada no Céu. Mas não podemos assegurar que o buscado e mítico Céu não seja, precisamente, esse incêndio. Que se esconde por detrás da Lua.

É verdade que os escritores também se suicidam, e temos alguns casos na nossa literatura, no entanto não é esse seu suicídio que nos move a nós, leitores, mas esse seu outro lugar que é o da palavra, que nunca morre, pois que dá vida a quem lê. O imposto auto-sacrifício é um mistério que não julgamos, apenas analisamos pela compassiva lupa que é a lua ou a palavra poética. Aquela única que os e nos ressuscita dos lugares onde nos matamos. De onde, por ela, nós, trovadores, poetas e leitores iniciados, nos salvamos.

O poema que se segue, de Bocage, faz uma perfeita síntese de como o caminho da dualidade, na sua plena consciência, conduz ao Amor. Que é a Vida. E conclui, por mim, esta comunicação, que melhor fecho não teria.

Amor a Amor Nos Convida
Com dura e branda cadeia,
Com facho activo e suave,
De seus mistérios co'a chave,
Amor entre nós volteia:
Já deprime, já gloreia,
Já dá morte, já dá vida;
E nesta incessante lida,
Que em si traz, que em si contém,
Com o mal, e com o bem,
Amor a amor nos convida. 

Bocage o sábio mestre do paradoxo, onde reúne morte e vida e assim cria, com palavras, o poder que tudo transcende.


P.S.: Texto de conferência da celebração do dia Mundial da Prevenção do Suicídio promovido pelo SOS Voz Amiga, no Fórum Roma, Lisboa, em 10/9/2015.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XIII) Graffitar a Literatura


Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, nº 117, Cascais


«Contento-me com pouco mas desejo muito.»
(Miguel de Cervantes)

Altura é o autor (colectivo) desta porta reconfigurada que o “Muraliza - Festival de Arte Mural, 2015” ofertou aos cascalenses e aos muitos que visitam esta animada vila, cada vez mais turística e menos piscatória. O graffiter presta homenagem à grande obra do castelhano Miguel de Cervantes Saavedra  (1547-1616) Dom Quixote de la Mancha (1605, 1615). Não há quem não conheça esta personagem. Bem menor é o número daqueles que leram este livro monumental (duas partes, 126 capítulos) que marcou o início do romance moderno. Uma nova e excelente edição (de capa dura) com a chancela das Publicações D. Quixote, a celebrar os seus 50 anos, acabou de sair em Portugal; com tradução de Miguel Serras Pereira, que nos faculta um exaustivo “Glossário e Notas”, e três textos introdutórios de Maria Fernanda de Abreu “Nos 400 anos do Quixote”; um total de 933 páginas por apenas 10€ !

O tempo não desgastou esta peculiar figura que Cervantes descreve deste jeito: «rasava os cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. (…) este sobredito fidalgo, nos passos em que estava ocioso – que eram os mais do ano –, era dado a ler livros de cavalaria, com tanto apego e gosto, que esqueceu quase por inteiro o exercício da caça e também a administração de sua fazenda; (…) e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que acabou por perder o juízo.» (pp. 83, 84).

O graffiti mostra-nos Dom Quixote montado no seu Rocinante, tendo, por trás, o moinho de vento alvo das suas alucinações guerreiras. O cavaleiro de la Mancha, que deu sentido ao ditado «quem muito lê, treslê», aparece-nos sem rosto. Altura não quis retratar o “medieval” cavaleiro porque, creio eu, muitos de nós, em algum momento das nossas vidas, acabámos por ter atitudes e comportamentos, classificados de “quixotescos”.

O mito de Dom Quixote tem resistido ao tempo. E alimentado comparações. As adaptações desta obra de Cervantes têm sido muitas, mais ao menos talhadas aos diversos contextos histórico-geográficos. Há uma que recordo com muito gosto. Trata-se da peça encenada por Joaquim Benite (1949-2012), a partir do texto, de 1733, de António José da Silva – A vida do grande Dom Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança. Este trabalho do Grupo de Teatro de Campolide (fundado em 1971) viria a ganhar o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador. O texto de «o Judeu» e a encenação de Benite funcionaram como poderosas “armas” em dois períodos históricos – Inquisição e ditadura de Salazar-Caetano. Duas épocas com muito em comum. Dom Quixote, com a sua desmedida fantasia, e Sancho Pança, com o seu pragmatismo de pés bem assentes na terra, proporcionaram-me uma lufada de liberdade e esperança quando assisti a essa peça, em 1973, no GDP (Grupo Dramático Povoense), uma colectividade da, então operária, Póvoa de Santa Iria. E logo em Abril, do ano seguinte, começava uma nova cena… a democrática.


Luís Souta


terça-feira, 15 de setembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ASSIM DE VÊ A FORÇA DO PC


Sento-me para escrever estas páginas na companhia do programa “Bancada Central”, na TSF que teve início à época em que estava a escrever o primeiro desta série de diários. 
O tema desta noite é, obviamente, o jogo de ontem à noite entre o Futebol Clube do Porto (FCP) e o Real Madrid, a contar para a liga dos campeões. 
Foi uma partida agradável, com alguns bons lances de futebol e que, aqui e ali, teve algumas sequências prolongadas de jogadas rápidas e bem desenhadas que sempre fixam a atenção dos espectadores. Sem encher o olho, não deixou de ser uma disputa interessante de se seguir. 
O três a um favorável aos merengues espelha aquilo que se passou dentro do campo. 
O FCP jogou à FCP, isto é, os seus jogadores deram pancada, lá se atiraram para a relva com todo o afinco e a bola andou saltitante entre os pés de recurso e as cabeças de alívio que, de resto, é ir para a frente que corrida alguém tem. A diferença esteve naquele que não foi convocado. Ainda que o seu substituto tenha sido um tanto ou quanto complacente com as batidas e as rasteiras por trás e outras entradas que já nos acostumaram que os adversários fiquem a sangrar. De qualquer forma, a confiança na impunidade que o grande timoneiro normalmente assegura, esteve muito longe de poder ser posta em prática o que não é de estranhar, pois o homem sabe ler poesia mas, por nacionalismo, pois então, não fala inglês. 
Quanto ao Real, fez um treino normal; a dificuldade que se lhes colocou foi darem a volta a um resultado e tiveram a garra necessária para o fazer e depois a calma suficiente para saberem resistir às pressões de um adversário cheio de vontade mas, lá está, sem o tal ponta avançada que a UEFA não deixa inscrever com o mesmo descaramento com que o fazem os amiguinhos cá do burgo. 
O saldo final é que assim se vê o verdadeiro lugar do FCP entre os grandes da Europa. As pantominices não costumam resistir às provas dos factos. 



Mas os pantomineiros não se escusam de inventar seja o que for. 


E só não vê quem não quer. 
Este governo está de baixo de fogo cerrado e até que se vergue completamente perante o esconso que por ora corre o risco de perder o balandrau ou, o que seria melhor, caia e seja substituído por gente mais dialogante e respeitadora dos direitos cívicos segundo José Maria Pincel, a ver se Portugal anda para a frente que o abismo já espreita, até que algum desses cenários aconteça não haverá zelota que descanse, nem sniper que se desperdice, havendo carta branca para que as munições sejam usadas até ao excesso. 

Agora é a bomba sobre o ministro da educação que terá favorecido a filha de um colega do executivo na sua entrada em medicina. Escusado será dizer que a provarem-se como verdadeiras, ambas as atitudes são igualmente reprováveis e politicamente merecedoras de castigo máximo. Sem embargo, é preciso ter presente que estamos no domínio das fraquezas humanas. Mas o que estamos a ver é o linchamento sem contraditório; sem curarem de apurar a situação sob todos os pontos de vista envolvidos e dando-se a liberdade de dispensarem as indispensáveis provas documentais, inda há pouco estoirou o engenho e a novidade já anda na boca da rádio e, estou certo, amanhã espalhar-se-á pelos jornais do costume. 


O nosso Presidente, por sua vez, lá continua a fazer o que pode. 
Hoje foi a resposta ao congresso do CDS, no qual se defendeu que o nosso país não pode olvidar a aliança atlântica com os Estados Unidos da América. Douta, a mais alta figura afirmou não haver alternativa à Europa. 
Tem toda a razão, até pelo facto de mal se entender as razões para tal atracção transoceânica. E, na verdade, foi com homens assim que os europeus se defenderam das ameaças à paz que se seguiram à segunda guerra mundial. 


Ferro Rodrigues anda por aí, tratando de se inflamar contra o marasmo da sociedade portuguesa de que o governo, logicamente, é o principal responsável. É claro que não lhe causa incómodo nem embaraço a sua qualidade de sucessor de António Guterres na chefia do Partido Socialista e de ex-ministro de várias pastas nos governos do engenheiro cuja grande realização foi o lançamento do euro dois mil e quatro. 


Mas a coisa deve estar preta; Jorge Coelho parece estar de volta ao activo. 



Ena, a aula de hoje já contemplou o uso do livro de Matemática para que os meninos fizessem exercícios e fichas. 



E a chuva parece querer insistir em que nos alegremos por estar em casa. 

Ainda bem que amanhã é sexta-feira. 
Apetece-me ficar descansado a ver as luzes serpentearem nas águas das poças que o vento enruga. Ao som dos folheados com que as árvores se deixam acarinhar pelo vento. 


Alhos Vedros 
  02/10/2003

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (149)

Archeological Reminiscence of Millet's "Angelus", 1933 by Dali

A Coragem da Mente Inquieta

                                           para meu neto, Antonio

Minha mente inquieta e solitária
Finalmente apontou um caminho
Que estava latente
Esperando a hora chegar
Preso no meu inconsciente

Um verdadeiro sacerdócio
De renúncias e doações
Ao bem espiritual
À compreensão do ser humano
À compreensão de mim
À compreensão do outro

Um caminho com o qual me identifico
Com o qual empiricamente
Convivi o tempo todo
Que já estava sem saber
Diante de mim
Que já estava em mim

Espero ter forças
Para poder abraçá-lo
A essa hora da vida
A decisão foi tomada
Que Deus me proteja
A coragem da mudança
E ajude a estar à sua altura
Para enfrentar o que vem
Amém


Walmir Lima

domingo, 13 de setembro de 2015



MIRADOURO 30/2015

(esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico)



PROSSEGUINDO


Entretanto,
tu e eu:
Tu, vida.
Eu, vivente.
Seguimos abraçados.
Sempre.
Foi isso que aprendi,
que tu me ensinaste.

                      Manuel João Croca




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Viagem à Itália



Breve incursão botânica pelo território do antigo Estado Pontifício

por Miguel Boieiro


Tentando observar e aprender … aprender, aprender sempre …, eis que viajámos pelo antigo Estado Papal que se prolongava do Mar Tirreno até ao Mar Adriático. Só em 1870, após muitos mortos e feridos, a Igreja, que possuía uma parcela substancial da península itálica com cerca de 40 mil km2 quadrados, foi finalmente derrotada, ficando apenas com os 0,44 km2 que constitui o atual Vaticano. Tal permitiu o estabelecimento do Estado Italiano como hoje o conhecemos.

O objetivo da viagem foi a participação no Congresso Italiano de Esperanto que, de 22 a 29/8/2015, reuniu em San Benedetto del Tronto 250 pessoas oriundas de 35 países.
Em ocasião mais propícia comentaremos este importante Congresso, já que o presente escrito é dedicado a descrever algo da flora do território visitado.

Digamos ab-initio que o tempo foi escasso para aprofundar esta vertente e que só ao de leve abordaremos o que a vista foi descortinando. Penitenciamo-nos pois, pelos erros e pelas muitas omissões que inevitavelmente surgirão.

Partindo do aeroporto de Fiumicino em direção ao Adriático começámos por divisar pinheiros mansos e ciprestes, árvores que bem caraterizam a flora da região do Lazio que integra a faustosa cidade de Roma. Tanto uns como outros representam para os antigos latinos as árvores da longa vida.

 Prosseguindo depois pelas regiões de Abruzzo e de Marche (atenção: pronuncia-se “marqué”) através de excelentes autoestradas integrando oportunos viadutos e dezenas de túneis, um dos quais com mais de 10 Km de comprimento, desfrutámos das belas paisagens montanhosas dos Apeninos com arvoredo variado mas em que sobressaiam as robinias (Robinia pseudoacacia). Tal levou-nos a melhor compreender porque consideram a falsa-acácia uma espécie invasora. Mas, mais do que isso, o que surpreende é a proliferação infestante dos ailantos (Ailanthus altissima), árvores provenientes da longínqua China, das quais não se retira grande utilidade. Não obstante, vistos de longe e em plena floração, os ailantos conferem notória beleza à paisagem. Também as canas (Arundo donax) alastravam por todo o lado.

Figueiras, vinhas e sobretudo oliveiras medravam nos campos dando-lhe diferentes cambiantes de verde não obstante a secura dos finais de agosto.

Nas cidades, por onde passámos sem parar, eram visíveis carvalhos, tílias, magnólias, plátanos, choupos e outras espécies mediterrânicas. Os loendros (Nerium oleander) vicejavam nas bermas dos caminhos, nas divisórias das autoestradas e em praticamente todos os terrenos em número bem superior ao que vemos em Portugal.

Ao chegarmos às proximidades da costa adriática começaram a surgir com mais frequência os campos cultivados. Ficaram na retina os extensos milheirais e principalmente, nos arredores da cidade da Ancona, imensas plantações de girassol (Helianthus annuus). Nalgumas, a colheita já estava efetuada, restando os campos negros ainda com as canolas eretas, constituindo contraste flagrante com as courelas verdes de outras sementeiras. De vez em quando surgiam bardanas (Arctium lappa ou minus), quer nos campos de girassol, quer mesmo junto às praias.

Para este fitólogo foi assaz relevante a descoberta de alcaparras (Capparis spinosa) nas encostas rochosas de San Benedetto, Ancona, Recanati, Loreto e Castelfidardo, para mencionar apenas as cidades visitadas. A alcaparra, espécie nitidamente mediterrânica, praticamente não vegeta em Portugal porque o leste meridional algarvio é arenoso e não rochoso. Confirmando a natureza alcalina dos solos, encontrámos também muita quantidade de calamintas (Calamintha officinalis), que em grego significa “boa menta”.

Após a visita ao espetacular complexo de grutas de Frasassi e ao respetivo Museu Espeleológico, Paleolítico e Arqueológico descobrimos numa das margens do rio Sentino uma soberba paulónia (Paulownia catalpifolia). Esta árvore, cuja proveniência é igualmente chinesa, proporciona uma apreciada madeira para o fabrico de mobiliário.

Porque esta modesta dissertação pretende ser sobre botânica, não podemos deixar de mencionar o Parque Naturalístico de Lungomare situado a sul da cidade de San Benedetto. Trata-se de um espaço didático englobando 10 jardins temáticos:
1 – Jardim Multissensorial
2 – Jardim Campestre
3 – Jardim das Crianças
4 – Jardim da Saúde
5 – Jardim dos Citrinos
6 – Jardim Mediterrânico
7 – Jardim das Palmeiras
8 – Jardim Árido
9 – Jardim Húmido
10 – Jardim das Rosas

A disposição das várias parcelas em que as espécies se encontram agrupadas permite que os visitantes, em especial as crianças, apreendam e aprendam sobre o inter-relacionamento dos diversos tipos de flora, os quais devem ser preservados e estimados. De notar a presença da Myrta tarantino que, como a designação denuncia, é uma espécie endémica desta região.

Finalmente, sabem os estimados leitores que esta bela cidade de San Benedetto del Trento possui nas suas ruas e jardins para cima de 8 mil palmeiras (Phoenix canariensis) todas muito bem cuidadas, de tal maneira que goza do epíteto de “Riviera das Palmeiras”? O que é deveras espantoso é que se conseguiu travar eficazmente a proliferação da praga do terrível escaravelho vermelho. O tratamento tem de ser antecipado para prevenir a razia. É que depois das árvores estarem infetadas já não há nada a fazer. Vimos pouquíssimas palmeiras-das-canárias destruídas e quase sempre em jardins privados o que demonstra bem o excelente trabalho desenvolvido pelo município local na conservação dos seus espaços verdes. Ficámos com vontade de aprofundar este assunto, dialogando com os responsáveis diretos, mas tal não foi possível por manifesta falta de tempo.

Aproveitámos para adquirir alguns livros sobre plantas medicinais que iremos “mastigar” e “digerir” vagarosamente com o inevitável auxílio do dicionário da língua italiana.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Revelações Repentinas





Criado em1999, 60x78 cm/
pastel sobre papel canson.

Kity Amaral

Me deu essa sensação de sonho ... distante, azul ...
sobre um "futuro mais humano."
Beijos tropicais!



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Empresa do Futuro


um pensamento humanista, uma sociedade (mais) justa, uma porta de saída que se deseja tranquila para o que virá a seguir



A EMPRESA DO FUTURO

 Nome: “COM URGÊNCIA, MAS SEM PRESSAS”

 Estatutos
1. Tendências vegetarianas (pela progressiva eliminação do sacrifício animal).
2. Tendência à não dependência de álcool ou drogas (no sentido de uma valorização da saúde).
3. Valor Supremo - o Amor.
4. Pela paz, pelo respeito mútuo e pela liberdade.
5. Por um desenvolvimento espiritual e material que respeite o “planeta verde”: Uma nova dimensão da vida. O céu na terra, se não existirem impossibilidades estruturais.

 Do Pessoal
 . Evitar subordinados (...)

 Do Horário
1. De início não mais de trinta horas semanais, podendo alguém trabalhar mais se disso tiver vontade.
2. Sessenta dias de férias por ano (com possibilidades crescentes e sem cortes nos feriados...).

(...)

9/10/95
Luís Carlos dos Santos

P.S.: Texto com algumas alterações estéticas, mas não de substância, face ao original.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

CHUVA

Se não fosse atroz, o espectáculo a que estamos a assistir na sociedade portuguesa seria uma vergonha. 

Até o Presidente da República, em cerimónia pública, se presta ao papel de enviar recados e críticas veladas a um juiz e a um tribunal. 
Este é o nível de descaramento a que chegou a farsa daqueles que hipotecaram o país aos interesses de certos poderes mais ou menos identificados e visíveis e que no presente, vendo uma fresta na blindagem das respectivas protecções, se movimentam com todo o vigor das represálias no contra-ataque com que pretendem pôr-se a salvo e, para tanto, não hesitarão em, se preciso for, alterar as regras do jogo a meio da partida. 
Ai que bons foram os dias do consulado de Cunha Rodrigues. Aquilo sim, foram tempos de imparcialidade, tanto se condenavam figurões como um Costa Freire – chegou a ser secretário de estado da saúde, lembram-se? – como se absolviam inocentes como Pedro Caldeira, ou se possibilitava que prescrevessem casos como os do Aquaparque. Nem se colocavam esses problemas das prisões preventivas ou das escutas telefónicas; estava no cárcere quem a ele pertencia e eram escutados aqueles que o mereciam. Que diacho, em poucas palavras, ainda havia respeito por um homem de bem. 
É pois esta justiça que se pede; de outra forma como comentar o silêncio de todos os que entram neste coro que Sua Excelência, o Senhor Presidente, teve a bondade de louvar perante – este sim, estrondosamente escandaloso – o resultado do julgamento dos supostos membros das FP 25 de Abril, suspeitos dos mais variados crimes em que se incluíram vários homicídios, processo esse em que apenas aqueles que se arrependeram foram condenados? 
O bastonário da ordem dos advogados veio logo a terreiro enaltecer a coragem da mais alta figura e voltou à carga com as suas propostas que agora versam sobre colocar a judiciária na dependência do ministério público. É claro que são os mais fracos que terão a ganhar com as alterações que causídico afanosamente propõe. Estão a ver a generosidade. 
E no meio da palhaçada até se fala de garantismo – estamos a falar dos direitos dos arguidos – no que apenas nos conseguiremos interrogar sobre se só agora terá sido descoberto ou necessário. 

Estado de direito em Portugal? 
Evidentemente; o dos poderosos se protegerem e garantirem a impunidade. 


E para mostrar que lá vamos nós no bom caminho, a prioridade que se evidencia é a dos serviços de fronteira no combate ao crime organizado em torno da imigração ilegal. 



Também Pacheco Pereira que tão crítico tem sido com Paulo Portas, nada disse sobre a presença de Humberto Fini no congresso do CDS, onde teve oportunidade para botar discurso, no encerramento, antes do presidente do partido. 
Ora bem, o homem é um democrata convicto. 



É engraçado o entusiasmo com que a Matilde conversa com a irmã e a Beatriz das trivialidades do dia a dia escolar. 

Como eu riu cá dentro do peito ao testemunhar estes momentos. 


Cá para mim ela estaria desejosa que isto acontecesse. A Luísa partilha a minha opinião. 

A sua auto-estima deve ter subido uns furos. 



Pois a nossa missão de pais 
também é atentar nestes sinais 

e saber orientar os ímpetos para que se sedimentem em comportamentos habituais. 

O carinho é o primeiro conselheiro nessa tarefa. 



Em Israel, três colonos foram condenados a penas de prisão de quinze e doze anos pelo crime de terem colocado uma bomba numa escola palestiniana. O tribunal deu como provado o acto e o grau de profissionalismo com que o mesmo foi perpetrado. 

Estamos mesmo a ver uma justiça destas no lado contrário, não estamos? 



Hoje o dia esteve pardacento e húmido. 
De manhã houveram os chuviscos próprios dos restícios da borrasca de ontem. 



A aula foi preenchida com desenhos e o colorir de figuras em fichas que a Professora distribuiu. 



Agora chove a cântaros. 
Hora de nos deixarmos dormir sobre o embalo salpicado das bátegas nas persianas. 


Alhos Vedros 
   01/10/2003

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (148)





Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Sophia de Mello Breyner


AMAR? Em que tempo do Verbo?
Em Memoria de Aylan Kurdi
Pelas ondas do mar Egeu
chega a praia
o corpo do menino.
Fugia ele, com a família,
De uma guerra desumana
Onde a fúria dos homens
lança uma onda de terror
e desatino
Sobre um mundo
que me humilha
Como falar da evolução
Das conquistas da ciência
Da alta tecnologia
Que se lança para o espaço?
Se o homem em erro crasso
Não consegue conquistar
Em seu solo, em sua terra,
Uma forma de amar?
Em guerras ou em disputas
Quanta tristeza se soma
para provar que é melhor?
O mundo se encontra doente
Vive em um estado de coma.
Falar em civilidade
Discutir o que é amor
Se a cada passo encontramos
Pessoas que se dizem santas
A serviço de Deus ou Alá
Fazendo das guerras sujas
Seus instrumentos de dor?
Perdão se firo seu brio
Mas o que é sentir amor?
Triste a foto que vi
Meu peito se encheu de dor
Pois numa praia da Grécia
A prova da falta de amor!
Jaglemos - Copy -

(Selecção de António Tapadinhas)

domingo, 6 de setembro de 2015



Doninha do encanto

  
                                         Amo santo canto
                                         Não se sei se não me espanto
                                         Amor não levantes por mim encanto
                                         Dançando, levanto teus pés entretanto.

                                         Minha promessa, astro pensando
                                         Minha doninha de amor suando
                                         Suando saudades doninha entretanto
                                         Dormindo comigo doninha te amo.

 
                                                   Diogo Correia

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Folhas à Solta*


   A Comédia Latina  (excerto )                                                 por  Agostinho da Silva  


[...]"À medida, porém, que a civilização evolui, sempre no sentido dum maior poderio técnico, a noção de sagrado vai-se atenuando; todos os actos da vida passam a ser civis, desligando-se de qualquer ideia de sobrenatural; o mundo aparece, não como um conjunto de sinais de Deus, que o homem venera, teme ou respeita, e de que participa pelas formas sacramentais, mas um domínio laico, como uma propriedade a seu inteiro dispor e em que ele exerce todos os direitos de usar, gozar e abusar, com que se define a noção clássica de propriedade.


O homem vive, desde então, não para adorar o que vê, como outrora, não para fazer de todos os seus actos uma tentativa de reconquistar o paraíso perdido, mas para se aproveitar do que existe, para dominar, para se afastar cada vez mais da inocência da Idade do Ouro, com o risco de nunca poder reencontrar o caminho; [...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado mais no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material.


A vida tornou-se laica e tornou-se feroz, implacável e, o que é pior ainda, sem sentido nenhum que eleve a vida além da vida. É uma série de momentos em que se produz para se consumir e se consome para se poder produzir de novo. As relações do finito com o infinito, da parte com o todo parecem, em instantes mais críticos, correr o risco de se perder por completo; o acto gracioso da oferta aos seres fraternos e aos seres superiores, a gratuitidade de viver, desaparecem rapidamente de um mundo que se dessacraliza.


Costuma-se dizer que o progresso técnico superou o progresso moral; mas o que há na realidade é que o progresso técnico se fez à custa do fundo moral da Humanidade, do seu fundo divino; e as grandes épocas de crise são exactamente aquelas em que o progresso técnico é o mais elevado possível e a consciência moral uma luz mínima que parece a cada momento ir apagar-se de todo no fragor das tempestades económicas e políticas.


[...] e todo o esforço dos grandes pensadores, dos grandes artistas, dos grandes cientistas, dos grandes chefes religiosos, tem sido exactamente o de impedir que a centelha do sentimento do sagrado se apague de todo neste mundo.


[...] temos hoje à nossa disposição os meios técnicos de dominar a fome e a miséria e de dar ao homem uma liberdade sem limites para exprimir a sua verdadeira natureza; [...] só a fé no homem, nas possibilidades divinas do homem, nos pode levar de novo à Idade do Ouro, tal como a representaram os poetas: tempo de fraternidade e de amor, sem angústia e sem dramas, tempo de contemplação e de absorção em Deus, tempo de acção mental, a mais verdadeira e a mais eficaz de todas as acções."

Agostinho da Silva, A Comédia Latina , in Estudos sobre Cultura Clássica, Âncora Editora, Lisboa, Março de 2002 (publicado pela 1ª vez em 1946, Brasil) 


* Folhas à Solta, Boletim da Associação Agostinho da Silva, nº62, Julho/Agosto 2015


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Terceiro Dia da Libertação


a meu amor Solange

subi as escadas do grande destaque do nosso amor
subi aos seios claros do corpo erguido ao sol e mar
de tudo um pouco salada de pêssegos maduros e
frescos como o teu cabelo nas minhas mãos, skype,
do nosso diálogo longínquo  como um baile  da nossa
vida verde ao amadurecer ,


José  Gil

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

CHOVE-NOS NO FUTURO E NA ALMA

O Setembro despediu-se com um dia de chuva que só deixou aparecer o Sol ao fim da tarde, como se apenas nos quisesse dizer olá, com as mesclas de um azul lavado que abriram após a passagem das nuvens. 


Naturalmente, a primeira trovoada forte provocou um corte na energia eléctrica e as estradas, de Norte a Sul, responderam com os acidentes do costume. 
Num concelho bem ordenado como aquele em que vivo, os esgotos rejubilaram e foi um ver de tampas soltas e repuxos aqui e acolá. 

Pelo menos não temos o que estranhar. 


Infelizmente também os meus pais sofreram com a intempérie. É que desde que um restaurante vizinho fez obras no Verão passado, parece que uma boa parte das águas escorrem para o quintal dos meus progenitores. 
Hoje, entraram-lhes por uma despensa exterior e pela cozinha. 

E o curioso é que ninguém parece ser responsável. 
Tribunal com eles? 

Pois, permanece a sensação de impotência. 



Coisa que não afecta a Matilde enquanto estudante. 

A aula do dia já teve muitos exercícios com grafismos sabiamente entremeados com desenhos. 

A minha filha disse que foi a primeira a oferecer-se para ir fazer exercícios no quadro. 
Foi com toda a naturalidade que descreveu quão bem se saiu. 



A escola portuguesa é que permanece no limbo do delírio. 

No ensino superior contesta-se o valor das propinas. Berram os alunos e indignam-se os Professores. Uns não querem pagar e os outros não querem receber. Mas todos clamam por mais dinheiro e condições. No final, uns querem os canudos e os outros ordenados chorudos. Estamos nas caudas da produtividade e da produção e uso das ciências. 

Não é a reforma do ensino que é necessária, no nosso país. 
Urge que se crie um bom sistema educativo entre nós, com dinheiros públicos, pois claro, estamos a falar de criar excelências e de deixar que, à partida, as condições que os mais pobres encontrem não lhes cerceiem outros destinos que não os da repetição da história. 
Há que forçar as Universidades, os Politécnicos e o Superior, em geral, a produzirem ciência e conhecimento e a formarem pessoas sabedoras e competentes nas áreas respectivas, capazes de se integrarem na economia ou de transmitirem essas informações através do professorado. 
Com isso poder-se-á exigir que os níveis inferiores de ensino habilitem os alunos a poder escolher e aprender uma profissão ou a prosseguirem os estudos se esse for o seu desejo e as capacidades individuais o permitirem. 


Será que há alguém com garra para tanto? 

Quem mais ganha com a ignorância? 
Pois é essa gente que dispararia em peso sobre quem quer que erguesse a espinha com tais intenções.



Em Portugal inventou-se um novo género jornalístico. 
Depois da notícia, da crónica, da reportagem, do artigo de opinião, da mesa redonda, do roteiro disto e daquilo e das promoções, temos uma série de peritos, qual deles o mais zeloso, no sniperismo que manifesta e materializa a liberdade de expressão no reino do homo maniatábilis. Consiste muito simplesmente em falar de; eles lá sabem como. 



Não tenham dúvidas. Há que pôr o Irão em sentido em face dos intentos de levar por diante um programa nuclear. 

Se transigirmos agora, um milímetro que seja, mais tarde choraremos o apocalipse. 



Deus nos perdoe tanta cegueira. 


Alhos Vedros 
  30/09/2003