quarta-feira, 16 de março de 2016

Antero de Quental. Hino à Razão. Soneto.


Pedro Teixeira da Mota

Os Sonetos completos de Antero de Quental, prefaciados por Oliveira Martins, sairam em terceira edição no ano de 1918, no Porto, na Companhia Portuguesa Editora, e tendo há poucas horas adquirido um exemplar na livraria alfarrabista do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim, partilho o exemplar pois não é vulgar nesta edição encadernada em "pano de chita", que não  vem dos místicos e corajosos Shias ou Shitas da Pérsia e do Iraque (sobretudo) mas do sânscrito chitra, tecido de algodão, e que em Portugal foi bastante estampado na zona de Alcobaça, não por acaso a terra natal do pai Trindade, Tarcísio, poeta e sábio bibliófilo, para além de municipe ilustre e filantropo de Alcobaça que, embora já nos mundo subtis, tem no seu filho Bernardo um digno continuador e com os irmãos e primos todos dedicados às artes, antiguidades e livros.
Este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar várias assinaturas, carimbos e ex-libris de posse de antigos usufrutuários que se abeiraram do Logos servido por Antero neste belo cálice, que ostenta agora também, embora a lápis, a pertença desta Hora: "Antero de Quental, escritor." 
Ora o ex-libris,  criado para o último dono Carlos J. Vieira, é bastante simbólico, e nele mencionarei apenas o oceano, a montanha que se ergue para o Sol e, no mais alto, a vieira ou concha das bênçãos divinas para os peregrinos da Verdade, certamente bem apropriado também para um livro de Antero.
Aníbal Antunes Graça terá sido o seu 2º possuidor, o que fez a encadernação que ostenta ainda o seu carimbo, tendo o senão de ter riscado no frontispício o nome do anterior possuidor, que fica assim privado da imortalização internética...
Apresentamos, depois destes pormenores bibliófilos, um soneto, dos mais belos e luminosos, um daqueles em que Antero aspira mais ao alto, à luz da Razão e confia nela, o Hino à Razão.
Posto como sendo o último da série de 1864 a 1874 deveremos destacar e invocar em nós o que Antero conjura ou apura em si: alma livre e a nada submissa senão à Razão, certamente um ideal pelo qual devemos lutar, pois ora pelos instintos, emoções ou pensamentos incorrectos afastamo-nos do que seria o Verdadeiro, o Logos, e utilizamos estas palavras para não usarmos Racional ou Lógico, hoje no séc. XXI bastante mais contextualizadas e diminuídas das suas posições de dominação na psique humana, que é bem mais vista como unificadora dos contrários ou supra racional e supramental. Aliás com isto está intimamente ligado o que entendeu por Razão Antero,  e o que nós hoje poderemos compreender melhor, nomeadamente as formas de sinonimizar e analogizar.
Para tal tarefa de construção já Antero carreou duas  colunas suas irmãs, o Amor e a Justiça.
Esta Razão é então uma com o Amor e a Justiça, é Divina, e é para ela que Antero ergue a voz do coração, ou seja a sua prece, mostrando-nos assim que a oração deve brotar do íntimo do peito, do coração, da nossa essência amorosa, consciencial, espiritual...
O que faz o coração e que o tinge e caracteriza? Deseja, apetece, aspira, ama, sonha, quer?
Antero fez a sua escolha, por rima ou por opção consciente não sabemos.
Intui ou acredita sim que a Razão Universal tudo penetra, qual Logos Divino omnipresente e é mãe dos que robustamente lutam por ela...
Oiçamos então Antero, fortificando-nos na nossa consagração ao Logos, à Verdade, isto é, à palavra, pensamento, sentimento e acto justo, harmonioso e que segundo Antero originam ou fazem que a virtude prevaleça e o heroísmo floresça...

Pano ou chitra que também podia ser do Japão, Sakura, Sakuraicho go ichi e.... e onde cabe ou palpita nossa comunhão com Antero e a  Divindade tanto em nosso coração e prece quão mnipresente e nos robustecendo no florescer em Amor, Justiça e Verdade...

terça-feira, 15 de março de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

UM SIMPÁTICO REGRESSO

Em Israel, o exército, pelo porta-voz do estado maior, vem lembrar que a continuação das operações militares na Cisjordânia pode ter efeitos devastadores para o almejado processo de paz. 

E nós sabemos como o entendimento e a coexistência pacífica entre israelitas e palestinianos são importantes para o futuro da nossa espécie. 

Ali reside a última fronteira da vitória sobre o fanatismo e é de lamentar que os democratas de todo o mundo e do Ocidente, em particular, não sejam capazes de afirmar claramente uma plataforma de apoio a todos aqueles que, no seio daqueles povos, querem ver ali dois países independentes e de preferência prósperos, empenhados na paz e na convivência que são o limiar da cooperação. 
Na verdade, quando apenas reconhecemos o direito de uma das partes, tão só conseguimos reforçar os pontos de vista e as posições das facções mais fundamentalistas uma vez que são essas que propõem as soluções mais desvantajosas para a outra parte. 
E com isso é a situação de guerra que permanece; nem o estado de Israel pode aceitar uma posição de vulnerabilidade, nem as forças terroristas podem ser contidas e suprimidas por meios estritamente militares. 

Do lado de Telaviv são conhecidas as vozes que falam do calar das armas e de concessões tão impensáveis como o regresso às fronteiras de sessenta e sete. 
Infelizmente não há correspondência das autoridades palestinianas e a tirania que exercem sobre o seu povo não permite que a opinião democrática cresça, se afirme e venha a preponderar sobre as forças que fazem da violência e da morte os melhores dos seus argumentos. 

Nestes tempos de horizonte obscurecido, faltam os homens que acreditam serem preferíveis as dores da liberdade à quietude das sociedades tuteladas. 



Livros Escolares da Margarida, I 

“Queremos Ser Livres”, 4º. Ano, sob coordenação do Secretariado Nacional da Educação Cristã; trata-se da décima terceira edição, deste ano e é publicado por aquele secretariado, para a educação moral e religiosa católica do primeiro ciclo do ensino básico. 



Este ano regressou a educação moral e religiosa no conteúdo do tempo escolar normal. Uma hora de quinze em quinze dias não me parece que possa pôr em causa o bom decurso das matérias e parece-me suficiente para transmitir os princípios de uma certa maneira de ver o mundo. 



Mas a Matilde é cá uma raposa. 
Ainda há pouco estávamos os dois na varanda e como eu fui o primeiro a voltar para dentro pedi-lhe que fechasse a porta. Pois não é que ela retorquiu de imediato: 
“-O primeiro a entrar é que fecha a porta.” –E continuou sem se voltar em conformidade com a pose de uma última palavra sobre um qualquer assunto. 



Hoje os alunos continuaram os exercícios em torno da palavra menina e menino se bem que, desta vez, esse fosse, igualmente, o ponto de partida para o Estudo do Meio em que as crianças começaram a caracterizar as respectivas identidades. 



Afinal não vão haver mexidas no domínio das áreas protegidas. 
O ministro do ambiente teve nota positiva quando se mostrou veementemente contra a hipotética mudança. 
Da parte do governo veio o comentário que nada disso esteve em causa. 
Ainda bem que o bom senso prevaleceu. 

Portugal continua a singrar o trilho do paraíso para o mundo do crime. 
Esperemos não vir a ser um destino para férias sexuais na Europa. 


 Alhos Vedros 
   29/10/2003

segunda-feira, 14 de março de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (174)

Painel do Infante, Nuno Gonçalves, 1470 a 1480
Óleo e Têmpera sobre madeira, 207x128 cm


O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?


Fernando Pessoa, in Mensagem


Selecção de António Tapadinhas

sábado, 12 de março de 2016

Dois Poemas de Manuel de Sousa


1.

“Atlantis-Atlante A Qualquer Momento Diário Ocasional…”


Como e durmo em pé e descalço
Sou um palhaço do dia-a-dia no meio de tudo isto
Pisco os olhos lentamente ao relento
Julgo poder daqui ser possível ver São Tomé
Só não sei se acredite nisso ou não
Murcho a caminho para um breve desabrochar
Conto as estrelas sem o uso dos dedos
Espreito por entre folhas caducas palavras alienígenas
Racho o plano essencial ao meio
Recorro as estratégias e estratagemas pouco usuais
Desmancho os prazeres em uma qualquer circunstância
Remôo o que sinto num passe-vite eléctrico
Despacho-me para não ser apanhado com a boca na botija
Artículo uma série de sons e chiados pró-animalescos
Desalinho por completo linhas paralelas
Desconfio de que quem tem paralelepípedos de luz difusa
Fico com a pulga atrás da orelha sobre intenções contraditórias
Deixo que me elevem ao Olimpo para uma audiência com os Deuses
Entrego-lhes a carta das queixas hipocondríacas alheias à vontade
Segredo algo insonoro aos ouvidos de Platão e ele aos meus
Manco fingidamente e frigidamente para poder transpor a guarda
Fecho atrás de mim as portas pesadas duplas do portão de entrada
Agacho-me para deixar passar os eventuais maus espíritos
Tomo todas as precauções possíveis aos maus-olhados
Refugio-me em cada instante que passa
Alio-me a mim e à sombra a prossupostos aliados que observam
Vou indo pelos fundos e pelos cantos e evitando as esquinas
Que não haja ninguém ou alguém capaz de me visionar
Furto-me a uma presença visível neste ocasional momento…

Escrito em Luanda, Angola, a 12 de Marco de 2016, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Homenagem a todos os diferentes Povos que escreveram proactivamente a História da Humanidade, e conflitos à parte ou independentemente de outros aspectos, nos trouxeram até aqui no Tempo e no Pensamento, sejam eles ambos Eternos ou não…

Vêr Lenda do Reino de Atlântida e os Açores em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lenda_do_Reino_de_Atl%C3%A2ntida_e_os_A%C3%A7ores


2.

“Golpeando A Ignorância Orgulhosa Em Duas Metades Da Mesma Face”


Nos chifres animalescos trago pendurado um estendal de roupa do passado
Uso as cores dos arcos-íris para fazer comida para os sete dias da semana
Chupo os chupa-chupas de todos os gostos e sabores e sonho docemente
Sou da liga dos homens livres e corro livremente como um cavalo bravo
Meus dedos são irmãos uns dos outros sem margem para dúvidas algumas
Faço com as próprias mãos uma cerveja e bebo-a como quem nem é de agora ou depois
Serei breve a tecer comentários e um novo tecido para cobrir aquilo que digo
Agarro amiúde oportunidades secas e murchas impostas e demolho-as em ocasiões
Atiro-me por cima de um burro e aterro por cima de um tacho de papas das Pampas

Desperto ao alvorecer de uma certa ideia que merece que se acorde a tempo
Elaboro caretas certamente improváveis e feias nas fases depois de avermelhadas ao Sol
Moldo a cara com partes feitas em barro do antigamente e parte em propileno
Alimento-me de musgo enquanto planto cogumelos numa estufa deveras escura
Sento-me num banco cheio de impaciência e no qual a madeira está humidificada
Farto-me de coçar e de remexer aleatoriamente os neurónios e o cérebro em si
Belisco-me para poder acreditar de facto que estou cá e que vivo em pessoa no corpo
A matéria quase se me derrete só de pensar que sou um ser ultra flexível e fluídico
Venho e estou sempre aqui e numa época móvel do mutável e eterno agora cósmico

Remendo buracos desgastados e agastados pelas intempéries de maus-olhados
Fecho-me em copas no meio de uma qualquer abandonada pirâmide mental
Imagino-me no meio de um casino a jogar jogos de roleta russa e desarmado
Não desanimo nem que chovam potes ou pregos de aço enquanto desfaço o laço
Canto de galo do alto de um poleiro que fica no mais alto ponto do galinheiro
Fervo em muita pouca água e irrita-me que alheios me pisem distraidamente a cauda
Fico completamente paralisado da cintura para baixo e para cima só tenho espasmos
Treino entretanto com a iris dos olhos a olhar no sentido contrário em tom de indiferença
Marco alguns pontos assim e iço a bandeira da anti-ira e cantaroleio só o hino da alegria

Desfiro rudes golpes na profunda ignorância própria e permito que a alma seja meu farol…

A importância da Cultura, do Aprendizado Académico e o Misto de Treino Profissionalizante e Pratico, assim como a permanente Formação em Investigação Cientifica, são deveras importantes na forma como um Povo se Educa e Evolui no processo de absorção de conhecimento útil, especifico, especializado e geral…

Em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 12 de Março de 2016, para todos aqueles e aquelas que seguem a prática da Poesia para se auto-cultivarem e para desenvolverem esse tão interessante exercício de evolução e descoberta intelectual constantes…

sexta-feira, 11 de março de 2016

quinta-feira, 10 de março de 2016

Erva-de-são-roberto


por Miguel Boieiro


Quem fervilha nos meios urbanos, em atividade intensa e desgastante, precisa regularmente de visitar a natureza para a conhecer e desfrutar das suas benesses. Ir ao campo ou à praia, para além de constituir um passeio desintoxicante, se soubermos evitar os arreliadores “engarrafamentos”, é uma ocasião soberana para descansar a mente e apurar os nossos dotes inatos de observação. É também uma boa oportunidade para se receber uma admirável lição de lógica – a lógica da natureza, onde tudo se encadeia harmoniosamente.

Vem isto, a propósito, dos milhares e milhares de citadinos que, durante todo ano, frequentam o extenso areal que vai da Costa da Caparica à Fonte da Telha. Cremos que toda a gente se dá conta do imenso acacial que antecede a duna primária, mas quantos reparam na complexa sociologia vegetal que se desenvolve por debaixo dos arbustos? Quantos conhecem essa utilíssima planta que dá pelo nome de erva-de-são-roberto? E, no entanto, essa planta medicinal medra aí, na semi-penumbra, em doses industriais que quase daria para abastecer o mundo. O facto é de que muitas pessoas usam o “chá”, comprando a erva seca nas ervanárias, mas desconhecem que a respetiva planta vegeta à nossa volta com o seu odor inconfundível e aparência muito própria que não escapa ao bom observador.

Vamos então detalhar o Geranium robertianum L, da família das Geraniáceas, uma das minhas plantinhas preferidas.

Trata-se de uma delicada erva selvagem que pode atingir 40 cm de altura. Possui caules parcialmente avermelhados e algo peludos, e folhas alternas, pentagonais muito recortadas, de pecíolo longo, cuja forma e tamanho fazem lembrar a salsa. As flores possuem tons rosa-violáceos. As sementes formam cinco carpelos com extremidades ponteagudas que lembram o bico de um grou. Por isso, no Brasil, também é conhecida por “bico-de-grou”. Os caules, muito frágeis, são mais avermelhados junto à raiz e possuem intumescências nos nós.

A erva-de-são-roberto tem o seu habitat nos terrenos húmidos e baldios, em lugares sombrios, por todo o país. É muito frequente nas matas, onde alastra em grandes extensões.

A planta deve ser colhida logo que se encontra em flor. Deve-se evitar apanhá-la quando existe humidade, dada à sua textura muito tenra que ocasiona rápida deterioração. Pela mesma razão, a secagem deve fazer-se, com cuidado, ao abrigo do sol e em lugares secos.

Finalmente, para que serve a erva-de-são-roberto? Pois, para um nunca mais acabar de moléstias: doenças intestinais, como colites, prisão do ventre e outras, úlceras de estômago e do aparelho digestivo em geral, dores de dentes, feridas, doenças da pele, anginas, diabetes, edemas, hemorragias, infeções oculares, e nefrites. Há até quem a recomende para o tratamento de doenças cancerosas.

Contém princípios ativos à base de tanino, óleo essencial, substância amarga, ácidos orgânicos e vitamina C.

Principais propriedades: adstringente, anti-espasmódica, diurética, hemostática, tónica, vulnerária, etc.

Utiliza-se tradicionalmente a infusão, bastando 15 gramas por litro de água, dispensando-se a fervura demorada. O reputado Dr. Indiveri Colucci costumava receitar a erva fresca finamente cortada e misturada com gema de ovo, tomando o doente esta mistura em jejum. No caso de não se conseguir a planta em verde, deve seguir-se o mesmo método com a planta seca pulverizada.


Podemos também utilizá-la sob a forma de compressas, lavagens exteriores, bochechos, em pó e em essência.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Poema com Jazz


Tela negra de cromatismos nupciais

O vinho escorria da montanha e a mesa estava posta.
O pintor acariciava a tela diante de uma mulher nua,
E uma gota de suor escorria-lhe na face.

O quadro negro da janela com a noite por trás,
Reclamou o seu silêncio por uma coruja que passava perto
Em direção á montanha, guinchando.
A mesa estava posta com a noite a reclamar o seu silêncio,
E pintor sentia o mundo diante da mulher nua.

O eco com que a noite reclamava o silêncio
No coração do homem que o pintava,
Era o mesmo silêncio que a mulher nua via.

E na janela uma luz que se apaga a anos-luz,
Com tempo de sobra para que o homem
E a natureza sejam eternos,
Com tempo de sobra para que o pintor
E a mulher nua sejam uma e uma só tela.

No tempo em que o pincel da história
Se entretia com pajem e príncipes,
Já a janela era o perfeito quardro dos homens.
E e que o pintor pensava o mundo
Antes de qualquer quadro.

E a mesa posta na mulher que a reclamava
E a mesa posta no homem que a reclamava
E ambos viam a mesma coisa,
Tal como a noite e a janela viam de coruja pendurada ao ventre.

Diogo Correia


Nota Importante: Ao clicar no nome do autor, o poema dá jazz!


terça-feira, 8 de março de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A paternidade começa pelo originar um outro mundo. 
Dada a nossa natureza, significa isso a consciência de prover as condições para que essa outra vida vingue e se faça mundo, o tal outro mundo que é um filho. 
É claro que falamos de responsabilidades e elas são muitas, desde logo, na concomitância do abrigo e do alimento, o acompanhamento. É preciso estar, para ver e ouvir e acarinhar, fazer sentir querido. São obrigações que nada pode suspender. 
A paternidade implica pois que permitamos que um outro mundo se afirme por si e se faça uma pessoa responsável. 

Mas é tão caloroso vermos esse aprender a ser gente… E na verdade tão polvilhado de doçuras. 


“-Ó pai, vem jogar comigo ao stop.” –Pediu o piolhinho que já tem a autonomia de sair sozinha para fazer trabalhos escolares na Vila. 

E lá foi meia hora de risos e concentração, com o pardalito espiando e dando sugestões de respostas à irmã. 
“-Olha a batoteira. Ela não pode fazer aquilo. Não vês? A Margarida está a fazer perguntas à mãe.”


“-E agora vamos lavar os dentinhos.” –Disse o pai quando o jogo acabou. 

E neste momento os anjinhos dormem felizes e tranquilos. 



“-Hoje aprendemos a palavra menino.” –Disse a Matilde enquanto lhe beijava os cabelinhos e ao mesmo tempo que abria a porta do carro. Já sentada concluiu: “-Mas foi fácil.” 

Mal chegou a casa muniu-se de papel e lápis e escreveu a nova palavra dada. 
“-Estás a ver?” –Com o seu rosto de satisfação. 
E em seguida escreveu a palavra menina. 
“-Estás a ver a diferença?” –Perguntou-me, apontando a letra a. 

“-Ena pá! Este pardalito já escreve muito bem.” –Foi o que eu disse com o abraço que lhe dei. 



Infelizmente, o país anda em sentido contrário. 

No mínimo é estranho que se proponha a passagem da tutela das áreas protegidas do ministério do ambiente para o da agricultura. 
Cá para mim é mais uma manifestação da incapacidade deste poder político perante os grupos de interesses poderosos. E a verdade é que o país está verdadeiramente a saque e parece não haver quem lhe valha. 


Reparemos que se começa a fazer passar a ideia de que devem estabelecer-se imunidades face às escutas telefónicas. 
O Partido Socialista que, no seu último consulado, aprovou a legislação que actualmente regula aquelas práticas de investigação, mostra agora vontade de se meter a salvo dos seus efeitos. 
Eles nunca contaram que o engenheiro os abandonasse. 


Mas voltando ao ambiente, não faz muito sentido que áreas sem outra apetência que a de permanecerem deixadas aos ritmos naturais da manutenção da bio-diversidade passem a ser geridas pela eventual complementaridade ao território agrícola. 

Só que a recentemente criada secretaria de estado das florestas está no organograma do ministério da agricultura. Sobre aquela recairia a responsabilidade de gerir essas áreas protegidas. 
Mau, o secretário de estado veio da Portucel e depois dos grandes fogos deste Verão, até há muitas centenas de hectares dentro de Parques Naturais que precisam de ser recuperados daquilo que resultou do repasto das chamas. 

Se estamos todos a pensar no mesmo é de esperar o pior. 
Ele até se chegou a falar em novas espécie de crescimento rápido e de elevado aproveitamento industrial e económico. 


Quando batermos no fundo não se ouvirá estrondo algum. 



O julgamento de Carlos Silvino foi mais uma vez remetido para o dentro de momentos. Hoje tratou-se do pedido de recusa do Juiz por parte da defesa do arguido. 

Temo pelas vítimas, pela sua saúde mental e até pela integridade física. 

Algo me diz que este processo não poderá chegar ao fim. 


E eu não tenho dúvida que uma ditadura mafiosa conseguiria impor o silêncio aos braços do povo que na boca já lá está a mordaça. 



Sophia de Mello Breyner Andersen ganhou o prémio literário Rainha Sofia. 
Foi a primeira vez que um lusitano foi laureado com tão grande distinção. 

Vá lá, sempre há uma rosa banhada de luz no meio do cinzento mais triste. 


 Alhos Vedros 
  28/10/2003

segunda-feira, 7 de março de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (173)

Flamingos no Rosário Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela


Sóbrios, assim voando,
são mais que eu no universo.


Gilberto Domingos

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 6 de março de 2016

Coisas da Escrita


por Francisco Gomes Amorim

É sabido (para os que sabem) que a primeira escrita com caracteres fonéticos terá nascido com os fenícios, e apareceu primeiro em Biblos - uma palavra que nos lembra alguma coisa de escrita! Povo marítimo e comerciante, expandindo-se através do Mare Nostrum, e não só, criando colónias com quem tinha necessidade de se comunicar, os caracteres ideográficos, como os hieróglifos, além de darem um intenso trabalho, conduziam muitas vezes a interpretações errôneas. 

Alfabeto fenício antigo

Os fenícios não usavam vogais, mas entendiam-se bem, e foram os gregos, igualmente povo do mar, que pouco mais tarde, com os mesmos problemas de comunicação dos fenícios, introduziram as vogais, e tornaram a escrita naquilo que é conhecida até hoje, quer o alfabeto seja romano, grego ou cirílico.

Os tipos de letra destes inovadores eram complicados. Os romanos, práticos, organizados, criaram um tipo de letra que, gravada na pedra, podia ser vista a qualquer hora do dia: linhas retas, gravações profundas que permitiam praticamente em todas as horas que uma sombra se projetasse no fundo da letra e a tornasse bem legível e inteligível. A este tipo de letra se chamou, como é óbvio, lapidar, gravada na pedra.

Atribui-se mais tarde aos santos Cirilo e Metódio a criação dum alfabeto próprio para as línguas eslavas, e hoje utilizadas também em alguns países da antiga União Soviética, com a finalidade de transcreverem para esses povos a Bíblia. O alfabeto cirílico.

Ainda no mesmo século IX, Carlos Magno impôs o uso de letras minúsculas, que igualmente foram batizadas de carolinas¸ a que hoje se chamam, em tipografia, letras de caixa baixa.

No século XII surgem as universidades e com elas imensa demanda de pergaminhos, para a necessidade da divulgação, arquivo, consulta e troca do conhecimento. Os godos, face a essa penúria de base onde escrever, criaram uma letra especial, angulosa, estreita, que ocupava menos espaço do que as conhecidas até então, economizando assim os tais pergaminhos, e essa letra, que resiste nalguns lugares – meio exóticos – está-se mesmo a ver que se chama gótica.Letra cheia de maneirismos, difícil de ler, criou também um cursivo, chamado bastardoNo sentido de economizarem os pergaminhos chegaram a criar uma letra tão miúda que só se lia com óculos!

Os humanistas italianos não foram na conversa dos godos. Petrarca dizia que aquele tipo de letra embaraçava e fatigava os olhos como se fora feita para qualquer outra finalidade que não a leitura, e a Renascença procura então um novo tipo de letra.

Com a conquista de Mogúncia, terra de Gutemberg, onde nasceu a tipografia no Ocidente, muitos artistas se espalharam pela Europa. O franco-alemão, da Alsácia, Nicola Jenson, instala-se em Veneza e vai se inspirar no alfabeto romano: letras simples, bem legíveis, retas, estilo puro, o romano. Um dos seus herdeiros, Aldus Manutius, encomendou mais tarde ao seu gravador um tipo mais delicado, inclinado, que começou por se chamar aldine, mas que “herdou” o nome da terra onde nasceu: o itálico.

Francisco I, rei de França, confiou a Claude Garamont uma encomenda real, para edição de textos gregos, os famosos grecs du roi¸ que criou caracteres romanos e itálicos, hoje presentes em todos os computadores: o Garamond.

Em 1692 foi o “humilde” Roi Soleil, Luis XIV, encarregou o abade Jacques Jaugeon de criar um novo tipo, reservado em exclusivo, à impressão real, o romain royal. Este tipo de letra, mais elegante e rebuscada, como seria de esperar, não durou mais de meio século. Apagou-se a meio do reinado de Luis XV!

No século XVIII foram os ingleses que primaram pela elegância. Mas todos se basearam no “velho” romano, dando-lhe um pequeno toque aqui, outro além, o que se pode constatar correndo as várias “fontes” disponíveis nos computadores.

E veio depois a Art Nouveau, a Bauhaus, Peignot, o Bifur, e tantos outros artistas criadores de tipos de letras, que as gráficas, hoje baseadas em computadores, podem alterar e realizar.

E... os chineses? Como eles conseguem escrever num computador? Levou tempo para que chegassem a uma conclusão, mas, determinados e inteligentes, obtiveram o resultado desejado.

Pode parecer um pouco preconceituoso dizer que os chineses têm problema para digitar, mas a verdade é que até hoje eles não possuem um sistema padrão para desenvolver teclados, como o nosso ABNT2. E esse problema é mais antigo que os computadores: ele vêm desde a época das máquinas de escrever.

A maior dificuldade enfrentada pelos chineses atualmente é fazer um teclado que consiga produzir o maior número possível de ideogramas, e que ainda possa usar os caracteres do alfabeto latino, predominantes nas culturas ocidentais e, portanto, na internet. Para resolver o enigma, algumas soluções foram pensadas:
Uma delas, o método Cangjie é apenas o mais famoso dos chamados “Shape-based methods” (Métodos baseados na forma). Existem vários outros, cada um adaptado para uma região, contexto e língua diferente.

Cada tecla recebe um símbolo que é chamado de “radical” ou “raiz”. Existem 24 desses radicais e a partir deles você pode usar outros sub-radicais, formando praticamente todos os ideogramas. Para uni-los há que pressionar dois ou mais botões ao mesmo tempo!


Complicado, né? Eles lá se vão entendendo, mas a escrita ideográfica... começa a cair em desuso. E isso é um bem cultural chinês de valor inestimável, que, como é evidente eles não podem, nem querem perder.

Fontes:
- Robert Druet – La civilisation de l’écriture – 1977
- Internet

29/02/2016

sexta-feira, 4 de março de 2016


CHAMAS

Candelabros acesos
janela aberta à noite: estranhos sentimentos cruzando espaços. Na terra úmida a estrada se desfaz em passos. A chama trêmula se oferece ao vento. O ar se rarefaz consumido pelo fogo. Fechada a janela oferece a paisagem interior.

FLAMES

The lit candle holders
an open window at night: strange feelings crossing spaces. On the moist earth the road crumbles into steps. The trembling flame offers itself to the wind. The air rarefies consumed by the fire. Closed window offers inner landscape.


 (Pedro Du Bois, inédito)
  (Marina Du Bois, versão)


Outros poemas:

quinta-feira, 3 de março de 2016

Estudos Orientais


Do Buda ao Budismo

“Tudo o que percepcionamos é a nossa própria mente;
A natureza da mente é desde sempre livre dos extremos conceptuais.
Reconhecê-lo, e não conceber dualidade sujeito-objecto,
é a prática do bodhisattva.”

            ( Dalai Lama, O Ensinamento do Dalai. Corroios: Ed. Zéfiro, 2007, p.123)


O Budismo nasceu e desenvolveu-se na Índia, dois séculos depois da morte de Buda e, sobretudo, sob o reinado de Ashoka (273-232 a.c.), em reacção contra o bramanismo, a religião tradicional.

No século VII da nossa era o Budismo quase que desaparece na Índia, terminando a sua caminhada paralela com o Bramanismo ou Hinduísmo, ao mesmo tempo que se vai expandindo por toda a Ásia.

Depois de atingir o despertar Siddartha Gautama, o Buda, foi exortado pelos deuses a transmitir aos outros a sua sabedoria. Os seus primeiros interlocutores foram 5 ascetas errantes, samanas da floresta, seus companheiros de vida nos primeiros tempos que se seguiram ao abandono do palácio real e da companhia dos seus familiares e súbditos. Esse célebre primeiro discurso ficou conhecido pelo “Sermão de Benares” e iniciou um dos três grandes ciclos de ensinamentos budistas que se resumem em:

- Hinayana, também designado por Theravada, ou pequeno veículo, conservou os traços do Budismo primitivo, sem grande refinamento especulativo, e chegou sobretudo ao Ceilão, à Birmânia e ao Camboja.

- Mahayana, ou grande veículo, que se estabeleceu no Centro e Norte da Ásia, na China, no Tibete, no Japão, na Coreia. Mais especulativo, mais diversificado em múltiplas escolas, inventor de entidades novas, este segundo ciclo de ensinamentos constitui uma ruptura com o Budismo primitivo e tem o seu auge no séc. II da era comum, com Nagarjuna.

- Vajrayana, ou veículo do diamante, integrou o tantrismo e pratica fielmente os rituais que o caracterizam.

Atente-se que quando falamos em Buda, a palavra mais que uma pessoa designa um estado de consciência. Etimologicamente, a palavra Buda significa:
Bu (realizado) - purificação de todos os obscurecimentos, conceptuais e emocionais;
Da (liberto), - libertação ao nível cognitivo e afectivo, depois de ultrapassados os obscurecimentos. Omnisciência absoluta e relativa, quer dizer, vê a realidade como ela é, a verdadeira natureza das coisas, tal como as limitações das mentes não libertas.


Luís Santos


quarta-feira, 2 de março de 2016

Terceiro Dia da Libertação


a meu amor Solange

subi as escadas do grande destaque do nosso amor
subi aos seios claros do corpo erguido ao sol e mar
de tudo um pouco salada de pêssegos maduros e
frescos como o teu cabelo nas minhas mãos, skype,
do nosso diálogo longínquo  como um baile  da nossa
vida verde ao amadurecer ,


José  Gil

terça-feira, 1 de março de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Em Espanha, o Partido Popular ganhou as eleições para a comunidade de Madrid com maioria absoluta. 

Parece que o eleitorado ainda não perdoou aos socialistas as vigarices que se fizeram sob o seu consulado. 



E agora que se deu a mudança para a hora de Inverno, o regresso a casa faz-se sob a iluminação dos candeeiros públicos. 



Hoje continuaram os exercícios em torno das sílabas que compõem a palavra menina que, uma vez mais, se prolongaram pelo trabalho de casa.
Mas também houveram desenhos alusivos e as respectivas ilustrações e parte da aula foi dedicada à Matemática, com trabalhos em torno das relações entre maior, menor e igual. 



Mas pouco depois do meio-dia tive o telefonema da Margarida para me comunicar que teve tudo certo, “-Vinte valores, pai!”, numa ficha desta última disciplina. 


Ao almoço a conversa foi, como sempre, animada. 
Assim se faz a felicidade de um pai. 



Interessantíssimo artigo sobre o Iraque, de um Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Shlomo Avineri. 
Ali defende a tese do desmantelamento deste país em três estados independentes: o da minoria curda, a Norte; o da maioria xiita em torno de Bassorá e finalmente um país de maioria sunita em Bagdad. 
O argumento é que dificilmente a minoria sunita – que sempre tem exercido o poder de forma violenta desde que o Iraque foi criado, na década de vinte, do século passado – se deixará governar num regime democrático em que os xiitas ganhem o poder nas urnas. 
Atendendo aos exemplos da ex-Jugoslávia e ex-URSS, conclui que por vezes a separação das partes é a melhor garantia para a paz. (1) 

Ora aqui está uma opinião que merece ser ponderada. 



A bonança tem a forma de um céu pintalgado de estrelas. 


 Alhos Vedros 
  27/10/2003 


 NOTA 

(1) Avineri, Shlomo, TRÊS IRAQUES NÃO UM, p. 8 


 CITAÇÃO BILBIOGRÁFICA 

Avineri, Shlomo, TRÊS IRAQUES NÃO UM, In “Público”, nº. 4967, de 27/10/2003