segunda-feira, 17 de março de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (71)

Moisés, Frida Kahlo, 1945
Óleo sobre masonite, 61x75,6


Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?

Frida Kahlo


Quase nunca damos pelas correntes que nos prendem...

até ao dia em que temos necessidade de voar...

António Tapadinhas


domingo, 16 de março de 2014



IDEIAS E MATÉRIAS PRIMAS


E porque a arquitectura só não chega,
mais do que fazer importa saber o para o porque e o como se faz.
Sem suspender a capacidade realizadora no discorrer do pensar,
convém pensar passo a passo abarcando na ideia destinos longínquos.
Assim como a ânsia não se sacia no primeiro degrau da tua porta,
não se começa logo a correr aprende-se primeiro a andar.
É a acção da mão no clicar do dedo que a ideia manda
que permite a entrada da luz que regista a fotografia
na câmara escura do agora em permanente acontecer.

É pela luz que se desenham os caminhos que queremos percorrer.

Se a arquitectura só por si bastasse, para que serviria a filosofia?


                                                                                                        
Manuel João Croca



Foto: Edgar Cantante

sábado, 15 de março de 2014

A Quinta do Esteiro Furado, por Fernanda Gil



A Quinta do Esteiro Furado terá nascido da união entre a Quinta do Martim Afonso e a Quinta do Brechão. Foi propriedade da coroa e gerida por administradores, até à extinção das ordens religiosas em 1834. Depois disso, passou para a posse de diversos proprietários: Rui de Miranda, cavaleiro da casa real de D. Sebastião; Gerarldo Huguens, Flamengo; Manuel de Oliveira de Abreu e Lima, neto do antecessor proprietário e provedor do tabaco de Alfândega da corte; Luís José Pereira; Paulo Nunes; Domingos Garcia; Tomaz Creswel e sua mulher Marta Creswel; Lord Buknall e Carlos Creswel; João Manuel (Chumbeiro). Em 30 de Dezembro de 1972, a Quinta foi comprada por António João da Silva e mantém-se na posse dos herdeiros.

Possuía um palacete; uma capela ou ermida; campos de lavoura; oficinas de manutenção; garagens para carros de bois e carroças, armazéns para produtos hortícolas; estábulos; alambiques; conjunto de casas (antigas casas dos trabalhadores); lagares; um grande depósito de água, que também abastecia os navios ancorados no Tejo; armazéns para guardar ferramentas; um moinho de maré (desaparecido) chamado "Froje" e cinco salinas na dependência directa da Quinta: "Bombaça", "Sarjeda", "Guisada", "Arvéloa" (alvéloa/pássaro) e "Furadinho"; um cais e um esteiro. Com exepção dos campos de lavoura e do esteiro (agora, mais assoreado), tudo o resto desapareceu ou está em ruinas e vandalizado.


A Capela de S. Gerardo foi fundada em 1600 e construida em 1629. Tem uma torre tipo Senhorial, abastardada, com a insígnia da ordem de Santiago. Na fachada da Capela, junto à entrada, ainda existe uma lápide, que na sua frontaria tem a cruz da ordem de Santiago.


O próprio esteiro continha elementos naturais que propiciava grande actividade laboral às gentes da região: apanha de ostras e casca da mesma; apanha de lameginhas; pesca artesanal; apanha de limos e apanha de morrassas. Pelo seu pequeno cais, mesmo junto ao palacete, passou toda a actividade da Quinta, através do escoamento dos produtos, por via marítima, utilizando os barcos do Tejo: botes, varinos, canoas, batéis e outros.
Durante anos a Quinta dos Ingleses deu trabalho a muitas famílias de Sarilhos Pequenos.


Fonte: Marco Lino Fernandes
Música: Rodrigo Leão, "Carpe Diem"



sexta-feira, 14 de março de 2014

SOU EMIGRANTE COM ASAS DE ARRIBAÇÃO


Portugal minha Nau Catrineta no alvorar de uma Terra já sem Ninhos

António Justo

O emigrante continua a ser um estranho de um outro planeta; é estranho onde entra e é estranho quando volta; passa a vida a viver na meia-luz de um sonho que não acorda. De essência enjeitada, seu lar é caminho, de passarinho sem-abrigo, a fazer ninho à borda da vida.

Há motivos para fugir, há razões pra se ir embora, há vontade pra bater a porta, e…, seguir a ânsia do sair do nada. Há sempre um momento e um repente pra fazer da esperança uma vela onde o presente se aquece e alumia, na tentativa, de dar à luz um futuro não humano mas digno. Este futuro, filho do sofrimento, embora gerado na mágoa da saudade, é afagado por mãos parteiras do sonho, mãos singelas e puras, de familiares e amigos que segredam promessas onde ecoa a voz da terra. Esta voz do coração, este zumbido no ouvido, não se cala e mais se sente, a celebrar, em cada emigrante, o desassossego das águas do Cabo na luta por transpor o Bojador, de uma vida, toda mar.

Corri mundo a ver as suas luzes e nelas mais não vi que as sombras do velho Portugal! Agora que vivo, na penumbra de Portugal, onde o cheiro a povo não faz mal, sinto vontade de voltar pra dizer: acorda povo, volta ao arraial, liga tu as luzes e faz a festa…

De volta à terra, nos pátios e caminhos, as crianças já não brincam; neles só sentimentos desfraldam ao vento; meus desejos, com o pó se vão, levados em nuvens de pensamentos; no longe da terra, vejo ainda, bandos de passarinhos negros, voando a mágoa de um caminho errado e de uma terra já sem ninhos.

Dançarino, agora, na linha do horizonte, feito de enganos já sem filhos, tornei-me acrobata da insónia a acenar para a vida de desejos grávidos, a voar ainda no sol das asas, mas já sem terra onde poisar.

Na bagagem da recordação saltitam sonhos meninos de uma vida retalhada a brincar com a vontade. A vontade de ir e vir sem poisar!

Sou povo a voar, nas asas de Portugal, a subir e a descer, as nuvens do sentimento, no Natal e em Agosto. Portugal, dentro e fora, anda a dias, a regar a europa seca com lágrimas atlânticas.

Aquela parte do Portugal povo, não renegado, padece a outra parte que segue as pegadas duma europa rica, mas de futuro aleijado. Meu povo, o nevoeiro vai passar, ainda não é tarde para voltares à fonte e reencontrares o sentido do caminho que é nosso: as sendas de Portugal. Estás grávido de bem e de humanidade; aguenta um pouco as dores, para dares à luz o novo Portugal.
Portugal, és a nau Catrineta que ainda tem tanto que contar! O teu destino tem andado, sem timoneiro, nas mãos de gajeiros iluministas que profanaram a nau para viverem do nevoeiro de fora e do vermelho dos bordéis dos camarotes, sem saudade nem desejo de avistar praias de Portugal.
Em Portugal transborda o mundo. Daí o caracter migrante de um povo não humilde mas modesto, onde germina a esperança que o faz andar, a teimar a vida, dentro e fora, num ânsia de arar Portugal pra gerar fartura, para todos, regada com a chuva fértil do transcendente.

Portugal é a Nau Catrineta que vai arribar numa Terra bendita! Não te esqueças da tua missão; foi ela que te fez; a tua nau é pequena mas, como a gruta de Belém, tem a modéstia do viver e o fogo do amor, a aquecer todos os povos.


António da Cunha Duarte Justo



quinta-feira, 13 de março de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
3ª Série - 11
 
PINTURA
 
António Tapadinhas
 

TOMAR – RIO NABÃO,
Autor António Tapadinhas, 1996
Óleo sobre Tela 90x105cm 
 
Tomar é uma cidade de que eu guardo gratas recordações. Passei lá um período muito importante da minha vida, à sombra do Convento da Ordem de Cristo e do Castelo Templário fundado em 1160 por D. Gualdim Pais, Mestre Provincial da Ordem do Templo. Quando os Templários começaram a ser perseguidos em França por Filipe, o Belo, Portugal recebeu os membros da Ordem, em reconhecimento dos serviços prestados, nomeadamente nas guerras de Reconquista que expulsaram os mouros da Península Ibérica. O Infante Dom Henrique, grão-mestre da Ordem, soube utilizar os recursos e os vastos conhecimentos de que dispunham sobre navegação, para o êxito dos descobrimentos portugueses. O seu poder, diz-se, resultou directamente de documentos e tesouros encontrados na sua sede, situada no Templo de Salomão, em Jerusalém, nomeadamente o Santo Graal, o cálice onde foi recolhido o sangue de Jesus Cristo e que foi usado na última ceia.
Convoco o misticismo desta cidade, do seu rio e dos Cavaleiros do Templo, para desejar a todos os amigos uma semana de paz, saúde, amor e grandes realizações artísticas.
            (António Tapadinhas)
 
António Tapadinhas, artista multifacetado, nascido no Pinhal Novo, em 1942, já foi distinguido com diversos galardões, em áreas tão diferentes como Pintura, Desenho, Artes Gráficas, Literatura, Xadrez, Bilhar… Tem o Título e Diploma de Académico Correspondente da Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências, AMLAC, de São Paulo, Brasil.
Na pintura, as suas obras têm em comum um audacioso cromatismo, vivo e dinâmico, pleno de exuberância, um hino à alegria de viver.

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Tudo Brilha




Carola Justo

Acrílico

50x40

2010


terça-feira, 11 de março de 2014

Alhos Vedros, 500 anos de Foral



Álvaro Velho, o cronista da Viagem  de Vasco da Gama à Índia

por Luís Santos


D. Manuel I, o décimo quarto rei de Portugal, foi entronizado em 1495 e seguiu a política expansionista do seu antecessor. De tal forma que, dois anos depois, no dia 8 de Julho de 1497 Vasco da Gama estava de partida para a Índia, tal como, pouco tempo depois, no dia 9 de Março de 1500, Pedro Álvares Cabral partia para aquela que acabou por ser a Viagem da Descoberta do Brasil.

Entre todo esse imenso Projeto que foi a Expansão Ultramarina Portuguesa, a descoberta dos caminhos marítimos para a Índia e Brasil, constituíram-se como acontecimentos de enormíssima importância à escala planetária. O comércio, a economia, a geografia, os conhecimentos náuticos, o desenvolvimento social e cultural, ganharam um incremento tal que abriram novas infinitas possibilidades ao mundo.

A chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, por exemplo, foi uma das primeiras vezes em que se registaram contactos entre os povos europeus e as populações ameríndias, porque até ao tempo o Atlântico erguia-se como uma barreira intransponível. A magnífica Carta do cronista Pero Vaz de Caminha, onde se dá a notícia ao rei D. Manuel do Achamento da Terra do Brasil, descrevendo esses primeiros contactos com as populações índias, os seus modos de vida, os seus hábitos culturais, constitui um testemunho ímpar da história da humanidade.

Da mesma forma o faz Álvaro Velho, o pressuposto cronista que vai com a frota de Vasco da Gama à Índia e que narra pormenorizadamente todos os acontecimentos que foram acontecendo aos nautas pelo caminho, os fenómenos naturais, as terras, os povos, os costumes. Uma Viagem de ida e volta que demoraria dois anos, pois que a saída do Restelo, Lisboa, deu-se a 8 de Julho de 1497 e a chegada a 10 de Julho de 1499. O aportamento na Índia, em Calecute, aconteceu no dia 8 de Maio de 1498, o que significa dizer que foram precisos mais de dez meses de viagem por mar, tamanho era o tempo necessário para o precioso intercâmbio comercial com o oriente. Se compararmos este facto com a facilidade de mobilidade que temos atualmente, não podemos deixar de pensar nas múltiplas formas como as coisas mudaram nestes últimos 500 anos.

Posto isto, contextualizado que está o assunto, iremos reter agora a nossa atenção entre esse marco fundamental da história de Portugal, a Viagem de Vasco da Gama à Índia, e as suas importantes relações com a história local.

Dizer desde logo que, Álvaro Velho o autor do diário de bordo “Roteiro da Índia”, pois que assim se chama o texto que nos é legado, era natural do Barreiro, na altura um lugar que pertencia ao Concelho de Alhos Vedros. Como é sabido, o Barreiro é um dos filhos de primeira geração do Concelho de Alhos Vedros, do qual viria a autonomizar-se em 1521 através de Carta de Foral atribuída pelo rei D. Manuel I. Muito se poderá dizer sobre as longas e profícuas relações entre estes dois lugares no curso da história do país, dada a sua intemporal relação de vizinhança, mas a isso voltaremos mais tarde.

Sobre Álvaro Velho, ao que sabemos, não existem muitas informações sobre a sua vida. Sabe-se que viveu entre os séculos XV e XVI, um marinheiro, cronista, que foi com Vasco da Gama à Índia e que na viagem de regresso “deve ter desembarcado na Guiné, onde terá ficado por qualquer razão imprevista. Na verdade o Roteiro termina bruscamente no dia em que atingem os Baixos do Rio Grande, e posteriormente há notícias dum Álvaro Velho na costa da Serra Leoa, onde parece ter estado durante oito anos. Escreveu, além deste Roteiro, uma Descrição da costa ao sul do rio da Gâmbia, uma Relação dos Reinos ao sul de Calecut e um Vocabulário malaio. O Roteiro foi publicado pela primeira vez em 1838, tendo sido seguidamente traduzido para francês, inglês e alemão.” (*)

Para terminar, e por curiosidade, diremos que no Campeonato Europeu de Futebol que se realizou em Portugal em 2004, a bola do jogo foi batizada com o nome de “Roteiro”, justamente em homenagem à crónica escrita por Álvaro Velho mais de 500 anos antes.

                                                            *            *           *

Deixamos aqui algumas das preciosas descrições de Álvaro Velho nesse seu Roteiro(**) sobre alguns dos episódios cruciais da Viagem de Vasco da Gama:

- 8 de Julho (1947), partida do Restelo, “nosso caminho, que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço. Amém.” (p.19)

- 15 de Julho, ao largo das Ilhas Canárias “onde fizemos pescaria obra de duas horas, e logo esta noite, em anoitecendo, éramos através do Rio do Oiro (atual Saara Ocidental).” (p.19)

- 4 de Novembro, baía de Santa Helena (porto natural na costa atlântica da África do Sul). “Nesta terra há homens baços, que não comem senão lobos-marinhos e baleias, e carne de gazelas, e raízes de ervas; e andam cobertos com peles e trazem umas bainhas em suas naturas.” (p.21)

-9 de Dezembro, Cabo da Boa Esperança (“o mítico Adamastor”, passagem do oceano Atlântico para o Índico).”…a derradeira terra que Bartolomeu Dias descobriu ” (p.28)

- 11 de Janeiro (1948), “…houvemos visto um rio pequeno e aqui pousámos ao longo da costa (…) Esta terra, segundo nos pareceu, é muito povoada e há nela muitos senhores; e as mulheres nos parecem que eram mais que os homens, porque onde vinham 20 homens, vinham 40 mulheres. E as casa desta terra são de palha; e as armas desta gente são arcos muito grandes, e flechas e azagaias de ferro. E há nesta terra, segundo nos pareceu, muito cobre, o qual trazem nas pernas e pelos braços e pelos cabelos retorcidos (…) há nesta terra estanho, que eles trazem numas guarnições de punhais; e as bainhas são de marfim (…) Esta gente é negra, e são homens de bons corpos; andam nus, somente trazem uns panos de algodão pequenos com que cobrem suas vergonhas…” (pp. 29-31)

- 2 de Março, “Mais nos disseram que Preste João estava dali perto; e que tinha muitas cidades ao longo do mar, e que os moradores delas eram grandes mercadores e tinham grandes naus. Mas o Preste João estava muito dentro pelo sertão, e que não podiam lá ir senão em camelos; os quais mouros traziam aqui dois cristãos índios cativos (…) Em este lugar e ilha, a que chamam Moçambique (…) E depois que souberam que nós éramos cristãos, ordenaram de nos tomarem e matarem à traição…” (pp.34 e 36)

- 8 de Abril, “Ao Domingo de Ramos mandou o rei de Mombaça (Quénia) ao capitão-mor um carneiro, e muitas laranjas e cidrões, e canas-de-açúcar, e mandou-lhe um anel por seguro (…) E o capitão-mor lhe mandou um ramal de corais, e mandou-lhe dizer ao outro dia iria para dentro. E, em este dia mesmo, ficaram no navio do capitão quatro mouros dos mais honrados (…) E, depois de tudo isto, o rei mandou amostras de cravo, e pimenta, e gengibre, e de trigo tremês ao capitão, e que isto poderíamos carregar.” (pp.42 e 43)

- 18 de Maio, Calecute (Índia), “Esta cidade de Calecut é de cristãos, os quais são homens baços. E andam deles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas; e trazem em a moleira uns topetes, por sinal que são cristãos; e nas barbas bigodes. E trazem as orelhas furadas, e nos buracos delas muito oiro. E andam nus da cinta para cima, e para baixo trazem uns panos de algodão muito delgados; e estes que assim andam vestidos são os mais honrados, que os outros trajam-se como podem. As mulheres desta terra, em geral, são feias e de pequenos corpos. E trazem ao pescoço muitas jóias de oiro, e pelos braços muitas manilhas, e nos dedos dos pés trazem anéis com pedras ricas.” (p.51)

- 5 de Outubro, (Viagem de regresso a Portugal) “Andámos tanto tempo em esta travessia, que três meses menos três dias gastámos nela; isto com muitas calmarias e ventos contrários, que em ela achámos, de maneira que nos adoeceu toda a gente das gengivas, que lhes cresciam sobre os dentes em tal maneira que não podiam comer; e isso mesmo lhes inchava as pernas, e grandes outros inchaços pelo corpo, de guisa que lavravam um homem tanto que morria sem ter outra nenhuma doença. Da qual nos morreram em o dito tempo 30 homens, afora outros tantos que já eram mortos; e os que navegavam, em cada nau, seriam 7 ou 8 homens, e estes não eram ainda sãos como haviam de ser. Do que vos afirmo que se nos mais durara aquele tempo quinze dias, andarmos por esse mar través, que não houvera quem navegara os navios…” (p.81)

- 25 de Abril (1499), “…E os pilotos diziam que éramos nos baixos do Rio Grande (Guiné)” (p.85), frase com que subitamente termina o Roteiro, ficando por descrever por razões já apontadas o resto da Viagem entre a Guiné e Portugal, embora como se percebe o mais importante já estivesse dito.

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(*) FONSECA, Branquinho, As Grandes Viagens Portuguesas, Manuscrito Editores, Sintra, 1984, p.18


(**) VELHO, Álvaro, Roteiro da Viagem Que Em Descobrimento da Índia Pelo Cabo da Boa Esperança Fez Dom Vasco da Gama, in obra citada.


segunda-feira, 10 de março de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (70)

Nu Deitado no Coxim Branco, Amedeo Modigliani, 1917
Óleo sobre Tela, 60x92cm
SOLUÇÃO

Quando temos um assunto que nos preocupa, tudo o que se passa em nosso redor nos faz recordá-lo... Torna-se angustiante!

Vou ensinar-vos um truque, que comigo resulta muitas vezes: criar uma pasta de arquivo com o título:
"Assuntos urgentes, que o tempo resolve"...
Nove em cada dez vezes, não é preciso fazer nada, porque o problema fica solucionado por si próprio.

Após múltiplas análises, se continuamos a pensar que um assunto não tem solução, não devemos ficar stressados de imediato, porque depois de uma noite bem dormida, é provável acordar com a solução que procurávamos.


Se o problema é dormir na mesma cama, aí fica mais difícil...

António Tapadinhas

domingo, 9 de março de 2014



A PROPÓSITO DE UMA HOMENAGEM


 
TEJO, UM RIO PARA VIVER
 
Corre, da nascente até à foz, corre.
Um rio, o rio, nós.
 
Neste nosso exercício do viver, talvez valha a pena olharmos o rio que nos é vizinho como exemplo. Quando nasce é apenas ténue fio de água mas já tem um propósito, desaguar. No seu percurso recebe muitos afluentes que o engrossam e dão caudal. Arrasta sedimentos vários, atravessa fronteiras, irriga campos, dá luz, alinda paisagens, umas vezes acelera, outras apenas desliza como um bocejo mas, nunca pára e vai sempre crescendo.
E é esse aumento de caudal que permite as inúmeras navegações.
Uma das várias navegações que se podem praticar é percorrer os trilhos onde o rio estanca o seu deambular insaciado no abraço à terra, sua eterna e insubmissa namorada. E ela acolhe-o enfeitada por salgadeiras, cardos (que picam mas também dão flor) e outras plantas que ali fizeram a sua casa e colonizam as zonas húmidas. Namoram ao som do regurgitar dos bivalves quando as marés baixam, e dos gritos e chamamentos das aves do mar que folclorizam o ambiente. A elegância sumptuosa dos flamingos desliza sobre o cinzento lodoso e o seu colorido conta-nos que há outros mundos neste mundo que sentimos mais nosso apenas por nos ser mais próximo. O brilho do Sol, o vento no cabelo, o cheiro da maresia, os barcos típicos sobre as águas que com arte bolinam os esteiros, domesticados pelo saber dos últimos intérpretes da faina, ou por navegantes ocasionais que no ócio exercitam e cumprem o fado ou desígnio da alma lusa marinheira.
 Este braço do rio pára aqui. Um pouco porque esmorece na correria, outro tanto porque as muralhas que mãos humanas construíram lhe cortam o fôlego para prosseguir. O rio é o Tejo. É um rio muito grande mas gostamos particularmente deste seu braço que aqui vem descansar. Talvez porque, como dizia Paracelso, “quanto maior o conhecimento inerente numa coisa, tanto maior o Amor”. E nós aprendemos a amar este rio na medida exacta em que lhe fomos percebendo os pormenores. E ele tem muitos. Tantos que, de certeza, ainda há muito por descobrir. E, então, é muito giro porque, ao mesmo tempo que já é um depositário de memórias, continua a ser um apelo de descobertas com o travo de aventura que as descobertas sempre acalentam. E, assim, vamos crescendo com o rio e as navegações que ele possibilita porque, navegar é preciso.
 
                                                                                                               Manuel João Croca
 
 
 
 


sábado, 8 de março de 2014

SER MULHER


Hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher.
Na minha obra dedico diversos trabalhos aos predicados de SER MULHER.
Em gesto de homenagem e admiração consagro-Lhes hoje este poema
que poderão ver e ouvir neste link abaixo:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Ser_Mulher/index.htm


Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Visite este meu espaço poético e deixe o seu comentário
www.euclidescavaco.com

sexta-feira, 7 de março de 2014

Livros d'África




PEPETELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) 


Este sociólogo angolano, nascido em Benguela em 1941, é um dos nomes mais destacados das letras angolanas. Em 1997 foi-lhe atribuído o Prémio Camões e em 2002, no Brasil, foi condecorado com a Ordem do Rio Branco. Recentemente foi distinguido com o Prémio Rosalía de Castro, organizado pelo Pen Clube da Galiza.

Militante activo do MPLA desde 1963, combateu na guerrilha nas matas de Cabinda cuja experiência vem relatada naquele que é o seu livro mais traduzido: “Mayombe”. Foi vice-ministro da Educação de Angola durante o governo de Agostinho Neto. Actualmente é docente de Sociologia na Faculdade de Arquitectura de Luanda.

Uma das suas obras mais interessantes, na minha opinião, intitula-se “A GLORIOSA FAMÍLIA” publicada pelo Círculo de Leitores em 1999. É uma história passada em Luanda no tempo em que esta estava ocupada pelos holandeses e os portugueses viviam refugiados em Massangano. Ali, segundo Cadornega, “assistia hum homem por nome Baltazar van Dum, Flamengo de Nação, mas de animo Portuguez que havia ido nos primeiros Arrayaes”, oportunista mercador de tudo um pouco e também de escravos. É através do olhar, pragmático e com sentido de humor, de um dos seus escravos, mudo, que acompanhamos as vicissitudes do tal Van Dum que, querendo agradar a holandeses e a portugueses, via perigar frequentemente os seus negócios e a sua vida.

“(Fevereiro de 1642) – O meu dono, Baltazar Van Dum, só sentiu os calções mijados cá fora, depois de ter sido despedido pelo director Nieulant. Mijado mas aliviado, com a cabeça de raros cabelos brancos ainda em cima dos ombros. O meu dono saiu do gabinete do director tão pálido como entrou, mas com o risinho de lado que lhe fazia tremer o bigode. Por vezes o risinho era de nervosismo, hoje era de euforia. Os dois escravos que com ele entraram no antigo Colégio dos Jesuítas já não saíram. Quem perdia era o proprietário deles, português de Massangano, que os tinha enviado com a célebre carta. O meu dono não teve tempo de ler a carta, como terá defendido junto do director. Mas ele e eu e toda a gente sabíamos o conteúdo, um pedido para indicar todas as posições defensivas dos inimigos holandeses e os efectivos de cada ponto.”

Este é o primeiro parágrafo do livro. A partir daqui a sua leitura torna-se irresistível.


Nota: os descendentes deste Baltazar Van Dum são hoje uma das famílias mais conhecidas em Angola: os Van Dúnem.


Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 6 de março de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
3ª Série - 10
 
ESCULTURA
 
Francisco Moura


CONSTRUÇÃO, DES-CONSTRUÇÃO
Ferro Forjado



Francisco Moura nasceu no Barreiro (em 1958) mas veio viver com os pais para Alhos Vedros com apenas alguns dias de vida.
Fez aqui a instrução primária até à 3ª classe e depois foi viver para o Barreiro.
Estudou até ao 12º ano (Humanidades).
Fez o Curso de Pintura e o 3º Ano Complementar de Atelier na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Tem ainda o Curso de Estética e Teoria de Arte Moderna.
Para além da Escultura também regista uma vasta actividade na Pintura (utilizando várias técnicas e linguagens) e no Desenho.
Actualmente é operário no Arsenal do Alfeite.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Poemas que nos chegam...
 
(de DORES NASCIMENTO)
 
*
VIDA
Talvez não seja este o mais promissor dos caminhos para a minha existência
Ou talvez seja
Mas se escolher percorrê-lo
E a felicidade não me abandonar
Ainda assim, como saberei que é o melhor
Se não percorri outro.
E se insatisfeita me sentir
Como saberei se ainda mais adversos seriam outros caminhos.
Becos , encruzilhadas subidas e descidas
Portas degraus abismos e  abrigos
Passo a passo num percurso sem retorno nem emenda.
Dores Nascimento
Nov 2012
**
TONTA ( ou a mendicidade nas terras pequenas)
 
Não sabemos onde para
Não há notícia ou mensagem
Morta não está com certeza
Que má nova não se atrasa
 
Talvez se tenha perdido
sem memória ou sem destreza
com mazela na coluna
ou fratura na cabeça
 
a ela chamam-lhe tonta
pede acolá, rouba ali
andrajosa como poucas,
mas de tonta pouco vi
 
tem os haveres num barraco
lá prá quinta do império
Ali é a grande atriz
De um cenário muito sério
Lá vai enganando a vida
E se aperta o desespero
Sorripia uma galinha
Mas vai pedir o tempero
 
Anda às vezes pela vila
Com sacos cheios de nada
Se teve mãe algum dia
Talvez tenha sido amada
 Pariu três ou quatro filhos
Com ela não ficou um
Muitos homens a tiveram
Ela não teve nenhum
 Não sabemos onde pára
Não há notícia ou mensagem
Morta não está com certeza
Que má nova não se atrasa.
 
Dores Nascimento
2005
 
***
 
LIVRES PENSADORES
 
Em que becos te ocultas, liberdade
Ou serão subterrâneos teus esconderijos
Exércitos de tentáculos vão no teu encalce
Violando os interstícios das coisas táteis
Mas não as mentes nem os pensamentos
Esses serão invioláveis se o quisermos
Em vão carrascos e mordaças urdiram o seu fim ou degeneração
Em vão
E vão tentando
em vão
O pensamento não tem fim nem princípio ou dimensão
Ê o horizonte que cada um de nós quiser, constantemente novo e renovando-se
Em cada momento  a produzir a brotar
Sejamos seus guardiões 
há que pensar em pensar.
 
Dores Nascimento 
 Dezembro 2013

 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (69)

Auto-retrato com cão negro, Gustave Courbet, 1842
Óleo sobre Tela, 46x56cm

O MEU CÃO

Noutro dia, estava deitado no jardim a conversar com o meu cão, tentando explicar-lhe as razões que me levam a invejar as pessoas que são capazes de falar de coisas complicadas que não controlam, com a mesma segurança e certeza com que, noutros tempos, se pensava que a Terra era o centro do Universo e o Sol girava à volta dela.
- E não gira? - Ladrou-me, interrogativo e, simultaneamente, irónico.
Não lhe respondi, claro. Ele, bem o conheço, estava a brincar.
- Com o passar dos anos - continuei - raramente tenho certezas e cada vez mais me engano. Sou capaz, por exemplo, de escolher um programa de televisão, sem qualquer problema, porque não é uma escolha grave: a qualquer momento posso desligar!
Abanou a cabeça a concordar e, simultaneamente, a sacudir as moscas.
- Já não me sinto tão tranquilo quando vou votar: se me engano, só posso mudar de canal passados quatro ou cinco anos!
A sua boca abriu-se de espanto e, simultaneamente, bocejou.
Prossegui no meu raciocínio.
- É o mesmo grupo que quer controlar o que devemos ver, ouvir, apalpar, comer, cheirar, na internet, televisão, cinema, cartazes, revistas, jornais, no rádio ou discos, nas relações sociais ou sexuais, nas peixarias, talhos, praças, restaurantes, nos locais escolhidos para incinerar resíduos tóxicos (desculpa o pleonasmo), como se fôssemos descendentes directos dos primatas, mas que, ao mesmo tempo, nos consideram arautos de um mundo novo, com o mais risonho dos futuros, só porque tivémos a maturidade (dizem) de votar neles. Será que esta gente, não tem medo do ridículo?
A sua pata direita, fez-me sinal para travar o discurso e, simultaneamente, aproveitou para coçar a orelha. Ladrou-me:
- Vou contar-te uma calenda (lenda de cães) da minha família, cuja pergunta final é a resposta à tua dúvida.
E ladrou-me a história enquanto eu, simultaneamente, lhe sacudia as moscas.
- “ O avô do bisavô, da filha da minha bisavó, era um cão muito feroz. Toda a gente fugia dele com medo. Um dia, os homens fartos de tanto sofrer, foram queixar-se ao Deus-Cão.
Depois de os ouvir, Ele proibiu o avô do bisavô, da filha da minha bisavó, de morder nas pessoas.
A partir desse dia, todos se vingaram do mal que ele lhes tinha feito: os mais velhos batiam-lhe, os mais novos atiravam-lhe pedras, davam-lhe pontapés.
O meu antepassado, não suportou aquela desgraçada vida de homem e foi queixar-se ao seu Deus, achando que era injusta aquela sentença e exagerado tão grande castigo.
Depois de o ouvir atentamente, o Deus-Cão, perguntou-lhe, com um sorriso bondoso:
- Eu proibi-te de morderes. Acaso proibi que ladrasses? ”
Quando me preparava para lhe perguntar qual a moralidade da cábula (fábula de cães), ele desatou a correr atrás dum gato e, simultaneamente, eu acordei.
Ainda hoje não sei se há moral…


António Tapadinhas

domingo, 2 de março de 2014

 ( 08 - 2014)


MATRIZ


Como diz e canta o Abrunhosa,
todos somos já memória e raiz
no algo que trazemos seja verso ou prosa,
na energia que anima, agita e nos diz
que a vida é uma viagem curiosa
feita ao ritmo e rigor das estações
desde manhãs claras a obscuros serões
em íntima calma ou corrida ansiosa.

Em todo o que somos está o que fomos
caminhos que andámos sonhos que tivemos
o que construímos o que abandonámos
o que dissemos e até o que calámos.

No balanço que fazemos uma voz se ergue e diz:

Na vida não há só abraços há também desencontros
as escolhas que fizermos dirá o que seremos
no que investirmos e com afã concretizarmos
será a verdade ou a mentira daquilo que cantámos.


O importante na vida é cumprir-se, ser feliz.

                                                                                                               
                                                                                                  Manuel João Croca



O meu Pai e os seus oito netos

sábado, 1 de março de 2014

            Editorial

                         por Manuel João Croca



Neste Outono e Inverno tem chovido muito.
Os campos estão alagados. A água corre desenvolta por valas, estradas, bermas dos passeios, algerozes e beirais.
O frio também tem sido presença frequente.
A natureza acaçapa-se para melhor se defender do tempo agreste, nós recolhemo-nos porque a alma convida e o corpo pede.
Se na natureza o tempo se manifesta agreste, também no social o desconforto se instalou e, pelo que se assiste, veio para ficar. Desconforto que resulta de um empobrecimento generalizado da população. O desemprego é uma calamidade, os jovens lutam desesperadamente por oportunidades que não surgem, a emigração dispara. A soberania e independência do país estão a hipotecadas a interesses que não os nossos nem avalizámos. A corrupção e o clientelismo campeiam. A ofensiva do grande capital financeiro está a obter grandes sucessos. Assiste-se a uma perca generalizada de direitos e regalias sociais, no trabalho e na justiça, na educação e na saúde num retrocesso civilizacional sem precedentes e, ao que parece, para prosseguir durante muitos mais anos.
A natureza não se pensa mas elabora-se e, debalde todas as agressões de que é vítima, sempre acaba por se cumprir. Os campos rebentarão em erva fresca e em flores de todos os tons e aromas, as árvores hão-de carregar-se de folhas novas, preparando a floração que parirá frutos e novas colheitas. A natureza rejubila no exercício de servir, no propósito da dádiva. Aproxima-se a Primavera e com ela a renovação.
No social será desejável que, pensando-nos, consigamos encontrar as melhores formas para, igualmente, nos renovarmos. Encontrar novos rumos que nos possam conduzir no sentido de uma maior felicidade. E se a busca pode cansar, a perspectiva desse aconchego deve motivar. Nesse sentido, é importante recuperarmos o tempo dos verbos.
Resistir. Sonhar. Conceber. Realizar.
Nessa busca talvez valha a pena olharmos o rio que nos é vizinho como exemplo. Quando nasce é apenas ténue fio de água mas já tem um propósito, desaguar. No seu percurso recebe muitos afluentes que o engrossam e dão caudal. Arrasta sedimentos vários, atravessa fronteiras, irriga campos, dá luz, alinda paisagens, umas vezes acelera outras apenas desliza como um bocejo mas, nunca pára e vai sempre crescendo.
E é esse aumento de caudal que permite as inúmeras navegações.
Compete-nos a nós, pôr nele os barcos onde queremos navegar, construir a frota a que queremos pertencer. Vamos todos trabalhar nisso. Há vários barcos que já têm nome. Um chama-se Trabalho, outro Educação, mais um que é Saúde, outro ainda que é Justiça. Depois há ainda outro, de maior porte, que é o Liberdade e aqui ao lado estão-me a dizer que a frota se deverá chamar Democracia.
Posto isto, apraz-me registar que há muito entusiasmo pela navegação, sinto-o.
*
Uma última nota:
No próximo dia 21 de Março celebra-se o início da Primavera e comemora-se o Dia Mundial da Árvore e da Floresta e o Dia Mundial da Poesia. Nesse sentido e em face do abate de várias árvores no núcleo urbano de Alhos Vedros, seria perfeitamente justificado e justo plantar algumas árvores. Até estava a pensar, que seria giro e oloroso plantar algumas laranjeiras no jardim do coreto. Como estamos em ano de comemorações dos 500 anos do Foral poderiam ser baptizadas como “Árvores do Foral”…