terça-feira, 30 de novembro de 2021

A propósito do 28º aniversário da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros

 

por Luís Santos


Caro vereador da CMM António Carlos Pereira

Caro Presidente da Junta de Freguesia de Alhos Vedros Artur Varandas

Cara Coordenadora da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros Rosa Ribeiro

Todos os presentes.


Agradecer, antes de mais, o convite para participar nas comemorações do 28º aniversário da Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, neste dia 28, um número que certamente se relaciona com a unidade, a amizade e o reencontro.

Estamos aqui para dar os Parabéns à Biblioteca de Alhos Vedros que se integra, como sabemos, na rede pública de bibliotecas do Concelho da Moita, um serviço que se enaltece, porque é de uma nossa casa comum que se trata. Um espaço de todos, que visa servir a todos, criado para nosso usufruto coletivo. E, sendo nós, ao longo dos anos, frequentadores assíduos desta rede pública de bibliotecas, sobretudo, desta em que aqui nos encontramos, devemos agradecer os significativos momentos que, amiúde, por aqui fomos passando, fosse para ler o jornal, para trabalhar, ou para aproveitar das inúmeras iniciativas culturais que por aqui foram acontecendo. Memórias de bons tempos passados que, reconhecidamente, foram ajudando ao nosso desenvolvimento pessoal e social.

Lembrar dos inúmeros concertos de música, das tertúlias poéticas, dos lançamentos de livros, das noites de lua cheia, das exposições, das leituras de livros para grupos de crianças vindas dos infantários e escolas locais, do belíssimo empenho da Anabela, do Jacinto e da Élia, só para lembrar, entre muitos outros, os que aqui têm trabalhado nos últimos anos.

Alguns desses momentos em que fomos também protagonistas diretos, fosse para ler uma história para crianças, para lançar um livro, fazer uma comunicação sobre história local, integrar tertúlias poéticas, ou até para um momento de participação em criativo encontro de literatura erótica, lendo um poema do sadino Bocage, no mesmo dia em que fomos presenteados com um extraordinário concerto dado pela banda “Penicos de Prata”.

Quando pensamos na nossa Biblioteca, e nas pessoas e associações que com ela mais se relacionam, logo nos vem à memória, a Academia, o CACAV, a Alius Vetus e, respetivamente, algumas das suas dinâmicas mais marcantes, como sejam a Feira do Livro, a Escola Aberta Agostinho da Silva, a Feira Medieval, entre outras múltiplas iniciativas. Todas elas, associações que de alguma forma se têm relacionado com a publicação literária, ou científica, em comunhão com a animação do livro e da leitura.

E aqui chegados, à reconhecida importância que o livro e a palavra escrita têm no desenvolvimento humano, nunca será demais recordar que temos uma Feira do Livro que é das mais antigas do país, com 48 edições realizadas, desde 1972, e que só a nefasta e preocupante pandemia que atravessamos conseguiu interromper a sua contínua realização, ao longo de todos estes anos.

Entre todas estas dinâmicas associativas, e não esquecendo que a palavra escrita se relaciona com as mais variadas áreas da cultura e das artes, seja na música, no teatro, na dança, e por aí fora, não deixaremos de salientar da existência, entre nós, de um movimento de significativa dimensão que vai editando e publicando livros, revistas, jornais, pasquins. E se nos centrarmos exclusivamente na nossa vila, onde se reconhecem existir algumas particularidades culturais, logo se pensa num número anormal de gente que se dedica à arte da escrita para uma terra relativamente pequena.

E da mesma forma que se refere a existência de vários escritores, podemos dar conta de múltiplas dinâmicas literárias que se foram desenvolvendo entre nós, algumas delas em que tivemos participação direta como foram, entre outras:

i) o grupo “Do Convento”, onde se fazia “uma escrita em grupo, com cada um em seu sítio, à mesma hora” que, depois, desaguava em animadas tertúlias de café;

ii) ou, “O Largo da Graça”, uma linha editorial alternativa numa iniciativa de amigos, dada a dificuldade de se chegar às grandes editoras nacionais e a dinâmicas mais comerciais, até pelas crescentes dificuldades de publicação na área do livro, mas também pelos frágeis apoios aos autores locais. Esta linha editorial “O Largo da Graça” é, de resto, o pequeno exemplo de um alargado movimento de “edições de autor” que por cá existe e pontua;

iii) ou, por fim, falar do blogue/revista “Estudo Geral”, uma revista digital, multimédia, que tem sido feita por alguns de nós, já com mais de 10 anos, editada a partir de Alhos Vedros, mas que se foi disseminando por uma vasta internacional comunidade lusófona.

O “Estudo Geral”, uma revista que explora as novas possibilidades das linguagens digitais, onde facilmente se mistura o texto, a imagem e a música, e que tem também insistido na divulgação de livros e autores locais, a que os apoios da autarquia, até agora, pouco têm chegado. Por isso, acreditamos na necessidade de novos desenvolvimentos nas políticas ligadas ao livro, que mais apoiem a edição e os autores da região, nomeadamente, a partir da criação de uma linha editorial pública, de um destaque próprio nas bibliotecas locais, e no apoio ao lançamento e à aquisição dos seus livros, o que será uma forma de ajudar e dar relevo à valiosa riqueza literária que caracteriza a nossa comunidade.

Obrigado pela atenção.

28.11.2021

sábado, 27 de novembro de 2021

Biblioteca Municipal de Alhos Vedros



Domingo, 28 de novembro, 15,30h

No dia em que se assinala o seu 28° Aniversário, a Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, com os contributos da Junta de Freguesia de Alhos Vedros, convida associações de referência, autores locais e a população em geral para todos juntos, potenciando novas sinergias, assinalarmos a efeméride.

Assim, reconhecendo algumas dinâmicas literárias, mas não só, que ao longo dos anos, se têm desenvolvido na comunidade, convidamos Dores Nascimento, Luís Santos, Vítor Cabral e os Jograis do CACAV para, em jeito de roda coletiva e com a possível intervenção de todos os presentes, disso darem testemunho e animarem a nossa festa que contará com momento musical animado por Rui Pais.

 

domingo, 21 de novembro de 2021

ONDA DE LETRAS

 


"Quando me tiveres apagado, morto /ou só feito da matéria da memória, /dança uma dança por nada/e debruça em arco o teu corpo sobre o poço da morte/sobre o corpo dividido e espalhado pela última praia".

Manuel Gusmão

 

“ARTE” (Sem Medo) ÉS TU “

 “arte sem medo / arte para ser / arte verdadeira / movimento-amor.”

(Jorge Vicente)

 

A Isabel Pinheiro

A atores e atrizes favoritas

A Maria Simas a favorita das favoritas

Giulia Alessandra Atzori, a internacional e global como

Raissa Segantini

 

O mar revolto o corpo revoltado em ondas, o mar tem tantos

Rios como os dedos dos pés nos lábios

estou sob a Ponte 25 de Abril regresso de Setúbal Praias do Sado

Todos os dias ao fim da tarde, um rio largo e lindo

Prata azul para encantar os olhos até Cascais,

das janelas da Porta vê-se os olhos

Sonhadores o mais íntimo e coletivo que todos temos , à direita

a Tapada da Ajuda

Para continuar esta beleza arte sem medo,

arte para ser, arte ambiental, verdadeira

Movimento amor entre as ancas, para preparar

a ida amanhã de madrugada a Cascais

O cafezinho da Estação de S. João do Estoril

para acordar nos teus seios no correio em

Frente onde te envio as prendas de amor .

A dimensão infinita da tua excitação nos meus

Lábios, estou a aprender a correr na hidromassagem

para te apanhar nos momentos

Vulneráveis, tristes, temos que ser fortes todos

em versos de massinhas douradas

é no vazio que escrevo a tatuagem dos deuses com os lábios

voam as pernas na rua feliz de Stª Catarina em Lisboa, chegarei a Cascais, o Arco Íris sobre o mar e as rochas, não chove há uma semana

os carros lentos atravessam os jardins, quem faz as acácias florir

é o mundo amor entre os dedos como o leite de moça no peito de cerejas

da rocha da Praia da Conceição, avançaremos para dentro de

água 15º graus ninguém nos vê - é a bruma intensa da madrugada

depois vestimos os véus pretos em todo o corpo para abençoar oceano, viajaremos lindos

bebo demoradamente o cálice do namoro

um mamilo claro rosa

sem mexer o corpo, manhã cedo

depois do café leve e do duche

o hotel do Estoril já está barato

e tem vista para o oceano

aqui fico para escrever o livro

amor profundo, há que acertar

as palavras com os lábios e podemos

beber um no outro depois do mel

até ao mel amor, penetrar, a luz

as estrelas da canção e mais

ninguém saber a clementina doce

como um fado, Cascais,

tem fado e do melhor naquelas ruelas

onde nos beijamos noite adentro

podemos mergulhar de manhã e sonhar

amo-te os dedos

voamos como as grandes ondas

no oceano atlântico ou o mar mediterrânico

 

10:49h

12-11-2021

José Gil

sábado, 13 de novembro de 2021

Literatura: o pão nosso de cada dia (I)

 Luís Souta


«– A literatura é uma doença universal…

o sarampo das crianças e o reumático dos velhos…»

Uma Fábula (o Advogado e o Poeta), Teixeira de Pascoaes


I

O LIVRO E A ESCOLA

As sociedades letradas colocaram o livro como um bem único, central no combate ao esquecimento e na aquisição do saber. O livro é a memória. «O que não se escrever não consta» (Eduarda Dionísio in A Voz da Escrita de LS, p. 314), esvai-se, é como se não tivesse acontecido ou, como diz Italo Calvino, «todas as ‘realidades’ e ‘fantasias’ só podem tomar forma através da escrita» (1990:119). Ou ainda como Jack Goody (1986) demonstrou, a escrita acaba como elemento estruturador da organização social. Esta visão, chegaria ao limite quando Mallarmé, citado por Calvino (id.:166), afirma que «tudo no mundo, existe para acabar num livro». E como bem nos recorda Irene Vallejo (2019:38) «todo o livro é um passaporte sem data de caducidade.»

Quadro, em 3D, de Luana Costa (2021)

É evidente que os livros não são todos iguais, na importância que a sociedade lhes atribui. E que tal hierarquia se altera no curso histórico e no seio das diversas instituições. Numas – as igrejas – aprendia-se a ler para ter acesso aos livros sagrados. Noutras – as escolas – erigiu-se o livro como elemento primordial da sua acção. Era o ‘sagrado’ manual, instrumento básico de apropriação de conhecimentos e fonte de aprendizagem, e que já foi “livro único”, não permitindo outras alternativas, pelo menos no seu seio. Isso nos relembra, por exemplo, a escritora Ester de Lemos:

«Era proibido ler romances no Liceu» (1959:46).

Mas ainda hoje, mesmo nas aulas de Português e Literatura, e por paradoxal que isso pareça, o manual continua a ser “o Livro dos livros”1. Os princípios dominantes nas sociedades de mercado, uma econocracia que tudo transforma em mercadoria, e que procura satisfazer os “clientes” pondo à sua disposição opções credíveis de escolha, chegou também aos materiais escolares. Hoje a multiplicidade de manuais é tal (em formatos vários que vão da vetusta sebenta para decorar ao hodierno livro de fichas para exercitar, a que se juntou o «manual do professor»!) que, em torno dele, gira uma florescente actividade produtiva e comercial que, todos os anos lectivos, tem assegurada uma fatia certa e volumosa de compradores2 (quanto a genuínos leitores já é mais problemático, como o evidenciam as permanentes taxas de insucesso escolar). As editoras escolares são, no panorama editorial português, empresas que não sabem o que é a crise. Os estabelecimentos de ensino têm oficialmente que os adoptar, mesmo que alguns professores prescindam deles na sua actividade lectiva. A selecção de manuais é uma tarefa em que a pressão do marketing e as “contrapartidas” oferecidas pelas editoras acabam por constituir-se como factores condicionantes das opções pedagógicas de selecção3.

Agustina Bessa Luís, em entrevista ao Ensino Magazine (nº 43, Setembro 2001, pp. 1-3.), diz que «ler exige uma elevada concentração e um grande silêncio e não é uma criança qualquer que está em condições adequadas para o fazer.» Estamos cientes que os ambientes físicos, em casa, no trabalho, ou nos transportes públicos são pouco incentivadores a esse recolhimento. O ruído é um dos males das nossas modernas sociedades. Nos lares, os espaços reduzem-se em apartamentos claustrofóbicos, onde o televisor e o rádio, permanentemente ligados, são a ‘companhia’ possível. Mais recentemente, nos transportes públicos, passaram a “dar-nos música” (de fundo) e, para as viagens de longo curso, instalaram-se circuitos de vídeo interno, entrecortados por informações regulares sobre a estação que se segue. Ler, passou a ser uma tarefa cheia de obstáculos e distractores concorrenciais. Nas nossas escolas domina a “cultura do berro”, num barulho permanente (por vezes ensurdecedor) que já não se restringe aos espaços exteriores de recreio:

«O liceu era um inferno de barulho» (José Rodrigues Miguéis, 1973:100).

Dentro dos edifícios, nos corredores, e, pior um pouco, no interior das salas de aula, o ruído ou, na melhor das hipóteses, o burburinho de fundo é a tónica dominante na atmosfera escolar. Restam alguns nichos, onde o silêncio, propiciador de uma leitura concentrada e produtiva, reina – as bibliotecas (e mesmo muitas delas, têm-se vindo a transformar em locais de trabalho de grupo mais do que espaços íntimos e pessoais de pesquisa e leitura). Este clima institucional, reflexo mais uma vez do mundo circundante, denota também, neste domínio, o défice de cidadania. É em escolas onde a vertente de cidadania constitui preocupação constante da equipa docente e, em particular, de quem a dirige, porque inscrita como linha orientadora no seu projecto educativo e nas práticas quotidianas baseadas em metodologias fomentadoras da autonomia e responsabilidade, que se podem encontrar as excepções. Um desses raros exemplos foi-me dado presenciar na Escola da Ponte, em Vila das Aves, que o meu amigo José Pacheco pacientemente erigiu: uma escola de 1º ciclo onde o silêncio, o falar baixo, o tom moderado de voz nos constantes trabalhos em grupo, se impunham; mesmo após o fim das aulas, as tradicionais correrias na saída da escola, acompanhadas de um verbalismo esfuziante, ali não se verificavam. Isto quer dizer que não é assim tão utópico as escolas serem ‘oásis’ em muitas vertentes da sua vida organizacional (há quem prefira chamar-lhe “cultura de resistência”, os mais dados à ideologia, ao combate e à luta).

A mesma Agustina conta, numa outra entrevista, como ficou sem uma empregada doméstica quando esta identificou a sua potencial patroa: «Ai a senhora é a Dona Agustina! Pois fique a saber que para si não trabalho nem morta, porque fui obrigada a ler os seus livros na escola…» (DN, 15/07/00, p. 3, citado no editorial de Carlos Magno). Não se veja neste comportamento um mero caso pessoal, pois já o estudo realizado pelo Observatório das Actividades Culturais, em 1998-99 mas só publicado em 2001, chamava a atenção para o potencial efeito perverso na aquisição de práticas de leitura decorrentes da prescrição escolar da «leitura obrigatória». Para além da aversão e repulsa por essas obras literárias, quantas vezes dissecadas até à exaustão pelos “bisturis” estruturalista e didáctico, o Observatório alerta ainda para o risco que se corre de «diminuir drasticamente a disponibilidade dos jovens estudantes para outro tipo de referências literárias» (DN, 23/04/01, p. 39). Também aqui a diversidade cede ao cânone.

Vasco Graça Moura denunciava, de forma contundente (“Falhanços”, DN, 18/04/01, p. 9), o falhanço da escola no que respeita ao contacto com o livro e ao fomento da leitura: «continua a sair uma gente que já mal sabe falar a sua própria língua, a despreza manifestamente e não é capaz de pensar porque não a domina, uma gente que não conhece um só autor do passado, uma gente a quem não foi incutido o hábito da leitura, e muito menos o prazer da boa leitura, uma gente que nunca aprendeu para que é que serve um livro e quando muito sabe vagamente o que é uma fotocópia».

(continua)

Notas

1. Se era compreensível a importância do manual escolar em épocas de reduzida formação de docentes (por exemplo, aquando das regentes escolares), nos dias de hoje, em que o mestrado constitui a formação base de qualquer professor, já se torna difícil de entender (de acordo com critérios científico-pedagógicos) esta continuada dependência em relação ao manual.

2. No inquérito aos Hábitos de Leitura em Portugal (1997), os livros escolares surgiam em 2º lugar no género de livros mais lidos, com 17,3% (depois dos romances e a par com as enciclopédias/dicionários). Mas já quanto a «géneros de livros possuídos» os escolares (61,9%) e as enciclopédias/dicionários (56,8%) ultrapassam os próprios romances.

3. Só início do ano lectivo 2002-03, o ME decidiu limitar fortemente a acção no interior das escolas dos «promotores de livros escolares» (aparentados aos delegados de propaganda médica).

 

Referências 

CALVINO, Italo (1990) Seis Propostas para o Próximo Milénio (Lições Americanas). Lisboa: Teorema, 3ª edição, 1998.

GOODY, Jack (1986) A lógica da escrita e a organização da sociedade. Lisboa: Edições 70/ Perspectivas do Homem, nº 28, 1987.

LEMOS, Ester de (1959) Companheiros. Lisboa: Edições Ática, 2ª edição, 1962.

MIGUÉIS, José Rodrigues (1973) O Espelho Poliédrico. Lisboa: Estúdios Cor/ Obras de J.R.M., nº 5.

VALLEJO, Irene (2019) O Infinito num Junco. Lisboa: Bertrand Editora, 2020.

domingo, 31 de outubro de 2021

Animais híbridos, ou das mil e uma maneiras de não cozinhar bacalhau

Esta é uma história leve. Tão leve como ficam os pratos que inadvertidamente, por vezes, deixo sobre a pedra à altura de uma cadela.

Devem os leitores conhecer um livro de receitas que tem por título algo como as mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Pois eu estou a preparar um intitulado as mil e uma maneiras de não cozinhar bacalhau.

Tenho uma cadela que é especialista em bacalhau. Não que tenha muitos conhecimentos técnicos, se não admitirmos a apreciação do sabor como um conhecimento técnico. Arranja sempre maneira de se aproximar do fiel amigo (esta expressão deve ter surgido por causa dela), e se tiver ocasião propícia, consegue ingerir vários lombos de uma assentada. Penso, até, que a receita de bacalhau espiritual poderia ter sido inspirada nela, porque ainda ontem quando ia desfiá-lo para misturar com os outros ingredientes, estava a tal ponto reduzido após uma sua passagem de reconhecimento pela cozinha, que o que ficara no prato só mesmo com visão remota seria possível ver o bacalhau, praticamente despojado de matéria, translúcido, como na visão dos clarividentes.

Como o leitor já percebeu não é bem uma cadela, é um exercício espiritual, um guru do despojamento (nosso), uma plataforma para o completo vegetarianismo, do qual já estivemos mais longe, um método de aprendermos a dispensar alimento sólido, como os yoguis que vivem do prana, ou do sol.

Mas nem com estes assaltos à cozinha consegue tirar-me do sério. Porque vejo nela e nos seus irmãos residentes: caninos, felinos e tartarugas, uma qualidade de amor urgente que encontro especialmente em alguns animais na rua acompanhados de pessoas visivelmente infelizes, das mais variadas formas, pelas mais variadas razões. Neles reconheço mansidão, entrega, silencioso afecto, sacrifício até ao limite. Já tem acontecido, quando o sol incide de particular forma sobre estes animais, principalmente nos cães, elevar-se do pêlo uma espécie de penugem que se assemelha, perturbadoramente, a asas.


Risoleta C Pinto Pedro

 

sábado, 30 de outubro de 2021

DAQUI até JÁ

Novo Livro, Novembro/2021. Clique em cima da imagem para ampliar e ver pormenores.



sexta-feira, 21 de maio de 2021

PENSAR COM AGOSTINHO DA SILVA


Conferência no 35º aniversário do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em 9 de maio de 2021. 

(Ver Conferência no Zoom aqui:  https://www.facebook.com/CACAV.AlhosVedros/videos/944267693003703/ )

Luís Santos

O título desta comunicação “Pensar com Agostinho da Silva” deve-se à colaboração que temos vindo a manter em página do “Facebook” com o mesmo nome e que tem administração de Paulo Borges. Aproveitando algumas dessas recentes publicações, partilharemos aqui convosco três ideias particularmente interessantes de Agostinho: a primeira, sobre “uma nova teoria do nascer”; a segunda, um poema para não se morrer; a terceira, uma carta sobre a “missão de Portugal”. 

Assim, em primeiro lugar, digamos, antes de mais, que essa “nova teoria do nascer” foi publicada em livro intitulado “Caderno de Lembranças”, a partir de um manuscrito do Professor Agostinho, datado de 1986, livro que foi organizado por Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho. E já que estamos a comemorar aniversário, refira-se que foi, justamente, nesse mesmo ano que o Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros nasceu. 

Em síntese, nessa tal “teoria do nascer”, Agostinho da Silva, sobre o seu próprio nascimento, diz assim:

 1) "Lá por 1905, (e chama-se à atenção que Agostinho nasceu a 13 de fevereiro de 1906) mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eternidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos (…), comecei a tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida. A meu lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro ponto, mas sem voz, tanto quanto me lembro, porque o nascer tira muito a memória como, depois, o vim a reconhecer, concluiu Platão (…) Quando, voluntária ou involuntariamente, quem o sabe, gostei de, a cada volta do globo, ver surgir de novo nossa península ibérica, deu-se o que se veio a chamar zoom: (…) Fixava-me, de facto, no que aprendi a chamar Portugal." (Agostinho da Silva, Caderno de Lembranças, Zéfiro, pp.15-16)

Eis, então, essa pergunta mágica tão significativa e indissociável da vida de todos, mas que tão pouco entra nas agendas políticas. Esse lugar, ou dimensão, donde se vem para nascer, onde tempo e eternidade se interligam e que, afinal, nos permitem perguntar o que é o presente, o que é o futuro. Entre-tanto, enquanto o globo terrestre diante de si girava, em conversa sem palavras com Platão, entre outros, Agostinho decidiu que o sítio que mais lhe convinha para nascer, aprendeu depois, chamava-se Portugal. E aqui, sem que nós saibamos se será mais correto dizer nascer ou renascer, pois que o nascer tira muito memória. Citando o Professor, “Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.” (Agostinho da Silva, Vida Conversável, Assírio e Alvim, p.14) 2) 

Em segundo lugar, gostaríamos de chamar a vossa atenção para “um poema ressurecto” do Professor, composto por três quadras, sem título, do seu livro “uns poemas de agostinho”. Ora vejamos:

Se eu chegar a ser dum Outro 
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros 
que comigo estão vivendo 

não só homens mas também 
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares 
e as estrelas tais e tantas 

terei decerto cumprido 
meu destino e com que sorte 
para gozar de uma vida 
já ressurecta da morte

(Agostinho da Silva, uns poemas de agostinho, Ulmeiro, p.107) 

Sintetizando, diz Agostinho que “se chegar a ser dum Outro”, um “Outro” que aparece grafado com letra maiúscula e que integra tudo o que existe –homens, animais, plantas, minerais e estrelas, tais e tantas, conseguirá aceder a uma libertação plena. Então, com alguma legitimidade poderá perguntar-se quem é esse “Outro”, e se Agostinho terá conseguido lá chegar? Se acedermos positivamente às respostas, certamente que ganharemos aí uma extraordinária fonte de inspiração para o caminho. 3)

 Para terminar, partilho convosco uma Carta de um conjunto de doze que Agostinho da Silva enviou para um grupo de amigos com quem estava em contacto, entre eles, a Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros, como então se designava, cartas essas que, de resto, foram aqui publicadas com o título de “As Últimas Cartas do Agostinho”. 

 Desse conjunto de Cartas, a primeira foi enviada no mês de dezembro de 1992 e a última em setembro de 1993, o que significa dizer que estas cartas foram escritas, praticamente, ao longo do último ano da vida do Professor, pois que em meados de outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, um súbito problema de saúde haveria de o guindar ao seu desaparecimento físico que, como sabemos, ocorreu no dia 3 de abril de 1994, num triste mas revelador Domingo de Páscoa. 

E é, justamente, a primeira dessas cartas que aqui partilho: 

“Resumo da ideologia do Povo Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre. 

Missão de Portugal: Sacralizar o Universo, tornando Divina a Vida e Deus real. 

Meios: Desenvolvimento dos Povos pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da pessoa à adoração da Vida. 

Características do que houver no Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser.” 

(Luís Santos (org.), As Últimas Cartas do Agostinho, Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros, p.1)

Certamente que, quando Agostinho da Silva se refere aos séculos XIII e XIV está a pensar, desde logo, no reinado de D. Dinis e de Isabel de Aragão, um período áureo da História de Portugal cujas raízes se estendem, de alguma forma, até à atualidade. “Ora vejam só, um rei poeta e uma rainha santa”, dizia o Professor. 

D. Dinis, o plantador das naus a haver, como diz Fernando Pessoa na “Mensagem”. Na história de Portugal diz-se dele que foi o fundador da marinha, da primeira Universidade com o seu “Estudo Geral”, de quem protegeu os Templários e criou a Ordem de Cristo e que, entre outras medidas de significativa importância para a afirmação do jovem país, desenha definitivamente as suas fronteiras e institui a Língua Portuguesa que é hoje a quarta língua mais falada do mundo. Por fim, é também durante o seu reinado que, por ação da Rainha Isabel, se iniciam as festas do culto popular do Espírito Santo e que, embora não tenhamos tempo para desenvolver aqui, são para Agostinho da Silva um dos acontecimentos matriciais a partir do qual se desenvolvem os poemas da “Ilha dos Amores”, de Camões, ou das propostas de “Quinto Império” do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa. De resto, tem sido tal a longevidade do referido culto que setecentos anos depois, ainda se comemora na atualidade em muitíssimos lugares da Língua Portuguesa, como acontece nos Açores, no Brasil, nalgumas comunidades de emigrantes dos EUA, mas também em Portugal continental como são, por exemplo, os casos de Setúbal e Alenquer, com Festa marcada este ano já no próximo dia 23 de maio.

 Bem hajam. 

Luís Santos 
Professor Adjunto Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia 
Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal

Referências Bibliográficas 

SANTOS, Luís, Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Euedito, 2015

 SILVA, Agostinho da, Caderno de Lembranças, Zéfiro, 2006 (fixação do texto e notas de Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho) 

Idem, Vida Conversável, Assírio e Alvim, 1994 (organização de Henryk Siewierski) 

Idem, uns poemas de agostinho, Ulmeiro, 1990, 2ª edição


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Linóleo Gravura, por Kity Amaral

 



Kity Amaral

Título: As Três Linhas
Técnica: Gravura em Linóleo
Data: 1999
Local: MG/Brasil


terça-feira, 8 de setembro de 2020

A Religião na Grécia Antiga

Com a chegada ao fim do doutoramento, a especialização obtida nos estudos sobre as civilizações clássicas contribuiu para que Agostinho da Silva publicasse vários textos, entre eles, “Um Breve Ensaio sobre Pérsio”, em 1929, e “A Religião Grega”, em 1930, onde reflete sobre o pensamento religioso grego e latino.

Neste estudo sobre “Pérsio”, o que se releva é como o choque entre diferentes culturas e religiões como a romana e a grega, ambas aglutinadas pelo vasto Império, põem na sua pena uma valorização da cultura grega face à cultura romana. Se militarmente os gregos foram assimilados pelos romanos, de certa forma, os romanos foram conquistados pelas ideias gregas, sobretudo por particularidades ligadas ao seu pensamento religioso, mas também como consequência do avanço que a filosofia e a ciência tiveram na cultura helénica.

O antropomorfismo divino ligado a uma existência em que deuses e homens se misturam, e onde se exaltam as paixões humanas, é uma das características da religião grega. Ao poder do amor entre Zeus e Afrodite, o deus supremo que é a terra e o céu, e todas as coisas, e o que há acima de todas as coisas, e a deusa suprema que é o expoente máximo da beleza, da graça, da elegância feminina e promove a incessante renovação do mundo, vêm juntar-se uma infinidade de deuses e deusas que constituem o panteão grego.

O que Platão buscava no Mundo das Ideias, o ideal de Beleza e de Bem, a defesa da imortalidade da alma, a perfeição do funcionamento da Cidade são conceitos que bem retratam o apogeu da civilização grega por volta do séc. V a.C.

Cumprindo as linhas da arte grega, cada templo é ao mesmo tempo um lugar de Amor e de Beleza. Arte e teologia de mãos dadas.

Na Grécia Antiga, o culto das divindades era igualmente feito pela coletividade inteira por meio das grandes festas e jogos, onde artes e competições desportivas serviam para um aperfeiçoamento de técnicas do corpo e da alma que propiciavam uma aproximação à glória divina. Os jogos na cidade de Olímpia (o início dos Jogos Olímpicos da nossa era) que reuniam todos os gregos, ou as tragédias Dionisíacas, festividades de âmbito mais local, são disso bons exemplos.

É fundamental que se estabeleça contacto com os deuses. Só através deles, com a sua capacidade de determinar o futuro, é possível ter uma vida clarividente que seja capaz de contornar a dor e trazer alegria à vida.

O contacto com os deuses é possível fazer através da adivinhação ou da profecia. É através destes processos que os deuses podem comunicar aos homens a sua vontade, ou determinarem as ações que devem ser feitas. Conforme a capacidade de respeito da vontade dos deuses, assim a vida será mais ou menos feliz.

Por isso, a consulta dos oráculos tem uma importância fundamental na vida dos gregos. A determinação do oráculo é auscultada sobre os mais variados motivos, desde problemas mais pessoais às grandes causas de Estado, desde um problema de saúde até à declaração de guerra a outra cidade, a outro povo.

Para que os homens pelo ritual pudessem contactar com as divindades haviam de ter a sua alma pura, isenta de errados comportamentos. Só através da purificação da alma, ou seja, de uma alma que irradia pura beleza é que os homens podem contactar e aceder aos favores dos deuses. E, no fundo, em que consistia esse ritual de purificação transmitido pelos próprios deuses: amor de deuses e amor aos homens. Seria respeitando simultaneamente a vida sagrada e a vida da Cidade que uma vida plena se cumpriria.

Os grandes mistérios de Elêusis, o mais elevado ato espiritual que se realizava na Grécia Antiga, um culto de iniciação às deusas ctonianas Deméter ou Perséfone, ou a Dioniso, para iniciação aos mistérios de Orfeu, possibilitavam o conhecimento da Vida para além da vida.

(Cf., SANTOS, Luís Carlos dos, Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Euedito, pp.23-30)

segunda-feira, 27 de julho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (406)



Explosão, George Grosz, 1917
Óleo sobre Painel, 47 x 68 cm

Nasceu a 26 de Julho de 1893, Berlim, Alemanha
Faleceu a 6 de Julho de 1959, Berlim Ocidental

George Ehrenfried Grosz foi um importante desenhista, caricaturista e pintor dadaísta alemão da primeira metade do século XX. É considerado, por muitos historiadores da arte, como sendo um dos principais representantes do Dadaísmo na Alemanha.

Esta peça de George Grosz, Explosão, transporta os horrores da primeira guerra mundial , para Berlim. Com um brilho ardente no fundo , desmoronando high-rise edifícios cata-vento em torno de um vórtice preto . Janelas quebram e fumaça derrama no céu noturno . Fatias de half-naked partes do corpo , abraçando casais , e rostos sombrios aparecem em meio ao caos causado por man-made , não natural , desastre . Grosz congratulou-se com o expurgo da sociedade antiga nesta e em outras pinturas, mostrando cidades em frangalhos de destruição que ele fez após ter sido dispensado do exército alemão. , na primavera 1917 , como " permanentemente inapto . "

Principais características do estilo artístico

- Pinturas marcadas por caricaturas da sociedade alemã, visando condenar à corrupção social.
- Obras marcadas pela retratação da violência social e urbana.
- Presença de tons satíricos e de crítica política, principalmente contra o clero, a imprensa, os nacionalistas alemães e os militares.
- Retratação de temas polémicos, perversos e grotescos.

Frase:
- "Meu objetivo é ser compreendido por todos. Rejeito a profundidade que as pessoas exigem..."

in Wikipedia
    SuaPesquisa.com

Selecção de António Tapadinhas

segunda-feira, 20 de julho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (405)



Imensidão, Autor António Tapadinhas, 2020
Acrílico sobre Tela, 70 x 100 cm


Selecção de António Tapadinhas

segunda-feira, 13 de julho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (404)

Nu Assis sur un Divan,  Amedeo Modigliani, 1917
Óleo sobre Tela, 100 x 65 cm

Nascimento a 12 de Julho de 1884, Livorno, Toscana, Reino da Itália
Morte 24 de Janeiro de 1920, em Paris, França

Amedeo Modigliani foi um pintor e escultor italiano, que viveu parte significativa de sua vida adulta radicado em Paris. Artista principalmente figurativo, tornou-se célebre sobretudo por seus retratos femininos caracterizados por rostos e pescoços alongados, à maneira das máscaras africanas.

A vida de Amedeo Modigliani foi curta e trágica. Estimulado intelectualmente na casa dos pais, em Livorno, mudou-se para Paris, onde viveu em completa pobreza, mergulhado na bebida, nas drogas e numa sucessão de amantes. Ao fixar-se em Montmartre, em 1906, Modigliani não trava relações com os principais artistas que ali viviam, nem mesmo com Picasso, que já se tornara famoso. A companhia frequente de Modigliani, nessa fase, é Maurice Utrillo, que o inicia no hábito das bebidas e drogas, que lhe arruinariam a saúde. Nos últimos anos da vida, pinta quase só retratos e nus femininos. A sensualidade de suas figuras não está em seus corpos, mas no movimento e alongamento que o pintor lhes dá. Apesar de pintor e escultor extremamente talentoso, Modigliani vendeu poucas obras enquanto vivo.

A pobreza e a boémia debilitaram-lhe ainda mais a saúde. Casou-se com uma pintora de 17 anos, Jeanne Hebuterne, que, grávida, se matou no dia em que Modigliani foi enterrado.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 11 de julho de 2020

A Poesia de Manuel (D'Angola) de Sousa


“Furando Tuneis Na Existência Psíquica E Mental Da Terra Física”

Furo um túnel debaixo de terra molhada
Rego raízes de muitos que delas se originam
Podo os ramos que estão hipoteticamente a mais

Ainda oiço falar perto de genocídio
Vejo com o terceiro olho mesmo meio fechado
Quando na escuridão absoluta resplandeço à mesma

Olho a intensidade da luz num piscar de olhos
Benzo-me mesmo assim de mãos atadas atrás das costas
Mastigo a hóstia ainda sem me aperceber disso

Tranco a mim e as memórias no interior dum cofre
Esqueço-me por infinitos instantes onde guardei as chaves
De martelo na mão arrombo portas impenetráveis

Limpo os bolsos de hipocrisias e falsarias à toa
Raspo da superfície da língua palavras indiscretas
Digo o que não devo sem ter tempo para pensar nisso

Vou até ao limite de minhas hipotéticas posses
Armo-me sem armas em pateta e em quem sabe de tudo
Arrasto de rastos a ignorância pela poeira da estrada

Aguardo paciente que a estupidez dilua em pouca água
Dissolvo a vaidade ilusiva e disfarçada em falsa modéstia
Resolvo pular borda a fora do barco em alta velocidade…

Pego a prancha para deslizar nas ondas turbulentas de um mar calmo…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 8 de Julho de 2020, em Alusão Seres Voadores, sejam eles pássaros de todos os tipos, assim como, àqueles que perderam o poder do vôo, e sejam eles pertencentes à classe das aves ou dos mamíferos, ou ainda, aos da classe dos répteis que adquiriram a habilidade para planar, etc…

Não fossem estes e as abelhas e todos os outros animais que, fazem das árvores e das plantas parte essencial de suas vidas e de suas sobrevivências diárias, e talvez as florestas e as selvas nunca se teriam desenvolvido e invadido o Planeta Terra de um verde vegetal e que, ainda, nos proporciona parte substancial do oxigénio que nos permite respirar e sobreviver…

terça-feira, 7 de julho de 2020

QUANDO PORTUGAL DEU O SALTO PARA O MUNDO


Luís Santos


Agora que estamos perto da execução das obras de Requalificação do Cais do Descarregador, em Alhos Vedros, relembramos que por ali, em 1415, se realizaou o Conselho Régio onde estiveram o rei D. João I, com os seus filhos, a famosa Ínclita Geração, onde pontuavam Infante D. Henrique, o Navegador, e D. Duarte futuro rei de Portugal, masi Nuno Álvares Pereira, condestável do reino, entre outros, e foi dado o "tiro de partida" para a incrível obra que constituiu (e ainda constitui) a Expansão Ultramarina Portuguesa. Faz este mês 605 anos.

Poucos anos depois, no final desse século, o alcochetano rei D. Manuel I, assistia à saída da armada de Vasco da Gama, rumo à Índia, ali no Estaleiro da Ribeira das Naus, na Azinheira Velha, hoje Santo André - Barreiro, então concelho de Alhos Vedros. A Ribeira das Naus ou Feitoria da Telha, funcionava em complementaridade com a Ribeira das Naus de Lisboa, sendo a construção dos navios iniciada no verão em Lisboa, e conclída no inversno na Azinheira Velha, por se tratar de um local abrigado.

Menos de um século depois, Afondo de Albuquerque, neto de Gonçalo Lourenço de Gomide, à época o dono de todos "os direitos, rendas e senhorios de Alhos Vedros", tornava-se Governador da Índia, mandato que exerceu entre 15019 e 1515.

Assim, entre 1415 e 1515(!), os episódios que se podem relacionar entre a região e a Expansão Ultramarina são de facto impressionantes. Mas há mais...

Na foto, o lugar do Estaleiro das Naus, na Azinheira Velha, hoje concelho do barreiro.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (403)


Retrato do Papa Inocêncio X, Ano 1650
Óleo sobre Tela, 140 x 120 cm

Nascimento, 6 de Junho de 1599, Sevilha, Espanha
Morte 6 de Agosto de 1660, Madrid, Espanha

Diego Velásquez foi um pintor espanhol, um dos maiores nomes do Barroco europeu. Foi o pintor da corte de Felipe IV da Espanha.

Diego Rodriguez de Silva Velázquez nasceu em Sevilha, Espanha, no dia 6 de Junho de 1599. Em 1611 iniciou um aprendizado no atelier de Francisco Pacheco que se prolongou por seis anos. Em 1617 obteve a licença de pintor. Em 1618 casa-se com Joana, filha de Francisco Pacheco.

Ainda adolescente, pintou algumas obras religiosas, entre elas: “Jesus em casa de Marta e Maria” (1618), Imaculada Conceição (1619) e Adoração dos Magos (1619), obras de um realismo incomum e com belos efeitos de claro e escuro.

Em Janeiro de 1650 é admitido na Academia de San Luca. Em Março, expõe no Pantheon o “Retrato de Juan de Pareja”. Em Julho, pinta o Retrato de Inocêncio X.
O quadro de Diego Velázquez, Papa Inocêncio X (1650) encontra‑se em Roma na Galeria Doria Pamphigli. É uma pintura ao estilo realista representando um Papa fulgente, radioso, magnífico, seguro, em suma simbolizando a robustez de um dos pilares fundamentais da cultura e civilização ocidentais. Quando o Papa viu pela primeira vez o quadro pintado por Velasquez terá exclamado “Troppo vero!”.

Trezentos anos depois Francis Bacon viu‑o em reprodução e reuniu depois uma vasta coleção de reproduções, através das quais veio a estudar e a conhecer profundamente o quadro. Teve o cuidado de nunca o ver ao vivo e mesmo quando esteve em Roma evitou a todo o custo o encontro. Entre 1951 e 1965 pintou 45 estudos, variações, reações ao quadro de Velázquez, sentindo sempre uma fortíssima obsessão por ele.

À semelhança de muitos outros artistas do pós‑II Guerra Mundial tentou reproduzir o clima de terror absoluto e descrença na cultura, expressando o que aconteceu à humanidade finda a Guerra e o Holocausto nazi: a destruição geral, a morte, o flagelo, o holocausto nuclear, a despersonalização do homem que se converte em cadáver atirado para valas comuns, seres asfixiados, queimados e atirados fora como lixo, o desespero mudo dos rostos de bocas abertas, incapazes de produzir qualquer som…

in Revista Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, 2016 7(1): 45-53

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 4 de julho de 2020

José Gil


RESILIÊNCIA DE CAIM
o braço do violoncelo da vida e do mundo
ágil, claro e incisivo no teu corpo
a saudade íntima e a esperança alargada
vibro o fogo das horas no relógio tranquilo
o teu ritmo vegetal em finos raios de luz
um íntimo esboço nas ondas
para libertar os tons amarelos
nos trilhos das pernas doces
ama amor devagar a vida é u navio
os dias ondas para continuar nelas
traço a traço as tuas costas
na delicadeza da música dos
dedos e das cerejas secas de mel
de palmela
Do Castelo avisto a aguarela das cores
e a música das flautas
desenho um cais de chegada
flor seca de tília na sola dos pés e no
chá
resiliência
sensual
fruição
Praias de Cascais
Jose Gil
versão de 1-7-2020
09:37h

quarta-feira, 1 de julho de 2020

EG#124


ESTUDO GERAL
jun/jul             2020      Nº124

“Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.” 
(Agostinho da Silva, Vida Conversável, p.14)
  
Sumário
Fim
Bairro Gouveia
Ilha dos Amores
António Telmo
Graffitar a literatura
Poemas
Alhos Vedros TV


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

segunda-feira, 29 de junho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (402)



Nascimento a 29 de Junho de 1900, em Lyon, França
Morte a 31 de Julho de 1944, local incerto ao largo de Marselha

Antoine de Saint Exupéry foi um escritor, ilustrador e piloto francês, autor de um clássico da literatura, “O Pequeno Príncipe”, escrito em 1943.
Era o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe, família aristocrática empobrecida. Estudou no colégio jesuíta Notre Dame de Saint Croix e no colégio dos Marianistas, em Friburgo, na Suíça.
Em 1921 ingressou no serviço militar, no Regimento de Aviação de Estrasburgo. Tornou-se piloto civil e subtenente da reserva. Em 1926 foi admitido na Aéropostale, onde começou sua carreira de piloto de linha, voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar.
Com a invasão dos nazis em França, Exupéry fugiu para os Estados Unidos. Nesse período, escreveu "Carta a Um Refém" e incentivado por editores americanos, que viram sua habilidade como desenhista amador, foi desafiado a fazer uma obra para crianças. Até ali, seus livros falavam de sua paixão profissional: a aviação.
Em 1943, Antoine de Saint-Exupéry voltou para a força aérea no Norte de África e tal como o Pequeno Príncipe no final do livro, Saint-Exupéry parece ter apenas desaparecido da terra,  abatido por um caça alemão durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de Julho de 1944,.
Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram descobertos os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, em França.

Selecção de António Tapadinhas