quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Carta aberta ao Coletivo jazz alburrica



Épaaaa isto hoje está muita filosófico, o que é muito bom. Penso que música tb é filosofia, e por assim acreditar vejo nela um ponto de partida para alcançar todos esses universos, e para lá deles, mesmo com todas essas nublosas.
Penso que cada ser humano é um universo tão vasto como o universo exterior em que habita (penso que ás vezes até mais denso), só que ele próprio precisa de decifrar pequenos codicos para se poder movimentar sobre ele, codicos esses que aparecem em forma de nublosas, deciframos o seu codico e a nublosa abre a porta para o caminho que vai dar até outra nublosa e assim por diante.
Quanto mais nublosas a pessoa conseguir passar mais descobre quanto é vasto o seu universo interior, e quanto mais o alcança mais perto está da seu santo gral, que é sua realização pura, mais perto da sua origem humana, mais perto de chegar ao cume da montanha do seu amor próprio.
O nosso universo exterior que á partida é comum a todos é ilusório, pois cada pessoa vê o universo exterior á sua maneira, então poder-se-á dizer que existem que o numero de universos exteriores e interiores e igual a numero de seres humanos que a dado momento existem sobre o planeta terra.
Isto só para dizer que, se existem tantos universos e tantos seres humanos o que é que eu valho?? Quem sou eu?? O que faço aqui??
Para onde vou?? Estas perguntas, são perguntas chave de todo o saber humano capaz de o realizar ou o levar á loucura e até mesmo á morte, que vêm desde os primórdios até aos nossos dias. São perguntas que existem para serem eternas.
Com isto digo e penso que nós somos tudo e nada em simultanio com uma ligeira tendência para o nada, pois á partida só vemos o mundo exterior, os mundos e os universos dos outros, atirando-nos para o nada em que as-seguir sentimo-nos inferiores e frustrados dizemos que não somos nada neste universo tão vasto, dizemos que somos uma gota de água no oceano.
Por outro lado somos tudo, ou seja, o planeta, o cosmos e os outros seres humanos com os seus infinitos universos só existem porque eu os sinto, veijo e imagino são eles que constituem o meu universo exterior, que se liga ao meu universo interior e é só neste universo interior que conseguimos ser esse todo global. Se eu morresse o mundo morreria comigo pois eu sou tudo.
Penso que com estas duas esferas nos devemos situar em campo neutro ás vezes balançando ora mais para um lado ora mais para outro.
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Havia um lenda antiga que falava de um mestre e o seu discípulo.
Em que o mestre faz uma linha no chão e pergunta ao seu discípulo: "Quero que diminuas o tamanho desta linha sem tocares nela"
e o discipulo pensou pensou, teve horas e dias a pensar e quando se encontra com o mestre diz que não consegui descobrir, e o mestre por cima daquela linha desenhou em paralelo a essa outra linha ainda maior, o que fez com que a primeira linha ficasse automaticamente mais pequena.
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Isto somos nós perante o mundo sentimo-nos pequenos enquanto o mundo é tão grande, daí a nossa tendência para o nada.
Se nós queremos decifrar nublosas e explorar o mais possível do nosso universo interior em território neutro (Ser tudo e nada em simultanio) temos que olhar para dentro e ir buscar o sonho, só ele salva só ele nos guia só ele nos conduz acreditando sempre, não podemos ter medo de sonhar e acreditar e voar voar voar voar voar voar voar e sem medo da queda, pois esta realidade putrefacta perende-nos, segura-nos e proteje-nos, sem ela vivíamos a voar e alheados de todo o mundo o que também não era bom, mas assim que a temos presa na consciência como torres de marfim, o mais é sonhar sonhar sonhar , acreditar voar rir sonhar brincar curtir.
ehehehhehehehehhehehehehehhehehehehehhehehehehehehheheheheheheh
ehehehehhehehehehehhehehehehehehhehehehehehehhehehehehehhehehe
Desculpem lá esta extenção de texto, nessas cenas divago muito muito muito, quando começo não paro, já nem sei o que disse se calhar só falei de merda que é o melhor que sei falar ahahahahha ( Vivá merda) ahahahahha ( e o cristo onde tá????) mas se com as minhas aldrabices e loucuras e grandes pancadas vos ajudar sinto-me realizado ;-))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
Um grande abraço e um enorme beijinho para todos vosses

Diogo Correia

P.S - Quando andava nos escuteiros soube de uma frase dita pelo fundador do escutismo Robert baden Pawel ( militar inglês da grande guerra)
" Vamos deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos"
Faço desta frase o meu grande objectivo de vida. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

FRESCOS



Eu sei que o silêncio brota, de novo,
pelas pontas dos dedos de quase todas as árvores.


FIM 

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



É muito bom termos com quem falar, especialmente ao nível das indecisões quando, perante nós, os caminhos se bifurcam e nos vemos confrontados com a obrigação de decidir por qual deles haveremos de seguir e pouco sabemos a respeito de um ou de outro, nem mesmo temos como avaliar se temos ou não condições para decidir bem. É a angústia de que nos falou Kirkegaard ou, se quisermos, o princípio da angústia e nesses momentos em que o breu nos ofusca o olhar do pensamento, mais ainda quando nos sentimos a modos que impotentes para, unicamente com os nossos meios e capacidades, alcançarmos um mínimo de luz, nada melhor nessas situações que termos a disponibilidade de um ouvido pensante que se mostra disposto a dar-nos a mão e connosco partilhar o exercício das cogitações em voz alta. Foi o que sucedeu comigo que, depois de muito conversar com o Manuel, finalmente percebi como, estando a colocar mal um problema, natural seria que não só estivesse a arredar-me da possibilidade de lhe encontrar uma solução razoável como, em consequência, a posicionar-me erradamente em face do mesmo. A verdade é que para a incerteza da decisão tomada, como então disse o meu amor, a pergunta mais simples que se poderia fazer seria, qual a alternativa? E ele tinha razão, teve e continua a ter toda a razão, agora vejo-o, já o tinha percebido, mas cumprida que está a primeira parte da experiência, vejo claramente que não faz qualquer sentido começar por me perguntar se virei ou não a ser capaz de vir a ser uma boa professora, a partir daqui, no âmbito da Filosofia também, muito menos se irei ou não gostar de o ser, mas igualmente se conseguirei ou não exercer a profissão de maneira que os resultados possam ser considerados positivos, pelo menos satisfatórios. De facto ele estava a ser sensato quando sustentava que é precisamente aí que entra a tal pergunta de algibeira, qual é a alternativa? Na verdade não há, não havia e não há e essa é que é a realidade com que tenho de lidar. Há muito que ficou decidido que a escola que não havia e organizámos para os nossos filhos e que em boa hora abrimos à prole de todos os outros que aqui encontraram o ganha-pão, depois dos estudos das primeiras letras e dos saberes e aptidões correspondentes ao ensino primário oficial, se estenderia ao nível subsequente dos estudos gerais do liceu. Desde logo a questão se nos colocou no plano prático da exequibilidade. Para que os miúdos pudessem frequentar um tal grau de escolaridade, ver-nos-íamos na obrigação de pelo menos termos que os levar à Vila pois, de outra forma, teriam que ser eles a percorrer pelos seus próprios meios a dúzia e meia de quilómetros que nos separam desse ponto mais perto onde poderiam tomar os transportes até à cidade onde se encontra o Liceu Nacional da zona ou, para aqueles que o desejassem, a escola comercial e industrial. Bem, sempre nos poderíamos ordenar de tal modo que sempre houvesse alguém disponível e a jeito para fazer de chauffer e agora que até há várias famílias com carro, nem me parece que isso fosse muito difícil. Em última instância, nem mesmo seria algo do outro mundo se, por acaso, optássemos por fazer o trajecto directamente ao objectivo e todos os dias assumíssemos a obrigação de batermos a boa meia centena de quilómetros que, entre o cá e lá, teríamos que percorrer para que aos alunos fosse permitido o cumprimento do dever. Mas aí houve que ponderar o melhor para os interessados e na balança colocámos o peso das condições de tempo e bem estar físico e anímico para o fazer e fácil foi concluir que se as nossas crianças pudessem continuar a ter ao alcance das passadas a oportunidade de acederem à resolução das suas necessidades de aprendizagem, certamente teríamos ao dispor o melhor contexto para estudarem com eficácia de proventos e ainda terem vagar para as suas vidas de brincadeiras e de sonhos que tão importantes são na formação dos caracteres de cada um. O Quico ainda levantou o escolho do isolamento, da falta de convívio com outros miúdos da mesma idade e de como isso poderá concorrer para provocar mentalidades tacanhas e fechadas. Mas alguém lhe lembrou que não era bem assim, na medida em que ao frequentarem o mesmo estabelecimento de ensino que os filhos dos outros trabalhadores, isso lhes proporcionaria uma mistura em que poderiam ver e contactar os vários lados do mundo no que respeita às atitudes perante o ensino e a aprendizagem e a cultura de uma maneira geral e depois pelo facto de praticamente todos nós sairmos daqui, de vez em quando, até por termos origens familiares fora desta comunidade que criámos e mais agora que já podemos tirar regularmente os nossos períodos de férias, bem vistas as coisas, seria absurdo que algum dos nossos meninos ou meninas não conseguissem perceber que o mundo não se resume a esta aldeia e que há outras maneiras de viver para além desta. Pois foi desse modo que tomámos a decisão de dar continuidade ao plano de estudos que elaborámos para a primária e organizarmos um curriculum passível de ser reconhecido pelas autoridades competentes para os anos seguintes que, por motivos óbvios, se estenderão até ao momento em que algum dos nossos rebentos pretenda fazer o exame de admissão à Universidade se tal for a sua vontade. É claro que se tratou de uma opção devidamente ponderada e amplamente discutida entre todos uma vez que à partida a ninguém escapou as implicações que teria e teve, a começar pela requalificação de algumas pessoas que abandonaram por completo o trabalho nas unidades de produção e passaram a exercer a docência a tempo inteiro que é o que me irá suceder a partir do próximo Outubro, em que passarei a acumular à História que ministro, a disciplina de Filosofia e para o que comecei já a preparar-me. Contudo parece-me ser possível fazer um primeiro balanço da sensatez das nossas escolhas e não há quem o não considere amplamente positivo e isto olhando para a saúde mental e física com que a gaiatagem cresce, mas também pelo à vontade e níveis de autonomia, sem esquecer a cultura que, mais nuns dos que em outros, como seria de esperar, praticamente todos revelam e naturalmente o domínio das matérias e competências aprendidas que é bastante significativo em qualquer uma daquelas alminhas. Afinal para que serve um plano de ensino e aprendizagem? Qual o objectivo ou os objectivos que poderemos estabelecer para o mesmo? Ora a resposta, melhor dizendo, as respostas só podem recair na preparação para a vida, em todos os sentidos. E a vida que esta irã ter que enfrentar, quer o queiramos ou não, passa por aqui, por entre este mundo que temos vindo a construir e que, de alguma maneira, lhes queremos legar, ainda que todos nós estejamos conscientes que, uma vez adultos, podem muito bem vir a querer percorrer trilhos que não passem por aqui. Essa é a liberdade que lhes assiste e de que não os poderemos privar. Por isso, desde a primeira hora, ficou claro que pretendíamos organizar um misto de ensino teórico e prático em que às disciplinas dos saberes tradicionais, como a História e a Geografia, as Línguas e as Ciências, acrescentámos as técnicas e competências de artes tão básicas como a carpintaria ou a mecânica e a electricidade, de que ninguém se livra sem estar apto a trabalhar a madeira de modo a fazer objectos e outras aplicações com ela, da mesma maneira que seja capaz de olhar para um motor e compreender os seus mecanismos e a agir junto dos mesmos, como a ser capaz de compreender onde está o problema de uma instalação eléctrica doméstica e a resolvê-lo. Tudo isto sempre na companhia do ensino musical e desportivo e, desde há dois anos para cá, com unidades complementares no domínio do teatro e da fotografia que articulámos com as actividades culturais e recreativas da associação. No próximo ano lectivo em que o Adão e outros dois ou três, entre eles, uma rapariga, iniciarão os dois anos finais do liceu, teremos para aqueles que pretendam vir a seguir para o ensino superior e universitário uma formação virada para as ciências ou as letras, conforme os interesses de cada um e para os outros que queiram vir a abraçar uma profissão que passe por esse nível de estudos, algo que vá ao encontro dos requisitos gerais dessa mesma área. Por enquanto, nada indica que venhamos a começar esta vertente na próxima anuidade. O certo é que até ao momento estamos satisfeitos por ver os nossos entes queridos crescendo sabedores e responsáveis e, não tenho dúvidas em acrescentar, felizes. O tira-teimas será o exame nacional a que os mais crescidos terão que se submeter no final deste seu equivalente ao sétimo ano do liceu, mas até aqui, se bem que em patamares inferiores e, portanto, mais fáceis, os nossos alunos sempre se colocaram entre aqueles que obtêm as melhores notas. Esta nossa aventura tem nos levado ao improvável. Há muito que nos deixámos de olhar como jovens sonhadores. Como o paizinho e a mãezinha ficariam contentes se aqui estivessem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (15)


Girl with a Pearl Earring, Johannes Vermeer, 1665

Óleo sobre Tela, 44.5 x 39 cm
PERFEIÇÃO

Há pessoas assim: PERFEITAS!

Ela é uma dessas Pessoas! Ainda uma jovem mulher, nascida e criada nas montanhas da América do Norte entre ursos e lobos, parece flutuar pela vida acariciando-nos com aqueles enormes olhos azuis e um sorriso de mel!

Chegou a Portugal há alguns anos, acompanhada da sua Licenciatura em História da Arte de uma das mais conceituadas Universidades do mundo e veio atrás do Amor… ficou a viver na minha casa durante algum tempo, enquanto tratava das burocracias que lhe permitissem ficar por cá! O único trabalho disponível para ela, nessa altura, foi a limpeza de apartamentos, que ela fazia com a mesma dedicação com que acariciava as teclas do piano assim que entrava em casa, sem despir a sua bata azul ainda manchada pelos detergentes, bebericando comigo um bom copo de vinho tinto!, ou com que pegava nos pincéis para pintar fantasias maravilhosas em telas virgens… eram sempre assim os nossos finais de tarde…

Mulheres assim, Perfeitas, não foram feitas para serem tocadas por quem passa na rua – só elas nos podem tocar. Há poucos dias, porém, alguém tentou fazê-lo (certamente para se certificar de que ela era, de facto, real…) E as mesmas mãos que dedilham velhas canções nas cordas da sua guitarra azul, que tiram sons suaves das teclas do piano ou que inundam telas de cor, agarraram uma pedra de calçada, fazendo correr à sua frente o homem insignificante que a tocara daquela forma imprópria, ao mesmo tempo que os seus enormes olhos azuis lançavam faíscas em todas as direções. Não restou ao homem outro remédio senão fugir pelos carris da estação de comboios mais próxima!

Quando, ao telefone, lhe perguntei o que lhe passou pela cabeça para fazer tal coisa, respondeu-me simplesmente que quem cresce no meio de ursos e lobos não tem medo dos homens – mas que nem todas as mulheres cresceram no meio de ursos e lobos, por isso alguém tem que as defender!

Há pessoas assim: PERFEITAS!

Amélia Oliveira

domingo, 10 de fevereiro de 2013

 
 



MANEIRAS DE ESTAR, DE SER. (III)
(...)
O Quico chegou.
Num ombro trazia pendurada a viola em bandoleira, no outro um saco de pano com algum volume.
Era um grupo de oito ou nove jovens adolescentes, alguns jovens adultos já, com um ar agradável, parecendo perfeitamente estruturados ou, pelo menos, nada neles sugerindo marginalidade ou descaminho.
O Tó acendeu o charro.                                                                        
Aspirou umas passas de modo compenetrado e fez questão de o fazer rodar.
Só uma moça aderiu àquela proposta de comunhão, os outros declinaram o convite.
O Quico retirou a viola do estojo e começou a dedilhá-la.
Os outros procuravam no saco e começaram a distribuir alguns instrumentos de percussão e uma harmónica e uma pandeireta.
Um agarrou numa lata de coca-cola, vazia, e introduziu-lhe algumas pedras pequenas. Experimentou o som que poderia obter e terá ficado satisfeito com o resultado.
Ficou a postos para se integrar na actuação.
Quico começou a tocar “Dunas” desafiando “vão afinando as vozes”.
O grupo lentamente começou a cantar.
Primeiro um e de seguida, cada um a seu tempo, todos foram aderindo.
As vozes não eram desafinadas e após a primeira série de versos, a harmonia começou a estabelecer-se, as vozes confluíam, encontravam-se.
Os sorrisos afloraram os rostos.
Senti que sorria também.
De seguida cantaram “Wish you were hear”.
Afinados.
Seguiu-se “ Bairro do Amor”, “Nasce Selvagem”, ….
 – a voz da moça de tranças destacava-se – o grupo harmonizava-se bem.
O largo enchia-se de música e de jovens a cantar.
Os arranjos, improvisados na hora, agradavam.
Agradavam-me tanto, que dei por mim a bater o pé e a trautear baixinho as músicas que iam interpretando.
Dois ou três dos jovens encontraram-me a olhar para o grupo.
Não me senti em falta e não me sobressaltei.
Eles perceberam que eu “estava lá” e sorriram.
Não para mim, sorriram apenas.
Passou um fulano de mota e gritou por cima do barulho do motor «drogados, vão mas é trabalhar».
A carrinha que vinha atrás buzinou ruidosamente várias vezes.
Ninguém ligou.
Passado um tempo, o Quico, que assumia algum protagonismo no estilo” líder aceite”, desafiou:
Agora vamos criar, ok?! Eu vou fazendo uma base de ritmo, quem quiser pode acompanhar-me. Quando quiserem podem começar. Originais, criação na hora, sem rede e sem ensaio.
E seguiu tocando.
A pouco-e-pouco todos se foram encaixando no ritmo.
O ritmo, por sua vez, encaixava-se algures entre o blues e o gospel.
As vozes começaram a elevar-se.
A princípio simples toada, som enquadrado na música instrumental.
Começou a Carol

A cidade,
Uma cidade carregada de histórias
Faz-me lembrar qualquer coisa …

Depois o Tó,

Bairros operários
Deslocalizando a cidade,
Criando o subúrbio,

Depois a moça das tranças,

Dormitórios de gente subtraída a si mesmo,
Tornada escória,
Desperdício de um horário frenético
Desgastando o pulsar livre da alma,
Do sonho e do querer
Até apaziguar o ímpeto
Do que quer romper para concretizar,
Fazer nascer o que se almeja.

Depois outro,

Quando a ideia pondera,
Vagueia e se acalma
Desaguando num êxtase quase herético
Mas sem orgia nem cadeia.

Nesta altura voltaram atrás e elegeram um refrão.
A moça de tranças começou sozinha mas, os outros percebendo o sentido, acompanharam-na em coro,

A cidade,
Uma cidade carregada de histórias
Faz-me lembrar qualquer coisa …

Depois um outro de voz grossa,

Abrangência.
Casas pontualmente subvertidas.
Extramuros.
Barracas e casas clandestinas
Transferidas para o outro extremo da cidade.
Fora da cidade.
Alçado, matriz, arquitectos e população.

Voltaram ao refrão (compasso para pensarem?)

A cidade,
Uma cidade carregada de histórias
Faz-me lembrar qualquer coisa …

O Quico empolgava-se na guitarra “Boa”, soltou. Todos participavam na composição. Repetiram o refrão

A cidade,
Uma cidade carregada de histórias
Faz-me lembrar qualquer coisa …

Agora o Quico entra na cantiga,

Esteticamente estruturada
Na possibilidade de concretizar
A base e o corpo
Do edifício social.
O contexto coabita
Em elementos contrários
De um pós-modernismo
Por descobrir,
Por descobrir.

O refrão, de novo o refrão (reencontrar o curso do rio, organizar o pensamento),

A cidade,
Uma cidade carregada de histórias
Faz-me lembrar qualquer coisa …

Eu estava encantado.
Os jovens surpreendiam-me pela qualidade, pela riqueza da natureza de que eram feitos e exteriorizavam.
O maravilhamento eclipsara a noção de tempo.
Por dentro todo eu dançava e sorria.
Sorria sem disfarçar.
Eles perceberam e penso que terão gostado do meu bem-estar.
Acabava por ser uma forma de cumplicidade.
Quico percebeu que aquela aventura musical se esgotara
“Pessoal tá espectacular. Alguém apontou isto? Vamos apontar qu’isto tá muita bom. Mais uns toques e fica bom pró CD.”
O Quico voltou a tocar, uns ditavam, Marta (assim se chamava a moça de tranças) apontava.
Quando deram por concluída a tarefa, o Tó disse
“Quico continua. Vamos a outra.
(...)
(continua)
Foto: Carlos Baptista; Texto: Manuel João Croca


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Poemas que se encontram


Cascais 2
Na linha da água

onde a tábua resvala
o teu colo me espera
rápido como o vento
enrolo a onda do poema
um longo lençol do amor
na tábua ficam os cabelinhos
como o mel é o lugar de conforto
da língua e dos lábios
caminhamos pela noite com a pimenta
e a vitela mal passada mas saborosa
o amor é sempre distante e tão perto
como a alface e os tomatinhos
na frescura do calor - corro
até ao suor cavalgar a rua espessa
é Fevereiro e está sol
em Cascais o meu amor acorda
na linha da água




MUDAR

Busco a mudança
no incógnito regresso
ao ventre
exijo outra
        nova
        repetida forma
        na deformação do corpo
        em desconhecimento

tenho o medo resolvido
entre os dedos: a coragem
nas brincadeiras
infantis do reconhecimento

mudo o foco no desatino
das sentenças
em que como igual
                         permaneço.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Castro Soromenho



Tenho para mim que Castro Soromenho (Fernando Monteiro de Castro Soromenho), jornalista, ficcionista e etnólogo, considerado um escritor do movimento neo-realista português e igualmente um romancista da literatura angolana, é o exemplo acabado e quase perfeito da lusofonia.

Senão vejamos: nasceu em Chinde, Moçambique, em 31 de Janeiro de 1910, e foi com um ano de idade para Angola quando o pai, o português Artur Ernesto de Castro Soromenho, para ali foi transferido para assumir o cargo de governador da Lunda, sendo também um dos fundadores da cidade de Nova Lisboa (actual Huambo) juntamente com o Alto-Comissário de então, o general Norton de Matos. A mãe, Stela Fernançole de Leça Monteiro, era natural do Porto e de família cabo-verdiana.   
                                
Entre 1916 e 1925 Castro Soromenho estudou em Lisboa o ensino primário e liceal. Regressou a Angola onde trabalhou para a Companhia de Diamantes de Angola (Diamang). Em seguida, entrou para o quadro administrativo de Angola, na categoria de aspirante, servindo nos sertões do leste da colónia, aí bebendo muito do que viria a ser a sua inspiração e o seu estilo literário. Posteriormente torna-se redactor do jornal Diário de Luanda. Em 1937, regressa a Lisboa, colaborando em diversos jornais como: Semanário Humanidade do jornal Diário Popular, A Noite, Jornal da Tarde, O Século, Seara Nova, O Diabo, O Primeiro de Janeiro e Dom Casmurro.

Em 1949 casou-se com Mercedes de la Cuesta, na Argentina. Por consequência de duras críticas ao regime salazarista foi obrigado a exilar-se em França, em 1960. Ainda nesse ano viajou para os Estados Unidos da América, onde foi professor na Universidade do Wisconsin ministrando o curso de Literatura Portuguesa. Regressou a França em Agosto de 1961 e colaborou com as revistas Présence Africane e Révolution. Em Dezembro de 1965 foi viver para o Brasil. Ali regeu cursos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São de Paulo e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara.
Dedicou-se também ao estudo da etnografia angolana, tendo sido um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo.

Viria a falecer no Brasil em 18 de Junho de 1968, completando assim o círculo da sua existência lusófona: Portugal, Cabo Verde, Moçambique, Angola e Brasil.

Bibliografia de Castro Soromenho: Lendas negras (1936); Nhari: o drama da gente negra (1938); Imagens da cidade de S. Paulo de Luanda (1939); Noite de angústia (1939); Homens sem caminho (1941); Sertanejos de Angola (1943); A aventura e a morte no sertão: Silva Porto e a viagem de Angola a Moçambique (1943); Rajada e outras histórias (1943); A expedição ao país do oiro branco (1944); Mistérios da terra (1944); Calenga (1945); A maravilhosa viagem dos exploradores portugueses (1946); Terra morta (1949); Samba (1956); A voz da estepe (1956); Viragem (1957); Histórias da terra negra (1960); Portrait: Jinga, reine de Ngola et de Matamba (1962); A chaga (1970).

Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

DANÇA DA ALEGRIA DAS FORMAS
 
 
 
 
 
CAROLA JUSTO
 
Acrílico 40x40

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado. Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 

arriba a S. Tomé, abraça a poeta

e aponta o caminho para   

onde já moram 155.
 Naquela casa tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu mais de 26,4 milhões de visitas.


E-mails de FERNANDO CORREIA DA SILVA:
fcsilvavl@sapo.pt e fcsilvavl@gmail.com     

P.S. Para aceder à poeta clique em cima do nome.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Brevemente passarão doze anos sobre a morte do paizinho querido que não teve a ventura – e uso este termo por estar certa que seria assim que o próprio veria a questão – de conhecer os netinhos. Como eu gostaria que ele estivesse agora entre nós, naturalmente por ele, mas no que me diz respeito, antes de tudo pelo vazio de afecto e carinho que a sua partida deixou irremediavelmente insubstituível, igualmente pelo companheirismo terno e culto com que me ofertava a possibilidade de ter ao dispor a conversa arguta e inteligente de ir ponderando os passos com o amparo solidário e meigo de uma voz mais avisada por mais experiente. Ficamos tão sós quando perdemos para sempre a presença dos pais que me parece ser apenas a partir daí que verdadeiramente passamos a estar apenas por nossa conta e risco. Seja como for, é precisamente por isso que também gostaria que ele pudesse ver, com a acutilância do seu olhar e ajuizar com a sensatez da sua maneira de ser e de ver o mundo, tudo quanto nós conseguimos alcançar nesta quinzena de anos. Sou capaz de imaginar o brilho da alegria do seu rosto sorridente quando a alma se aprazava fosse com o que fosse e estou segura que seria esse o semblante com que nos parabenizaria por termos conseguido materializar o que pode ter começado com o aspecto de um sonho em algo plausível, ainda mais, no fundamental, no respeito pelos ideais que o suscitaram. Do mesmo modo que nos manifestaria a concordância pelas opções e decisões que temos tomado que não teriam sido diferentes se da sua cabeça tivessem saído. Sobretudo tenho a certeza que ele concordaria comigo quando penso que para lá de tudo o que possamos dizer de abonatório do que já alcançamos em termos materiais nesta comunidade, está o facto de termos logrado organizar aquilo que eu, sem qualquer vaidade e absolutamente convencida da veracidade do que estou a afirmar, não tenho a menor relutância em qualificar como o melhor dos mundos para criar e educar os nossos filhos. Honestamente, para mim, acima de tudo o que possamos reivindicar por meritório, está este pequeno mundo de relações em que as crianças encontram um excelente meio para crescerem contentes e se virem a fazer pessoas de bem e não tenho a mais pequena dúvida que o paizinho seria a primeira pessoa a constatá-lo e a sentir-se satisfeito com esse resultado. Diz-se que o homem é um animal de hábitos e é verdade e é curioso observar como no nosso dia a dia os vamos ordenando e situando pelos diversos espaços que encontramos nas horas. Obviamente não estou a falar do trabalho que tem os seus horários a que não nos podemos subtrair, mas apenas àqueles aspectos da vida pessoal, familiar e social que estão para além dele. Pois terá sido por acaso que nos fomos acostumando a deixar o jantar como o ponto de encontro em que a família se inteira de si e se comenta e, nessa medida, o momento apropriadamente corriqueiro para que possamos transmitir os valores e as regras segundo as quais queremos conduzir as nossas vidas e pretendemos que os mais novos escolham guiar as suas. Da mesma forma, tanto eu como o Manuel nos fomos habituando a trocar impressões sobre todos os problemas que nos afectam para o que usamos, desde que tal se imponha, todo e qualquer momento em que nos seja dado estarmos a sós e é engraçado como rotineiramente fomos deixando os assuntos relativos aos miúdos e à educação dos mesmos para a intimidade da almofada, naquela hora que dedicamos à leitura se nada mais de relevante há a tratar. Tem sido aí que ultimamente me tem aflorado à memória a figura do meu querido pai e alguns episódios que vivemos, quer enquanto menina e rapariga me ia transmitindo as bases e os pilares do que tanto ele como a mãezinha convencionavam que deveria ser a minha educação, quer já na qualidade de mulher quando com ele conversei a respeito desse mesmo quadro de valores. Parece-me que estou a vê-lo, sentado no cadeirão de que mais gostava, junto da rádio, na sala, tinha aí os meus doze anos e acabara de ser apanhada em falso a propósito de um pretexto que arranjara para ter ido a casa de uma colega ao invés do esperado regresso a casa. É claro que me castigou e lembro-me bem que a punição consistiu no impedimento de passear até ao jardim na tarde do sábado seguinte, como eu muito gostava de fazer com uma amiga de peito de quem vim a perder o rasto e não mais tive notícias. Mas o que me ficou indelével na memória foi a observação que ele fez em torno da mentira, quando me fez ver que a minha atitude tinha sido tanto mais grave quanto era real a falta de necessidade da mesma e, com efeito, rapidamente compreendi que, na relação de confiança que os meus pais tinham comigo, apesar de compreensivelmente haverem situações em que me diziam não, não só se preocupavam em explicar muito bem as razões que poderiam justificar a recusa, como, mais importante, não era aquela de utilização sistemática e omnipotente pelo que não tinha qualquer precisão de usar a mentira para obter aquilo que eventualmente pretendesse. Afinal, o que é educar um filho? Antes de tudo ser rigoroso na definição de regras e justo na aplicação das mesmas, sem deixar de ter presente que aquele desiderato de rigor se materializa em princípios que a criança possa assimilar e cumprir, ou seja, não podendo aqueles assentar em condicionalismos tão absurdos que o infante teria que respeitar como, por exemplo, seria a proibição de brincar ao longo dos dias da semana por causa da escola. Com isso se desarticulam os cenários em que os mais novos se vêm forçados a mentir. Ora como deveria ficar contente o meu querido pai por verificar ser esse um dos aspectos que me levam a dizer termos conseguido erigir o melhor dos mundos para criarmos e educarmos os nossos filhos, uma vez que a miudagem aqui encontra toda a margem de segurança que lhes permite conduzirem os seus destinos juvenis sem a mais leve necessidade do recurso à mentira. E não será esse o primeiro nível em que poderemos aspirar a criar gente de bem? Não fosse isso muito e aqui ainda encontramos o meio ideal para que a gaiatagem tenha a sua fatia de crescimento fora da alçada das asas dos pais e das mães, com o que se podem medir e ganhar mais pontos para a auto-estima e auto-confianças imprescindíveis à formação de uma pessoa autónoma e livre.
Fico por aqui, os braços do meu amor são mais doces e mais importantes que estes registos.

FRESCOS


E as estrelas acompanham
uma confusão ocasional
de passos no passeio,
sem pássaros
apenas o vento nas ramagens.

                             Alhos Vedros, 27/10/1981

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (14)


O Sobrevivente, George Grosz, de 1944, Óleo sobre Tela
RITUAL

Fugiam dele. Todos.
Apenas os pássaros se aproximavam num estranho ritual vestido de azul.
O velho – assim conhecido apesar de o não ser – tinha as pernas cobertas de feridas, das quais escorria um hediondo e perturbador líquido, espesso e verde.
Esperava-se dele um cheiro nauseabundo.
Mas, curiosamente, ficava ali apenas um odor surpreendentemente suave… bom… e sempre diferente.
O velho parecia cheirar a todos os cheiros.
As feridas abertas que viviam nas pernas do velho – assim conhecido apesar de o não ser – deixavam escorrer um repugnante líquido esverdeado e cheiravam a todos os cheiros. Todos eram cheiros bons. Um de cada vez.

Fugiam dele.
Apenas os pássaros se aproximavam, num estranho ritual vestido de azul.

E no fim, todos voltavam. Todos.
Apenas os pássaros se elevavam ruidosamente num azul cumprido de ausências.
Aproximavam-se lentamente.
Sem uma palavra, deitavam-se por ali. Calados… sentindo aquele cheiro, num estranho ritual vestido de verde.
Revelava-se o aroma do tempo ali parado na espera morna da procura.

Um dia, o velho não veio. Ninguém fugiu.
Todos os pássaros caíram do céu. Todos.
Aqui, um pestilento cheiro a morte.

Maria Teresa Bondoso

domingo, 3 de fevereiro de 2013

 
 
 
 
 
                                                                                            

MANEIRAS DE ESTAR, DE SER. (II)
 
Há interrogações que nos visitam para as quais nunca obteremos resposta.
É assim mesmo porque não pode ser de outra forma.
E é assim que está certo.
É o mistério da vida que permite o livre arbítrio, o dissertar, o vaguear pelo território das possibilidades e das interpretações.
Mantenhamo-nos com o grupo de jovens e com a sua expressão de estar.
A moça de tranças, com naturalidade, propôs:
Está uma noite espectacular, vamos fazer música, compor e cantar.
Bora, disse a Carol (percebi que se chamava Carolina mas no grupo chamavam-na assim), telefona aí ao Quico para vir e trazer a guitarra mas precisamos de mais “cenas” só a guitarra não dá.
Um, que se chamava Tó, começou a fazer um charro.
Os outros começaram a procurar. Coisas, objectos, algo que pudesse produzir som, deduzi eu.
Diz ao Quico para trazer o jambé e a harmónica e, se tiver mais coisas, traga o que dê para curtir.
A moça das tranças procurou um número no telemóvel e fez a chamada
Quico, o pessoal tá todo aqui. Anda ter com a malta traz a guitarra e tudo o que dê pra fazer som e consigas trazer. O pessoal quer fazer música e cantar. Vem já.
 
Estava sentado na esplanada, bebendo o meu licor e uma água das pedras e, confesso, completamente absorvido por aquela dinâmica que se estava a criar no grupo.
Foto: Carlos Baptista; Texto: Manuel João Croca

sábado, 2 de fevereiro de 2013

POEMA DA SEMANA - Declamado


As minhas cordiais saudações para todos vós.

TOMAR

A pedido de alguns amigos desta bonita região tenho o prazer de vos oferecer hoje este tributo a Tomar que poderão ver e ouvir em Poema da Semana ou aqui neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Tomar/index.htm

cavaco@sympatico.ca
www.euclidescavaco.com