segunda-feira, 15 de julho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (37)

A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix, 1830
Óleo sobre Tela, 260x325cm

O Povo 
Lembro-me daquele homem e não se passaram
mais do que dois séculos desde que o vi,
não andou de cavalo nem de carroça:
descalço
anulou
as distâncias
e não levava espada nem armadura,
apenas redes ao ombro,
machado ou martelo ou pá,
e nunca espancou o seu semelhante:
a sua luta foi contra a água ou a terra,
contra o trigo para que houvesse pão,
contra a árvore gigante para que desse lenha,
contra os muros para abrir as portas,
contra a areia construindo muros
e contra o mar para o fazer parir.
Conheci-o e não se apaga da memória.
Caíram em bocados as carroças,
a guerra destruiu portas e paredes,
a cidade tornou-se num punhado de cinzas,
transformaram-se em pó todas as roupas,
mas para mim ele subsiste ainda,
sobrevive na areia,
quando antes parecia ser ele
o menos recordado.
No suceder de gerações e gerações
foi por vezes meu pai ou meu parente
ou apenas, sendo ele ou não,
aquele que não voltou à sua casa
porque a água ou a terra o engoliram
ou uma máquina ou uma árvore o deceparam
ou foi aquele enlutado carpinteiro
que ia atrás do caixão, sem lágrimas,
ou alguém que não tinha nome,
que se chamava metal ou madeira,
para quem todos os outros olharam com indiferença
vendo o formigueiro
sem olharem para a formiga
e quando os seus pés não se mexeram,
pois o pobre de tão cansado tinha morrido,
não viram nunca que o não viam:
outros pés havia já nos lugares onde estivera.
Os outros pés eram ele próprio,
as outras mãos também,
o homem renovava-se:
quando parecia já ultrapassado
era novamente ele,
ali estava outra vez cavando a terra,
cortando pano, mas sem camisa,
ali estava e não estava, como dantes,
tinha partido e estava de novo ali,
e como nunca teve cemitério,
nem campa, nem o seu nome gravado
sobre a pedra que britou suando,
ninguém sabia jamais quando chegava
nem soube nunca quando estava morrendo,
de tal maneira que só quando o pobre pôde
ressuscitou outra vez sem ser notado.
Era o homem certamente, sem herança,
sem vaca, nem bandeira,
e não se diferençava dos outros,
os outros que eram ele,
visto de cima era cinzento como o subsolo,
como o couro era pardo,
colhendo trigo era amarelo,
no fundo da mina era negro,
era cor de pedra no castelo,
no barco pesqueiro era cor de atum
e cor de cavalo na planície:
como poderia alguém saber ao certo
se era o inseparável, o elemento,
terra, carvão ou mar vestido de homem?
E onde viveu crescia
tudo quanto o homem tocava:
a pedra hostil,
quebrada
pelas suas mãos,
tornava-se ordenada
e uma a uma formaram
a recta claridade do edifício,
com as suas mãos fez o pão,
pôs os comboios em movimento,
povoaram-se de aldeias as distâncias,
outros homens nasceram,
chegaram as abelhas,
e porque o homem cria e se multiplica
a primavera foi em direcção ao mercado
por entre padarias e pombas.
O pai dos pães foi esquecido,
ele que traçou a terra, pisando
e abrindo regos, acarretando areia,
quando tudo ficou pronto já não existia,
a sua existência ofertava-a, isso era tudo.
Foi trabalhar noutros lugares, e depois
morrer rolando lentamente
Como um seixo do rio:
arrastando pelas águas levou-o a morte.
Eu, que o conheci, vi-o descer
até ser somente o que deixava:
ruas que apenas pôde conhecer,
casas que jamais habitaria.
E volto a vê-lo, e espero cada dia.
Vejo-o no seu caixão ressuscitado.
Distingo-o entre aqueles
que são seus semelhantes
e parece-me que não pode ser,
que assim não chegamos a lado nenhum,
que dessa forma não se conquista a glória.
Eu penso que este homem
Devia estar num trono, bem seguro e coroado,
Penso que os que fizeram tantas coisas
deviam ser senhores de todas as coisas.
E os que fazem o pão deviam comer!
E deviam ter luz os que trabalham nas minas!
Mas chega de tantas coisas sombrias!
Chega de pálidos desaparecidos!
Nem mais um homem que passe sem reinar.
Nem uma só mulher sem o seu diadema.
Para todas as mãos luvas de ouro.
Frutos de sol para toda a escuridão!
Eu conheci aquele homem e quando pude,
quando tive olhos para olhar
e voz para falar
procurei-o entre os campos, e disse-lhe
apertando-lhe um braço que não se desfizera ainda:
«Partirão todos, mas tu ficarás vivendo.
Tu acendeste a vida.
Tu criaste o que era teu.»
Por isso ninguém se enfade quando
pareço que estou sozinho e não estou sozinho,
quando não estou com ninguém e falo para todos:
Alguém me está escutando e não dão por isso,
Mas aqueles que eu canto e conhecem a razão
esses continuarão a nascer e povoarão o mundo.


Pablo Neruda

domingo, 14 de julho de 2013




A RODA DOS DIAS -  II



Pois, é grande a distância de amigo a amigável.


Amigo é mar que  inunda o coração
 onde o ser se banha sem medo ou hesitação.

Amigável é ideia, propósito ou caminho palpável
que hoje se segue mas amanhã talvez já não.

Amigo é para sempre e irrevogável,
amigável talvez não dure mais que um verão.



Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

sábado, 13 de julho de 2013

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM






II

A rainha, o infante e o monge, ou a experiência do chão

Descubra as semelhanças nas diferenças. Ela, a rainha, traz para Portugal o culto do Espírito Santo, casa-se com 11 anos com um rei amante de muitas mulheres, mas também da arte e do reino, pois entre uma trova e outra trova cria no chão o berço onde hão-de ser embaladas as caravelas, como treino para o futuro balanço do mar. A infelicidade conjugal não a faz perder o foco da obra: o serviço, sob manto real. Ele, o infante, sem nunca daqui ter saído, leva o Espírito Santo até ao mundo através de madeira, árvores sobre água, cria um império intemporal de que é rei sem coroa. O terceiro nasce em berço real e vê o seu reino usurpado, o seu povo reprimido, a sua cultura perseguida. Nasce para liderar um reino onde a aristocracia e a religião não se distinguem, e de tudo isso apenas lhe sobram o hábito e os hábitos de monge. E o perdão.
Falo, obviamente, da rainha Santa Isabel, do Infante também Santo e de sua Santidade o Dalai Lama. Falo de três seres humanos considerados santos. Nascidos, todos, em berço de ouro, mas fadados logo no berço pela fada da lucidez e da modéstia. Não lhes subiu o poder à cabeça, souberam enfrentar as adversidades, sonhar, realizar, superar ódios e divergências, dar um passo atrás e colocar-se atrás da sua obra. Nascem grandes, não permitem que o brilho das pedras os ofusque, tornam-se pequenos e assim se elevam a um lugar onde nunca nenhum trono os alçaria.
Foi na primeira semana deste mês de julho que os três tiveram, em dias seguidos, 4, 5 e 6, as suas efemérides. Acaso? Certamente. Dirão. Como posso negá-lo? De que serviria?

Santos? Eu diria… humanos. Verdadeiramente humanos. Uma raça em construção. Como eu quero ser. Quando for crescida. 


Risoleta Pinto Pedro


sexta-feira, 12 de julho de 2013


E V O L U Ç Ã O


Do humano, que hoje sou,
guardo do animal,
o seu instinto,
que determina o meu comportamento.
Do vegetal, a sensibilidade,
que se manifesta nas minhas entranhas,
e do mineral, os ossos,
que me ajudam a caminhar.
Mas amanhã
Vou querer ter asas
para poder voar,
como fazem os Anjos.



antónio


quinta-feira, 11 de julho de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

CASA DE DOIS ANDARES



LUÍS DELGADO

Óleo sobre MDF 60x73

quarta-feira, 10 de julho de 2013

CONHECER-SE


Oiço muitas vezes citar os gregos antigos e recitar aquela fórmula de Delfos que se atribui a Sócrates: «Homem, conhece-te a ti mesmo». Quando oiço isto, não sei se é projecto próprio de quem declama se recado pouco humilde para quem ouve.
Será que alguém quer verdadeiramente conhecer-se a si próprio e mergulhar fundo nos seus sombrios esconsos?
Quem verdadeiramente o queira que o faça, não o diga apenas e não aconselhe os mais. Cada um de nós tem o inalienável direito de acertar ou errar por si próprio, de conhecer-se ou de ignorar-se. Não podemos viver por interposta pessoa nem dizer aos outros o que lhes convém ou não convém.
Conhecer-se é compreender-se. Todavia, não há um ponto de chegada onde possamos dizer: finalmente conheço-me, finalmente compreendo-me. Trata-se de um processo contínuo e interminável, não de um curso em que se acumulam conhecimentos e se obtém boa nota e diploma de prova final.
Tal como não há curso, também não há técnicas nem métodos, porque conhecer-se (compreender-se) não é racionalizar-se. Racionalizar só é útil para obtermos a liberdade de duvidar das crenças que nos incutiram e daquelas que inventámos através da experiência. Toda a crença é um obstáculo da compreensão e quanto mais sagrada a julgarmos mais obstaculizadora ela será.
É pela inteligência do coração que nos compreendemos e o coração, contrariamente à mente racional, é algo de extremamente plástico e mutável que não depende da acumulação de saberes: muda quando mudamos, constrói o futuro de cada dia sem olhar ao peso das gerações mortas. A razão de cada um pouco muda por si mesma, faz-se mais por influência externa do que por vontade própria. É através dela que a autoridade nos condiciona e nos domestica. Na razão habitam todos os saberes, todas as autoridades e todas as eras; na inteligência do coração habita apenas cada um de nós a sós.


ABDUL CADRE  


terça-feira, 9 de julho de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Não caibo em mim de tanta alegria que sinto. O meu trabalho como professora despertou atenções alheias e fez incidir sobre mim o interesse das autoridades responsáveis nestas matérias, resultando daí a proposta e o convite para fizesse ecoar os métodos e procedimentos que tenho vindo a utilizar para levar os alunos a aprenderem os temas e os assuntos que o programa da disciplina de Filosofia aborda, com os quais tão positivos resultados consegui. Não sei como os meus esforços chegaram ao conhecimento desses deuses, mas a verdade é que me saíram da mão um bom leque de estudantes que nas universidades têm brilhado e obtido elevado reconhecimento nas classificações e, uma vez no trabalho, sem excepções, têm atingido desempenhos profissionais que merecem destaque no balanço entre aquilo que fizeram e o que alcançaram. Sei que muitos deles me têm transmitido o quanto a minha influência foi importante no seu crescimento intelectual e académico e não me custa imaginar que isso tenha sido ventilado ao longo de anos até que alguém terá reparado na existência de um denominador comum que, em face do que viam e podiam perceber, pelo menos, interessaria conhecer. Só pode ter sido essa a causa para que no fim da Primavera tenha recebido uma carta de um antigo professor, manifestando o desejo de me reencontrar a fim de lhe poder falar e descrever a minha experiência na actividade docente. Ora isto seria mais que suficiente para que eu me sentisse orgulhosa e ao mesmo tempo recompensada por todo o meu empenho laboral e, embora estranhando, não deixei de ficar encantada pela tarde que aqui passei em tão sábia companhia que, para minha total incredulidade, ali estava à minha frente apenas para me ouvir. No entanto estarei a ser sincera se escrever que de modo algum me passaria então pela cabeça que semelhante satisfação era apenas um começo e que exponencialmente maior seria a que se haveria de seguir quando, umas semanas mais tarde, fui convidada para um encontro com esse mesmo mestre e um alto representante do Ministério da Educação Nacional que me fizeram saber dos seus planos para me propiciarem as condições para um doutoramento na área, com base no argumento, antes de tudo, da relevância da minha inovadora maneira de ensinar a Filosofia, estou a usar as palavras deles, ser conhecida pelos outros docentes e aspirantes à docência e também por isso se enquadrar no objectivo fundamental da reforma com que o novo ministro pretende não só melhorar, como alargar o sistema de ensino ao acesso de um cada vez maior número de portugueses. Escusado será dizer que ia caindo da cadeira, até pelo facto de estar perfeitamente consciente do pouco apreço, para não grafar desconfiança, em que as autoridades, em especial as policiais, têm esta nossa comunidade e, naturalmente, todo e qualquer um dos seus habitantes, ainda mais eu que sou casada com um daqueles que esses esbirros já sujeitaram às sevícias das suas arbitrariedades e prepotências e mãe de um jovem que fugiu à guerra e, na opinião deles, com isso traiu a pátria. Depois não vejo que me possa ser imputado o mais singelo dos actos em que transpareça sequer o mais ténue dos indícios de qualquer simpatia de minha parte pelo regime que, apesar das conversas em família e das declarações de abertura do Professor Marcelo Caetano e das operações de cosmética que transformaram a PIDE numa direcção-geral de segurança, visto quanto ao essencial, permanece o mesmo. Talvez o lente tenha visto uma qualquer mensagem nos meus olhos, o certo é que adivinhando os meus pensamentos ou não, logo ele se apressou a dizer que o Professor Veiga Simão, o novo ministro da tutela, está logicamente mandatado para servir o país e, nesse sentido, não está mesmo nada interessado ou preocupado com as opiniões individuais dos colaboradores, obviamente, não sendo inimigos declarados que se dediquem dolosamente à subversão que procura derrubar a situação, desde que esteja convencido que aqueles que recruta são os melhores e os mais competentes para uma determinada função e só pode ser com esses que ele poderá contar se quiser contribuir para que Portugal seja cada vez mais moderno e desenvolvido. E o secretário de estado acrescentou que eu tinha algo a dar para esse propósito, na medida em que a minha metodologia de ensino poderia contribuir e muito para aumentar a qualidade do trabalho dos restantes professores. E foi então que ouvi a proposta para passar a tese aquilo que até aqui tem assumido apenas um carácter prático. Fiquei atordoada, sem tirar nem pôr. Mal saí da sala, o contentamento explodiu e não descansei enquanto não vi o instante de dar a novidade ao Manuel. E decidi aceitar aquilo que todos os amigos com quem falei me disseram dever ser entendido como uma honra. Ainda não comecei a trabalhar e portanto não sei como e o que irei fazer ao certo. Mas sei que estarei mergulhada num desígnio que seguramente me apagará a disponibilidade para continuar a dar conta destes cadernos e tenho de confessar que o lastimo. No entanto não podemos ter tudo, há ocasiões em que nos vemos forçados a estabelecermos prioridades e esta é uma delas e agora prioritária é a resolução daquele compromisso. Mesmo sabendo que os mais novos estão a expandir os negócios, nas cortiças estão até a operar uma pequena revolução com a produção de rolha e outros produtos e a entrar em novos mercados no norte e centro da Europa, é muito mais importante que me dedique à investigação que a estas croniquetazinhas. Assim sendo, provavelmente não voltarei aqui tão cedo.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (36)

A Mulher do Cabelo Vermelho, Amedeo Modigliani, 1918
Óleo sobre Tela, 46x29cm

A MULHER DO CABELO VERMELHO

O seu cabelo era muito comprido… disposto em caracóis perfeitos e leves.
Como um desenho, talvez emoldurando um rosto que apenas se adivinhava. Alguns haviam já tentado imaginá-lo perfeito na pele e no traço. Outros diziam apenas que algum defeito teria…
O facto é que ninguém parecia estar certo acerca da mulher do cabelo vermelho.
E sempre que alguma conversa se chegava ao assunto, alguém concluía que, embora nunca ninguém a tivesse visto, a verdade é que a mulher não tapava o rosto nem parecia preocupar-se em mantê-lo escondido.
Simplesmente, por circunstâncias várias e que não se chegava a conseguir explicar, acontecia estar sempre de costas ou quase.

A menina tinha seis anos e era muito calada. Todos os dias, sempre à mesma hora, comia três metades de bolacha. A mãe da menina, um quarto de hora antes, embrulhava em papel de alumínio três bolachas com recheio de chocolate. Pouco depois, a menina desembrulhava as bolachas, partia-as ao meio e comia as três metades. A mãe da menina sorria e acariciava-lhe o rosto.
Ele permanecia quieto ao seu lado e abanava ligeiramente o rabo. Acabadas as bolachas, ou as suas metades, o cão levantava-se com ar preguiçoso, cheirava o chão em busca de migalhas e voltava a deitar-se.
A menina sorria e acariciava-lhe o pelo.
O pai da menina chegava então a casa e o silêncio tornava-se imperativo. Dormia, depois de uma noite de trabalho e era preciso deixá-lo descansar. Tinha o sono muito leve.
A menina saía com o cão. E a mãe deixava-a ir.

No fim da aldeia, uma casa cinzenta e grande. Com um muro a toda a volta e um sino dourado junto do portão de ferro. Na placa, liam-se apenas três palavras escritas com letras cuidadosamente desenhadas: «CASA DA BRUXA».
Na maior parte das vezes, as bruxas não o são. São somente pessoas desconhecidas.
Mas aquela bruxa, a bruxa que morava na casa cinzenta e grande, no fim da aldeia, era mesmo uma bruxa a sério. E, sendo uma bruxa a sério, sabia tudo sobre o passado, o presente e o futuro de todas as pessoas daquele lugar. Conhecia cada uma das vidas… como se cada uma delas fosse a sua própria vida. E delas, de todas elas, tinha uma espécie de memória que desnudava o tempo e lhe mostrava o corpo das mentiras. Por isso, todas as pessoas a temiam… na verdade, temiam-na sobretudo por medo de se verem inteiras.

Ali, na casa da bruxa, a mulher do cabelo vermelho nunca ficava de costas.
Ali, naquela casa cinzenta e grande, o seu passado era o tempo de ser criança. O tempo em que a mãe lhe embrulhava três bolachas e ela comia as metades inteiras de cada uma. Era o tempo em que o seu pai dormia e a mãe a deixava sair com o cão.
Ali, naquela casa no fim da aldeia, o seu presente era um tempo em que todas as pessoas a olhavam sem medo e a conseguiam ver.
Ali, na sua casa, o seu futuro era um tempo desconhecido.

Ali, a mulher do cabelo vermelho era feliz e via-se inteira. 

Maria Teresa Bondoso

domingo, 7 de julho de 2013

M I R A D O U R O





A RODA DOS DIAS




A madrugada sucede à noite antecede o dia

Como a água que sacia vem da nascente

Amigável é apenas um tom que aproxima a utopia

Que Amigo completa em sinfonia na alma da gente. 






Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

sábado, 6 de julho de 2013

Plantas que Curam



Alfinetes

Tenho escrito sobre centenas de plantas logo que elas me apaixonam ou despertam a minha sensibilidade. Para aquelas que conheço de “ginjeira” e trato por “tu”, a tarefa não tem apresentado dificuldades de maior. Os problemas surgem quando aparecem plantas que me espicaçam, que me desafiam, que por radiestesia própria me evidenciam validade, mas que eu, humilde amador de botânica, não vislumbro ponta por onde lhe pegar. A história que vou contar tem anos e só agora consegui dar-lhe seguimento.

Amigos muito chegados convidam-me assiduamente para ir, no mês de junho, à Festa da Cereja em Alcongosta (Fundão), na encosta sul da Serra da Gardunha. Escusado será dizer que quase todos os anos é um fartote (ver a Cerejeira no livro “As Plantas Nossas Irmãs”) em que a figura central é o afamado fruto redondo e vermelhinho e a sua cada vez maior aplicabilidade gastronómica. Ora num dos acessos ao centro histórico da pitoresca aldeia, ano após ano, encontro sempre num escarpado muro, ramalhetes de flores escarlates que me cumprimentam e tentam “conversar” comigo. Por princípio, não falo com “desconhecidas” para não lhes dar confiança, mas desta vez, decidi-me a aprofundar o relacionamento. Colhi um raminho e procurei na minha já vasta biblioteca algo que me proporcionasse a identificação de tão simpática flor. Trabalho árduo mas que deu resultados, como vamos ver.

A planta em questão é de boas famílias. Trata-se de uma valerianácea que dá pelo nome de Centranthus ruber. De facto, eu já conhecia uma sua irmã, de flores brancas, que abunda na Arrábida, a Centranthus calcitrape, que de resto, vem até mencionada no livro “Flores da Arrábida” do saudoso José Gomes Pedro. Contudo, jamais tinha visto espécies de “calcitrapas” tão vistosas como aquelas da Gardunha.

Identifiquei-a pela primeira vez num livrinho que a minha esposa me deu de presente quando esteve em Praga e que, embora redigido em língua checa, possui fotografias soberbas com os respetivos nomes científicos. A partir daí, confirmei-a em “Plantas Medicinales” e “Plantas del Mediterráneo” de Dieter Podlech, em “Wilde Bloemen” (flores silvestres, para quem não sabe holandês) e em “Ornamental Plants of Malta” que adquiri há alguns anos quando visitei essa ilha mediterrânica. Referências em português, só as achei no opúsculo “Nomes Vulgares de Algumas Infestantes e Respetivo Nome Botânico” de Fátima Rocha, publicado em 1979 pela Divisão de Infestantes da Direção Geral de Proteção Agrícola, onde é apresentada com as designações populares “Alfinetes” ou “Cuidado-dos-homens” (que raio de nome!). Aqui os espanhóis foram mais felizes, chamam-lhe “Milamores” e os anglo-saxónicos, também muito amorosos, “kiss-me-quick”.

A Centranthus ruber é uma ruderal, oriunda da europa meridional e ocidental, que medra em muros e escombreiras nitrificadas. Tem caule cilíndrico, ereto e ramificado que logra atingir 1 metro de altura, mas que é frágil, partindo-se com facilidade. As folhas são glabras (verde azuladas), brilhantes, carnosas, irregularmente dentadas e opostas em que apenas as basais são pecioladas. Apresentam-se de forma oval ou lanceolada com nervuras bem definidas, terminando em ponta. As flores, de vermelho vivo, são hermafroditas (na mesma unidade coexistem órgãos masculinos e femininos), formando densas e deslumbrantes umbelas. O fruto tem a forma de aquénio e as sementes contêm tufos, à semelhança do dente-de-leão, que se dispersam através do vento. Gosta dos solos alcalinos e de zonas soalheiras, resistindo bem ao frio, a moléstias e ataques de insetos predadores. As flores são atrativas para abelhas, diversas espécies de borboletas e outros polinizadores.

A beleza e versatilidade desta valerianácea tornou-a muito apreciada e valorizada como planta de jardim, acabando por se naturalizar em várias partes do mundo. Na província do Cabo (África do Sul) é mesmo considerada uma espécie invasora.

Dizem os livros consultados que a referida planta integra interessantes substâncias ativas à semelhança do que acontece com a sua irmã valeriana, de onde se extraem elementos para os remédios contra o nervosismo. A casca do rizoma concentra substâncias com ação sedativa e as folhas têm propriedades antiescorbúticas e antinevrálgicas.


Curiosamente, e a despeito do sabor amargo, as suas folhas são referenciadas como comestíveis, quer cruas, em saladas mistas, quer cozinhadas em sopas de vegetais. Na província da Ligúria (Itália) são uma das componentes da célebre sopa de ervas denominada preboggion. Esta sopa típica, usada especialmente na época da quaresma, é confecionada com as folhas jovens e tenras de diversas plantas silvestres, como a borragem, a serralha, a acelga, o almeirão, o dente-de-leão, a urtiga, a pimpinela, a silene e a leituga, entre outras. A estas ervas junta-se ainda salva, alecrim, alho, azeite, queijo ralado e batata. Dizem que as características organoléticas deste pitéu são inolvidáveis. Ainda um dia havemos de experimentar!


Miguel Boieiro



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Livros d'África



“O FEITIÇO DA RAMA DE ABÓBORA”. Delicioso título este que, só por si, dá vontade de ler. Trata-se de uma publicação de 1996 da Editora Campo das Letras. O autor Tchikakata Balundu, pseudónimo de Aníbal João de Ribeiro Simões, nascido em 1955 na aldeia de Chilume na província do Huambo, transporta-nos para uma Angola rural, tema pouco abordado na literatura angolense mas que, ainda assim ou talvez por isso, ganhou o Prémio Sonangol de Literatura em 1991. Ainda sobre o autor deve dizer-se que, até 1990, foi docente de Psicologia na Universidade Agostinho Neto e que, neste momento, já terá terminada a tese de doutoramento em Psicologia da Educação na Universidade do Minho.
A história pode resumir-se assim: anos antes da chegada dos europeus ao continente africano, dá-se numa aldeia um acontecimento imprevisto: um aldeão obtém do exterior gado bovino da raça barrosã. O facto desencadeia vários conflitos que culminam com a desgraça de um dos filhos: Cisoka. Este, enfeitiçado com a rama de abóbora, fica privado de memória.

O jovem descreve deste modo a sua desventura: “Chamo-me Cisoka, filho de Ciwale e Esendje, a quem os homens lançaram ao corpo o feitiço da rama de abóbora; a abóbora que cresce no arimo; o arimo que amaldiçoou a maldade dos homens; os homens manchados com o mal por terem visto o gado; o gado obtido na terra dos homens que andam no mar.”

E quem melhor que José Luandino Vieira, o prefaciador deste livro, para nos explicar/resumir o que de facto se passa? Eis parte das suas palavras: “(…) E não um feitiço qualquer, desses curiais para facto ou situação avulso na vida quotidiana do angolano, o sabido e consabido. Mas o poderoso, o raro, o quase absoluto: o feitiço da rama de abóbora.
A um feitiço desses não se exige palavras. Dele nos damos conta não por nos dizerem, denuncia. Só no descomportamento da comunidade se revela o que é, para todos, loucura do enfeitiçado. Simultaneamente é clareza, lucidez, luz que desvela e revela actos, acções e peripécias, próprias ou alheias, a seus próprios olhos. Um homem em busca da sua identidade profunda pode por vezes esquecer o que parece óbvio: o feitiço da rama de abóbora lhe foi posto pela posse pura e simples, em sua família, de riqueza proveniente de bois estrangeiros, bovinos de raça barrosã, animais originários dessa terra dos homens que andam no mar…”.

Cuidado, muito cuidado com o feitiço da rama de abóbora!


Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 4 de julho de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

CASAS VISTAS DE CIMA
 


LUÍS DELGADO

Óleo sobre MDF, 61 x 81
 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cascais 90


a meu amor aqui tão perto em Agosto, Solange,


boa tarde talha da alegria no teu conventinho da arrábida
de lá voo para ti, ao mercado de Cascais, uso o tempo em
que te amo o passado fez-te aqui em Agosto, o mês da casa
da esperança no caminho certo dos teus seios, vibro por um
momento de trajecto da tua alegria no meu regaço amor
amo-te tanto que não sei como dizer, disseram-me, és o
rosto disso quando lutas por um global novo, Itabira vai-te
libertar, já sinto o teu olhar de mel e amendoa e o teu canto



José Gil
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com

terça-feira, 2 de julho de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



O senhor Abel e a dona Noémia são duas pessoas extraordinárias, alegres na vida, felizes na humildade de mentes abertas ao reconhecimento da vontade de aprender, permanentemente, pois se é verdade que ninguém tudo pode saber, não o será menos a verificação de estar ao alcance de qualquer o constante avolumar dos conhecimentos, seja em alguma área especializada ou no domínio da sabedoria da vida, em geral, o aceitar que se erra e o querer corrigir, muitas vezes para errar de novo, mas não na repetição do mesmo e a persistência costumeira de emendar novamente, sempre melhorando aqui e ali, sabendo mais hoje que ontem. Nem toda a gente assim é e muitos são os arrogantes que se deixam envelhecer em certezas, invariavelmente com os seus cortejos de desgraças quando em consequências infelizes se vão vertendo sobre destinos terceiros. Não é o caso deste que eu, desde a primeira hora, senti ver como uma espécie do irmão mais velho que nunca tive e com quem, afinal, o Manuel se habituou a pensar em voz alta, naqueles momentos em que não temos pistas nem referências para percebermos a escolha certa num dilema qualquer. Como não poderia deixar de ser no derivado de uma serenidade tão profunda como é a deles, com o acréscimo da fresca doçura de estarem habitualmente divertidos, como poucos, prontos a gargalhar até a respeito das suas próprias fraquezas e deficiências. Ainda que possamos estar a tratar os mais delicados assuntos, raramente não são de boa disposição as ocasiões em que usufruímos do convívio destas pessoas tão maravilhosas, quer estejam eles juntos, quer estejam em separado, no isolamento decorrente da respectiva individualidade. Eles deram largas ao sonho de quererem conhecer o país, aquele velho desígnio de não quererem deixar este mundo sem que, pelo menos, vissem uma boa parte da terra em que nasceram e em que se fizeram alguém e levaram a cabo todo o percurso dos seus dias. Pessoalmente jamais duvidei que ambos se fizessem à estrada, muito embora tenha havido quem tenha dito que não seria com esta idade que o homem se iria pôr a conduzir sozinho tantos e tantos quilómetros, no entanto, certo e sabido foi eles terem desenhado no mapa das estradas um longo roteiro que os levou daqui até Bragança, numa longa volta que passou por Viseu e Lamego, atravessou o Douro em Castelo de Paiva e daí subiu para Vila Real e, pelas curvas e contra-curvas do Marão que no dizer agoniado dela não mais acabavam, lá acabaram por chegar à capital de Trás-os-Montes e Alto Douro de que não se cansam de gabar a beleza enquanto cidade, bem como da região circundante. É vê-los e ouvi-los relatando as peripécias de quem fez as serras a passo de boi e o coração entre as mãos que o suor atrapalhava as pernas obrigando a paragens de recuperação e de socorro aos enjoos da mulher a quem, especialmente, toda aquela nervoseira requeria descargas regulares da bexiga por esses campos fora, ao ponto de, já na etapa de regresso, terem demorado um dia inteirinho para chegarem a Macedo, onde a escuridão os fez pernoitar. E tudo isto sem contar com os volta atrás das vias mal sinalizadas e das erradas interpretações cartográficas que, pela narrativa dos próprios, foram papoilas em terreno de pousio. Pois terá sido isso que os levou a redefinirem os seus planos de vadiagem sem com isso beliscarem os intentos de satisfazer o desejo de conhecer as paisagens e os rostos dos portugueses. “-Desistir é que nunca.” –Expressa ela, de indicador esticado, a máxima que também ele toma por boa e de que brotou a proposta que apresentaram na nossa escola para que se enquadrem uma série de passeios temáticos que eles contam pôr em prática através da associação e com o secretariado e a colaboração dos mais jovens, no âmbito de visitas de estudo de apoio às diversas disciplinas de todos os anos de escolaridade que aqui garantimos e que vai até ao ciclo final do liceu. Eu tenho imenso orgulho em ter por amigos dois seres como eles são que, tendo em vista a realização de um gosto particular, não deixaram de procurar conjugar isso com o bem e o interesse comum e tiveram a inteligência suficiente para delinearem uma maneira de não só tornarem uma actividade lúdica mais atractiva, como o alcançaram na materialização de algo proveitoso para os mais novos e até para os adultos que os acompanhem igualmente isso se aplica. Foi o que o senhor Abel conseguiu com a prestação que decidiu desenvolver na associação com que deu início a dois programas distintos, o primeiro com duas saídas já concretizadas e o segundo com a primeira em cartaz. Assim, para os miúdos da escola primária que, sob supervisão das mestras elaboram trabalhos a respeito do sítio a visitar e da época a que o mesmo respeita, arrancou com o roteiro dos castelos de Portugal que, para eles, será um meio de visitarem cidades que ambicionam conhecer e, para os mais crescidos, conceberam um conjunto de visitas guiadas aos mais variados locais de interesse para os programas disciplinares que se inaugurará com um dia na barragem do Castelo de Bode, com uma breve lição sobre a importância económica deste género de infra-estruturas e uma observação acompanhada e didáctica sobre o funcionamento daquele colossal equipamento e todo o circuito de produção de energia.
Fosse essa a vontade dos homens e o mundo poderia ser um paraíso, mas é por esta estirpe de massa humana que, pelos tempos, permanece essa utopia.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (35)

A Assassina, Munch, 1906
Óleo Sobre Tela, 110x120cm
INÊS

- Hoje ainda tenho de ir à loja comprar uma prenda para o miúdo do Torres.
- O miúdo do Torres faz anos?
- Sim, faz anos…
Ele olhou-a de soslaio e fez um pequeníssimo esgar de desdém. Ela ergueu os olhos, olhou para ele de forma leve e intuiu, do olhar dele, algo de estranho…

Jantaram, como habitualmente, repartindo tarefas. Mãe e filha falavam de coisas insignificantes até que o Francisco acabou de dobrar minuciosamente a toalha de baixo e se sentou a ler. 

Luísa sentou-se com a Inês. Apesar de cansada, sabia que tinha mesmo de a ajudar a estudar para o teste de Língua Portuguesa. De forma quase automática, mãe e filha foram desenrolando a matéria que supostamente iria sair no teste do dia seguinte. Pelo menos, segundo a Ivone, da turma B, que já fez teste com a professora Marta.
- Quantos parágrafos tem o texto?
- Cinco.
- Quantas frases há no segundo parágrafo?
- Cinco.
- Que sinais de pontuação marcam os finais das frases do texto?
- Pontos finais, pontos de interrogação e pontos de exclamação.
- Justifica a utilização de dois pontos no final do quarto parágrafo.
- Mãe, hoje a professora Marta perguntou ao pai se tu já tinhas chegado da Bélgica.

Ela olhou-o de soslaio e fez um pequeníssimo esgar de desdém.
Ele ergueu os olhos de forma leve e imediatamente intuiu, do olhar dela, algo de estranho…
- Sim?
- A Marta falou contigo?
- A Marta?
- Sim, a Marta!!!
- Qual Marta? Eu não conheço nenhuma Marta… Tu andas um pouco distraída, não? Deve ser por causa do Torres.
- Distraída, eu? Então? Tu é que pareces andar esquecido… Vê lá tu que nem sabes quem é a Marta. Não te convém…
- Mau!!!
- Mau, digo eu!!!
- Olha, vai … ai, se não estivesse aqui a Inês…

A miúda olhava de soslaio para os dois.
E eles nem chegaram a perceber que a Inês trazia na mão a arma do pai.

O tiro foi rápido e mortal.

Teresa Bondoso