Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Nasruddin, o mestre-escola e os ratos de laboratório
José Flórido
Estamos condicionados. E dificilmente somos capazes de nos libertar deste condicionamento e pensar por nós próprios. Pois, tanto é peso do meio envolvente, que exerce sobre nós uma influência asfixiante! Por isso, aquilo que vulgarmente se chama "cultura" não passa muitas vezes de um somatório de conhecimentos dispersos, desordenados e sem dimensão espiritual. Uma espécie de "culto das exterioridades"... (sobre isso, teremos ainda muito que falar...)
Gurdjieff advertia frequentemente os seus discípulos dessa realidade. E referia-se ao facto das bibliotecas conterem muitos milhares de livros, escritos por "adormecidos" para outros "adormecidos". Assim, o sono pega-se com facilidade e é quase impossível acordar. É que este "saber", de que tanto nos orgulhamos, apresenta-se muitas vezes divorciado da vida, sobrevalorizando determinadas realidades em detrimento de outras. Vem então a propósito esta história:
"Um dia, quando Nasruddin ajudava um mestre-escola a atravessar um rio de barco, disse, a determinada altura, uma palavra errada, que mereceu imadiatamente a reprovação do professor:
- Nunca aprendeste gramática? - perguntou o mestre-escola ao barqueiro.
- Não - respondeu Nasruddin.
- Então, perdeste metade da tua vida.
Mas, alguns minutos depois, foi a vez de Nasruddin perguntar:
- O senhor nunca aprendeu a nadar?
- Não - disse o professor.
- Então, vai perder a vida toda, porque vamos afundar-nos.
Estamos realmente condicionados. E, por isso, a nossa vida assume muitas vezes um aspeto puramente convencional e até mesmo "mecânico". As nossas palavras, os nossos gestos, os nossos atos são mecânicos, repetitivos, perdendo a espontaneidade e a criatividade. Por esse motivo, temos de estar "vigilantes" se nos queremos libertar, pelo menos parcialmente, desse condicionamento. Os nossos atos provêm de solicitações do mundo exterior que exercem sobre nós um domínio tirânico. Tanto as nossas ideias como as nossas ações são, por assim dizer, "fabricadas", de acordo com os interesses e os objetivos da organização social onde estamos inseridos. Tudo isto nos leva a pensar que não são unicamente os ratos de laboratório que podem estar "condicionados" (segundo a experiência de Pavlov e a sua teoria dos "reflexos condicionados"). Também o homem pode estar "condicionado". Por isso, o psicólogo inglês, Hans Eysenck, parodiando a experiência de Pavlov, contava uma engraçada anedota sobre o rato de laboratório que dizia para o outro rato: "Sabes... tenho um homem muito bem "condicionado". Sempre que carrego nesta alavanca, ele deixa cair um pedaço de comida para mim."
joseflorido.weebly.com/textos
9/12/2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA
Entrevista com o Professor Vitorino Magalhães Godinho, no “Público” de hoje, o investigador que trouxe a História feita por portugueses para o mesmo nível de modernidade do trabalho que se fazia na Europa Ocidental.
Homem vertical, sofreu a perseguição da ditadura obtusa que subjugou os portugueses. Nem mesmo a sua reconhecida competência científica o livrou de ser expulso da Universidade de Lisboa onde leccionava. Mas resistiu e nunca se vergou perante a tirania.
Agora, com oitenta anos, sente-se triste com o mundo que vê à sua volta.
Diz que a democracia já não existe e que o capitalismo está dominado por grupos poderosos que impõem os seus interesses aos estados. (1)
Visão sombria?
A merecer reflexão, no entanto.
Fala-se em quebra de três mil milhões de euros na cobrança de impostos, em dois mil e três, especialmente ao nível do IVA e do IRC.
Em Portugal, os mais pobres continuam a suportar as melhorias na vida que a todos beneficiam.
Hoje os alunos aprenderam uma nova palavra, uva, a respeito da qual fizeram os exercícios do dia.
Mas amanhã será o último dia útil de escola.
Na quarta, de acordo com a comunicação que o pardalito me deu para assinar, haverá apenas uma festa durante o turno da manhã.
Depois… Vivam as férias!
Sexta-feira, às dezoito e trinta, serão as reuniões de avaliação.
Saddam Hussein deverá ter a possibilidade de um julgamento justo.
Deus nos ilumine com a sua infinita sabedoria.
Alhos Vedros
15/12/2003
NOTA
(1) Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, p.38
CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, Entrevista por Carlos Câmara Leme, In “Público”, nº. 5016, de 15/12/2003
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
REAL... IRREAL... SURREAL... (233)
No Moinho de Maré de Alhos
Vedros a Cacav
Círculo no ano em que comemora 30 anos de
existência abre portas à exposição de uma selecção de trabalhos realizados no
projecto ÁGORA desenvolvido pelo Serviço Educativo do Museu Coleção Berardo.
Depois da exposição que esteve presente no Museu, chegou a hora de a Vila de
Alhos Vedros ver o que esta gente criativa andou a fazer.
Fabricia Valente
Aberto das 14h30 às 18h30,
todos os Sábados, até 28 de Janeiro, excepto Natal e Passagem de Ano.
Selecção de António Tapadinhas
sábado, 10 de dezembro de 2016
A flor da pele
Estou a flor da pele
Conto os nanossegundos
Os minutos ignotos
As cinzas das horas
E os dias hialinos
Tempo que nunca passa
Martírio que nunca passa
***
No sábado negro
Sábado meu
Sábado nosso
Magnânima amada minha
***
Conto o tempo
Os nanossegundos
Os minutos
As horas
E os dias
Para ter-te sacrossanta
Por fim
Nos braços meus
Negra Valquíria
***
Conto o tempo infindo
Os nanossegundos
Os minutos
As horas
E os dias
O tempo que não passa
Para ter-te
Negra açucena em prantos
Somente para mim
No dia que nunca chega
Samuel da Costa
(in, diálogos_lusófonos@yahoogrupos.com.br )
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
"Aspecto Interior do Sacrifício" (excerto)
Agostinho da Silva (1906-1994)
[...] “O desprender-se da segurança e da comodidade, o mergulhar na incerteza e na dura restrição só para continuar fiel às bases em que assentou o pensamento e se quis fundamentar toda a vida é já a certeza, para aquele que verdadeiramente serve o espírito, de que segue o bom caminho, de que a sua posição adversa à grande massa é ainda aristocrática, isolada, como é preciso que seja. O cumprimento do dever, quando se não chama dever a uma imposição feita de fora, mas a uma aspiração sempre mais larga à posse de todo o mundo racional, jamais poderá ser olhado como um sacrifício que exige recompensa; antes me parece que uma tal oportunidade de ter experimentado as suas forças e vencido mais um grau na imensa e bela subida para o Ser apenas deveria provocar, nas relações com os outros, uma gratidão sincera e sólida por todo o conjunto de circunstâncias que permitiu o provar e ascender. [...]
Há, no entanto, um outro aspecto que sobreleva em significação universal esta fidelidade de indivíduo a si próprio; o domínio do impulso dos sentimentos pelo calmo giro da razão é um esforço que leva o mundo para Deus, como as pancadas dos remos fazem deslizar o barco sobre as águas; no bom remador nenhum movimento é inútil para que o porto se alcance; de igual modo, no que bem pensa, nenhum acto da vida se perde para a salvação da Humanidade; e mais do que todos, dão marcha vigorosa ao barco em que vogamos, os que ousaram as mais largas remadas, os que não temeram estoirar os músculos ao serviço do bem comum. No que mais vê objecto que sujeito anda espalhado o fim último dos homens: inteligência que em si compreende amor, beleza e justiça; consagrar-lhe a vida inteira, num momento ou em anos, é repartir-se por toda a Humanidade, arder nas várias chamas que de todos os peitos se elevam para o céu, congregá-las no fogo do trabalho que transformará o universo. A esta grande missão só uma linguagem desvairada poderá chamar sacrifício, só os cegos de espírito poderão dar por companheiras a resignação e a tristeza. Os que vêem mais alto e mais claro ardentemente desejam que sobre eles recaia a escolha do Senhor; porque sabem como as almas se dilatam, como as invade, as ilumina a alegria contínua e doce, quando sentem palpitar dentro de si, correr, expandir-se o grande mar de sonhos, de visões, de caridade e aspiração de justiça, que vai rolando poderoso e magnífico no mundo.”
Agostinho da Silva, Considerações, in Textos e Ensaios Filosóficos, vol I. Lisboa, 1999, Âncora Editora, pp.97,98 (Considerações - texto publicado pelo autor, 1ªedição, Famalicão, 1944)
(Nota do editor: Texto extraído do Boletim "Folhas à Solta", nº68, da Associação Agostinho da Silva)
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA
A PRISÃO DO TIRANO
Finalmente, tudo aponta para que seja uma notícia verdadeira, Saddam Hussein foi preso.
É uma vitória dos aliados que deixa todos os democratas satisfeitos. Ainda que mereça um julgamento justo, um tirano como ele só terá a piedade dos acólitos.
Mas é sobretudo uma vitória do povo iraquiano.
Naturalmente, não terminarão aqui os atentados terroristas sobre as forças militares que procuram assegurar a estabilidade naquele território. Será mesmo de esperar que haja um aumento das acções militares nas próximas semanas. Quer aquilo que a partir de agora restar das forças leais ao ogre, quer os voluntários da Al-Qaeda que ali fazem a sua jhiad, ambos esses campos confluirão numa tentativa para aumentarem o flagelo das tropas e forças de segurança aliadas. Com toda a certeza, quererão mostrar que continuam vivos e actuantes.
Mas esta captura tem um valor colateral da maior importância para os iraquianos. É que do ponto de vista psicológico, a população pode agora perder o medo e isso será fundamental para o seu empenho no processo de reconstrução do país. Agora todos sabem que o antigo regime está morto, será enterrado e não mais voltará.
Além disto, há um outro efeito mais imediato e directo do ponto de vista militar. Sem o líder supremo e carismático, será mais difícil para os homens do partido baas continuarem a pôr em prática a sua resistência armada e, ao invés, os aliados terão assim mais e melhores oportunidades para desmantelarem esses focos de instabilidade. Com isso, ficarão no terreno apenas os terroristas da Al-Qaeda e o tempo encarregar-se-á de os isolar face aos iraquianos que, habituados como estão a um estado laico, preferirão uma vida normal e não aquela que a sharia lhes impõe.
Se bem que por agora a guerra continue, tal como a batalha do Iraque ainda não tenha findado, este é, sem dúvida alguma, um passo importante na senda da pacificação daquele território.
Pela minha parte, enquanto elas brincam com a amiga Beatriz, vou passar o resto da tarde com os olhos nos canais de notícias internacionais.
O Presidente Bush fará uma comunicação às dezoito horas de Lisboa e Tony Blair já falou mas eu não ouvi.
Mas isto já é suficiente para que este tenha sido um fim-de-semana emocionante.
Cá estou eu de volta depois de uma tarde de notícias e leitura de Amartya Sen.
Pois parece que o homem foi mesmo apanhado.
“-Ladies and gentlemen. We got him.” –Disse Paul Bremen, logo na abertura da conferência de imprensa em que esta manhã mencionou o feito que terá ocorrido ontem, de madrugada.
“-United States military forces, captured Saddam Hussein alive.” –Disse mais tarde o Presidente George W. Bush na comunicação que fez ao seu país e ao mundo.
Por todo o Iraque se registam imagens de regozijo popular.
Agora sim, o povo sabe que o tirano não mais voltará ao poder.
“-O Rei Herodes ainda foi pior. Mandou matar os meninos todos.” –Disse a Matilde quando, à mesa do almoço para que fomos convidados, em casa dos meus pais, se comentou a prisão do tirano.
Para os meus amores, hoje foi um dia de repouso, com brincadeiras e jogos na infância e jornais na idade adulta.
Esta noite vamos orar pela paz no Iraque.
Alhos Vedros
14/12/2003
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
REAL... IRREAL... SURREAL... (232)
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Olhão, Autor António Tapadinhas, 2008
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XXVI - Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!
Alberto Caeiro
Selecção de António Tapadinhas
sábado, 3 de dezembro de 2016
IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis)
IMI
REGIÃO BAIXA TAXA MAS MANTÉM O IMI MAIS ALTO DO PAÌS
A tendência de redução das taxas do imposto já é visível, ainda assim, Setúbal é o distrito com a taxa média mais alta do país. E há apenas um município com a taxa mínima: Alcácer do Sal
Caros amigas, caros amigos:
Está cada vez mais presente na vida (e no bolso) dos munícipes um imposto, que, por sinal, considero bastante injusto na forma como é aplicado entre nós: trata-se do IMI.
Isto na medida em que, para a determinação da taxa a aplicar, não tem em conta, nem a protecção da casa de família, nem a composição do agregado familiar: concretamente o número de filhos.
É verdade que foi criado o IMI Familiar, mas é facultativo (só o aplicam as câmaras que o quiserem fazer), e contempla valores de desconto irrisórios.
Mas dentro da grande injustiça que representa, em geral, entre nós, a aplicação do IMI, talvez não saibam que a sua aplicação no todo nacional (nas 308 câmaras do país) é muito díspar.
Mas não só este facto está bastante ofuscado pela falta de informação, como há muito ruido e desinformação sobre este imposto, isto como forma de confundir as pessoas.
Para o contrariar, nada melhor do que analisar, tratar e apresentar os dados obtidos, esclarecendo, assim, quem quiser ser esclarecido.
É o que procurei fazer nos dois artigos que publiquei dia 15/11 no Diário da Região n.º 1250 (páginas 6 e 7).
Pode lê-los aqui:
Nestes artigos há 4 quadros que contêm a informação essencial, e, para melhor neles se analisar os dados que coligi, destaquei-os, o que permite a cada um dos leitores imprimi-los facilmente.
Podem aceder aos 4 quadros aqui:
Quadro 1:
Quadro 2:
Quadro 3:
Quadro 4:
Boa leituras.
Manuel Henrique Figueira
Munícipe em Palmela
terça-feira, 29 de novembro de 2016
O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA
LÁ SE FOI A CONSTITUIÇÃO
O regime democrático está bloqueado. As alternativas são muito simplesmente mais do mesmo. Na medida em que o estado de direito está completamente estiolado, a liberdade de informação condicionada que está pelos interesses dos grupos mais poderosos, ouso dizer que a democracia acabou, entre nós. O que se passar daqui para a frente será um embuste, a farsa que visa permitir apenas a continuidade do usufruto dos cabedais e prebendas que o poder oferece. Até que a situação expluda, seguramente na rua, seja sob que forma for e daí se passe a um estado mais ou menos policiado ou a uma nova tentativa de organizar a sociedade democraticamente.
Foi esta a tragédia que o salazarismo nos legou.
Uma população mal formada, deficientemente iletrada e sem grandes hábitos de autonomia perante os poderes.
Apesar das tardes serenas com que o fim de Outono nos presenteia, quando a luz vence o cinzento da névoa deixa que o azul da água do estuário brilhe diante do verde que percorre a outra margem.
A Matilde está agora a ensaiar uma peça em que vai participar no contexto das suas aulas de catequese.
A miúda tem hoje uma agenda cheia.
Depois da natação, ao fim da manhã, logo, após o jantar, ainda irá apresentar um esquema no sarau de ginástica, na “Vélhinha”.
É engraçado de ver como este meu amorzinho, tão propenso à brincadeira e sempre disposta para uma boa gargalhada, leva a sério as suas obrigações que procura cumprir com zelo, para além de manifestamente sentir-se orgulhosa quando o faz bem.
Meandros da felicidade.
E a cimeira de Bruxelas não aprovou a constituição europeia.
Por isso não virá mal ao mundo.
Quanto a mim, há ainda um longo caminho a percorrer antes que os povos europeus se possam unir através de uma constituição.
Continuo a achar preferível a via dos pequenos passos que mesmo perante a realidade do euro, está longe de esgotada no plano meramente económico. Pois é por aí que os nossos governantes deveriam prosseguir, aprofundar o mercado único e as relações sociais que a partir daí se estabelecem, bem como deixar que a livre circulação de pessoas e bens se sedimente e produza a mistura entre populações distintas. Quando for normal iniciar a escolaridade em Alhos Vedros, fazer a Universidade em Londres e ir trabalhar para Helsínquia, então estou certo que os europeus estarão prontos para uma constituição. Até lá, não seria mau de todo se se fossem lançando as bases de um estado de direito comum e ainda as de uma política externa igualmente comum e de umas forças armadas da União.
Bem, por hoje termino.
No serão da noute, lá irei eu cumprir o papel de repórter fotográfico.
Alhos Vedros
13/12/2003
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
REAL... IRREAL... SURREAL... (231)
sábado, 26 de novembro de 2016
Verbasco
por Miguel Boieiro
Já imaginaram como seria penoso o quotidiano dos humanos no
alongado período que antecedeu a época moderna? Suponhamos que vivíamos na
Europa em plena Idade Média. Não havia batata, nem milho, nem tomate, nem
abóboras, nem feijão, nem café e o açúcar era uma especiaria só ao alcance dos
nobres ricos. A conservação dos alimentos era feita com sal, o qual também
atingia valor elevado. O único picante conhecido era a mostarda, de sublimada
importância, porque “escondia“ o mau sabor dos alimentos deteriorados. E como
faziam os nossos antepassados quando, “após darem de corpo”, queriam limpar o
rabiosque, o rabo, as partes traseiras, o “sim-senhor”, ou outro nome mais
apropriado que lhe queiram dar? Estou-me a referir, é evidente, apenas aos mais
asseados. Papel higiénico não havia, nem sequer jornais e os míseros trapos
eram reservados às rudes vestimentas. Como fazer então?
E eis mais uma função, hoje esquecida, das plantas nossas
amigas. A gente dessas remotas eras servia-se dos vegetais que medravam nos
campos. Era necessário escolher as folhas mais macias e sedosas para o efeito
desejado, pois muitas eram ásperas e arranhavam os alvos traseiros das
criaturas. É aqui que entra em cena o verbasco, planta que tinha muitas
aplicações, como iremos ver a seguir.
O Verbascum thapsus,
herbácea da família das Scrophulariaceae é,
quase sempre bienal. No primeiro ano, forma uma roseta basal com grandes folhas
grossas verde acinzentadas, cobertas de penugem e macias como flanela. Como se
calcula, elas eram ideais para a função acima mencionada. Os catalães
puseram-lhe o nome de “trepó”, pois a configuração das tais folhas faz lembrar
as tripas dos mamíferos. No segundo ano, a planta deita um caule lanoso, ereto
e vigoroso que chega a alcançar dois metros de altura. É ao longo desse espigão
que se formam as pequenas flores, quase sésseis, de amarelo claro, com cinco
pétalas e cinco sépalas. As folhas ovais e ligeiramente lanceoladas são
alternas e bastante mais pequenas do que as basais do primeiro ano, mas
igualmente cobertas de pelinhos brancos ou prateados. Os frutos são cápsulas
cheias de sementes castanhas que não chegam a ter um milímetro de diâmetro.
O verbasco é nativo da Europa, Norte de África e Ásia Menor
mas hoje está disseminado pelos vários continentes. Gosta de sol e de terrenos secos
e pedregosos. É frequente no nosso país à beira dos caminhos serranos. Na serra
da Arrábida surge em abundância. O reputado Engº José Gomes Pedro no seu “Guia
de Campo – Flores da Arrábida” menciona o Verbascum
sinuatum (verbasco-ondeado) que é basicamente idêntico à espécie thapsus. Aliás, saliente-se que existem
no mundo mais de 300 espécies e subespécies de verbascos, cujas características
pouco variam entre si.
As flores autopolinizam-se ou beneficiam de polinizações cruzadas,
sendo estas as mais produtivas. As sementes possuem uma dormência espantosa.
Estudos americanos calculam que as sementinhas conservam o seu poder
germinativo durante cem anos.
O nome “verbascum” provém do vocábulo latino “barbascum” que
significa “barba”, em referência aos pequenos filamentos que a planta possui.
Quimicamente o verbasco contém flavonóides, mucilagens,
saponinas, hidratos de carbono, ácido cafeico e outros ácidos.
Entre as propriedades fitoterápicas da planta apontam-se,
entre outras, a de ser demulcente, diurética, sedativa, adstringente,
expectorante, anti-inflamatória, antibacteriana, antifúngica e analgésica.
Já na antiguidade clássica ela era usada para tratar
faringites, amigdalites, afonias e tosse. De um modo geral, o verbasco é útil
para debelar todos os males do aparelho respiratório. Segundo Pamplona Roger
prepara-se, para esse efeito, uma infusão de 20 a 30 g das flores por litro de
água para tomar três chávenas diárias. Deve-se filtrar o “chá” para evitar os
pelos que podem irritar a garganta. Mas há ainda numerosas aplicações tópicas
para limpeza e tratamento da pele, otites e eczemas no pavilhão auditivo.
A raiz seca e pulverizada é boa para problemas urinários e é
base para cremes e unguentos no tocante ao alívio do hemorroidal.
É também usada em homeopatia.
Falta ainda dizer que, em tempos antigos, o verbasco era
utilizado como piscicida, visto causar problemas respiratórios aos peixes de
água doce que assim eram capturados mais facilmente.
Igualmente servia como base de vários corantes.
Com as folhas secas e os caules preparavam-se pavios e,
envolvidas em sebo, constituíam tochas com boa duração.
Tudo isto tem a ver com práticas muito antigas que já
entraram em desuso. Convém, no entanto, recordar e registar.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
“Repentina Veloz Troca De Olhares E De Reflectidas Intenções Divinatórias E Celestiais”
Corro veloz para o mergulho directo do alto de um penhasco para uma cama de pregos Espalmo pés e mãos por todo o lado por onde passo nas paredes e muros Engulo em seco o contracenso e vomito pelo chão o orgulho inglório Sorvo pelo leito do mar os pólipos dos recifes em tempo de desova aos milhões Contraceno de repente com palhaços inconscientes da realidade do quotidiano às centenas Quase adormeço em meu habitual andamento sonâmbulo e quase dou comigo a despertar Alego não ter tempo para nada e nem para ver o Céu ou às quantas horas ando ou desando Rasgo o cartaz exposto no gigantesco painel publicitário de abusos alcoólicos Remexo-me ébrio que nem um cacho de uvas ressequidas e secas de qualquer suco Pisoteio a centopeia com ela a tentar coçar a espinha dorsal com algumas das cem patas Carrego a consciência pesada e um enorme elefante africano distraído às costas Retiro da cabeça tatuada a tampa craniana e a carga duvidosa contida no seu interior Transformo a matéria física a mim adjacente em algo útil que se coma e vista Desmaterializo e materializo que me farto muita coisa com um mero gesto do pensamento Revolvo a pilha atómica de material inadequado que me envolve para venda na Internet Olho para o que se reflecte no espelho dos olhos de alguém e guardo o conteúdo na memória Renovo ambos o capuz e a carapuça de uma vez só do baú fechado sem maneiras e à pancada Embarco sem meter um único pé a bordo numa aventura num navio fantasma sem rumo Navego só com um compasso em terra firme sem qualquer esforço e de vela acesa em riste Marco a diferença unicamente com o envio aleatório de sinais gestuais e simbólicos Amasso muito bem a massa multidimensional e funcional que nos constitui a todos Embrulho e encaixoto a mistura da força de vontade e do conjunto de circunstâncias juntas Unifico o estar e o ser ou não numa taça única de champanhe dos mais onerosos Deixo pouco depois cair os dinheiros e os supostos valores morais na calçada Abro o bolso e o Espirito Santo deixando deles saírem fluxos de misteriosa luz índigo Brinco variavelmente com palavras e frases e sentenças de condenação geral atípica Enfio-me de Alma e com a aura violeta e com tudo o mais numa ampulheta do tempo Envergo bem alto vergado uma bandeira feita com argila e em tecido de fibras de verga Paro a determinado ponto como um cavalo de corrida em busca do torrão de açúcar Expiro e inspiro a intervalos curtos e acelerados após atingir os limites e a meta Porto-me como um atleta depois de abusivo consumo intravenoso de anfetaminas Interligo a fluidez contínua de meu sangue suspeitamente azul à panela de escape Mando coser em uma máquina manual de costura antiga as roupas para amanhã Atrevo-me a sair para o meio da rua no dia seguinte aos gritos e sem razão alguma Tudo só para que possa sorrir de alegria ao apreciar os horizontes marinho e celestial… Escrito em Luanda, Angola, a 24 de Novembro de 2016, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Homenagem ao Navegador Fernão de Magalhães, ao Explorador Silva Porto e ao Almirante Gago Coutinho e a tantos outros intrépidos e destemidos Aventureiros da Grande Aventura Humana, e sobretudo, pelo desempenho de enorme valia e realce de ambos e pelas respectivas contribuições no elaborado e acurado trabalho de cartografia e mapeamento (geográficos) de uma boa parte dos Territórios e Regiões espalhadas pelo Mundo, outrora sob administração Portuguesa…
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
ATE À VISTA NO ALÉM
A Consciência humana é infinita
Por António Justo
A experiência da quase-morte (ou EQM) e do depois-morte (EDM) são uma constante histórica testemunhada nas diferentes culturas. No evangelho de Marcos, capítulo nove, é narrada a experiência do depois da morte, uma nova maneira de ser para além do estar, e na segunda carta aos corintos, capítulo 12, Paulo descreve a experiência da quase-morte, isto é uma experiência fora do corpo em que a consciência (alma) se revela sem limites por participar da infinidade divina.
A morte não tem a última palavra a dizer, como se vai constatando também na investigação científica que cada vez mais se dedica ao estudo dos fenómenos em torno da morte. A experiência, com moribundos ou com pacientes em coma, motivou médicos e outros cientistas a investigar as causas e o significado desses fenómenos: presença de um "ser de luz", "emancipação da alma", "experiência fora do corpo", "desdobramento espiritual", “contacto com o além”, “aparelhos imobilizados”, etc..
A crença materialista científica, das ideologias do século XIX, agora também posta em dúvida pela física quântica, começa a abandonar as cercas da sua certeza para admirar o que se estende para lá delas. Perante o resultado de estudos feitos vão deixando de se fixar na qualificação de tais fenómenos apenas como alucinações causadas pela falta de oxigénio no cérebro. No passado, muitos cientistas tinham medo de manifestar as suas experiências para não serem ridicularizados ou para serem conformes ao credo da ciência materialista. Charles Chaplin dizia “Não creio em nada e de nada descreio. O que concebe a imaginação aproxima-nos tanto da verdade como o que pode provar a matemática”! De facto, a experiência do inefável (Deus) deixa de crer para saber, sem poder provar a vivência porque é acontecer.
A consciência do ser humano existe independentemente do cérebro
Segundo a visão materialista, com a morte cerebral deveria morrer a consciência de ser. Muitos cientistas da medicina e da biologia chegam agora à conclusão que a consciência humana não se extingue com o apagar-se do corpo mas que continua a existir.
Raymond A. Moody, psiquiatra e filósofo investigou sistematicamente o que acontece depois da morte clínica; o mesmo se diga da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross e de muitos outros. Eben Alexander descreve agora o que experimentou depois do cérebro deixar de funcionar. Uma experiência que pode tornar-se numa luz para quem só está habituado a avistar a matéria.
Eben Alexander, especialista do cérebro, esteve 7 dias em profundo coma com uma grave meningite bacteriana com uma chance de sobrevivência de 3% mas apenas como gravemente incapacitado. Sem funções cerebrais activas teve, apesar disso, a experiência extracorporal de uma consciência sem limites (Livro “Prova do Céu“). Neste estádio encontrou também familiares desconhecidos que depois veio a conhecer e familiares falecidos e amigos. Passados sete dias aconteceu o impossível na medicina: o neurobiólogo regressou da visagem com novas forças e experiências. Eben Alexander teve a experiência de que a consciência humana existe independentemente do cérebro.
Não há que ter medos. Deus é maior que as nossas morais aritméticas e do que os nossos conceitos e ideias de justiça. No fundo do túnel escuro a luz brilha em ti para te incrementar o sentimento de segurança, amor e felicidade, o antes e o depois num presente eterno.
Conclusões possíveis de tirar com base também nas novas investigações: pensar a vida a partir do fim, a partir do nós, do outro. A morte só é uma estacão, no caminho para Deus, onde a infinidade eterna se torna o espaço da nova consciência.
O amor é o laço que une para lá da morte e que permanece na nova maneira de ser para lá das finitudes temporais. O amor é o folgo de Deus em tudo e em todos, a relação que mantém também o cosmos.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo, http://antonio-justo.eu/?p=3953
terça-feira, 22 de novembro de 2016
O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA
O governo defendeu-se neste caso da Universidade Lusíada.
Não houve qualquer favorecimento, tudo foi feito às claras e segundo as regras, aliás, por via de um decreto-lei que foi promulgado pelo Presidente da República. Além disso, a legislação que permitiu a transformação das cooperativas de ensino em fundações data do último consulado socialista.
Contudo, continuam sem respostas as perguntas incómodas do deputado comunista Lino de Carvalho. Como é que se justifica o interesse da alteração em causa? Traz isso alguma melhoria ao nível e qualidade do ensino ministrado?
A verdade é que há manifestos benefícios fiscais e aligeiramento das responsabilidades legais.
E também é um facto que o primeiro-ministro chefiou um departamento naquele estabelecimento do ensino superior cujo homem forte é o pai do ex-ministro dos estrangeiros.
Se não estamos a advogar em causa própria, parece.
Eloquente é o que todo este alarido deixa a descoberto.
Estas universidades privadas são espécies de coutadas onde se satisfazem clientelas; não é que uma grande parte dos governantes e mais influentes deputados dos grupos parlamentares, na última década, são ali professores?
Não considerando aqui a Católica que, na sua génese, obedeceu a outros motivos e propósitos, se a primeira Universidade privada, a Livre e as suas sucedâneas, foi uma resposta que alguns Professores encontraram para os saneamentos com que se viram confrontados na sequência da avalanche revolucionária, o boom que se verificou nos fins da década de oitenta e princípios da seguinte, teve mais a ver com as possibilidades de negócio que se abriram pela combinação do números clausulos com a progressiva massificação do ensino e, certamente, com a galopante privatização do sector público herdado das nacionalizações ao tempo de Vasco Gonçalves. O interesse nacional é que nunca foi para aqui chamado.
O futuro que se desenha no horizonte lusitano é medonho e eu temo que os amores do meu coração venham a ter que estudar longe daqui e que a partir disso se façam diáspora familiar e só posso esperar que os pais, enquanto viverem, possam dispor dos meios que possibilitem as visitas imprescindíveis.
De tão nauseabunda, a comédia em que este país se transformou nem dá vontade de rir.
Portugal tende a tornar-se no paraíso do crime organizado; já não temos um estado nem governantes capazes de se oporem a isso.
Seremos uma espécie de cruzamento entre o Brasil e a Tailândia, isto se permanecermos na União Europeia. Isolados, estaríamos no domínio de uma combinação entre este último caso e o Perú das ditaduras militares.
Estudem, filhas, estudem que um dia terão que sair daqui para fora.
Hoje foi o dia da ficha de avaliação da Língua Portuguesa.
Em contrapartida, há cento e vinte milhões de crianças no mundo que nunca foram à escola.
E em França está ao rubro a polémica a respeito do uso do véu na escola pública.
É matéria delicada que põe em relevo o beco sem saída a que a tibieza com que o problema foi tratado de início acabou por remeter todos os implicados.
Agora, faça-se o que se fizer, será sempre como aquela história do velho, do rapaz e do burro. Se o estado proíbe será acusado de atacar a Fé. Se o permite, abre a porta para que todos os fundamentalismos entrem na sala de aula.
Atenção que esta é uma daquelas situações em que devemos aprender com a experiência alheia.
E a verdade é que se ninguém deveria pedir que os imigrantes se assimilassem, também não é menos verdade que, tanto de uma parte como da outra, tudo deveria ser feito no respeito pelos costumes do país de acolhimento. Pode parecer que isto é uma imposição xenófoba mas na realidade visa apenas evitar que se formem guetos de condenados aos trabalhos menos qualificados que o tempo e as degradações dos níveis de vida se encarregam de transformar em viveiros de miséria e integrismos vários.
Se as meninas quisessem andar de chador ou véu, tudo bem, mas não na escola pública de um estado laico e isto exactamente da mesma forma que não podem recusar-se a prestar provas em dadas matérias como, por exemplo, o papel dos anti-concepcionais na liberdade das mulheres, ou o planeamento familiar, ou ainda a teoria da evolução.
Além disto, nunca num estado em que há separação entre os poderes temporais e seculares deveria ter sido aceite que os líderes religiosos de uma dada comunidade se apresentassem como seus representantes perante a sociedade envolvente.
Agora há uma bomba relógio que muito sangue fará escorrer quando rebentar.
Neste azul planeta
verdadeiro paraíso,
será o Homem um cometa
devido à falta de siso?
Alhos Vedros
11/12/2003
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
REAL... IRREAL... SURREAL... (230)
sábado, 19 de novembro de 2016
Região Literária
DA POÉTICA AO
SIGNIFICADO
A poética assume-se como uma manifestação
da criação, mas não é a criação. Ela é a expressão artistica da nossa
emocionalidade, mas também é o que não tem palavras para ser descrito. De igual
modo, ela é o resultado da experiência directa – o que está para além da
linguagem e do pensamento. Por conseguinte, a expressão artistica é a expressão
da nossa emocionalidade, mas não é a nossa emocionalidade.
A poética revela-se pela intuição,
pelo instante, por aquele breve momento em que o nosso pensamento pára, bem
como as emoções se silenciam e o acto de criar ganha condições de se revelar. E,
assim, cria-se um poema, uma prosa, uma pintura, uma estátua, ou outra obra de
arte. Digamos, então, que a arte é a manifestação humana da nossa essência. Ela
une os homens. Contudo, enquanto só temos consciência da nossa individualidade,
está no domínio subjectivo, da visão particular e individual. Está ainda
inserida no vislumbre que permite o acesso ao absoluto. Na intuição, na percepção
instintiva, no impulso independentemente da reflexão. O acto de criar não é,
pois, do domínio intelectual, resulta sobretudo da percepção e da sensação, jamais
do raciocínio, tão pouco da visão do artista.
Como num breve momento o pensamento
se aquieta e as emoções silenciam. O artista, num instante, intui o que não
sabe saber, o que está além da forma e da
ideia, do espaço e do tempo e
não é condicionado, mas garante a realidade da criação da obra; a acção que dá a conhecer, pela forma e pela ideia, o sentido da obra não materializada, a qual se
manifesta pelo desejo de conhecer a verdade através do crivo de uma peneira, a das
concepções e emoções, dos traços e caracteres, no fundo, da visão inerente do
artista que, consequência desta, cristaliza a dimensão da sua obra.
Para o artista é a obra o meio da expressão artistica, porém
revela-se-lhe também como uma nova faceta da sua tomada de consciência. Mas a
obra é a revelação de um momento seguinte não consciente de uma cultura, a
forma do que ainda não tem forma, a ideia do que ainda não é mais do que o
germe. A antecâmara de uma consciência que está em movimento, que nasce, se
desintegra e se transforma numa outra diferente. É a manifestação do aspecto
intuitivo e criador, da radiância primordial. Assim, aquele que admira uma obra
de arte sente essa satisfação interior, e quando a olha, nem a obra nem o que a
olha serão os mesmos, mas outros, pressupostamente diferentes.
O admirador, tal como o artista, a
partir da percepção, quando enxerga a obra de arte, apercebe o sentido ou o
significado de ser e, em vez de encontrar a divisibilidade, encontra essa
satisfação interior.
O apreciador de arte, cada vez mais nos dias
de hoje, procura aspectos intuitivos e de maior conhecimento de si como ser
humano. Procura um sentido para o
sentido que a vida tem. É natural que, com o tempo, a arte ganhe uma nova
dimensão, deixando de ser apenas vista como um meio de expressão artística, mas
como um meio de autorrealização.
As utilizações das figuras de
estilo, dos signos, dos simbolos, dos paradoxismos encontrados na linguagem,
apresentam-se ao público como a expressão verbal ou visual do que está além da
linguagem, a aproximação ou a manifestação da experiência directa, a manifestação
da realidade absoluta que não é o absoluto. Todavia, também é a cisão no modo
de pensar, do modelo de pensamento, da dualidade que este tem; senão uma
renovação desse, uma consciencialização do que pode ser essa satisfação
interior a que me referi anteriormente.
Penetrar na essência da palavra é ser
o que não tem diferença entre o que se apercebe e o que é apercebido. Pela razão da coerência e da coesão do
raciocínio lógico, acabamos por acreditar num processo de separatividade para
expressar o que é apreendido conceptualmente, perdendo a experiencialização do
femómeno em si. Assim, a palavra precede a sílaba e a sílaba, o som. Mas como
intelectualmente não nos é acessivel apreender a nossa identidade, apenas
percebemos, em parte, o que nos é acessivel
e conceptual; de igual modo, só à medida que penetramos na nossa
natureza é que vamos ganhando o conhecimento do que é e do que representa a
palavra.
De uma forma mais lata, podemos
então dizer que o nosso pensamento é modulado e transformado pelo som. O som
tem, portanto, uma acção direta em como somos. É como um germe. Há, implicito, um
sentido de continuidade, tão como aqueles que somos hoje, não sereremos exactamente
os mesmos que seremos amanhã.
Nesse processo o som assume dois aspectos na sua
manifestação – o interior e o exterior. O exterior revela-se em como a palavra pode
ser determinante no ambiente. Uma palavra agressiva pode determinar as mais
violentas acções, ou, pelo contrário, uma palavra de conforto pode aliviar a
enorme dor de alguém. Na sua expressão mais elementar podemos compreender, com
este exemplo, como a palavra proferida afecta os pensamentos e emoções dos que
nos rodeiam. Já no aspecto interior, revela-se pela nossa melhor percepção, através
dos pensamentos e das emoções, que nos dão esse sentimento de satisfação
interior e essa amorosidade.
De uma maneira muito concreta e
objectiva, à medida que nos vamos conhecendo, não apenas compreendemos as
implicações dos nossos actos, pensamentos e emoções, essa essência criativa, como
também nos apercebemos da nossa verdadeira identidade, essa inexistência de
significado e significante, de sujeito e de objecto, onde a palavra se
manifesta por esse som primordial que nos conduz além da experiência ou de
qualquer visão - a radiância primordial.
José Pais de Carvalho
Sintra, 2015
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