segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (241)

Centro Comercial, António Tapadinhas, 2012
Acrílico sobre Tela, 80x100 cm

O Vendedor

na montra dos brinquedos
há um comboio à andar
mecanismos e segredos
fazem bonecos falar
na montra dos brinquedos
há meninos a olhar
roendo as unhas dos dedos
por não lhes poder tocar
e lá dentro há outros dedos
tão cansados de embrulhar
de por fitas nos brinquedos
para quem os pode comprar
os vendedores de presentes
não têm mãos a medir
ficam com as mãos dormentes
enquanto há mãos a pedir
índios e soldados
carrinhos de corda
um tambor e um balão
jogos engraçados
e a cara gorda
de um boneco em papelão
quem sabe fazê-los,
quem sabe vendê-los,
tem sempre o Natal à mão
mas a mão a que embrulha
a mão que trabalha
tem sempre o seu ganha pão
quem faz e vende brinquedos
inventa um mundo real
tem o trabalho, os segredos
que foram do Pai Natal
O Pai Natal de hoje em dia
não tem dia não tem barbas nem sacola
dá mãos cheias de alegria
dá ternura, não dá esmola.

José Carlos Ary dos Santos


Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Uma Festa


Paulo Borges


             Uma festa elegante ao fim do dia num terraço de Lisboa sobre o rio. Serviram uma bebida e uns aperitivos. E depois algo mais forte. O conhecimento de que somos uma consciência que, ao aprofundar a mínima percepção, pode chegar a tudo. Instaurou-se um silêncio estranho. O silêncio estranho de quem começa a ver e a sentir. A experimentar o que é realmente estar vivo.

Uns sentiram que nas suas veias corria o sangue das crianças de Aleppo e ele borbotou-lhes dos olhos em lágrimas, tingindo de rubro os guardanapos dos acepipes. Outros viram-se cheios de escamas e barbatanas, penas e pêlos, a nadar e a correr livres e ao mesmo tempo a ser capturados, dilacerados e cozinhados para acabarem devorados por si mesmos nos rissóis e croquetes que haviam acabado de ingerir. Foi-lhes revelado o gosto da própria carne, delicioso e horrível. Uns sentiram as carteiras em convulsões nos bolsos. Puxaram delas e cada nota e cartão de crédito imediatamente lhes incendiou as mãos com toda a ganância, corrupção, violência e roubo do mundo. Correram em todas as direcções como loucos, a urrar de dor, com os euros e os cartões tanto mais colados às mãos a arder quanto mais os tentavam deitar fora. Outros viram que não tinham pele e que desde sempre eram tudo, o céu, a terra, as vidas e as estrelas. Tiveram vergonha de até esse momento terem achado que amavam. Houve quem se sentisse a nascer em todos os partos e a morrer em todas as agonias. Houve quem visse por todo o lado que não havia lado algum. E até houve quem...

Não se sabe até hoje o paradeiro de muitos dos convivas. Uns desapareceram para sempre naquele mesmo instante. Outros morreram de causa desconhecida. Uns ficaram para ali a chorar e a rir convulsivamente. Outros ficaram mudos de espanto para sempre. Alguns saíram a correr a beijar e abraçar todas as pessoas e coisas e outros a pedir perdão a tudo e todos. Vários regressaram serenamente a casa como se nada houvesse acontecido. Os que foram mais fundo. São os mais perigosos. Jamais alguém saberá quem são, de onde vêm e para onde vão.

É desta festa que nos conhecemos, leitor?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Mercúrio Retrógrado em 2017


O planeta Mercúrio estará Retrógrado por 4 períodos em 2017:

até 8  janeiro
de  9 abril a 3 maio (*)
de 13 agosto a 5 setembro
de 3 a 23 dezembro
(*) de salientar que de 4 de março a 15 de abril estará também Retrógrado o Planeta Vénus.  A Conjunção destes dois planetas retrógrados (Mercúrio e Vénus) sobretudo em Abril 2017 alerta-nos para sermos muito cuidadosos nas áreas afectadas: Relacionamentos, Dinheiro, valores e finanças 

Mercúrio, planeta relacionado com a comunicação interna (connosco próprios) e externa (com os outros), começará os seus movimentos retrógrados logo no início do ano de 2017.

Assim sendo, as fases de Mercúrio Retrógrado são conturbadas ao nível da comunicação. Fazemos face a contactos dificultados, a mal-entendidos na comunicação falada ou escrita; podemos ver os meios de transporte afetados e as telecomunicações (telefone, telemóvel, correio, email, redes sociais, etc.) podem falhar, ou mesmo avariar. Os computadores, Ipad’s e Ipod’s, podem danificar-se sem qualquer razão. Tentar formatar um computador nestes períodos não será muito boa ideia, pois poderemos encontrar dificuldades imprevistas a que não estamos habituados.

Os períodos de Mercúrio Retrógrado afetam geralmente a vida prática do dia-a-dia, dificultam a comunicação, criam mal entendidos, confusões e más interpretações, mas, ao mesmo tempo, convidam à reflexão e análise cuidadosa de tudo o que projectamos falado ou escrito. São períodos propícios à introspeção, à revisão, à análise e à reavaliação. Não devemos começar projetos importantes nestes períodos, nem tomar atitudes precipitadas. A salientar que a ação de Mercúrio Retrógrado se faz sentir, embora mais diluída, uns dez dias antes e dez dias depois do seu período de retrogradação.

O lado positivo de Mercúrio retrógrado:
Estes períodos são ótimos para estimular o intelecto: leia, estude, pense, investigue, reveja ou retome assuntos inacabados do passado. Pode por exemplo, voltar a estudar algo que não compreendeu, concluir projetos inacabados ou quem sabe começar uma nova formação? Acontecimentos do passado podem ressurgir, já que ficaremos mais propensos à intuição, à perspicácia, mas também nos podemos iludir com facilidade (aqui a fronteira é ténue). No fundo, períodos com qualquer planeta retrógrado são fases propícias à introspeção e à reflexão.

Anote estes períodos e aproveite-os para relaxar e largar a necessidade de controlar.
Seja cuidadoso(a) sobretudo com a forma como comunica e com o que diz, aceite os desafios como processos de aprendizagem e faça o melhor uso de Mercúrio retrógrado!


Paula Soveral

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ESTUDO GERAL
Jan/Fev     2017          Nº84

"É muito delicada a questão da alimentação. Provavelmente, o princípio de vida de que mais diretamente depende a conduta humana (...)"
(Luís Santos, Somos (também) o que comemos, Estudo Geral, 23/1/2010)


Sumário


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

“-Matilde, toma atenção.” –Solicitou a mais velha e, professoral, continuou: “-Uma alergia muito frequente é a alergia ao pólen. O pólen é: um legume? Um fruto? Uma parte de uma flor?” (1) 
“-Uma parte de uma flor.” –Respondeu a outra de imediato. 
A mãe reagiu em velocidade proporcional: 
“-Tu sabes isso, Matilde?” 
“-Então, se não é nenhuma das outras duas só pode ser esta.” –Não se fez esperar o pardalito. 



King Crimson 
e o pai flutuando 

em torno das estrelas e da felicidade. 



E aqui nos curvamos, em sinal de respeito, perante um acto tão digno. 
Há voluntários a trabalhar gratuitamente entre os elementos da equipa portuguesa que presta auxílio às vítimas e na busca de sobreviventes do terramoto que assolou o Irão. 
Assim os homens se aproximam. 



Nos antípodas está o caso do abuso e exploração sexual das crianças da Casa Pia. 
É sórdido o que se ouve. A ser verdade, esta canalha destruiu a democracia em Portugal. 
Todos os receios que fui revelando nos dois diários anteriores se materializam pela pior maneira. 
Só as máfias se aproveitaram desta embrulhada. 



E no penúltimo dia do pior ano de que tenho memória, inauguraram-se os últimos dois estádios dos dez que pusemos de pé para o euro dois mil e quatro. 
Tomo este simbolismo para ilustrar o próximo como o ano da palhaçada. 

Somos sempre capazes do pior. 


 Alhos Vedros 
   30/12/2003 


NOTA 

(1) Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES?, p. 17 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES, Não refere a tradução, Porto Editora, Porto, 2003

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (240)

Desenho de Pedro Sousa Pereira
In. Ode Triunfal

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 

Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 



Fernando Pessoa
Álvaro de Campos



Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Barulhos


No barulho das ruas
algumas horas
de paz e recolhimento

não há música no ar
nem palavra a ser dita

No barulho das casas
alguns minutos
de repouso e acolhimento

não há discurso
nem a fala do ator

no barulho em geral
instante em que o silêncio
aprofunda o gosto

não há como rasgar a folha
nem recitar a prece  

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Antúrios



Amar e Amor
fecundo rumor
suave sopro

calmo
espelho de luz azul
mar do sul

cristiano embalo
divinal lusa cor
tropical


Fotografia e Composição Fotográfica de Kity Amaral
Legenda de Luís Santos


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ESTA CASA ESTÁ UM GELO

E pronto, mais um Natal passou e com ele estes meus dias de folga que a família passou no Porto. 


Por lá, todo o ramo materno vai bem, não tanto o meu cunhado Carlos que, pelo fecho da empresa em que laborava se viu remetido para o desemprego o que, aos quarenta e oito anos de idade, é motivo para alarme justificado dada a situação um tanto embaraçosa que provocou, logo em alguém como ele que reagiu com pouca energia na busca das necessárias alternativas. De resto há notas de alegria, a começar pela Patrícia, a filha dele, com bons resultados no curso de medicina que vai entrar nos exames do terceiro ano e sem cadeiras em atraso e como parece desenhar-se uma perspectiva de trabalho a curto prazo, se bem que o comércio da mulher enfrente as consequências da descida do poder de compra na freguesia, é de esperar que tudo se componha e também eles se igualem na tranquilidade que caracteriza o dia a dia dos outros membros do clã que muitos são. 


A Margarida e a Matilde estiveram no sétimo céu. 
Passeios e jantares na casa da tia Fátima quanto baste, foi um ror de brincadeira com o primo Daniel, o mesmo sucedendo em casa dos avós a quem, certamente, terão perturbado o silêncio. 

Lá nos acompanharam nas visitas sociais e na noite de ontem, em que tomámos café com a Tuxinha e o Carlos a quem não víamos desde há três anos, quando jantámos em casa deles precisamente por esta quadra. Dom Leonardo, sempre alegre e sorridente, também veio e, naturalmente, enquanto os pais meteram a conversa em dia, a ganilha lá esteve nos seus joguinhos. Pena que a Paula e o Zé Carlos se tenham divorciado, mas nada temos a ver com isso. Assim, só a ela vimos bem como ao André e à Catarina. 

O Carlos já concluiu o Mestrado em cuja tese defendeu o uso da Astronomia no ensino da Matemática. 

Parece que o serão terá continuidade no Carnaval, em Bragança. 


E a Fátima e o Quim convidaram-nos para uma viagem ao Rio de Janeiro, no próximo Verão. Querem passar uns dias em Ouro Preto e contam alugar um apartamento na Barra, no mesmo condomínio em que vive o Luís, o irmão estrangeiro a quem dediquei os contos brasileiros do “Faces”. 


Na tarde de sexta-feira fomos todos ao cinema para vermos “À Procura do Nemo” com a pequenada.

“-Então piolhinho, qual foi a moral da história?” 
“-Que um pai faz tudo para ajudar um filho.” –Respondeu-me uma carinha sorridente que me abraçou cheia de ternura. 
E a Matilde também entendeu a história e gostou. 


“-Ó pai, põe o Rui Veloso.” 
“-Sim! O Chico Fininho.” –Acrescentou a mais velha. 

“-Chico fininho! Úu. Chico Fininho! Úu” 
Lá foi a família em coro, acompanhando a versão ao vivo do último álbum do cantor. 


Ai que bem sabe a despreocupação dos dias de férias. 


Triste o Porto cidade que vive a vergonha de se ver urbe, a segunda do país, manietada pelos homens da bola e dos interesses que por ali se acoitam. 
O centro daquela que já se auto-denominou a capital do trabalho está em buracos há uma boa mão cheia de anos, o dois mil e um cultural foi a palhaçada que se viu de que a casa da música, ainda em construção, é um exemplo hilariante e o metro que tão necessário é à qualidade de vida das populações da cidade e da área circunvizinha, terá a sua próxima estação a funcionar no estádio do Dragão cujos acessos estão acabados e foram prioritários ao que de resto a cidade precisa. 

É o espelho do país que fez da organização de um torneio internacional de futebol um desígnio nacional. 


E este governo já não faz coisa com coisa, antes deixa que o marfim corra. 
E depois das SA na saúde que sem contarem enquanto rúbrica continuam a depender do orçamento de estado, aí vem mais uma reforma genial; permitir a exploração privada do notariado sem que nada mude nesse domínio e nos privilégios que a legislação lhe confere. 

Depois do precipício há o abismo que se segue à plataforma em que aquele assenta. 
E nós lá vamos, alegremente, caindo naquele. 



Toca a ligar o aquecimento que a casa está gelada. 



A engenharia financeira é muito bonita, sobretudo muito inteligente. O problema surge quando o capital perde a correspondência nas mercadorias produzidas; aí não há passo de mágica que nos valha e se na base das operações está aquela velha sabedoria do onde se tira e não se põe… 
Pois foi isso que sucedeu com o grande grupo italiano da “Parmalat” e o resultado, como seria de esperar, foi a falência. 
Até aqui, nada de que alguém esteja a salvo. Acontece é que nos escombros lá estava a caixa negra e vai daí, o diabo tirou a capa. O principal acionista e líder da multinacional meteu ao bolso quinhentos milhões de euros. 

Bem, pelo menos aqui, temos uma mancha negra em que há alguém que nos bate a perna. 



E este ano de má memória teria que se despedir da pior maneira. 
A terra tremeu no Irão e ainda que a ira tectónica não tenha chegado aos sete graus na escala de Richter, a histórica cidade de Bam, Património da Humanidade, viu as suas velhas casas de barro ruírem e soterrarem à volta de quarenta mil pessoas. 

Deus seja misericordioso com aquelas almas. 

E o mundo mobilizou-se para prestar auxílio e na busca de sobreviventes. 
Infelizmente, as esperanças de grandes resgates é diminuta e agora impõe-se que as feridas sarem o mais rapidamente possível e se investigue e invista numa reconstrução em que tais desastres percam o condão da fatalidade. 



O natal solarengo é sempre bonito. 
Os campos salpicam-se de amarelo e branco. 
E o pequeno jardim dos meus sogros fica cheio da graça dos brincos-de-princesa que a brisa faz campainhar. 



Lamento é a minha falta de tempo para a leitura que muito perde pelos meus afazeres profissionais e no tempo que lhes sobra, por este diário também. 
Ainda assim vou fazendo o que posso e nestes dias voltei a perder-me no pensamento de Amartya Sen que nos apresenta uma perspectiva da Economia tão humanista quanto é documentada em termos do suporte teórico das suas leituras. 

É um logro, pensarmos que se consegue melhorar a vida das populações ao arrepio das liberdades. São estas, precisamente, as responsáveis para que o desenvolvimento se distribua pela maior malha possível dos seus indivíduos. 

Não é uma lição fantástica? 


Mas já que estamos a falar de leituras que dizer de um artigo em que, depois do pedantismo do Autor em querer arvorar uma sabedoria que não tem, contando-nos história já contada e fazendo uso de um empirismo de caso único, se faz uma subtil associação entre a vontade de muitas mulheres muçulmanas usarem o véu e “(…) o poder económico da comunidade judaica.” ? (1) 
Só não dá vontade de rir por sabermos que não estamos perante palavras inocentes. 



Bom, mas nem tudo são tristezas. 

Hoje visitámos a família da serra. 
No regresso ao lar, fizemos um desvio e fomos almoçar a casa da minha tia Benita. 
O convívio entre nós é sempre uma ternura que a alegria e a boa disposição tempera. 

Só não vimos o Quim e o Tiago porque o trabalho os impediu. 
O meu priminho preferiu interromper os estudos e agora trabalha na empresa de materiais de construção do pai. E enquanto este teve um almoço de negócios, aquele teve um camião de materiais para descarregar. 

De resto estão todos bem e o Sérgio parece estar recuperado da cirurgia que fez ao joelho. Está optimista para o quarto ano de engenharia que frequenta na Universidade de Leiria. 

E a nova casa do Beto está uma delícia, cheia de varandas sobre um vale a cair de verde, onde as brumas pairam nas mesclas de serpentinas onduladas. 
A concepção e o desenho dos interiores estão excelentes; com as divisões do primeiro piso unidas por uma espécie de ponte, em madeira a que se acede por uma ampla escadaria no mesmo material, dificilmente conseguiriam um enquadramento mais harmonioso e cheio de luz. 
Ficamos felizes por eles que bem merecem esta obra da autoria deste meu primo. 
Deus lhes dê muita saúde para se gozarem de um lar tão bonito e acolhedor. 



E esta tarde saiu a acusação para dez dos arguidos do caso da exploração e abuso sexual de crianças da Casa Pia. 
Aí vem mais uma batalha de intoxicação informativa. 
As bombas rebentarão quando e se assistirmos ao julgamento. 

Esta gente já destruiu este país. 


Alhos Vedros 
  29/12/2003 


NOTA 

(1) Portas, Miguel, O VÉU, p. 11 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Gomes, Luís F. de A., FACES, Dactilografado, Alhos Vedros, 1999 
Portas, Miguel, O VÉU, In “Diário de Notícias”, nº. 49217, de 26/12/2003

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (239)

Encontro de Jacob e Raquel, Bartolomé Esteban Murillo, 1665Óleo sobre Tela, 245,5 x 363,5 cm

Génesis significa origem, nascimento, criação, princípio, mas é também o primeiro livro não só da Bíblia Cristã como da Hebraica.  
Conta-se uma história no Génesis, capítulo 29, em que o pastor Jacob combinou com o seu patrão, Labão, trabalhar de graça durante sete anos, para casar com a sua filha, Raquel.

Camões contou esta passagem neste belo soneto:   

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivesse merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

Esta lembrança vem a propósito dos SETE anos que o ESTUDO GERAL cumpre nesta data.
Nestes sete anos, tentámos honrar a nossa divisa e saudamos todos os que colaboraram connosco e também as 267.551 visualizações de páginas, das quais 8.639 no último mês, dos nossos leitores, que demonstram a vitalidade do nosso Blogue e da Revista do ESTUDO GERAL. Acreditamos em mais sete anos, tal como Jacob acreditou que teria o prémio merecido pelo seu trabalho.
A todos o nosso obrigado.
BEM-HAJAM!


sábado, 21 de janeiro de 2017

Lançamento do Livro "Bichos à Solta"


Caros colegas e amigos

Gostávamos muito de vos ter presente na sessão de lançamento do nosso livro Bichos à Soltana próxima 4ª feira (25 de Janeiro), às 18:30h, na Livraria FERIN (Rua Nova do Almada, 72, 1249-098 Lisboa, Tel. 213424422).
Não deixem mesmo de aparecer! Abraço amigo.

Os autores
Luís Souta
Lionor Dupic
Constança Souta




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

“Rastejado Para Fora Do Covil Dos Vis E Ferozes E Para A Poderosa Luz do Dia E Da Consciência”


Manuel de Sousa


Rastejo e sou mau como o veneno das cobras sarapintadas
Digo coisas que nem oiço e nem ao Menino Jesus interessam
Levanto os braços ao ar e saio aleatoriamente louco aos berros
Até aos Anjos dizem que eu incomodo tanto que tapam os ouvidos
De tal ordem que mesmo minha fugaz sombra foge e me abandona

Tento convencer muitos dos que ainda me ouvem as vis palavras
Faço-me engraxar aos sapatos e o mais profundo que me convém
Abro os poros ao máximo para que os bajuladores me cocem o interior
Guio-lhes os sentidos e as mãos para os meus próprios objectivos e metas
Rezo-lhes depois uma missa especial dita em língua que ninguém entenda

Viro as costas a tudo e chuto quem apanho pela frente
Meus escrúpulos podem-se contar pelos dedos fechados
Nem mesmo os olhos são domados com essa dita facilidade
Trato tudo à volta com um desdém que me convém ter amiúde
Largo do alto de um penhasco mental os que não me seguem o rasto

Não prevejo e nem me apetece mudar o carácter em tempos próximos
Vou aceitando e sendo como sou e pronto e não serei mais nada que isso
Oferecerei a mim mesmo e a muitos tao simplesmente prendas envenenadas
Tratei sempre comigo dependurado ao pescoço um espelho semi mágico a brilhar
Terei contudo a certeza que ele só me dará e projectará as melhores imagens possíveis

Só se mudar de repente de paradigma e evoluir sensivelmente contarei mudar
Entrarei conscientemente e sem que o mal oculto se apercebe que estou no lado do bem
Andei e andarei disfarçado o quanto for necessário e vestido de ovelha mansa e observadora
Contarei até três e fixar-me-ei mentalmente na conta que Deus fez e lançarei as sementes boas
Semearei tanto a cordialidade e a compreensão como a solidariedade humanas por essa terra fértil afora…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 17 de Janeiro de 2018, em Homenagem a todos os que praticam a evolução, a inteligência e a compreensão de todas as coisas da existência, incluindo a nos próprios…

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

# Políptico Red





# Políptico Red

4 de 60x80 
Mixed Media

Ana Pereira



Para melhor visualizar a pintura clique em cima. Ver mais aqui:
 https://www.facebook.com/Ana-Pereira-Artes-Pl%C3%A1sticas-1234204616639689/?pnref=story


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

É tão bom almoçar na companhia das conversas dos pardalitos cheios de fantasias e brincadeiras. 

“-Ó pai, vamos jogar às palavras?” 
“-Aladino.” 

E eu, quando me sento no café para beber a bica e passar os olhos pelo jornal, levo o coração cheio, tão transbordante que nem dou conta das horas que passam até ao regresso a casa. 



E o Sol do princípio da tarde que faz o verde dos campos sorrir de amarelos.



Agora a Líbia mostra-se colaborante na luta contra o terrorismo. 
Kadhafi sabe que o seu regime também sucumbiria perante uma avalanche fundamentalista e, vai daí, os serviços secretos líbios trataram de prestar informações sobre a Al-Qaeda aos americanos. 
Para mostrar boa vontade, o país renunciou a programas de armas de destruição maciça e prepara-se para abrir portas a inspecções internacionais. 

Pessoalmente, desconfio destes ataques repentinos de sensatez. 
São tácticas que os ditadores usam para se manterem no poder. 



Malas e bagagens aviadas. 
A família vai passar o Natal em casa dos avós maternos. 



A produtividade da economia espanhola é setenta por cento superior à portuguesa. 


Portugal sofre de depressão ao nível da escola. 


 Alhos Vedros 
   23/12/2003

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (238)

Serpentes de Água, Klimt, 1904Óleo sobre Tela, 80x145cm


Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco ...?

E o ventre, inconsistente como o lodo? ...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono ...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


DAVID MOURÃO-FERREIRA

SELECÇÃO DE ANTÓNIO TAPADINHAS

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Rosmaninho



Parece ser inata a tendência do ser humano em desvalorizar tudo o que tem com fartura, mesmo que tal seja belo é útil. Acontece assim com o rosmaninho, bonito subarbusto, cheiroso, benfazejo para a vista, para o corpo e para a alma. Lamentavelmente hoje quase ninguém o preza.

No norte do País era costume atapetar com rosmaninho os caminhos por onde passavam as procissões. Sabendo-se que tais cortejos religiosos eram e são reminiscências herdadas do paganismo, não é difícil crer que esse curioso uso venha de longínquas eras. Também os raminhos da quinta-feira-da-espiga não passavam sem as florinhas desta agradável labiada. O volumoso “Diccionario de Plantas Curativas de la Península Ibérica” de Enric Balasch e Yolanda Ruiz, no capítulo de botânica oculta, considera o rosmaninho uma sanjoanina, isto é, uma planta mágica vinculada ao santo festejado a 24 de junho. Igualmente era associado a Santa Bárbara para esconjurar as trovoadas e os relâmpagos.

Mitos e crenças à parte, o que agora interessa é caracterizar esta planta que existe em abundância no nosso País e quase por toda a bacia mediterrânica nas charnecas e ermos arenosos e xistosos, sendo uma típica espécie heliófila, termófila e xerófila, isto é, gosta de luz, de calor e de secura. É importante frisar que estamos a falar da Lavandula stoechas da família das Lamiaceae, para não haver confusões que infelizmente são muito frequentes. De facto, alguns autores e tradutores mencionam Rosmarinus officinalis que corresponde ao alecrim, induzindo em erro os incautos leitores.

A planta forma um feixe ramificado que pode chegar quase a um metro de altura. Os ramos são verdes mas devido a estarem cobertos de pelos parecem esbranquiçados. As folhas também são tomentosas. As inflorescências (pequenas flores tubulares e labiadas) estão apinhadas em espigas densas que terminam num penacho formado por três vistosas brácteas violetas cuja função é atrair os insetos polinizadores. O fruto é um aquénio trigonal.

Existem cinco principais subespécies da Lavandula stoechas em Portugal: pedunculata, luisieri, viridis, sampaiana e lusitanica. Como se depreende, algumas são endémicas no nosso País. As mais vistosas encontram-se atualmente na moda e são vendidas em vasinhos nas floristas e nos supermercados. Em Inglaterra são muito disputadas as “Portuguese Giant Spanish Lavender” a que atribuíram o nome vernáculo de Lavandula stoechas portuguese giant. Inglesices!

Em Espanha há mais de meia centena de denominações populares para o rosmaninho. Espanholices!

Em Portugal, os mais atrevidos consideram esta planta a rainha das alfazemas.
São-lhe atribuídas as seguintes propriedades medicinais: antissética, digestiva, tónica, antiespasmódica, cicatrizante, antibacteriana e febrífuga.

O óleo contido nas suas folhas e flores possui um complexo de essências ainda não inteiramente estudadas (borneol, cetonas, cineol, cânfora, etc.) e pode ser utilizado em perfumaria e aromaterapia.

O “chá” de rosmaninho é bom para a bronquite, a asma, o catarro, a tosse, as enxaquecas. Segundo o meu amigo José Salgueiro, reputado ervanário de Montemor-o-Novo, deita-se 30 g de flores num litro de água a ferver e deixa-se 10 minutos em infusão. Tomam-se três chávenas por dia fora das refeições, sendo a última ao deitar. Acrescento que, quem não for diabético, deve dissolver uma colherinha de mel para reforçar os efeitos benéficos.

Externamente podemos usar a água da cozedura das folhas e flores para desinfetar e cicatrizar feridas, estimular o crescimento capilar (atenção aos carecas), suavizar a pele e eliminar a seborreia, a caspa e o acne.

Dado que as flores possuem néctar em abundância, o rosmaninho é ideal para a apicultura de qualidade, originando um mel escuro muito apreciado.


Miguel Boieiro