"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (86)

Os Jogadores  de Cartas, Cézanne, 1890
Óleo sobre Tela, 45x57cm

ROTINA DE UM HOMEM VELHO

Raramente falava com palavras… mas eram repletos os seus silêncios. E todos nós sabíamos o significado de cada um deles. 
De manhã, o primeiro silêncio. Quieto. Um comprimido em jejum e um outro que desde novo tinha que tomar para toda a vida. 
A seguir, um silêncio com gestos calculados acompanhava-lhe o café com leite e o pão macio. No fim, o comprimido das dores, que nem aquecia nem arrefecia, mas que com a idade dele mal não havia de fazer… 
Eram assim os seus primeiros silêncios do dia. 
Sabiam-se entendidos e permaneciam enquanto a vida era já quase toda. 

Todos os dias, às quatro da tarde, ele, o Dr. Veiga, o Paulo da Fazenda e o Zé das Figueiras encontravam-se no café. Chegavam exatos, de muitas horas iguais. Não falavam com palavras… mas eram fartos os seus silêncios. Jogavam uma partida de dominó e apenas ele sorria ao ganhar. Os outros arrumavam as peças.
Às quatro e meia ia lanchar. Todos ali sabiam as horas. Era o tempo escancarado da rotina precisa de um homem velho. De uma vida feita cada vez mais. Já quase toda.

Os miúdos corriam por ali. 
E um novo silêncio buscava num olhar longe o sossego de outro tempo. Era de novo ele e os miúdos brincavam fora para não incomodarem o paizinho. 
Súbito, um silêncio gelado de morte e de ausência. Fazia-lhe tanta falta… 
Uma lágrima resignava-se na memória certa e sem futuro ignorado. Conhecia-se assim, inevitável. 
Pesavam-lhe os silêncios quando a vida se chegava e sobravam-lhe as palavras. Por isso, nunca dizia nada. Nos seus olhos, uma quietude intencional.

A sopa de ovo. O pão migado. Um pouco de azeite em cru e uma pitadinha de sal.
Comia vagarosamente e apenas se sentia o barulho metálico da colher, batendo ritmadamente no prato.
Acabada a refeição da noite, tirava a loiça e dobrava cuidadosamente a toalha. À sexta era o dia de a colocar para lavar. Nos outros dias, seguiam-se as notícias na televisão. 
O comprimido adormecia-lhe então a certeza do fim e fechava-lhe os silêncios do dia. 

Quando a vida se fez toda nele, em mim restou a pena de um gesto perdido. Talvez uma carícia…
Porque o tempo é sempre rápido demais.

E o silêncio, esse, é certo.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 29 de junho de 2014

 
23 / 2014
 
 
 
 
luz
energia
 a cabeça cheia.
Fragmentos
ideias
prodigiosas até, algumas,
talvez.
E no entanto …
que fazer com esta coisa?
 
                 Manuel João Croca
 

sábado, 28 de junho de 2014

Poema Construído




Prato à Pequim


Chegou à vida um pato que saiu do forno 

pensando-se a Fénix por causa disso,


assado e cozido, em repasto familiar renascido


as laranjas descascaram-se em espiral para acompanhar

Um pato saudável nunca está só: tem sempre duas patas



Os talheres foram postos em mesa aprumada

"-Para mim", pensou a fénix, olhando a cabeceira,

degolada e decepada, com laranja decorada

mesa posta a rigor já com pato e tudo quem será que vem jantar

Um Coelho que traz Aguiar Branco, Poiares Maduro e Mateus Rosé.



À roda, a mesa coloria de frutas, e cantava-se Alegrias

e o pato que se julgava a fénix lá se ergueu, olhou o coelho e disse:

"-Quem diria Coelho, renascidos os dois na mesma mesa."

O Coelho sorriu, pensando: pois, mas eu venho para comer e tu para ser comido

E, se bem pensou, melhor o fez: comeu a Fénix, com cinzas e tudo!



Diogo Correia
Luís Gomes
Luís Santos
Manuel João Croca
António Tapadinhas


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 

decide escalar  
para, lá no alto, ver e ouvir
a cantar o fado.

Em VIDAS LUSÓFONAS, onde já moram 169,
tudo está a acontecer, cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu mais de 28,8 milhões de visitas.


quinta-feira, 26 de junho de 2014





D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA

19 / 2014

FOTOGRAFIA

Edgar Cantante






E o mar imenso, em fúria, galgou a rocha, numa investida poderosa e concertada, mostrando ao mundo, que o mais firme poder submerge à força inabalável do querer e da razão.

                                                                                                                   (Edgar Cantante)




Edgar Manuel Almeida Cantante, de 58 anos, natural e residente em Alhos Vedros, iniciou a sua atividade profissional em 1977 na Quimigal e posteriormente trabalhou na Cimpor na área comercial.
Tirou o curso comercial na Escola Alfredo da Silva, onde pertenceu à direção da 1ª. Associação de Estudantes pós 25 de Abril (ano letivo 1973/1974). Estudou igualmente no Liceu do Barreiro onde concluiu o curso complementar ( antigo 7º. Ano dos Liceus), tendo pertencido ao Conselho Diretivo em representação dos Alunos.
No decorrer da sua atividade profissional foi trabalhador-estudante, em regime pós laboral, no curso de Direito- Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito de Lisboa.
Como dirigente associativo iniciou a sua colaboração aos 15 anos na comissão cultural da Academia, tendo passado pelos corpos sociais da Pluricoop, pela direção da Velhinha e da Cacav. É sócio fundador da Cacav  e da Associação dos Amigos dos Animais Abandonados da Moita. Atualmente é membro da direção da Cacav e pertence à Comissão alargada de proteção de crianças e jovens do Concelho da Moita ( CPCJ ).
Como Autarca pertenceu à Assembleia de Freguesia de Alhos Vedros em 2 mandatos (1997/2001 e 2001/2005), à Assembleia Municipal da Moita também em 2 mandatos (2005/2009 e 2009/2013) sendo atualmente vereador eleito nas últimas eleições autárquicas pelo Partido Socialista.
Foi membro do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas José Afonso de Alhos Vedros na qualidade de representante da comunidade.
A fotografia sempre foi uma paixão e motivo de ocupação nos tempos livres. Embora sem formação Oficial específica, tem frequentado cursos amadores de iniciação à fotografia promovidos pela Cacav. Participou em algumas exposições colectivas, assim como em vários workshops e foi premiado na Maratona Fotográfica da Cacav  realizada em 2006.
Em 2013 realizou uma exposição individual de fotografia (“A Procura da Luz”) na Biblioteca Municipal José Afonso em Alhos Vedros.
E     

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Festa do Espírito Santo na Arrábida, por Fernanda Gil





"Divino Espírito Santo
senhor do imprevisível
me toma pois da verdade
só quero o que for incrível"

(Agostinho da Silva)

No Domingo de Pentecostes, 6 de Junho de 2014, realizou-se a XXIV Festa do Espírito Santo na Capela da Memória de Nossa Senhora da Arrábida.

Às celebrações e coroação das crianças, seguiu-se o Bodo.

Estas celebrações tiveram a participação da Associação Agostinho da Silva e Fundação António Quadros, o apoio do Convento da Arrábida - Fundação do Oriente, contando ainda com a participação de representações de diversos grupos culturais e religiosos, num espírito de compreensão, aproximação e união.

«Nas Festas do Império portuguesas, criadas por Dinis e Isabel, o homem de baixa condição, o pobre ou a criança sobre cuja cabeça era e ainda é colocada a Coroa do Imperador do Espírito Santo, coroa fechada e encimada por uma pomba branca, símbolo tradicional do divino Paráclito, é por assim dizer o profeta do Império do Espírito Santo de amanhã, iniciando o ritual e as festas, tal como se realizavam, a correlação das crenças e das ideias, das classes e das formas (...)» ( António Quadros em Portugal, Razão e Mistério, Vol. 2).


terça-feira, 24 de junho de 2014

GIL VICENTE E ALHOS VEDROS


Gil Vicente nasceu por volta do ano de 1465, mas não há concordância dos historiadores, nem quanto à data, nem no que se refere ao local do nascimento. Terá nascido no Minho, mais propriamente em Guimarães? Ou terá vindo ao mundo em Barcelos e tenha crescido numa localidade da Beira? Ou a sua terra natal possa ter sido Lisboa, na Estremadura?
Daquilo que não há dúvida, é que viveu nesta cidade.

Bom observador da realidade circundante, audacioso, detentor de um mordaz espírito crítico, nenhum estrato social escapou à sua perseverante denúncia de exageros, infidelidades e hipocrisias!

Conhecido na cidade, rapidamente a sua fama acudiu aos ouvidos régios, tendo sido introduzido na Corte como artista, e onde foi incumbido de superintender a organização das festividades da Casa Real.

Como era uso na época, a Corte transitava pelo País, assentando arraiais em diversas povoações: vilas e cidades, de Norte a Sul do Reino.
Gil Vicente tomava, invariavelmente, parte nessas viagens.
«São conhecidas as localidades seguintes, frequentadas pela Corte e quase sempre por Gil Vicente (...), durante o reinado de D. Manuel I de Portugal e do seu sucessor, o rei D. João III: Lisboa, Almeirim, Abrantes, Chamusca, Sintra, Torres Vedras, Évora, Alhos Vedros, Castro Verde, Lavradio, Benavente, Alcochete, Aldeia Galega, Tomar, Barreiro, Palmela, Alcácer- do-Sal, Alvito, Montemor-o-Novo e Coimbra. (...)»

Onde se alojaria a Corte em Alhos Vedros?

Achando-se Gil Vicente em Santarém, aquando do terramoto de 26 de janeiro de 1531, que abalou Lisboa e o Vale do Tejo, «censurou num discurso os sermões terríficos, nos quais os frades de Santarém explicavam ao povo a catástrofe como resultado da ira divina. Então, referiu o facto ao rei, numa carta na qual se pronunciava também contra a perseguição movida aos Judeus, tendo o rei D. João III abandonado, a partir de 1531, a política de assimilação e tolerância religiosa que havia caracterizado a época manuelina

Essa missiva de Gil Vicente recebeu-a o Monarca em Palmela, depois de ter passado por Alhos Vedros e aí ter pernoitado, antes de ter seguido para Coina.


Francisco José Noronha dos Santos


segunda-feira, 23 de junho de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (85)

Os Dois Irmãos, Rouault, 1948
Óleo sobre Tela sobre Tábua, 64x42cm
IRMÃOS… ÀS VEZES

Dizem que somos irmãos. Mas depois uns são e outros não.
Se alguém é, olham-no de cima. 
São muito inteligentes. Estão muito acima dos outros. Muito, mas mesmo muito acima dos outros. São SANTOS! São cristãos! Até são leitores… catequistas… acólitos. 
São da Igreja. Merecem ser da Igreja. Sabem tanto…
E são bem educados. MUITO bem educados!
E depois? Depois é só uma questão de esperar para se juntarem e falarem mal dos outros. Educadamente, claro!!!
E falam então daqueles aos quais se calaram. Por serem muito, muito bem educados e muito, muito fofinhos e muito, muito santinhos e muito, muito…

Não se corrigem. Não falam abertamente… mas fecham-se para falar.
E podem tudo. E sabem tudo… 
TONTOS!!!
A queda pode ser grande…

Dizem-me que podemos ser irmãos, mas e o amor? Pois, não se vê… será da boa educação? Ou talvez da inteligência…

Que irmandade tão estranha…
De um amor tão vazio…
Às vezes somos assim… mas não devíamos.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 22 de junho de 2014



22 / 2014

ORGÂNICO ANIMAL


De mansinho, num relance do olhar, gente que se aproxima.

Perfil de rostos, sussurro de vozes, roçar de pele que sem se pensar estremece.
Um cão que ladra e sem pensar avança, o coreto do largo mais as aves que nele pousam e o musgo que nele cresce.
Ou a noite que vai caindo depois da tarde que fenece, luz que se acende e suavemente aquece, estímulo que se alarga e cresce.

Orgânico animal que se revela e se sente, que se pensa e depois se cala.

Manuel João Croca



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Carta Aberta


Resolvi reproduzir o apelo de Jan Amos Comenius – pai espiritual da UNESCO, escrito no século XVII, por achar oportuno para o momento em que estamos vivendo, ou seja: crise existencial, questionamentos e negação de valores essências a preservação dos valores éticos e morais de uma sociedade. Populações inteiras aviltadas em seus direitos individuais e fundamentais e já se passam quase duas décadas do século XXI e continuamos a ver a mesma intolerância que existia na idade média quanto aos direitos fundamentais do cidadão e o direito ao credo religioso:

“Queremos que todos os seres humanos, juntos ou separados, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, homens ou mulheres, possam receber uma educação completa e se tornem pessoas bem sucedidas. Queremos que recebam ensinamentos perfeitos e que sejam treinados não apenas em um ou outro assunto, mas também em todas as leis que lhe permitem compreender sua essência, para aprender a verdade, para não serem enganados por pretensões, para amarem o bem, não serem tentados pelo mal, fazerem o que têm de fazer e distingui-los do que devem evitar, para falar com propriedade de causa sobre tudo com qualquer pessoa e finalmente a sempre tratar todas as coisas, humanos e Deus, com cuidado e não precipitadamente e para nunca se desviarem de sua meta de felicidade”.

Walter

quinta-feira, 19 de junho de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
18 / 2014
 
PINTURA
 
Luís da Silva Delgado




CASTELO DE SESIMBRA
Óleo sobre tela
60 x 85
 
"Olhando o mar e tocado pela brisa, por aqui me fico."
 
 
 
 
  LUIS DA SILVA DELGADO  
Nasceu em Amêndoa- Mação em Novembro de 1955.
 
   Em 1987/88-Frequentou a 1ª Fase do Curso de Pintura no ARCO, durante três       
   semestres.
                ·        EXPOSIÇÕES:
 
   1989 - Concorrente seleccionado ao Prémio “ O Vinho e a Vinha” das Caves    
               Aliança na S.N.B.A. – Sociedade Nacional de Belas Artes;
   1999 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
   2001 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
   2003 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso  
               Madeira - Alhos Vedros;
   2004 - Participa na colectiva - 1º Salão de Pintura integrada nas Conferências
              de Primavera - Alhos Vedros;
   2004 - Exposição individual na Biblioteca Bento de Jesus Caraça – Moita;
   2005 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L., que lhe atribui o
               prémio “ Incentivo ás Artes”;
   2005 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso
               Madeira, onde lhe foi atribuído o Prémio Revelação - Alhos Vedros;
   2005 - Exposição individual no Posto de Turismo – Moita;
   2007 - Exposição individual ”Mulheres”, no Fórum José Manuel Figueiredo
            – Baixa da Banheira;
   2007 - Concorrente seleccionado ao Prémio Joaquim Afonso Madeira;
   2010 - Exposição individual ”Casas da minha Terra”, na Galeria Municipal do
               Barreiro;
   2013 - Exposição individual na Biblioteca de Alhos Vedros;
   2013 – Exposição ”Encontros de Primavera”, no moinho de maré em Alhos
               Vedros;
   2013 – Exposição individual no Centro Cultural Elvino Pereira (Mação)
   2013 – Exposição individual na Casa da Cultura de Mora.
 
Está representado em várias colecções particulares e institucionais.
Actualmente é operário fabril, numa empresa de produtos químicos.
 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Cerrados (3)





Cerrado em Flor

30X60 cm
Acrílica sobre tela

Kity Amaral
(Cristiana Penna de Amaral)
2014
Brasil



segunda-feira, 16 de junho de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (84)


Cabeça Coroada - A Rainha, Ben Nicholson, 1932
Óleo sobre Tela montada sobre Tábua, 91,4x120cm

A PERFEITA MOLDURA

Viviam numa moldura imaculadamente guardada num lugar onde todas as outras coisas eram restos sem uso.
Por viverem numa moldura, podiam ver e podiam ser vistos e há quem diga que conseguiam até trocar olhares com as pessoas de fora. Eram tidas como crianças perfeitas e arrancavam sorrisos enternecidos. 
As suas roupas perfeitas pintavam os dias e todos ficavam domingo a parar as horas naquela moldura imaculadamente guardada junto dos restos sem uso.
Sabe-se hoje que as crianças terão ficado ali para sempre.

Os sorrisos, esses duraram apenas uma vida.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 15 de junho de 2014

 
 
21 / 2014
 
 
INTERROGAÇÕES
 
 
A brisa
fresca
roça
a água
rasa
fresca
e não pára
continua
e traz
a maresia.
 
 
Talvez que
a fidelidade à “ideia”
não resista
ao conjugar
das circustâncias.
As circunstâncias são
pessoais
a “ideia” utopia-se
colectiva.
Entre pessoal
e colectivo
qual o ponto equilibrado
e justo
para traçar a bissectriz?

 


Foto: Edgar Cantante

sábado, 14 de junho de 2014

Inspirando a valorização do património...





Quando falamos em sinalização do património histórico ou cultural, construído ou a construir, queremos dizer que, dado o significativo valor que se reconhece à nossa história local, será bom que se lhe dê destaque, colocando placas informativas como a que se vê em cima. Neste caso, ficamos a saber que esta preciosa escultura junta dois amigos à conversa, Fernando Lopes Graça e Fernando Araújo Ferreira,  em banco de jardim à beira do Nabão, Tomar, terra templária.

A fotografia e o texto são de Lucas Rosa

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Thomas Piketty “o Karl Marx do nosso tempo”?


A Desigualdade económica bloqueia o Futuro

António Justo

O especialista Thomas Piketty, professor de economia na École d’économie de Paris, no seu livro “O Capital no século XXI” mostra o surgir de um fosso cada vez maior entre ricos e pobres nas nações industriais. Provou que a riqueza se mantem durante séculos em determinadas famílias. O cúmulo da questão, como ele conclui, encontra-se no facto de os rendimentos do trabalho serem inferiores aos rendimentos do capital. A injustiça permanece e acompanha os diferentes regimes políticos e é fomentada pela crença divulgada de que “só não sobe na vida quem não se esforça”.

Piketty apresenta uma radiografia da desigualdade social proveniente da economia; este livro irá revolucionar a discussão política e económica; superará as discussões ideológicas, dado o seu autor ser uma pessoa íntegra e mais virada para a realidade empírica ao apresentar uma análise dos dados sobre os porquês da sustentabilidade da precaridade e de um certo determinismo económico e histórico. Este abuso só poderá ser corrigido por uma política forte e atenta. Numa sociedade consciente de ser constituída por cidadãos e não só por empresários, a riqueza terá de deixar de comprar a influência e o discurso público. O povo tem de reconhecer a sua dependência da economia e da política para a poder respeitar e transformar.

Numa entrevista à revista Spiegel (19/2014) Thomas Piketty, à pergunta se ele é “o Karl Marx do nosso tempo” respondeu, “de modo nenhum” e uma tal ideia só poderá vir da ousada afirmação de que ”O capital devora o futuro / o passado tende a devorar o futuro”, uma posição crítica ao capital herdado. Afirma que o seu livro fora escrito numa perspectiva histórica enquanto a obra de Marx é teorética. Piketty não alinha com o determinismo económico e histórico de Marx.

Para Piketty há uma lei que se repete através da História: “a taxa de rendimento sobre o capital excede, a longo prazo, a taxa de crescimento da economia” e constata: “Marx subestimou o potencial de crescimento que actua livremente através do aumento da produtividade e do aumento da população”. Para o crítico do capitalismo Piketty, a catástrofe que se tem de recear “não é económica mas política”.

O grande capital desestabiliza os Estados e fomenta a sensação de injustiça social na população. Enquanto o rendimento do capital é em média de “4 até 5% ao ano, na economia só cresce 1% por ano”. De facto temos assim a indústria financeira, o mercado de casino contra a economia real. Isto torna-se incompatível com uma sociedade democrática que parte do potencial de cada indivíduo e não do princípio patriarcalista da descendência. Por isso a conclusão de Piketty é lógica mostrando a incongruência entre Democracia e os seus princípios, implicando a sua análise uma crítica aos que se assenhorearam da Democracia e às ciências que as acompanham. Não há lógica entre Democracia e prática económica nem entre os seus princípios.

O grande Capital não se dá com a Moral

O capitalismo é, ao mesmo tempo consequência natural e testemunho da força das desigualdades; ele seria incongruente se por ele mesmo criasse igualdade, possibilitando, muito embora, o bem-estar de muitos. O grande capital não se dá com a moral, por isso precisaria das rédeas do Estado que o moderassem mas sem o coibirem a uma ideologia ou demasiado dirigismo. O facto de ele incluir energias injustas não justificaria a injustiça do seu contraente socialismo.

O liberalismo económico actual contradiz a democracia e o princípio cristão de se ganhar o pão com o suor do seu rosto e não com a especulação usurária (Legitima o trabalho individual e social mas não a exploração através dum mundo financeiro de jogadores sem escrúpulos). A riqueza, provinda do negócio com o capital, favorece quem tem muito capital, ao passo que a propriedade vinda do trabalho (economia real) favorece o indivíduo e essa é mais democrática.

O Mestre dizia: “pobres sempre os tereis convosco” porque conhecia os aspectos negativos e positivos da natureza humana; por isso aceitava a diferença a nível individual e social salvaguardando a premissa de que a diferença tem de estar sempre ao serviço do bem-comum e de cada pessoa em particular. De facto, a sociedade não se pode arquitectar em termos só ideológicos, só económicos, ou só políticos, por isso advertia: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mat. 22:21) e acrescentava: “Nem só de pão viverá o Homem”.

Há diferentes lógicas e todas elas serão certas na sua argumentação interna, mas para serem eficientes devem reconhecer-se como complementares e obedecer à razão superior. A lógica económica e financeira não pode continuar a assumir as rédeas da democracia e a transformá-la no cavalo que a serve e transporta. Já Platão advertia que a Ideia é a mãe que determina diferentes práticas e não o contrário porque a realidade vinda da observação é ilusória. A orientação por um mero pragmatismo, a que chegamos hoje, abole o pensamento; leva-nos a ajoelhar-nos perante uma opinião política que só segue a economia/finanças e ilude a sociedade com ofertas de liberdades individuais no domínio sexual ou do divertimento, como se a questão social se resumisse a um problema adolescente de luta pela emancipação da moral e de costumes entre gerações e de reivindicação da exatidão/verdade da própria ideologia em relação a outras.

Uma competição totalmente livre só beneficia o mais forte. Somos todos diferentes e por isso uma política de oportunidades para todos é sempre ditada pela diferença que faz os mais fortes.

Piketty constata que “A argumentação de que a sociedade de classes foi superada, é a expressão de uma ideologia republicana enganosa”. A progressão da desigualdade encontra-se hoje ligada ao desemprego.

Piketty sugere como início de uma tentativa de solução  “Um imposto progressivo sobre o capital líquido da propriedade privada”; o melhor seria um imposto sobre o capital a nível global, para que as transacções financeiras do capital não circulem descontroladamente de uma nação para a outra. O imposto sobre o capital poderia, no parecer de Piketty, ser empregue para reduzir as cobranças sobre uma classe média demasiado sobrecarregada.

Consequentemente o nosso sistema político-económico terá de transcender as discussões ideológicas que não passam de cancões para embalar a classe média e a classe precária.

Seria atraiçoar o conteúdo do livro e do autor tentar coloca-lo numa discussão ideológica ou partidária que o assunto do livro pressupõe já ultrapassada ou numa mera discussão ideológica entre capitalistas e socialistas. Precisamos das duas facções.
As carências de todas as instituições humanas, sejam elas capitalistas ou socialistas, vem da precaridade do Homem. A falha original, que legitima a discussão, situa-se na concorrência entre indivíduo e sociedade. A sociedade/instituição aproveita-se, da necessidade de protecção e de mais-valia do indivíduo, para, em troca de protecção, assumir o direito de regulá-lo. O ideal da igualdade de direitos e de oportunidades pressuporia instâncias justas que os impusessem com justiça e a organização de firmas que deixassem de obter os maiores rendimentos na construção de armas para o fomento da guerra em vez do fomento da paz. O problema está no modo de chegar lá numa humanidade feita de desiguais com estruturas que fomentam os mais fortes na convicção de que estes é que garantirão o desenvolvimento e o futuro! Para se subir a escada da jerarquia só se consegue através da autoafirmação, o que torna a instituição numa sociedade dirigida por autoafirmados! Daí concluir pela opção de um sistema seja ele capitalista ou socialista peca já de si do equívoco de pressuposto de que o ser humano seria um anjo. Quanto a mim entusiasma-me o projecto JC, como protótipo do Homem a construir, começando pela revolucionamento do ser humano (esteja ele onde estiver) na descoberta da sua gene divina que levará cada pessoa a arrumar com os vendilhões do templo seja ele de caracter socialista ou capitalista.

António da Cunha Duarte Justo
Jornalista livre