terça-feira, 25 de agosto de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A Guiné-Bissau lá vai ficar mais uma vez sob a tutela dos militares. 
O novo Governo tomou posse e o Presidente da República apresentou o seu nível de rendimentos para sublinhar que não está ali para o enriquecimento no que, à partida, será sempre um bom sinal. 
Contudo, a diáspora dá sinais de alarme. 

Vamos ver. 


Mas a diplomacia portuguesa deveria preocupar-se mais com os destinos deste pequeno país do peito de África. 
O civilismo é ali incipiente e o estado dificilmente resistirá a um assalto de poderes pardos. Pode estar ali mais um país à mercê das redes terroristas ou do narco-tráfico. 


Esta é uma das frentes de batalha desta guerra que decorre e condiciona os nossos dias. E os nossos inimigos não estão a dormir. 



Até parece que o céu se apagou. 

O tecto nebuloso que provocou o forte efeito de estufa que nos carregou o fim-de-semana começa a desfazer-se neste cair da tarde. 

Cheira a terra molhada. 



O que não impede a Matilde de estar, a partir da varanda, à conversa sobre a escola, com um seu amiguinho que no passado mês de Agosto veio habitar um dos apartamentos da vizinhança. 
Acontece que a propósito deste relacionamento há uma pequena história que eu passo a contar. 

Esta minha filha terá sido a primeira criança com quem o João travou conhecimento nas imediações da sua nova morada. Agora já está integrado, pois várias são as vezes que o tenho visto a brincar com outros miúdos, mas foi a Matoldas que o apresentou à irmã e à Beatriz, bem como a alguns dos outros miúdos com quem ele agora se diverte. 
Nada de estranho se teria passado se a boa da Matilde não se tivesse apresentado como um rapazinho com o nome de André. 
“-Ó mãe, se eu tivesse dito que sou uma menina, se calhar ele não brincava comigo.” –Justificou-se, quando a mãe a interrogou sobre a razão de ser do engano. 
Passada uma semana, quando desfez a malandrice, o rapaz achou graça àquela troca de identidade e, desde então, têm permanecido bons amigos. 



Porque será? 
A comunicação social que tanto se afadiga em mal dizer o Benfica, denegrindo a instituição e os seus dirigentes e atletas e, a miúde, chegando à calúnia, vulgarmente se servindo de torpes pretextos e até das mais vis e cínicas mentiras, porque será que tanto eco proporciona a todo e qualquer indivíduo que se oponha ou concorra contra as direcções em cumprimento de mandato? 


É o pasquinismo que temos e que todos os instalados pretendem fazer passar por jornalismo. 


Pois o que vemos nesses afãs de escribas censurados, é muito simplesmente um dos resultados da cultura da inveja que tão perniciosa tem sido ao longo da nossa história. 

Mas disto falarei em outro dia. 



Agora quero registar a leitura que acabei durante a hora de ginástica da Matilde, uma vez que a Margarida deu um jeito ao pé direito e por isso ficou em casa. 
Trata-se do segundo volume de uma história literária mundial que, em minha opinião, cumpre o papel de um guia de consulta para quem procure iniciar-se nestas temáticas. (1) 

À parte disso e particularmente neste livro que toma a idade média como limites cronológicos, mais uma vez verificamos que esse período não foi um corte abrupto quer com a civilização, quer com os níveis de erudição anteriores; tal como sucedeu com a língua do império romano, o latim, o qual se foi transformando e evoluindo para as diferentes expressões autóctones dos vários territórios imperiais, também a cultura, em geral e especificamente a literária, terá passado por esse processo de continuidade tanto nos temas como nos modos de abordagem. (2) 

Texto que, pelo conteúdo, dificilmente deixaria de ser enriquecedor, está, no entanto, prejudicado por uma tradução que não me parece das melhores. 



Pois na sala da Matilde, tudo indica que a fase de adaptação continua. Persistem as pinturas e a Professora deixa que os meninos gozem de um segundo intervalo, ainda que pequeno. 
Mas hoje já fizeram jogos com números e foram chamados a desenharem formas geométricas no quadro. 

A Matilde disse que fez tudo bem. 



Estão a ver como já aparecem as vozes que neste quente Verão vêm a queda do Governo e a recuperação da oposição, especialmente os socialistas que tão abalados foram por casos de corrupção e do abuso e exploração sexual de menores em que se viram envolvidas algumas das suas figuras. 
Nas sondagens, voltaram a estar à frente dos partidos que actualmente estão no poder. 


Em Portugal, a democracia está por um fio. 



Um violento sismo fez tremer o Japão. Felizmente não há mortos a registar e os danos materiais não são elevados. 

É a resposta preventiva de um país habituado e que se esforçou por aprender com estes cataclismos naturais. 



E eu não resisto a terminar com uma pequena transcrição. 

Para rematar um artigo em que se defende a tese da máxima importância para a república do conhecimento e ensino da matemática, o articulista acaba com os dois períodos seguintes: 
“(…) E já viu a proporção de empregados do comércio que recorre ao calculador para somar 2€10 com 2€30? Sem matemática não há cidadão informado. Sem cidadãos informados não há república.” (3) 

Interessante, não é verdade? 



A suave frescura da noite. 
Se bem que os grilos nos falem do escuro, o ar tem o sabor húmido das chuvas que se adivinham. 


Alhos Vedros 
  29/09/2003 


NOTAS 

(1) Lañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL – A IDADE MÉDIA, VOL. II 
(2) Banniard, Michel, GÉNESE DA CULTURA NA EUROPA SÉCULOS V-VIII, 
(3) Salgado de Matos, Luís, A REPÚBLICA E A CIÊNCIA, p. 6 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Banniard, Michel, GÉNESE DA CULTURA NA EUROPA SÉCULOS V-VIII, Prefácio de Pierre Bonnassie, Tradução de Alice Nicolau, Terramar, Lisboa, 1995 
Lañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL – A IDADE MÉDIA, Vol. II, Tradução de Fernanda Soares, Círculo dos Leitores, Lisboa, 2002 
Salgado de Matos, Luís, A REPÚBLICA E A CIÊNCIA, In “Público”, nº. 4939, de 29/09/2003

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