Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A mundividência da açorianidade em autores contemporâneos
INTRODUÇÃO
Literatura de significação açoriana, escrita que se diferencia da de outros autores de Língua portuguesa com especificidades que identificam o autor talhado por elementos atmosféricos e sociológicos descoincidentes, justaposto a vivências e comportamentos seculares sendo necessário apreender a noção das suas Mundividências e Mundivivências, e as infrangíveis relações umbilicais que as caracterizam face aos antepassados, às ilhas e locais de origem. Grandes vultos das letras e das artes nasceram nos Açores como Gaspar Frutuoso, o conde de Ávila, Manuel de Arriaga, Antero de Quental, Teófilo Braga, Roberto Ivens, Tomás Borba, Francisco de Lacerda, Canto da Maya, Domingos Rebelo, Vitorino Nemésio, António Dacosta, Carlos Wallenstein, Victor Câmara e Carlos Carreiro. Dos autores contemporâneos de que falarei aqui, selecionei alguns daqueles por quem nutro mais apreciação: Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá, Dias de Melo e Vasco Pereira da Costa.
1. LITERATURA AÇORIANA
A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver engrandecer nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu e tendo perdido sotaques não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo a reboque, colar multifacetado de vivências dos mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, essa ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, seguidamente em mais um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da então (pen) ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente denominada Austrália, e nessa ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar a esta Atlântida Açores.
Com o tempo constatei o quase total desconhecimento do arquipélago para além do micaelense sotaque “de uma falsa sonoridade afrancesada” tão difícil de entender na ponta mais ocidental do antigo Império Português. Cumes de montanhas submersas que assomam, a intervalos, aqui no meio do Grande Mar Oceano onde se mantêm gentes orgulhosas e ciosas das suas tradições e costumes, em torno duma família nuclear dizimada pelo chamado progresso. Os políticos ocupados na sua sobrevivência sempre se olvidaram da presença mágica destas ilhas de reduzidas proporções e populações. Graças a esse deprimente meio de comunicação unilateral chamado telenovela, gente houve que aprendeu mal algo sobre este mundo à parte, quiçá ainda por descobrir. Como se fosse uma espécie de triângulo das Bermudas, onde tudo o que é relevante desaparece dos telejornais. Já era assim durante o Estado Novo e pouco mudou quanto à visibilidade real destas ínsulas, apenas evocadas pelas catástrofes naturais e pelo anticiclone do bom ou mau tempo.
Grandes vultos nasceram nos Açores, como Gaspar Frutuoso (1522-1591 historiador); o conde de Ávila, marquês e duque de Bolama; Manuel de Arriaga (1840-1917), Antero de Quental (1842 -1891 filósofo e poeta); Teófilo Braga (1843 -1924 escritor e presidente da República); Roberto Ivens (1850-1898); Tomás Borba (1867-1950, mestre de quase todos os melhores compositores portugueses do século XX); Francisco de Lacerda (1869-1934, musicólogo, compositor e maestro); Canto da Maya (1890 -1981 escultor); Domingos Rebelo (1891-1975 pintor); Vitorino Nemésio (1901-1978 escritor) e António Dacosta (1914 -1990 pintor) para mencionar apenas alguns.
Acolho como premissa o conceito de açorianidade formulado por José Martins Garcia que, «por envolver domínios muito mais vastos que o da simples literatura», admite a existência de uma literatura açoriana «enquanto superstrutura emanada dum habitat, duma vivência e duma mundividência» . O polémico debate académico em torno da expressão «literatura açoriana» criou entre os autores que se reuniam nos anos 80, amizades, inimizades, afinidades intelectuais e intertextualidades.
Em “Constantes da insularidade numa definição de literatura açoriana”, J. Almeida Pavão (1988) afirma “...sobre a existência de uma Literatura Açoriana...assume-se tal Literatura com o estatuto de uma autonomia, consentânea com uma essencialidade que a diferencia da Literatura Portuguesa Continental. No polo positivo de um extremo, enquadrar-se-ia a posição de Borges Garcia e no outro extremo situar-se-ia o polo, naturalmente contestatário, formado por Gaspar Simões e Cristóvão Aguiar. Isto, sem falarmos de outros tantos depoimentos, tais sejam os de Pedro da Silveira, Ruy Galvão de Carvalho, Eduíno de Jesus, Carlos Faria, Ruy Guilherme de Morais, João de Melo e outros mais, quase todos estes compendiados e mais ou menos discutidos na obra A Questão da Literatura Açoriana, de Onésimo Teotónio de Almeida, que passou a tornar-se órgão indispensável de consulta para quem de novo se proponha abordar o problema. Literatura Açoriana sê-lo-ia, na sua vertente política, sem qualquer contradita, se porventura os Açores se tornassem num território ou numa nação independente. E, aí, haveria que inscrevê-la dentro de novas premissas.”
Onésimo de Almeida escreveu dois livros e coordenou outro sobre o tema: A “Questão da Literatura Açoriana” (1983), “Da Literatura Açoriana – Subsídios para Um Balanço” (1986) e “Açores, Açorianos, Açorianidade” (1989). Nesses anos, falava-se em artesanato, folclore e cultura açoriana mas nada era mais embaraçoso do que falar em literatura açoriana. O problema colocou-se por razões políticas. Em 1975, Vitorino Nemésio deixara-se utilizar pela Frente de Libertação dos Açores (FLA), movimento independentista hoje extinto, como candidato a Presidente da futura República. Contra a vontade da maioria, os separatistas insistiram em usar a literatura como um dos sinais da identidade nacional.
Citando J. Almeida Pavão (1988) “...de Onésimo de Almeida, diríamos que o seu critério, assente na idiossincrasia do homem das Ilhas, nelas nado e criado, nos levanta uma dificuldade: a de englobarmos no mesmo conteúdo da Literatura Açoriana os autores estranhos que porventura as habitaram, já na idade adulta, como o Almeida Firmino de Narcose ou as visitaram, descortinando as suas peculiaridades pelo impacto de estruturas temperamentais forjadas em ambientes diversos, como é o já citado caso de Raul Brandão de “As llhas Desconhecidas”. Entendemos, pois, que deverão ser abrangidos num rótulo comum de insularidade e açorianidade três extratos diversos de idiossincrasias:
— Um de formação endógena, constituído pelos que nasceram e viveram nas Ilhas, independentemente do facto de se terem ou não terem ausentado;
— O dos insularizados ou «ilhanizados», adotando a designação feliz utilizada por Álamo Oliveira, a propósito do já referido poeta Almeida Firmino;
— E ainda o dos estranhos, como o também já mencionado Raul Brandão e este autor.”
Muito antes do Onésimo, Eduíno Borges Garcia escreveu uma série de artigos sobre literatura açoriana, publicados no semanário “A Ilha” e depois reunidos em opúsculo, no qual, e ao contrário de outros teóricos, não utilizava a expressão como sendo separada do contexto nacional. Apenas aconselhava os escritores açorianos a incluírem nos seus escritos a vida concreta do povo. Queria que a literatura escrita nos açores tendesse para o neorrealismo, que refletisse a sociedade real. Hoje, é questão aceite e arrumada para a maioria enquanto se não define teoricamente a terminologia. No último Encontro Açoriano da Lusofonia, Abril 2009, o escritor Cristóvão de Aguiar rejeitou o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona. «O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor.
Machado Pires sugeriu em tempos “literatura de significação açoriana”, discursando sobre esse fenómeno descontínuo porque não há uma evolução, uma linha histórica progressivamente afirmada havendo “Autores açorianos que estando fora dos Açores, deles se ocupam sistematicamente de modo direto e indireto” (p. 57). “Por isso, preferimos usar a expressão de literatura de significação açoriana quando queremos acentuar a existência de uma literatura ligada à peculiaridade açoriana por acharmos demasiado genérica, ambígua e incaracterizante a designação de ‘açoriana’.” (p. 59 – “Para um conceito de literatura açoriana” in Raul Brandão e Vitorino Nemésio. Ensaios. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, col. “Temas Portugueses”, 1987). Outros preferem o termo “matriz açoriana”. Há vários tipos de autores, os açorianos residentes no seio do arquipélago, os emigrados, os descendentes, e os estrangeiros que escrevem sobre os Açores (em português ou não). Falta destrinçar quais são os que se podem incluir nessa designação açórica.
«É, pelo menos, um ramo único no contexto da literatura portuguesa» acrescenta Eduardo Bettencourt Pinto, um angolano, «escritor açoriano» por escolha própria. Pedro da Silveira (Flores 1922-2003) autor de A Ilha e o Mundo (1953) foi perentório:
«Já deixei notado que o separatismo (entendido como corrente que preconizava a independência total dos Açores) não produziu nenhuma doutrina normativa da literatura, isto é, sobre o que deveria ser a literatura açoriana.» (Silveira, 1977: 11). O que custava era aceitar que os escritores açorianos estivessem a desenvolver uma escrita que se diferenciava da de outros autores de Língua portuguesa. É que, nessa escrita, eram visíveis as especificidades que identificavam o açoriano como ser moldado por elementos atmosféricos e sociológicos diferentes, adaptado a vivências e comportamentos que, ao longo dos séculos, foi assimilando, pois viver numa ilha implica(va) uma outra noção de mundividência. A esta realidade continuam atentos os escritores das ilhas e é inegável a importância do seu contributo para o conhecimento da sociologia da literatura açoriana. A literatura açoriana não precisa de que se aduzam argumentos a favor da sua existência. Precisa de sair do gueto que lhe tem sido a sina (“Açores”, Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e Teoria Literária, coordenado por João José Cochofel Iniciativas Editoriais 1977)».
Lentamente, os escritores foram encontrando o seu espaço, não havendo míngua de qualidade nem quantidade, mas, na maior parte dos casos sem projeção além das ilhas, com exceções contemporâneas como as de João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá e Dias de Melo, para citar apenas alguns. Nos Colóquios da Lusofonia, na sua versão insular desde 2006 dos Encontros Açorianos, o ponto de partida foi o debate sobre a identidade açoriana, a escrita, as lendas e tradições, numa perspetiva da LUSOFONIA com todas as diversidades culturais que, com a nossa podem coabitar. Deste intercâmbio de experiências entre residentes, expatriados e todos aqueles que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística, à história dos Açores ou outro ramo de conhecimento científico, podemos aspirar a tornar mais conhecida a identidade lusófona açoriana. Aspira-se a contribuir para o levantamento de fatores exógenos e endógenos que permeiam essa açorianidade lusófona e criativamente questionar a influência que os fatores da insularidade e do isolamento tiveram na preservação do caráter açoriano. A meritória ação de várias entidades nas últimas décadas tem proporcionado um estreitamento entre açorianos, expatriados e descendentes duma forma fechada e limitada, quase conversas em família. Os Colóquios pretendem ir mais além, e levar os Açores ao mundo, em especial aos que não têm vínculos familiares nem conhecimento desta realidade. Independentemente da Açorianidade, mas por via dela, pretende-se que mais lusofalantes e lusófilos fiquem a conhecer a realidade insular e as suas peculiaridades.
2. À DESCOBERTA DOS AUTORES
2.1. AS PRIMEIRAS LETRAS TRADUZIDAS
Era imperioso alguém que lesse os autores de origem literária açoriana, lhes insuflasse nova vida e os trouxesse à mais que merecida ribalta. Coube-me o privilégio de aprender idiossincrasias insulares ao traduzir autores como Daniel de Sá e Victor Rui Dores. Deparei com noções etimologicamente ancestrais contrastando com o uso que se lhes apõe na maioria dos dicionários. No Dicionário do Morais vêm todos os termos “chamados” açorianos. A língua recuada até às origens e adulterada pelo emigrês que trouxe corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Trata-se de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à infância dos autores, sem perder de vista que as ilhas reais já se desfraldaram ao enguiço do presente e não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Nesta geografia idílica não busquei a essência do ser açoriano. Existirá, decerto, em miríade de variações, cada uma vincadamente segregada da outra. Também não cuidei de saber se o homem se adaptou às ilhas ou se estas condicionam a presença humana, para assim evidenciar a sua especificidade ou açorianidade. Antes quis apreender as suas Mundividências e Mundivivências, e as infrangíveis relações umbilicais que as caracterizavam face aos antepassados e locais de origem. Deduzi características relevantes para a açorianidade:
1. O clima inculca um caráter de torpor e de morosidade;
2. Os habitantes quedam quase tão distantes de Portugal como há séculos;
3. O recorte dos estratos sociais: é vincadamente feudal apesar do humanismo que a revolução de 1974 alegadamente introduziu nas relações sociais e familiares;
4. A adjacência das gentes à terra persiste fora das pequenas metrópoles que comandam a vida em cada ilha, num centralismo autofágico e macrocéfalo.
Um dos grandes escritores açorianos injustamente esquecido, José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Pico, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo feito os seus estudos iniciais no Pico e parte dos liceais na Horta. Em Lisboa licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras. Teve uma breve passagem pelo Liceu da Horta, antes da mobilização para a guerra na Guiné-Bissau (1966 -1968). Entre 1969 e 1971 foi leitor de Português em Paris. Foi professor na Faculdade de Letras de Lisboa, de 1971 a 1977, como assistente. Partiu para a América, onde lecionou na Brown University, entre 1979 e 1984, ingressando, de seguida na Universidade dos Açores, onde permaneceu até à sua morte, em 4 de Novembro de 2002. Aqui introduziu a cadeira de Literatura e Cultura Açorianas e doutorou-se com uma tese sobre Fernando Pessoa e atingiu a cátedra. Ocupou o cargo de Vice-reitor e dirigiu a revista Arquipélago, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas.
A sua obra apresenta uma diversidade de intervenções , que vão desde o ensaísmo, à poesia, passando pelo romance, pelo conto e pela crítica jornalística. No jornalismo português destacou-se, antes e depois do 25 de Abril, no República, Jornal Novo, A Luta, A Capital, o Diário de Notícias, O Diabo e a Vida Mundial. David Mourão-Ferreira, um dos maiores críticos literários do século vinte português, disse (1987) sobre José Martins Garcia:
“Se não vivêssemos, vicentinamente, num País em que a “barca do purgatório” anda sempre mais carregada que as outras duas /…/ o nome de José Martins Garcia deveria ser hoje unanimemente saudado como o do escritor mais completo e mais complexo que no último decénio entre nós se revelou; /…/ com igual mestria tanto abrange os registos da mitificação narrativa como os da exegese crítica, tanto os da desmistificação satírica como os da transfiguração telúrica, e que sem dúvida não encontra paralelo, pela convergência e concentração de todos estes vetores, na produção de qualquer outro seu coetâneo.”
Luiz António de Assis Brasil analisou a obra de Daniel de Sá especialmente a narrativa de ficção (Ilha grande fechada. Lisboa: Salamandra, 1992; Crónica do despovoamento das Ilhas. Lisboa: Salamandra, 1995), a qual revela facetas bem características da denominada identidade insular, em especial da ilha de origem
“Coloca-se a evasão como um destino ao qual o açoriano se entrega com a fatalidade do cumprimento de um dever. O resultado é a errância, a transitoriedade e o permanente desejo da volta. Quando acontece, essa volta nunca é satisfatória: o emigrado jamais poderá deixar de ser americano, e mesmo que construa uma casa sumptuosa em sua freguesia original, contribua para a igreja e participe das festas coletivas, todos lhe conhecem a história. Intentando uma análise mais ampla, percebemos quanto os componentes tradicionais da literatura açoriana estão presentes nessa obra: a sensação de estar-se numa prisão, o desejo de evadir-se, a saudade a roer os calcanhares, a estreiteza do ambiente insular, a desconfiança das terras estrangeiras.”
2.2. DANIEL DE SÁ
Daniel de Sá, em “O Pastor das Casa Mortas” dá-se ao luxo de exportar, por mimética, para a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos velhos montes escalavrados. Calcorreia paixões sofridas por entre o pastoreio, numa verdadeira apologia da solidão física e mental. Este retrato é o de Manuel Cordovão, lusitano de um amor só. O autor diz ser um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.” A narrativa traduz metaforicamente a ode ao açoriano apartado de si e do mundo, num amor impossível que nunca se concretiza nem quando a barca de Caronte ronda.
A transposição do personagem deixa-nos na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da sua congénere que guarnece a digressão por “Santa Maria: a ilha-mãe”. Em ambas as obras “as palavras [são] tratadas suavemente, amenizando as arestas da fonética, como se com elas não pudesse nunca ofender-se alguém.” Trata-se de uma visita não ao “despovoamento das ilhas” mas ao país real, montanhoso, interior e inacessível de Portugal. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição improvável de um apascentador de cabras. Aqui não há a memória plural de Gaspar Frutuoso, mas a ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza só na digressão pela Beira Alta. As Casas Mortas são-nos apresentadas como o resultado inevitável e inelutável sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão. Existe uma interdependência do autor, personagens e leitor, que nos levou a rever enésimas vezes, cada passagem do livro para lhe darmos em inglês o tom, o colorido, a sonoridade e a poesia das prosas. Não era ocasião única, pois rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada. A escrita de Daniel de Sá é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que prende da primeira à última página.
“Santa Maria ilha-mãe” é uma viagem ao passado, permeada de uma nostalgia quase lírica e da magia da infância de cores despretensiosas mas bem refulgentes. Fala-se do isolamento ao longo dos séculos, dos ataques de piratas, ameaça constante a inculcar mais vincadamente as crenças de origem religiosa - na ilha pouco assolada por terramotos ou explosões piroclásticas.
Essa mundividência, transporta-nos num interessante roteiro turístico. O título gerou controvérsia, na versão portuguesa e inglesa, como o próprio autor notaria: “Não se trata de "mãe" com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen. É uma ilha que é mãe também...”
Diz-nos o autor “O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro” e todos nós sentimos os cheiros, as cores, as melopeias que nos descreve. A escrita de Daniel de Sá vagueia por tempos infindos. Os personagens credíveis servem de conduto e transportam-nos ao local para partilharmos sentimentos com os interlocutores. Como tradutor, senti uma espécie de síndroma de Estocolmo, ficara cativo e apaixonado pelos captores. Teria de escrever um livro que me libertasse da poção mágica que ingerira na escrita doutrem, e daí nasceu o volume 1 da “ChrónicAçores: uma circum-navegação”. Este o efeito avassalador que os autores açorianos inculcam naqueles que aqui não nasceram. Magistralmente, a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald afirmou, “A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte.“
2.3. DIAS DE MELO
Dias de Melo escreveu
“A esperança num mundo melhor já não será para mim, nem para nenhum de nós e eu revolto-me com o que vejo à volta de mim”
Surpreendo-me com a minha própria ignorância. Até Maio de 2008 pouco ou nada sabia sobre este autor que convidei a estar presente no 3º Encontro da Lusofonia para representar a literatura açoriana que quis dar a conhecer aos que nem sequer sabiam da sua existência. Dias de Melo era um operário, agricultor, pescador, escultor que trabalhava, ceifava, pescava e esculpia cada palavra, pois era um baleeiro da ilha do Pico, homem do mar, pescador, marinheiro, mestre de lancha. Escreveu como se da janela da sua “Cabana do Pai Tomás” no Alto da Rocha na Calheta de Nesquim vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras. Andei meses na descoberta da genialidade, da sinceridade da obra que já li. Foi uma paixão literária à primeira vista, pois a sua escrita flui e embrenha-se como o nevoeiro em que os baleeiros se debatiam ao longo de séculos na luta inglória e injusta para ganharem a vida. Se tivesse que resumir o autor a uma palavra usaria INJUSTIÇA. É da sua denúncia que trata ao abordar temas como a emigração, a vida no Pico natal, as realidades sociais e económicas, a repressão no Estado Novo, e em todas, para além dos inúmeros dramas humanos retratados na linguagem simples dos homens do povo, lá vem a injustiça.
Entendendo as suas obras e a sua luta fica-se com a sensação de pertencermos à mesma família, uma espécie de alter-ego daquilo que gostaríamos de ter sido. Dias de Melo ficará inexoravelmente conhecido como o escritor da baleação. Coube-lhe a sorte de ter recebido merecidas homenagens públicas nos últimos meses de vida e a editora VerAçor re-editou alguns dos seus melhores livros. Cumpre-nos não deixar que a sua memória se esvaneça e porfiar para que seja lido pelas novas gerações. Dias de Melo era um espetador atento da luta quotidiana e da condição humana e resolveu contá-la ao mundo. Disso vos trago testemunho na certeza de que só o honraremos se o continuarmos a ler e a traduzir.
2.4. CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Deixei propositadamente para agora fim outro autor favorito. Lamento apenas que este processo de aprendizagem seja lento se bem que recheado se surpresas inolvidáveis. Cristóvão de Aguiar é um escritor incómodo pois não só se libertou das grilhetas do espaço confinado das ilhas como conseguiu provar com a sua prolífica produção literária aquilo que mais se entreteve a negar: a existência de uma literatura açoriana. Exigente consigo e com os outros, com fama de inabalável, Cristóvão não se limita a ser controverso, domina a língua como poucos embora padeça da falta de confiança típica dos grandes escritores. Nunca se dá por satisfeito ao burilar no basalto da sua ilha adotiva do Pico as letras com que nos entretém. Como esteve do lado de lá dessa fronteira invisível que é o Grande Mar Oceano, sendo emigrado e transmigrado sem nunca deixar de ser residente, vê as ilhas pelos seus olhos, dos seus pais, irmão e família emigrada nos EUA. Também consegue olhar retrospetivamente para o Pico da Pedra onde nasceu, em São Miguel, e ver a pequenez das gentes e das ilhas, contentadas com uma qualquer emigração económica de fuga à fome e à canga feudal que persiste. Voltam, regressam sempre, na aparência vitoriosos, mas sem trazerem na bagagem nada de valor para além de dinheiro e outros bens materiais. Ao escrever sobre a ilha em que nasceu diz:
São Miguel já não é a mesma Ilha onde fui nado e criado e vivi até à arrogância dos vinte anos. Pude verificá-lo, há pouco, durante o 4.º Encontro Açoriano da Lusofonia, em que, para regozijo meu, não encontrei os costumeiros intelectuais de paco¬tilha, que sabem tudo quanto no Universo se passa, com retrato de pose na galeria dos imortais há muito mumificados… Nem é sequer a mesma Ilha que foi, até há poucos anos, muito nublada, já não digo por um nevoeiro absoluto, mas por alguns resquícios aparentados a certas pesporrências de má memó¬ria. … Temos, porém, de convir que, durante séculos, certas forças religiosas, conluiadas com todos os poderes..., foram o sustentáculo da ignorância abençoada pela trilogia Deus, Pátria e Rei de outros tempos, e Deus, Pátria e Família, do tempo de muitos de nós. Direi como Mestre Gil Vicente: E assim se fazem as cousas. Levou tempo, mas o inevitável aconte¬ceu. Acaba sempre. O medo e outras rançosas virtudes impostos ao espírito e nele lavrado em sulcos mais ou menos profundos (nem toda a terra consente a ignomínia), com relhas enferrujadas e passadistas, têm destes percalços - no ápice de um instante imprevisto esse terreno enfastiado de tanta ari¬dez femen¬tida e coerciva, súbito se de¬volve à sua límpida condição de húmus que favorece a estrutura do solo e do subsolo e do infra-subsolo: o consciente, o subconsciente e o inconsciente.
Cristóvão é um permanente passageiro em trânsito, título do seu mais benquisto livro, sempre na rota do inconformismo. Ele é a voz que se não cala e tem o direito a tal. Chama os bois pelo nome sem se deter nas finuras das convenções do parece bem ou mal. É crítico impiedoso dos destinos que alguns queriam que fosse eterno, o da subserviência e submissão aos senhores das ilhas, descendentes diretos dos opressores da gleba. Grandes narrativas que se assemelham a uma técnica de travelling em filmagem, com grandes planos, zooms, e paragens detalhadas nos rostos e nas mentes dos atores principais das suas crónicas e outros escritos. A câmara detém-se e escalpeliza a alma daqueles que ele filma com as suas palavras aceradas como vento mata-vacas que sopra do nordeste. Psicanalisando as gentes e a terra que o viram nascer adotou nova ilha mátria em 1996:
"A Ilha do Pico faz-me as vezes de mulher amada. Desvenda-se aos pou¬cos, em erótico vagar, para se lhe descobrir os recantos e sortilégios mais íntimos. E nunca se chega, nem se precisa, ao cerne do feitiço... Meio encoberta, meio des¬nu¬dada, sempre ataviada de cheiros exóti¬cos e eróticos, faz com que se abram as narinas de cio. Colhem os olhos as tonalidades indefi¬níveis de seus roxos e azuis, o cinza entorresmado de seus mistérios, seus verdes percorrendo toda a escala cromá¬tica, vertidos na paleta primigénia de que se ser¬viu o Cria¬dor para mati¬zar a tela da Natu¬reza. Sempre que caem sobre o mar do canal, cavado e furioso ou espelho de Narciso, a Ilha de São Jorge, nua e arro¬xeada, a garantir mais mundo, os olhos coalham-se de espanto em face do mis¬té¬rio de assistirem ao pri¬meiro dia da Criação... Não cabe no olhar a Montanha bíblica. Extravasa a humana retina. Bíblica. Acre¬dito ter sido em seu cimo, que roça o Céu, que Moisés rece¬beu as Dez Tábuas da Lei. E de um penedo fez jorrar a água que saciou a sede do seu Povo.
Cristóvão de Aguiar, já o disse, não é um autor fácil nem facilita, exige quase tanto dos seus leitores como de si mesmo, ele é o magma de que são feitas as gentes de bem destas ilhas. Tal como as palavras sentidas, gravadas fundo num granito que não existe nas ilhas mas que encontro na Relação de Bordo I do Cristóvão de Aguiar. Este autor que ora descubro como se o conhecesse há muito, como se tivéssemos sido irmãos ou compagnons de route à la Jack Kérouac na Route 66, iluminando o túnel das ideias por verter no alvo papel onde escrevo. Verdade seja que ando imerso na sua escrita tateando como um recém-nascido às escuras fora do ventre materno. Pressagio cordões umbilicais curiosos que nos unem. Se agora encontro neste amigo novo um escritor (ou terei encontrado um escritor que é um amigo novo?) que se crê maldito porque outros o fizeram assim, e porque é de si mesmo um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo. Para ele, a escrita nunca será catarse pois ela é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha...
Como ele diz (Relação de Bordo II pp199-200)
Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado...trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos...
Quando aprecio a obra dum autor não sei como fazê-lo, nem hermenêutica nem exegese me tocam pois são ramos do conhecimento para além da minha compreensão que estudos em Humanidades não tive nem meus pais me deixaram, e sou como sou e a meu pai o devo tal como Cristóvão o é devido ao seu pai. Continentes diferentes mas uma só realidade, ambos criamos os sulcos que hoje trilhamos percorrendo as savanas e as estepes do sofrimento pessoal, das amarguras e romances que nos interrompiam a escrita e nos dispersavam da missão sagrada. Ambos plantamos árvores, publicamos poesia e tivemos filhos em buscas incessantes pelo Santo Graal e desconfio que ambos sabemos hoje que não existe, a não ser na busca incessante com que criamos uma raison d’être nas nossas mentes conturbadas.
Cristóvão afirmava a propósito dos Colóquios da Lusofonia na Lagoa em Março/Abril de 2009:
“Lá encontrei, contra todas as minhas expectativas, uma plêiade de personalidades que fizeram olhar-me ao espelho da minha humildade, ao mesmo tempo que me infundiram confiança e à vontade, boa disposição e alegria, despreconceito e saúde intelectual... Soltei-me dentro da minha caverna; ao princípio, dei alguns saltos a medo, mas procurei conter-me e ir subindo devagar em direção à luz que me ofuscava. Ainda ando encandeado pela sua intensidade e pela rapidez com que tudo aconteceu, mas, pouco a pouco, espero desenvencilhar-me dos muitos cadilhos que ainda me amarram a um cais de onde nunca embarquei e nem sequer me lembro se em cima dele fui ficando permanecido. Há dias, foi a Maria do Rosário com a sua acutilante e profunda análise ao meu tão mal-amado Passageiro em Trânsito, que me calou bem fundo, e me deu um sentimento de desforço de que há muito andava carecido. Agora és tu. Já não sei o que dizer mais. As palavras fogem-se como coelhos bravos.
Nestas navegações literárias, uma pessoa não lê apenas mas percorre uma viagem tridimensional recheada pelos sentidos que fluem da escrita como lava “pahoe-hoe” (pron. pah hoi hoi) de aparência viscosa mas fluida, brilhante e entrançada como cordas prateadas. Outros autores subitamente parecem ser do tipo lava “A a” (ah ah), grossa e áspera, um magma de rochas solidificadas que são empurradas. Aqui nada é impelido embora por vezes se assemelhe na sua descrição e nos contornos emocionais à pedra-pomes que é o piroclasto dominante das rochas traquíticas. A observação de qualquer pedaço de basalto revela-nos, quase sempre, a existência de vesículas disseminadas na rocha e as vesículas de tal modo estanques, que a rocha pode flutuar na água por largos períodos. Resultam de gases separa¬dos do magma que, não tendo conse¬guido escapar para a atmosfera, ficaram aprisionados na rocha sob a forma de bolhas onde também ficam retidos ad eternum todos os leitores. A escrita lávica de Cristóvão fica retida a boiar no nosso imaginário. Foi ela que nos instigou a escrever esta lamentação com o frémito ciumento de todos os que não conseguem escrever da forma única e inimitável como só ele sabe e sente sobre os Açores. Essa a sua forma de amar e de recompensar a terra que o viu nascer...para que também ela desate as grilhetas que a encarceram no passado e ele se desobrigue finalmente dessa tarefa hercúlea de carregar a sua ilha como um fardo ou amor não-correspondido, que nisto de ilharias há muitas paixões não correspondidas. Ele é o mais lídimo representante da mundividência açoriana na escrita contemporânea e tarefa dos Colóquios da Lusofonia torná-lo mais benquisto e conhecido no mundo inteiro.
2.5. VASCO PEREIRA DA COSTA, AUTOR HOJE HOMENAGEADO
Quedemo-nos, doravante, na perspicaz apreciação que faz Cristóvão de Aguiar da obra de Vasco Pereira da Costa intitulada Nas Escadas do Império:
“Não é por acaso que Vasco Pereira da Costa, poeta de mérito, mas ainda no silêncio da gaveta, se apresenta no mundo das letras sobraçando uma coletânea de contos. Numa terra onde quase todos sacrificam às (as) musas e se tornou quase regra a estreia com um livrinho de poemas, a atitude (ou opção) do autor de Nas Escadas do Império não deixa de ser de certo modo corajosa como corajosos são os contos que este livro integra.
Não fora o receio de escorregar na casca do lugar-comum, e eu diria que esta mancheia de contos vivos, arrancados com mãos hábeis e um sentido linguístico apuradíssimo ao ventre úbere, mas ainda mal conhecido, da sua terra de origem, vem agitar as águas paradas, onde se situa o panorama nebuloso e um tanto equívoco da literatura de expressão açoriana. O conto que abre esta coletânea, Faia da Terra, é bem a prova do telurismo, no sentido torguiano do termo, de que o jovem escritor (Angra do Heroísmo, Junho de 1948) está imbuído, sem cair no pitoresco regionalista, tão do agrado de muitos escritores açorianos. Não resta a mínima dúvida de que o Gibicas, A Fuga e outras peças de antologia que aqui figuram vêm contribuir para o enriquecimento do conto português de especificidade e característica açoriana. Contudo, Vasco Pereira da Costa corre o risco (e ele mais do que ninguém disso está consciente) de vir a ser queimado nas labaredas inquisitoriais de certos meios ideológico-literários açorianos que têm tentado, oportunisticamente, mas sem raízes verdadeiras, edificar [...] uma literatura açoriana em oposição à Literatura Portuguesa. Nas Escadas do Império, quer queiram ou não os arautos da mediocracia, vem dizer-nos exatamente o contrário.”
Com efeito, não podia deixar de ser mais justo o juízo de valor supracitado.
Em primeiro lugar, estreia-se Vasco Pereira da Costa, em 1978, com uma coletânea de contos, Nas Escadas do Império, à qual se seguirão a novela Amanhece a Cidade (1979), publicada em Coimbra pela Centelha; a memória Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo (1980), dada ao prelo em Lisboa; os poemas de Ilhíada (1981), editados em Angra do Heroísmo; Plantador de palavras Vendedor de lérias, antologia de novelas galardoada com o prémio Miguel Torga – cidade de Coimbra no ano de 1984; Memória Breve, datada de 1987 e surgida em Angra do Heroísmo; Risco de marear (Poemas), vindo a lume, em 1992, na cidade de Ponta Delgada; e, por fim, três obras poéticas, a saber Sobre Ripas Sobre Rimas, Terras e My Californian Friends, respetivamente publicadas em Coimbra, Porto e Gávea Brown, com data de 1994, 1997 e 1999.
Em segundo lugar, urge referir a originalidade de Vasco Pereira da Costa, evidente tanto na sua obra poética como na sua obra em prosa, que vem, segundo o Autor de Raiz Comovida, agitar as letras açorianas. Assim sendo, e numa perspetiva temática, cumpre realçar o telurismo genuíno patente em “Faia da Terra”, história do enamoramento de Teresa por um americano da Base, da sua subsequente partida para o Novo Mundo, já com o nome de Mrs. Teresa Piel, e da secagem da faia, dois meses após a descolagem do avião da Pan America. Nesta novela inaugural perpassam vivamente, como que fotografadas ao vivo, as rotineiras fainas insulares que, pela via da repetição, regem o quotidiano do ilhéu: “Era sexta-feira e a mãe amassava o crescente com a farinha de milho. No forno estalavam a rapa, o eucalipto e o loiro: [...] Lavou depois as folhas de botar pão e veio sentar-se ao pé dos meus socos de milho – bois de veras, espetados com palhitos queimados arremedando os galhos – no estrado do meio-da-casa. Arrumou as galochas no sobrado [...]” (1978: 11).
Por vezes, é a loucura insular que faz a sua aparição em cena, na figura do poeta Vicente, “um Côrte-Real impotente, tacanho e degenerescente” (1978: 71), o qual, volvido esse tempo em “que escrevia coisas tão lindas, de tanto sentimento”, tem o despautério de acumular guarda-chuvas na falsa e de publicar no jornal da Ilha desairosos alinhavos poéticos: “Prometeu / Prometeu / Não cumpriu / A promessa / Homessa!//” (“A Fuga”, 1978: 74).
Ainda a respeito do Autor de Memória Breve, cumpre salientar o seu apurado sentido linguístico, responsável pelo discurso das personagens (direto, indireto e indireto livre) que, caricaturalmente individualizado, se torna emblema de um falso cosmopolitismo insulano, ao qual não é alheio o inevitável açorianismo:
“Os americanos [...] Abancam mesmo rés-minés ao lado dos ingleses. Cinco. [...]
Cham-pa-gne! Cham-pa-gne!
Everybody drinks!
Ei, seinhore!
Today, pay day!
Ouviste? Olha que o mar não está de lapas! [...] Nove taças na bandeja; [...]
Os ingleses que no thank you; os americanos que yes, que sim senhor; os ingleses, dedos a abanar, que nada de caltraçadas, just Porto Wine; os americanos, pegadinhos, que O.K. para cima, que O.K. para baixo, [...] Nosso Senhor os aparte em bem. Se assim não fora, tínhamos para aí camponia.” (“Belmiro & Delmiro”, 1978: 42-43).
Em terceiro lugar, e ainda na ótica de Cristóvão de Aguiar, a coragem de Vasco Pereira da Costa, que a sátira, nas suas diversas vertentes, revela à saciedade. Assim sendo, atente-se quer na crítica ao salazarismo, regime repressor, totalitário e punitivo dos que ousam transgredir as regras impostas - “Como vim aqui [à ilha] parar? É simples: por ser anarquista e não peitear o Manholas de Santa Comba” (“O Manel d’Arriaga”, 1978: 31) -, quer na crítica à mentalidade medíocre, cuja pequenez constrangedora se espraia, em espaço íntimo e público, pela vida de outrem tão sigilosamente resguardada quanto violada de supetão - “[...] cada qual dava a sua sentença, todos em grande pensão, e não havia alcatra de couves que, à hora da ceia, não fosse temperada com palpites de desenlace.” (“Primavera”, 1978: 59) / “Todas três varadas pela língua maledicente de uma cidade [...] Tocava-lhes a vez de serem as atrizes da comédia, a elas, que sempre foram espetadoras criticas nas melhores coxias.” (“A Fuga”, 1978: 75) -, quer na crítica ao jornalismo barato e ao provincianismo dos articulistas, cujo discurso, pouco inovador, se vai ritualizando - “Começou então o embaraço. No jornal de amanhã, por entre os aniversários da gente fina [...] as partidas e as chegadas, os partos e as notícias do País e do Estrangeiro, os casamentos e os pedidos de, os horários de barcos e de aviões, as orações ao Menino Jesus de Praga e ao divino Espírito Santo [...]” (“A Fuga”, 1978: 82-83) -, quer, por fim, na crítica a uma certa ‘cultura de superioridade’ que ‘Mestre’ Gibicas se apresta a denegar: “[...] estávamos de língua entre os dentes para sibilar o th. O professor fazia empenho pois [...] era uma vergonha virem por aí abaixo os americanos e nós sem sabermos agradecer. [...] Até que foi a tua [Gibicas] vez. [...] Agarraste na caixinha vermelha, azul e branca, com as estrelinhas desse people para o nosso povo e, sem esperar o afago da farda grandalhona, gritaste-lhes alto, como ninguém ainda o fizera: - SANABOBICHAS!” (“Gibicas”, 1978: 137-138-141). Em asterisco de rodapé, explica o Autor o neologismo: “Son of a bitch”.
Em quarto lugar, a variedade genológica em que se move o Escritor homenageado, desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia. E, a este propósito, não resistimos à tentação de transcrever o poema “Dinis, the Portuguese teacher” -
Na língua ausente a saudade maior
na palavra saudade a língua viva
Não a saudadinha de folclore
pitoresca e digestiva
constitucional e estatutária
de meter dó em dó menor
no caldo verde no rubro chouriço
Mas a saudade necessária:
Apenas quatro sílabas de compromisso (My Californian Friends, 1999: 17) -
- bem como o poema “Rose era o nome de Rosa”:
A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha
não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais
Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais
Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose.
Rosa outra vez agora. (My Californian Friends, 1999: 25).
Não estaremos nós perante a açorianidade?
chrys chrystello, fev.º 2010
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(') http://lusofonia.com.sapo.pt/acores/acorianidade_pavao_1988.htm#_ftn11#_ftn11
('')No ensaio e crítica: “Linguagem e Criação” (1973), “Cultura, Política e Informação” (1976), “Vitorino Nemésio. A Obra e o Homem” (1978), “David Mourão-Ferreira. A Obra e o Homem” (1980), “Temas Nemesianos” (1981), “Fernando Pessoa – “Coração Despedaçado” (1985), “Para uma Literatura Açoriana” (1987), “David Mourão-Ferreira – Narrador” (1987), “Vitorino Nemésio – à luz do Verbo” (1988), “Exercício da Crítica” (1995). No teatro: “Tragédia Exata” (1975) e “Domiciano” (1987). No conto: “Katafaraum é uma Nação” (1974), “Alecrim, Alecrim aos Molhos” (1974) “Querubins e Revolucionários” (1977), “Receitas para Fritar a Humanidade” (1978), “Morrer Devagar” (1979), “Contos Infernais” (1987), “Katafaraum Ressurreto” (1992). No romance: “Lugar de Massacre” (1ªedição: 1975), “A Fome” (1ªedição: 1978), “O Medo” (1982), “A Imitação da Morte” (1982), “Contrabando Original” (1987) e “Memória da Terra” (1990). Na poesia: “Feldegato Cantabile” (1973), “Invocação a um Poeta e Outros Poemas” (1984), “Temporal” (1986), “No Crescer dos Dias” (1996).
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Por falar em trabalho
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Mérito
desatento das cassandras
rompo o isolamento
e lamento as palavras
fornecidas. Fosco
verbo se desintegra
aos ouvidos; pouco
a pouco o destino
enverga o galardão
da fome: forma
irrestrita da história
descontada em versos
merecidos. Tosco olhar
acompanha a mão no traço
irresoluto dos temores.
Trêmulo corpo cede
ao abstrato teor
do que termina em fumaça.
(Pedro Du Bois, inédito)
http://pedrodubois.blogspot.com
Inés Sánchez de Madariaga em Lisboa
Inés é directora da Unidade da Ciência e da Mulher, Ministério da Ciência e da Inovação (Espanha). A conferência realiza-se em Lisboa no próximo dia 17 Junho, pelas 18h00, no auditório Nuno Teotónio Pereira na Ordem dos Arquitectos, Travessa do Carvalho 23, Lisboa.
A entrada é livre mas por razões logísticas pede-se a todos os interessados que se inscrevam previamente, por correio electrónico para adurbem@adurbem.pt .
Resumo da conferência
La llamada Segunda Transición Demográfica plantea nuevos retos al urbanismo, en particular el de cómo planificar para la igualdad en la diversidad. Se trata de construir ciudades que consideren y respondan a las diferentes realidades, necesidades y expectativas de todas las personas, independientemente de su género, raza o edad. A diferencia del urbanismo de la modernidad, que, como tantos campos del saber, se ha construido sobre la experiencia masculina, convertida en norma universal, el urbanismo actual debe ser capaz de promover la igualdad en la diversidad. En particular, debe considerar la dimensión del género, lo que plantea nuevos retos a la disciplina urbanística y a su práctica institucional y profesional. Por ejemplo, reconocer y revalorizar el trabajo de cuidado y atención a las personas como un trabajo tan importante como el empleo remunerado, tieneconsecuencias sobre conceptos centrales del urbanismo, poniendo en cuestión nociones asumidas sobre los lugares de vivienda, empleo, ocio y equipamiento. La conferencia explora estas cuestiones y propone vías de actuación. En un campo específico, el del transporte, introduce un concepto nuevo: la movilidad del cuidado.
Curriculo resumido
Inés Sánchez de Madariaga, Architect, PhD, MSC. Columbia University. Ex-Fulbright Grantee.
She is Professor of Urban Planning at the Madrid School of Architecture and has been Visiting Scholar at Columbia University in New York, at the London School of Economics and Political Science, and Jean Monnet Visiting Profesor at the Bauhaus-Weimar School of Architecture. Previously to her current position she was Executive Adviser to the Minister of Housing and General Deputy Director for Architecture in the Spanish Government. She is author of six books and over thirty technical articles and book chapters.
Debate público com o Dr. Fernando Nobre
O moderador será Paulo Borges e a organização é da revista Cultura ENTRE Culturas, com o apoio do Movimento Outro Portugal e do Partido Pelos Animais. Serão dirigidos convites aos demais candidatos para debater as mesmas questões.
A revista Cultura ENTRE Culturas agradece ao Dr. Fernando Nobre ter aceite o convite para debater publicamente estas questões, de crucial importância no momento actual. Será um debate histórico, que assinala uma mudança de paradigma na política.
A revista, dedicada ao diálogo intercultural e ao despertar da consciência cívica para as grandes questões mundiais, estará à venda no evento.
Paulo Borges
terça-feira, 15 de junho de 2010
-Olhe, vou dar-lhe um exemplo que assim, se calhar, serei bem capaz de me expressar melhor e portanto de me fazer entender mais facilmente. Já no Antigo Regime se dizia que o povo nunca viria a ser capaz de chegar às artes ditas maiores e quando começou a cultura de massas nas grandes cidades do século dezanove, logo apareceram determinadas vozes a sustentar que para que as obras pudessem algum dia chegar ao entendimento do cidadão comum, isso iria provocar uma diminuição, tanto da qualidade, como da profundidade das mesmas. Alegava-se que as pessoas vulgares, o homem comum, jamais seriam capazes da sofisticação cultural que lhes permitisse entender as obras maiores. Mas a verdade é que não foi nada disso que sucedeu, muito pelo contrário. E quantas não foram as obras-primas que se escreveram desde o século dezanove para cá e como se isso não fosse suficientemente significativo, quanto não se aprofundou o nosso olhar sobre a condição humana desde então? O Tolstoi, o Mann, o Steinbeck, só para dar uns poucos exemplos, foram lidos sobretudo pelos homens comuns. Portanto, não vejo como é que possa ser necessário que apareça um super-homem para que os seres humanos possam ascender a uma vida ainda mais plena do que aquela que a humanidade, ou, para ser mais e preciso e ir ao encontro das suas palavras, uma parte da humanidade já conseguiu adquirir até agora.
-E está mesmo convencido que foram lidos e entendidos esses autores que refere?
-Não tenho qualquer motivo para que possa pôr isso em dúvida. Muito embora tenha que admitir não ter como provar aquilo que estou a afirmar. Mas não vejo como possa duvidar e mesmo de modo indirecto é possível alegar nesse sentido. Olhe, estou, por exemplo, a pensar no Professor Francesco Alberoni e nos interessantíssimos estudos que tem escrito a respeito do amor e particularmente estou a considerar o que ele sustenta a respeito da literatura, por uma lado formatar –se é que esta palavra aqui não é muito abusiva- a literatura por um lado formatar a concepção que as pessoas fazem desse sentimento e, por outro lado e ao mesmo tempo, o facto de ela reflectir em parte essas mesmas concepções. Ora isso só pode querer dizer que as pessoas leram e entenderam essas obras, que os seus conteúdos, as suas mensagens, se quiser, passaram para a maneira de ver das pessoas comuns.
-Pessoalmente parece-me que tens toda a razão nisso que defendes. Mas eu gostaria de insistir num ponto que é, quanto a mim é claro, o da confusão que o senhor faz com uma realidade que decorre das condições de existência do quotidiano e a relação disso com a necessidade, digamos assim, do super-homem. Eu posso até admitir que sou bem capaz de estar de acordo com muitas das coisas que disse a respeito da vida de insignificância das pessoas comuns. E não sei se conhece um livrinho do Reich…
-Quem?
-Wilhelm Reich, um médico psiquiatra alemão, discípulo mas crítico de Freud com quem divergiu e que foi para os Estados Unidos onde veio a ter problemas por causa das ideias que defendeu no domínio da psiquiatria e do pensamento social.
-Não conheço. Posso estar a cometer alguma falha de memória, mas até me parece que nunca tinha ouvido falar em semelhante nome. Pelo que sintetizou, é-me totalmente desconhecido.
-Pois bem, acontece que esse Reich escreveu um pequeno livrinho, o “Escuta Zé Ninguém”, no qual apresenta uma visão que, em alguns aspectos, está muito coincidente com a sua e devo dizer que pessoalmente sempre a achei bastante acutilante. Inclusivamente essa dúvida ou objecção que o senhor coloca quanto à diferença entre ler e entender e a reserva que depois acrescenta quanto a sabermos se o leitor comum entende as grandes obras, digamos que isso são observações com que mais ou menos facilmente se poderá concordar; a verdade é que se olharmos com atenção para o cidadão médio, não sei se não será líquido que possamos sustentar que ele se caracteriza por algo mais que a simples entrega a uma vida, se quiser até poderemos dizer a uma vidinha de casa trabalho e vice-versa, com poucas outras fontes de ócio e direi mesmo de vida própria para além da televisão e, por exemplo, este ou aquele desporto. Há até uma pequena brincadeira que poderemos fazer para que se perceba melhor o que estou a tentar dizer. Imaginamos que vamos registar todas as alíneas, digamos assim que compõem uma vida de cada um de nós e que as vamos sobrepor numa espécie de grelha, Teríamos assim que uns trabalham, estudam, lêem, vêem televisão, etc. Não sei se me estão a acompanhar…
(…)
(…)
-Provavelmente veríamos que aqueles que mais se repetiriam e, em conformidade, mais sobrecarregariam a grelha seriam o trabalho, o serão em casa com a televisão, os desportos e coisas assim do género. Quero com isto dizer que eu concedo que o padrão do indivíduo médio, mesmo nas sociedades mais desenvolvidas e, no seio dessas, entre as mais cultas, mesmo aí, o padrão, digamos assim, do indivíduo médio não será muito edificante. Até aí… O que já me parece errado é querer passar daí para a necessidade do super-homem tal qual o senhor o faz. Isto porque tenho para mim que isso dependerá dos condicionamentos que a vida objectiva que as pessoas levam tem. E para mim é evidente que isso terá mais a ver com as desigualdades sociais do que propriamente dito com os seres humanos, por natureza, serem ou não capazes de superarem essa sua condição. Ele não há só desigualdades na distribuição da riqueza que só por si é um factor de primeiríssima ordem na capacidade que cada um possa ter ou desenvolver para escolher uma determinada vida. Isso só por si já é grave. Mas acontece e isso é bem capaz de ser ainda mais grave, acontece que há também desigualdades na distribuição do acesso aos instrumentos que permitem que cada um tenha ou possa ter um leque mais alargado de hipóteses de escolher o caminho que quer levar na sua vida. E o que se verifica é que a maioria está condicionada para viver nessa mediania,
-Também concordo com isso e, tal como tu, continuo sem perceber como é que isso possa ter alguma coisa a ver com a dita necessidade de um tal super-homem que, bem vistas as coisas, até me parece que nunca poderá aparecer, pelo menos no sentido em que este senhor terá colocado a questão.
(continua)
segunda-feira, 14 de junho de 2010
À Conversa com...
domingo, 13 de junho de 2010
O Evangelho segundo Seu João from Eduardo Souza Lima on Vimeo.
Filme de Eduardo Souza Lima (Zé José), jornalista e cineasta, colaborador do "Estudo Geral".Documentário, 18 minutos, 35mm, 2006
Co-dirigido por João Moraes
A vida de Cristo contada por João Inácio, mestre da Folia de Reis Estrela do Mar, de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Participação especial de Jô Oliveira.
Menção Especial do Júri e Prêmio Online do 13º Vitória Cine Vídeo (2006)
Troféu ABD-MA no 30° Guarnicê de Cinema do Maranhão (2007)
Filme Revelação III Mostra de Produção Independente de Vitória - A Vida é Curta (2007)
Prêmio Online do Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora, MG (2008)
Menção Especial do Júri do Curta-SE – Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe (2008)
14º Colóquio da Lusofonia
25 Setembro a 2 Outubro
Anfiteatro Dr Paulo Quintela
Rua Abílio Beça Bragança,
Portugal
1. HOMENAGEM CONTRA O ESQUECIMENTO:
autores lusófonos esquecidos
(convidado 2010 VASCO PEREIRA DA COSTA)
2. LUSOFONIAS:2.1. A herança islâmica (portuguesa)
2.2. Marranos ou conversos, judeus e criptojudeus (em Portugal)
2.3. Influências culturais africanas (em Portugal de 1380 a 2010)
2.4. Questões e raízes da Lusofonia.
2.5. 2º Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico de 1990
2.6. Língua Portuguesa como língua segunda e como língua estrangeira
2.7. Língua e Literatura Portuguesa no Mundo.
2.8. Lusofonias e Insularidades
2.9. Literaturas africanas de língua portuguesa
3. TRADUÇÃO:3.1. Tradução de autores portugueses no estrangeiro. Tradutores e autores
3.2. Tradução Monocultural e intercultural
3.3 Tecnologias e Tradutologia
Protocolos e Parcerias:
ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA, GALIZA
CÂMARA MUNICIPAL DA LAGOA (AÇORES)
Direção Regional das Comunidades (Presidência do Governo Regional dos Açores
UNIVERSIDADE DO MINHO, BRAGA, PORTUGAL
ESE, INSTITUTO POLITÉCNICO DE SETÚBAL, PORTUGAL
INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA, PORTUGAL
ESTH, INSTITUTO POLITÉCNICO DA GUARDA, PORTUGAL
LICEU LITERÁRIO PORTUGUÊS DO RIO DE JANEIRO, BRASIL
UNIVERSIDADE MACKENZIE DE SÃO PAULO, BRASIL
ACADEMIA DE LETRAS DE BRASILIA
***
INSCRIÇÕES
Oradores: propostas de trabalho a apresentar
Até 15 Julho 2010
Assistentes Presenciais (com direito a crachá, certificado e atas/anais)
Até 1 setembro 2010
-Todos os colóquios: http://www.lusofonias.net
-XIV Colóquio BRAGANÇA 2010: http://www.lusofonias.net/lusofonia%20201/index.htm
-XV Colóquio MACAU 2011: http://www.lusofonias.net/encontros%202011Macau/index.htm
-Tudo sobre o Acordo Ortográfico http://www.lusofonias.net/acordo%2ortografico/index.htm
-Cadernos/Estudos Açorianos http://www.lusofonias.net/estudos%20e%20cadernos%20açorianos/index.htm
sábado, 12 de junho de 2010
TODOS DIFERENTES, TODOS ESPECIAIS

. A ARTE NA ERA DO PORQUINHO BABE .
. JARDIM DE INVERNO DO TEATRO MUNICIPAL DE SÃO LUIZ . LISBOA .
. 7 DE JUNHO 2010 .
TODOS DIFERENTES TODOS ESPECIAIS
Mental Noise, 2010, 23´- filme de Ilsa D´Orzac
Em 1919, D.W.Griffith realizou Broken Blossoms (O Lírio Quebrado), filme que relata uma história de violência do “mais forte” sobre o “mais fraco”, de um “homem” sobre uma “mulher”, de um “pai” sobre uma “filha”. O século XVIII viu surgir três movimentos: o abolicionismo, o feminismo e a luta pela defesa dos direitos dos animais. Estes movimentos têm em comum a defesa dos direitos de seres que sentem e sobre os quais era, e em muitos casos ainda é, impunemente infligido sofrimento. A violência de um animal humano sobre outro animal humano, de um homem sobre uma mulher ou de um animal humano sobre um animal não humano, pertencem ao mesmo domínio mental. Mental Noise, de Ilsa D´Orzac, é sobre essa relação e dedicado a todos os seres sencientes. Por essa razão pede emprestado imagens de Broken Blossoms e toma Lilian Gish como representação dos seres sencientes maltratados, humanos e não humanos, que precisam de ser defendidos por todos nós. Em 1772, a ideóloga e intervencionista inglesa Mary Wollstonecraft, publicou o primeiro tratado reivindicativo de liberdade e igualdade, não apenas entre homens mas também para as mulheres e para os animais, contestando a violência nas suas várias formas de expressão: contra raças, sexo, condição económica, infância, animais e contra a Natureza. Passaram duzentos e trinta e oito anos e se olharmos à nossa volta… o que dizer dos vitelos torturados impiedosamente para que a sua carne permaneça tenra para os humanos? E de todos os outros casos, na alimentação, na experimentação, na moda, na vida quotidiana? Constatamos uma profunda regressão no que respeita a esta matéria.
Mas a defesa dos direitos dos animais não humanos não significa que os que a praticam sejam apaixonados por esses animais como quem é apaixonado por Ferrari´s ou pelos novos gadjets informáticos, ou similares. Podem ser ou não ser. Mas são, isso sim, conscientes de que o lugar que ocupam na existência e no planeta é partilhado em condições idênticas e não em arrogante supremacia atribuída pela razão. O que essa defesa manifesta é respeito pelo Vivo e reconhecimento da ignorância apensa às prerrogativas da superioridade mecanicista. Daí resulta que os que defendem os direitos dos animais também defendem os direitos dos vegetais e os direitos dos minerais. Defendem a Natureza e a natureza cosmobiológica de todos os seres, a sua incluída.
O respeito pelos outros animais é assim o primeiro grau e o ponto de partida para uma mudança de paradigma tendente a um novo entendimento e prática da Vida. Quando mais essa percepção for na sua abrangência assimilada, maior será o desenvolvimento de outras percepções sobre a existência no planeta Terra e a sua inter-relação cosmobiológica. Percepções que os sistemas orientados pelos interesses económicos e pelo lucro pretenderam e com sucesso, ilidir.
Inúmeros mal-entendidos emergem acerca do sofrimento imposto a estes seres sencientes. Por exemplo, a ideia de que é necessário comer diariamente proteínas animais. Incrível pretensão, não só porque do ponto de vista nutricional tanto funcionam as proteínas animais como as vegetais, mas também porque intenta fazer crer que ao longo da história da espécie humana os sujeitos sempre tiveram essa prática e – de não somenos importância – essa possibilidade. Obviamente é falso. Essa possibilidade passou a existir apenas desde que a produção agro-pecária em massa foi instituída, ou seja, recentemente. Outro mal-entendido é a ideia de que os animais não humanos sempre existiram para o prazer e gáudio dos humanos, qualquer que seja a forma que esse gáudio e prazer assumam. Ora, também é falso. O paradigma mecanicista assim o advoga mas o cartesianismo surgiu no século XVII, há apenas trezentos anos portanto. O que a documentação histórica confirma é que sempre existiu a defesa do entendimento oposto. Já Pitágoras (552-496 a.C.) recusava consumir carne de animais ou estar sequer próximo dos que os caçavam e matavam, e o imperador indiano Asoka (274-232 a.C.) instituiu explicitamente no seu longo e feliz reinado, a não realização de sacrifícios de sangue e a provisão de tratamentos médicos, de poços e de árvores para benefício de humanos e de animais não humanos! Outro forte mal-entendido é o famoso repto de que é integrante da natureza humana a necessidade de domínio e subjugação da Natureza e dos mais fracos, nomeadamente os outros humanos. Ainda hoje, e apesar de todas as démarches para que tal não seja possível, existem comunidades onde esse princípio não só não é praticado como é repudiado. Mas sobretudo, deveria ser do conhecimento público que a ideia generalizada de competição no universo provém de Herbert Spencer (1820-1903), autor da expressão "sobrevivência do mais apto", que pura e simplesmente a retirou do discurso económico e a implantou como prótese, no pensamento darwinista. E infelizmente graças a interesses de uns e desatenções de outros, instituiu-se como verdade o que verdadeiro não é.
Alguns pensam que esta vontade de respeito pelos animais e pela natureza é uma moda ou aberração de alguns sujeitos pós-modernos. Quanto estão enganados! Ao longo da história e em todas as épocas sucedem-se os exemplos na filosofia, na legislação, nas artes, na ciência, nas academias, de mulheres e homens que se manifestaram no espaço público e privado na luta pela defesa dos seres sencientes, incluso os animais não humanos. Em 1789, quando em Portugal (e suas colónias na Índia) e em França, os escravos negros estavam a ser libertados, nos territórios britânicos e colónias portuguesas na América e Àfrica continuavam a ser escravizados, Jeremy Bentham afirmou sobre as outras espécies animais “a questão não é saber se podem pensar ou falar, mas saber se podem sofrer!”. Atestando quanto temos sido e estamos também enganados em relação às práticas da Idade Média, é bom partilhar algo já publicado mas muito pouco assimilado. Durante a Idade Média, entre o século XIII e o século XVIII, os cinco séculos mais recentes na confluência com a instituição do pensamento mecanicista e capitalista, realizaram-se na Europa os Processos dos Animais. Em que consistiam esses processos? Consistiam na outorgação de representação jurídica legal aos interesses de animais não humanos, inconvenientes, que interferiam com o lucro e a economia das práticas agrícolas. Porque nesses tempos, os humanos não se arrogavam o direito de simplesmente abusar ou aniquilar os outros animais e sabiam que
“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido” Espinosa
Respeitemos a Vida e o que nela Vive.
Ilda Teresa Castro
(investigadora)
POR UMA MUDANÇA DE PARADIGMA, TODOS DIFERENTES TODOS ESPECIAIS
in, "Outro Portugal"
http://umoutroportugal.blogspot.com/2010/06/todos-diferentes-todos-especiais.html
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Caminhos que vão dar no rio
quinta-feira, 10 de junho de 2010
INTERLIGAÇÃO DE UNIVERSOS ( 2 )
- A estabilidade que o homem procura é contrária à evolução. Esta está sempre em movimento. Os potenciais humanos estão delineados etéricamente.Sempre lá estiveram, aguardando que a consciência humana evolua e se torne vibratóriamente compatível. Não será através da mente ou da análise que tal será atingido, mas através do sentir. Os potenciais energéticos aguardam o seu timing. As fontes energéticas de hoje serão consideradas primitivas, as estruturas humanas caducas. As novas energias não serão obtidas do solo, nem do vento ou do mar. Os desastres ecológicos que estão aparecendo permitirão o despertar e o aumento da consciência individual e coletiva da humanidade. Ao homem é pedido que mude o ângulo de observação de tudo o que o rodeia e se foque naquele que permite ver evolução em todo o acontecimento, quer externo, quer em si próprio. Tudo está bem.
António Alfacinha
alfa2749@yahoo.com.br
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Interculturalidade & Lusofonia sobre uma comunidade cigana...
Lembrando que a etnia cigana também faz parte da lusofonia, passo o resumo de tese de mestrado sobre uma comunidade cigana que revela o processo de mudanças culturais nas famílias/comunidades ciganas, que se vem desenvolvendo e consolidando, de forma progressiva há, aproximadamente, dois séculos. Ou seja, os ciganos passados duzentos anos evoluiram e mudaram de costumes.
Segundo o resumo da tese, de Carlos Jorge dos Santos Sousa, "António Maia: percursos de uma História de Vida", as respostas à pergunta inicial da investigação foram obtidas através da triangulação de diferentes fontes de informação que permitiram conhecer a família e os afectos, que no seu íntimo circulavam, a sua participação na 1ª G.G., a Liga dos Combatentes, as actividades políticas, a saúde, a mediação, a sua religiosidade, os interditos, as relações extraconjugais, o jazigo de família, as sua relações com os ciganos e os não ciganos que lhe possibilitaram novas demandas; permitiu, ainda, conhecer um conjunto de referentes culturais que circulam no interior da sua família/comunidade/etnia. Foram consultadas fontes primárias em organismos oficiais, bibliotecas e arquivos e instrumentalizados meios informáticos para análise de dados qualitativos – o programa NUD.IST -, que possibilitou navegar no conteúdo da base de dados de seis entrevistas realizadas. As notícias que circulavam nos órgãos de comunicação social da época atribuíam a António Maia as seguintes denominações: “o Fharaono”; o “Pai Espiritual”, o “Rei dos Ciganos”. O estudo permitiu: conhecer a trajectória de vida do sujeito, da sua família/comunidade; construir novos conceitos e (re)conceptualizar algumas teorias acera da família/comunidade/etnia cigana; construir hipóteses de trabalho que facultem uma maior aproximação entre diferentes sistemas de crenças, representações e culturas. É inovador porque faz emergir referentes culturais apoiados em alguns elementos simbólicos próprios das famílias/comunidades ciganas insuficientemente investigados ou, mesmo, jamais investigados. Demonstra que o processo de mudanças culturais nas famílias/comunidades ciganas se vem desenvolvendo e consolidando, de forma progressiva há, aproximadamente, dois séculos.
São ideias que nos ajudam a desenvolver os elos com o "outro". Todos somos "diferentes entre os iguais, igual entre os diferentes"
Fonte consultada:
http://cajos.no.sapo.pt/nova_pagina_10.htm
http://cajos.no.sapo.pt/resumos.htm
Saudações,
Margarida
http://br.groups.yahoo.com/group/dialogos_lusofonos/
terça-feira, 8 de junho de 2010
-Bem, meus caros, parece-me que nenhum de vocês está a entender aonde eu quero chegar. Vamos lá a ver. O que eu estou a tentar explicar é que o homem, os seres humanos, para já permanecem agarrados às preocupações da sobrevivência e isso sucede apesar de todo o desenvolvimento que as nossas sociedades já conseguiram alcançar e que diga-se em abono da justiça, nem é tão pouco assim, é algo impressionante. Muito embora tenhamos ido à Lua, sejamos capazes de enviar sondas para o espaço exterior ao nosso sistema solar, apesar de tudo isso permanecemos o mesmo homenzinho de sempre que afinal passa a vida a ter que labutar para viver. Nesse aspecto não evoluímos muito em relação aos homens primitivos. Vejam só o que acontece todos os dias nas grandes cidades com o vai vem de milhões de indivíduos que todos os dias e deve dizer-se que são a maior parte dos dias do ano, milhões de pessoas que todos os dias abandonam as suas casas de manhã para só regressarem ao fim do dia, quantas e quantas vezes depois de dias esgotantes que mais não deixam que o espaço para a necessidade de dormir. Ora o que eu estou a afirmar é que esta é, pelo menos por enquanto, a realidade humana.
Mas isso que o amigo refere de um mundo sem trabalho, pois deixe que lhe diga que é precisamente esse que deve ser o destino do homem e mais, até me tento a defender que é para aí que as coisas apontam, pelo lado das tecnologias que cada vez mais nos permitem substituir a actividade humana na produção daquilo que é necessário e pelo lado de que, precisamente por via disso, cada vez mais vão sendo precisas menos pessoas para que se possam produzir as coisas.
-Bem, aí sou perfeitamente capaz de chegar a acordo consigo, mas não vejo como é que isso pode estar relacionado com a questão do super-homem.
-Ora essa, o destino do homem é esse mesmo, é poder viver sem ter que se preocupar em ganhar a vida. Esse é que é o grande destino da humanidade. O homem nasce sem o seu próprio consentimento, nasce, digamos assim, por convite e nesse sentido poderemos dizer que nascemos de graça. Então se nascemos de graça, faz algum sentido termos que depois ganhar a vida para vivermos? Parece-me um contra-senso. Pois bem, aquilo que eu digo é que o destino do homem é que o mesmo viva para se cumprir naquilo que se achar melhor, naquilo em que se possa sentir mais feliz, seja nos casos em que se queira dedicar às coisas do espírito, seja naqueles em que se queira dedicar às outras coisas. Ou até para viver sem se dedicar ao que quer que seja, viver só por viver, vadiando sem outro ensejo que não seja exactamente isso, vadiar apenas, sem mais nada.
-Nesse caso pergunto-lhe se acha que poderemos estar a falar de um futuro plausível.
-Acho, claro que acho, como não poderia achá-lo? Se sou eu que lho estou a dizer…
-E o que tem tudo isso a ver com o super-homem de que o senhor falou?
-Tem a ver que só ele conseguirá chegar a essa condição, só ele conseguirá materializar um mundo que esteja acima dos valores de querer ganhar a vida. Só mesmo um homem que esteja acima dessas pequenas paixões que perfazem as nossas vidas tal como as vivemos hoje em dia, só um homem assim é que poderá pensar em dedicar-se a viver unicamente para se cumprir enquanto ser infinito que é, de facto. Vejam bem, o homem comum jamais poderia e jamais conseguiria aspirar a isso. O homem comum é o homem da vidinha, o homem que vive enganado com a carreira e os entreténs do dia a dia, os soporíferos, como eu lhes chamo, para que se esqueça que é apenas uma pequenina peça numa engrenagem de que não é capaz, nem pode fugir. O homem comum é esse homenzinho que permanece escravo das necessidades de sobrevivência, aquele que acredita que o trabalho é uma virtude, que a vida ordenada e normalizada de um bom cidadão em sociedade seja uma virtude.
-E não acha mesmo que o seja?
-Não, não acho, se quer que lhe diga não acho que o seja, antes tenho para mim que… Como dizer? São obrigações. Eu diria que são obrigações vergonhosas para um ser que acima de tudo é um ser pensante e acrescento que o que não são para mim essas virtudes, muito menos o serão para o super-homem para quem, tais questões, jamais se colocarão na justa medida em que ele será aquele para quem o sentido da vida será que o homem se realize naquilo que o faz feliz, numa síntese, no que o faça viver em plenitude.
-Tudo muito bem, mas continuo sem perceber que, para tanto, haja a imperiosidade –é este o sentido das suas palavras- que para tanto haja a obrigatoriedade de aparecer o super-homem.
-Concordo contigo. Mas deixem-me aqui fazer um aparte para dizer que apesar de achar o ponto de vista que o senhor expressa um tanto ou quanto bizarro para os dias de hoje, seja como for, por aquilo que o senhor diz, fica-me a ideia que resume bem o que terá sido o pensamento do próprio Pessoa a este mesmo respeito. Quer dizer, pelo que li e, claro, tanto quanto me recordo, aquilo que seria, digamos assim, a ideia de Fernando Pessoa a respeito do super-homem não andaria longe daquilo que o senhor defendeu.
-Sim, mas não vejo qualquer admiração por isso ser assim. Afinal, ele é seguramente uma das minhas referências, não tenho qualquer dúvida quanto a isso.
-Mas veja, meu caro senhor. É justamente por me parecer que o Pessoa também pensava mais ou menos nos mesmos moldes em que você se expressou que eu, muito embora admita que ele é um nome maior, para não dizer dos nomes maiores, das letras em geral e da poesia em particular e isto mesmo a nível mundial, aliás, como todos já o defendemos aqui, mas eu, apesar de tudo isso, já não dou assim tanta relevância ao conteúdo do seu pensamento que já me merece as maiores reservas, para não aplicar um termo mais forte. Eu diria que se trata de Nietzsche em estado puro e, concretamente, continuo a pensar que os desenvolvimentos dessas ideias criaram, inclusivamente, quadros mentais e culturais em que se vieram a desenrolar as maiores tragédias do século vinte.
Era neste sentido em que te queria dizer há pouco que, embora admitindo que ele tenha construído um sistema filosófico, não era por isso que o fazia independentemente de saber se estaria ou não de acordo com as ideias que manifestou.
Seja como for, isto era um aparte.
Ora voltando agora ao que disseste, estou plenamente de acordo contigo. Até pelo facto de o pendor do discurso que o senhor está a fazer ser de todo recorrente em épocas de mudança, precisamente como aquela que o Pessoa viveu.
-O quê? Está a querer dizer que em épocas de crise surge sempre esta ideia do super-homem?
-Não, claro. Por ventura, ter-me-ei expressado mal. O que eu queria dizer é que já houve reacções semelhantes para com o homem comum em outras épocas.
-Desculpe-me, mas eu não estou a entender onde o senhor quer chegar.
(continua)
domingo, 6 de junho de 2010
O Dilema
Confesso que já estive, por duas ou três vezes, tentado a enlouquecer, pois o passar dos anos vai deixando inexoravelmente as suas marcas, erodindo, suave mas definitivamente, as minhas capacidades físicas e psíquicas para contrariar esta corrente de apatia e amorfismo que se vai instalando em cada vez mais gente, tornando-nos num país de mortos-vivos. Sei que seria uma fuga, um abandonar do campo de batalha e, como tal, uma atitude nada edificante, mas…
Se bem que a última tentação de enlouquecer tenha sido grande, ainda assim não foi suficiente: a conveniente visita de Bento XVI (conveniente tanto para o Vaticano, como para o Governo Português, entenda-se…). Ajudando este a fazer desviar a atenção do “povo sereno” daquilo que tem sido o maior desmando da História da nossa Democracia(?...), os atropelos à Constituição para obedecer aos patrões do FMI em nome da ”Crise”, os Belmiros, os Amorins, os Espírito Santo (não confundir com o da Santíssima Trindade…) os actos de traição às promessas eleitorais, as mentiras sucessivamente repetidas, o peculato, a promiscuidade, a pedofilia, a corrupção descarada, o tráfico de influências, as investigações que nunca levam a lugar algum, os processos arquivados. Mas tudo passa ao lado dos mortos-vivos.
Alhos Vedros, 6 de Junho de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
TIMOR - Pedido de Professora
Alguns sabem e outros nem por isso (e assim aqui vai a notícia) mas estou em Timor a dar aulas na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) no âmbito de uma colaboração com a ESE do Porto.
Aquilo que vos venho pedir é o seguinte: livros. Não vou dar a grande conversa que é para montar uma biblioteca ou seja o que for, porque não é. O que se passa é o seguinte... não sei muito bem como funcionam as instituições, nem fui mandatada para angariar seja o que for, mas o que é certo é que sou (somos!) muitas vezes abordados na rua por pessoas que desejariam aprender português mas não possuem um livro
sequer e vão pedindo, o que é muito bom.
O que é certo é que a minha biblioteca pessoal não suportaria tanta pressão e nem eu, nos míseros 50 quilos a que tive direito na viagem,pude trazer grande coisa para além dos livros de trabalho de que necessito.
COMO MANDAR?
Basta dirigirem-se aos correios (CTT) e mandarem uma encomenda tarifa económica para Timor (insistam porque nem todos os funcionários conhecem este tarifário!) e mandam a coisa por 2,49 €. Claro que a encomenda não pode exceder os 2 quilos para poder ser enviada por este preço.
Devem enviar as encomendas em meu nome (Joana Alves dos Santos) para:
Embaixada de Portugal em Díli
Av. Presidente Nicolau Lobato
Edifício ACAIT
Díli - TIMOR LESTE
E O QUE MANDAR?
Mandem por favor livros de ficção, romances, novela, ensaio, livros infantis etc, etc. Evitem gramáticas e manuais escolares. Dicionários,mesmo que um pouquinho desatualizados são bem vindos. Este critério é meu e explico porquê. Alguns timorenses (estudantes e não só) são um bocado fixados em aprender gramática mas ainda não têm os "skills" básicos de comunicação. Parece-me melhor ideia que possam ler outras coisas, deixar-se apaixonar um bocadinho pelas histórias mesmo que não
entendam as palavras todas, do que andarem feitos tolinhos a marrar manuais e gramáticas. O caso dos dicionários é outro. Um aluno, por exemplo, usa um dicionário português-inglês para tentar adivinhar o significado das palavras. Como o inglês dele tb não é grande charuto imaginam como é a coisa.
Bom, espero ter vendido bem o peixe do povo timorense. Falam pouco e mal mas na sua grande maioria manifesta simpatia pela língua portuguesa. De qualquer forma isto não vai lá (muito sinceramente) com umas largas dezenas de professores portugueses por cá. É preciso ter a língua a circular em vários meios e suportes. Espero que respondam ao meu apelo!! Eu por cá andarei sempre com um livrito na carteira para
alguém que peça!
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Poema de Bambu
como um diamante de carne
muitas vozes juntas
para que algo aconteça quando
tudo fica de coração incompleto
o ar está cada vez mais leve
o amanhã é um desejo e por isso demora
Mar eu queria ser o mar e chorar como ele
bem dito o céu e o fado
minha é apenas a ave
e o ser dela as lágrimas
das asas seguram o azul ao
céu.
José Gil
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Ou reintegracionistas ou imbecis (com humor amoroso)

por Alexandre Banhos Campo
O título semelha um pouco forte, pois parece dizer-se que, quem não se afirmar reintegracionista, é parvo, e isso não é assim, e, além disso, refere-se ao momento mais ou menos contemporâneo que vivemos nos nossos dias.
Quando os nossos devanceiros galeguistas do século XIX, os recuperadores da nossa língua como algo que começava a deixar de ser "socializadamente" simples língua ágrafa, se põem a fazer obra, não se podia aguardar deles outra cousa senão usarem o modelo castelhano, como escreve algures Fernando V. Corredoira “Em meados do século XIX renasce para a literatura uma língua socialmente estigmatizada, funcionalmente minorada, banida das instituições oficiais e hostilizada pelo Estado. Popular e realmente falada, a língua galega começará a ser posta ao serviço dum movimento cultural e político que irá perfilando uma vocação que (com cautela, porém) poderíamos chamar nacional...Como previsível, o recurso ao modelo ortográfico castelhano foi inevitável. O ágrafo galego passou a escrever-se conforme a feição gráfica da língua oficial e única língua verdadeira — tal como ortografada desde finais do século XVIII. Este modelo tinha no mínimo duas vantagens invencíveis: era tecnicamente prestadio e era o único conhecido, o único aliás que podia conhecer-se”.
Que no século XVIII o Padre Sarmiento escrevesse: “la lengua portuguesa pura no es otra que la extensión de la gallega” (“Sobre el origen de la lengua gallega”, 1755, em Opúsculos Lingüísticos Gallegos del s. XVIII, J.L. Pensado, Editorial Galaxia, 1974, pág. 30), ou que o seu colega de ordem e sabedoria o Padre Feijó afirmasse: “el idioma Lusitano, y el Gallego son uno mismo” (Theatro Critico Universal, tomo I, discurso 14, 1726), isso nada mudara pois não fazia parte do conhecimento “socializado”.
Pensai que o imenso acervo cultural medieval do português na Galiza era absolutamente desconhecido e só começou a desvendar-se nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do XX. E o acesso ao galego de Portugal ou português de Portugal (e do Brasil), tão-pouco era nada doado, estavam a muitos megaparsec dos magníficos tempos presentes da internet, nos quais temos milhões de livros, e de todo tipo de documentos à distância dum clique na nossa língua, “libertada” de ferretes e taxas alfandegárias espanholas.
Nessa difícil situação dos primórdios, elaborou-se um discurso galeguista coerente com a realidade da língua e que foi o seguido a pé feito pola imensa maioria dos nossos vultos. Essa ideologia da língua foi magnificamente exprimida polo homem da Rosália de Castro, o impagável Murguia, no seu discurso dos Jogos Florais de Tui do ano 1891, no qual com rotundidade se afirma o da língua galega ser a mesma de Portugal e o Brasil, e que nunca poderemos pagar-lhes o serviço de a terem cuidado e enobrecido.
O grande vulto do galeguismo nacionalista Afonso Daniel R, Castelão, numa carta ao historiador espanholista Sánchez Albornoz, em que indica que o seu apelido é Castelão (Castelão = Castellano) com o til, diz: “Deseo, además, que el gallego se acerque y confunda com el português”.
Para todo o galeguismo de pré-guerra o galego era português como o português era galego, ou nas formosas palavras de A. Vilar Ponte “Quanto mais galego é o galego mais português é”.
Isso para o galeguismo era pura tautologia, que o universal analfabetismo na própria língua – de que não se libertava ninguém –, e a escolarização na escola espanhola impossibilitavam na prática, porém o rumo e ritmo reintegrador era firme e imparável, e cada dia avançava graus.
Mas passados e moldados todos – fascistas e antifascistas – na longa ditadura franquista, foi esmorecendo o velho legado da afirmação da unidade da língua portuguesa, da Galiza, o Brasil, Portugal e demais estados lusófonos. Unidade sim, mas com a diversidade interna própria como corresponde a línguas internacionais e multicontinentais.
O martelo franquista golpeando o galeguismo sobre a bigorna do controle, fez esmorecer em grande medida a transmissão entre as gerações do pensamento galeguista.
Os modelos “comunistas” de oposição converteram o Estado no quadro da luita de classes, e o povo – que por antonomásia é uma estrutura de classes com jogos de elites e de lideranças, e que como tal estava no mundo – foi reduzido a um imaginário de camadas populares, e a língua pois que ia ser “a língua proletária do meu povo”. Sintagma este que além da sua verdade muito mais confunde e com funestas consequências.
Desde a recuperação da democracia neste estado espanhol onde todo ficara atado e bem atado – em palavras do ditador –, desenvolveu-se um processo acelerado – unido à urbanização – de substituição linguística. A substituição vai firmemente colada à afirmação radical da língua “regional” (estatização).
Isso, além doutras questões, funciona como um instrumento muito útil do sucesso da substituição, e mais, quando setores bem importantes e numerosos do galeguismo acabam por assumi-los. Se a isso anexamos o controle ferrenho pola ideologia estatalista da universidade e da socialização na população na escola, o quadro que nos fica é bem cinzento.
Caros leitores, as línguas e as culturas são como as fragas, ecossistemas, neste caso ecossistemas sociais e culturais.
Quando nos achamos com uma fraga grande, esta tem uma grande inércia interna ecológica. Que nela sejam cortadas e toradas algumas árvores, o efeito real nela é nulo, e ainda que se introduza alguma espécie alheia, a inércia da imensidade dessa fraga faz com que os seus efeitos sejam imperceptíveis.
Porém, quanto menor for o espaço do ecossistema, qualquer tipo de intervenção nele, tem efeitos muito determinantes: se alguém cortar árvores e se puser a torá-las para fazer lenha ou tábuas, o efeito logo se percebe. Quanto menor é o espaço, mais sensível é às intervenções e mais dificuldade tem esse sistema para garantir a sua sustentabilidade.
Se tirando árvores se produzem efeitos nas fragas pequenas, não me diredes os que se vão produzir, se nesse espaço inserimos espécimes e sistemas alheios. Lembrai de novo que em biologia, quanto menor é um sistema ecológico, mais sensível é às intervenções que nele ocorrerem.
O português da Galiza, comummente conhecido por galego, para grande fortuna nossa, faz parte duma fraga cultural e linguística pluricontinental com grande inércia ecológica interna. Mas à nossa volta o estado criou grandes auto-estradas e TGVs, modificaram as correntes de água vivificadoras, cortaram muitas árvores, introduziram espécies grandemente invasivas, e têm contratado um bom número de bem pagos e bem mantidos defensores da estatalização — quer dizer, do afastamento –. Com tudo isso afastaram-nos da fraga de que fazíamos parte, e engataram (ligaram) a nossa fraga a uma fraga cultural e linguística chamada polos nomes de castelhano e espanhol (bom, a nossa também e chamada por dous nomes português e galego e isso não deveria significar mais para nós e o nosso ecossistema, do que espanhol e castelhano significa para essoutro ecossistema).
Assim tornaram a nossa fraga num apêndice pequenecho colada à deles, e declararam-na “de especial proteção constitucional”. Isso como em qualquer outro ecossistema significa que a viabilidade é muito limitada – (o da proteção na natureza dá pavor e no nosso ecossistema social também).
Temos um ecossistema, o nosso, “protegido” do seu natural e próprio, bem cingido como regional, e firmemente paralelo e muito bem colado ao ecossistema dos 300 não sei que milhões e, isso sim, “sabei ademais, que o nosso é só “entre nós”.
Se falássemos depois disso da sustentabilidade do nosso ecossistema cultural e linguístico na Galiza, poderíamos com a ajuda da matemática estabelecer e quantificar distintas variáveis e as suas influências e taxonomizar o nosso ecossistema como de escassa viabilidade matemática, nessas condições.
Mas a cousa não fica por aqui, andam por cima, alguns do ecossistema esse ao qual foi colado o nosso – bem isolado e regionalizado – falando de imposições sistémicas e ecológicas, dum jeito que é um insulto à inteligência de quem pudesse sequer discutir tão grande couve mental, é-vos o mesmo que a verdadeira história que a seguir vou contar-vos.
Uma boa amiga minha tinha uma pata que punha uns ovos de que muito gostava, quando esta lhe morreu, numa quarta-feira foi a Valença à feira para comprar outra. Ali havia um vendedor com um só pato, e o vendedor dixo-lhe, bem, tenho-lhe este pato. E a amiga, de profissão professora e de muito bom expediente, diz, mas eu queria uma pata porque gosto muito dos seus ovos. O vendedor diz: não há problema, senhora, este pato é duma nova espécie fruto da engenharia genética, além de pato põe ovos de pata e até se reproduz por patogênese. Ela, ante tal maravilha, levou o pato e passaram os meses e os anos e o tal pato nunca um ovo pôs, e amiga dizia: imos discutir isso de se é certo o que o vendedor lhe dixera ou se a enganara ou se enganara, ou se se passava alguma cousa no comportamento do parrulo que ela não soubera tratar. Essa discussão com a minha amiga era um insulto óbvio a inteligência.
Pois assim é isso da imposição, um insulto à nossa inteligência, mas há quem de tão movido que tem os sistemas do seu ecossistema que tente discuti-lo sem ver que isso não é mais do que uma burla e trato dele como se fosse um verdadeiro parvo ou enfermo mental.
No ano passado realizei um curso de linguagem administrativa da Secretaria-geral de Política linguística, apreendia-nos uma beleza licenciada de Filologia Galega pola Universidade de Compostela que andava na casa dos trinta anos.
O futuro de conjuntivo, isso é algo já decaído em galego, o infinitivo conjugado, bom, isso está aí, mas não é recomendável dado que já está em desuso, a linguagem administrativa.... pois paralela do espanhol que é em definitivo o modelo da linguagem do ecossistema regional estatalizado.
A professora andava muito zangada com a política de Feijóo sobre a língua, concretamente da modificação (entre outras cousas, um roubo do trabalho aos galegos e galegas) do artigo 35º do Decreto legislativo 1/2008; ela dizia: é injusto que se nos modifique a nós, e aos catalães e bascos não, isso é injusto, se é legal para nós também deveria ser para eles, nesse caso, se fosse aplicado a todos, eu calaria (sic).
A professora não era do PP, era votante Bloco. Um dia comentava-lhe que o nome da sua matéria quando foi de estabelece-la na universidade, era o de galego-português e ela não acreditava, e dizia de galego e português (como o galego se havia de poder chamar galegoportuguês!).
A sua aspiração era a de obter uma vaga de normalizadora nalguma instituição pública.
Eu pensava: mas que se passou em filologia da Universidade de Compostela para esta matéria vir cair nas mãos de estoas? Diz Tzun Tzu n'A Arte da Guerra, que as batalhas que melhor se ganham são aquelas em que o inimigo abandona antes da batalha, ou dito doutro jeito, que as batalhas que antes se perdem são aquelas onde se renuncia a combater.
O reintegracionismo – tendo a razão e a ciência do seu lado – renunciou à batalha séria em Filologia-Compostela (afortunadamente não todo o País é assim). Agora isso está em mãos de estoas e a mais dum reintegrata o de ser estoa até se lhe pega (naturalmente, estas apreciações subjetivas e descerebradas minhas não vão por ninguém e peço desculpa a quem se puder incomodar, salvo que seja ou se considere um estoa).
Dessa faculdade sai quanto normalizador nos invade, com essa praga imbecil do galego regional e sendo a desculpa para alguns caminharem contentes por nada.
Tranquilos todos e todas, quando eu for o Presidente da Galiza— por que não? – o primeiro que vou colocar é uma Secretaria-Geral de Política Linguística para a proteção da igualdade do castelhano e o galego e em cada estabelecimento ou instituição pública um normalizador supervisor de todo o que for feito em castelhano, desde traduções até saraus para terem bem cobertos os direitos; e aos de galego daria umas boas férias, que Deus sabe que as têm já bem ganhas.
Como percebo que estas minhas estórias podem ter despistado algum leitor, voltemos ao do cabeçalho e ao corolário a que temos que chegar.
Um amigo meu, acho que visitante nalgum congresso da AGAL (III), Cesareo Monici, corso ele, e com quem partilhei alguns jantares e muitos gostosos momentos, dizia-me: “Na Córsega falamos italiano, o italiano per se, o toscano; mas estes franceses querem que chamemos ao italiano corso, e que o modelo do nosso corso seja o da langue d'oil chamada franciano; bom, francês segundo o Estado”. Dizia-me: “estão-nos regionalizando, esmagando, banindo, substituindo o nosso ecossistema cultural italiano (balizando-nos muito bem balizados como diria o bom amigo Elias Torres) polo francês. Porém, eu quero ficar polo menos com a dignidade, não agir como um parvo e não aceitar o seu jogo. Jogo que é neste caso a coroa(1) do modelo de substituição linguística que nos imponhem. São corso, mas não vão conseguir que me comporte como imbecil.”
Outro amigo de congressos da AGAL, o sempre muito solidário com a Galiza e das pessoas mais informadas do mundo sobre esta terra nossa, como é de geral conhecimento dos reintegracionistas, o Lluís Muntaner, dizia-me um dia: “Alexandre perdoa-me que che diga isto, mas queria comentá-lo contigo. Sou como sabes, muito admirador da vossa terra e cultura, gosto da Lusofonia, amo a cidade do Porto tanto como tu ou o nosso comum amigo José Chão de Lamas. Admiro a fina inteligência que caracteriza aos galegos e galegas, sodes os melhores fazendo o jogo bonito, mas sempre que se tenta meter um gole agides como parvos, melhor dito como imbecis, vós que tendes a vantagem de ter uma língua internacional renunciades a ela de jeito majoritário. O que fazem convosco, e o jeito de como muitos galegos e galegas colaboram nisso é de imbecis e não chego a entender como pode ser isso.”
O reintegracionismo é hoje a afirmação clara de qual é o ecossistema nosso. Mesmo uma instituição como a UNESCO no-lo recordou no seu último relatório sobre as línguas ameaçadas – e acabava o relatório da UNESCO – vocês saberão se o aproveitam ou não o de serem língua internacional— isso é com vocês.
Os reintegracionistas estamos conscientes da difícil situação em que vivemos e padecemos, mas o que não vão conseguir connosco, e que além disso – de passarmo-las putas –, o nosso comportamento seja o de imbecis que engolem mós de moinho como a minha amiga a do pato. Há que polo menos termo-nos respeito, como galegos e galegas e como pessoas inteligentes. Isso é o nosso melhor processo normalizador.
(1) Coroa, vem de cara e coroa. Eu também tive que apreender o de cara e coroa, dado que o “cara e cruz” tinha-me muito bem balizado. Mas não há que se envergonhar disso, de todos os dias termos de corrigirmo-nos; o que esteja livre de culpa – ou é filho de Salvador Mourelo e Eva Yusty - ou senão que arremesse a primeira pedra.
(A escola espanhola que há na Galiza é de muita eficácia e qualidade na sua missão e fim nacionalizador, o que duvide -que é espanhola- ou é parvo ou está afiliado a CIG-ensino –a que respeito e quero muito-. Se morasse em Lugo os meus filhos iriam ao da Divina Pastora).
in, O Portal Galego da Língua
http://www.pglingua.org/
terça-feira, 1 de junho de 2010
-Sem dúvida. Ele defendia que era preciso que aparecesse, entre aspas, o super-homem, para que os portugueses pudessem cumprir o seu destino enquanto povo e que é o de se afirmar como a nação charneira da humanidade que é basicamente nisso em que consiste a ideia de quinto império, que nada tinha e tem a ver com um território, uma conquista ou um domínio territorial, antes designa ou se refere a um império do espírito de que os portugueses seriam assim como que uma espécie de guardiães e, logicamente por isso, a quem competiria levar ao mundo. Depois de terem dado novos mundos ao mundo no que diz respeito à descoberta da geografia do planeta, competir-lhes-ia assim fazer uma coisa análoga só que, desta vez, no plano das consciências, no domínio espiritual. Genericamente, eram mais ou menos estas as suas ideias sobre esse assunto.
-E que, mesmo nos dias que correm, quanto a mim continuam a fazer todo o sentido.
-O quê?
-Está a referir-se a quê? À ideia do quinto império ou à do super-homem?
-Bem, atrevo-me a dizer que me estou a referir tanto a uma como à outra.
-A ideia do quinto império… Se quer que lhe diga acho-a pura e simplesmente anódina.
-Alto lá com ela. A coisa pode ser muito mais complicada do que aparenta. Mas fundamentalmente, desde que não resvale para um messianismo etnocêntrico exacerbado e honestamente não consigo vislumbrar como é que a coisa pode deixar de chegar aí, mas seja como for, desde que não resvale para nacionalismos e messianismos sem sentido, também concordo que a ideia do quinto império é praticamente anódina, nada mais que isso.
-Já a ideia do super-homem me parece muito simplesmente uma curiosidade histórica sem sentido e sem o querer estar a melindrar, devo dizer que até a acho um tanto ou quanto perigosa, essa já pode ter efeitos muito mais perniciosos como os que de facto já teve. Afinal não era os nazis que sustentavam que os alemães eram uma raça superior…
-Mas isso não tendo necessariamente a ver com essa ideia de super-homem que interessou o Pessoa. Isso mais derivado de preconceitos racistas que os nazis tinham, não?
-Mas que indirectamente também influenciaram o conceito de raça superior que o Hitler usava. Precisamente a raça dos super-homens.
-O que estás a dizer tem sentido; basta lembrar os programas de purificação da raça que eles puseram em prática mal chegaram ao poder e que não visavam apenas eliminar os mais fracos ou aqueles que eles consideravam inferiores, como igualmente procuravam o objectivo de melhorar as características da que eles designavam por raça ariana.
-Apesar disso, vocês não acham que nós precisamos de uma humanidade assim?
-Mesmo nada.
-Mas olhe que digo com toda a sinceridade que estou absolutamente convencido que é de todo imperioso que isso venha a acontecer, sabe? Acredito nisso convictamente.
-Porque diz isso?
-O quê? Em que moldes é que o senhor vê isso?
-É muito simples, meu caro amigo. A questão é que o ser humano ainda permanece no limbo da humanidade.
-Explique lá isso.
-Você repare que o homem ainda vive escravizado pelas questões materiais da sobrevivência. Apesar de todo o aparato das tecnologias e de todos os avanços que as mesmas nos permitiram em termos de melhoria da qualidade de vida de muitas populações, a verdade é que fundamentalmente os problemas permanecem os mesmos de sempre e podemos dizer que tudo se resume ao facto básico de os seres humanos terem que ganhar a vida para sobreviverem.
-Posso então perguntar se o senhor está a falar de uma utopia comunista?
-E eu respondo-lhe que não sei, se quer que lhe diga não saberei dizer. O que eu posso acrescentar é que não estou a falar da grande maioria da população mundial que são as pessoas que vivem nos países pobres e que na larguíssima maioria dos casos se limitam a sobreviver apenas no domínio dos parâmetros mais básicos e elementares. Limitam-se a ganhar o alimento de cada dia, tantas e tantas vezes nem isso e pouco mais conseguem, eu arrisco-me a dizer que a pouco mais podem mesmo aspirar. Eu nem estou a falar desses. Estou antes a falar das pessoas que vivem neste lado desenvolvido, ou dito desenvolvido do mundo, incluindo aí e especialmente destacando aí, aquelas pessoas e já vão sendo muitíssimos milhões que até se pode dizer que vivem com bons padrões de conforto e com acesso mais fácil e garantido a tudo o que pode preencher digna e amplamente uma existência. A verdade é que mesmo essas pessoas se limitam a vegetar a maior parte do tempo para ganharem o seu salário e com ele o sustento de todo o quadro em que desenrolam as suas vidas. Quer dizer, mesmo essa gente que aparentemente poderia ser aquela que melhor se poderia elevar acima do básico da sobrevivência, mesmo essa gente se limita ainda a viver para ganhar o pão nosso de cada dia e pouco mais que isso.
-Mas veja lá, meu caro senhor. Isso não será um outro problema? Por um lado tendo a ver com fenómenos como o da redistribuição da riqueza, isto no que respeita à permanência da miséria e, por outro lado, tendo a ver com a fatalidade de termos que sobreviver neste modo de vida em que vivemos. Não acha que isso que sustentou terá mais a ver com este género de questões? O senhor não acha que está um pouco a confundir esses problemas?
(…)
-E o que propõe? Você propõe um mundo em que o trabalho não seja necessário?
(continua)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Feira do Livro no Jardim Botânico Tropical
Preparámos para si uma excelente oportunidade que tem que aproveitar!
Durante quatro dias poderá adquirir as diversas publicações do IICT a preços promocionais, bem como finais de stock de várias coelcções da extinta Junta de Investigações do Ultramar: Estudos Ensaios e Documentos, Memórias da JIU, Estudos de Ciências Políticas e Sociais com preços simbólicos e até ofertas.
Além disso venha conhecer o Jardim Botânico Tropical, a profusão de espécies aí existentes e as exposições temporárias em exibição: Terra de Linces, Um Mundo de Insectos, Jorge Borges de Macedo Privado e Publicado.
Entre 16 e 18 de Junho das 10h às 17h30
Dia 19 de Junho entre as 11h e as 18h30.
No Jardim Botânico Tropical
Arcadas do Palácio Condes da Calheta
Largo dos Jerónimos - Belém
Cordialmente,
Carolina Bastos
IICT - Instituto de Investigação Científica Tropical
Núcleo de Divulgação Externa
Rua da Junqueira, n.º 86 – 1.º
1300-344 Lisboa
Telf. 213616340 - ex. 50 119
Fax: 213631460
sábado, 29 de maio de 2010
«Olivença recupera as suas ruas»
«A Câmara Municipal de Olivença começou a recuperar os antigos nomes em português das ruas da localidade. A iniciativa parte da associação cultural Além Guadiana, que há um ano apresentou à Câmara e aos diferentes representantes políticos de Olivença um projeto pormenorizado para a valorização da toponímia oliventina, com unânime aceitação.
O projeto contempla a adição dos antigos nomes das ruas aos atuais, mantendo a mesma tipologia e estética nas placas. Assim, resgatam-se as denominações das ruas, dos becos, das calçadas, etc., que configuram o extenso casco histórico encerrado nas muralhas abaluartadas, com um total de 73 localizações. Tudo irá acompanhado de um simbólico ato inaugural e da edição de brochuras turísticas bilingues.
A maior parte da toponímia urbana de Olivença foi substituída ou modificada na primeira metade do século XX, embora alguns dos nomes continuem a ser utilizados pela população apesar das alterações, como nos casos da rua da Rala, da rua da Pedra, da Carreira, etc.
Os antigos nomes das ruas falam-nos do passado português da “Vila”, como popularmente é conhecida a cidade, desvelando aspetos diversos, amiúde desconhecidos, da sua história. Estes remontam a séculos atrás, muitos deles à Idade Média, aludindo a pessoas ilustres da História, a antigos grémios de artesãos, a santos objeto da devoção popular ou à fisionomia das ruas, entre outros aspetos. A rua das Atafonas, a Calçada Velha, o Terreiro Salgado e o beco de João da Gama” são alguns exemplos.
Com esta iniciativa pretende-se, enfim, realçar um interessante componente da rica herança cultural oliventina, a toponímia, contribuindo para testemunhar a história partilhada deste concelho e para a tornar visível em cada recanto intramuros. Os nomes ancestrais dos espaços públicos conformam uma janela que convida a assomar-se e a explorar a apaixonante história de Olivença. Expressados na sua originária língua portuguesa, constituem o testemunho vivo de uma cidade onde se respiram duas culturas e são um veículo que encoraja os mais novos a manter a língua que ainda falam as pessoas mais velhas do município. Para a associação Além Guadiana, trata-se de uma iniciativa com fins didáticos, culturais e turísticos, com a qual se resgata para o presente uma parte do passado oliventino.»
A.M.
in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

