domingo, 19 de fevereiro de 2012



                           

                                    ENTÃO MAS AFINAL … (IV)
                                    (...)





Eu, outro dia, olhei os olhos de um cão e sentei-me numa pedra.
                                                                                                 
Como todos sabeis, olhar os olhos de um cão tomando uma pedra como assento, são algumas das inúmeras formas possíveis de se caminhar.

E fui feliz ali, assim.                             
Como o cão penso ter-me sentido cão.
Terei sido, portanto, cão naquele momento.
Como a pedra senti-me pedra tendo sido, também, pedra então.
Árvore já me senti várias vezes, é recorrente em mim.






E, é claro que me senti bem com isso senão nem sequer estava a contar.
Posso, devo, pois concluir que sentir-se cão, pedra ou árvore é uma das muitas formas de se ser gente.
Então mas afinal …
Sim. Havia um tempo sem desconfiança e sem juízo.
Perguntava-se - em plano aberto, sem disfarces ou canais codificados - para aprender e descobrir e crescer com isso. Não para julgar ou classificar. Talvez por isso, ria-se mais e o riso, era cristalino e sem rugas. 
Sim, havia um tempo de clara e luminosa ingenuidade, de total ausência de perversidade e onde a maldade, de facto, não compensava.
Era no tempo em que … bem,
(…) O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei. (…)

Então mas afinal, …
A busca continua incansavelmente numa história que se crê interminável.


Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Alma Portuguesa

Ivan de La Rocque, Uberaba MG, enviou para Diálogos Lusófonos ( dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br ): 
 
Portugal construiu cerca de 800 fortalezas e fortins fora da sua casa mãe, criando o Mundo Luso, seu Protetorado.
Vejam estas fotos e desistam de considerar Portugal apenas um cantinho à beira da Europa. Nunca o foi !
A ALMA PORTUGUESA É TÃO GRANDE QUE NÃO CABE NA EUROPA ! Transborda e abraça todo o planeta.

Clicar aqui:
http://www.youtube.com/watch_popup?v=Rrx0W_5KmQo&vq=hd720

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O adoecimento das (nas) relações interpessoais*

Fernanda Leite Bião**


   Em meio à vasta rede de relações que os sujeitos experimentam, em que vivenciam suas histórias de vida, a socialização é o caminho para a construção da convivência interpessoal.
Marca imperativa, dentre os primeiros lampejos de vida, ainda mesmo quando crianças, a socialização com os primeiros pares (pais e cuidadores) é de grande importância para o desenvolvimento físico e psíquico. Primeiros passos para o conhecimento do outro e de si mesmo. Primeiros passos para as primeiras manifestações das escolhas e, quem sabe, o ensaio para o respeito das diferenças e dos diferentes.
   Assim, é no seio familiar em que as primeiras experiências significativas e primárias de socialização são vivenciadas e, com tais experiências, a possibilidade dos primeiros contornos de personalidade e de reconhecimento do Eu se tornam possíveis. Sentimentos e emoções, autoconhecimento e os primeiros nós existenciais também podem ser encontrados nesse momento.
   Aos nós existenciais chamo aquelas situações traumáticas e/ou repetitivas em que os sujeitos são inseridos e que, embora sirva de ensejo para se desenvolver algum tipo de aprendizado no campo do sentimento, atua também como um fenômeno paralisante em relação ao Outro, uma dificuldade para o estabelecimento de relações atuais e vindouras, o que impossibilita o ser vivente de enfrentar os desafios e as oportunidades de crescimentos de novas relações interpessoais.
   Em outras palavras, o medo e a desconfiança se tornam companhia constante, em detrimento da possibilidade de crescimento que mudanças em relações aos Outros pode trazer. É o velho que esbarra no novo a todo o momento. E quanto incômodo pode ser sentido e traduzido por meio de um corpo falante, de uma mente pensante e sentimentos transformados em armaduras protetoras de si mesmo e do outro. Daí nascem os questionamentos, dentre os quais se destaca esta indagação: como vai sua vida de relações?
Ando por vários lugares a escutar murmúrios e o queixume da dor nascida dos conflitos. Dor que corta para além de lugares palpáveis. Corações que choram sem cessar. Sentimentos sem nomes, emoções silenciosas e barulhentas. A necessidade de compreender a dor que lateja. A que veio a dor? O que ela quer me contar?
   Vejo o quanto se relacionar é um padecimento e a enfermidade atual é gostar. Padecem almas que não escutam a si mesmas, em meio a uma sinfonia interior, lastreada pelo grito que teima em sair. Quem as ouve? Quem se ouve? Quem ouve quem?
   Deseja-se o sonho do amor impossível, aquele que calou a alma e a modelou, docilizando os sentimentos alheios, a responder a uma necessidade que talvez seja somente uma fantasia, uma crença sobre a forma mais bonita de ser amado e de ser correspondido nas próprias necessidades.
   As necessidades sempre existirão, motivo por que se deve perguntar se a própria necessidade não violenta a possibilidade de receber o Outro, ou seja, de estar aberto para o que o mundo circundante tem a lhe oferecer. Se eu não quero, tenho de aprender a dizer a palavra mágica – “não” –, ser livre e sustentar a escolha de não querer. E, por falar em liberdade, parafraseando Sartre, estamos condenados a ser livres. Concordo com esse brilhante filósofo e reitero suas palavras, afirmando que estamos também condenados a nos relacionar. Que tal começar a pensar nisso?
_____________________
*Crônica escrita em 4 de fevereiro de 2012.
**Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Mestranda em Educação Tecnológica pelo Centro de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XXXVII

Tenho de dar uma explicação sobre esta entrada e o porquê de esta ser a XXXVII e não a LXXVII.
Quando estava a preparar o quadro e o texto para esta semana, resolvi mostrar de imediato as obras monocromáticas, para não ficarem dispersas. Procurei então a XXXVII, que tinha nos meus ficheiros como Blue, Blue, para quem quisesse ler o texto e ver ou rever a obra. Qual não foi o meu espanto quando vi que d´Arte XXXVII não existia, pois passava do número XXXVI para o XXXVIII. Não sei o que se passou mas, para tudo ficar certo, esta semana vai ser o Azul a dominar o espectro luminoso.


Azul, Azul Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 100x100cm

Um meu amigo tem feito algumas referências aos meus azuis, considerando alguns que o tocam especialmente, de “Azul Tapadinhas”.
Há pintores que são conhecidos por saberem realçar determinadas cores nas suas pinturas. Lembremos Van Gogh e os seus vibrantes amarelos, Cézanne e os seus espantosos verdes e, porque vem a propósito, a história de um azul especial.
Yves Klein, nascido em Nice, França, realizou mais de cinco dezenas de quadros monocromáticos em azul. Gostou tanto de uma das tonalidades, que a registou em 19 de Maio de 1960, no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, com a designação IKB (International Klein Blue).
Espero que esta obra se imponha pelo seu azul. Não tem outras cores que o tornem mais suave ou mais profundo, mais alegre ou mais triste…
Acho que as cores são como as pessoas porque dependem muito do que as rodeia. Todos nós nascemos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros... As diferenças começam antes do nascimento, e prolongam-se durante toda a nossa vida. Nós e as cores somos sensíveis ao ambiente que nos cerca.
Esta atmosfera é a essência mágica com que se cria um monstro, o génio ou uma obra-prima.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dois Poemas



TRÂNSITO

Transito amores
frios (a estrela primeira
         na última visão da noite)

desproporcionados aos olhos
ensaiados de venturas
- o cantochão no absurdo
  abrigo das dores passageiras –

desafinadas aos amores
atravessados: paredes
desconstruídas em escritos
aprisionados      (transito
frios amores inacabados).


BRUTA

A pedra
brutamente cortada
brutamente transportada
brutamente transformada
brutamente assentada
brutamente cinzelada
brutamente esculpida
brutalmente polida
                   na pedra bruta
                   remanesce.

(Pedro Du Bois, inéditos)
http://pedrodubois.blogspot.com

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


QUANDO O PROIBIDO ERA O DEVIDO

 
“-Conversas de homens.”, era como os graúdos, nas tabernas e cafés, etiquetavam as linguarices que, no seu entender, requeriam que os miúdos arredassem desta ou daquela convivialidade. Bastava que os motivos fossem os comentários sobre algum adultério, geralmente definido em vernáculo, sem que se atendesse às razões de conveniência ou até um ou outro caso de quebras de honestidade no que de mais simples possam ter as relações do dia-a-dia. Aos ouvidos das crianças estavam interditos certos assuntos, não fosse a sua inocência sofrer rombos no casco ou, o que seria pior, comprometer a palavra de alguém. Quanto a este último aspecto, dava-se o caso de existirem temas de que os mais novinhos nem chegavam a suspeitar, por tão só serem abordados nas suas costas e quando andavam por longe e se por acaso uma qualquer fresta deixasse passar a mais ligeira brisa, logo os mais noviços eram severamente repreendidos por se terem metido onde não eram chamados e, sob os mais variados prenúncios de desgraças e diversas ameaças, quase sempre intimados a calarem-se e esquecerem o sucedido.
Certa noite, dando conta de uma discussão em piano entre os meus pais, apercebi-me que o meu ganha-pão fizera algo proibido e que, segundo os reparos da minha mãe, poderia pôr em risco o conforto de toda a família. O susto induziu-me a querer saber mais, mas se o homem me explicou que aquilo não me dizia respeito pelo que me deveria omitir sequer das lembranças, em a madre encontrei um muro feito da crua promessa de me dar um par de estalos se voltasse a referir-me àquilo, fosse onde fosse e com quem quer que fosse. E ponto final, pois de contrário logo ali me seriam adiantadas as primeiras prestações. Só muito depois do último inquilino ter podido abandonar o exílio nas garras da polícia política, eu vim a saber que o paizinho oferecera dinheiro para que um jovem conterrâneo, implicado no assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, perpetrado pela LUAR, pudesse aproveitar a saída precária para assistir às exéquias do progenitor e desse o mergulho numa fuga para a Bélgica.
Maior foi a surpresa em torno da prisão do meu avô João que, por sinal, até era um admirador do trabalho do consulado do Professor Oliveira Salazar.
“-Não, não, menino.” –De imediato o barbeiro me corrigiu a perplexidade que instantaneamente atribuíra o castigo a uma conduta menos digna por parte do velho e que, a meus olhos, era de todo impossível. E, tesoura na mão e pente na outra, na realidade ele não fez qualquer compasso de espera. “-O seu avozinho foi preso político. Já há muitos anos.” –Executando um gesto largo. “-Era o seu paizinho um moço. Então o menino não sabe?” –Corriam as primeiras translações em liberdade e ainda eram frescas as tardes em que quase toda a gente falava de política.
Mestre Eliseu é uma daqueles homens que sempre trabalhou só, prenhe de diacronia para cogitares que são interrompidos pelos saltitares de converseta em converseta com um ou outro cliente, ou nos círculos matinais que na sua loja bebem o desportivo. Não se coíbe de falar mal dos outros e de rogar pragas àqueles de cuja cara não gosta. Tirando uma marotice em que, já viúvo, se metera com mulher alheia e de que eu sabia por portas e travessas que aqui não vêem ao caso, tirando isso pode-se dizer que nunca fez mal a alguém. Mas também nunca foi pessoa de ajudar outrem. Para ele, cada um trata de si e, em conformidade, sempre viveu de casa para a barbearia, para que aos seus não faltasse o alimento e o agasalho. Aos Domingos ia, uma vez por outra, ver futebol e quando vinha o calor gostava de nadar no rio. Saía em excursões que de resto era o que conseguia ver no cinema e no palco da principal colectividade da terra.
Eu não sabia dizer se ele estava a dar mais uma das suas injecçõezinhas de fel, mas há muito que sabia ter ele sido, por muitos e bons anos, o último barbeiro do avô João, a casa de quem, todos os dias, antes de abrir a porta, se deslocava para fazer a barba e, quando se impunha, aparar o cabelo. Certamente sabia do que estava a falar e os detalhes com que me narrou o episódio, deixavam antever que muito do material vinha directo de desabafos do próprio intérprete. Na verdade, o que de imediato expôs até era lisonjeiro para o mau ancestral. No entanto, quem não deve ter tido quaisquer considerações do género foi o barbeiro, mortinho que estava por contar.
Assim soube que no dia em que a Alemanha assinou a rendição, a alegria popular explodiu de tal maneira que, coisa nunca antes vista, mais de uma centena de pessoas se juntaram em frente da “Vélhinha”, onde anteriormente tinham escutado notícias pelos altifalantes com que, ao Domingo, os directores possibilitavam que o rádio da colectividade falasse para o exterior. Por entre vivas aos aliados e à liberdade e gritos pela democracia, depois de discursos e mais propostas e contra-propostas, já com bandeiras nacionais e panos negros, decidiu a massa dirigir-se a pé até ao Barreiro, onde, diziam, deveria juntar-se a outra manifestação que saíra para a rua a partir das fábricas da CUF e do Caminho de Ferro. Quem não gostou da ousadia foram os homens afectos ao regime e –diz-se que um industrial, à época, o chefe dos legionários e que se orgulhava de ter sido um dos Viriatos na guerra civil de Espanha- algum deles alertou as autoridades que, em acto contínuo, deram a resposta. Já se gritavam morras ao Salazar quando a mole se preparava para abandonar a vila onde, sem aviso prévio e sem olhar a quem, a guarda a cavalo caiu de sabres e coronhas sobre as pessoas, ferindo umas e prendendo outras, originando precipitações pela lama ensanguentada e voltas atrás na rota de passagens à clandestinidade. Aquele dia de juízo fez com que houvesse quem apenas à noite tenha abandonado as morraceiras para regressar a casa e nas semanas seguintes esteve a localidade ocupada pelos militares e submetida a recolher obrigatório.
Obviamente que o meu avô nada teve a ver com aquilo. Ele nem saiu de casa e muito menos instigou ao mínimo bulir de uma palha. Mas como nunca escondera as suas preferências pelos ingleses e os aliados e desde a reviravolta no curso dos conflitos que, por vezes, deixava que muitas pessoas fossem à sua cozinha escutar a BBC, quando se tratou de encontrar um possível cabecilha para o desacato, diz mestre Eliseu que um certo ranhoso tratou de se vingar por o Hitler ter perdido a contenda. O mal entendido foi rápida e facilmente esclarecido e o senhor João pôde regressar à sua vida de sempre. Mas nunca se conformou pela humilhação que sofreu por ver a sua casa revolvida, com criadas e penas a voar. E a solução foi atirar a pedra para o fundo do poço que nem o meu pai se atreveu, alguma vez, a abrir.
Eram os silêncios de outros segredos impostos.
No entanto, sempre me permaneceu na memória a figura do Carlitos, o filho da Dona Cristina, amiga de minha mãe que, dados os azares, vivia a expensas de seu pai; jamais olvidei os olhos sem brilho do Carlitos que todas as tardes, sempre à mesma hora, nos batia à porta munido de um jarro onde levava batidos de fruta que em minha casa se faziam para que ele os levasse ao seu pai que, no leito, estava desenganado dos pulmões. Nos dois ou três meses que durou o padecimento, sempre a minha mãe se lamentou por aquele anjinho, mas igualmente manteve de fora a razão da doença. Quando o nome daquele homem foi dado a uma rua, precisamente aquela em que nascera, entendi que tinha sido a PIDE que o devolvera à família para que aí desse o último suspiro.

Alhos Vedros, 14 de Maio de 1998

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012





 ENTÃO MAS AFINAL … (III)









                               (...)

A mecânica continua e ser misteriosa.
Perde e reganha magia.                                      A música oscila, varia.

Perdem-se instrumentos, calam-se outros que entravam na composição do som e o temperavam mas surpreendentemente outros surgem de onde menos e quando nada se esperava e reverbera o som noutras tonalidades que dilatam a alma.


E escutamos de novo e sempre, e tentamos perceber
 - porque sentimos e só depois sabemos -
que a mecânica da vida se altera, muda, e que, todos nós fomos, somos, seremos,
arquitectos e construtores nessa mudança.

 



Chega um poeta e solta o seu verso cantado
“Que caminho tão longo, que viagem tão comprida, que deserto tão grande, sem fronteira nem medida. Águas do pensamento vinde regar o sustento da minha vida …” (1)

É claro, gostaríamos ter a arte de sempre cruzar os caminhos interpretando uma declaração de amor. Amor por tudo, por todas as coisas, por todos os seres vivos e inanimados. Amor universal, completo e pleno.
Mas apesar de sentirmos – na convicção e instinto – ser essa a única atitude orientada no sentido do que todos buscamos, nem sempre é possível, pois não? Não porque o não queiramos, antes porque o não podemos, porque o não sabemos.

E não se pode soçobrar. Não se pode dizer agora não, agora “passo”, agora …espera?!

Não se pode?

Não! No universo das ideias/emoções a vida é sempre a andar. Sem intervalos nem esperas, sem ausências.

As ideias/emoções cavalgam-nos, ultrapassam-nos e arrastam-nos para o abismo ou a redenção. 

                       (...)

(1) - Excerto de um poema de José Mário Branco do álbum “Ser Solidário”

Fotos: Edgar Cantante, Texto: João C.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Largo da Graça



Espaço Público

As ruas, os edifícios, os jardins, são da responsabilidade de quem? Porque não estão melhor cuidados? Que podemos fazer para que esses espaços sejam tratados efetivamente como a nossa casa comum?

Temos um país muito bonito, de grande diversidade e beleza paisagística. Cores de tonalidades mil como no arco-íris. Mas no que toca ao planeamento da generalidade das nossas vilas e cidades, é uma desinspiração e das grandes. Falta de espaços naturais, zonas verdes, os edifícios na generalidade são feios, os equipamentos de desporto e lazer são escassos, e poderíamos continuar por aí fora que a lista sobre o fraco desempenho das políticas públicas muito se alongaria.

Será da pouca formação dos nossos líderes políticos, em particular, ao nível do poder autárquico? Será da incapacidade dos nossos engenheiros e arquitectos? Será devido ao clientelismo partidário? Será porque na construção civil se colocou o lucro individual muito à frente do bem comum? Enfim, será fruto da nossa fraca consciência colectiva? Porque será?

Dá-me ideia que planear uma vila, uma cidade, um país, de certa forma é como fazer uma pintura. O resultado final depende da capacidade e do bom gosto do artista ou, se a obra for colectiva, dos artistas. E o que pensamos para o nosso país, de maneira idêntica o fazemos para todo o espaço lusófono e para o mundo.

Naturalmente que a emancipação social passa por um cada vez maior incremento de uma democracia participativa em detrimento desta democracia representativa. Por uma opinião pública que se quer o mais esclarecida possível, capaz de ajudar a esclarecer as opiniões dos gestores políticos, em direcção a uma cada vez maior e efectiva qualidade de vida.

Mas o que é ser esclarecido? E o que é uma efectiva qualidade de vida? Quais são os princípios que a devem nortear? Aqui é que está o busílis da questão, não é verdade?
E depois, “quantas vezes falar pouco é fazer muito”, ouvi eu dizer numa altura em que o Dalai Lama se ia passeando pelas ruas de Lisboa.

Nunca a participação social foi tão ampla. Desde a Revolução Francesa, com a implantação do liberalismo, que a democratização das sociedades se vem consolidando cada vez mais.

Hoje são conhecidos todo um conjunto de movimentos sociais, transversais a toda a sociedade, de raça, sexo, género, ambientais, pacifistas, sindicais, religiosos, e sei lá que mais. Portanto, a participação social não está de todo mal de saúde, mas mais se recomenda.

Em suma:

- Será ainda demasiadamente representativa a nossa democracia? Decerto.

- E deverá ser menos? Cremos que sim, mas os atuais níveis de participação social deixam muito a desejar. Temos de aprender a exigir maior responsabilidade ética aos nossos representantes políticos.

- Será necessário reformar o sistema político? Claro, é evidente que o bloco liberal, por si só, é muito limitado.

- E deveremos apostar mais em democracias plurais e radicais, em socialismos de mercado, ou em anarquismos pacifistas?… Que dê para todos, e bem, é o que se deseja.

- Mas como? Teremos artistas que dê para tanto? Sem dúvida. Mas é preciso calma, entreajuda e esperança na Vida. Precisamos aprender a conversar, em vez de discutir.

Apressemo-nos devagar.

Luís Santos

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A UNIÃO EUROPEIA ACABOU, A MORTE DO EURO SEGUE DENTRO DE MOMENTOS

Abdul Cadre
abdul.cadre@gmail.com

Vendas Novas, 30 de Janeiro de 2012

A ALEMANHA perdeu a I Guerra, perdeu a II Guerra e está em vantagem nas batalhas que vem travando nesta III Guerra, que pensa ganhar sem recorrer às divisões Panzer, bastando-lhe controlar o marco, que tem a alcunha de Euro, o qual deveria ser de 12 mas é apenas de um. Pode ser que perca outra vez.
A imperatriz do equívoco europeu, que não quero chamar de Mercozy, como muitos vêm fazendo, dado que o Sarkozy, não passando de pau-de-cabeleira, é completamente irrelevante, pois a dita cuja, quando jovem – apenas de idade, pois que de facto já nasceu velha –, tinha por apelido Kasner, não imaginava sequer vir a chamar-se Merkel e o que mais adorava era ir de bandeirinha e farda colegial a preceito dar vivas ao camarada Erich Honecker. O que é certo é que aprendeu a mandar e conseguiu até meter no bolso o camarada Mário, a quem a imprensa chama Barroso, essa figura decorativa do falecido órgão europeu que dava pelo nome de Comissão Europeia. A senhora Merkel manda tanto que basta assobiar e logo os seus onze procuradores – leaders formais dos países do euro – vão saltitantes lamber-lhe as mãos. São bons vassalos. Já nem sequer reúnem para discutir o que quer que seja, vão a despacho em pequenos grupos e voltam contentes para os seus tronos de palha, contentes porque cumprem ordens, comprometidos porque sabem que mentem e iludem os povos que os elegeram. Alguns nem eleitos foram, foi a senhora que os entronizou, a pedido dos mercados.
A senhora diz: o mundo é quadrado. Eles respondem: muito quadrado. E diz mais: os povos do sul são uns calaceiros. Eles respondem: pois são. Um deles até se levanta e promete de olhos postos no chão: nós vamos corrigir isso, vamos acabar com os feriados e pôr os nossos mandriões a trabalhar vinte e quatro horas por dia e, se não chegar, pomo-los a trabalhar também de noite.
Mas há vassalos que não oferecem confiança. Para já, os do protetorado da Grécia. Portugal é lá mais para o ano, não porque o encarregado de negócios não se esforce, mas porque tanta vénia a propósito e a despropósito levanta a suspeitas de pouca competência.
Bom, há que mandar um alemão às direitas, de preferência luterano e ex-comunista, tomar conta das finanças gregas.
É preciso que ninguém suspeite, é preciso que ninguém faça contas, que ninguém perceba que o superavit da Alemanha é precisamente a soma dos deficits dos protetorados.
Como se conseguiu isto? Desmantelaram-se as indústrias, suprimiu-se toda a produção: não se preocupem que a gente é que sabe. E os procuradores diziam: Ámen!
Pois!
A grande divisão Panzer chama-se EURO.
A Europa, como união de estados soberanos, acabou. O Euro acabará quando os povos que estão a ser submetidos á tal de austeridade não puderem empobrecer mais e gritarem: basta!
Como a Europa é um grande elefante, quando cair vai levantar muito pó e derrubar muitas árvores. Se fôssemos prevenidos e inteligentes renunciávamos ao europanzer quanto antes, sem pó, sem buraco na floresta, negociadamente, pacificamente…
Mas olhando para os estrangeirados que se dependuraram nos escaparates políticos – os Relvas, os Gaspar, os Álvaro, os Seguro, os Coelho – pensamos: isto é o mesmo que querer gelo quente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXVI


Red, Red Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 100x100cm

Sem luz não há cor. O olho humano é capaz de distinguir uma gama de comprimentos de onda entre os 7600 angstroms (vermelho) e os 3800 angstroms (violeta), cabendo aqui um enorme número de tons sem limites definidos. Quando a luz incide sobre o objecto, todas as cores são absorvidas por este, com excepção das cores correspondentes às frequências da luz que o ilumina. Essa luz que é reflectida dá-nos a cor do objecto.
Neste quadro, utilizei, em toda a sua amplitude, a força cromática dos vermelhos. Desde o vermelho de cádmio, o mais poderoso, por ser sólido e opaco, até ao carmim de garança, muito transparente, aveludado e luminoso. Quis ter a certeza que a minha obra reflectia paixão e sentimento, amor e desejo, dinamismo e vivacidade.
Tudo aquilo que nos mantém vivos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

DA CRIATIVIDADE

                 
(Liga-te à Fonte, simplesmente)

Imaginemos a Terra tendo à sua volta uma matriz que contém o Conhecimento Divino. A sintonia e empatia vibratória com essa matriz gera um fluxo energético que permite a recepção da chamada ideia, que não o é. O receptor poderá então tornar possível a materialização na forma da informação contida nesse fluxo. Voltemos a imaginar varias camadas energéticas sobrepostas umas às outras. Aquilo a que chamamos de problemas diários é gerado sempre na camada mais densa, a inferior. O pensador se mantiver nessa faixa a sua consciência não terá acesso a uma solução evolutiva. Tal como um alpinista, sendo audaz esforça-se por colocar a sua consciência numa ascensão que a leve às camadas superiores. Entrará então numa sintonia que lhe permitirá tornar-se receptor da Ideia Divina e de seguida co-Criador da mesma.

Demasiado fácil, dir-se-á. Sem dúvida, é na simplicidade que a verdadeira Criatividade surgirá. Para que assim seja o Novo Homem terá que se libertar de si mesmo, das suas crenças, preconceitos, filosofias e ter uma vida prática de acordo com aquilo que ele é na essência, Deus.
   
A.A.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


À NOITE SOB AS ESTRELAS

Quando as noites se cobriam com aquele lençol de atmosfera tépida e incendiada pelas misturas de grilares, as pessoas sentavam-se à porta até que a hora de repouso lhes lembrasse a necessidade do fim dos convívios. Pelas ruas passavam os vagares e os bancos de jardim enchiam-se de encontros que se prestavam a dar agrado ao serão e a bem dizer da vontade de não querer permanecer em casa. Ele eram as mães e os filhos a quem preveniam quanto aos miúdos desacompanhados, maioritariamente homens que ainda não achavam hora de regressarem aos seus, mas também jovens, sobretudo rapazes e os mais pequenotes que as mocitas, essas, lá cirandavam inevitavelmente em torno das poses e poisos das matronas. E os casais, “-Oh marido! Hoje está uma noite tão bonita para ficarmos em casa.”, aqui e ali apareciam os braços dados de uniões mais apostadas no binómio. Conversava-se em torno de pequenas coisas da vida, comentavam-se os nacionais de futebol e a carreira europeia do Benfica, com os dentes mais cerrados e os ouvidos mais abertos, falava-se da guerra em África e da inércia do salazarismo e é claro que o destino alheio sofria muitas e muitas tesouradas. Naquela praça, adjacente à sede da principal colectividade da terra e o maior edifício ali sediado, a noite era um campo de gritarias e gargalhares, vozes de quem fala alto e os chamamentos a plenos pulmões deste ou daquele miúdo mais renitente. E à razão dos dedos de uma mão, de quando em vez se aproximava e afastava o ruído de um ou outro motor pela estrada nacional que cortava o coração da vila. Da satisfação da sede da relva e das flores, brotavam cheiros que mais vinham encantar o ócio. Às vezes, as discussões e o confronto físico e, mais rarao ainda, as inconveniências de bêbedos que eram enxotados para uma ressaca em face a face com as estrelas. Respeitavam-se regras, pois então, e os homens eram mandados calar quando, por qualquer motivo, diziam palavrões e até nas anedotas se procurava temperar o picante com simples alusões às frases ou situações mais obscenas, a não ser que a roda, toda ela, fosse feita de machos.
Depois as brisas começavam a fazer as ramagens murmurarem e os primeiros bancos deixavam-se permanecer ali, na sua quietude, -Eh Manel! Já lá vais à deita?” e davam-se as boas noites que já não eram capazes de esconder os bocejos. Os assentos voltavam à cozinhas e as portas fechavam-se. As luzes da “Velhinha” apagavam-se e o contínuo tratava de cerrar os postigos e janelas. Com a debandada dos últimos consócios, eram apenas os gaiatos mais crescidos que se deixavam ficar, para escutarem o grito de uma mãe ou um pai que assim punham términos à brincadeira. À esquina do cruzamento dos cafés, resistiam este ou aquele que ainda tinham noite para darem à língua no adiamento do sono.
Por fim restava o som das badaladas, no campanário e, se houvesse vento, o som de uma ou outra folha rastejando pela areia, entre os canteiros e o coreto.

Alhos Vedros, 14 de Maio de 1998

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

a caneta do branqueamento

ao gonçalo

fica a laje o teu corpo nu, apenas as tatuagens
branca pele para o teu oficio do amor rural
sei que protestas assim – por uma nova ordem
e congelas as mãos frias dos poderosos
mãos de leite como flora ardente nestes lábios
passas heroína do novo dia e nada te falta , dói
a neve e a repressão todos os dias como a caneta
o branqueamento vende-se ás fatias dolorosas


José Gil

domingo, 5 de fevereiro de 2012



                                                         
ENTÃO MAS AFINAL … (II)



(…)
Olhamos as estrelas e os planetas, olhamos a imensa abóbada rutilante e aspiramos o cheiro da terra.                                  
Ouvimos o som da água e das marés – escutamos búzios ao ouvido - aspiramos a maresia e o grito das aves do mar. Escutamos, também, o silêncio e as suas metamorfoses. Ora insuportavelmente ruidoso, agitando-nos, ora o grande silêncio que extasia.
Nessa caminhada, crescemos com o que vamos descobrindo. Cores e sons, paladares, aromas, sentimentos que germinam em sonhos, amores … paixões.

No eterno discorrer, procura cada um realizar o que lhe cabe, cumprir o seu destino. Paramos nas muitas encruzilhadas. Paramos e tentamos interpretar, conjugar e harmonizar os ecos, os ruídos e as vozes. As de dentro e as do mundo. A do outro, as dos outros. Escutamos e tentamos perceber o nosso lugar e o passo a seguir, o onde e o quando, o por e o para, o sentido do porquê.
Interrogamo-nos.

  
Bem, não é só crescer.
Por vezes também minguamos.
Nem tudo são festas e rosas e sons celestiais. Há a dor, as dores. Acontecimentos, situações que ferem. Discórdias, desigualdades, não as de forma que enriquecem, antes as de substância, sociais, que estruturam e determinam o sentido da “ordem”. Injustiças, ódios, e no limite guerras.
Tarda-se, teima-se em reconhecer e aceitar a diferença. Porque há princípios e há valores. Há o SERVIR. Mas há também interesses e imposturas, e os vícios e os viciados. Há o SERVIR-SE.
Surge às vezes a solidão e o medo. Solidão desamparada, medo visceral e instintivo.
Pois, o sono toma o lugar do sonho.
Dúvidas, incertezas, desorientação, algum desalento e,… a busca. 
                   (…)

Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 

Carlos Loures ouve o escritor


proclamar:

- Defendo os humildes, sempre!

Instalado está o Miguéis em

VIDAS LUSÓFONAS

onde já moram 144...

Naquela casa
tudo está a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso recebeu
mais de 25,1 milhões de visitas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Egipto nas Mãos dos Islamistas. A Liberdade é Feminina por isso não se dá no Deserto.


António Justo

Segundo os dados, agora oficialmente, vindos a público, os islamistas ganharam as eleições parlamentares no Egipto, atingindo 70,4 dos mandatos.

As listas do braço político da influente Irmandade Muçulmana „Partido da Liberdade e Justiça“ (PLJ) conseguiram 45,7% dos assentos no parlamento. Em segundo lugar ficou o “Partido da Luz “(Hizb al-Nur) aliados dos Salafistas do Al-Nur que conseguiu 24,6% dos lugares. O partido Wassat (islamitas moderados) conseguiu 8,4% e o partido liberal “Aliança Egípcia” 6,6%.

Os Salafistas do Al-Nour pretendem a destruição de monumentos históricos, (p. ex. as Pirâmides dos Faraós) porque não dão testemunho do islão. Esta exigência não é nova. Já no Afeganistão islamistas tinham arruinado grandes estátuas de Buda que eram património mundial.

Aqueles que saudaram o derrube do regime do presidente Mubarak equivocaram-se. Não contaram que, geralmente, a situação no mundo árabe só tem possibilitado a escolha entre a cólera ou a peste.

Grande parte do povo egípcio sofre porque não tem pão, nem formação, nem voz. O clero islâmico é fiel ao sistema, encontrando-se sempre do lado do poder. A gloriosa excepção é a Turquia de Ataturk enquanto garantida pelo poder militar. De resto os governantes encontram-se na dependência da bonomia das mesquitas que às sextas-feiras tomam muitas vezes posição. A aceitação de radicais na população também se deve ao facto de alguns grupos de islamistas se empenharem pelos mais pobres e também os ajudarem com dinheiros vindos da Arábia Saudita.

A imprensa ocidental aquando das rebeliões na África do Norte, no entusiasmo do acontecimento, estoirou todos os foguetes antes da festa. Agora que a realidade vem à tona, os mesmos jornalistas contentam-se com informação tipo nota encavacada nalguma esquina do jornal. Quem, durante a primavera árabe, com sangue frio, apontava para a realidade, e para o equívoco da comunicação social, era considerado desmancha-prazeres.

A imprensa europeia, ordinariamente, quando informa sobre questões árabes, discrimina-a pela positiva. Isto tem muito a ver com a dependência europeia do óleo árabe e com a fraternidade estrutural comum ao islão e ao comunismo.

O árabe só concebe a liberdade dentro do sistema islâmico enquanto o ocidente a concebe aberta, também fora dele. Enquanto para o ocidente também “o próximo” faz parte do sistema, para o árabe só o crente islâmico faz parte dele. Por isso a liberdade e a mudança que vem de fora constitui uma ameaça ao sistema.

A revolta não foi gerada no seio do povo, foi fruto de ideologias masculinas contra ideologias masculinas. O ideário árabe é extremamente masculino. Uma mudança para melhor só será possível quando a feminidade fizer parte dele.

O busílis dos problemas árabes está no facto de religião, paz e liberdade serem qualidades femininas.

António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
www.antonio-justo.eu

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXV


O Pêndulo e o Canário Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 29x35cm

Em mecânica, o pêndulo é um objecto que oscila em torno de um ponto fixo. A descoberta da periodicidade do movimento foi feita por Galileu Galilei, esse, o tal da frase “Epur si mueve!”, para se salvar da Inquisição.
Em, “O Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco, são as sociedades secretas que desenvolvem tramas para governar a humanidade, com referências à Kabbalah e a teorias conspiratórias.
“Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a ideia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi.”
Este é um extracto do conto “O poço e o pêndulo”, de Edgar Allan Pöe, em que nos vemos dentro da mente de um homem, do qual nada sabemos, com uma excepção: dentro de momentos será condenado pela Santa (não é ironia) Inquisição, por actos de bruxaria.
Em todos estes casos (poderia citar mais) o pêndulo é o detonador de algo de trágico que irá acontecer, tão previsível como o seu movimento oscilatório.
Terá o pobre canário consciência do que lhe vai acontecer? Salvar-se-á?
E nós?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ISABEL DE ARAGÃO


Na busca de fundamentos que sustentem especulação que ora me passa pela cabeça, eis-me com um livrinho na mão, escassas 80 páginas, formato de bolso: «Isabel de Aragão, Rainha Santa», de Vitorino Nemésio (Texto Editores, 1ª edição - Outubro de 2011).

Rapidamente vi que não iria encontrar grandes pistas para a minha investigação e foi depressa também que me comecei a encantar com o estilo da escrita e quase a abdicar do conteúdo. Lembrei-me do meu Avô que lia e relia certas obras de Camilo e de Eça pelo prazer dos estilos literários e abdicando totalmente dos enredos que já conhecia de cor e salteados.

De assinalável rigor histórico – nem sequer imaginaria Nemésio a inventar coisas só para enfeitar páginas – fiquei a saber que Dante referiu D. Dinis na «Divina Comédia» (que nunca li). Mas para além da seriedade factual, foi mesmo o estilo literário que mais me satisfez.

A bondade da rainha ficou na História e de tal modo essa virtude se elevou física e espiritualmente que Urbano VIII a faz subir aos altares. Admito, por enquanto, que o tenha feito como modo pragmático de agregar a Roma alguém cuja fé original pode ter a ver com os banidos no longínquo segundo Concílio de Efeso (431)...

Mas se as virtudes de Isabel se pautaram por parâmetros ainda hoje irrepreensíveis mas sempre com uma grande espiritualidade, as de D. Dinis, homem pragmático, seguiram figurino diferente e não raras vezes o rei se preocupou com a gestão financeira que a rainha desenvolvia, sempre adulada por «cáfila que se agarrara aos portões como carraça a podengo» exalando «fedor a desenterrados que fazia ladrar os cães e punha os milhafres de asa baixa»; e às crianças abandonadas dava ajuda mas «quando se faziam homens tirava-lhes a alpista para não se fazerem madraços». E Nemésio refere que os temores do rei começaram com um simples rebate «tão leve como frechada de estorninho que deixa a tremer o verde ramo» culminando na cena do milagre das rosas.

E se a serena rainha teve dois filhos, Constança e Afonso, o fogoso rei teve esses e muitos mais. Por isso refere Nemésio que nas numerosas digressões do casal régio se viam as «lombas onde a mula da Rainha subia de barbela baixa ou o cavalo de El-Rei se empinava à passagem de poldra imprevista».

Lembremo-nos de que a astúcia de D. Dinis era enorme a ponto de conseguir trocar as voltas ao seu irmão, o infante D. Afonso, de modo a que as propriedades raianas voltaram à posse do rei por troca de outras no litoral onde o infante não mais poderia conspirar em contacto directo com Castela: «Chamasse agora o castelhano para uma fogueira de súcia, depois da carqueja molhada...».

A diplomacia a que a rainha se dedicou durante todo o reinado no intuito de fazer a paz entre os permanentes conflituantes, deu para afirmar que «Portugal era de ares muito finos, havia sempre aves afadigadas que passavam os bicos por cima das sombras de Isabel». Essas desavenças perturbavam seriamente o reino a ponto de que «só na redondeza de Leiria o verde pino deitava as orelhas de fora para crescer». Entretanto, de tanto atender aos contendores, «a mula da Rainha andava de cascos gastos». Vir a Lisboa passava por «ver para que lado corriam os corvos de S. Vicente».

O cenário ridente da construção do Convento de Santa Clara (a nova) mereceu o comentário de que «a sua mula mordia freio de prata e o Sol não sabia em que mais pedras havia de pôr os raios» não obstando, contudo, a que «um monstro de testa chata abraçava um fecho de abóbada e dois bichos de corpo de lesma e cabeça de lobo enroscavam-se um ao outro num capitel. Isabel tinha consigo mestres de boas lembranças!». Mistério!

E de que especulação trato? A seu tempo se verá. Se...

Henrique Salles da Fonseca