domingo, 16 de junho de 2013














Levantamo-nos todos os dias sabendo que temos várias lutas para travar.
Lutas connosco próprios e no nosso interior, pois é aí que todas as lutas começam.
No interior de cada um.
A primeira é, desde logo, para não desistir e continuar.

Essa é decisiva e determinante porque só vencendo essa poderemos enfrentar as outras.

Manuel João Croca

Pintura de Luís Delgado (óleo s/tela)

sábado, 15 de junho de 2013

Divulgação

MOVIMENTO
POR MELHORES COMBOIOS NA “LINHA DO SADO”
Rua Silva Porto,6 R/C, 2900 Setúbal Fax: 210 879 405






A inaceitável situação de funcionamento da Linha do Sado.


Senhor Ministro,


Desde o início da electrificação da Linha do Sado, em 14/12/2008, que questões fundamentais para o seu normal funcionamento, como o cumprimento dos horários; a regular manutenção dos elevadores; a vigilância nas estações e apeadeiros, e a necessidade da existência de bilheteiras como alternativa nos casos de falta de resposta das máquinas para aquisição de bilhete, têm sido colocadas directamente por esta Comissão à CP, à REFER e dado conhecimento disso ao Senhor Ministro da Tutela.

E colocamos que a deslocação de apenas três unidades motoras para esta linha era manifestamente insuficiente, impondo-se sim a vinda de mais uma unidade motora a fim de assegurar a regular manutenção do material circulante e corresponder ao cumprimento dos horários em vigor.

É no mesmo sentido, que temos defendido a necessidade da utilização da EMEF do Barreiro por ser a oficina adequada e melhor posicionada para a manutenção e reparação do material circulante a operar nesta linha.

Senhor Ministro,

Na Linha do Sado há sempre elevadores que não funcionam, situação que conduz a três situações que não devem existir, a saber:

1)    - A que idosos, pessoas com artroses, mães com crianças em carrinhos ou ao colo e pessoas com volumes pesados, sejam forçados a utilizar os 44 degraus da escadaria.

2)    - A que a vedação nos apeadeiros seja rebentada para que diariamente um número considerável de pessoas atravesse a pé as duas linhas, situação perigosa que pode levar à perda de vidas;

3)    - E a que muitas das pessoas estejam a evitar utilizar o comboio, o que é mau para as populações e para a receita da própria CP.

Acresce que a falta de vigilância nos apeadeiros durante o horário de circulação dos comboios é não só um forte impedimento ao aumento de passageiros como coloca os utentes em situação de insegurança.

E há, inclusivamente, situações cuja existência não têm o mínimo de justificação, como seja a falta de higiene e limpeza nos elevadores e cais de embarque.

Senhor Ministro,

O argumento que a CP – Comboios de Portugal tem utilizado em cartazes afixados nos locais de embarque de passageiro e não só, como pretensa justificação ao não cumprimento dos horários e ao corte de comboios a que chama “perturbações resultantes das greves dos ferroviários”, não passa, Senhor Ministro, de uma pura mascarada.

Primeiro, porque nas questões laborais entre empregadores e empregados, as leis do trabalho e os compromissos existentes devem ser respeitados;

Segundo, porque tais situações não ilibam a CP de cumprir o seu compromisso, público, com os utentes e as populações, garantindo transporte alternativo.

Compromisso a que a CP não pode fazer dela letra morta, e muito menos quando uma grande parte dos utentes tem já o seu título de transporte pago e o seu posto de trabalho é posto em causa pela falta forçada ao emprego.

Uma vez que notícias surgidas na comunicação social podem ser interpretadas como uma ameaça de privatização da Linha do Sado, aqui fica, Senhor Ministro, o alerta geral da parte dos utentes de que a privatização da linha, pela inevitabilidade que uma tal situação traria mais aumentos dos tarifários e a degradação de um serviço que se pretende que seja público e efectuado pela CP, como empresa pública.


 Com as respeitáveis saudações democráticas.


 Setúbal, 14.06.2013



                                          P`la Comissão de Utentes da Linha do Sado

                                                                          Américo Lázaro Leal

                                                                       Frederico Tavares


sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Losna ou Absinto


por Miguel Boieiro


O vizinho Manel Alves, causticado pelas asperezas da vida, socorria-se das tisanas para tratar quase todas as enfermidades que afluíam regularmente a si e aos familiares. A sua planta favorita era a losna que insistentemente recomendava para os transtornos do estômago e do fígado. Também denominada absinto ou erva-santa, tal planta é conhecida desde a lonjura dos tempos, encontrando-se mencionada em todos os tratados botânicos antigos. Os egípcios chamavam-na “a mãe de todas as ervas”, sendo famosa na época dos gregos, dos romanos, no império árabe e na Idade Média. Hoje, após algumas vicissitudes, encontra-se bastante esquecida, face à panóplia de remédios da farmacopeia de síntese.

O meu estimado amigo e distinto investigador botânico, Dr. Valdemiro Gonçalves Pereira trouxe-me, a meu pedido, da sua quinta de Aidos da Vila (Anadia) um vasinho com uma pequena losna que agora medra viçosa no meu quintal. Vou ver se a consigo conservar porque se trata de uma planta de múltiplas aplicações, como iremos ver.

A Artemisia absinthium L é uma asterácea do género das artemísias que engloba para cima de 180 espécies. Nativa das regiões temperadas da Europa, Ásia e norte de África, esta herbácea perene tem rizomas lenhosos e cheiro intenso característico. As suas folhas são verde-acinzentadas, alternas e recortadas, que se desenvolvem em espiral. Ficam cobertas por pequenas penugens prateadas e têm pecíolos que vão diminuindo de tamanho consoante a altura, até se tornarem completamente sésseis nos cimos. As flores, pequenas e tubulares, de amarelo-pálido, são anemófilas (polinizadas através do vento) e os frutos formam aquénios cilíndricos que não excedem os 0,5 mm de diâmetro.

A losna contém silício, tanino, caroteno, resina, mucilagens, vitaminas B6 e C, ácido málico, princípios amargos de que os principais são a absintina e a anabsintina e um óleo essencial denominado tuiona que, sendo puro, é altamente venenoso, inibindo até a capacidade de respirar.

Propriedades terapêuticas: estomacal, vermífuga, abortiva, antidiabética, antidiarreica, febrífuga, hepática, combatente do enjoo, afrodisíaca, psico- estimulante, desobstrutiva do fígado e do baço, artrítica, anti dores menstruais, desintoxicante, etc.
O “chá” de losna (10 g que se deitam num litro de água a ferver e se deixa repousar 15 minutos) é ideal para a falta de apetite, digestões difíceis, flatulências, e bom funcionamento do fígado, sendo também um tónico para o sistema nervoso e a fraqueza. Toma-se uma chávena três vezes ao dia durante duas semanas. Se forem ultrapassados os 30 dias, a tisana pode acarretar consequências nefastas porque a losna contém elementos tóxicos que se tornam ainda mais venenosos com a habituação.

O “vinho” ou “tintura” prepara-se do seguinte modo: macera-se 40 g de ramos floridos de losna em 30 g de aguardente durante 5 dias. Junta-se, a seguir, 1 centilitro de vinho branco seco e deixa-se em repouso durante mais 5 dias. Filtra-se a mistura e guarda-se o líquido numa garrafa bem rolhada. Toma-se um cálice antes das principais refeições, para combater a falta de apetite, ou depois das comidas, para ajudar a digestão.

Tanto num caso, como no noutro, jamais se deve juntar açúcar pois, para além de ele nada adoçar, torna as bebidas insuportavelmente enjoativas.

Refira-se ainda que o Dr. Lyon de Castro, no seu compêndio “Medicina Vegetal”, acentua que o absinto é planta muito amarga e tóxica e que preparações que levem absintina, só por indicação médica devem ser seguidas.

Mas a maior fama do absinto vem-lhe de um licor narcótico fortemente alcoólico, também chamado vermute (designação em língua alemã), usado e abusado pelos artistas (poetas, pintores, filósofos …) nos fins do século XIX e princípios do século XX. Diziam que tal bebida era a “fada verde” que estimulava a criatividade mas que também poderia levar à loucura. Havia vários rituais para preparar o absinto a que chamavam o “destilado esmeralda”, devido à sua bonita cor. Todavia ele gerava alucinações e o seu fabrico e comercialização acabaram por ser proibidos em vários países, pois danificava de forma violenta a saúde de quem o ingeria. Há muita literatura sobre a relevância histórica destas matérias ligadas a grandes vultos das artes que, por economia de tempo e de espaço, não irei detalhar.


Finalmente, não poderia deixar de referir a mais-valia do absinto ou losna para o modo de produção em agricultura biológica. Com ele se prepara um chorume muito eficaz como inseticida para pulverizar as hortas e assim eliminar piolhos, pulgões, gorgulhos e outros insetos nocivos. Plantado nas proximidades de certas hortícolas (não todas) tem um efeito inibidor à indesejável proliferação de plantas adventícias infestantes.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

CONVERSA DE PÁSSAROS



CAROLA JUSTO

Acrílico 40 x 40

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dueto


A CRIAÇÃO DOS FILHOS

Falamos sobre os desencontros

a água disposta
em consequência
da sede: respingos inundam
               as folhas e pétalas
               rebrilham em gotas

falamos sobre a melhor
maneira com que criamos
os filhos: a água lava
               os corpos
               indiferentes.

(Pedro Du Bois, inédito)




CASCAIS 53

à minha namorada

o oceano ficou na revolta, somos guerreiros
alquimista num mês de greves entre os lugares
sagrados e os rumos abertos, Cascais é a terra
da filosofia que se espera no verão, contemporânea
das anonas e do café forte nestes dias de praia cinzenta
em que em que te espero para telefonar o triunfo da
persistência, junto à piscina do mar, traz o corpo corado
do outono brasileiro, um único gemido junto à palmeira
onde fica a nova casa e onde se constrói o futuro.

dentro de nós é esta revolução pelo trabalho intenso
a pesquisa de Camões em Portugal maior

José Gil
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com
  


terça-feira, 11 de junho de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ora aqui está uma daquelas ocasiões que nos dão que pensar e que nos levam a questionar os nossos valores mais profundos, no caso, o limite em que temos a consideração pela vida humana. Eu sou naturalmente contra a pena de morte e convivo mal com a ideia de essa mesma atitude ser passível de considerar determinadas excepções, nomeadamente a abertura para que aquela tenha sido aplicada aos criminosos de guerra nazis e especialmente àqueles que estiveram directamente envolvidos nesse crime hediondo que foi o genocídio dos judeus, na Europa. Ainda que seja capaz de contemporizar com este último como único e excepcional levantamento daquela regra e do princípio que lhe subjaz, não deixo por isso de ter sinceras dúvidas e reservas sobre um procedimento desses. Recuso a pena capital, antes de tudo, por causa do primado da vida que tomo por bem inalienável e insubstituível. Cada um de nós é único e, só por si, essa singularidade incontornável, implica o máximo respeito por todo e qualquer ser humano que se traduz, em primeiro lugar, na defesa dessa mesma vida e teoricamente deveria acarretar que aquele fosse o vértice de qualquer ideia ou política de organização social. Afinal, basicamente, foi esse o juramento que o meu querido e saudoso pai fez ao abraçar a carreira de médico, o compromisso de, sem regatear esforços, tudo procurar fazer para salvar uma vida humana. Pois é por isso que temos que refutar toda e qualquer apologia da pena de morte, na medida em que, meros humanos que somos e, enquanto tal, permanentemente sujeitos à possibilidade de errarmos, nada nos garante que não possamos condenar um inocente a quem, em caso de execução da sentença, tiramos a vida sem que possamos voltar atrás, algo que para mim é, de todo, inconcebível. Aceitar a eventualidade de matar por erro um inocente, exclui, de imediato, toda e qualquer tentativa de afirmação do primado da vida e assim, seja qual for a circunstância, de modo algum podemos aceitar tão fatal castigo. O que não quer dizer que não possamos matar alguém, para tanto encontrando razões que, sem terem que desculpabilizar o acto, nos podem levar a compreendê-lo e isso é uma verificação que até o direito considera no conceito, por exemplo, de legítima defesa, embora estivesse a pensar de certa maneira fora desse âmbito e a lembrar-me de um pai que por vingança assassinasse o assassino e violador de uma filha. É claro que tal seria inaceitável e se o não fosse, descerraríamos uma porta através da qual passariam todos os demónios que impossibilitariam a justiça que ficaria aos critérios e capacidades de cada um e, em conformidade, apenas ao alcance dos mais fortes. Seria abdicar da civilização o que implicaria um regresso à barbárie. Contudo, será que moralmente poderíamos estabelecer uma condenação absoluta daquele homem? Eis uma interrogação, a meu ver, perturbante e, inclusivamente, me leva a ter que perguntar se é assim tão absoluto o mandamento que diz, não matarás. Obviamente se aplicado à guerra, em termos ideais, evitá-la-ia e na vivência do quotidiano não só traz consigo o tal primado da vida como nos impede de ir às últimas consequências em qualquer desavença. Certamente que foi por isso que terá sido aceite como bom e já lá vão mais de três mil anos. Mas será assim tão absoluta essa regra? E aqui não estou a pensar naquele pobre pai que viu a filha vilipendiada e, na sua dor incontível, fez, digamos, justiça pelas suas próprias mãos. Por acaso estou a pensar num jogador de futebol, não sei dizer quem nem onde, o qual, na sequência de uma pancada na cabeça, permanece em coma há um bom par de anos. Enquanto há vida há esperança, diz o ditado, mas ele só está vivo através de máquinas sofisticadas que artificialmente lhe asseguram certas funções vitais que, por si só, o seu organismo não realizaria pelo que aquela pessoa só se manterá viva enquanto tiver todo o suporte daquela maquinaria. Poderemos considerar a situação uma permanência artificial na condição de ser vivo? Independentemente da resposta que possamos encontrar para esta interrogação, aquilo que mais perturba é ser levada a admitir se não teremos que levar em conta a vida dos entes queridos que o rodeiam. Se aquele indivíduo está a sofrer ninguém sabe, nem alguém terá como saber. Aliás, nem a medicina consegue dizer com rigor se está propriamente vivo; assim é considerado porque respira e o seu coração bate, mas só mediante o auxílio daquele aparato técnico. Será que sente? Será que o seu cérebro trabalha? Não sabemos, ou para falar com mais acerto, pelo menos por enquanto não somos capazes de o saber. Mas já temos como avaliar todo o sofrimento e mais ou menos graves transtornos que um tal estado faça recair sobre aqueles que a ele estão unidos pelos laços mais próximos e mais profundos. Teremos o direito de lhes impor um padecimento atroz em favor de alguém que nem temos como provar categoricamente que voltará a uma vida digna? Se algum desses parentes e, com eles, algum desses médicos, decidissem desligar os mecanismos que o seguram aos fios mínimos do que se convencionou chamar vida, sabendo que seriam condenados por homicídio em face da lei, poderiam ser moralmente condenados de uma forma absoluta? Tenho a certeza que se falasse disto em público, na mais leve das reacções e com a máxima benevolência, todos me diriam que estaria a complicar coisas que são simples, seja como for, não me parece uma objecção consistente e não é ela que me apaga as dúvidas e inquietações. Apesar de tudo isso, poderá alguém desejar a morte a outrem, por mais abjectas que tenham sido as suas acções? É um caminho muito difícil de escolher. Foi, no entanto, a minha primeira reacção perante a notícia do aparentemente grave acidente que sofreu Salazar e que o atirou para o hospital em estado crítico e com diagnóstico reservado. Ao certo não se sabe muito bem o que lhe aconteceu e como se encontra, mas pelas vozes que correm quanto à sua substituição enquanto chefe do governo, tudo leva a crer que o seu estado é bastante apreensivo. Aqui está a grande oportunidade para que as coisas mudem. Dado o mal que tem feito infligir aos portugueses e os crimes que o seu regime tem cometido ao longo de décadas, será moralmente condenável que lhe desejemos a morte, assim, sem rodeios nem paninhos quentes? De uma coisa tenho a certeza, não lhe chorarei o cadáver.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (32)

Camões, Júlio Pomar, 1989
Acrílico sobre Tela, 195x130cm

Uma história sobre esta peça
Este quadro foi adquirido a Júlio Pomar, por 50 mil euros, quando Vasco Graça Moura dirigia a Comissão dos Descobrimentos, ficando na posse do CCB.
Foi dado como desaparecido em Setembro de 2003, quando a Presidência da República solicitou ao Ministério da Cultura a sua cedência, a fim de ser integrado numa exposição de Arte Portuguesa.
Um inquérito interno ao caso terminou meses depois sem que a obra tivesse sido localizada, conseguindo-se apenas apurar que fora vista pela última vez em público em Junho de 1994, numa exposição em Paris, tendo sido entregue ao CCB três meses depois. Nos dois anos seguintes, surge listada em documentos internos, mas após 1996 não há mais informações sobre a sua localização no acervo. 
Sobre as conclusões do inquérito, em Janeiro de 2004, o semanário “Expresso” noticiava que a directora do centro de exposições, Margarida Veiga, sublinhava que “não era possível assegurar a total inviolabilidade das reservas” do CCB. 
A Polícia Judiciária acabaria por incluir o quadro na lista de obras de arte furtadas de colecções públicas.
Depois de dado como desaparecido durante quatro anos, o Centro Cultural de Belém anunciou ter encontrado no seu acervo o quadro de Júlio Pomar.
Camões tem um instinto de sobrevivência a toda a prova!

António Tapadinhas

 O psicopata
Não sei em que pais vive o dito Gaspar. Talvez um país habitado por gnomos, fadas, ministros alemães e jogadores do Benfica. Ou por sujeitos de fato e grava­ta que emergem dos carros e mergu­lham nas garagens e nos gabinetes e daí para os hotéis e condomínios fechados, ou os aviões, e nunca encontram gente. Dessa que paga impostos, taxas e contri­buições de solidariedade para ajudar as pessoas que precisam, ou seja, eles mesmos entre outros. Não me chateia que o Benfica perca jogos, nem por solidariedade com o dito Gaspar, chateia-me que quando vou arrumar o carro venha não o arrumador do costume, um chunga a fazer pela vida, e sim um reformado. Um velhote, uns são mais tesos do que outros, que fica agradecido pelo euro e dá um grande bom-dia em troca. Conviria mandar para cima destes trocos uma taxa de arrumação gratuita, ou colocar os jovens da EMEL, a ganhar à multa, viva o empreendedorismo, a multar os arrumado­res reformados. Fica aqui a ideia. E podem acrescentar os porteiros, guardas, choferes, moços de recados e ajudantes com mais de 75 anos. Há muitos. Chateia-me a senhora que amanhece no néon da costuraria, agora chamada de retoucherie por todos os centros comer­ciais, e que me diz que nunca sabe se vai ter ordenado. Teria idade para estar reformada mas enquanto existirem óculos de ver ao perto, devidamente não comparticipados, ao contrário do pacemaker grátis do homem mais rico de Portu­gal, que ficou chocado por o sistema nacional de saúde lho oferecer, oh indig­nação oh abominação, mas não se lem­brou de devolver o dinheiro ou doá-lo ao hospital. Conviria verificar se a costureira ganha o salário mínimo, porque o salário mínimo, na opinião do dito Borges, é demasiado. Quem quer bons salários vai fazer consultoria de privatizações e não corte e costura. Empregos de mulheres ociosas. A costura, não a consultoria. Na caixa do supermercado estou sempre a ver caras novas nos mesmos dias da semana, ou seja, ou têm empregados a mais ou têm contratados a menos. É um emprego com grande agilidade e mobili­dade, ninguém fica por ali a aquecer o lugar. Será como noutras lojas em que os empregados trabalham seis meses e a seguir são despedidos e vem uma nova leva, fresca e prontinha a ser despedida? Chateia-me o miúdo de 20 anos que guiava o táxi e disse que trabalhava de noite para ver se conseguia continuar a estudar de dia. De noite, era mais perigo­so. O que lhe fazia impressão era trans­portar a malta da idade dele que andava pelo bairro a divertir-se, miúdos e miú­das mais ricos, alguns embriagados, que nem o viam nem viam a idade dele. Se eles soubessem como gostaria de não estar ali, àquela hora, ao volante de um carro de aluguer.
O Gaspar e os que o acompanham, com os seus mestrados de luxo, chamam a isto falta de iniciativa, ser pobre. Não é, é só falta de dinheiro. Nunca ninguém se lembrará de convidar um pobre para falar sobre a pobreza num seminário da universidade. São sempre os ricos, os abastados, os privilegiados, que falam em nome deles. Que escrevem tratados e compêndios em nome deles. Que inventam a solidariedade em nome deles, mas não a solidariedade que o Gaspar nos pede por causa da derrota do Benfica, outra. E ficam agastados quando o pobre não é virtuoso e agradecido e quer gastar dinheiro nas mesmas coisas que um rico, sei lá, um concerto ou uma viagem. Chateia-me a gente de olhos baixos. A gente de olhos mortos, que espera cansada por qualquer coisa que não se vai materializar. A gente que teme pelos pais e pelos filhos, e que vive amedrontada. A gente carimbada como excedentária, parasitária, protozoária. A gente pária. Perdulária. Portugal resolvia-se se tivesse menos cinco milhões de pessoas e se os reforma­dos, funcionários públicos envelhecidos, doentes com doenças exorbitantes, desem­pregados e outros subsidiados e excluídos, jovens com sonhos de educações superio­res, simplesmente desaparecessem mor­rendo ou emigrassem vivendo. Se metade da população portuguesa fosse dizimada pela peste isto resolvia-se. Reconvertia-se. Sobreviviam os empreendedores, os filósofos do empreendimento, os financia­dores e financeiros, os teólogos da austeri­dade e respetívas famílias, mesmo velhas e excedentárias, as grávidas, os católicos e demais religiosos reprodutivos, os funcio­nários superiores e os consultores. E seus assessores. E os jogadores do Benfica que comovem o dito Gaspar. Mais meia dúzia de artistas oficiais patrocinados e restaura­dores da confiança nacional. Com os banqueiros e os grandes industriais e retalhistas. As pequenas e médias empre­sas não falidas, porque o país está em processo de… reconversão. Ajustamento. Consolidação. Estas coisas da reconversão são como os filmes de Hollywood, aca­bam sempre bem. O mesmo não se dirá dos jogos do Benfica.


domingo, 9 de junho de 2013

 
FANTASIA
 
Sei que há flores que só se abrem de noite. Descobri que é verdade pelo perfume que exalam, e que detectei inadvertidamente quando caminhava ao luar por ruas calcetadas mergulhadas em silêncio. As narinas farejaram e a alma foi atrás. Desaguou exangue numa praia que existe e é real.
 O violoncelista cagou prá banda e solou o quanto quis. Quem escutava por escutar e só queria um final feliz com concordância na sonoridade blasfemou: «Grande merda!!!»
Eu ouvi, calei e sorri. Pensei: «Grande curte!!!»
Que coreto querias tu?
Mas que noite feita manhã.
 
Manuel João Croca
 
 
Foto: Edgar Cantante

sábado, 8 de junho de 2013


Cascais 36

a Solange meu amor


No silêncio de joelhos como Jeremias
Na abóbada da Conferência das Gaivotas
Chegas sem palavra a oliveira no percurso
Das figueiras e do interior das casas abertas
Espreito a tua porta doce e através dos lábios
Percebo quem mais precisa no paredão do bairro
muçulmano, espero-te com medo olharemos de
novo, olhos nos olhos, Cascais é fogo multicultural
procuro-te em Algés na Internet mimosa parte de mim
na miragem do túnel na voz negra danças
descobre o caminho da arena da aventura, o novo
palco, regresso ao ponto em ponto por ponto


José Gil 
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Versículos




Egrégora

Somos todos de antemão,
os vencedores.


Luís Santos



quinta-feira, 6 de junho de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

SARAMAGO AMAVA AS FLORESTAS



CELESTE BEIRÃO

Instalação com dimensões variadas, efetuada no âmbito do Projeto Saramago.

quarta-feira, 5 de junho de 2013


A U R A

Percorria a minha rua,
sempre da mesma maneira,
com sorrisos belos e contagiantes,
não permitindo que as pedras do caminho
interferissem nas suas dádivas.

Olhos azuis, belos e profundos,
secundarizavam as rugas
que contemplavam os seus
mais de oitenta anos

O seu cabelo todo branco
permitia diferenciá-la lá ao longe,
fazendo que me demorasse
para poder usufruir da sua presença,
do seu diálogo,
que me energizava,
dando-me mais vida, mais força,
para aquele dia.

Um dia sob que partira,
senti uma tristeza,
mas a sua presença
e o seu sorriso
tornaram-se presentes,
afirmando uma continuidade
que precisa de ser partilhada.



antonio


terça-feira, 4 de junho de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Gosto quando as pessoas me surpreendem, sempre gostei e ainda mais quando tal se verifica com alguém de quem goste. Isso, aliás, é algo que me faz amar intensamente o Manuel e que, em certa medida, muito tem contribuído para fazer dele o amor da minha vida. Não foi sem receios que aceitei entrar nesta aventura que no futuro se fez bem sucedida, de erigirmos do nada uma comunidade onde pudéssemos encontrar uma vida decente e que mais firmes ficaram quando os meus queridos pais manifestaram as suas reticências e que não sentia apenas por mim mas por ele, um rapaz responsável e trabalhador, era certo, mas habituado a uma vidinha organizada e com todos os cuidados assegurados, como por magia, pela supervisão de uma mãe zelosa e uma mão cheia de fortes braços de uma criadagem para quem ele era o menino mimado de uma casa a leste das dificuldades. E o encanto foi-me envolvendo conforme o fui vendo ser capaz de dar boa conta do recado. Não quero dizer com isto que bem lá no fundo não esperasse que assim viesse a suceder e ainda menos que duvidasse que, para tanto, ele possuísse força bastante. Mas não me deixou de surpreender o desembaraço com que se fez incansável para enfrentar toda e qualquer privação e as maiores dificuldades. E isso levou-me a amá-lo ainda mais e a querer ter filhos dele e mesmo com estes o meu amado me surpreendeu pela ponderação e a sabedoria com que nunca deixou de resolver algum dos problemas que aqueles lhe foram colocando. É bom quando o é desse jeito, quando aqueles com quem partilhamos a vida nos fazem sentir que há sempre algo de bom a esperarmos deles. E por vezes as surpresas estão onde menos se espera por elas, como já tive fartas oportunidades para verificar ao longo da minha actividade na docência e mais engraçado se torna quando é com alguém que, de tão perto de nós, dele pensávamos tudo saber. Bem, creio não ser novidade nenhuma o facto de o senhor Abel dedicar parte das suas horas livres a pequenos trabalhos em madeira que, de uma maneira ou de outra, acabou por espalhar pelas casas de todos nós, mais como lembranças de amizade que das peças decorativas que na realidade são e aí depende da harmonia que o gosto de cada um lhes consegue, acima de tudo por serem verdadeiras esculturas que, se não impressionam pelo tamanho, logo despertam e deliciam o olhar pelo realismo dos pormenores e pelo simbolismo que comportam e que o seu criador sabe expor com a própria eloquência que a vida lhe foi conferindo e, num ou noutro caso, pela densidade das expressões que consegue moldar e que dão às figurinhas as almas que se lhes reconhecem nos rostos. O Manuel é o melhor testemunho sempre que diz e ao longo destes anos fê-lo uma boas centenas de vezes que não se cansa de admirar o semblante daquele cesteiro que temos num dos nichos da sala, de quem diz transparecer o primado da liberdade individual, pois em seus olhos, nos vincos descaídos da face se nota mais que a vontade de quem quis palmilhar um dado caminho, a determinação de quem não se deixa vergar perante as chapadas que as agruras da vida lhe derramaram sobre os ombros. Como esta há outras esculturas de que poderíamos falar como verdadeiras obras de arte que são e dessa forma toda a gente por aqui sabia que o senhor Abel que, para mim, desde a primeira hora revelara um espírito de artista na maneira como se entregava ao seu papel nesta nossa tremenda ousadia, tinha um gostinho especial pelas horas em que se evadia por entre, como ele próprio tem o hábito de gracejar, os seus bonecos. Ora agora ainda podemos avaliar melhor a sua humildade e a modéstia dessas suas palavras. Eu não compreendi de imediato o alcance de um reparo que uma mulher que enviuvou há pouco fez ao meu querido amigo, no café da associação, numa destas noites, em que veio à conversa a sua reforma recentemente conquistada. “-Homem, se você não tem nada para fazer, mais vale manter-se a trabalhar. Não vê o que aconteceu com o meu marido?” Podem não ter sido exactamente estas as palavras, mas tenho a certeza que é o sentido daquilo que disse. Sinceramente nunca me tinha ocorrido o obstáculo que é ultrapassar a obrigação da actividade diária decorrente do trabalho e só quando ela disse que é mais fácil para as mulheres que sempre têm algo para fazer, mais não fosse a lida da casa, mas também uma rendinha ou qualquer coisa do género que raramente deixam de estar ao seu alcance, para que não caiam no marasmo da inactividade e da falta de ânimo, como o seu homem que se apagara num instante, só então compreendi como é importante mantermos motivos de interesse para continuarmos com a disposição para nos erguermos da cama todas as manhãs. E foi aí que fiquei a saber que isso não o assustava por finalmente até vir a ter tempo para organizar o conjunto do seu trabalho, eu digo obra e a partir daí até a proceder à exibição da mesma, isto, claro, para além de passar a dispor do tempo que desejar para lhe dar continuidade e, por ventura, até um fim. E foi também a esse propósito que ele, mais tarde, nos mostrou a oficina e o verdadeiro tesouro que aí guarda em prateleiras do chão ao tecto, centenas de peças que vão desde o conjunto da fauna da região, com os animais em poses naturais e representados com uma perfeição anatómica assinalável, aos ofícios e profissões antigas, alguns e algumas já desaparecidas, outras perto disso, passando por quadros do quotidiano e representações de casas de gente pobre que ele conheceu e de cuja qualidade habitacional experienciou. Achei graça quando ele serenou a senhora com um gesto largo do braço e a confissão de que muito teria para fazer e, ainda por cima, nem tendo que se preocupar com os netos que lá vão crescendo saudáveis e sob a tutela dos pais que pouco precisam dele para criarem e educarem os petizes como pessoas de bem. E depois ainda há a associação onde conta ter tempo para levar à prática um trabalho cultural que a seu ver é, como nunca antes, imprescindível. E houve uma gargalhada quando ele tirou da carteira e exibiu a carta de condução acabada de obter sem qualquer reprovação e que lhe permitirá dar vazante a um sonho de menino e que se renovou nos primeiros anos de casamento e que é o de conhecer o país na companhia da sua Noémia, mais que companheira, a amada e a amante de uma vida. E foi simplesmente deliciosa a reunião de ontem à noite, na minha casa, em que ele, o Manuel e o Gustavo se deram ao esforço de decidir qual seria o melhor carro para ele comprar.
É tão bom ter amigos destes.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (31)

Cenáculo, Autor António Tapadinhas
Díptico, Acrílico sobre Tela 2x60x100cm



                                Pormenor

                                Pormenor

Cenáculo, nome dado à sala, à reunião, em que Jesus Cristo celebrou a ceia. Por ext.
Reunião qualquer de pessoas unidas para um fim comum, especialmente sociedade ou grémio literário.

Quando um casal meu amigo me convidou para almoçar porque queriam falar comigo sobre um assunto importante, não fazia ideia de qual seria o tema da conversa. Durante o almoço foi crescendo a minha curiosidade que, finalmente, foi saciada na hora dos cafés. Tinham um espaço nobre da casa, que queriam preencher com uma obra minha. Deixavam ao meu critério todos os pormenores: cor, técnica, estilo, tamanho... Aceitavam qualquer sugestão porque confiavam em mim... 
Se não fossem meus amigos, a partir desse momento ficaria a considerá-los como tal: depositar no meu critério o preenchimento dum espaço do seu lar, com que iriam conviver para o resto da sua vida, mais do que uma prova de amizade, é uma prova de amor...
Quando a tela ficou completa combinámos a entrega da obra, com a sua instalação no local onde iria morar. Pedi aos meus amigos que fossem brincar com o seu belo cão para o jardim enquanto eu colocava o díptico. Podem imaginar (se calhar não podem!) a minha angústia expectante quando eles voltaram para ver pela primeira vez a obra no local escolhido. Eu fiquei em êxtase com a sua reacção, talvez por contágio...
A Beleza reside no mundo das ideias e o Belo é identificado com a perfeição, com a verdade. A partir da beleza emanada por uma obra podemos chegar à beleza superior do Homem. 
Uma vez por outra, é bom esquecer imperfeições...

António Tapadinhas

Aí vai um texto que acabei de escrever, até a propósito do que senti ontem no jantar do 100 Espinhas – 23.º Jantar Poético (Teresa Bondoso)

JANTAR

No princípio não se ouviam as vozes mais altas e todos eram certos e perfeitos. As senhoras sorriam. Um pouco comedidas, talvez. Os homens olhavam, curiosos e silenciosos.
Todas as mesas tinham pessoas diferentes. Diferentes umas das outras e mesmo entre elas.
Todas as mesas tinham pessoas diferentes menos uma.
Nessa, estavam dois homens que riam… sem sorrir.
E uma mulher zangada… que sorria.

Vejo um grupo grande de pessoas. Estão sentadas à mesa, a jantar.
Os que não estão a jantar estão a servir os que comem à mesa. Penso que se calhar já comeram ou então ainda vão comer. Eu sou dos que estão sentados.

A mesa dos homens que riram sem sorrir e da mulher que sorriu zangada, foi a única mesa igual, embora tivesse sido uma mesa diferente das outras mesas. E foi diferente porque tinha pessoas iguais. As pessoas iguais que estavam naquela mesa diferente, julgavam-se o máximo. Achavam que os outros eram todos menos do que elas… achavam que sabiam muito… achavam até que faziam muito… achavam que o povo isto e o povo aquilo. E disseram palavras muito certas com olhares que tinham pouco.
Naquela mesa sentou-se um grupo grande de pessoas pequenas.
A mim, meteram-me medo.
Mas não foi um medo como o medo normal de quando estamos com medo.
Eu não tenho medo de muitas coisas. É que algumas já as sei de dentro… e as outras não são de ter medo.
Dizem que no meu bairro é perigoso andar à noite. E é.
Mas eu já tive medo muitas vezes do meu bairro e por isso já não tenho. É que o medo das coisas incertas passa com o tempo.
Mas as pessoas pequenas apontam-nos nas certezas. Julgam-se o máximo. Acham que os outros são todos menos do que elas… acham que sabem muito… acham que fazem muito… e se calhar até fazem. Mas dizem palavras muito certas com olhares que têm pouco.
A mim, metem-me medo.
Dizem-me que as ignore, ou que as compreenda, ou até que as ame. E eu tenho medo de não ser capaz.


Um dia, talvez as possa mudar de mesa.

Teresa Bondoso
31 de maio de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

 
 
OUTRA VEZ AS ÁRVORES
 
Sedentas sob o sol
as árvores
na planície que escalda.
Estoicamente geram
sombra que protege
o chão de que nascem
e crescem.
Saudosas das fontes
que brotam do céu
carpindo-se na chuva
que alavanca o futuro.
Como ideias que travam
o anúncio do deserto
e o destempero
que a inquietação carrega.
 
 
Manuel João Croca
 
 
 


Foto: Edgar Cantante

sábado, 1 de junho de 2013

Poema da Semana - dedicado às crianças


Olá amigos de todo o mundo

DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA
Celebra-se hoje o Dia Internacional da Criança.
Dedico-lhes este poema que poderão ver neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Magia_das_Criancas/index.htm

Estarei em Aveiro este Sábado no Hotel Moliceiro
para um recital dedicado às nossas crianças.
Aqui deixo o convite para quem puder e desejar estar presente.
O Hotel Moliceiro e eu agradecemos a sua aprazível presença.


Euclides Cavaco
Telemóvel em Portugal: 967035175.
skype: euclides_cavaco