sábado, 16 de novembro de 2013

Milagres


«A prática devocional nada mais é do que servir os outros. Nada tem a ver com desfiar o terço, com a reza ou com o hábito»
                           Saadi
                           (Versão portuguesa de Abdul Cadre)


Recuso-me a fazer parte dos supersticiosos que, quando estão gravemente doentes, vão ao médico e vão a Fátima: se se curam, foi milagre, se pioram é negligência médica. Mas, em boa verdade e sem falsa modéstia, não sei nem poderia saber se há ou se não há milagres, mas se os houver, então o Cosmos é bem mais iníquo do que o imaginam os azedos e os pessimistas.
Ora, os crédulos e sobretudo aqueles que o sendo ou não sendo lucram com haver crédulos, querem fazer crer aos que não são uma coisa nem outra que um Deus de humores variáveis e instável disposição altera as regras estabelecidas de acordo com a cara do freguês e com as pedinchices e os empenhos metidos aos deuses menores, que são os santinhos de altar, tidos como mediadores seguros destas coisas. Neste politeísmo vulgar, anacrónico e abstruso, a gente reza um qualquer responso, acende umas velas e é trigo limpo: de imediato as coisas em vez de caírem para baixo passam a cair para cima.
Bom, isto é a modos como antigamente – lembram-se? – quando íamos a uma repartição e metíamos uma verdinha na mão do funcionário: «trate lá da coisa que eu não me esqueço de si». Bendita cunha!
Milagres? Que heresia!
A arbitrariedade, o nepotismo, o favorzinho transportados para a credulidade e a superstição constroem a insustentável crença num Deus caprichoso e subornável, confundível com um qualquer pequeno ou grande ditador, mesmo que na figura mínima de um simples manga-de-alpaca.
 E há até – vejam bem! – os crentes de milagres do avesso, que são as desgraças e as catástrofes. Nestes casos, a cunha é para que se safem os que pedincham; o mal dos outros, sendo ou não castigo merecido por pecados cometidos, é com toda a certeza a vontade de Deus, que poderá estar a escrever direito por linhas tortas.
Assim – e espero que assim não seja – entre o Deus das cunhas e o Diabo sedutor haja malvado que escolha e esperto que lucre…
A minha escolha é que por mais que à minha volta aconteçam coisas maravilhosas e inexplicáveis, não as tentarei entender pelo recurso à minha ignorância, antes procurarei encontrar as razões, as causas e as leis propiciatórias das maravilhas, tendo em vista salvá-las do capricho, da arbitrariedade e inclusive do acaso.

ABDUL CADRE
 http://acverruma.blogspot.pt/

NB:
Saadi é o pseudónimo do grande poeta persa do século XIII Musharrif Od-Dîn Sa'adi


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A MINHA VIDA NA MALA

Proposta para Celebrações comemorativas dos Emigrantes

António Justo

Uma organização de exposições sob o título “MINHA VIDA NA MALA”, no âmbito de celebrações comemorativas dos emigrantes portugueses, poderia tornar-se num factor de promoção e revitalização de associações e iniciativas nobilitadoras da presença portuguesa.

O objectivo principal do projecto seria focar o itinerário e o papel da vida migrante; celebrar a presença dos portugueses nos diferentes países e motivar a nova geração de emigrantes a desenvolver o associativismo e o portuguesismo universalista. Criar recursos lusos de apoio e fomentar sinergias entre associações e as mais variegadas instituições. Contribuir para espalhar a festa portuguesa.

Conteúdo do projecto: Num trabalho de rede de consulados, missões, associações, artistas, professores, assistentes sociais e multiplicadores culturais, activar entre os emigrantes iniciativas concretas viradas para diferentes públicos.

Um apoio financeiro poderia provir do MNE, União Europeia, bancos, etc.

Resultados a esperar: celebração da emigração, fortalecimento da consciência migrante, intercomunicação e fortalecimento operacional das associações e inclusão das mais variadas personalidades em actividades das associações. Fortalecer a consciência dos emigrantes.

A coordenação poderia ser feita pela Secretaria de Estado para as Comunidades, Instituto Camões, consulados, missões, alguma universidade, associações e possíveis parcerias sob um comité ad hoc.

O projecto poderia constituir uma oportunidade para reflectir sobre a identidade portuguesa e possibilitar a objectivação de histórias de famílias que partem e que ficam.

Cada pessoa ou família envolvida no projecto poderia apresentar uma mala, a ser exposta e elaborada com materiais, imagens, objectos, documentos, lembranças, tudo relacionado com uma vida entre paragens e em que a mala se tornou símbolo de vida e companheira. Trata-se de conhecer e divulgar, também com postais, cartas, músicas, etc., o contributo da emigração em termos geográficos e sociológicos valorizadores do nosso povo e das nossas terras. Nas associações ou iniciativas seria importante envolver artistas a apoiar a elaboração das malas.
Naturalmente que um tal projecto poderia assumir proporções regionais, nacionais ou mesmo internacionais. A estender-se o projecto a Portugal (por exemplo ligação com a festa migrante) implicaria que as repartições da cultura das Câmaras, bancos, alguma faculdade universitária e os meios de comunicação social se tornassem, possivelmente, promotores do projecto. Este projecto, depois de realizado nos diferentes locais, poderia tornar-se depois numa exposição itinerante.
Não há família nenhuma em Portugal sem experiência migrante. A migração marca a paisagem e a alma de Portugal. É uma constante característica de organização da vida familiar portuguesa e do seu Estado. A emigração é, na realidade, uma das cinco quinas que marcam o país.

Este é um contributo para um “Brain” de ideias que poderia preparar um projecto a ser assumido pelo Senhor Secretário de Estado Dr. José Cesário e pelos deputados, conselheiros da emigração e outras parcerias.

Fica aqui a ideia e o apelo!


António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

MUNDO COLORIDO
 


CAROLA JUSTO

Acrílico sobre Madeira 50 x 50
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM


O médico e a boneca. Norman Rockwell, 1929 Norman Rockwell Museum, Stockbridge, U.S.A.


Verdades inconvenientes

São tantas que davam para encher vários sacos a transbordar e ainda ficavam verdades de fora.
Nem vale a pena fazer a listagem, que não há crónica que aguente, mas hoje não consigo não falar sobre uma verdade inconveniente.

Trata-se da relação médico doente. Está na berra, não há como não estar na ordem do dia. Os dias ordenam que não se adiem os nossos dias.

Estive num fim de semana recente numas jornadas sobre saúde e espiritualidade: alimento de luxo para a minha alma, meu espírito, minha felicidade. As crenças do meu coração mais antigo encontram ali um eco tal, que saio destes fins de semana como de um SPA com massagem de chocolate e banho de perfumes. É chocolate, são perfumes, ventos de amor e consciência.

Os conferencistas são médicos, cirurgiões, enfermeiros, cientistas: físicos.

Abordam diversas facetas da saúde e mais do que um deles tratou da relação médico doente, efeito placebo e cura. Referiram várias experiências científicas que comprovam inequivocamente que o que cura não é o medicamento, não é propriamente o princípio ativo, mas o mecanismo mental e emocional do doente que aciona o princípio ativo… quer ele esteja ou não presente no medicamento. E o mecanismo é, sem dúvida, uma boa relação médico doente: tempo, atenção, verdade e estímulo, que desencadeia no doente um estado emocional favorável à cura. Porque quem se cura é sempre o próprio; o médico, o terapeuta, são facilitadores.

Na verdade, isto retira um grande peso de cima do médico, do terapeuta. Porque se ele fez o melhor que sabia e mesmo assim não resultou, se ele fez exatamente o mesmo que ao outro doente que aparentemente se encontrava num estado muito mais difícil e se salvou, que concluir? Que o médico, como qualquer cuidador, é “apenas” (e isto não é pouco) um facilitador de cura. Quem se cura é o próprio, numa ainda relativamente (mas já não totalmente) misteriosa relação com o princípio curador universal a que não vou dar um nome porque não o sei e não vou inventar por causa dos equívocos.

Foi sensivelmente isto que a Drª Teresa Gomes Mota tentou dizer hoje numa entrevista na televisão a propósito do lançamento do seu livro O Admirável Placebo. Tentou, mas não conseguiu, porque as perguntas sucediam-se às perguntas como se ali não houvesse espaço para as respostas. Como se a entrevista apenas tivesse ocorrido para se fazerem perguntas. Cada vez que a doutora tentava aflorar a questão, afinal central, do placebo, que é a relação médico doente, o seu discurso era cortado com outra pergunta ou com o final da entrevista. Muito frustrante.

Acabou por ser uma entrevista banal quando poderíamos tê-la ouvido referir coisas como estas, que aparecem no seu livro:
“sacralidade do encontro clínico”, “verdade e compaixão”, “as pessoas têm espaços selados que necessitam de ajuda para abrir”, “melhoram porque confiam, são escutadas e estimuladas a mudar”.

Conseguiu referir que há casos em que ainda antes de começarem a tomar o placebo os doentes já registam melhoras, o que prova que não é a farinha de que se compõe o placebo que cria o efeito, mas também não é o princípio ativo.


Os físicos dizem o mesmo, que é em nós que tudo se decide, no nosso pensamento. Os poetas também, lembro Pessoa quando escreve “è em nós que é tudo”. Os místicos já o vêm dizendo há uns milhares de anos. Mas uma médica ainda não tem autorização para dizê-lo na televisão. É uma questão de tempo. A verdade é uma avalanche lenta, mas avança. Inconvenientemente. Para nossa conveniência.


Risoleta Pinto Pedro


terça-feira, 12 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ora aqui está o que pode ser apresentada como uma excelente reunião cívica pelo interessantíssimo debate que proporcionou e a fartura, não será exagerado dizê-lo, de ensinamentos que aí nos foi dada obter. Só isso salvou os incómodos de uma sala apertada para tanta gente que, pela combinação do calor e das nuvens de fumo que pelo ricochete no tecto se abatiam sobre a respiração dos presentes, por fim, nem pelo efeito de portas e janelas escancaradas, não deixou de parecer como uma qualquer espécie de forno fabril onde a permanência facilmente chega a ser dolorosa. Ontem, ao serão, na sala de espectáculos da associação, decorreu um encontro de moradores em que esteve em apreço a relação da comunidade com os animais domésticos, mormente os cães e os gatos que vieram a encontrar-se no centro do problema. Há algumas semanas que tinham surgido críticas e reparos em alguns artigos do jornal de parede, em que se punha em causa o comportamento dos donos que deixando os bichos à vontade pelas vias e espaços públicos do lugar, acabam por ser responsáveis pela conspurcação da higiene dos passeios e asfaltos, nem a isso escapando relvados e canteiros dos ajardinamentos, cheios dos medalhões que a fisiologia animal obrigatoriamente tem que depositar em algum lado e, no caso dos chamados seres irracionais, a menos que alguém o previna, inevitavelmente desaguam nos chãos por onde todos caminham. Pois foi isso que incomodou várias pessoas que acabaram por solicitar uma assembleia para discutir o assunto que a comissão de moradores tratou de realizar. De um lado estiveram esses que muito frontalmente questionaram o direito de termos bicharada de estimação se para isso não formos capazes de os tratar convenientemente e, por consequência disso, deixarmos que os mesmos sejam uma fonte de aborrecimentos e desagrados para os restantes vizinhos. É claro que do lado oposto estiveram aqueles que tomaram isso como um dos atributos da liberdade de cada um decidir ter ou não em casa um animal de companhia; e depois como alguns logo lembraram, importando ter em consideração o quanto aqueles são necessários, quer no caso dos cães, por funcionarem como elementos de alerta num local que, apesar de tudo, é ermo, quer no que diz respeito aos gatos, por serem a forma mais natural de se combaterem as expansões de indesejadas populações de roedores e até outras pragas de todo inconvenientes tanto para o aglomerado habitacional, como para os campos de cultivo adjacentes. Bem, como uma rapariga explicou com uma clareza e precisão que não deixaram margem para dúvidas, é mais que compatível a permanência de tais funcionalidades manifestamente positivas, com os cuidados para que os quadrúpedes se alimentem e resolvam as restantes necessidades inerentes às respectivas biologias, sem que daí advenham estragos e o emporcalhamento das calçadas públicas. Ainda mais aqui, como defendeu um outro senhor, onde todos têm quintal. Com efeito, são suficientes medidas tão simples como manter os canídeos encerrados ou presos naqueles logradouros e, quando os trazemos à rua, estarmos precavidos com a trela que os mantém sob o nosso próprio controlo ou, se a intenção é possibilitar-lhes os seus próprios momentos ao sabor da vontade de cada um deles, coisa que está ao alcance de qualquer um de nós, evitar que isso aconteça no povoado, procurando soltá-los por esses trilhos do matagal que nos envolve, onde o impacto daquelas vidas acaba por ser enquadrado e tratado pelos próprios ciclos da Natureza. Não é sem alguma vergonha que me vejo forçada a registar que nunca tinha considerado esta problemática a partir de uma óptica como esta e, pior, a nenhum de nós e aqui incluo os meus filhos que anos a fio deram o seu contributo negativo para esta situação, jamais ocorreu pensar ser esse um comportamento que, se quisermos ser frios e isentos no juízo e evitarmos eufemismos no dizer, poderemos classificar como anti-sociais. No entanto não custa muito perceber a pertinência daqueles pontos de vista, como igualmente é fácil de entender que os gatos, esses, até nem são muito ariscos de se habituarem a um determinado ponto particular para aí se desembaraçarem das excrescências do seu metabolismo. E foi sobre esses pormenores que principalmente se conversou e a conclusão final foi ao encontro dos reclamantes, ao ficar aceite e estabelecido que os maus tratos ao espaço comum nunca podem ser vistos como um direito de quem quer que seja, antes pelo contrário, sendo dever de todos zelarem para que das suas atitudes individuais não derivem beliscaduras naquele. E faz todo o sentido que assim seja. Teremos nós a liberdade para privarmos o outro da liberdade de andar de cabeça levantada pelos passeios, sem ter que se preocupar onde põe os pés para que não suje os sapatos? Poderá a liberdade ser essa vontade desenfreada de não atender às consequências dos actos? Não, não pode e não por essa vulgata que pretende que a minha liberdade acaba onde começa a do meu semelhante, coisa que apenas significa nada pois seria de conflito permanente e provavelmente sem tréguas um universo que desse modo se quisesse alicerçar. Antes por aquela se fundamentar no reconhecimento que os limites – porque ela não é, em circunstância alguma o poderia ser, ilimitada – se estabelecem e encontram na minha consciência individual que determinam que não posso prejudicar os outros pois, afinal, se na sua forma mais simples é aquela a possibilidade de que uma qualquer pessoa deve dispor para escolher um caminho, implica necessariamente a responsabilidade de o fazermos sem que para tanto tenhamos que espezinhar quem quer que seja, além do que, só por esse princípio de auto-controlo poderemos pacificamente regular a nossa vida em sociedade, pelo que devemos antes afirmar que a minha liberdade não finda onde começa a do vizinho, muito para cá disso, a minha liberdade, seja sob que pretexto for, sequer pode conter a possibilidade –usar a palavra direito, aqui, já é para mim uma desonestidade intelectual – de prejudicar qualquer outro ser humano e eu até me atrevo a defender que poderíamos muito bem acrescentar qualquer outro ser vivo em geral. Mas esta é perspectiva que, por ora, permanece no âmbito da controvérsia. Justifica-se então que eu tenha votado favoravelmente a proposta final que, depois de prever e lançar a preparação de toda a formação básica para que a ninguém seja dado alegar que não sabe ou não tem como saber lidar com o problema, prevê o agravamento das taxas de residência que financiarão a construção de alguns equipamentos sociais, para todos aqueles que prevariquem nestes domínios e isto sob a pena de verem as rendas aumentadas e, em última instância, despejados das casas onde vivem. Isto podem parecer atitudes e medidas draconianas, pelo menos foi dessa forma que um dos oponentes se expressou na sua declaração de voto vencido, contudo, como disse um dos presentes e nem mesmo foi em resposta àquela declaração de protesto, chamemos-lhe assim, quem não sabe viver com os outros que vá viver sozinho para o meio do mato.
“A liberdade está a passar por aqui.” Sérgio Godinho dixit.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (54)

Ceia em Dresden, George Baselitz, 1983


UM HOMEM CEGO

Nunca compreendera muito bem aquela gente. Acabara apenas por se habituar…

A uma dada altura deu conta de que ali ninguém falava com ele. Se estivesse com o filho mais novo, era para ele que falavam. Se fosse com a mulher, era a ela que todos se dirigiam. Até a filha mais velha, habitualmente afável e educada, detestava responder às perguntas que lhe faziam sobre o pai, como se ele lá não estivesse. E já algumas vezes tinha até sido desagradável com algumas pessoas, ignorando-as e fingindo não estar também por ali.

Fora um processo quase impercetível. Lentamente, sem dar por isso, tinha deixado de ouvir os outros.
Primeiro começou a ouvi-los com as vozes todas iguais. As conversas terminavam todas com as mesmas palavras e estas eram cada vez mais ditas e menos compreendidas. Depois, as vozes afastaram-se completamente e passou apenas a ouvir o resto.
Com o tempo, ele acabara por pensar existir apenas em casa.
Na rua acontecia-lhe ninguém, mas não havia silêncio. Apenas as vozes sem gente lhe chegavam misturadas e longínquas. Mas em casa, mesmo nas ausências havia quem lhe falasse. As suas mãos tornavam-se aptas e voltava a existir. Ouvia como ninguém… e até os silêncios tinham palavras doces e cheias.
Tornava-se capaz.
E sabia-nos a todos de memória.
Podia pensar nos filhos e resolver todos os seus problemas, arrumar o sótão porque já há muito que ninguém lá ia e acontecia-lhe até saber afinar, só de ouvido, o motor do jipe.
Nas sobras dos dias, fazia brinquedos de madeira em máquinas de corte onde nunca me deixou mexer, não fosse eu magoar-me.

Na rua, era somente um homem cego que ninguém conseguia ver.


Teresa Bondoso


domingo, 10 de novembro de 2013


O ESTADO DO TEMPO - I

Não fora as condições dramáticas em que vivem cada vez mais portugueses a pantomina até poderia suscitar risota. 
Se apenas se assumissem como pantomineiros que são mereceriam mais respeito, assim não. 
O que eles querem é mudar de paradigma, mudar a Constituição que é, como quem diz, a nossa vida. 
A democracia não lhes serve. 
É contrária à sua filosofia, dificulta a defesa dos seus interesses o alargamento dos seus privilégios. 
Ensino, saúde e justiça para todos? Já chega de devaneio. 
É preciso lavrar na lei a diferenciação das classes garantir o privilégio de uns poucos à custa do empobrecimento de muitos, a imensa maioria.
 Perderam o respeito pelos conceitos mais elementares de ética e decência. 
Mentem despudorada e impunemente perante a complacência e cumplicidade de quem jurou defender o que é de todos.

A luta não é fácil e afigura-se prolongada. 
Inteligência, habilidade e flexibilidade são necessárias mais do que nunca. 
Há muito para unir, que precisa e anseia ser unido. Há que pensar, conseguir despoletar e pôr em movimento a imensa energia transformadora que cada um transporta em si, para fazer diferente.

Há que permitir o silêncio, possibilitar uma melhor organização dos sentimentos e das ideias que se estruturam até cristalizarem em querer. 
E, depois, descobrir as pontes que tornam possível o continuar.
 Querer, que se deseja, se revele numa “ânsia colectiva de tudo fecundar.”


Hoje, pela manhã, fui com o meu irmão António caminhar pelas margens da ribeira. 
E pelo caminho, pensava, pensava…

De vez em quando falávamos um com o outro.


                                                                                            Manuel João Croca


Cabeção: Ponte sobre a Ribeira da Seda.
Foto de Edgar Cantante

sábado, 9 de novembro de 2013

Divagando e Aprendendo


por Francisco Gomes Amorim


Descansando as meninges

Vamos “brincar” mais um pouco com a origem das palavras. Mesmo que se perca um pouco de tempo, parece que vale a pena.

GRAVATA - A origem da palavra é francesa: cravate, uma corruptela do nome croate. Os Luises XIII e XIV tinham uma guarda pessoal dos Royale Croate, um regimento de cavalaria composto por mercenários croatas. Seu uniforme era composto por uma cinta de pano vermelho enrolada no pescoço, que passou a ser chamada de croate pelos franceses. Origem eslava Hravt.

TRABALHAR – Do latim tripaliare, “torturar com tripaliu”, sendo tripaliu um instrumento de tortura formado por três pés, usado para os cavalos que não se deixavam ferrar. (Uma tortura... trabalhar, ainda hoje).

POLICIA – De politia, administração pública. Do gregopoliteia, arte de governar a cidade. De polis.
(Exemplo máximo disto é a polícia no Brasil!)

EL –Do latim ille, que deu, por exemplo El-Rei

ELE – Idem.

ELITE – Do francês élite, do latim eligere, escolher, selecionar, apartar.

ETIQUETA – Do francês étiquette, antigo estiquier recebido do holandes e alemão stiken. Ligar, prender, mais tarde, por exemplo “memória com a lista das testemunhas” ou “pequena indicação escrita colocada nos objetos para os reconhecer” e ainda “cerimonial da corte” onde as etiquetas tinham que estar em determinada ordem.

SUCATA – Do árabe sucaTâ, o que cai ou sai de qualquer coisa; objecto sem valor.


E um pouco de história da música.

Em 1741 houve uma fome terrível na Irlanda, enchendo as ruas de Dublin com doentes. As enfermarias do Charitable Infirmary no Inns Quay and Mercer’s Hospital não podiam receber mais pacientes. Dinheiro era necessário, com urgência.
Um magnifico Music Hall acabara de ser aberto pela Charity Musical Society, e esta sociedade lembrou-se de convidar o grande músico Georges Frideric Handel (1685-1759) para dar uns concertos com fins caritativos.


Apesar das grandes obras já conhecidas, os seus últimos Oratorios, SaulIsrael in Egypt e L'Allegro, Il Penseroso e Il Moderato, tocados em Londres, tinham feito pouco sucesso e ele atravessava graves dificuldades financeiras. Além disso estava a trabalhar num outro Oratório, o Messias, composto com passagens selecionadas das Escrituras pelo seu amigo Charles Jennens. Handel preferiu apresentar este novo trabalho a outra audiência que não fosse à dos críticos de Londres, e aceitou o convite para ir a Dublin.
Inaugurou com a nova obra, Messias, que foi um estrondoso sucesso, e tocou ainda outras, como L’allegro, que foi igualmente muito bem recebida.
Escreveu dali a seu amigo Jennens:
“A música soa deliciosamente nesta encantadora sala... Eu executei no meu órgão com sucesso mais do que o habitual. Não consigo expressar suficientemente o tratamento gentil que recebo aqui; mas a delicadeza desta generosa nação não pode ser desconhecido por você.”
Dois anos depois regressa a Londres, onde o êxito dos seus concertos o haviam precedido, e a partir daí a crítica foi-lhe sempre favorável. Compôs ainda uma grande quantidade de obras que hoje são consideradas sublimes, entre elas a Fireworks Music, uma suíte orquestral. Finalmente suas finanças se estabilizaram.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Movimento das Forças Interrogativas (MFI): Porquê?


Porquê
Porque é que o dia-a-dia não é mar?
Um vai e vem de imensidão, beleza e renovação.
E porque não?

Porque é que aquilo que é e que nos prende e desagrada
terá de ser assim
sempre assim,
sem que possa ser diferente do que foi até então?
Porque não fazer a diferença?
E porque não?

Porque é que os problemas dos homens não são arte?
Arte que transfigure o que é feio em belo,
o desagrado em prazer,
algo eternamente belo, objeto de contemplação?
E porque não?

Porque é que insistimos no que é feio,
desonesto e imoral?
Porque é que preferimos o inferno,
se o bem-estar social está perto,
ao alcance de uma mão?
Porque é que cada um de nós não consegue fazer a diferença,
a mudança e a (r)evolução?
E porque não?


PEDRO VARGAS
Outubro 2013

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

PAISAGEM COM DUAS CASAS
 


LUÍS DELGADO

Óleo sobre Tela 60 x 73
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Couve-galega


por Miguel Boieiro

Para especificarmos botanicamente uma determinada planta há que usar métodos de classificação, cuja sofisticação não é atraente aos leigos.
Exemplifiquemos: temos um elemento do reino vegetal que pertence ao ramo das Espermófitas, ao subramo das Angiospérmicas, à classe das Dicotiledóneas, à ordem das Brassicáleas, à família das Brassicáceas ou Crucíferas, ao género Brassica, à espécie Brassica oleracea, à variedade Acephala e à subvariedade Plana. Mas afinal que planta é esta tão complicada? Pois, nada mais, nada menos do que a nossa corriqueira couve-galega.

E eis como as coisas complicadas podem ser simples e vice-versa. Afinal toda a gente conhece a couve-galega que é das milhentas variedades cultivares de couves (Brassica oleracea) a que se encontra mais perto  da couve espontânea e selvagem que, julga-se, teve a sua origem no continente europeu, a Brassica sylvestris. Por razões óbvias, abordarei aqui outras variedades também sobejamente conhecidas: o repolho, a couve-lombarda, a coração-de-boi, a couve-de-bruxelas, a couve-rábano, a couve-flor, a couve-chinesa, os brócolos, … ou seja, um verdadeiro mundo no campo das hortaliças comuns.

A couve-galega é uma planta medicinal que se pode usar tanto externamente como internamente, mas a sua reputação é gastronómica. Em Portugal a couve-galega é um ex-libris, tal a sua versatilidade na culinária tradicional, com destaque para o caldo-verde que é, sem favor, a nossa sopa nacional, por excelência. Seria estultícia da minha parte descrever como se confeciona o caldo-verde e outras sopas e cozidos deliciosos onde entra a distinta convidada que hoje trouxemos à liça. Ela pode assumir uma multiplicidade de funções. De relance e a título de exemplo, estou agora a lembrar-me das broas-dos-santos que se preparam no início de novembro, em que as folhas da couve servem de base para evitar que os bolos, cozidos em forno de lenha, fiquem com a base torriscada.

O perfil nutricional da couve-galega é notável. Ela contém tanto, ou mais cálcio que o leite, com a vantagem de que a assimilação se faz praticamente sem contraindicações. Para além disso, contém valiosos antioxidantes, ferro, iodo, enxofre, provitamina A, vitaminas C, K e do complexo B. Por isso, pode ser determinante na luta contra as úlceras do sistema digestivo (estômago, duodeno, cólon). Há até quem defenda que produz efeitos benéficos no tocante às doenças cancerosas, como preventiva.
Externamente a couve finamente migada e colocada em cataplasma nas feridas e infeções cutâneas acelera eficazmente a cura das mesmas.

Toda a gente está familiarizada com o aspeto da couve-galega que é cultivada há milhares de anos, mas convém lembrar as suas principais características. Ao contrário das outras couves, ela chega atingir 120 cm de altura e no segundo ano, em que espiga, com ramalhetes de flores brancas providas de quatro pétalas dispostas em cruz (crucíferas), pode chegar aos 160 cm. Naturalmente que os caules se tornam muito lenhosos. As folhas são lisas e não se enrolam no cimo formando cabeça, como acontece com os repolhos. Daí a designação acephala.

A couve-galega não é tão exigente como as outras couves. Dá-se bem em qualquer terreno, desde que bem drenado e nitrificado, e em qualquer clima temperado.
No que respeita à resistência a moléstias e predadores, também se aguenta relativamente bem, sem necessidade de produtos químicos, tantas vezes nocivos para a saúde. O seu principal inimigo é a chamada borboleta branca (Pieris Brassicae). Cada fêmea faz uma postura de 600 ovos, os quais se detetam facilmente nos enrolamentos das folhas ou nas suas páginas inferiores. As lagartas que daí nascem são vorazes e rapidamente devoram as plantações. Felizmente que já existe no mercado um inseticida, aceite em agricultura biológica, destinado a dizimar essa lagartagem específica. Trata-se de um produto com base em Bacillus thuringiensis que atua algumas horas após a ingestão pelas lagartas, impedindo-as de se alimentarem devido a paralisia. A morte sobrevém 1 a 7 dias após a ingestão do Turex (nome comercial do respetivo produto), o qual não é tóxico para organismos diferentes daqueles que combate.

Eis, pois uma indicação útil que apresento sem qualquer interesse que não seja a de promover as regras da agricultura biológica, indispensáveis à preservação do planeta e ao futuro da Humanidade.


E para terminar este singelo escrito, deixo a pergunta tradicional dos franceses – Savais vous planter des choux? (Sabeis vós plantar couves?)


terça-feira, 5 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



As revoluções devem ser assim e nós estamos a assistir a uma. Múltiplas razões que se debatem, todas elas cheias de razão ou da sua própria razão que, na prática, é o que na verdade se verifica e o caos da desordem que resulta de não haver quem ponha ordem em variados decisores que ditam isto e aquilo anulando ou inutilizando por vezes o que se acabou de propor ou, pior, o que estava e bem, como quem no descuido de uma qualquer euforia, justificada ou não, deita o bebé fora com a água do banho. Para atenuar inquietações, resta pensar que tudo isso será natural, da mesma maneira que a avalanche é inevitável quando se rebentam as paredes de uma barragem. E é isso que se passa neste cantinho ibérico em que, não sei se sonhadoramente, se começa a falar de um socialismo à portuguesa. Mas quem sou eu para falar de sonhos ou nas possibilidades de os concretizar ou ainda na exequibilidade dos mesmos? A sociedade portuguesa atravessa uma ebulição permanente, explodindo por toda a parte de reuniões e comissões disto e daquilo, estalando em manifestações a propósito de tudo e mais alguma coisa e sobretudo reclamando, exigindo e bem lá no fundo, tão simplesmente se quisermos ser apenas humanos e razoáveis, na vulgaridade dos casos com todos os motivos para o fazer que raramente ultrapassam o limite do que é justo. As greves decidem-se e fazem-se com a facilidade de um encontro de sócios num clube qualquer e daí que sejam como papoilas no pousio em que está a desaguar o tecido económico do país. Aqui, neste que permanece um pedaço de paraíso, até nem nos podemos queixar, pois as produções não sofreram, pelo menos até ao momento, qualquer quebra, em uma ou outra área aumentaram e a colocação, o escoamento daquelas tem sido assegurado sem percalços anormais, no que, e isto segundo os companheiros mais entendidos, até fomos ajudados por outros pequenos negócios que ao sabor desta liberdade têm surgido por aí. Nem mesmo quanto ao impacto dos aumentos dos salários podemos dizer que tenhamos sofrido nos dividendos finais, pois conseguimos obter ganhos de produtividade, quer dizer, fomos capazes de reestruturar processos produtivos e com isso alcançámos bons aumentos de produção por hora de trabalho. No entanto, a economia portuguesa parece encravada nesta maré de paralisações e plenários de urgência porque tudo está em causa e tudo importa e a ninguém deixa de dizer respeito. É precisamente esse o meu receio que o tecido produtivo nacional não esteja preparado e não venha a atingir esses saldos positivos de produtividade que permitam acompanhar os índices daquilo que se reivindica. E o estado não se pode alhear dessa economia clandestina que se vai fazendo um pouco por toda a parte e que, apesar de tudo, é ganha-pão para muitos; mas a redistribuição da riqueza faz-se pelos impostos e para isso há que cobrá-los. Não há é como dizer que um aumento que em muitos, eu diria em demasiados casos, mais não é para que se possa passar a ter o leite e o peixe e a carne regulares que perfazem uma alimentação recomendável, certo é que não há como dizer que tais exigências sejam irrealistas ou inadequadas, ou que o salário mínimo não é justo e acertado, para nem chegar a dizer exequível. Depois cabe sempre pensar como se pode pedir que espere a um homem que empobrece a trabalhar tal como é tão banal que suceda no Portugal que o salazarismo nos legou? E também não tenho qualquer fantasia sobre muitas motivações que, na procura de um pretenso igualitarismo, muito simplesmente escondam a baixeza da inveja. Provavelmente também isso fará parte do que é uma revolução, especialmente se, como esta que presenciamos, os rumos que se apontam sejam os do socialismo o que em linguagem simples se resume na ideia de uma sociedade mais justa e equilibrada. Contudo é o que me parece que deriva de muitos dos discursos que se gritam contra os ricos e a riqueza em que chega a parecer que o que mais importa é acabar com os primeiros e destruir a segunda. Nem dando conta que os filhos de qualquer um têm o mesmo direito que os de qualquer outro a usufruir da oportunidade de escolherem um caminho para as suas vidas e de preferência que no mesmo possam colher frutos melhores ou, no limite mínimo, tão bons, quanto aqueles que os trouxeram ao mundo recolheram, ainda que nesse patamar minimalista apenas estivéssemos a conseguir manter os níveis de pobreza de que estamos a partir. A riqueza é o resultado da actividade humana, só é perniciosa se nos deixarmos cegar por ela, se dela fizermos o objectivo primordial ou único da nossa existência, se a virmos como um mecanismo de vida, compreenderemos então que o mais importante será reparti-la, usá-la para que os que têm menos e de uma ou outra forma estão impedidos de a mais almejar, não vejam aos seus filhos, por causa disso, cerceadas as portas das tais possibilidades de singrarem na vida se para tanto tiverem capacidades pessoais. E não estou a pensar no simplismo do reparte comigo a casa que tens para viver ou o pedaço de queijo que tens à mesa, à semelhança do que na última noite se discutiu na comissão de moradores que levou a debate a proposta de uns quantos para que a nossa piscina fosse declarada de livre utilização para qualquer habitante do Vale da Esperança e que, após uma primeira fase em que esse ponto de vista pareceu vencedor, se regozijaram pelo fim dos privilégios burgueses. Prevaleceu o bom senso após uma reviravolta em que a cooperativa teria que construir uma outra piscina ao que o calor da discussão veio acrescentar um pavilhão gimno-desportivo para ficarem a cargo da associação e, por via disso, ao dispor de todos, acabando por se acertar que a comissão lançaria uma pequena mensalidade sobre todas as residências e estabelecimentos comerciais, a partir da qual e da oferta da mão-de-obra de todos, se comprarão os materiais e pagarão as máquinas para que se venha a construir aqueles equipamentos. É nesta redistribuição que estou a pensar, a que assenta no princípio de vou procurar conseguir ao invés do que se contenta que tu não consigas. E não é que já se fizeram contas e já se sabe como liquidar o empréstimo que permitirá realizar aquele empreendimento colectivo? É a prova que a vontade e o engenho dos homens tem muita força, às vezes, tristemente, até demasiada força o que, para nossa alegria, não é este o caso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (53)

Uma Cidade à Beira de um Rio ao Pôr-do-Sol, Turner, 1833
Aguarela e guaches sobre papel azul, 13,4x18,9cm


Impressão, Sol Nascente, Monet, 1872
Óleo sobre Tela, 48x63
IMPRESSÕES
Já manifestei a minha admiração por Turner e a maneira como aumentou exponencialmente, quando tive a oportunidade de apreciar as suas obras, em Londres, na Tate Gallery.
Tenho uma história, numa dessas visitas.
Há uma pequena aguarela dele, exactamente na Tate Gallery, com o título "Uma cidade à Beira de um Rio ao Pôr-do-sol", de 1833, que nos recorda de imediato, "Impressão, Sol Nascente", 1872, de Monet. Um entendido na matéria explicava que Turner se tinha inspirado no pintor impressionista francês.

Obviamente, as datas das peças não faziam parte dos conhecimentos do pretenso conhecedor…

António Tapadinhas 

domingo, 3 de novembro de 2013




Uma das várias navegações que gosto de praticar, é percorrer os trilhos á beira-rio exercício que, no entanto, se torna cada vez mais difícil concretizar. O movimento das marés foi corroendo a consistência das muralhas que mãos humanas construíram, a falta de manutenção permitiu o desfecho, a sua derrocada total. Sem a barreira de pedra que lhe cortava o fôlego e o fazia estancar, continua o rio, por mais uns metros, o seu deambular insaciado até se imobilizar no abraço à terra, sua eterna e insubmissa namorada. E ela acolhe-o enfeitada por salgadeiras, cardos (que picam mas também dão flor) e outras plantas que ali fizeram a sua casa e colonizam as zonas húmidas. Namoram ao som do regurgitar dos bivalves quando as marés baixam e dos gritos e chamamentos das aves do mar que folclorizam o ambiente. A elegância sumptuosa dos flamingos desliza sobre o cinzento lodoso e o seu colorido conta-nos que há outros mundos neste mundo que sentimos mais nosso apenas por nos ser mais próximo. Os trilhos arrastados pelo correr da maré tornam mais difícil a incursão, mas a recompensa continua a ser imensa e gratificante. O brilho do sol, o vento no cabelo, o cheiro da maresia, os barcos típicos sobre as águas que, com arte, bolinam os esteiros, domesticados pelo saber dos últimos intérpretes da faina, ou por navegantes ocasionais que no ócio exercitam e cumprem, o fado ou desígnio da alma lusa marinheira. 

                                                                                                                                              M. J. Croca



Foto: Edgar Cantante

sábado, 2 de novembro de 2013

Janela Aberta


A janela aberta
permite o frio
e o inseto: o calor
                  e o inseto

                    o dia
                     e o inseto
           
a noite
na estrela
derradeira

              a janela aberta
              traz o som da rua
             
                      o silêncio
                      e a diferença da rua
                      concretada em prédio:

                            a janela
                            se repele
                            em paisagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Livros d'África



JOÃO BERNARDO DE MIRANDA 

Nasceu no Kaxito, província do Bengo, em 1952. Licenciado em Direito, jornalista durante algum tempo, cedo iniciou uma brilhante carreira política tendo exercido o cargo de Ministro das Relações Exteriores de Angola entre 1999 e 2008. Foi parte activa e influente nas conversações para os acordos de paz assinados em Bicesse e Lusaka. É membro fundador da União de Jornalistas Angolanos e da Associação de Juristas Angolanos.

A obra “NAMBUANGONGO”, prefaciada por Domingos Van-Dúnem e publicada pela Dom Quixote em 1998, retrata a caminhada para a independência de Angola a partir dos levantamentos iniciados pela UPA (União dos Povos de Angola) na zona dos Dembos.

Foi um início sangrento onde, para além de eliminar os brancos, os mulatos, os assimilados e todos aqueles que colaborassem com os brancos, a ordem era matar também osmona-wa-ionka”, isto é, traduzindo livremente, os filhos de cobra, porque, segundo as directivas de Mbunta Muntu (ou Tata Holden, nomes porque era tratado pelos seus correligionários o líder Holden Roberto)mona-wa-ionka, ionka uê”, ou seja, filho de cobra é cobra.

A narrativa principia exactamente com a violação de uma jovem bailundo* por um branco, dono da roça de café para onde ela tinha vindo trabalhar, contratada. Dessa forçada união nasceu uma menina, Massanga, que verá o seu futuro e o futuro da família completamente esfrangalhados pelos combatentes da UPA por causa da sua condição de mulata.

É no desenvolvimento desses acontecimentos que surge o primeiro núcleo do MPLA, embrião do que viria a ser a sua 1ª Região Político-Militar comandada por Nito Alves, cuja acção é algo desenvolvida neste livro e que viria a desembocar nos trágicos dias que se seguiram ao 27 de Maio de 1977.

O Autor faz também a ponte entre os que queriam construir uma Angola diferente e aqueles cujo oportunismo transformou o país naquilo que é hoje. Ouçamos as palavras sábias do velho ndembu** Mabakala, veterano de Nambuangongo, com uma análise amarga mas procurando, fiel ao seu código de lealdade, explicar a acção dos dirigentes a um jovem combatente revoltado com as discrepâncias sociais:

(…) Na verdade um programa político, por mais perfeito que seja, não pode dispensar a inteligência, a personalidade, o carácter, a vontade e a fama do dirigente. Da mesma maneira que o brilhar do sol obscurece ou ofusca todas as outras estrelas, o dirigente político ofusca o programa, e porque não mesmo o próprio Partido que representa?...

Os políticos geralmente reduzem o programa do seu Partido a um simples suporte, um meio para a promoção do seu prestígio pessoal. Dessa promoção pessoal nasce a autoridade. Meu filho, a política sempre se fez na primeira pessoa do singular. No eu. Eu sou. Eu fiz. Eu farei. Eu aqui e eu acolá, eu para cá e eu para lá, etc…

E os nossos camaradas não serão uma excepção, percebe?... Eles hão-de sempre falar no programa maior do MPLA, mas isso não quer dizer que hão-de sempre estar a trabalhar em obediência a este programa. Eles falarão sempre do programa maior do MPLA, mas actuarão em conformidade com tudo aquilo que é susceptível de enaltecer e elevar o prestígio pessoal.

Tudo que põe em causa o prestígio pessoal do dirigente, mesmo se é bom e útil para o Partido que representa, o político não o faz sem primeiro dizer, eu…”

Análise sábia que bem poderia aplicar-se a outros países: é só mudar as siglas. 


(*) bailundo – etnia do centro e sul de Angola, tida como (mais) colaborante com os portugueses.
(**) ndembu – habitante da zona dos Dembos, região de Nambuangongo.



Tomás Lima Coelho