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Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
terça-feira, 16 de abril de 2013
A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA
Quem semeia ventos colhe tempestades, assim diz o provérbio e é o que parece estar a acontecer com o regime que nos oprime e, num certo plano, nos traz infelizes. Infelicidade que, vendo bem, é afinal um misto de sentimentos contraditórios, pois no fundo, isto é, no âmago da vida privada que levamos eu, no que particularmente me diz respeito e não serei a única pessoa a passar por isso, tenho a sensação de nunca me ter sentido tão feliz, tão em serena harmonia com o decorrer do dia a dia em que tantos motivos de alegria vou encontrando. Não deixando no entanto de considerar uma tristeza que à nossa volta está o país que temos, este cenário de vexame e repressão que se abate sobre gente simples e honrada, vítimas da loucura daqueles que se vêem donos da verdade e que por isso se autorizam na missão de zelar para que tudo seja de acordo com os seus ditames e interesses. E tal acarreta a mágoa e o mal estar de termos que viver num mundo assim, calando a revolta e silenciando as denúncias das injustiças, agindo como se nada de estranho se passasse e ninguém estivesse privado da sua própria vida por um simples motivo de opinião que a mim muito repugna chamar de delito, como os malvados fazem. É aí ou por aí que a dúvida se nos injecta na consciência e nos faz perceber a inquietação de não nos sentirmos bem. “-Pois bem, mas o que fizestes vós para acabar com isso?” É a pergunta que o futuro, um dia, nos poderá atirar à cara e isso dói no peito do presente, é a infelicidade a que esta ditadura implacável nos sujeita. Sem qualquer laivo de hipocrisia é esta uma moinha que passa, ela volta, aqui e ali, mas acaba sempre por passar na medida em pessoalmente sou dada a concluir que, naquilo que nos toca, até podemos dizer que temos feito muito quer para que assim não fosse, não tivesse necessariamente que ser, quer para preparar o quando assim vier a deixar de ser. É claro que não andamos de armas na mão e estou certa que nenhum de nós sequer chega à actividade subversiva de um militante oposicionista e ainda menos à dos clandestinos que lutam abertamente contra a lógica e a existência do Estado Novo que pretendem pura e simplesmente remover para as páginas da História. Se exceptuar as ocasiões em que alguns tiveram a atitude corajosa de dar cobertura a uma ou outra fuga às atrocidades da PIDE, quanto muito teremos no curriculum a subscrição de anódinos abaixo-assinados de protesto ou a favor de alguém ou alguma coisa e pouco mais, para lá de contributos financeiros que praticamente todos oferecem às famílias dos presos políticos. No entanto, temos que admitir que, pelo menos até agora, não têm sido esses processos que deram a mais leve mostra de serem capazes de inverter a situação e aquilo que temos visto é que Salazar e o salazarismo a todos têm resistido e a todos têm sabido dar uma réplica demolidora. Mas eu não tenho a menor dúvida que à medida que a população vá sendo instruída e comece a viver melhor, aí sim, o reino destas gentes estará finalmente por um fio. É com toda a convicção que por isso afirmo que aquilo que temos feito nesta nossa comunidade em termos de proporcionarmos condições salariais e de vida condigna ao povo que para nós trabalha, bem como ao nível de proporcionarmos educação livre e gratuita e de excelente recorte no que lhes é ministrado e com a exigência que tudo é feito, devo dizer, sem qualquer vaidade, tudo isso acabará por ser o que melhor poderíamos ter feito para procurarmos alterar esta sociedade injusta que nos envolve e em que acabamos por estar inseridos e que é o mundo que parece estar agora a recolher as tempestades que tem semeado. A informação que vai saindo nos jornais e menos ainda na rádio ou na televisão, é escassa e, como seria de esperar, não só não é detalhada como, em boa parte, serve para ocultar os problemas de fundo e que são as causas daquilo a que chegámos. Mas desde a Primavera passada que se sabe de revoltas mais ou menos assíduas em Angola e que originaram vários massacres de colonos brancos e até de africanos que, de acordo com os executantes, com eles colaboram. Ao que parece, há vastas regiões do norte submetidas ao flagelo e há quem diga que se trata de uma verdadeira carnificina, pois a resposta das autoridades portuguesas não se fez esperar e logo foram mobilizadas tropas para ali se instalarem, segundo a palavra de ordem de Salazar, com força. Vamos a ver o que sucederá daqui para a frente. Portugal que desde a independência da Índia ficou entregue a si próprio naquele vasto sub-continente e tão bem soube movimentar-se nas instâncias internacionais para adiar o mais possível o inevitável que seria a anexação dos territórios que aí administra por parte da União Indiana, viu rebentar-lhe na jóia do império uma revolta armada com que não contava, mas veio a mostrar ao mundo que os anseios e expectativas de independência que têm subtraído vastos territórios de África aos poderes coloniais, também penetraram os desejos de populações angolanas, com isso perdendo sentido a argumentação relativa a uma administração colonial diferente e aceite pelos naturais, com que a diplomacia salazarista tem conseguido iludir as expressas intenções de Nheru de expulsar os últimos vestígios do colonialismo no seu país. Ora tenho para mim que terá sido aquele levantamento em Angola o pretexto de que o líder indiano estava à espera para fazer avançar as suas tropas e forçar o regime salazarista que, quanto a mim, não poderá ser de Portugal que aí falamos, antes do regime salazarista que dessa forma se viu obrigado a passar pela humilhação de uma derrota militar e à simples debandada dos seus representantes e alguns estratos da população e tudo isto, ao que se ouve dizer por aí, depois daquele velho de Santa Comba ter dado a ordem às nossas tropas para que não se rendessem. Foi o que o bastou para que alguns civis em conluio com militares, em minha opinião muito provavelmente de forma precipitada, isto avaliando pelo desfecho que teve, pensassem ter chegado a hora de fraqueza do regime e portanto a melhor oportunidade para derrubarem a situação pela força. Desta vez as lealdades ainda falaram mais alto e aquilo que se esperaria vir a desenvolver-se a partir do controle de um quartel em Beja ficou logo ali morto à nascença, com feridos entre os assaltantes que na maioria foram presos. Cá para mim, vem aí uma vaga de repressão ainda maior do que as chumbadas destes últimos anos, com particular intensidade a partir da candidatura do General Humberto Delgado à presidência da república que, apesar de estar no exílio, foi já acusado de estar por trás destas manobras subversivas. Mas também não deixo de vaticinar que estendendo-se a guerra a outras províncias ultramarinas, começará aí então a verdadeira contagem decrescente para a queda de Salazar e deste regime cruel e injusto. Tenho muitas dúvidas que o país seja capaz de enfrentar um conflito com tais dimensões, em diversas frentes e mais tarde ou mais cedo do que aquilo que muitos de nós esperamos, a situação tornar-se-á de tal modo insustentável que lá chegará o dia em que uma revolta sairá vitoriosa. Se até aqui tenho sempre manifestado as maiores dúvidas e reservas em face da possibilidade de o povo português conseguir desalojar Salazar do poder, agora acredito que esse dia pode estar muito mais perto do que os mais optimistas julgam.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
REAL... IRREAL... SURREAL... (24)
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| Harém, António Tapadinhas, 2003Óleo sobre tela, 70x80cm |
UM MUNDO DE CERTEZAS
Acordei com o chilrear das diversas gerações de pardais que, sem minha
licença, paulatinamente, ocuparam o sótão de minha casa.
A minha saída, só foi notada por King, o Serra da Estrela que, bem-educado,
me ladrou o seu bom-dia.
Dirigi-me ao quiosque, onde comprei o jornal.
Pouco depois, entrava no café.
Não foi preciso pedir nada. Passados alguns instantes, tinha na mesa o bule
com o chá preto e a meia torrada de pão caseiro.
Todos estes movimentos complicados, foram feitos sem hesitações, com
simplicidade, quase maquinalmente.
É tão cómodo ter certezas!
Aterroriza-me a possibilidade de ficar indeciso, perante qualquer situação
imprevista. Tomar uma decisão, apavora-me. Perco o tempo, que não tenho, para
fazer o que quero e para o qual o resto da minha vida não vai chegar. Ao ocupar
o cérebro com a resolução de pequenos problemas, corre-se o risco de esquecer o
que é fundamental.
Aquilo que alguns podem admirar como segurança de atitudes ou opiniões, não
passa de uma defesa à minha recente incapacidade de tomar decisões. Para ser
mais correcto, digamos que fiz uma troca - fico afectado na aptidão de decidir,
logo aumento a minha gama de certezas. Quando me levanto da mesa, já tenho na
mão o dinheiro certo. É um estratagema que evita ao dono do café o problema de
fazer contas, de introduzir dois preços numa máquina de calcular protegida por
um plástico, com teclas minúsculas como lentes de contacto, difíceis de premir
uma de cada vez, pelos dedos de um adulto normal e ainda mais por qualquer das
suas cinco salsichas alemãs, por muito que ele tente afiá-las, introduzindo-as
em orifícios pequenos, como as fossas nasais ou os buraquinhos dos ouvidos.
No regresso, antecipo, com prazer, as manifestações de alegria na minha
chegada a casa.
É bom ter a certeza do amor de alguém. Mas o melhor é gozar a demonstração
desse sentimento, sempre que voltamos, passados cinco minutes, cinco horas,
cinco dias... Sem queixas, porque o dia correu mal no trabalho, ou por causa da
chuva, ou porque um familiar está doente, ou porque o buraco do ozono continua
a aumentar. Sem reservas. Chegaste. Estou
aqui para provar que te adoro. Lambo as tuas mãos, cheiro as tuas calças, dou
patadas a pedir festas, se possível atrás das orelhas. Ladro de alegria para
avisar toda a gente que chegou o melhor dono do Mundo.
Entro em casa, limpo de todos os germes apanhados na minha viagem ao
exterior, desinfectado por este banho de amor, como um astronauta, ao reentrar
na Terra, depois de passar pelas câmaras de esterilização.
Imaginem um mundo em que todos tivessem esta capacidade de amar, sem
reservas, sem perguntas…
Amar porque sim,
ponto final!
domingo, 14 de abril de 2013
Foto: Edgar Cantante
RETRATOS – I
Ia
eu andando, de noite, na rua onde moro.
Era
já tarde na noite quando ouvi, através da persiana entreaberta da janela, uma
voz que chorava baixinho num desconsolo que tocava.
Chorava,
baixinho chorava.
Pensei
parar para ouvir, achei que não devia mas algo em mim queria escutar o que o
choro carpia.
Ando
não ando, paro não paro, a indecisão irresolvia se ouvir ou não o que a voz gemia.
Não
parei porque alguém se aproximava na noite na rua
onde moro.
De
modo que fiquei sem saber que dramas ou que dores ali aconteciam mas sei que
era noite e por detrás da janela de persiana entreaberta alguém chorava, alguém
sofria.
*
E
então fui andando para o sítio onde ia, sentindo que algo em mim se transformara
já. Senti que algo naquela dor que eu desconhecia e me não pertencia, em mim
entrara e comigo trazia.
Entrei
no bar.
Uma
música passava, soava. Era uma balada que um homem cantava. Cantava em inglês. Era
uma balada longa, dolente, onde se contavam amarguras de uma vida sem picos de
luz como tantas vidas.
No
bar, a gente era pouca. Ninguém me pareceu suspenso da balada embora a balada
passasse na mesma. As baladas são assim. São só para quem gosta ou para quem repara
nelas.
Manuel João Croca
sábado, 13 de abril de 2013
Poemas que se encontram
Canteiro Platónico
A planta do jardim
Namorou o regador
Enamorou-se de tal ardor
Que em cúmulo se julgou capim.
Conta as horas a planta
Os dias, os meses, os anos,
Tempo é brasa de um coração em danos
Nem com água, pela rega se lhes espanta.
Sente por alturas o regador,
Todo o dia esperando sinal de si,
Dirige-lhe ele rodando para si
Cristal em planta à luz daquele amor.
Mas não te iludas pobre planta.
O regador é leão de todo o jardim,
Nem rosa, malmequer, capataz e afim
Quem dá de comer é senhor, pois vêde
Lavradora de ar em lágrimas de santa.
Lavradora de ar em lágrimas de santa.
Diogo Correia
“Guerreiro Alquimista”
Estou preso é para bater na testa, as mãos
algemadas,
É para bater a pedra da fronte nos dedos de osso
Estou cego sob a lua da música do guerreiro
alquimista
É para bater as feridas e as lágrimas, onde
errei, bate
bate o arco da bravura onde a coragem está presa
da anona
Fruta do Conde para beijar na boca, devo estar a
sonhar
Avanço pelo caminho, quero caminhar junto ao
oceano
Todos os
dias antes do sol nascer, o fogo abre o sentimento
Frágil no doce olhar da venda
Solta as mãos para dançar, solta a venda , bate
no crânio
Até a Pedra Viva, bate a astúcia de saltar,
construir o corpo
Recupera o poder no corpo livre da manga doce do
beijo
Entre Birre e a Torre nascemos devagar sem
estranheza
Já não estou preso, tenho a flor do frio da
esperança – a angústia
Ainda não há o movimento pessoal – liberta as
amarras do conforto
Vibra o primeiro passo na água salgada, a voz
interior é para bater a
Carne cor de rosa vivo do guerreiro alquimista ao sol
Ainda fica a pergunta quem vai dormir comigo o
corpo em fogo
O medo mora comigo, Cascais abre-se como vila
clara
JOSÉ GIL
Rua das Nespereiras , Birre , Cascais, 6 de
Abril 2013,Portugal
Jovialidade
A memória
uma capacidade física
que, como tudo no mundo
com o tempo se esvai.
A sua tradução em energia subtil
o que mais importa.
Luís Santos, Versículos
VIDAS
No calor da pugna
no calar da ruína
no colar exposto
na prática prisão
dos elementos: o ouro
reluzente
craveja a pedra
arremessada
o colar sufoca
a vida
inexistente.
(Pedro Du Bois, inédito)
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Poesia
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Hipnos
Hipnos e Tânatos (Fonte: Wikipédia Livre)
Na concepção da sociedade
atual, com tantas motivações para se ficar alerta, o dormir é, para muitos o
mesmo que perder tempo, um roubo de horas vividas, um exercício para a morte.
Desde a antiguidade a mitologia dava ao sono, processo biofisiológico rítmico,
cíclico, subordinado a estímulos elétricos e neuropsíquicos, a importância para
manter o homem em estado hígido. Os
grandes estudiosos do assunto, psicólogos e pesquisadores da mente, são
unanimes: há no domínio de Hipnos, deus do sono, filho da noite (Nyx) e de Érebo
(a treva primordial), irmão de Tânatos, deus da morte, outro mundo ainda não
totalmente desvendado, que comanda o subconsciente e favorece a
criatividade. Quando esse processo
neuropsíquico é afetado por doenças (físicas ou psíquicas) ou por comportamentos
que prejudiquem a rotina, aparece a insônia que, frequente, mina a qualidade de
vida. Dormir o que se precisa ajuda a
manter-nos física e psicologicamente saudáveis, mantém-nos vivos.
Aqueles que, por
necessidade ou tipo de trabalho, são obrigados a trocar o dia pela noite,
necessitam de mais tempo para descanso e de algumas compensações financeiras e
sociais, como aposentadoria mais
precoce. Mas nem sempre o preço pela falta
de sono é só esse. Os pesquisadores são enfáticos; a falta de um sono reparador leva a um
déficit cognitivo e motor, a alterações de humor, a fadiga crônica, a maiores
riscos de acidentes e erros que prejudicam os relacionamentos sociais e
familiares. A história mostra essa tendência. Relatos de tragédias como a do
Titanic(1912), a do petroleiro da EXXON Valdez (1989), a da usina nuclear
de Chernobyl (1986), foram acidentes que ocorreram à noite, quando equipes
submetidas a longas jornadas de trabalho sem o descanso necessário, com
privação de sono, tiveram falhas ou cometeram mais enganos que o normal. Embora não divulgado à priori, soube-se
posteriormente que a equipe de manutenção do ônibus espacial Challenger havia
trabalhado exaustivamente na noite anterior, para reparar o defeito numa peça
do tanque de combustível. Problema que ficou aparentemente resolvido... até à explosão do ônibus.
Mas como tudo tem
exceções, há também aqueles que julgam a noite a parte do dia mais produtiva,
pela quietude e sossego de que se dispõe. Poetas, escritores, artistas,
cientistas, cérebros diferenciados há que encontram nessa ocasião o seu melhor
tempo. O Nobel de Química de 2003, R. MacKinnon disse: “Meus momentos mais
produtivos são aqueles em que não consigo dormir”. Em geral são mentes
privilegiadas que conseguem funcionar tanto pela atividade cerebral racional,
como pela intuição, quando esta está liberada, sem o controle e censura da
racionalidade, como um caleidoscópio que pelo movimento ao acaso mostra novas e
inesperadas formas de visão. Para os
filósofos a intuição é uma modalidade rápida, fugaz, privilegiada de
conhecimento, que tem papel decisivo na criatividade, seja artística ou
cientifica. Mesmo nestes casos, as pesquisas comprovaram que o repouso
noturno aguça duas vezes mais o sentido intuitivo dos que repousam, do que os que
não repousam adequadamente. Logo Hipnos tinha razão em se deitar numa cama de
penas macias, numa caverna escura junto a uma das margens do Lethe, o rio do
esquecimento. Dormir não é perda de tempo, dormir faz bem à vida.
Maria Eduarda
Fagundes
Uberaba, 30/03/13
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Saúde
quinta-feira, 11 de abril de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
IMI: o imposto que resiste à crise
Manuel Henrique Figueira
Acabo de receber o primeiro de três
avisos de pagamento do IMI da minha casa de habitação, o mesmo tendo acontecido
à generalidade dos proprietários de imóveis. Este ano, para disfarçar o recente
e brutal aumento que este imposto sofreu, e para que o suportemos melhor, passámos
a pagá-lo em «prestações suaves»: uma, em Abril (para quem pague até 250 euros);
duas, em Abril e Novembro (entre 250 e 500 euros); três, em Abril, Julho e Novembro
(acima de 500 euros).
Num tempo de forte retracção dos
rendimentos das pessoas e de contenção de custos por parte das mais diversas
instituições e empresas, a que se deve esta desagradável «surpresa fiscal» que agravará
a crise em que muitas famílias vivem?
Deve-se à conjugação de três factores:
1.º − Factor Troika: Actualização generalizada
do valor patrimonial dos imóveis (prevista no D. L. 287/2003 e imposta
pela Troika). Multiplicando este valor pela taxa fixada por cada município obtêm-se
o imposto a pagar. A actualização do valor patrimonial implicou, nalguns
casos, subidas de 2000% ou maiores, embora as pessoas afectadas estejam a
coberto da Cláusula de Salvaguarda (D. L. n.º 287/2003) que lhes permite terem
aumentos «moderados» em 2013 e 2014.
2.º − Factor Governo: Aumento que o Governo
aplicou aos intervalos das taxas do imposto e que abrange todos os imóveis. Nos
prédios avaliados a partir de 2004 o intervalo passou de 0,2-0,4 para 0,3-0,5.
Nos prédios não avaliados passou de 0,4-0,7 para 0,5-0,8. Estes aumentos podem
variar, respectivamente, entre 50% e 25% e entre 25% e 11,42%, dependendo das
taxas do ano anterior de cada município.
3.º − Factor Autarquia: Aumento das taxas (dentro
dos dois intervalos que referi) decididas por um número considerável de
municípios. Trata-se de autarquias pouco amigas dos seus munícipes ou
fortemente endividadas (devido a má gestão), que aproveitaram esta oportunidade
para arrecadar mais receita, pouco se importando com as dificuldades por que a
generalidade dos munícipes passa. Este terceiro aumento é tanto mais chocante quanto
é certo que os autarcas normalmente têm um discurso contra o Governo, contra a
sua inegável falta de sensibilidade social na distribuição dos sacrifícios da
austeridade. Eu conheço autarcas desses, que acrescentaram, assim, aos dois
aumentos (o do Governo e o da Troika), um terceiro da sua iniciativa e
exclusiva responsabilidade. Explicando melhor: se um dado município no ano
passado tinha fixado o valor da taxa, p. ex., em 0,2, e o Governo, ao subir o intervalo
de 0,2-0,4 para 0,3-0,5 o obrigou a aumentá-la para 0,3, isto é, mais 50%, e se
esse município, por sua iniciativa, decide fixar essa taxa, p. ex., em 0,375, impõe
um terceiro aumento neste imposto. Resultado final: IMI mais caro 75%.
É com este triplo aumento do IMI que se confrontam
os munícipes em 82 autarquias (26,62% do total das 308 existentes no país),
tendo 31 procedido ao terceiro aumento por imposição do Governo/Troika (devido
ao alargamento dos intervalos das taxas) e 51 por iniciativa própria (isto relativamente
aos imóveis não avaliados – taxas: 0,5-0,8). Quanto aos imóveis avaliados
(taxas: 0,3-0,5), 85 autarquias sofreram este terceiro aumento (27,59%), 50 por
imposição do Governo/Troika e 35 por iniciativa própria.
No entanto «nem tudo vai mal no reino da
Dinamarca [autárquica]», ainda há autarcas com sensibilidade social, capazes de
fazer uma gestão sensata e equilibrada, avessa ao desperdício e às obras
megalómanas, o que lhes permite baixar as taxas de IMI e atender às
dificuldades por que passam os seus munícipes. Estão neste caso 44 autarquias (14,28%),
enquanto 182 (59,10%), do mal, o menos, mantiveram as taxas do ano anterior (isto
para os imóveis não avaliados: 0,5-0,8). Nos imóveis avaliados (taxas: 0,3-0,5)
58 baixaram-nas (18,84%) e 165 mantiveram-nas (53,57%).
Se numa conjuntura que tem levado a que
muitas instituições, empresas e famílias tenham refreado os gastos e em que
muitos produtos e serviços têm baixado o seu custo, compreende-se mal que em
alguns municípios (cujos autarcas se reclamam de estar próximos das populações)
se proceda ao contrário.
Mas perguntará o leitor: como é nas
câmaras do distrito de Setúbal? Lamento dizer-lhe, mas este é um distrito onde
o aumento do IMI «é quem mais ordena». Sabia que, no distrito, a taxa média dos
13 municípios (imóveis não avaliados: taxas 0,5-0,8) é a segunda mais alta do
país? Precisamente 0,718, com as câmaras de Setúbal, Montijo e Sines com o
valor máximo − 0,8 − e a de Palmela com 0,750. No caso dos imóveis avaliados
(taxas: 0,3-0,5) a média é a mesmo mais alta do país − 0,418 − com as câmaras
de Setúbal e do Montijo com o valor máximo − 0,5 − e a de Palmela com 0,480.
E sabia que (nos imóveis avaliados) apenas
duas fixaram taxas um pouco mais baixas − Sines (0,360) e Seixal (0,395) −, isto
entre três hipóteses possíveis (0,3; 0,4; 0,5)? E que, nos imóveis não
avaliados, entre quatro hipóteses possíveis de taxas (0,5; 0,6; 0,7; 0,8),
apenas duas se ficaram dentro da segunda hipótese: Alcácer do Sal (0,6) e
Seixal (0,695)?
Para concluir, direi que talvez cada um
de nós, munícipes dos concelhos do distrito mais violentamente fustigado por
este imposto excessivo e injusto, por incidir sobre um dos bens básicos mais
preciosos − a habitação − devesse confrontar os responsáveis autárquicos sobre
a razão se ser desta triste realidade.
E temos uma oportunidade em breve, pois
avizinha-se mais um acto eleitoral em que teremos que fazer escolhas para os
diversos órgãos autárquicos.
Pessoalmente, gostaria de poder votar em
muitas autarquias do distrito de Castelo Branco, onde as duas taxas de IMI que
referi no texto são as mais baixas do território continental − 0,3 e 0,5 − o
que faz deste distrito o mais amigo dos munícipes nesta matéria.
Nota 1: As
taxas em vigor em cada município podem ser consultadas em: https://www.portaldasfinancas.gov.pt/pt/main.jsp?body=/imi/consultarTaxasIMIForm.jsp
Nota 2: Os
dados inexistentes no Site das Finanças foram confirmados por contacto directo
junto das câmaras para garantir a fiabilidade da informação.
In O Setubalense,
5 de Abril de 2013, p. 3
Texto publicado com autorização do autor.
terça-feira, 9 de abril de 2013
A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA
Ai de nós se soubéssemos o dia em que iríamos morrer. Seria concebível um mundo assim? Dificilmente seria capaz de o fazer e mesmo admitindo que por qualquer motivo conseguiria imaginar um cenário em que tal pressuposto fosse real, a única certeza que posso adiantar é a de que o mesmo seria seguramente diferente daquele em que vivemos. Como conseguiríamos viver em paz com o semelhante se soubéssemos que a morte nos esperaria daqui a três meses? Como não aproveitar para satisfazermos prazeres que víamos ou sentíamos como apelativos, ainda que isso acarretasse o flagelo da desgraça e do sofrimento para alguém? Como nos poderíamos conter dos egoísmos mais sórdidos e mesquinhos numa realidade dessas? Haveriam sequer as possibilidades para criarmos quadros de valores para os limites da acção humana? São dúvidas estéreis, reconheço-o, pois na verdade estamos perante uma hipótese que nem se pode dizer ser meramente académica, antes uma ideia simplesmente fantasiosa. Contudo servem para melhor evidenciarmos o que há de empolgante na aventura de estarmos vivos e que é justamente essa incerteza que não se traduz apenas no desconhecimento da hora da morte e se estende afinal a praticamente todos os nossos pensamentos, decisões e actos. É pelos resultados que vamos obtendo, as consequências que vamos observando que nos certificamos se o caminho por que avançamos foi o mais sensato e não há como fugir a esta regra de irmos tentando, fazendo e corrigindo, voltando atrás e recomeçando, na mesma ou em via diferente, com a consciência de ir aprendendo nessa polarização entre a tentativa e o erro e o paradigma de sempre procurar ir melhorando. Naturalmente por isso a vida nunca é linear. Nem nos grupos humanos mais simples dos bandos de povos caçadores seria plausível encontrar alguém para quem o percurso vital tivesse sido linear. É certo que aí um jovem saberá que virá a ter que ser capaz de encontrar o alimento diário da mesma forma que o fizeram os pais e os pais destes antes deles e todos os outros pais de todos os pais. Contudo sempre haverão expectativas que não se concretizarão e com isso levam a inversões ou, pelo menos, sempre haverá espaço para que assim possa suceder e, como em toda a Humanidade, pois creio que isso será parte integrante da natureza humana e portanto aconteceu e acontecerá com todas as pessoas em qualquer lugar e em todos os tempos, nunca o indivíduo será o mesmo à medida que vai crescendo, pois aquilo que fomos na infância, nos primeiros anos de vida, melhor será dizer uma vez que o conceito de infância não terá que ser necessariamente universal tal como o concebemos, aquilo que fomos nesses primeiros tempos não será o mesmo que viremos a ser na idade adulta, isto é, ao longo das nossas existências, quer disso estejamos conscientes ou não e independentemente da nossa vontade, vamos sendo pessoas diferentes dentro de uma mesma identidade. Ora é isso que para mim é aliciante que me entusiasma quando penso na vida em geral e na minha, em particular e mesmo aqui nestas páginas que há tantos anos venho alimentando, já o devo ter expressado. Os sinais contraditórios, como aqueles arco-íris imensos que já vi formarem-se sobre a extensão da lezíria, na imagem dos quais bastam uns quantos passos para que passemos da superfície que está a ser bafejada pelos pingos para a vizinhança em que vemos abrir o azul do céu e deixamos de estar sob a acção da chuva. Tal e qual outrora prosperámos em hora de tragédia alheia e agora vivemos com uma felicidade que em tudo contrasta com este pão amassado pelo diabo que a repressão obriga o povo a comer. Não tenho a pretensão de ter uma memória histórica vigorosa – quem a terá, não será assim? – mas a deriva repressiva tem sido de tal ordem, especialmente desde que o General Humberto Delgado abalou para o exílio que quase me atrevo a dizer que se não estamos perante a maior vaga de prisões e todas as arbitrariedades desde que o regime se instalou, não andaremos certamente muito longe desses piores momentos. Aqui, mesmo entre os nossos trabalhadores, há pais de família enviados para o calabouço só por terem actividade cultural na associação. Uma das bestas da pide que o prendeu um deles e que deve ter um pouco mais de instrução, foi ao ponto de acusar o homem por promover ideais subversivos com o seu trabalho de bibliotecário, ao ter destacado “A Ressurreição” do Leão Tolstoi como o livro do mês. Como isso consiste num círculo – pequeno, como não poderia deixar de ser – de leitura em que, durante esse mês, se lê e conversa sobre o trabalho em apreço e, através da colaboração dos mais jovens e na base da cooperação com as práticas escolares, na organização de pequenas exposições sobre o Autor e a respectiva obra, o senhor Ernesto lá foi levado por alegadamente estar a promover a desordem pública. Aliás, diga-se a talho de foice, como nos é permitida uma tão grande autonomia pedagógica e didáctica é coisa que nunca deixou de pura e simplesmente me espantar. Às vezes dou comigo a pensar como o Quico que diz ser de uma pessoa perder a compostura e desatar aos tiros sobre essa canalha que outro nome não tem. E não há semana que a pidalhada não apareça por aí, regularmente não se limitando à ronda de um único dia, no entanto, mal sabendo que até teriam fortes motivos para voltarem a sitiar-nos, como já o fizeram e prenderem por aí a torto e a direito, pois no meio de toda esta tragédia, o senhor Abel e o José Pedro lá voltaram a dar guarida a gente que não podia ser apanhada. Lá está, a vontade de rir quando pela frente temos a possibilidade de fuzilamento. São as coisas engraçadas que ainda vamos encontrando por entre os escombros de tanta desgraça. Bem, independentemente de tudo isto, o povo tem andado perdido de entusiasmo com o Benfica que bateu o pé aos mais fortes da Europa e se sagrou campeão europeu. Até eu que nada percebo de futebol e nunca antes vira um jogo tal como ainda nunca estive num estádio, até eu dei conta de mim a contorcer-me no lugar e a repetir com os outros o “-Vai Santana.”, “-Chuta Zé Águas!” com que a expectativa do golo foi acompanhada por diversas ocasiões. Nas noites em que a televisão transmitiu alguns jogos, o café ficou de tal maneira cheio que muitos foram os que se sentaram no chão, por mais não caberem se todos trouxessem cadeiras de casa. Foi de tal ordem que muitos dos que, entre nós, ainda não tinham televisor, foram encomendar de propósito o aparelho para puderem ver a final no conforto da sala, tal como o fez o Manuel para quem, até aí, bastavam as emissões a que podia assistir na associação ou no café. E foi a tirar partido dessa avalanche de alegria que o senhor Abel, tinha que ser, ele tinha que fazer das dele, se lembrou de pendurar uma bandeira vermelha no topo do mastro do pára-raios do depósito de água, propositadamente com o emblema apenas num dos lados. Vista do chão, pelo empurrar do vento, aquilo mais não era que uma mera e provocatória bandeira vermelha. É claro que os pides se enxofraram e quase dispararam sobre alguém, mas foi com isso que morderam o anzol do gozo geral que o resguardo dos postigos e portadas permitiu. “-O quê? Uma bandeira comunista na nossa propriedade?”, ouvi eu ao José Pedro, com toda a calma, dizer para o agente a quem convidou para o acompanhar. E foi precisamente este que vimos descer com o pano na mão que abriu para o chefe, exibindo-lhe com isso o emblema da águia. Et pluribus unum, terão sorrido para si, todos os que saborearam o ridículo em que aqueles algozes caíram. Só por isso valeram a pena todas aquelas noites em que todos vibramos pelo Benfica, o símbolo dos pequeninos que derrotaram os mais fortes.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
REAL... IRREAL... SURREAL... (23)
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Moulin da Galette, Renoir, 1876
Óleo sobre Tela, 131x173cm
|
NEM
SEI
E os que dizem
obrigados, prontos e menza
e atenção arterial,
e gostastes, e fizerem.
E vizinha, já tem
tudo?
E ó miga, deixa lá.
Metem-me cá uma
raiva!
E os que nunca
dizem nada…
E aqueles que em
conversa
Já fizeram sempre
tudo
Já viram todos os
filmes
Já foram a todo o
lado
E conhecem os
autores, já ouviram falar deles.
Metem-me cá uma
raiva!
E os que nunca
viram nada…
E a gente que não
lê
E os que não ouvem
música
E os que vêem só
novelas.
E os que nunca
percebem?
Metem-me cá uma
raiva!
E os que nunca
sabem nada…
E os gajos que
escrevem, suponho que poesia,
mas nunca leram um
livro…
Ou aqueles que só
pintam coisas lindas?
E os outros?
Metem-me cá uma
raiva!
E os das máximas
pra hoje
E do bom fim de
semana
E do beijinho amiga
E das outras coisas
óbvias.
Metem-me cá uma
raiva!
E os que não querem
pensar
E acham estar tudo
bem
E não dizem o que
pensam.
E os que não pensam
sequer?
E que estão sempre
de acordo.
E os que nunca
fazem nada…
Metem-me cá uma
raiva!
Se calhar são como
eu.
Se eu mandasse…
Se eu pudesse…
Mas prontos, não
posso…
Maria Teresa Bondoso
domingo, 7 de abril de 2013
Foto; Edgar Cantante
As
nuvens, condensações de humidade, assinalam a água que anuncia os sonhos.
Descansam
nos braços das árvores embaladas na brisa da tarde na imensidão azul.
Passam
aves discorrendo em voos e o tempo roda ao encontro do colo do fim do dia.
As
marés anunciam que tudo se move agora e sempre num anseio tão sem fim que não
vale a pressa de chegar antes.
Os
ciclos estão marcados o tempo cumpre-se a vida sucede-se e nós damos ou não
conta disso.
Manuel João Croca
sábado, 6 de abril de 2013
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Plantas Que Curam: O Zimbro
por Miguel Boieiro
O zimbro é planta medicinal reputadíssima desde os tempos de
Dioscórides (século I d.C.). Refiro-me ao Juniperus
communis e não a outras espécies, subespécies e variedades de cupressáceas,
erradamente designadas como zimbros e que originam, por vezes, lamentáveis
enganos. Há tempos, a minha irmã mostrou-me, muito entusiasmada, umas bolinhas
de zimbro para fazer “chá” que tinha comprado a um ervanário ambulante no
mercado mensal do Pinhal Novo. Logo detetei que as tais bolinhas não eram de
zimbro, mas de sabina-da-praia, uma espécie afim, cujas bagas são tóxicas.
Repito o que já tenho afirmado centenas de vezes: para usos internos, há
plantas benfazejas, há plantas inofensivas, há plantas tóxicas, há plantas
mortais. Muito cuidado, portanto, porque persistem vendedores que, por
desconhecimento, negligência ou simples ganância, vendem aos incautos “gato por
lebre”.
A diferença fundamental entre os frutos da sabina-da-praia (Juniperus phoenica) é que estes
revestem-se de uma cor acastanhada, enquanto os do zimbro são pretos azulados.
Em pleno mês de fevereiro tive ocasião de subir à Serra da
Estrela e lá encontrei zimbros, alguns com bagas já azuladas à mercê dos
estorninhos que se deleitam com os primeiros frutos maduros da época. As
plantas agradecem, pois as aves ao defecarem, espalham sementes por todo o lado
e, desta forma, propagam a espécie.
O Juniperus communis
é um arbusto agreste, geralmente com 1 ou 2 metros de altura, podendo
excecionalmente chegar aos 10 metros no caso de haver condições propícias ao seu
desenvolvimento. Os que vi na Serra eram rasteiros devido a adversidade dos
ventos. Cientificamente, esta subespécie, que forma matos baixos e densos, tem
a classificação de Juniperus communis
nana.
Possui estrutura lenhosa e folhas em forma de agulha reunidas
em espiral. Os ápices são pontiagudos e apresentam uma apreciável dureza. É uma
espécie dióica, isto é, estão separadas as plantas masculinas das femininas.
Ambas florescem na primavera, mas só as femininas dão frutos, de forma
esférica, de entre 4 a 9 mm de diâmetro que, ao princípio, são verdes
acinzentados. Começam a amadurecer ao fim de 18 meses, adquirindo cor
negra-púrpura ou azulada.
As gálbulas (bagas) contêm um óleo essencial volátil algo
complexo (pineno, terpeno, borneol, inositol …), um constituinte amargo
(juniperina), resina, lípidos, glicéridos de ácidos gordos, taninos e
flavonóides.
O Dr. Lyon de Castro refere que a referida essência é
estupefaciente, produzindo sonolência e que as bagas são consideradas tónicas,
excitantes, diuréticas, digestivas, béquicas, vermífugas e antisséticas.
Indicações terapêuticas: debilidade geral, dificuldade em
urinar, arteriosclerose, asma, digestões lentas, insuficiência renal, cálculos
renais, bronquite, reumatismo (fricções), psoríase e eczema (em forma de
pomada).
Os frutos que são bastante acres podem ser consumidos
diretamente, mas apenas durante duas semanas. Espera-se depois dois meses até
nova aplicação. Tomar o infuso de 4 g por chávena, duas vezes ao dia, fazendo
também uma pausa similar à antecedente. O Dr. Oliveira Feijão prescreve o
cozimento das folhas e da casca dos ramos (60:1000) para uso externo em
fricções para os artríticos.
Outros autores apresentam variadas fórmulas terapêuticas,
algumas vindas de tempos ancestrais, através de xaropes, “vinhos”, elixires,
tinturas e pomadas. O zimbro é também amplamente mencionado nas “Plantas
Mágicas” de Sédir e no capítulo de botânica oculta no “Dicionário de Plantas
Curativas da Península Ibérica” de Enric Balasch.
Não convém, no entanto, efetuar tratamentos prolongados
porque podem provocar albuminúria (emissão de albumina com a urina).
Atualmente a maior fama do zimbro vem da sua utilização no
fabrico de aguardentes aromáticas. Estavam à venda na Torre (cimo da Serra da
Estrela) umas garrafinhas a preços nada módicos. A denominação francesa para
zimbro é “genièvre”, donde deriva a palavra “genebra” que os anglo-saxónicos
internacionalizaram para o snobe “gin”.
As bagas do zimbro, de sabor apimentado e ligeiramente
resinoso, são também usadas como especiaria, principalmente nos países
escandinavos, pois esta cupressácea dá-se bem com o frio, chegando a medrar até
nas regiões árticas. Em França e na Alemanha, as referidas bagas perfumam os
“chucrutes”, os “pâtés” e as carnes gordas, facilitando a digestão dos pratos
pesados.
Precaução final: Muita moderação ao tomarmos qualquer remédio em que entre o
zimbro, sem esquecer o “gin”, quer seja tónico, quer não.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
quarta-feira, 3 de abril de 2013
LIVROS DE ÁFRICA
JOSÉ MENA ABRANTES
Nasceu a 11 de Janeiro de 1945 em Malanje (Angola), onde
estudou até aos 15 anos. Concluiu o liceu em Luanda, tendo-se licenciado em
Filologia Germânica em Lisboa (1969). Viveu exilado na Alemanha Federal entre
1970 e 1974, ano em que regressou definitivamente a Angola e se tornou
jornalista. Em 1975 participou na criação da agência noticiosa ANGOP, a cujo
quadro directivo pertenceu durante 9 anos.
Antes de
ser nomeado assessor de imprensa do Presidente da República, cargo que ocupou durante
algum tempo a partir de 1993, foi responsável pelo sector de informação e
divulgação da Cinemateca Nacional.
Faz
teatro há mais de trinta anos, dirigindo, desde a sua criação em 1988, o Grupo
Elinga Teatro, que tem participado regularmente em festivais em África, Europa
e Américas.
Ganhou
por três vezes (1986, 1990 e 1994) o Prémio Sonangol de Literatura. Do livro "CAMINHOS DES-ENCANTADOS", publicado pela Editorial Caminho em 2000, obra que reúne 33 contos/crónicas escritos em apenas três meses, extraio um conto "arrepiantemente belo, usando as palavras do Editor. É um sentido e doloroso requiem dedicado aos mártires de uma das cidades mais castigadas pela guerra civil que assolou Angola logo após as eleições de 1992: a cidade do Kuito.
A MENINA
(à filha
do Faria Horácio e ao seu irmão bebé, morto de fome no Kuíto)
Tem
pessoas assim: que só ouvem os ritmos e a música que tocam dentro de si. Por
exemplo a menina. Ela dançava, alheia aos tiros e explosões abrindo brechas e
sustos na coragem dos adultos. A sua dança não tinha música do ar vibrando,
sonorizada, mas a menina dançava. Como uma flor, no seu exíguo canteiro. Como
uma borboleta no azul. O irmão pequenino olhava-a, sem sair da sua pouca idade,
os olhos dançando a dança da menina, a fome iludida nos passos leves da menina.
Ele não sabia, mas dessa música dependia o bater do seu coração. Por isso a
menina dançava, dia e noite ela dançava, à chuva, nas clareiras, no meio do
fogo dançava. Não parava de dançar. Era uma dança sem fim, uma dança sem horário,
uma dança sem cansaço: uma dança tal igualzinha um coração de criança. Ela
dançava e sorria, enquanto o tempo corria, enquanto vidas se esvaíam, enquanto
a cidade ruía. Ela sorria e dançava. Sobre os escombros ela dançava, sobre as
cinzas e as ruínas. Na espiral da sua dança, as trevas giravam sem rumo,
desnovelando agonias. E ela dançando, dançando, segurando o fio ténue que ao
seu irmão a unia. E foi num golpe de mau vento, num sopro de espanto e dor, que
a chama se apagou e o pequenino lhe escapou, carregado de vazios. Inconformada,
a menina prosseguiu o seu rodopio, querendo agarrar com a dança a vida que lhe
fugia… Sobre a campa improvisada, no quintal bombardeado, segue a menina a sua
dança, ouvindo os ritmos e a música que hão-de tocar sempre, sempre, no seu
coração de criança.
Prosa poética, arrepiantemente bela…
Tomás Lima Coelho
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