terça-feira, 16 de abril de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Quem semeia ventos colhe tempestades, assim diz o provérbio e é o que parece estar a acontecer com o regime que nos oprime e, num certo plano, nos traz infelizes. Infelicidade que, vendo bem, é afinal um misto de sentimentos contraditórios, pois no fundo, isto é, no âmago da vida privada que levamos eu, no que particularmente me diz respeito e não serei a única pessoa a passar por isso, tenho a sensação de nunca me ter sentido tão feliz, tão em serena harmonia com o decorrer do dia a dia em que tantos motivos de alegria vou encontrando. Não deixando no entanto de considerar uma tristeza que à nossa volta está o país que temos, este cenário de vexame e repressão que se abate sobre gente simples e honrada, vítimas da loucura daqueles que se vêem donos da verdade e que por isso se autorizam na missão de zelar para que tudo seja de acordo com os seus ditames e interesses. E tal acarreta a mágoa e o mal estar de termos que viver num mundo assim, calando a revolta e silenciando as denúncias das injustiças, agindo como se nada de estranho se passasse e ninguém estivesse privado da sua própria vida por um simples motivo de opinião que a mim muito repugna chamar de delito, como os malvados fazem. É aí ou por aí que a dúvida se nos injecta na consciência e nos faz perceber a inquietação de não nos sentirmos bem. “-Pois bem, mas o que fizestes vós para acabar com isso?” É a pergunta que o futuro, um dia, nos poderá atirar à cara e isso dói no peito do presente, é a infelicidade a que esta ditadura implacável nos sujeita. Sem qualquer laivo de hipocrisia é esta uma moinha que passa, ela volta, aqui e ali, mas acaba sempre por passar na medida em pessoalmente sou dada a concluir que, naquilo que nos toca, até podemos dizer que temos feito muito quer para que assim não fosse, não tivesse necessariamente que ser, quer para preparar o quando assim vier a deixar de ser. É claro que não andamos de armas na mão e estou certa que nenhum de nós sequer chega à actividade subversiva de um militante oposicionista e ainda menos à dos clandestinos que lutam abertamente contra a lógica e a existência do Estado Novo que pretendem pura e simplesmente remover para as páginas da História. Se exceptuar as ocasiões em que alguns tiveram a atitude corajosa de dar cobertura a uma ou outra fuga às atrocidades da PIDE, quanto muito teremos no curriculum a subscrição de anódinos abaixo-assinados de protesto ou a favor de alguém ou alguma coisa e pouco mais, para lá de contributos financeiros que praticamente todos oferecem às famílias dos presos políticos. No entanto, temos que admitir que, pelo menos até agora, não têm sido esses processos que deram a mais leve mostra de serem capazes de inverter a situação e aquilo que temos visto é que Salazar e o salazarismo a todos têm resistido e a todos têm sabido dar uma réplica demolidora. Mas eu não tenho a menor dúvida que à medida que a população vá sendo instruída e comece a viver melhor, aí sim, o reino destas gentes estará finalmente por um fio. É com toda a convicção que por isso afirmo que aquilo que temos feito nesta nossa comunidade em termos de proporcionarmos condições salariais e de vida condigna ao povo que para nós trabalha, bem como ao nível de proporcionarmos educação livre e gratuita e de excelente recorte no que lhes é ministrado e com a exigência que tudo é feito, devo dizer, sem qualquer vaidade, tudo isso acabará por ser o que melhor poderíamos ter feito para procurarmos alterar esta sociedade injusta que nos envolve e em que acabamos por estar inseridos e que é o mundo que parece estar agora a recolher as tempestades que tem semeado. A informação que vai saindo nos jornais e menos ainda na rádio ou na televisão, é escassa e, como seria de esperar, não só não é detalhada como, em boa parte, serve para ocultar os problemas de fundo e que são as causas daquilo a que chegámos. Mas desde a Primavera passada que se sabe de revoltas mais ou menos assíduas em Angola e que originaram vários massacres de colonos brancos e até de africanos que, de acordo com os executantes, com eles colaboram. Ao que parece, há vastas regiões do norte submetidas ao flagelo e há quem diga que se trata de uma verdadeira carnificina, pois a resposta das autoridades portuguesas não se fez esperar e logo foram mobilizadas tropas para ali se instalarem, segundo a palavra de ordem de Salazar, com força. Vamos a ver o que sucederá daqui para a frente. Portugal que desde a independência da Índia ficou entregue a si próprio naquele vasto sub-continente e tão bem soube movimentar-se nas instâncias internacionais para adiar o mais possível o inevitável que seria a anexação dos territórios que aí administra por parte da União Indiana, viu rebentar-lhe na jóia do império uma revolta armada com que não contava, mas veio a mostrar ao mundo que os anseios e expectativas de independência que têm subtraído vastos territórios de África aos poderes coloniais, também penetraram os desejos de populações angolanas, com isso perdendo sentido a argumentação relativa a uma administração colonial diferente e aceite pelos naturais, com que a diplomacia salazarista tem conseguido iludir as expressas intenções de Nheru de expulsar os últimos vestígios do colonialismo no seu país. Ora tenho para mim que terá sido aquele levantamento em Angola o pretexto de que o líder indiano estava à espera para fazer avançar as suas tropas e forçar o regime salazarista que, quanto a mim, não poderá ser de Portugal que aí falamos, antes do regime salazarista que dessa forma se viu obrigado a passar pela humilhação de uma derrota militar e à simples debandada dos seus representantes e alguns estratos da população e tudo isto, ao que se ouve dizer por aí, depois daquele velho de Santa Comba ter dado a ordem às nossas tropas para que não se rendessem. Foi o que o bastou para que alguns civis em conluio com militares, em minha opinião muito provavelmente de forma precipitada, isto avaliando pelo desfecho que teve, pensassem ter chegado a hora de fraqueza do regime e portanto a melhor oportunidade para derrubarem a situação pela força. Desta vez as lealdades ainda falaram mais alto e aquilo que se esperaria vir a desenvolver-se a partir do controle de um quartel em Beja ficou logo ali morto à nascença, com feridos entre os assaltantes que na maioria foram presos. Cá para mim, vem aí uma vaga de repressão ainda maior do que as chumbadas destes últimos anos, com particular intensidade a partir da candidatura do General Humberto Delgado à presidência da república que, apesar de estar no exílio, foi já acusado de estar por trás destas manobras subversivas. Mas também não deixo de vaticinar que estendendo-se a guerra a outras províncias ultramarinas, começará aí então a verdadeira contagem decrescente para a queda de Salazar e deste regime cruel e injusto. Tenho muitas dúvidas que o país seja capaz de enfrentar um conflito com tais dimensões, em diversas frentes e mais tarde ou mais cedo do que aquilo que muitos de nós esperamos, a situação tornar-se-á de tal modo insustentável que lá chegará o dia em que uma revolta sairá vitoriosa. Se até aqui tenho sempre manifestado as maiores dúvidas e reservas em face da possibilidade de o povo português conseguir desalojar Salazar do poder, agora acredito que esse dia pode estar muito mais perto do que os mais optimistas julgam.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (24)

Harém, António Tapadinhas, 2003Óleo sobre tela, 70x80cm


UM MUNDO DE CERTEZAS

Acordei com o chilrear das diversas gerações de pardais que, sem minha licença, paulatinamente, ocuparam o sótão de minha casa.
A minha saída, só foi notada por King, o Serra da Estrela que, bem-educado, me ladrou o seu bom-dia.
Dirigi-me ao quiosque, onde comprei o jornal.
Pouco depois, entrava no café.
Não foi preciso pedir nada. Passados alguns instantes, tinha na mesa o bule com o chá preto e a meia torrada de pão caseiro.
Todos estes movimentos complicados, foram feitos sem hesitações, com simplicidade, quase maquinalmente.
É tão cómodo ter certezas!
Aterroriza-me a possibilidade de ficar indeciso, perante qualquer situação imprevista. Tomar uma decisão, apavora-me. Perco o tempo, que não tenho, para fazer o que quero e para o qual o resto da minha vida não vai chegar. Ao ocupar o cérebro com a resolução de pequenos problemas, corre-se o risco de esquecer o que é fundamental.
Aquilo que alguns podem admirar como segurança de atitudes ou opiniões, não passa de uma defesa à minha recente incapacidade de tomar decisões. Para ser mais correcto, digamos que fiz uma troca - fico afectado na aptidão de decidir, logo aumento a minha gama de certezas. Quando me levanto da mesa, já tenho na mão o dinheiro certo. É um estratagema que evita ao dono do café o problema de fazer contas, de introduzir dois preços numa máquina de calcular protegida por um plástico, com teclas minúsculas como lentes de contacto, difíceis de premir uma de cada vez, pelos dedos de um adulto normal e ainda mais por qualquer das suas cinco salsichas alemãs, por muito que ele tente afiá-las, introduzindo-as em orifícios pequenos, como as fossas nasais ou os buraquinhos dos ouvidos.
No regresso, antecipo, com prazer, as manifestações de alegria na minha chegada a casa.
É bom ter a certeza do amor de alguém. Mas o melhor é gozar a demonstração desse sentimento, sempre que voltamos, passados cinco minutes, cinco horas, cinco dias... Sem queixas, porque o dia correu mal no trabalho, ou por causa da chuva, ou porque um familiar está doente, ou porque o buraco do ozono continua a aumentar. Sem reservas. Chegaste. Estou aqui para provar que te adoro. Lambo as tuas mãos, cheiro as tuas calças, dou patadas a pedir festas, se possível atrás das orelhas. Ladro de alegria para avisar toda a gente que chegou o melhor dono do Mundo.    
Entro em casa, limpo de todos os germes apanhados na minha viagem ao exterior, desinfectado por este banho de amor, como um astronauta, ao reentrar na Terra, depois de passar pelas câmaras de esterilização.
Imaginem um mundo em que todos tivessem esta capacidade de amar, sem reservas, sem perguntas…
Amar porque sim, ponto final!

domingo, 14 de abril de 2013





Foto: Edgar Cantante


RETRATOS – I


Ia eu andando, de noite, na rua onde moro.
Era já tarde na noite quando ouvi, através da persiana entreaberta da janela, uma voz que chorava baixinho num desconsolo que tocava.
Chorava, baixinho chorava.
Pensei parar para ouvir, achei que não devia mas algo em mim queria escutar o que o choro carpia.
Ando não ando, paro não paro, a indecisão irresolvia se ouvir ou não o que a voz gemia.
Não parei porque alguém se aproximava na noite na rua onde moro.
De modo que fiquei sem saber que dramas ou que dores ali aconteciam mas sei que era noite e por detrás da janela de persiana entreaberta alguém chorava, alguém sofria.

*

E então fui andando para o sítio onde ia, sentindo que algo em mim se transformara já. Senti que algo naquela dor que eu desconhecia e me não pertencia, em mim entrara e comigo trazia.
Entrei no bar.
Uma música passava, soava. Era uma balada que um homem cantava. Cantava em inglês. Era uma balada longa, dolente, onde se contavam amarguras de uma vida sem picos de luz como tantas vidas.
No bar, a gente era pouca. Ninguém me pareceu suspenso da balada embora a balada passasse na mesma. As baladas são assim. São só para quem gosta ou para quem repara nelas.

Manuel João Croca





sábado, 13 de abril de 2013

Poemas que se encontram


Canteiro Platónico

A planta do jardim
Namorou o regador
Enamorou-se de tal ardor
Que em cúmulo se julgou capim.

Conta as horas a planta
Os dias, os meses, os anos,
Tempo é brasa de um coração em danos
Nem com água, pela rega se lhes espanta.

Sente por alturas o regador,
Todo o dia esperando sinal de si,
Dirige-lhe ele rodando para si
Cristal em planta à luz daquele amor.

Mas não te iludas pobre planta.
O regador é leão de todo o jardim,
Nem rosa, malmequer, capataz e afim
Quem dá de comer é senhor, pois vêde
Lavradora de ar em lágrimas de santa.


Diogo Correia



“Guerreiro Alquimista”

Estou preso é para bater na testa, as mãos algemadas,
É para bater a pedra da fronte nos dedos de osso
Estou cego sob a lua da música do guerreiro alquimista
É para bater as feridas e as lágrimas, onde errei, bate
bate o arco da bravura onde a coragem está presa da anona
Fruta do Conde para beijar na boca, devo estar a sonhar
Avanço pelo caminho, quero caminhar junto ao oceano
Todos os  dias antes do sol nascer, o fogo abre o sentimento
Frágil no doce olhar da venda

Solta as mãos para dançar, solta a venda , bate no crânio
Até a Pedra Viva, bate a astúcia de saltar, construir o corpo
Recupera o poder no corpo livre da manga doce do beijo

Entre Birre e a Torre nascemos devagar sem estranheza

Já não estou preso, tenho a flor do frio da esperança – a angústia

Ainda não há o movimento pessoal – liberta as amarras do conforto
Vibra o primeiro passo na água salgada, a voz interior é para bater a
Carne cor de rosa  vivo do guerreiro alquimista ao sol

Ainda fica a pergunta quem vai dormir comigo o corpo em fogo

O medo mora comigo, Cascais abre-se como vila clara


JOSÉ GIL

Rua das Nespereiras , Birre , Cascais, 6 de Abril 2013,Portugal



Jovialidade

A memória
uma capacidade física
que, como tudo no mundo
com o tempo se esvai.
A sua tradução em energia subtil
o que mais importa.

Luís Santos, Versículos



VIDAS

No calor da pugna
no calar da ruína
no colar exposto
na prática prisão
dos elementos: o ouro
                       reluzente
                       craveja a pedra
                       arremessada

         o colar sufoca
                     a vida
              inexistente.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Hipnos



Hipnos e Tânatos (Fonte: Wikipédia Livre)
                                   

Na concepção da sociedade atual, com tantas motivações para se ficar alerta, o dormir é, para muitos o mesmo que perder tempo, um roubo de horas vividas, um exercício para a morte. Desde a antiguidade a mitologia dava ao sono, processo biofisiológico rítmico, cíclico, subordinado a estímulos elétricos e neuropsíquicos, a importância para manter o homem em estado hígido.  Os grandes estudiosos do assunto, psicólogos e pesquisadores da mente, são unanimes: há no domínio de Hipnos, deus do sono, filho da noite (Nyx) e de Érebo (a treva primordial), irmão de Tânatos, deus da morte, outro mundo ainda não totalmente desvendado, que comanda o subconsciente e  favorece a criatividade.  Quando esse processo neuropsíquico é afetado por doenças (físicas ou psíquicas) ou por comportamentos que prejudiquem a rotina, aparece a insônia que, frequente, mina a qualidade de vida.  Dormir o que se precisa ajuda a manter-nos física e psicologicamente saudáveis, mantém-nos vivos.
Aqueles que, por necessidade ou tipo de trabalho, são obrigados a trocar o dia pela noite, necessitam de mais tempo para descanso e de algumas compensações financeiras e sociais,  como aposentadoria mais precoce.  Mas nem sempre o preço pela falta de sono é só esse. Os pesquisadores são enfáticos;  a falta de um sono reparador leva a um déficit cognitivo e motor, a alterações de humor, a fadiga crônica, a maiores riscos de acidentes e erros que prejudicam os relacionamentos sociais e familiares. A história mostra essa tendência. Relatos de tragédias como a do Titanic(1912),  a do petroleiro da EXXON Valdez (1989), a da usina nuclear de Chernobyl (1986), foram acidentes que ocorreram à noite, quando equipes submetidas a longas jornadas de trabalho sem o descanso necessário, com privação de sono, tiveram falhas ou cometeram mais enganos que o normal.   Embora não divulgado à priori, soube-se posteriormente que a equipe de manutenção do ônibus espacial Challenger havia trabalhado exaustivamente na noite anterior, para reparar o defeito numa peça do tanque de combustível. Problema que ficou aparentemente resolvido... até à explosão do ônibus.
Mas como tudo tem exceções, há também aqueles que julgam a noite a parte do dia mais produtiva, pela quietude e sossego de que se dispõe. Poetas, escritores, artistas, cientistas, cérebros diferenciados há que encontram nessa ocasião o seu melhor tempo. O Nobel de Química de 2003, R. MacKinnon disse: “Meus momentos mais produtivos são aqueles em que não consigo dormir”. Em geral são mentes privilegiadas que conseguem funcionar tanto pela atividade cerebral racional, como pela intuição, quando esta está liberada, sem o controle e censura da racionalidade, como um caleidoscópio que pelo movimento ao acaso mostra novas e inesperadas formas de visão.  Para os filósofos a intuição é uma modalidade rápida, fugaz, privilegiada de conhecimento, que tem papel decisivo na criatividade, seja artística ou cientifica. Mesmo nestes casos, as pesquisas comprovaram que o repouso noturno aguça duas vezes mais o sentido intuitivo dos que repousam, do que os que não repousam adequadamente. Logo Hipnos tinha razão em se deitar numa cama de penas macias, numa caverna escura junto a uma das margens do Lethe, o rio do esquecimento. Dormir não é perda de tempo, dormir faz bem à vida.  
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 30/03/13

quinta-feira, 11 de abril de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

S/TÍTULO
 


CELESTE BEIRÃO

Serigrafia 30X40


 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

IMI: o imposto que resiste à crise



Manuel Henrique Figueira

Acabo de receber o primeiro de três avisos de pagamento do IMI da minha casa de habitação, o mesmo tendo acontecido à generalidade dos proprietários de imóveis. Este ano, para disfarçar o recente e brutal aumento que este imposto sofreu, e para que o suportemos melhor, passámos a pagá-lo em «prestações suaves»: uma, em Abril (para quem pague até 250 euros); duas, em Abril e Novembro (entre 250 e 500 euros); três, em Abril, Julho e Novembro (acima de 500 euros).
Num tempo de forte retracção dos rendimentos das pessoas e de contenção de custos por parte das mais diversas instituições e empresas, a que se deve esta desagradável «surpresa fiscal» que agravará a crise em que muitas famílias vivem?
Deve-se à conjugação de três factores:
1.º − Factor Troika: Actualização generalizada do valor patrimonial dos imóveis (prevista no D. L. 287/2003 e imposta pela Troika). Multiplicando este valor pela taxa fixada por cada município obtêm-se o imposto a pagar. A actualização do valor patrimonial implicou, nalguns casos, subidas de 2000% ou maiores, embora as pessoas afectadas estejam a coberto da Cláusula de Salvaguarda (D. L. n.º 287/2003) que lhes permite terem aumentos «moderados» em 2013 e 2014.
2.º − Factor Governo: Aumento que o Governo aplicou aos intervalos das taxas do imposto e que abrange todos os imóveis. Nos prédios avaliados a partir de 2004 o intervalo passou de 0,2-0,4 para 0,3-0,5. Nos prédios não avaliados passou de 0,4-0,7 para 0,5-0,8. Estes aumentos podem variar, respectivamente, entre 50% e 25% e entre 25% e 11,42%, dependendo das taxas do ano anterior de cada município.
3.º − Factor Autarquia: Aumento das taxas (dentro dos dois intervalos que referi) decididas por um número considerável de municípios. Trata-se de autarquias pouco amigas dos seus munícipes ou fortemente endividadas (devido a má gestão), que aproveitaram esta oportunidade para arrecadar mais receita, pouco se importando com as dificuldades por que a generalidade dos munícipes passa. Este terceiro aumento é tanto mais chocante quanto é certo que os autarcas normalmente têm um discurso contra o Governo, contra a sua inegável falta de sensibilidade social na distribuição dos sacrifícios da austeridade. Eu conheço autarcas desses, que acrescentaram, assim, aos dois aumentos (o do Governo e o da Troika), um terceiro da sua iniciativa e exclusiva responsabilidade. Explicando melhor: se um dado município no ano passado tinha fixado o valor da taxa, p. ex., em 0,2, e o Governo, ao subir o intervalo de 0,2-0,4 para 0,3-0,5 o obrigou a aumentá-la para 0,3, isto é, mais 50%, e se esse município, por sua iniciativa, decide fixar essa taxa, p. ex., em 0,375, impõe um terceiro aumento neste imposto. Resultado final: IMI mais caro 75%.
É com este triplo aumento do IMI que se confrontam os munícipes em 82 autarquias (26,62% do total das 308 existentes no país), tendo 31 procedido ao terceiro aumento por imposição do Governo/Troika (devido ao alargamento dos intervalos das taxas) e 51 por iniciativa própria (isto relativamente aos imóveis não avaliados – taxas: 0,5-0,8). Quanto aos imóveis avaliados (taxas: 0,3-0,5), 85 autarquias sofreram este terceiro aumento (27,59%), 50 por imposição do Governo/Troika e 35 por iniciativa própria.
No entanto «nem tudo vai mal no reino da Dinamarca [autárquica]», ainda há autarcas com sensibilidade social, capazes de fazer uma gestão sensata e equilibrada, avessa ao desperdício e às obras megalómanas, o que lhes permite baixar as taxas de IMI e atender às dificuldades por que passam os seus munícipes. Estão neste caso 44 autarquias (14,28%), enquanto 182 (59,10%), do mal, o menos, mantiveram as taxas do ano anterior (isto para os imóveis não avaliados: 0,5-0,8). Nos imóveis avaliados (taxas: 0,3-0,5) 58 baixaram-nas (18,84%) e 165 mantiveram-nas (53,57%).
Se numa conjuntura que tem levado a que muitas instituições, empresas e famílias tenham refreado os gastos e em que muitos produtos e serviços têm baixado o seu custo, compreende-se mal que em alguns municípios (cujos autarcas se reclamam de estar próximos das populações) se proceda ao contrário.
Mas perguntará o leitor: como é nas câmaras do distrito de Setúbal? Lamento dizer-lhe, mas este é um distrito onde o aumento do IMI «é quem mais ordena». Sabia que, no distrito, a taxa média dos 13 municípios (imóveis não avaliados: taxas 0,5-0,8) é a segunda mais alta do país? Precisamente 0,718, com as câmaras de Setúbal, Montijo e Sines com o valor máximo − 0,8 − e a de Palmela com 0,750. No caso dos imóveis avaliados (taxas: 0,3-0,5) a média é a mesmo mais alta do país − 0,418 − com as câmaras de Setúbal e do Montijo com o valor máximo − 0,5 − e a de Palmela com 0,480.
E sabia que (nos imóveis avaliados) apenas duas fixaram taxas um pouco mais baixas − Sines (0,360) e Seixal (0,395) −, isto entre três hipóteses possíveis (0,3; 0,4; 0,5)? E que, nos imóveis não avaliados, entre quatro hipóteses possíveis de taxas (0,5; 0,6; 0,7; 0,8), apenas duas se ficaram dentro da segunda hipótese: Alcácer do Sal (0,6) e Seixal (0,695)?
Para concluir, direi que talvez cada um de nós, munícipes dos concelhos do distrito mais violentamente fustigado por este imposto excessivo e injusto, por incidir sobre um dos bens básicos mais preciosos − a habitação − devesse confrontar os responsáveis autárquicos sobre a razão se ser desta triste realidade.
E temos uma oportunidade em breve, pois avizinha-se mais um acto eleitoral em que teremos que fazer escolhas para os diversos órgãos autárquicos.
Pessoalmente, gostaria de poder votar em muitas autarquias do distrito de Castelo Branco, onde as duas taxas de IMI que referi no texto são as mais baixas do território continental − 0,3 e 0,5 − o que faz deste distrito o mais amigo dos munícipes nesta matéria.

Nota 1: As taxas em vigor em cada município podem ser consultadas em: https://www.portaldasfinancas.gov.pt/pt/main.jsp?body=/imi/consultarTaxasIMIForm.jsp

Nota 2: Os dados inexistentes no Site das Finanças foram confirmados por contacto directo junto das câmaras para garantir a fiabilidade da informação.

In O Setubalense, 5 de Abril de 2013, p. 3
Texto publicado com autorização do autor.


terça-feira, 9 de abril de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ai de nós se soubéssemos o dia em que iríamos morrer. Seria concebível um mundo assim? Dificilmente seria capaz de o fazer e mesmo admitindo que por qualquer motivo conseguiria imaginar um cenário em que tal pressuposto fosse real, a única certeza que posso adiantar é a de que o mesmo seria seguramente diferente daquele em que vivemos. Como conseguiríamos viver em paz com o semelhante se soubéssemos que a morte nos esperaria daqui a três meses? Como não aproveitar para satisfazermos prazeres que víamos ou sentíamos como apelativos, ainda que isso acarretasse o flagelo da desgraça e do sofrimento para alguém? Como nos poderíamos conter dos egoísmos mais sórdidos e mesquinhos numa realidade dessas? Haveriam sequer as possibilidades para criarmos quadros de valores para os limites da acção humana? São dúvidas estéreis, reconheço-o, pois na verdade estamos perante uma hipótese que nem se pode dizer ser meramente académica, antes uma ideia simplesmente fantasiosa. Contudo servem para melhor evidenciarmos o que há de empolgante na aventura de estarmos vivos e que é justamente essa incerteza que não se traduz apenas no desconhecimento da hora da morte e se estende afinal a praticamente todos os nossos pensamentos, decisões e actos. É pelos resultados que vamos obtendo, as consequências que vamos observando que nos certificamos se o caminho por que avançamos foi o mais sensato e não há como fugir a esta regra de irmos tentando, fazendo e corrigindo, voltando atrás e recomeçando, na mesma ou em via diferente, com a consciência de ir aprendendo nessa polarização entre a tentativa e o erro e o paradigma de sempre procurar ir melhorando. Naturalmente por isso a vida nunca é linear. Nem nos grupos humanos mais simples dos bandos de povos caçadores seria plausível encontrar alguém para quem o percurso vital tivesse sido linear. É certo que aí um jovem saberá que virá a ter que ser capaz de encontrar o alimento diário da mesma forma que o fizeram os pais e os pais destes antes deles e todos os outros pais de todos os pais. Contudo sempre haverão expectativas que não se concretizarão e com isso levam a inversões ou, pelo menos, sempre haverá espaço para que assim possa suceder e, como em toda a Humanidade, pois creio que isso será parte integrante da natureza humana e portanto aconteceu e acontecerá com todas as pessoas em qualquer lugar e em todos os tempos, nunca o indivíduo será o mesmo à medida que vai crescendo, pois aquilo que fomos na infância, nos primeiros anos de vida, melhor será dizer uma vez que o conceito de infância não terá que ser necessariamente universal tal como o concebemos, aquilo que fomos nesses primeiros tempos não será o mesmo que viremos a ser na idade adulta, isto é, ao longo das nossas existências, quer disso estejamos conscientes ou não e independentemente da nossa vontade, vamos sendo pessoas diferentes dentro de uma mesma identidade. Ora é isso que para mim é aliciante que me entusiasma quando penso na vida em geral e na minha, em particular e mesmo aqui nestas páginas que há tantos anos venho alimentando, já o devo ter expressado. Os sinais contraditórios, como aqueles arco-íris imensos que já vi formarem-se sobre a extensão da lezíria, na imagem dos quais bastam uns quantos passos para que passemos da superfície que está a ser bafejada pelos pingos para a vizinhança em que vemos abrir o azul do céu e deixamos de estar sob a acção da chuva. Tal e qual outrora prosperámos em hora de tragédia alheia e agora vivemos com uma felicidade que em tudo contrasta com este pão amassado pelo diabo que a repressão obriga o povo a comer. Não tenho a pretensão de ter uma memória histórica vigorosa – quem a terá, não será assim? – mas a deriva repressiva tem sido de tal ordem, especialmente desde que o General Humberto Delgado abalou para o exílio que quase me atrevo a dizer que se não estamos perante a maior vaga de prisões e todas as arbitrariedades desde que o regime se instalou, não andaremos certamente muito longe desses piores momentos. Aqui, mesmo entre os nossos trabalhadores, há pais de família enviados para o calabouço só por terem actividade cultural na associação. Uma das bestas da pide que o prendeu um deles e que deve ter um pouco mais de instrução, foi ao ponto de acusar o homem por promover ideais subversivos com o seu trabalho de bibliotecário, ao ter destacado “A Ressurreição” do Leão Tolstoi como o livro do mês. Como isso consiste num círculo – pequeno, como não poderia deixar de ser – de leitura em que, durante esse mês, se lê e conversa sobre o trabalho em apreço e, através da colaboração dos mais jovens e na base da cooperação com as práticas escolares, na organização de pequenas exposições sobre o Autor e a respectiva obra, o senhor Ernesto lá foi levado por alegadamente estar a promover a desordem pública. Aliás, diga-se a talho de foice, como nos é permitida uma tão grande autonomia pedagógica e didáctica é coisa que nunca deixou de pura e simplesmente me espantar. Às vezes dou comigo a pensar como o Quico que diz ser de uma pessoa perder a compostura e desatar aos tiros sobre essa canalha que outro nome não tem. E não há semana que a pidalhada não apareça por aí, regularmente não se limitando à ronda de um único dia, no entanto, mal sabendo que até teriam fortes motivos para voltarem a sitiar-nos, como já o fizeram e prenderem por aí a torto e a direito, pois no meio de toda esta tragédia, o senhor Abel e o José Pedro lá voltaram a dar guarida a gente que não podia ser apanhada. Lá está, a vontade de rir quando pela frente temos a possibilidade de fuzilamento. São as coisas engraçadas que ainda vamos encontrando por entre os escombros de tanta desgraça. Bem, independentemente de tudo isto, o povo tem andado perdido de entusiasmo com o Benfica que bateu o pé aos mais fortes da Europa e se sagrou campeão europeu. Até eu que nada percebo de futebol e nunca antes vira um jogo tal como ainda nunca estive num estádio, até eu dei conta de mim a contorcer-me no lugar e a repetir com os outros o “-Vai Santana.”, “-Chuta Zé Águas!” com que a expectativa do golo foi acompanhada por diversas ocasiões. Nas noites em que a televisão transmitiu alguns jogos, o café ficou de tal maneira cheio que muitos foram os que se sentaram no chão, por mais não caberem se todos trouxessem cadeiras de casa. Foi de tal ordem que muitos dos que, entre nós, ainda não tinham televisor, foram encomendar de propósito o aparelho para puderem ver a final no conforto da sala, tal como o fez o Manuel para quem, até aí, bastavam as emissões a que podia assistir na associação ou no café. E foi a tirar partido dessa avalanche de alegria que o senhor Abel, tinha que ser, ele tinha que fazer das dele, se lembrou de pendurar uma bandeira vermelha no topo do mastro do pára-raios do depósito de água, propositadamente com o emblema apenas num dos lados. Vista do chão, pelo empurrar do vento, aquilo mais não era que uma mera e provocatória bandeira vermelha. É claro que os pides se enxofraram e quase dispararam sobre alguém, mas foi com isso que morderam o anzol do gozo geral que o resguardo dos postigos e portadas permitiu. “-O quê? Uma bandeira comunista na nossa propriedade?”, ouvi eu ao José Pedro, com toda a calma, dizer para o agente a quem convidou para o acompanhar. E foi precisamente este que vimos descer com o pano na mão que abriu para o chefe, exibindo-lhe com isso o emblema da águia. Et pluribus unum, terão sorrido para si, todos os que saborearam o ridículo em que aqueles algozes caíram. Só por isso valeram a pena todas aquelas noites em que todos vibramos pelo Benfica, o símbolo dos pequeninos que derrotaram os mais fortes.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (23)


Moulin da Galette, Renoir, 1876
Óleo sobre Tela, 131x173cm


NEM SEI

E os que dizem obrigados, prontos e menza
e atenção arterial, e gostastes, e fizerem.
E vizinha, já tem tudo?
E ó miga, deixa lá.
Metem-me cá uma raiva!
E os que nunca dizem nada…

E aqueles que em conversa
Já fizeram sempre tudo
Já viram todos os filmes
Já foram a todo o lado
E conhecem os autores, já ouviram falar deles.
Metem-me cá uma raiva!
E os que nunca viram nada…

E a gente que não lê
E os que não ouvem música
E os que vêem só novelas.
E os que nunca percebem?
Metem-me cá uma raiva!
E os que nunca sabem nada…

E os gajos que escrevem, suponho que poesia,
mas nunca leram um livro…

Ou aqueles que só pintam coisas lindas?

E os outros?
Metem-me cá uma raiva!

E os das máximas pra hoje
E do bom fim de semana
E do beijinho amiga
E das outras coisas óbvias.
Metem-me cá uma raiva!
E os que não querem pensar
E acham estar tudo bem
E não dizem o que pensam.

E os que não pensam sequer?

E que estão sempre de acordo.
E os que nunca fazem nada…

Metem-me cá uma raiva!
Se calhar são como eu.
Se eu mandasse…
Se eu pudesse…

Mas prontos, não posso…  

Maria Teresa Bondoso

domingo, 7 de abril de 2013





Foto; Edgar Cantante

As nuvens, condensações de humidade, assinalam a água que anuncia os sonhos.
Descansam nos braços das árvores embaladas na brisa da tarde na imensidão azul.
Passam aves discorrendo em voos e o tempo roda ao encontro do colo do fim do dia.
As marés anunciam que tudo se move agora e sempre num anseio tão sem fim que não vale a pressa de chegar antes.
Os ciclos estão marcados o tempo cumpre-se a vida sucede-se e nós damos ou não conta disso.

Manuel João Croca







sábado, 6 de abril de 2013

Saudando a Primavera





Foto de 
Joaquim Raminhos


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Plantas Que Curam: O Zimbro



por Miguel Boieiro

O zimbro é planta medicinal reputadíssima desde os tempos de Dioscórides (século I d.C.). Refiro-me ao Juniperus communis e não a outras espécies, subespécies e variedades de cupressáceas, erradamente designadas como zimbros e que originam, por vezes, lamentáveis enganos. Há tempos, a minha irmã mostrou-me, muito entusiasmada, umas bolinhas de zimbro para fazer “chá” que tinha comprado a um ervanário ambulante no mercado mensal do Pinhal Novo. Logo detetei que as tais bolinhas não eram de zimbro, mas de sabina-da-praia, uma espécie afim, cujas bagas são tóxicas. Repito o que já tenho afirmado centenas de vezes: para usos internos, há plantas benfazejas, há plantas inofensivas, há plantas tóxicas, há plantas mortais. Muito cuidado, portanto, porque persistem vendedores que, por desconhecimento, negligência ou simples ganância, vendem aos incautos “gato por lebre”.
A diferença fundamental entre os frutos da sabina-da-praia (Juniperus phoenica) é que estes revestem-se de uma cor acastanhada, enquanto os do zimbro são pretos azulados.

Em pleno mês de fevereiro tive ocasião de subir à Serra da Estrela e lá encontrei zimbros, alguns com bagas já azuladas à mercê dos estorninhos que se deleitam com os primeiros frutos maduros da época. As plantas agradecem, pois as aves ao defecarem, espalham sementes por todo o lado e, desta forma, propagam a espécie.
O Juniperus communis é um arbusto agreste, geralmente com 1 ou 2 metros de altura, podendo excecionalmente chegar aos 10 metros no caso de haver condições propícias ao seu desenvolvimento. Os que vi na Serra eram rasteiros devido a adversidade dos ventos. Cientificamente, esta subespécie, que forma matos baixos e densos, tem a classificação de Juniperus communis nana.

Possui estrutura lenhosa e folhas em forma de agulha reunidas em espiral. Os ápices são pontiagudos e apresentam uma apreciável dureza. É uma espécie dióica, isto é, estão separadas as plantas masculinas das femininas. Ambas florescem na primavera, mas só as femininas dão frutos, de forma esférica, de entre 4 a 9 mm de diâmetro que, ao princípio, são verdes acinzentados. Começam a amadurecer ao fim de 18 meses, adquirindo cor negra-púrpura ou azulada. 
As gálbulas (bagas) contêm um óleo essencial volátil algo complexo (pineno, terpeno, borneol, inositol …), um constituinte amargo (juniperina), resina, lípidos, glicéridos de ácidos gordos, taninos e flavonóides.
O Dr. Lyon de Castro refere que a referida essência é estupefaciente, produzindo sonolência e que as bagas são consideradas tónicas, excitantes, diuréticas, digestivas, béquicas, vermífugas e antisséticas.

Indicações terapêuticas: debilidade geral, dificuldade em urinar, arteriosclerose, asma, digestões lentas, insuficiência renal, cálculos renais, bronquite, reumatismo (fricções), psoríase e eczema (em forma de pomada).
Os frutos que são bastante acres podem ser consumidos diretamente, mas apenas durante duas semanas. Espera-se depois dois meses até nova aplicação. Tomar o infuso de 4 g por chávena, duas vezes ao dia, fazendo também uma pausa similar à antecedente. O Dr. Oliveira Feijão prescreve o cozimento das folhas e da casca dos ramos (60:1000) para uso externo em fricções para os artríticos.
Outros autores apresentam variadas fórmulas terapêuticas, algumas vindas de tempos ancestrais, através de xaropes, “vinhos”, elixires, tinturas e pomadas. O zimbro é também amplamente mencionado nas “Plantas Mágicas” de Sédir e no capítulo de botânica oculta no “Dicionário de Plantas Curativas da Península Ibérica” de Enric Balasch.

Não convém, no entanto, efetuar tratamentos prolongados porque podem provocar albuminúria (emissão de albumina com a urina).
Atualmente a maior fama do zimbro vem da sua utilização no fabrico de aguardentes aromáticas. Estavam à venda na Torre (cimo da Serra da Estrela) umas garrafinhas a preços nada módicos. A denominação francesa para zimbro é “genièvre”, donde deriva a palavra “genebra” que os anglo-saxónicos internacionalizaram para o snobe “gin”.
As bagas do zimbro, de sabor apimentado e ligeiramente resinoso, são também usadas como especiaria, principalmente nos países escandinavos, pois esta cupressácea dá-se bem com o frio, chegando a medrar até nas regiões árticas. Em França e na Alemanha, as referidas bagas perfumam os “chucrutes”, os “pâtés” e as carnes gordas, facilitando a digestão dos pratos pesados.

Precaução final: Muita moderação ao tomarmos qualquer remédio em que entre o zimbro, sem esquecer o “gin”, quer seja tónico, quer não.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

TOCAR O CÉU
 


CAROLA JUSTO

Acrílico 50x50
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

LIVROS DE ÁFRICA












JOSÉ MENA ABRANTES


Nasceu a 11 de Janeiro de 1945 em Malanje (Angola), onde estudou até aos 15 anos. Concluiu o liceu em Luanda, tendo-se licenciado em Filologia Germânica em Lisboa (1969). Viveu exilado na Alemanha Federal entre 1970 e 1974, ano em que regressou definitivamente a Angola e se tornou jornalista. Em 1975 participou na criação da agência noticiosa ANGOP, a cujo quadro directivo pertenceu durante 9 anos.
Antes de ser nomeado assessor de imprensa do Presidente da República, cargo que ocupou durante algum tempo a partir de 1993, foi responsável pelo sector de informação e divulgação da Cinemateca Nacional.
Faz teatro há mais de trinta anos, dirigindo, desde a sua criação em 1988, o Grupo Elinga Teatro, que tem participado regularmente em festivais em África, Europa e Américas.
Ganhou por três vezes (1986, 1990 e 1994) o Prémio Sonangol de Literatura. Do livro "CAMINHOS DES-ENCANTADOS", publicado pela Editorial Caminho em 2000, obra que reúne 33 contos/crónicas escritos em apenas três meses, extraio um conto "arrepiantemente belo, usando as palavras do Editor. É um sentido e doloroso requiem dedicado aos mártires de uma das cidades mais castigadas pela guerra civil que assolou Angola logo após as eleições de 1992: a cidade do Kuito.


A MENINA
(à filha do Faria Horácio e ao seu irmão bebé, morto de fome no Kuíto)

Tem pessoas assim: que só ouvem os ritmos e a música que tocam dentro de si. Por exemplo a menina. Ela dançava, alheia aos tiros e explosões abrindo brechas e sustos na coragem dos adultos. A sua dança não tinha música do ar vibrando, sonorizada, mas a menina dançava. Como uma flor, no seu exíguo canteiro. Como uma borboleta no azul. O irmão pequenino olhava-a, sem sair da sua pouca idade, os olhos dançando a dança da menina, a fome iludida nos passos leves da menina. Ele não sabia, mas dessa música dependia o bater do seu coração. Por isso a menina dançava, dia e noite ela dançava, à chuva, nas clareiras, no meio do fogo dançava. Não parava de dançar. Era uma dança sem fim, uma dança sem horário, uma dança sem cansaço: uma dança tal igualzinha um coração de criança. Ela dançava e sorria, enquanto o tempo corria, enquanto vidas se esvaíam, enquanto a cidade ruía. Ela sorria e dançava. Sobre os escombros ela dançava, sobre as cinzas e as ruínas. Na espiral da sua dança, as trevas giravam sem rumo, desnovelando agonias. E ela dançando, dançando, segurando o fio ténue que ao seu irmão a unia. E foi num golpe de mau vento, num sopro de espanto e dor, que a chama se apagou e o pequenino lhe escapou, carregado de vazios. Inconformada, a menina prosseguiu o seu rodopio, querendo agarrar com a dança a vida que lhe fugia… Sobre a campa improvisada, no quintal bombardeado, segue a menina a sua dança, ouvindo os ritmos e a música que hão-de tocar sempre, sempre, no seu coração de criança.

Prosa poética, arrepiantemente bela…


Tomás Lima Coelho