sexta-feira, 5 de abril de 2013

Plantas Que Curam: O Zimbro



por Miguel Boieiro

O zimbro é planta medicinal reputadíssima desde os tempos de Dioscórides (século I d.C.). Refiro-me ao Juniperus communis e não a outras espécies, subespécies e variedades de cupressáceas, erradamente designadas como zimbros e que originam, por vezes, lamentáveis enganos. Há tempos, a minha irmã mostrou-me, muito entusiasmada, umas bolinhas de zimbro para fazer “chá” que tinha comprado a um ervanário ambulante no mercado mensal do Pinhal Novo. Logo detetei que as tais bolinhas não eram de zimbro, mas de sabina-da-praia, uma espécie afim, cujas bagas são tóxicas. Repito o que já tenho afirmado centenas de vezes: para usos internos, há plantas benfazejas, há plantas inofensivas, há plantas tóxicas, há plantas mortais. Muito cuidado, portanto, porque persistem vendedores que, por desconhecimento, negligência ou simples ganância, vendem aos incautos “gato por lebre”.
A diferença fundamental entre os frutos da sabina-da-praia (Juniperus phoenica) é que estes revestem-se de uma cor acastanhada, enquanto os do zimbro são pretos azulados.

Em pleno mês de fevereiro tive ocasião de subir à Serra da Estrela e lá encontrei zimbros, alguns com bagas já azuladas à mercê dos estorninhos que se deleitam com os primeiros frutos maduros da época. As plantas agradecem, pois as aves ao defecarem, espalham sementes por todo o lado e, desta forma, propagam a espécie.
O Juniperus communis é um arbusto agreste, geralmente com 1 ou 2 metros de altura, podendo excecionalmente chegar aos 10 metros no caso de haver condições propícias ao seu desenvolvimento. Os que vi na Serra eram rasteiros devido a adversidade dos ventos. Cientificamente, esta subespécie, que forma matos baixos e densos, tem a classificação de Juniperus communis nana.

Possui estrutura lenhosa e folhas em forma de agulha reunidas em espiral. Os ápices são pontiagudos e apresentam uma apreciável dureza. É uma espécie dióica, isto é, estão separadas as plantas masculinas das femininas. Ambas florescem na primavera, mas só as femininas dão frutos, de forma esférica, de entre 4 a 9 mm de diâmetro que, ao princípio, são verdes acinzentados. Começam a amadurecer ao fim de 18 meses, adquirindo cor negra-púrpura ou azulada. 
As gálbulas (bagas) contêm um óleo essencial volátil algo complexo (pineno, terpeno, borneol, inositol …), um constituinte amargo (juniperina), resina, lípidos, glicéridos de ácidos gordos, taninos e flavonóides.
O Dr. Lyon de Castro refere que a referida essência é estupefaciente, produzindo sonolência e que as bagas são consideradas tónicas, excitantes, diuréticas, digestivas, béquicas, vermífugas e antisséticas.

Indicações terapêuticas: debilidade geral, dificuldade em urinar, arteriosclerose, asma, digestões lentas, insuficiência renal, cálculos renais, bronquite, reumatismo (fricções), psoríase e eczema (em forma de pomada).
Os frutos que são bastante acres podem ser consumidos diretamente, mas apenas durante duas semanas. Espera-se depois dois meses até nova aplicação. Tomar o infuso de 4 g por chávena, duas vezes ao dia, fazendo também uma pausa similar à antecedente. O Dr. Oliveira Feijão prescreve o cozimento das folhas e da casca dos ramos (60:1000) para uso externo em fricções para os artríticos.
Outros autores apresentam variadas fórmulas terapêuticas, algumas vindas de tempos ancestrais, através de xaropes, “vinhos”, elixires, tinturas e pomadas. O zimbro é também amplamente mencionado nas “Plantas Mágicas” de Sédir e no capítulo de botânica oculta no “Dicionário de Plantas Curativas da Península Ibérica” de Enric Balasch.

Não convém, no entanto, efetuar tratamentos prolongados porque podem provocar albuminúria (emissão de albumina com a urina).
Atualmente a maior fama do zimbro vem da sua utilização no fabrico de aguardentes aromáticas. Estavam à venda na Torre (cimo da Serra da Estrela) umas garrafinhas a preços nada módicos. A denominação francesa para zimbro é “genièvre”, donde deriva a palavra “genebra” que os anglo-saxónicos internacionalizaram para o snobe “gin”.
As bagas do zimbro, de sabor apimentado e ligeiramente resinoso, são também usadas como especiaria, principalmente nos países escandinavos, pois esta cupressácea dá-se bem com o frio, chegando a medrar até nas regiões árticas. Em França e na Alemanha, as referidas bagas perfumam os “chucrutes”, os “pâtés” e as carnes gordas, facilitando a digestão dos pratos pesados.

Precaução final: Muita moderação ao tomarmos qualquer remédio em que entre o zimbro, sem esquecer o “gin”, quer seja tónico, quer não.

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