(Comunicação feita no Colóquio “A Literatura de Agostinho da
Silva, No Centro Cultural e de Acção Social Raio de Luz, Sampaio, Sesimbra,
15/10/2016)
Luís Santos
O título desta comunicação “As
Últimas Cartas do Agostinho…” refere-se a um livrinho por mim organizado e
editado no Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em outubro de 1995, do
qual foram feitos 50 exemplares, e que se constitui por um conjunto de 12
cartas enviadas por mão de Agostinho da Silva a um grupo de amigos com quem
estava em contacto mais próximo, ou que se candidataram a destinatários de tão
digníssima epístola.
O repto é endereçado pelo
Professor em Carta subscrita na Lua Cheia de janeiro, 8/1/1993, onde diz:
“Queridos Amigos, O imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores me
encarrega de vos comunicar que acaba de tomar posse de tudo quanto há e me designa como seu agente junto de vós
para tudo que se refira a estas folhinhas dactilografadas, que serão sempre
mensagem do Convento, assinadas ou não (…) São enviadas a tôdas as pessoas que
já declararam por palavras ou feitos que desejam recebê-las ou o declarem daqui
por diante.”
A primeira carta do conjunto que
constitui a brochura, foi enviada no mês de dezembro de 1992 e a última em Setembro
de 1993, o que significa dizer que este conjunto de cartas foi expedido,
praticamente, ao logo do último ano de vida do Professor, pois que em meados de
outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, a súbita degradação física
que o acometeu haveria de o guindar ao seu falecimento que, como sabemos,
ocorreu no dia 3 de Abril de 1994, um triste mas revelador Domingo de Páscoa,
dia de ressurreição.
“Resumo da ideologia do Povo
Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que
ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para
os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre.
Missão de Portugal: Sacralizar o
Universo, tornando Divina a Vida e Deus real.
Meios: Desenvolvimento dos Povos
pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da
Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da
pessoa à adoração da Vida.
Características do que houver no
Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e
suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da
vida. A plena liberdade de todo o ser.”
Eis uma síntese perfeita do
período da história portuguesa que Agostinha da Silva mais admira, e a que no
dizer das suas ideias sempre regressa, resumo da ideologia que, então,
orientava o país, com epicentro no reinado de D. Dinis (“o plantador das naus a
haver”, no dizer de Fernando Pessoa). Agostinho complementaria assim: “Acho a
época de D. Dinis perfeita (…) A Rainha Santa e o rei-poeta. Calcule, o
casamento de um poeta e de uma santa, que coisa extraordinária! D. Dinis com os
Estudos Gerais. Depois é que transformaram aquilo em universidade, que veio a
dar no que deu. Estudos Gerais, estudo geral para toda a gente e geral para
todos os estudos, que outra coisa quereríamos para Portugal senão isso? Toda a
educação portuguesa devia ser essa. Voltar aos Estudos Gerais e ao D.
Dinis.”
Então, seguindo o nosso autor,
haverá que disciplinar o processo de produção e de distribuição dos bens, de
forma a chegar-se a uma economia comunitária que se inspire naquela que
existiu, para construir uma economia mais humana, pois é esse o exemplo que nos
dá a organização económica medieval em Portugal. O que a Europa trouxe para
Portugal foi uma economia capitalista, uma economia de luta. Ora, muito melhor
é uma economia de convivência e de cooperação comunitária, de autonomia
municipalista, com uma distribuição mais equilibrada das riquezas, como era a
que caracterizava a economia portuguesa da Idade Média, antes desta importação
europeia. Tipo de economia que foi liquidada por essa outra importada.
Neste sentido, relembre-se, a
importância que tem, para si, o culto popular do Espírito Santo que ganha uma
dimensão fundamental em Portugal neste período, com o ativismo espiritual da
Rainha Isabel de Aragão. Culto Popular do Espírito Santo, ou Culto do Divino,
que chega a Agostinho da Silva pela influência direta de Jaime Cortesão, e
também de António Quadros, embora na forma de um reencontro, pois que, como nos
diz, não exclui a hipótese de que ele próprio tenha “andado no tal século XIII
envolto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo
português sentir-se já num Paraíso a vir…”.
Eis os três pontos essenciais da
festa do Espírito Santo:
1. A coroação de um menino como
imperador do mundo. A representação na Terra do Espírito Santo é a imaginação
da criança. Ou, como diz Agostinho, também pode ser, inspirando-nos no presépio
de Francisco de Assis, o menino representando o renascimento de Cristo: “é como
se fosse Cristo renascendo.”
2. Através da imaginação da
criança se chegará à libertação dos presos e ao fim de todas as prisões,
internas e externas. Ou seja, à consagração do grande ideal de liberdade e de
libertação espiritual que Agostinho sempre releva.
3. O banquete gratuito, como
representação simbólica de uma livre repartição de recursos alimentares entre
todos, de modo a que ninguém falte que comer.
E seguindo a carta de Lua Cheia de 8 de Março de 1993, “Pôsto
isto assim, e acreditando num universo sacralizável ou de que se descobriria o
Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento
contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejável inteira liberdade
de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática.”
Continuando em carta no Crescente de Abril “como os da Festa
foram todos expulsos, para a Guiné ou para o Brasil, aí pelos séculos XV e XVI,
pensámos que já era tempo de regresso (…) Nada será de uma dia para o outro,
mas iremos à nossa tarefa com toda a calma, experimentando, poucos como somos,
tornarmo-nos um tanto contagiosos e reaver o tesouro que se perdeu, mas de que
ainda há lembrança nos Açores e muita prática no Brasil (…) Porque afinal tudo
isto é só uma tentativa de alicerce de império: Império de Servir.”
E por se falar em “Império de Servir”, sobre as ideias
quinto-imperiais, relembremos que Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de
continuidade entre a cultura medieval portuguesa, Camões, Vieira e Pessoa, seja
no “culto do espírito santo”, na “ilha dos amores” ou “5º império”, embora
pesem os diferentes tempos em que existiram e a inevitabilidade de se
relacionarem com as ideias de seu respetivo tempo. Afinal, em suma, dizer que Camões,
Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que
seja a realização plena do homem.
Assim, o Império enaltecido na “Ilha dos Amores” dos
Lusíadas, preconizado por Vieira e por Pessoa, será um império verdadeiramente
“católico”, quer dizer, de acordo com a etimologia da palavra, universal, e
caracteriza-se pelo advento da Idade do Espírito Santo, o consolador da
esperança humana, tal como profetizara o evangelista S. João e idealizou o
abade italiano Joaquim di Fiore.
Este Deus consolador que se refere é aquele que Cristo
revela, a quem Agostinho reza na igreja, mas que não é o Deus das igrejas,
antes o Deus que as une a todas e paira acima de todas. É um Deus que podemos
chegar se atingida a verdade. Um Deus íntegro, total, paradoxal, tudo e nada,
imanência e transcendência, que junta tempo e eternidade, sem separação de bem
e de mal, de homens e animais, de tudo o que existe. Um Deus que é, antes de
mais, inefável, e é silêncio, onde ciência e filosofia, “saudades disfarçadas
em raciocínio”, devem ajudar a atingir, mas não podem definir.
Às influências de Jaime Cortesão e de António Quadros,
sobretudo do primeiro, seu sogro, com quem conviveu e trabalhou no Brasil, deve
juntar-se a ideia de “luso-tropicalismo” do sociólogo brasileiro Gilberto
Freyre que nesse país fez escola, base da ideia que expressa na carta de Lua
Nova (face virada ao sol), Abril de 93, sobre “o empreendimento em que pensa o
Brasil duma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e seus crioulos, filhos,
por seu turno, do crioulo que o Português foi do latim, tudo afinal neto do
mais vasto Indo-Europeu.” O Brasil torna-se em Agostinho, o contemporâneo
parceiro ecuménico por excelência daquele Portugal medieval que proclamava o
reino do Paráclito, pois que à comunidade luso-brasileira deverá caber a missão
de condução desse projeto ecuménico ao mundo. Como sabemos, Agostinho da Silva
é um dos percursores da conceção de um Projeto Lusófono que junte países e
comunidades, ideia que acabou por se materializar em 1996, com a criação da
“CPLP” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).
E continuando ainda com o que nesta carta se diz: “O que vai
haver, sem velas, excepto as desportivas, mas por aeroportos e por Faxes, é a
integração dum pensamento como o de Lao-tsu, se dele é, (…) que os há em todas
as religiões e filosofias (…) reinado da criança e sacralização dos animais e
de tudo o resto. O que temos de ter connosco é um sentido de ordem não
opressiva que impeça o caos e ondas de imaginação a saudar o que ainda não
veio, com uma China cada vez mais para o concreto, um Brasil todo virado ao
sonho, e, no meio, uma África que nos ensine a todos, já que índio enfraqueceu
por tanto século de luta.” E aqui, como se refere Lao-tsu também se poderia
referir as ideias de Buda, particularmente, do budismo zen, espiritualidade que
Agostinho também enalteceu. Como sabemos o próprio Agostinho visitou o Japão em
1963 e aí conviveu entre faculdades, templos e monges budistas, e disso nos
deixou testemunho.
E para terminar, na
última carta “de Setembro de Lua Cheia e de 93”, e sendo que o forte “avc” de
17 de Outubro já se avizinhava, Agostinho deixa-nos três princípios pessoais
orientadores de vida: “o de se ver livre do supérfluo, o de não confundir o
verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir,
não mandar (…) Para tudo o que fordes e fizeres rogarei perfeito empenho e boa
sorte, bom vento de navegar.”
Obrigado.
Referências
Bibliográficas:
SANTOS, Luís Carlos
dos (org.) (1995) As Últimas Cartas do Agostinho… Edição do Círculo de Animação
Cultural de Alhos Vedros.
Idem (2016) Agostinho
da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia (td). Vila Nova de
Gaia: Euedito.
2 comentários:
Olá boa tarde !!!
No segredo do Divino e seguindo hoje a lua cheia com especial perfume em Aries, com sua impulsividade motriz ao novo e a mudanças. Só posso sublinhar minha fé . Fé que não brota de lógicas , pois frente a constatações deste mundo só seria imaginável a desilusão. Contudo, sim, acredito num universo Sacro, que não espera pelo Homem , não aguarda ser por este sacralizado, mas sim, o raptará ao sagrado, sua essência e origem. Como tal é assim já, ainda que não perceptível, o Homem criança e poema . Este que um dia ,fixo na "criativa Eternidade" , sem mais retorno à normalidade, se manifestará " livre do superfulo" , onde o " menino coroado" somos nós no Espírito Santo, como seres plenos e verdadeiramente Cristicos , sem confundir " o verbo amar como verbo ter" .
Que lindas e inspiradoras cartas....
Espero viver esses tempos que sinto vivos dentro de mim, de Novos Céus e Nova Terra, como os sinto na oração do Pai Nosso ou do Credo «...E espero a ressurreição dos mortos,
e vida do mundo que há-de vir. Amen.»
Grata pela secreta partilha ( nada divulgarei)
Agostinho da Silva era mais que um filosofo
Ficam as reticencias , tanto mais se poderia dizer em torno desta pérola ...
Obrigada pelas tuas letras, por rico contributo!
Beijos
Ana
Olá Ana, bom dia!
Bem, que dizer, a resposta vem melhor que a comunicação.
Em sagrado universo, sagrados somos todos, afinal, embora andemos um pouco esquecidos.
Obrigado.
Beijos,
Luís
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