"Firme, forte, bem enraizada, a última azinheira e a sua dríade ou Espírito da Natureza, qual Deusa Mãe Terra, saúda-nos e pede-nos para defendermos mais as árvores, em especial as mais velhas, raras e sagradas..." (Pedro Teixeira da Mota)



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (224)

Middendorf, Sonho de Avião, 1982
Resina sobre Tela, 400x300 cm


AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas minhas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
e estas mãos noturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas.

in «As palavras Interditas» (1951)

eugénio de andrade


Selecção de António Tapadinhas

2 comentários:

MJC disse...

Excelente conjunto.
Mais um.
Estás em forma.
Abraço.
MJC

A.Tapadinhas disse...

MJC:

Obrigado! Foi bom ler as tuas palavras amigas.
Grande abraço.
A.T.