quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O BARDO NA BRÊTEMA


Insegurança cultural

Por Rudesindo Soutelo(*)

Paradoxalmente não existe uma definição global e universal para o termo ‘globalização’. O que para uns tem a ver com questões meramente económicas, outros centram nos fluxos financeiros e ainda há os que se focam nos aspetos políticos e jurídicos. Daniele Conversi afirma que a globalização cultural é a forma mais visível e real de todas, já que progride na destruição global removendo todas as barreiras e proteções tradicionais[i]. Talvez pudéssemos definir a globalização com as palavras de Nietzsche quando, nas Considerações inatuais, descreve “um sistema de incultura ao qual se poderia conceder certa unidade estilística, enquanto ainda tem sentido falar em barbárie estilizada”[ii].
No Le Monde Diplomatique de agosto de 2011, Frédéric Lordon escreve: “No princípio as coisas eram simples: havia a razão e depois havia a doença mental. Os seres dotados de razão tinham estabelecido que a globalização era a realização da felicidade; todos os que não tinham o bom gosto de acreditar nela deviam ser internados”[iii]. Mas existe verdadeiramente a globalização, o que poderíamos chamar uma comunicação horizontal entre os países, sociedades, culturas ou grupos étnicos onde os contactos se produzem em condições de igualdade? Conversi afirma que o processo é mais bem piramidal, com um reduzido número de indivíduos na cúspide –praticamente todos usa-americanos– a definirem os modelos que logo se impõem ao resto da humanidade[iv]. Pirâmides que também existem nos países e sociedades para homogeneizar a sua fatia de soberania.
“A arte sem sonho, produzida para o povo, realiza aquele idealismo sonhador que parecia exagerado ao idealismo crítico”[v], proclamava Adorno em Indústria cultural e sociedade.
A ‘globalização feliz’ que a indústria de Hollywood espalhou após a Segunda Grande Guerra, é hoje a realidade cultural na que acredita um grande número de pessoas em todo o mundo, pois, a socialização das novas gerações foi ‘americanizada’, no sentido que Conversi lhe atribui ao termo como a forma mais superficial, incoerente, parcial e fraca, tal como uma imitação ou aparência de algo cujo valor nem sequer se entende ou como a difusão de aspetos banais e comerciais de produtos industriais americanos e de consumo maciço[vi]. Mas essa escolha não foi livre, antes foi a imposição de políticas culturais centralizadas baseadas no que Georg Soros denomina fundamentalismo do mercado, cujo paradigma dominante assentava na teoria de que os mercados financeiros tendem ao equilíbrio, até que a crise de 2008 demonstrou a falsidade dessa premissa[vii].
Curiosamente, a nação que mais promove o desregulamento dos mercados e beneficia da globalização cultural, Usamérica, é a que adota mais medidas protecionistas para evitar que as outras culturas entrem maciçamente no seu mercado interno.
A cultura é adquirida, não herdada, e segundo Geert Hofstede, é uma programação coletiva da mente que distingue os membros de um grupo ou categoria de pessoas face a outro[viii]. Hoje, a juventude de todo o mundo vê os mesmos filmes, ouve a mesma música, partilha a mesma rede social e, ainda, come e veste a mesma qualidade homogénea de lixo. As suas culturas originárias foram banidas do mercado e não existem laços de cooperação, o que os transforma em indivíduos aculturados no seu próprio grupo social. Este êxito da cultura invasora e homogeneizadora, que amplia assim o seu mercado, não está isento de conflitos porque, como nos lembra Lévi-Strauss, quanto mais homogénea se torna uma sociedade, mais visíveis serão as linhas internas de separação, mas também porque “o progresso só se verificou a partir das diferenças”[ix].
Quando se ameaça a cultura, o modo de vida e o sentido de continuidade dum grupo, percebe-se como um sentimento de insegurança cultural que pode gerar uma crescente mobilização coletiva, uma reivindicação de soberania ou um nacionalismo que responda a agressão[x]. A globalização foi o sonho totalitário do capitalismo ultraliberal, o fundamentalismo do mercado livre que trocou a luta de classes em divisão e antagonismo dos trabalhadores de países ricos e pobres por mor da deslocalização de empresas. Quanto à tecnologia, Adorno também foi esclarecedor: “A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação, é o caráter repressivo da sociedade que se autoaliena”[xi].
São cada dia mais as vozes que reclamam uma urgente desglobalização e desamericanização, para restaurar a soberania dos povos e promover o contacto, em pé de igualdade, entre países, sociedades, culturas, línguas e grupos étnicos numa verdadeira internacionalização da cultura; eliminando o sentimento de insegurança e construindo o que o filósofo Boaventura de Sousa Santos define como o “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”[xii].

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística.




[i]   Conversi, D. (January de 2004). Americanization and the planetary spread of ethnic conflict: The globalization trap. Obtido em 15 de Agosto de 2011, de Permanent forum on Cultural Pluralism: http://www.planetagora.org/english/theme4_suj2_note.html
[ii]   In Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 19.
[iii] Lordon, F. (Agosto de 2011). A desglobalização e os seus inimigos. Le Monde diplomatique, pp. 2-3.
[iv]   Conversi, D., op. cit.
[v]   Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 14.
[vi]   Conversi, D., op. cit.
[vii] Soros, G. (2008). Um novo paradigma para os mercados financeiros. (L. Boldrini, & P. Migliacci, Trads.) Agir Editora: Rio de Janeiro, p. 183.
[viii] Hofstede, G. (2003). Culturas e Organizações. Compreender a nossa programação mental. Lisboa: Sílabo, p. 19.
[ix]   Lévi-Strauss, C. (2010). Mito e significado. (A. Bessa, Trad.) Lisboa: Edições 70, pp. 31-32.
[x]   Conversi, D., op. cit.
[xi]   Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 9.
[xii] Santos, B. d. (2002). A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência (4ª ed., Vol. 1). São Paulo: Cortez, p. 71.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

INTIMIDADES


O ANIMATÓGRAFO

A terriola usufruiu de uma sala de cinema aproximadamente durante meio século e quando ela encerrou, por ordem da Direcção-Geral dos Espectáculos, no princípio da década de oitenta, dadas as condições de segurança do edifício porem em risco a integridade física dos eventuais utentes, uma vez o piso do balcão ameaçar abater a qualquer momento, só um bom par de anos mais tarde dei pela sua falta, concretamente, a partir da altura em que me começou a pesar, no tempo e nas energias, o facto de me ver forçado a recorrer aos ecrãs de vilas vizinhas para me divertir com certas películas que, em minha opinião, não requeriam nem mereciam uma ida propositada à capital. À medida que o pó e a sujidade foram dando sinais nas vitrinas e na fachada, em geral, fui tomando consciência que, afinal, até tinham sido muitas as terças-feiras com serões preenchidos por filmes de segunda e terceira linha, é certo, mas que nem por isso deixavam de proporcionar distracção e, em muitos casos, com o acréscimo de provocarem conversa. Tal como eram variadíssimos os grandes êxitos de bilheteira que ali houvera visto, aos fins-de-semana, sempre com a casa a deixar gente de fora. Fosse o que fosse, aquele cine-teatro era uma opção que se calou e agora parece-me que então não compreendia que, para tanto, mais não necessitava que andar uma vintena de passos.
Porque chegaram os interiores àquele estado? Ele é verdade que nos últimos anos, especialmente às terças e às quintas-feiras, as cadeiras estavam às moscas, a não ser num ou noutro caso de exemplares de um género em voga, eram vulgares as noites em que nem duas mãos cheias de pessoas se espalhavam na sala. Isto para nem lembrar aquelas consequências da nouvelle vague em que, pelo menos uma vez, eu e um outro amigo fomos os únicos presentes, a ponto de ele fumar no decurso da projecção sem que surgisse quem se importasse por isso. Em contrapartida, os Sábados e Domingos, incluindo a matiné, esses continuavam cheios. Havia povo para isso. E nesse aspecto, se algum problema se colocava, ele prendia-se mais com as escolhas apresentadas ao público do que a este propriamente dito. Aliás, tenho para mim que a actividade cinéfila, em si, era lucrativa. Mesmo descontando a selvajaria responsável pelos cortes e rombos nos estofos do balcão, em primeiro piso, no cômputo final o saldo era, certamente, positivo e, arrisco dizer, economicamente interessante.
A casa desabou devido a outros motivos, exteriores a ela. Foram as gestões ruinosas da Cooperativa Operária de Consumo que daquela era proprietária, a sucessão de anos ao sabor do vento foram os responsáveis pela incapacidade de manutenção verificada e, mais tarde, pela quase falência daquela associação, sonho de alguns operários dos tempos da primeira república. Foi por isso que não houve dinheiro para arranjar as instalações e ninguém se mostrou interessado em evitar o descalabro total. Mas sobre as razões de tais desnortes não me proponho falar aqui que essas acabam por ser motivos para outras guerras.
Para já, limito-me a acrescentar que o salão de cinema foi o capricho da última colectividade de cultura e recreio que se fundou no burgo, a partir de uma cisão da banda da mais anosa daquelas associações. Por algum tempo foi objecto de exploração privada, pelo Júlio do café que o trouxe de arrendado. Por fim, a Academia vendeu-o à Cooperativa e assim ficou até à hora da morte.
Ao longo do tempo houve um público cinéfilo. Um dos meus tios paternos, por exemplo, teve por muitos e bons anos um lugar reservado numa das últimas filas do balcão. Mas também se formaram homens que gostavam de se dar ares de rebeldia de um Humphrie Bogart ou do semblante melancólico e apaixonado de um Richard Burton. E eram muitos os que tratavam por tu os heróis da tela e sabiam de cor as películas em que entrara o Lex Barker ou o Gari Cooper. Várias foram as gerações que despontaram para a matiné de Domingo que era o dia da indumentária cuidada e até àqueles que têm a minha idade, muitos foram os que em comum cresceram com os moços que, nos intervalos, percorriam os corredores e os lugares com um tabuleiro ao peito, onde traziam os doces e os salgados, cujos papéis e cascas se estatelavam no soalho à laia de despojos da sessão. E se quiser ser justo, ali não vi apenas as diatribes dos bons e dos vilões dos western spagueti que até tiveram os seus heróis, como o Giulliano Gema que, no papel de Django, foi salvo por uma moeda de um dólar, e nem me estou a referir a espectáculos de ilusionismo e de música que ali tiveram lugar. O Sérgio Godinho, por lá iniciou a sua tournée sete anos de canções. Estou antes a rever a manifestação que o Tonho Testa e o Estreia barbeiro queriam fazer junto das bilheteiras para puderem assistir de pé a um filme considerado erótico, se não estou em erro, “A Piscina”. Ou as gargalhadas provocadas por algum aparte jocoso que, no escuro, por vezes se fazia ouvir a propósito de alguma cena.
Com efeito, para a rapaziada da minha convivência, o cinema era um ponto de diversão e de encontro e se na meninice os costumes e os zeladores tudo faziam para que fossemos contidos e discretos nas brincadeiras que por lá praticávamos, ao longo da adolescência as rédeas quebraram-se abrupta e inesperadamente e fora das jaulas podemos dar largas a pinotes que em outras circunstâncias não teríamos feito. Coisas de rapazes, resignavam-se então os mais velhos. Houve uma fase de entradas propositadamente tardias, para descermos as escadas da entrada com saltos em piso de madeira e também houve a moda de mastigar rebuçados de modo a que o barulho perturbasse alguns momentos de maior emoção e suspense.
Foi daí que derivou o prato predilecto das soirés de Sábado. Como éramos muitos, entre rapazes e raparigas, quase sempre conseguíamos preencher toda a fila A do balcão, a primeira de todas que, sob a protecção de um muro baixo se debruçava sobre a plateia, no piso inferior. Às páginas tantas, alguém teve a ideia do que apelidámos de “ovnis” e é claro que a coisa pegou logo. A brincadeira consistia em colocar um rebuçado no parapeito de madeira a que imediatamente chamámos pista de descolagem e com a força de quem dispara um bugalho, escolhido o momento apropriado que naturalmente seria aquele em que as pessoas estivessem mais concentradas nas peripécias que estavam a seguir, de preferência naquelas cenas em que o inesperado era o que se esperava, era então que algum de nós dizia “-Fogo!” e, em acto contínuo, voavam os projécteis na direcção de algum coro cabeludo que de imediato se virava para trás.
Era uma risada.

Alhos Vedros, 2 de Março de 1996

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Progresso


Ser a madrugada
do tempo
anoitecido: barbarizar
                   o desconhecimento
                   em novas ciências

                   cientificar
                   a desnecessidade
                   de estar vivo

ser a divulgação do próximo
desacontecimento e se apresentar
na plenitude com que o regresso
traz o medo.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 13 de novembro de 2011

O Beijo do Sol



Baseado num canto tradicional do Quénia - Cantos da Babilónia, o mais recente disco de Pedro Osório

"Caros amigos, 
Acabei de me estrear a fazer e montar um vídeo. É um vídeo-clip sobre uma música de um disco meu que está para sair.
Talvez não se aborreçam e, se tal acontecer, por favor passem aos vossos amigos.
Aqui fica desde já o meu agradecimento."

Pedro Osório.

sábado, 12 de novembro de 2011

O Largo da Graça


1. Escrita e Tecnologia

Creio que as Tecnologias da Informação e da Comunicação constituem uma boa parte do espelho da sociedade globalizada.

Devia ser assim, devia ser assado? É.
Poderá vir a ser de determinada maneira? Decerto.
Mas talvez nunca da forma como cada um vai magicando no seu canto. Tudo se vai processando num equilíbrio de diferentes forças, algumas delas que nos transcendem. O Mundo é um campo em aberto de infinitas possibilidades.

O desenvolvimento tecnológico, todas as descobertas e inovações, são incrivelmente admiráveis. Carrega-se num botão e a luz acende, eleva-se o som e a folha preenche-se de ordenados caracteres. Milagre atrás de Milagre. Assim, haja a capacidade de se utilizar tudo para servir todos.

Entre-tanto, o macaco olha e quer trincar a banana, ainda que não seja sua. A vida tem riscos, os acidentes acontecem e "quem semeia ventos colhe tempestades", dizem. A forma como agimos, dizemos, escrevemos, é muitas vezes determinante naquilo que acaba por acontecer - agressão geralmente produz agressividade.

Um conselho: não sejam maldosos e não queiram para os outros o que não querem para vós. Talvez assim o medo diminua.

Desta vez as perguntas não foram muitas, mas as afirmações são todas duvidosas.

Luís Santos


P.S.: Este "Largo da Graça" constitui-se por um conjunto de pequenos textos que surgiram num Blogue de debates temáticos, de boa memória, organizado por Luís Gomes e que, doravante, passarão aqui a ser publicados.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Encontros com Agostinho da Silva



AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª Edição


CARTA IX

Companheiros e Amigos

A História de Portugal, inteligente, documentada, válida e duradoura, diz que a Nação nasceu por; se fixou por; se defendeu com pinheirais e castelos sempre por; navegou por; entristeceu e se alegrou por; finalmente acabou por. Aquela História de Portugal pela qual eu vou, História sentimental e fantasiosa, meio inventada talvez em muito ponto, garante-me logo de comêço que a Nação nasceu para, se definiu para; casou para; navegou para; desanimou para e reagiu para e acabará para. Eu me explico tanto quanto posso. Nasceu para ocupar a melhor das costas, dando naturalmente para o mar, mas sobretudo para o Oceano, que permite ia a todo o lado; para aprender a bolinar; para completar o Império Romano que soberanos e legiões tinham deixado só como esboço, com uns lambiscos de Europa e uns desembarcadouros de África e umas vagas idéas de Ásia; para universalizar Direito tirado pelos romanos da Filosofia grega, como engenharia baseada no Euclides; lógica de guerrear da de pensar.; para, depois de ouvir a Isabelinha de Aragão, projectar para o mundo inteiro o entender e adorar o Divino, de ser a criança o maior dos milagres, de não se ter de ganhar a vida, o que a amesquinha, e de não haver prisões, nem as de grades, nem sobretudo, porquanto piores, as que são de dúvidas. Têm razão os saábios, que tanto respeito, que Portugal foi por; mas insisto em pensar, sem autoridade alguma, que Portugal sempre foi, sempre é e sempre será para. Obrigando-nos a todos nós, a que sejamos para, servindo-nos para tal do que somos por. Vocês não acham?


                    Quadrinhas de quando em quando 
                         
Mas esta vai hoje mesmo
por ser aquela que fez
São João à Lua Cheia
do Junho do nove e três

“Que me baptize o Luar
e faça de mim portento
banhado sempre na Luz
de que serei instrumento.”



Ciclo "Em torno de Agostinho da Silva" na Casa Bocage, sábado 12 Nov.

Caros Amigos e Amigas

A Associação Agostinho da Silva e a Casa Bocage (Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal)convidam-vos para o encontro "S. Martinho em torno de Agostinho", última sessão do ciclo de tertúlias "Em torno de Agostinho da Silva na Casa Bocage", no próximo sábado, 12 de Novembro, pelas 16 horas.

A sessão será preenchida com as seguintes intervenções:


"Agostinho da Silva e Fernando Pessoa: A coragem de ser outro", por Paulo Borges


"A Introdução aos grandes autores e a divulgação cultural de Agostinho da Silva nos anos 30", por Duarte Drumond Braga


"Uma leitura de Agostinho da Silva, à luz da actualidade", por Bruno Ferro


Exposição (venda) de retrato de Agostinho da Silva (técnica mista) de José Manuel Capelo, por João Raposo Nunes


Música com &FUSION


Confraternização entre os presentes (com Magusto).

Saudações cordiais

Maurícia Teles e Bruno Ferro

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Paulo Borges é Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro correspondente da Academia Brasileira de Filosofia. Sócio-fundador da APERel - Associação Portuguesa para o Estudo das Religiões. Membro do Conselho de Direcção da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Director da revista Cultura ENTRE Culturas. Sócio-fundador e membro da Direcção do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Sócio-fundador e vice-presidente da AIEM – Associação Interdisciplinar para o Estudo da Mente. Presidente da Direcção do Círculo do Entre-Ser. Presidente da União Budista Portuguesa e da Associação Agostinho da Silva. Presidente da Direcção Nacional do Partido pelos Animais e pela Natureza.

Autor com vasta obra publicada (poesia, ensaio filosófico, romance, teatro e tradução) além de centenas de conferências e artigos em revistas científicas e obras colectivas, publicados em Portugal, outros países da Europa e Brasil. Entre muitos outros títulos:
. A Plenificação da História em Padre António Vieira. Estudo sobre a ideia de Quinto Império na “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995.
. Agostinho da Silva. Uma Antologia, Lisboa, Âncora Editora, 2006.
. Tempos de Ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, Lisboa, Âncora Editora, 2006.
. O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (organizador, com Duarte Braga), Lisboa, Ésquilo, 2007.
. Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, 2 vols, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,2008.
. Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008.
. A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
. Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, Lisboa, Verbo Editora, 2010.
. Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar, Lisboa, Âncora Editora, 2010.
. Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006.
. Folia. Mistério de Pentecostes em três actos, Lisboa, Ésquilo, 2007.
. Shantideva, A Via do Bodhisattva, Lisboa, Ésquilo, 2007 (que também gravou em áudio-livro, na mesma editora e no mesmo ano).

Duarte Drumond Braga é licenciado e mestre em Estudos Portugueses e doutorando em Estudos de Literatura e Cultura. Membro da direcção da Associação Agostinho da Silva.

Bruno Ferro é formado em Fotografia e Conservação de Colecções Fotográficas e estuda Filosofia na Universidade de Lisboa. Faz parte da Divisão de Museus do Município de Setúbal, no âmbito da qual é responsável pelo projecto de conservação da colecção fotográfica Américo Ribeiro, desde 2000. Desempenha funções de coordenação do espaço museológico Casa Bocage, desde 2006. Tem promovido iniciativas que visam a divulgação do pensamento de Agostinho da Silva, nos museus municipais e outros espaços da cidade de Setúbal. É colaborador da Associação Agostinho da Silva.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LXII


Casas na Montanha Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 110x75cm

Esta é outra obra “Fauve” que planeei mostrar.
Nela, utilizei o máximo de contraste entre as gamas frias e quentes, sublinhadas por suculentos sombreados com azul-cobalto. Apesar disso, procurei que o tom geral da obra tivesse a cor da temperatura agradável que deve predominar nas confortáveis casas.
É uma paisagem de montanha, em que o formato e o ângulo de visão potenciam a sensação que temos de fazer um grande esforço para chegar lá acima.
Pode valer a pena: quem sabe, não será a montanha mágica, que todos procuramos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CURSO DE CONVERSAÇÃO EM PORTUGUÊS

Vai a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa (Indo-Portuguese Friendship Society) com sede em Pangim, Goa, Índia, realizar o 5º curso de conversação em português com a duração de dois meses a iniciar em Janeiro de 2012; as turmas serão compostas por um máximo de 15 alunos (adultos)

A SAI-P assume os custos integrais com as viagens de avião Lisboa-Goa-Lisboa, disponibiliza hospedagem em Pangim e deslocações internas no Estado de Goa bem como a remuneração mensal de rupias indianas 20.000 (vinte mil).

Devidamente fundamentadas em termos curriculares, os interessados devem remeter as suas candidaturas para:

Presidente da SAI-P, Eng. Audhut Caro - apkare@bsnl.in
e para o Fundador da SAI-P, Dr. Jorge Renato Fernandes - drjorgefernandes@gmail.com

Fico disponível para algum esclarecimento complementar.

Cumprimentos,

Henrique Salles da Fonseca

terça-feira, 8 de novembro de 2011

INTIMIDADES


A VÉLHINHA

A “Vélhinha” é uma colectividade de raiz oitocentista, das muitas que há pelo sul do país, outrora pendendo mais para os domínios musicais e cénicos de que ainda hoje lhe resta o nome, actualmente sobretudo virada para a prestação de serviços desportivos aos sócios, em particular e à comunidade, de uma maneira geral.
O epíteto advém-lhe do facto de ser a mais antiga da região e, certamente, uma das pioneiras a nível nacional. Foi fundada em mil oitocentos sessenta e nove e, desde então, muitas gerações por ali passaram, crescendo, naturalmente, pela experiência cívica da vida associativa e, até, tão só, pelo lado lúdico de um copito ou de um pé de dança.
Ali há História, antes de mais documental, para que a historiografia se entretenha, mas bem mais importante na sua presença, sob a forma da iconografia variada, hoje em dia concentrada nas salas dos corpos sociais e dos gabinetes de trabalho, se bem que, pela minha meninice, estivesse então espalhada pelas paredes dos corredores e a divisória ampla que se repartia pelos espaços do bufete e dos bilhares.
Ninguém deve escarnecer destas casas e muito menos das pessoas que lhes dão vida e das realizações que aí levam a cabo. Antes pelo contrário, só as podemos entender enquanto bênçãos se considerarmos que, por via delas, os mais pobres souberam o que é a música e o teatro, tiveram à disposição diversos géneros literários e, prima dona, para uma pátria como a nossa, coitadinha, tão agastada de tiranias e olhos e ouvidos de várias raças de imperadores, primeiro que tudo, dizia, aí teve o povoléu a possibilidade de laboratoriar comportamentos e hábitos submetidos às regras democráticas de organizar as relações em comum.
Pois é, as meninas Alices dos telefones podem ser ridículas na dramaturgia, mas que mal vem ao mundo por causa disso?
Certo é que em tais repositórios de anedotas se ensinaram a cultivar responsabilidades a todos aqueles que por lá deixaram fruir as suas generosidades ou vaidades.
Não sou um especialista nesta temática e, tanto quanto sei, são poucos os estudos de carácter científico sobre estes fenómenos associativos. De qualquer forma e, desde logo, admitindo poder estar a sustentar patetices, diz-me a intuição que terão sido mais ou menos tais desideratos que estiveram na ideia que lhes deu origem. No caso da “Vélhinha”, não sei se por mola de algum estrangeirismo, fundada sob os auspícios de um tal Marquês de Sampaio que, à época, tinha fama de ser liberal, não devo errar muito sustentando que a sua constituição teve em vista proporcionar a recreação e a alegria às gentes do burgo, mas também, de preferência, no âmbito mais sociológico da cultura cívica. Pelo menos é o que se pode apreender pela leitura das actas das assembleias gerais do princípio do século e até pelas actividades registadas nas actas das sucessivas reuniões das direcções.
Pessoalmente, tenho a honra de ter sido, por um ano, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral, cargo outrora exercido pelo meu avô e posteriormente pelo meu pai.
Foi por isso que tive livre acesso aos livros antigos e em eles soube, por exemplo, ter sido o coreto –o qual, sobre o umbral da porta, tem a data de mil novecentos e vinte- uma obra da iniciativa e labor das pessoas ligadas à banda filarmónica, com a curiosidade de, na angariação de fundos, ter o auxílio de uma comissão de meninas, presidida pela menina Laura Valentim que, mais tarde, viria a ser a professora que, entre reguadas e orelhas de burro, por mais de uma trintena de anos, ministrou o primeiro grau à gaiatada da vila. Mas também lá estão historiografados os intercâmbios com as irmãs de outras terras, como o ilustra o passeio à simpática vila das Caldas da Rainha, para usar uma expressão dos próprios anais, do qual constou um agradável pique-nique, como visita de retribuição pelo concerto que os homens de lá tinham dado para os meus conterrâneos no Verão anterior. E até a zaragata em que o tio João Mosca enfiou o trombone pela cabeça do Manelinho sapateiro e da qual veio a resultar a cisão na filarmonia que acabou por dar origem a uma outra colectividade, isto nos anos da guerra e a propósito de uma pirraça que algum germanófilo fez com a queda de Dunquerque.
Desde que me conheço frequento aqueles tectos. Primeiro pela mão paterna, mas rapidamente por moto próprio, ali me fiz mestre de carambolas, namorei e, em parte, me fui fazendo homem.
Como tudo na vida também a “Vélhinha” já mudou o rosto e os interiores e em nada se assemelha com os espaços que na minha memória têm guarida.
Hoje deambulo por lá com o mesmo à vontade que o faço em qualquer outro lugar e não sei se a miudagem ainda sente o peso da obrigação de fazer silêncio. Mas a memória da minha infância prende-se, precisamente, com essa possibilidade de escutarmos o tiquetaque do relógio de parede que estava no bar. A televisão, quando apareceu, tinha o seu próprio destaque por sobre uma mesinha com mais de dois metros de altura, a fim de ser avistada de todas as cadeiras da plateia que, à sua frente, se alinhavam numa parcela do salão de baile.
A menos que tudo estivesse em festa, havia sempre alguém que velaria para que o sossego dos sócios não fosse perturbado.
A mim, eram a sala de leitura e a biblioteca que mais respeito me incutiam. Não sei se pela presença dos homens que, na primeira, sempre estavam atentos ao diário ou conversando em voz baixa, se pelos retratos, alguns amarelecidos, de bigodões anónimos que passavam à posteridade por obra do mérito, não sei se por uma coisa ou pela outra ou ainda se pelo facto de o meu primo Zé Carlos ensaiar previamente o pedido do livro que queria, justamente, à porta de entrada, sempre que aquelas vidraças pintadas me deixavam avistar as cadeiras de recosto ou as estantes, sentia aquilo que agora poderia definir como uma inibição comportamental e, de mãos nos bolsos e cabeça baixa, ali estava eu apenas quando isso era necessário, tão só perguntado o imprescindível e, de resto, limitando-me a falar apenas em face das perguntas.
No fundo, sabíamos que os mais crescidos não gostavam nada de serem incomodados pelos garotos.

Alvalade do Sado, 27 de Fevereiro de 1996

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sargos para o Jantar: um livro que abre o apetite da leitura

António Tapadinhas apresentou o seu primeiro passo na literatura, no passado dia 22 de Outubro, na Casa da Baía, em Setúbal. Sargos para o Jantar é a obra escrita pelo pintor de 68 anos que relembrou que talvez não fosse tão tarde assim para se envolver entre os livros. A publicação do livro que se encontrava na gaveta há oito anos terá sido então aclamada pelos seus familiares e amigos que, para António Tapadinhas, são como as rochas da Serra da Arrábida, que estão sempre presentes quando mais se precisa.
Luís Santos, professor da Escola Superior de Educação de Setúbal e amigo de longa data do pintor, teve a seu cargo a apresentação de Sargos para o Jantar e a própria caracterização do autor com o qual partilhou inúmeras experiências, sobressaindo sempre a imagem de um mestre e de um campeão que não sabe fazer nada que não seja bem feito.
A obra que introduz António Tapadinhas como escritor revela-nos histórias ricas em emoção e sentimento, ao ritmo e ao sabor do mar, onde o leitor é convidado a entrar no mundo da pesca e dos pescadores que guardam amor e respeito à imensidão ondulante que os envolve numa paz profunda, sem tempo, nem medida.
A envolvência, o mistério e a audácia andam de mãos dadas entre as palavras de António Tapadinhas que tem, por si só, a capacidade de nos transportar para o local onde tudo ocorre e ganha vida, através da sua visão e do seu pensamento em constante alerta e fervura pela sede de um mundo que o envolve a si e aos seus irmãos de aventura.
As histórias que o autor guardou para nos contar durante tanto tempo saem agora deste livro que, para António Tapadinhas, pretende garantir bons momentos para quem o ler. Segundo o pintor, a capa de Sargos para o Jantar é assim ilustrada com um barco verde esperança, apelando ao futuro deste país, que cheire a maresia.

Márcia Moço

domingo, 6 de novembro de 2011

Quando morrer é preciso

Imagem da internet : Wikipédia ( enciclopédia livre)
aos amigos
Toda a morte devia ser assim: tranqüila, natural, como um apagar de luzes de um espetáculo teatral, gradual e sem traumas. 
Com mais de 100 anos,  uma velha e querida amiga, já no final dos seus profícuos dias, dizia-me toda a vez que a encontrava para os nossos enriquecedores “papos”: Estou tão cansada que o simples exercício de me levantar para tomar banho e me alimentar me deixam esgotada. Espero que Deus não se esqueça de mim, e venha logo me buscar!
Ele atendeu-lhe o pedido quando ela completou 103 anos. Depois de viver intensamente, de viajar, de estudar, de conhecer e transmitir ao próximo, tanta sabedoria e saber, repousou . Sua luz se apagou naturalmente.
Como na apoptose, processo metabólico que tem a morte celular geneticamente determinada, a morte humana deveria ser tranquila, não sofrida, naturalmente acontecida. Deveria ser um item no processo evolutivo humano bem entendido, com o objetivo claro de dar reprogramação e continuidade à vida.
Foi na década de 70 que o jovem médico inglês, Andrew Wyllie, pesquisando, observou argutamente que certo grupo de células, a determinada altura do desenvolvimento, parecia suicidar-se para que o organismo fetal, como um todo, evoluísse e mantivesse o número de células necessárias ao equilíbrio do organismo.  “A esse fenômeno deu o nome APOPTOSE, termo grego que quer dizer ‘ CAIR LONGE DE...”, numa semelhança como ocorre com as folhas amareladas e secas do outono do Hemisfério Norte, quando estas caem para dar lugar às novas que vão nascer.  Todos os dias perdemos por volta de 70 bilhões de células, num processo suicida, geneticamente programado, que tem como fundamento a remodelação e homeostase orgânica.  Primeiro a molécula de DNA , respondendo a um relógio biológico, vai mudando gradativamente, fluida e precisamente , induzindo a célula à morte.  A membrana celular se dobra sobre si mesma, formando bolhas que serão englobadas pelas células vizinhas até o processo ser finalizado com o desaparecimento da célula inicial.
Assim é o processo amplamente conhecido do desenvolvimento embrionário, em que as membranas natatórias interdigitais do embrião desaparecem à medida que as mãos do feto vão se formando! Quando certo grupo de células do nosso corpo se torna inviável ao sofrermos danos irreparáveis, as células são naturalmente eliminadas dando lugar a novas células teciduais reparatórias (fígado, medula, ovários, osso,...).
Biologicamente a apoptose é um processo metabólico complexo, geneticamente determinado, onde fatores enzimáticos atuam como relógios biológicos, ainda não totalmente elucidados.  Esperança dos cientistas para tratamentos de doenças como o câncer e esterilidade, a apoptose é um segredo da vida que faz lembrar os dizeres premonitórios dos antigos que diziam que morrer é preciso para se ter vida.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 25 de outubro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Dzogchen

Etimologicamente Dzogchen significa Grande Perfeição (Dzog=Perfeição; Chen=Grande).  Define-se por uma linha mais radical do Budismo tibetano.
Originário de uma atual região do Paquistão (NO do Tibete) foi posteriormente instituído por um rei tibetano.

É o pináculo da sabedoria budista. Defende a teoria do despertar súbito que nos pode libertar numa única vida.

Dois textos fundamentais:

(Mestre) Dogen, “The Nature of Things” 
Dogen refere o auto-despertar como a própria natureza das coisas. Por isso no Dzogchen a prática é uma não prática. Neste sentido o “zazen” (meditação budista) deve ser feito sem objetivos e sem esperar o que quer que seja.

Nós já coincidimos desde sempre com a natureza última das coisas, com a budeidade. Ora, se já se é, procurar é perder-se. Viver esta experiência é incluir todas as coisas no despertar.

Longchen Rabjam, The Precious Treasure of the Basic space of phenomena  
Lá se diz que a natureza primordial de todos os seres é a liberdade absoluta.

Palavras da própria consciência desperta:
“Eu sou a vacuidade absoluta”
“Como não tenho características a minha mente não vacila”
“Uma mente sintonizada com a natureza primordial é naturalmente compassiva”
“A natureza primordial da mente é donde procede tudo”
“A natureza da mente de cada um de nós é o próprio centro absoluto.”

Aqui, “samsara” e “nirvana” são manifestações da própria vacuidade. A fenomenologia das coisas dependem do próprio ser.

O fundo primordial caracteriza-se por uma tripartição: vacuidade; luminosidade e criatividade (irradiação); compaixão.

Tudo é vacuidade. Tudo são manifestações do fundo primordial que não é mais que a natureza da nossa própria mente. O jogo é indeterminado, tudo se passa na relação mágica da sua correspondência.

Os mestres sabem que o corpo não tem substancialidade. É apenas um adorno da vacuidade. Uma coisa que se põe e tira em cada momento.

Tudo é sagrado. Tudo transcende qualquer conceptualização. Tudo é constantemente uma manifestação da unidade primordial veiculado no homem pela tríade corpo, palavra, mente. Não há que procurar nada por detrás dos fenómenos. Tudo o que se manifesta a cada instante é a própria natureza das coisas.

Se deixarmos as coisas tal qual são, o próprio processo assume o seu próprio curso. O universo é um processo natural de despertar.  

Carlos Rodrigues

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Publicidade Literária

Esse comercial não tem mulher de biquiní,
Não tem cachorro,

Não tem criança,
Não tem bebezinho.
Esse comercial não tem casal,
Não tem beijo,
Não tem pôr-do-sol,
Não tem família tomando café da manhã.
Esse comercial não tem música de sucesso,
Não tem efeito especial,
Não tem tartaruga jogando bola.
Esse comercial não tem gente famosa
Nem garoto propaganda,
Porque esse comercial é pra vender um produto
Que ninguém precisa ser convencido a comprar..
Esse comercial é para vender um produto
Que você adora consumir,
E que por sinal,
Você até já comprou,
Só que não estão entregando.
É um produto que não tem marca
Nem tem slogan,
Não tem embalagem
Nem faz promoção tipo leve 3, pague 2.
Esse comercial é todo branco
E desse jeito,
Ele pode ser entendido aqui e no mundo inteiro.
Aliás, seria muito bom que esse comercial
Pudesse passar no mundo inteiro.
Porque o produto que esse comercial quer vender é a
PAZ.


Este texto é de um anúncio criado por Washington Olivetto e foi exibido nas salas de cinemas, do Brasil

corre pé

ENCONTROS COM AGOSTINHO DA SILVA


As Últimas Cartas do Agostinho
2ª Edição

CARTA VIII

Amigos

Estamos ainda bem longe, talvez a séculos, de que tal suceda, mas um dia se verificará que, depois de tanto tempo, de tanta geração de colonialismos, quer os de potências europeias, quer os de força islâmica, quer os de internacionais entidades americanas, foi a África restituida a si própria pela obstinada, calma, paciente e exigente influência do Brasil e da China, com alguma velha semente ibérica deixada num ponto ou noutro do Magrebe, sobretudo, diria eu, no Marrocos ou naquela embaixada que no Cairo pensava em expedições etíopes, e com o Brasil do lado de Angola, a meditar das varandas de São Tomé, no redesenho dos mapas latinos ou germânicos da distribuição pelos novos donos da infinda pluralidade étnica daquelas novas terras, e a China das bandas de Moçambique, aí com a tarefa algum tanto facilitada, ou guiada, pela tradição do acertado império do Monomotapa. E quando diremos que a África será reentregue a si mesma?

Quando se ouvir ou se souber de algum africano que propôs acrescentos a Einstein ou reprovou Kant na língua que em pequeno falava com sua mãe, sem ter feito o esforço antibiológico de ter de se exprimir noutra língua, de preferência numa do domínio indoheuropeu. E na dita língua materna ensinando ao resto do mundo muita coisa que ainda precisa de aprender, com ligação a um correcto comportamento social e solidário. E livre. Mas qual a atitude enquanto se espera? Pois a de achar que ainda se está distante e, ao mesmo tempo, que tudo já aconteceu. O trabalho vai ser o de, sem falta alguma, que ainda está distante o que já aconteceu. Juntar a face do adquirido com a face do ambicionado. Querem um exemplo? Pois lembro o que acontecia com os Portugueses que, desrespeitando Tordesilhas e a pontifícia autoridade, iam fazendo mapa falso sôbre mapa falso, sabendo que ainda tinham muito que andar, mas, simultâneamente que já descansavam à beira do Pacífico que sempre se lhes negou. Mas o Brasil lá chegará e com inteira obediência à lei com que tôdos os Povos estejam de acôrdo. Sabeis o resumo? Ser e não ser são a chave do ser.

Minguante de Maio. Maio de 93. Ou de qualquer ano em que a tal se volte.


Página das Odes Breves


Ode Breve a Isabel
a mulher de Dom Dinis
que sendo serva de Deus
fez na terra quanto quis
trouxe logo de Aragão
um saber italiano
por ser Dom Pedro seu Pai
da Calábria soberano
aprendeu de Joaquim
que Deus também tem idade
doutros amigos que Assis
exige fidelidade
levou Afonso seu filho
que era de má catadura
a ter respeito a seu pai
a dar-lhe a ela ternura
quando via seu marido
pela praia a meditar
creio lhe inspirou Brasil
e Timor além do mar
e repartiu bem certinha
esta Ibéria que era sua
com minguantes e crescentes
como ela via na lua
morreu ela em santidade
como irmã de Santa Clara
não para lhe darem ordens
mas para ter de nós todos
uma obediência rara
e penso de quando em quando
que ela dá seu sermão
mas com humor e carinho
porque tão bem o conhece
a este incerto Agostinho

FRIDA KAHLO

Uma forma diferente de manifestar: expressão genuína da maneira de ser português - Contamos com 1.000 a 3.000 manifestantes

Conselho Consultivo junto do Vice-Consulado de Portugal em Frankfurt
Zeppelinallee 15, 60325 Frankfurt am Main
C/o António da Cunha Duarte Justo
Porta-voz do Conselho Consultivo
Tel.: 00049 561 407783,
E-mail: a.c.justo@unitybox.de


Comunicado aos Órgãos de Informação

Portugueses e Ranchos a manifestar e a dançar Portugal pelas ruas de Frankfurt
Uma forma diferente de manifestar: expressão genuína da maneira de ser português
Não ao encerramento do Posto Consular de Frankfurt

No próximo Sábado, 5 de Novembro, dia da grande manifestação contra o encerramento do Consulado de Frankfurt, farão parte do cortejo grupos de folclore que actuarão também durante a marcha. No final da manifestação também serão declamadas poesias em Português e em Alemão. A Manifestação tem início às 13h00 na Praça da Ópera (Alter Oper) e termina às 15h00 em frente às instalações do Vice-Consulado, na Zeppelinallee N. 15. Contamos com a presença de 1.000 a 3.000 manifestantes.

Esta é uma manifestação inovadora. Procuramos trazer à rua não só a voz política mas também a voz cultural.
Não é contra alguém, é uma manifestação pela Razão!
Queremos voltar ao espírito global dos nossos antepassados unindo o civismo e a exigência à festa!

António da Cunha Duarte Justo
Porta-voz do Conselho Consultivo

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LXI


Sobreiros Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 81x94cm

Nesta pintura, deixei de lado as pinceladas carregadas de matéria em benefício de mais amplas superfícies cromáticas, inspirado nos ensinamentos de Gauguin. As árvores estilizadas e curvilíneas, pintadas com cores contrastantes, arbitrárias porque não identificadas com a realidade, servem para articular os diferentes planos, com o uso exclusivo da cor. O jogo cromático das parcelas de terreno, fica contido pelo obsidiante maciço de folhas verdes, que mal deixam ver um céu, cujo azul, mantém a tensão entre uma realidade exterior e a minha visão interior, na busca de uma paisagem sem data, nem local, forte, mas que seduza o observador com a sua rudeza tranquila.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tribuna do Povo


UM OLHAR CIBERNÉTICO
Por
Abdul Cadre 
Haverá quem duvide que o nosso cérebro, por si só, é despido de toda a memória, entendimento e vontade?
Eu estou em crer que este órgão complexo não passa de um codificador/descodificador das funções mentais, um emissor/receptor de pensamentos. Está no mais alto do nosso corpo como as antenas parabólicas estão nos telhados. É por isto que sempre me causou algum engulho ouvir dizer em certos meios que o ser humano só usa dez por cento do seu cérebro. Ora, sabe a ciência que isso não faz qualquer sentido. Quando ligamos um receptor de rádio, ele trabalha a cem por cento; ouvir uma estação em detrimento de todas as outras não diminui as funções do aparelho, apenas lhe caracteriza a atenção. Basta um pouco de raciocínio, usando todo o cérebro que nos coube, para concluirmos que todos nós, que cada um de nós usa a cem por cento e a todo o momento esse maravilhoso interface mental.
Ninguém dirá que um sujeito trôpego de andar só usa uma certa percentagem das pernas. Não. Ele usa-as a cem por cento, mas elas não têm a qualidade suficiente para se inscrever na maratona. Se não usarmos um determinado órgão, ele atrofia, mas dentro da sua atrofia ele estará no seu sítio por inteiro, até que desapareça, igualmente por inteiro…
Não é o órgão que faz a função, mas sim a função que faz o órgão. Se não fosse assim, os desportistas não treinavam, os estudantes não estudavam, ninguém cuidaria de se autovalorizar.
O cérebro não nos foi outorgado prontinho e acabado com uns quartos às escuras à espera da vinda do electricista. O nosso cérebro desenvolveu-se ao longo de milénios, correspondendo às necessidades da nossa evolução e em cada era sempre esteve a cem por cento, primeiro reptiliano, depois mamífero e agora hominal. A natureza serve-se muito da lei do menor esforço e da economia de meios.
As crenças e mitos mais comuns inerentes ao cérebro advêm, antes de mais, de se confundir cérebro com mente. Ninguém provou ainda que o cérebro pensa e, no entanto, é comum ouvirmos esta soberba afirmação: eu cá só penso pela minha própria cabeça. Ora, mesmo que se admita que o cérebro, chamado assim de cabeça, tem a faculdade de pensar, presumo que só um autista pensa exclusivamente pela sua cabeça, porque o natural e saudável seria pensarmos com o máximo de cabeças que conseguíssemos.
Nascemos no seio de uma determinada cultura e num dado ambiente que nos forma e condiciona. A própria língua materna se torna a pauta de pensarmos. Eis que um chinês não pensa como um brasileiro; o meu vizinho da frente não pensa como eu e eu pensaria de algum modo diferente do que penso hoje se o meu vizinho da frente fosse outro que não aquele.
Nos nossos dias, sabendo nós como funcionam os computadores, podemos tomá-los para analogia com o nosso próprio funcionamento, tendo sempre presente o seguinte: tudo aquilo que nós fazemos, inventamos, construímos, ou inclusive amamos, resulta de projecções, de exteriorizações de nós próprios. O homem acrescentou o seu braço agressivo com a invenção da espada e, achando-a curta, logo chegou à lança, à seta, à bala, ao míssil. Ampliou a memória com o computador e quer dotar o mesmo de inteligência artificial.
Mas vamos lá às comparações: admitamos, como defendem algumas filosofias, que o homem depende biologicamente duma energia universal que o penetra até ao mais íntimo das suas células (que muitos usam chamar de força vital) e que deve a sua consciência a uma emanação divina que se costuma chamar de alma…
Pois bem: no computador a alma chama-se software e é emanada dos deuses do Olimpo chamados programadores. A energia vital do computador vem da rede eléctrica, penetra no seu plexo solar, que é a fonte de alimentação, e espalha-se pelos seus órgãos e células. Por si só, o computador é uma máquina estúpida e inerte. O nosso cérebro também. O computador descodifica a matemática que lhe é própria como mente; o cérebro interpreta o que a mente lhe induz. O anjo da guarda do computador, que é o operador, liga-lhe a força vital, carregando no botão do «power» e faz correr a inteligência divina que é o sistema operativo. Depois, servindo-se das dispensas do Olimpo que são os diversos programas instalados no disco rígido, que é a subconsciência do sistema, põe-no a pensar velozmente. Na consciência, que é a memória de trabalho (RAM), o yin e o yang fazem a sua dança e até caminham pelo ciberespaço, se for caso disso, nesse artificioso campo morfogenético que chamamos de Internet.
Sou um anjo da guarda razoável, mas o meu computador portátil é um pouco fraco e um tanto trôpego, tem uma consciência muito limitada e o seu subconsciente deixa muito a desejar. É o seu e meu Karma. É por isso que ainda me sirvo de cadernos de apontamentos. Torna-se evidente que o meu portátil não serve para a maratona. Bem mais possante é o meu computador de mesa. Tem uma grande cabeça. Todavia, quer um quer outro, ambos trabalham a cem por cento, salvo qualquer vírus ou avaria que lhe afecte a mente ou lhe queime neurónios.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

INTIMIDADES



GUARDA-RIOS

A grande mancha de água que vai e vem com a respiração do oceano, ora deixando um lamaçal esporadicamente serpenteado por linhas de água corrente, ora luzindo pela acção do Sol ou reflectindo palpitares nebulosos em trânsito pela profundidade do azul atmosférico, líquido salgado que deforma a quase albufeira ao atirar-se pela planície dentro, em meandros formados pelo encontro da geometria de arranjos aquíferos e a fronteira natural saída da deposição dos elementos e da colonização vegetal, na pessoa das salgadeiras e variadíssimos pequenos exemplares das floras dos estuários mediterrânicos.
Em frente o céu descai por detrás de um alinhamento de copas sarapintadas pelas silhuetas tridimensionais de hangares plúmbeos, pequenos brinquedos pela força da distância, separadas das esbranquiçadas ondulações por um contínuo de verde.
À direita, do lado onde a aurora se manifesta, na enfiada de um casario multicolor que ladeia a comunhão da terra com o rio sobre uma espécie de abcesso de uma erodida ravina de argila crua, os esverdeados dos tufos arbóreos e dos campos de pasto e de cultivo, interrompem-se, aqui e ali, pelo efeito de um moinho de maré ou de casas quintãs, pluriformes e de cores diferentes.
Consoante vamos rodando, para lá do sapal, no fundo de miniatura, a mescla de casas térreas e prédios, geralmente baixos, um canteiro de torres além, outro acolá e, no fim do avistamento, serrania velha, toda ela verde que, no poente, é abruptamente suspensa pela perpendicular da mancha urbana da periferia e da grande capital, em que um braço industrializado se afoita em istmo pela superfície líquida.
O silêncio feito do arfar de Bóreas, materializado nas ervas e nas ramagens dos arbustos. Uma vez por outra, voos e berrarias de gaivotas, amiúde, piares vários, sobretudo de asas marinhas e, como ruído de fundo, quando a praia mar está distante, permanente e imparável, o fervilhar dos poros do lodaçal.
Aquando da Primavera, é ver o chão explodir em arroxeados minúsculos ou amarelos e brancos que salpicam os acastanhados e o negrume onde impera o verdume rasteiro e perdemo-nos das coisas civilizadas que, daí a pouco, novamente se nos imporão para o sufoco do circo quotidiano.
Mas, por instantes, não custa nada desligarmo-nos daquilo que nos atrofia. No cheiro que do solo brota e paira no ar, renovamos a carne e o espírito para aquilo que tem de vir.
E se, por acaso, nos deixamos ficar até que a abóbada celeste se alaranje, dias há, em cada mês, que podemos ter a sorte de ver o disco lunar amarelando uma esteira imaterial na calmaria de uma das serpentinas espelhadas do estuário.

Alhos Vedros, 26 de Fevereiro de 1996