terça-feira, 11 de outubro de 2011

INTIMIDADES


AQUI POSTO DE COMANDO DAS FORÇAS ARMADAS

Tanto para mim como para alguns amigos dos meus, a quinta-feira, vinte e cinco de Abril de mil novecentos setenta e quatro, foi um dia sem aulas.
Tinha então quinze anos de idade e, com isso, não se pense que eu era, de todo, um ignorante dessas coisas proibidas da política. Só pelo facto de ser nado e criado numa vila com história no movimento operário e oposicionista à ditadura do Estado Novo, dificilmente me passaria despercebida a existência desses tabus e, naturalmente, muitas seriam as probabilidades de lhes vir a conhecer os enredos. Mas, sobretudo, acontecia que os adultos da minha família não morriam de amores pelo regime e, se em frente das crianças se abstinham de algumas abordagens, muitas vezes deixavam sair os seus comentários e não era preciso ser lá muito esperto para se perceber os seus ideais liberais e democráticos. Em sessenta e nove, por exemplo, recordo a garrafa de espumante que o meu pai e o seu irmão mais velho abriram para comemorar a vitória da oposição na freguesia, ainda que a mesma tenha sido irrelevante. Lembro bem não só a alegria, como também o ambiente de silenciosa conjura com o que fizeram.
“-Vá lá cunhada.” –Invectivava o meu tio a minha mãe para que tomasse parte na comemoração. “-Bebe também um gole que, pelo menos aqui, aqueles tiranos não se ficaram a rir.”
Além do que para dois dos meus primos mais velhos, as rebeldias de juventude se confundiam com a frequência de certos meios, política e até socialmente pouco recomendáveis, tais como certas colectividades e cine-clubes, da região, onde pululavam os agitadores.
Mesmo com muitos dos miúdos com quem melhor me relacionava acontecia o mesmo. O Rui Madeira, com quem meses antes lera um livrinho de Jean Bruhat sobre Marx e Engels, tinha uma prima que estudava no Técnico, em Lisboa e que lhe falava daqueles nomes e de Lenine, da revolução russa e da revolução chinesa e depois dizia que os russos eram revisionistas pois tinham traído a causa do povo, como me explicava o primo, quando, por vezes, as conversas entre os dois versavam aqueles géneros de assuntos.
E até tínhamos aventuras nos nossos curriculum o que, no meu caso, bastava ser a frequência da casa de um doutor qualquer que residia no Barreiro e que, de quando em vez, atirava aviões de papel com mensagens subversivas pela janela do sétimo andar. Tenho a certeza que, da primeira vez, o olhei com a admiração de quem tem pela frente um autêntico Geraldo Sem Pavor.
Bem sei que para muitos foi o vinte e cinco de Abril um dia empolgante, em certos aspectos, quase diria épico. Para não falar daquela massa de gente que, em expectativa e apoio aos revoltosos, a partir do meio da tarde começou a invadir os cenários públicos da convulsão e, só para citar um nome, registo Francisco de Sousa Tavares que, no Carmo, em nome e em auxílio dos militares, incentivava o povo a permanecer calmo e em ordem, enquanto decorria a negociação para a rendição de Marcelo Caetano e, com ela, formalmente, a queda do regime. Antes de todos, em primeiríssimo lugar, está o Capitão Salgueiro Maia, quanto a mim, figura digna do panteão dos grandes heróis nacionais.
Tais são as memórias de quem assistiu, não em directo, como hoje em dia se gosta de sublinhar, mas ao vivo, ao derrube de uma tirania.
Sem embargo, no que me diz respeito, é como lhes disse, já não sendo um ceguinho quando a revolução dos cravos estalou, mentiria se aqui pretendesse outra coisa; o dia vinte e cinco de Abril foi, sobretudo, um dia sem aulas e nada para fazer.
O meu primeiro contacto com os acontecimentos foi um comunicado do MRPP que li, numa tarjeta, entre as muitas que estavam espalhadas pelos passeios. Como tinha aulas matinais no Liceu do Barreiro, costumava tomar a camioneta da carreira do Montijo por volta das sete e trinta e ainda não tinha compreendido a comunicação que alertava a população para o perigo de se envolver no que supostamente era um golpe dos ultras do regime capitaneados por Kaúlza de Arriaga, quando um rapaz de rádio ao ouvido me explicou que não se sabia bem o que era. A Emissora Nacional estava a transmitir música e de vez em quando liam um comunicado de um movimento das forças armadas, em que se pedia à população para permanecer calma e fazer a sua vida normal e em que se afirmava estar em curso um golpe militar para acabar com o regime. Chegado à escola, todo eu curiosidades, o Victor Matos, com um tio paterno a cumprir pena em Peniche, tratou de me avisar para ter cuidado que por ali andavam agentes da PIDE. Devo confessar que, mais tarde, apurámos que se tratavam de indivíduos que, ao abrigo da lei militar, se propunham a prestar provas para uns quaisquer exames.
Logo na primeira aula, alguns dos alunos bombardearam a Professora de Francês com perguntas. Ninguém deu matéria, o Professor de História chegou a falar no problema da guerra em África e, pelo fim da manhã, fomos todos para casa, dado o estabelecimento de ensino encerrar as portas para o resto da jornada.
De tarde lá me encontrei com uns quantos amigos que, tal como eu, tinham ganho um feriado inesperado.
É verdade que, ao princípio da noite desse mesmo dia, desfilou entre o Barreiro e o Lavradio uma manifestação de apoio e reconhecimento ao Movimento das Forças Armadas e à Junta de Salvação Nacional que iria provisoriamente governar o país e após o jantar, quando reencontrei os meus amigos na colectividade do costume, já todos sabíamos que tinha acontecido uma grande mudança política.
Contudo, nessa tarde, eu e mais dois ou três amigos, se não estou em erro o Rui, o Luís Carlos e o ZÉ Carlos Simas, passámo-la a jogar a um jogo que consistia em atingir com uma garrafa a garrafa de um adversário, vencendo aquele que partisse a do outro, com a regra que ditava, sempre que o nosso vidro tocasse o do concorrente, tínhamos o direito de repetir a jogada.
Quanto a mim, a curiosidade está no facto de ter sido a única vez que participei em tal género de jogatina.

Portalegre, 19 de Fevereiro de 1998

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Yoga, Alquimia e Sufismo (Apontamentos)


Yoga
O autor percursor do Yoga é Patãnjali, com os seus escritos “Yoga Sutras”, no século III (a.C.).
Objetivo principal do Yoga: o samadhi (iluminação).
Princípio absoluto: Todo aquele que vê muitos mas não vê o único, esse vagueia de morte em morte.
A regra de ouro: analogia entre o microcosmo e o macrocosmo.
Os sidhis: poderes que nascem no fundo do coração (telepatia, poder do olhar, voar, levitação, invisibilidade, apaziguamento das feras selvagens…), desenvolvem-se com o Yoga, mas podem ser obstáculo á iluminação…
Kundalini: a energia primordial, que se encontra na matéria densa , a “centelha divina”. “A serpente é despertada, eleva-se, e transforma-se em serpente emplumada…”. Superação da dualidade.
Obra com interesse: “Yoga, imortalidade e liberdade”, de Mircea Elíade.

Alquimia
Hermes Trimegisto é o pai da Alquimia ocidental. A “Tábua da Esmeralda” é o livro de Hermes que dá origem à Alquimia ocidental e islâmica.
Objetivos: transmutação, imortalidade, liberdade.
Vias iniciáticas: o conhecimento é transmitido só para alguns, em segredo, de Mestre para aluno.
A unidade primordial constitui-se pela essência de todas as coisas.
O laboratóro por excelência do alquimista é o corpo.
A Alquimia dos metais, a transmutação do chumbo em ouro – Purificação.
A aplicação dos elementos ativos da natureza definem o processo alquímico. Os 3 elementos fundamentais são o mercúrio, o enxofre e o sal.
Obra de referência: O Mistério das Catedrais, de Fulcanelli.

Sufismo
Sufis: os amigos da verdade, os construtores, os puros, os mestres, o povo do caminho, os amigos de Deus.
Sufismo: é dita como a corrente mística e contemplativa do Islão. Descreve um vasto grupo de correntes e práticas. Uma via de sabedoria. Por várias escolas islâmicas o sufismo é considerado um movimento herético. Muitos sufis foram perseguidos por grupos islâmicos mais tradicionalistas.
Principio absoluto: a unidade do ser. Só há um Deus. Procura a superação do espetáculo das formas sensíveis e dualistas.
Via iniciática: o Mestre é fundamental. O conhecimento como libertação. O Amor como instrumento do conhecimento (o Amor é uma saudade do saber de Alláh – Purificação).
Os Derviches, os sufis dançantes, são um grupo sufi que utiliza uma técnica de dança que se caracteriza pela rotação constante como uma forma de meditação em movimento.
Os Sufis também recorrem a mantras (sílabas fonéticas de ressonância interna, como a repetição dos nomes de Alláh) no seu processo de evolução espiritual.

Carlos Rodrigues

domingo, 9 de outubro de 2011

Quinta da Regaleira, Sintra, Portugal. 
Foto de lucas rosa

sábado, 8 de outubro de 2011

ECUMENISMO – CATÓLICOS E EVANGÉLICOS. Visita Papal - Um Ponto alto da Razão e da Fé


António Justo

Na discussão pública que precedeu a visita do Papa, o país de Lutero discutiu profundamente o que Bento XVI teria que mudar. Criou-se uma espectativa que ele traria uma “oferta” (reformas) no sentido duma protestantização da Igreja Católica. Temas como celibato, sacerdócio da mulher, comunhão, democratização das estruturas eclesiásticas, o abuso de menores, foram discutidos até à exaustão, principalmente por aqueles que não vão à Igreja e mantêm uma atitude anticatólica (revista Spiegel e outras). Também surgiram discussões sérias sobre necessidades de mudança. Criaram-se espectativas irrealistas porque estes problemas são assuntos de discussão a realizar no seio da Igreja. Além disso a Alemanha não é o lugar propício para proclamações papais. A discussão unira não só os críticos mas sobretudo os guerreiros ressentidos e intolerantes contra o Papa.

O teólogo Hans Küng tem defendido a formação duma “Coligação de teólogos, sacerdotes, leigos com bispos reformistas” esquecendo que na Igreja católica, orientada muito embora pelas cúpulas, as mudanças foram sempre provocadas pela base. Escreveu aos 5.000 bispos católicos do mundo mas não teve sequer uma resposta.

Naturalmente que a Igreja “sempre reformanda” precisa de contínuo aferimento ao mundo envolvente, sem medo, mas sem obedecer ao espírito do tempo nem a critérios meramente burocráticos. Os irmãos evangélicos já exercitam, em excesso, esse compromisso e não se nota que descrentes e católicos se tornem protestantes. Certamente são necessárias mudanças responsáveis, motivadas pela fé e pela misericórdia (1).

Facto é que os modelos de Cristianismo praticados pelas comunidades irmãs não se têm tornado em estímulos de mudança para a Igreja Católica de Bento XVI. O modelo protestante não convence à mudança do modelo católico porque apesar da adaptação evangélica aos movimentos seculares com democracia, pastores casados, ordenação de mulheres, pastores homossexuais, as suas igrejas ainda se encontram mais vazias que as católicas e a filosofia cristã não encontra maior ressonância no povo que nas zonas católicas, pelo contrário. Também por isto, o Papa não aceita mudanças no sentido duma protestantização do catolicismo nem que se reduza a discussão ao restrito ponto da moral sexual (2). O modelo de Igreja imperial como a anglicana (Commonwealth) também não convence pelo facto de não preservar a unidade de direito e doutrina. A Igreja ortodoxa russa parece demasiadamente comprometida com o poder político. Por outro lado, a região muçulmana com o seu rigorismo na moral sexual também não constitui um estímulo à mudança. Pelo contrário, a Igreja ortodoxa e o islão não sofrem das adversidades da modernidade pelo facto de se não terem aberto a ela, constatam muitos católicos.

Tudo isto, aliado a uma campanha secularista contra o Catolicismo não estimula Bento XVI a fomentar determinadas posições modernas do Vaticano II. Pelo contrário, passou a usar de novo a tiara no sentido da tradição antiga (símbolo do poder pastoral, sacerdotal e do magistério), possibilitou também a liturgia tridentina (nesta o padre celebra, em latim, para o povo e na pós-conciliar o povo celebra com o padre). Nesta fase da história o papa vê mais a necessidade de afirmar a igreja petrina esperando contudo que a mudança venha da fé.

Com a visita papal as ondas negras apaziguaram-se tendo-se ela revelado como ponto alto da razão e da fé, deixando os próprios críticos perplexos. Estes, embora insatisfeitos no que respeita às espectativas de reforma, manifestaram apreciação pelo que Bento XVI disse e fizeram referência à importância duma reflexão profunda sobre as suas palavras.

Bento XVI não abordou nenhum tema conflituoso. Concentrou-se nos fundamentos espirituais da igreja e da sociedade. Mostrou-se abalado pelos “escândalos na Igreja que escondem o escândalo da fé da morte de Cristo na cruz”.

Quanto aos protestantes, o Papa manifestou-se muito cordial; para além dos gestos simbólicos, mantiveram-se as diferenças. De facto, enquanto o protestantismo tem mais a ver com palavras e conceitos, o catolicismo tem mais a ver com imagens e mística. São ecossistemas sociais e geográficos diferentes. A Igreja Católica caracteriza-se por um pensar não tão elitista, mais global e universal, sentindo-se responsável tanto pelo hemisfério norte como pelo hemisfério sul, não se sentindo vocacionada a impor a visão do norte ao sul e menos ainda a visão duma igreja particular (alemã), como pretendem correntes teológicas europeias. A Igreja Católica sente-se chamada a ser mais o ecossistema da biosfera do que um biótopo.

Uma reforma da Igreja obedece a outros critérios que não a critérios políticos ou administrativos. O Papa respondeu indirectamente que igrejas não são grémios políticos. O barulho dos reformadores não deve esconder a falta de fé nem tão-pouco a pressão social de ser como os outros. No diálogo não se trata apenas de razão e de interesses mas de razão e de fé. Questões de fé não são negociáveis. “A fé dos cristãos não se baseia numa ponderação das nossas vantagens ou desvantagens”.

Enquanto se manifesta, na sociedade civil, uma tendência para fomentar o centralismo das nações europeias na União Europeia, e a expansão do globalismo, observa-se, por outro lado, uma crítica impiedosa ao centralismo do vaticano, a única comunidade global existente. Tenta-se responsabilizar o Papa não só pelo que ele deixa de fazer mas pelas consequências da secularização e dum modernismo “bastardo”. Com uma avaliação monocausal e tendenciosa, pessoas e correntes movidas apenas pelo imediato do fenomenológico atribuem a crise ao sistema romano procurando a solução apenas na remodelação do único sistema que se afirma como eixo e paradigma universal. A questão é fundamentalmente um problema de fé e de falta de identidade.

No encontro ecuménico, em Erfurt, Bento XVI advertiu: “O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era «aquilo que promove Cristo». Mas isto pressupõe que Cristo seja o centro da nossa espiritualidade e que o amor por Ele, o viver juntamente com Ele, oriente a nossa vida.” “Esta constitui uma tarefa ecuménica central. Nisto deveríamos ajudar-nos mutuamente: a crer de modo mais profundo e vivo.“ A secularização tem feito de muitos pastores e teólogos meros assistentes sociais, ou até triviais bombeiros reparadores duma sociedade de incendiários que vão da economia até à ciência e à cultura.

O ecumenismo não se pode limitar à discussão sobre reformas estruturais, o problema de hoje é um problema de identidade e de vivência. De resto, já o Mestre de Nazaré dizia: “Na minha casa há muitas mansões”.

O Pontífice mostra-se preocupado: “Não serão as tácticas a salvar-nos, a salvar o cristianismo, mas uma fé repensada e vivida de modo novo, através da qual Cristo, e com Ele o Deus vivo, entre neste nosso mundo… A unidade fundamental consiste no facto de acreditarmos em Deus, Pai omnipotente, Criador do céu e da terra; de O confessarmos como Deus trinitário – Pai, Filho e Espírito Santo. A unidade suprema não é solidão duma mónada, mas unidade através do amor. Acreditamos em Deus, no Deus concreto. Acreditamos no facto que Deus nos falou e Se fez um de nós. Dar testemunho deste Deus vivo é a nossa tarefa comum no momento actual.”

“Mas a fé dos cristãos não se baseia numa ponderação das nossas vantagens e desvantagens”. “Uma fé construída por nós próprios não tem valor. A fé não é algo que nós esquadrinhamos ou concordamos. É o fundamento sobre o qual vivemos. A unidade não cresce através da ponderação de vantagens e desvantagens, mas só graças a uma penetração cada vez mais profunda na fé mediante o pensamento e a vida”. “Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na própria vantagem?”

Realça a importância de se acentuar no ecumenismo aquilo que une na fé os católicos e os evangélicos. “A coisa mais necessária para o ecumenismo é primariamente que, sob a pressão da secularização, não percamos, quase sem dar por isso, as grandes coisas que temos em comum, que por si mesmas nos tornam cristãos e que nos ficaram como dom e tarefa. O erro do período confessional foi ter visto, na maior parte das coisas, apenas aquilo que separa, e não ter percebido de modo existencial o que temos em comum nas grandes directrizes da Sagrada Escritura e nas profissões de fé do cristianismo antigo.“

“ Porventura será preciso ceder à pressão da secularização, tornar-se moderno através duma mitigação da fé? Naturalmente, a fé deve ser repensada e sobretudo vivida hoje de um modo novo, para se tornar uma realidade que pertença ao presente. Para isso ajuda não a mitigação da fé, mas somente o vivê-la integralmente no nosso hoje. Esta constitui uma tarefa ecuménica central.“ Sim, doutro modo o catolicismo para ser moderno teria que andar sempre a correr atrás do protestantismo e este sentir-se-ia sempre na dianteira com a exigência de que o catolicismo se mude na sua direcção.
“Se o olhar se fixa nas realidades negativas, então nunca mais se desvenda o grande e profundo mistério da Igreja”.

Alude também à perplexidade de confissões históricas perante novas formas de cristianismo, muito dinâmicas mas “ por vezes preocupantes nas suas formas” tratando-se frequentemente de “um cristianismo de escassa densidade institucional, com pouca bagagem racional, sendo ainda menor a bagagem dogmática, e também com pouca estabilidade. Este fenómeno mundial põe-nos a todos perante esta questão: Que tem a dizer-nos de positivo e de negativo esta nova forma de cristianismo? “

“Em certo sentido, a história vem em ajuda da Igreja com as diversas épocas de secularização, que contribuíram de modo essencial para a sua purificação e reforma interior. De facto, as secularizações (expropriação de bens da Igreja, cancelamento de privilégios, etc.) – sempre significaram uma profunda libertação da Igreja de formas de mundanidade: despojava-se, por assim dizer, da sua riqueza terrena e voltava a abraçar plenamente a sua pobreza terrena”.

Falando da Igreja, o Pontífice recorda: «Eu sou a videira verdadeira»: isto na realidade, porém, significa: «Eu sou vós, e vós sois Eu» - uma identificação inaudita do Senhor connosco, a sua Igreja….” É consolador ler-se esta frase dum pontífice que é não só o grande intelectual/teólogo da época moderna mas também um místico. Nestas palavras por ele ditas pode sentir-se o surgir duma nova teologia que consegue passar do diálogo grego para o triálogo cristão. Nas liturgias que celebrou na Alemanha ele mostrou que é possível juntar intelecto e devoção a ponto de transformar eventos de muitos milhares de pessoas numa missa ou numa para-liturgia em momentos de alta devoção, de espírito recolhido e meditativo. Foi impressionante ver como milhares de pessoas se mantinham durante minutos em silêncio meditando nas palavras das suas homilias.

O Papa aponta para a vida cristã solicitando uma visão lúcida da mesma. Sim, não tem sentido esforçar artificialmente uma união dos cristãos quando a diversidade também é uma oportunidade de satisfazer diferentes rescritos de personalidade e de salvação. Os cristãos das diferentes mansões são irmãos e devem-se respeitar uns aos outros complementando-se. Quem critica por criticar ou julga com ressentimento/fanatismo não percebeu nada de cristianismo e menos ainda de fé cristã.

” Sei que muito se faz, da parte dos alemães e da Alemanha, para tornar possível a toda a humanidade uma vida digna do homem, e por isso quero aqui exprimir uma palavra de viva gratidão.”
O Santo Padre admitiu que a Igreja da sua terra natal “está optimamente organizada”, mas criticou nela “um excedente das estruturas em relação ao Espírito”. Talvez pelo facto dela se encontrar demasiadamente preocupada com os protestantes e demasiadamente preocupada com teologia e menos com espiritualidade. Já há muito tempo o Vaticano vê com relutância o facto de nas zonas cristãs de língua alemã se exigir um imposto dos cristãos para a igreja.  Também por isso, Bento XVI incita a Igreja alemã a comunicar do espírito alegre doutras regiões católicas. “A Igreja na Alemanha continuará a ser uma bênção para a comunidade católica mundial, se permanecer fielmente unida aos Sucessores de São Pedro e dos Apóstolos, se tiver a peito de variados modos a cooperação com os países de missão e se nisto se deixar «contagiar» pela alegria na fé das jovens Igrejas.”

O serviço da Igreja além duma componente de competência objectiva e profissional “exige-se algo mais, ou seja, o coração aberto, que se deixa tocar pelo amor de Cristo, e deste modo é prestado ao próximo, que precisa de nós, mais do que um serviço técnico: o amor, no qual se torna visível no outro o Deus que ama, Cristo.”

Admoesta os bispos e quem tem cargos a servir na humildade dizendo: «Jesus, que era de condição divina, não quis ter a exigência de ser posto ao nível de Deus. Antes, a Si próprio Se despojou, tomando a condição de escravo…» (Flp 2, 6-8). A Auto-realização é uma consequência duma tarefa e vivência e nunca um fim em si mesma.

“Não é a auto-realização que opera o verdadeiro desenvolvimento da pessoa – um dado que hoje é proposto como modelo da vida moderna, mas que pode facilmente mudar-se numa forma de refinado egoísmo. Bento XVI já antes dizia: “faz-se uma espécie de terapia ocupacional; procura-se para cada qual um grémio ou pelo menos alguma actividade na Igreja… Não precisamos duma igreja mais humana, mas sim duma mais divina, então ela também será verdadeiramente humana.” O papa, afirma com os padres da Igreja: ”Deus fez-se Homem para que o Homem seja divinizado”.

„Não são as palavras que contam, mas o agir, os actos de conversão e de fé…. Agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem desejo dum coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé.”
Expressou também o sofrimento dos cristãos que são hoje os mais perseguidos e intolerados no mundo: “Às vezes sentimo-nos como que sob uma prensa, à semelhança dos cachos de uva que são completamente esmagados. Mas sabemos que, unidos a Cristo, nos tornamos vinho generoso”.

Uma sociedade extremamente masculina que impôs a masculinidade também à mulher revela-se especialmente agressiva contra uma igreja onde a feminidade é guardada a nível de fé.
O momento histórico que momentaneamente se atravessa não é o mais propício a reformas profundas. O Papa aposta primeiro na reforma das mentalidades, na vivência da fé e critica os dignitários que não se guiam pelo espírito de serviço e amor.

Se a terra precisa do seu húmus  também a comunidade precisa do seu húmus e este é a humildade. Bento XVI explica: “a humildade é uma virtude que no mundo de hoje e, de modo geral, de todos os tempos, não goza de grande estima. Mas os discípulos do Senhor sabem que esta virtude é, por assim dizer, o óleo que torna fecundos os processos de diálogo, possível a colaboração e cordial a unidade. Humilitas, a palavra latina donde deriva «humildade», tem a ver com humus, isto é, com a aderência à terra, à realidade. As pessoas humildes vivem com ambos os pés na terra; mas sobretudo escutam Cristo, a Palavra de Deus, que ininterruptamente renova a Igreja e cada um dos seus membros.”

Apesar de todas as tempestades da história, a barca de Pedro tem-se mantido firme sobre as ondas do tempo e revela-se como a garante da continuidade desde os primórdios do cristianismo até á actualidade. Há que ser optimista e viver a alegria!

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
(1)      É verdade que o Papa funciona como uma espécie de constituição ou como o tribunal constitucional da Igreja. A sua preocupação não é muitas vezes a do padre que trabalha in loco. Aqui dá-se o encontro do pastor com a consciência individual pressupondo-se compromissos (casuística) que a nível de constituição não estão previstos (comunhão a separados, preservativo, não podendo tratar todos os divorciados da mesma maneira. Há muitos que sofrem sob o amor quebrado). A misericórdia é um característico cristão que abre muitas perspectivas pastorais.

(2)      Apenas um reparo sobre a hipocrisia do mundo: os pares querem fidelidade sexual e acham mal que o papa a exija. Críticos acusam o Papa de ser monarca ao escolher os seus ministros e aceitam como natural em democracia que o primeiro-ministro escolha os seus ministros. O discurso público não conhece a sabedoria cristã, apenas a sua moral ou os seus aspectos folclóricos. Para mais a sexualidade é um pequeno ponto entre muitos outros. As pessoas perdem-se nas proibições. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Encontros com Agostinho


AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª edição



CARTA IV

Meus Amigos

Devo dizer-vos, com toda a franqueza possíveis, que, ao contrário do que às vezes se julga, nunca pensei nada de completo, de coerente e de algum futuro, senão depois de ter reencontrado, por Jaime Cortesão e António Quadros, o chamado Culto Popular do Espírito Santo ou Culto do Divino. O que, para mim, não exclui, e por isso empreguei o reencontrar, que tenha eu próprio andado no tal século XIII, e marítimo de Algarve, pastor do Alentejo, ou já aburguesado no Pôrto, envôlto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo português sentir-se já num Paraiso a vir, e até num Paraiso mais seguro, porquanto sem tentações. Ou então a celebrar o Culto noutros tempos mais próximos, e noutros lugares, porque houve Brasil, com os que fugiam de Portugal, e houve América do Norte, com os emigrantes, o que me leva agora a desejar que tenha o Presidente Itamar, o tão de Minas Gerais, algum pensamento de lembrança, e, por muito diferente que seja a linguagem, sejam fieis ao mesmo anseio, os de uma Presidência Casada, Bill Clinton e Dona Hilária. Ou que mais longe, pelo menos em espaço, quem sabe se na China de Deng Xaoping, se esteja avançando para a junção de duas faces, ambas visiveis e tocaveis, de um corpo perpetuamente misterioso, existente e inexistente, uma face de economia e uma face de teologia, místicas e talvez matematizaveis as duas, mas sempre com nítidos e gerais efeitos práticos. Pôsto isto assim, e acreditando num Universo sacralizavel ou de que se descobriria o Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejavel inteira liberdade de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática. Como felizmente o posso fazer não ficarei com direitos de autor das Folhinhas, como não tenho ficado com os de outras publicações. São de todos os Amigos, as reproduzirão como queiram. Os tais quinhentos escudos serão só para o material e portes de quem as queira receber em casa. Sempre com muita pena de a correspondência ainda não ser gratuita. Mas, um dia, lá chegarão os CTT.

Lua Cheia de 8.3.93



P Á G I N A  D A S  O D E S  B R E V E S

Ode breve a Mestre Sócrates
filósofo das esquinas
enquanto os grandes senhores
preferiam salas finas

era de família humilde
e decerto obediente
mais encarreirada à lógica
que treinada em dar ao dente

guerreiro foi e gostando
de muita espécie de luta
e para subir ao céu
fez escada da cicuta

o que viu como verdade
sempre a todos ensinou
mas por fim com suas manhas
a política o matou

lá está lá estará
sempre só mas não sozinho
e livre de ordenar verso
ao servidor Agostinho

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LVII


Guarita Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 70x90cm

Já falei na beleza da travessia do Tejo numa daquelas embarcações a que chamamos cacilheiros porque fazem a viagem para Cacilhas. Julgo que pouca gente saberá donde deriva este nome. Conta a lenda, que no actual largo, estacionavam muitos burros esperando o desembarque dos passageiros interessados em fazer um passeio turístico por Almada. Quando angariava um cliente o dono do burro gritava ao seu ajudante “dá cá cilhas” para aparelhar o burro para o serviço. E assim terá nascido o nome Cacilhas.
Achei interessante o contraste entre a guarita abandonada e o elevador panorâmico da Boca do Vento (na altura em construção), que permite subir uma colina de 50 metros, sem nenhum esforço, para ver um soberbo panorama de Lisboa, a cidade das sete colinas. Era um dos locais onde eu ia à pesca antes das obras que transformaram o local numa zona ajardinada à flor da água, com restaurantes e esplanadas, para turistas.
O curioso sobre este quadro é que foi comprado por um espanhol e roubado ao seu proprietário no aeroporto de Barcelona.
Não sei se será de colocar no meu currículo: Já me roubaram um quadro!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

APENAS UMA FÁBULA (E não mais do que uma fábula)


Por
Abdul Cadre


Quando confinamos os nossos queridos pássaros às lindíssimas gaiolas que por bem lhes destinámos, que nos dizem os pássaros prisioneiros?
Quando, de olho atento e guloso criamos em apropriadas capoeiras bicos de rendimento garantido, se as aves pensam, que pensam elas enquanto medram?
Pode bem ser — imagine-se — que nós estejamos aqui aprisionados neste vasto mundo tal como aves de capoeira, nesta enorme capoeira que os Celestes imaginaram para nós…
Os Celestes?
Bom, como desafio à imaginação de quem nos leia, inventemos esta lógica: uma determinada raça galáctica, a quem o nome de Celestes assentaria como uma luva, por intenção ou devaneio artístico, numa passagem por este lado do universo, ter-nos-ia moldado em barro, tomando-se a si próprios como modelo.
Criados assim, não do nada, mas do chão, manipulados depois geneticamente sobre espécies já aqui implantadas, fomos então condimentados com uns pozinhos de estrelas e de sóis ou, dito de outra maneira, condicionaram-nos os Celestes com todas as suas grandezas e misérias, mas como foi do chão que nos ergueram, quando nos proporcionaram o sopro maior da vida, nós olhámos os céus e, julgando-os deuses, chamamos-lhes Celestes.
Quando os nossos criadores/tratadores entenderam que estávamos prontos e éramos o vaso apropriado para a recepção duma inteligência individual e duma consciência que de algum modo reflectisse a deles, assim providenciaram.
Um dia, faz muito tempo, tanto que nem temos referência nos manuais de História, talvez ao som de fanfarras e de cânticos, quem sabe se da música que Wagner mais tarde ouviu e nos deixou em pauta, partiram.
Os leitores menos optimistas e mais azedos poderão dizer que partiram cansados e desgostados com a obra, porém, fica muito espaço para se acreditar que foram em busca de outras urgências de vida por esse espaço fora, porque aqui o mais necessário ficava feito.
O que é certo é que do pacto — se pacto houve — nos deixaram o sinal da sua liberdade e ousadia: esta de fazer ou não fazer e, fazendo, ir além de quanto nos limita.
Tivesse sido assim e isto não fosse apenas uma fábula e ficaria desvendado o segredo do homem feito à imagem e semelhança dos deuses (ou de Deus). Isto explicaria também por que o homem se ergue aos céus e os seus mais próximos viventes — e até os pássaros — olham o chão e isso lhes basta.
Será que o nosso olhar reflecte a não definida saudade das estrelas e dos celestes que aqui passaram? Será por ela — por essa saudade — que nos nasce este desejo que vai inventando auroras adventícias de consolo e realização?
Entretanto, à nossa escala menor de deuses que se ignoram, nem sequer nos apercebemos que vamos manipulando plantas e animais da mesma forma que manipulados fomos, longe no tempo.
Nós não queremos que os nossos pássaros de gaiola e as nossas aves de capoeira sejam infelizes, só que a felicidade deles não é a nossa prioridade. Por isto, talvez não seja uma abusiva suspeita pensarmos que este nosso egoísmo e prepotência sejam semelhantes aos dos nossos antigos tratadores.
E não será excessiva imaginação prevermos que um dia iremos por aí, cruzando estrelas, livres, ousados fazer jus à nossa herança e ao nosso destino de manipuladores genéticos e disseminadores da inteligência cósmica.    

terça-feira, 4 de outubro de 2011

INTIMIDADES


QUE PENA TER SIDO?

Bem, devo confessar que também eu fui marxista-leninista.
Não que veja isso como uma mácula na minha vida, ou queira aqui fazer a confissão do meu arrependimento.
Simplesmente encaro esse facto de uma maneira diferente. Vejo-o apenas como um dos muitos momentos que em conjunto perfazem o percurso da minha existência e uma vez que passou, a esse nível, tão ou tão pouco importante como quaisquer outros, todos eles, por serem historiográficos, passíveis de racionalmente serem encarados e compreendidos.
É verdade, também eu fui marxista-leninista.
A afirmação é digna de registo pelo facto de eu ser e, provavelmente, sempre ter sido o oposto daquilo que poderemos destacar como o estereótipo do indivíduo feito à luz dessa cosmovisão e, mais relevante, dado as minhas ideias fundamentais sobre a vida da humanidade e até os mais decisivos valores com que parto para enfrentar as marés do quotidiano serem completamente incompatíveis com os pressupostos daquelas correntes políticas.
Olhando para trás com o alcance e a nitidez que a memória consente, posso identificar uma tríade que é constante nas minhas preocupações. Com efeito, encarando as alterações, na sua formulação, como o resultado directo do meu crescimento intelectual, basicamente permanecem as referências da liberdade, da solidariedade e do compromisso de combater a pobreza. Verdadeiramente, sempre foram estas as minhas principais motivações para eventuais movimentações cívicas de carácter político ou não. Seja como for, mentiria se o negasse ou fugiria à realidade se omitisse aquela opção pretérita.
Como um sujeito com índole e educação abertas, isto é, não assentes em dogmas nem em outras cartilhas que não alguns valores tidos como justos e bons, como uma pessoa assim pode ter querido ser comunista –isto para utilizar aquela fraseologia do marxismo-leninismo clássico ou seja, aquele que, vindo na tradição do bolchevismo da revolução russa, optou pelos pontos de vista chineses por ocasião do cisma que o vigésimo congresso do Partido Comunista da União Soviética provocou no movimento comunista internacional- eis uma pergunta interessante, possivelmente capaz de propiciar respostas com aplicações exteriores ao próprio indivíduo.
Porque fui marxista-leninista? Porque aderi ao marxismo-leninismo?
Ora, porquê… Fui. Para mim é tudo quanto basta. Não me preocupo muito com essas razões. Fui, deixei de ser e acabou-se, ponto final. No que de pessoal contenha, nunca me pareceu chão que desse muita uva. Mas fui, tinha então quinze, dezasseis anos de idade, entre os meses de Outubro Novembro de setenta e quatro e a Primavera do ano seguinte, quando por essa ordem aderi e rompi com a referida ideologia.
Foi com a minha participação na comissão cultural da Vélhinha, entre meados de Maio e o fim do ano de setenta e quatro que eu concretizei aquela adesão. Embora tenha sido o Rui Madeira o principal mentor e impulsionador daquela comissão, desde cedo se formaram duas correntes distintas que partiam de pressupostos diferentes e, em conformidade, propunham planos de trabalho diferenciados. Ao fundador que achava que a comissão cultural se deveria empenhar em apresentar realizações recreativas e de índole cultural para os sócios da colectividade, opunha-se o Henrique Cantante, jovem trabalhador nos Telefones de Lisboa e Porto, para quem a comissão deveria ter um carácter essencialmente político, pelo que os seus membros teriam maior utilidade se se dedicassem a actividades de esclarecimento político e ideológico, acrescentava o Zé Martins que o secundava em tudo.
Sem o meu apoio e de um outro Madeira, o Rui José, as opiniões que preponderavam eram as mais radicais.
Corolário da gracinha, recordo um convívio dançante, numa tarde de Domingo, abruptamente terminado em nome do combate aos comportamentos e hábitos burgueses, seguindo-se-lhe uma sessão de cantigas revolucionárias em que o agitador cantou desafinadamente a canção “Fogo”, de Tino Flores.
Contudo, nessa efervescência deu-se o meu abraço à ideologia redentora.
E, na verdade, tudo parecia conforme com os meus mais profundos desejos. Pois não falavam os camaradas chineses em liberdade de pensamento e de crítica e não era em nome dessa liberdade que eles, a respeito do melhor caminho a seguir pelo socialismo, divergiam dos comunistas russos? E, afinal, pelo mui importante facto de aí acabar a pobreza, não era o socialismo uma sociedade mais avançada e mais justa que a democracia ou, como se dizia nesses dias ainda não muito doutrinados, a simples democracia? E que dizer da liberdade, esse paradigma, não seria só possível quando todos tivessem as mesmas condições para singrarem na vida? Lá havia a revista “Nova China” e o “Pequim Informa” para o confirmar e nos mostrar como o socialismo tinha feito milagres e, para além disso, toda uma série de publicações pirata que bem claro deixavam como os trabalhadores, ali, vivam num autêntico paraíso.
O resultado foi o tal mergulho.
O que posteriormente fui encontrando era a hipocrisia de muitos dos militantes mais responsáveis –ele havia o Gracioso que fechava a mulher em casa e saía para a vida do partido, onde, além das pichagens, colagens e afins, procurava molhar o bico em qualquer situação que vislumbrasse poder entrar água por baixo da suas pernas.
Pior, para meu espanto, era a completa falta de liberdade e o reconhecimento que aquela gente pouco ou nada se importava com a melhoria da qualidade de vida dos pobres, incomodando-os mais as riquezas da minoria privilegiada e, como então muitos deles acresciam, parasitária.
Isto dando de barato o policiamento dos comportamentos pessoais, o que, no meu caso pessoal, poucos constrangimentos me trouxe pela simples razão de jamais ter militado em qualquer dos agrupamentos políticos de um tal quadrante.
Assim vim a entrar em ruptura e pouco depois a abandonar o marxismo-leninismo.
Na época, recordo-o bem, durante um curto período de alguns meses, poucos, ainda considerei a hipótese de me tornar anarquista, mas nunca cheguei a sê-lo.

Alhos Vedros/Alvalade do Sado, 14 e 15 de Fevereiro de 1996

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Era assim antigamente no sertão...

Aos amigos 

Uma pequena crônica sobre a nossa região. 
Nota: A História é antiga e verdadeira. Os nomes fictícios.

Um abraço
M. Eduarda  

Foto: Uma fazenda do Triangulo Mineiro ( arquivo particular )


Naquele final de tarde poeirento e ventoso de agosto, em alguma parte do Triangulo Mineiro, um cavaleiro esporava seu cavalo, até sangrar, numa corrida doida por uma estrada de terra do sertão. Mais uma vez, após uma discussão com a jovem mulher, motivada por infundados ciúmes, dera-lhe uma tunda de criar bicho, sob as esquivas e protestos de inocência dela. Agora, procurava-a, após saber que abandonara a casa que era dos dois.

Mariinha, como era carinhosamente tratada, havia casado contra a vontade da família mesmo sabendo que Jerônimo, capataz da fazenda do Coronel Julião, era um frio bugreiro, apesar da fala macia e da agradável estampa. Julgava que o amor que lhe dedicava o transformaria num peão aquietado ou num lavrador pacato.  Mas se enganara e naquele dia, toda machucada, cansada de tanto apanhar pelas mínimas coisas, buscava a proteção dos pais. A casa deles  ficava atrás da venda, na beira da estada que levava à fazenda do patrão do seu marido.

Corria o inicio do século XX quando aquelas terras vermelhas de massapé eram ocupadas por fazendeiros, senhores todo-poderosos do lugar, capatazes, empregados e agregados, todos a eles submetidos por laços de parentesco ou poder.
As grandes fazendas eram verdadeiras comunidades com casas, mercearias, barbearia, capelas, eiras, silos, até estações de estrada de ferro. Primeiro chegavam os bugreiros “limpadores” de espaços, depois os fazedores de terrenos para plantar e criar gado. Mais tarde os pequenos comerciantes se instalavam com suas vendas e botecos na beiras dos caminhos oferecendo pinga e mercadorias variadas aos habitantes do lugar.

Enquanto Teodoro, irmão mais velho, e Joel, irmão caçula, atendiam os sertanejos que, após a lida, se reuniam para saber das noticias, fazer negócios, ou beber uma caninha, Mariinha contava aos velhos pais a sua desdita.
A noite caia quando Jerônimo chegou. Com o cenho fechado, entrou no boteco dos cunhados, pediu uma pinga e perguntou pela mulher, já desconfiado que ela estivesse lá, na casa dos pais. 
Cauteloso, Teodoro esperou que ele tragasse a branquinha e pausadamente disse-lhe que ela não queria voltar para ele. Os olhos de Jerônimo escureceram. Pousou o copo na bancada de madeira, levou a mão à cintura, afastou o paletó e deixou que o cunhado visse a pistola na cartucheira. E, como se nada tivesse ouvido, ameaçador, pediu que  chamassem a mulher. Queria “tirar” uma prosa com ela. Conhecedor do gênio instável do rapaz, Teodoro mandou o caçula buscar a irmã, que apesar do medo resolveu enfrentar o companheiro e dar um basta à triste união.  
Como por encanto, antevendo a desgraça, os fregueses  desapareceram ficando na venda os irmãos e o marido valentão.  
Ao ver a mulher,  seco, Jerônimo ordenou que voltasse para casa, enquanto Mariinha protestava, dizendo que o relacionamento deles estava acabado. Não voltaria, não! Enfurecido, agarrou-a pelo braço, arrastou-a para fora da venda,  e atirou-a ao chão. A lua cheia, clara, iluminava o ambiente como uma cena trágica, grega, num palco de teatro.  Puxou a arma e ameaçou:
Ou voltava pra casa ou dava cabo dela ali mesmo. Jerônimo não teve tempo de ouvir a resposta, tombou inerte, alvejado por um tiro certeiro nas costas. Teodoro vendo a irmã acuada, indefesa, não titubeou, tirou a pistola que guardava carregada atrás do balcão e atirou no cunhado.

Como um relâmpago, a noticia da morte de Jerônimo chegou à casa grande. O Coronel Julião, prontamente dirigiu-se ao local da tragédia e se inteirou do fato. Mandou chamar o delegado, seu protegido e afilhado, e seguro determinou que Joel fosse preso sob a acusação de assassinato do seu capataz.
O trato já havia sido feito:
Como Teodoro era pai de três crianças pequenas que dependiam dele para sobreviver, o Coronel, que também era padrinho de Teodoro, acertou que Joel, bem mais jovem e sem família para criar, responderia pelo crime do irmão. As testemunhas, empregados do fazendeiro, aquiesceram com receio de contrariar o patrão, e assim foi feito. Joel foi preso, julgado e condenado no lugar do irmão por ordem do fazendeiro!
Era assim naqueles tempos no sertão...

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 15/09/11

domingo, 2 de outubro de 2011

Fernando Terra

Caros amigos, colegas e imprensa,

Tenho utilizado a plataforma SoundCloud para divulgar minhas músicas online.
Todas as semanas eu adiciono uma música diferente e todos podem acessar e ouvir.

Agradeço desde já o vosso apoio, não apenas em ouvir os temas, mas também em divulgá-los entre os seus amigos e contatos.

Um abraço grande e até breve!

*Para ouvir, basta clicar nos títulos das canções (CLICAR AQUI)

FernandoTerra
ITÁLIA: +39 377 2044087

sábado, 1 de outubro de 2011

Corpo 214



respira ainda a lágrima seca
contra o peito a lágrima engrossa
sem mar, cripta de ouro e prata


dói e respira a seca lágrima
mesmo junto ao telhado onde
a mágoa se espalha - como um 
deserto de areia fina


corre nada disto é fado
ao colo do cavalo
atravessa clara
a serra


José Gil
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO


As Últimas Cartas do Agostinho
2ª edição

Carta III

Caros Amigos

Tem cada uma êste Convento! Calculem que decidiu, e estou pronto a obedecer, que as folhinhas dactilografadas são de inteira responsabilidade do Agostinho; que seria bom publicá-las em séries de dez em cada doze meses, a distribuir por tôdas as pessoas que enviem 500$00 por série, ou o correspondente em moeda estrangeira, (e como é que o coitado do Agostinho, que não é de modas, se vai entender com isso de “écus”), ou directamente ao responsável ou à conta 7968218/001 da Agência do Príncipe Real, Lisboa 1200, do Banco Totta & Açores, exceptuando-se apenas os interessados que tenham de algum modo ajudado o Convento. Tudo isto deve entrar em vigor quando for publicada a Folhinha de Abril 93.
Quanto ao que se poderia chamar de Política, está o Convento pronto, como deve, a cumprir tudo o que caiba ao País dentro do direito nacional e internacional, com liberdade de exprimir opiniões em cada caso, assumindo, por outro lado, dois compromissos seus a que deseja incitar todos os Portugueses, sendo um o de educar a Europa Transpirenaica, outro o de que venha constituir-se como uma Confederação ou coisa parecida de tôdas as Nações de Língua Portuguesa, e não só as Africanas, sendo um dia Portugal seu representante na Europa Comunitária. Este projecto de entidade internacional inclui Timor enquanto existirem os desentendimentos ou conflitos actuais.
Querem também que eu anuncie que já comecei a desenhar um TERRAÇO Africano, chamado MONOMOTAPA, que inclui uma organização de base étnica em tudo o que se refere à costa ocidental sôbre o Atlântico, e, do lado do Índico, semelhante ao, digamos Império, que os Portugueses descobriram a partir do século XVI, depois de estabelecidos em Sofala. A África do Sul fica com regime repartido entre um e outro, pensando todos, dum litoral ao outro, que fique nítido que o ideal de futuro é o da cultura do Povo Português nos séculos XIII e XIV.

Lua Nova de 22.01.93


  
Ode breve ao Antoninho
que havia no Santo António
e namorava nas fontes
sem dar entrada ao demónio

e que organizava orquestras
feitas de gaitas de foles
e tambor passo de marcha
para animar os mais moles

arma então uns bailaricos
de moços e raparigas
não batiam castanholas
aos males faziam figas

viveu um tempo em milagre
dos mais belos o mais belo
olhando a sua cidade
das arribas do Castelo

mas só lhe foi o mais próprio
Largo de Santo Antoninho
onde morou há quanto ano
seu servidor Agostinho

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LVII


Harém Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 70x80cm
(clique sobre a imagem para ver pormenores)

Hoje quero apresentar-lhes, Rocky, um macho adulto da raça Rottweiler, e as suas companheiras Bianca e Chippie, da raça Husky siberiana. Rocky é, como os seus antepassados oriundo da região de Rottweil, na Alemanha, um defensor dos seus amos e das suas propriedades, com grande disponibilidade para a brincadeira e o trabalho. As suas companheiras, são completamente diferentes no seu comportamento: Bianca, de frente para a câmara, é uma fêmea chefe de matilha, que se lhe derem uma oportunidade, desaparece, levando consigo, Chippie, que segue fielmente a sua líder.
Para esta composição, foram tiradas algumas dezenas de fotos, com os cães isolados ou interagindo. No conjunto, parece-me estar retratada a personalidade de cada um dos animais: Rocky, macho dominante, a vigiar as companheiras, Bianca, chefe de matilha, a olhar desafiadora para a câmara e Chippie, a doce...
Feitas as apresentações, quero chamar a atenção para um pormenor que penso fazer toda a diferença. A tela, apesar de bastante povoada, dá a sensação de espaço, essencial para que os elementos que interessam, os cães, respirem livremente. A grande mancha verde da relva na parte inferior do quadro, foi para o observador ficar com essa impressão. Sobre as cores e contrastes, julgo que já sabem tanto como eu...
Este quadro, serviu-me para ilustrar uma crónica que foi recentemente publicada, que dizia assim:

VIDA DE CÃO

Noutro dia, estava deitado no jardim a conversar com o meu cão, tentando explicar-lhe as razões que me levam a invejar as pessoas que são capazes de falar de coisas complicadas que não controlam, como por exemplo o poder do dinheiro, com a mesma segurança e certeza com que, noutros tempos, se pensava que a Terra era o centro do Universo e o Sol girava à volta dela.
- E não gira? - Ladrou-me, interrogativo e, simultaneamente, irónico.
Não lhe respondi, claro. Ele, bem o conheço, estava a brincar.
- Com o passar dos anos - continuei - raramente tenho certezas e cada vez mais me engano. Sou capaz de escolher um programa de televisão, sem qualquer problema, porque não é uma escolha grave: a qualquer momento posso desligar!
Abanou a cabeça a concordar e, simultaneamente, a sacudir as moscas.
- Já não me sinto tão tranquilo quando vou votar: se me engano, só posso mudar de canal passados quatro ou cinco anos!
A sua boca abriu-se de espanto e, simultaneamente, bocejou.
Prossegui no meu raciocínio.
- É o mesmo grupo que quer controlar o que devemos ver, ouvir, apalpar, comer, cheirar, na internet, televisão, cinema, cartazes, revistas, jornais, no rádio ou discos, nas relações sociais ou sexuais, nas peixarias, talhos, praças, restaurantes, como se fôssemos atrasados mentais, mas que, ao mesmo tempo, nos consideram arautos de um mundo novo, com o mais risonho dos futuros, só porque tivemos a maturidade (dizem) de votar neles. Será que esta gente, não tem medo do ridículo?
A sua pata direita, fez-me sinal para travar o discurso e, simultaneamente, aproveitou para coçar a orelha. Ladrou-me:
- Vou contar-te uma calenda (lenda de cães) da minha família, cuja pergunta final é, simultaneamente, a resposta à tua dúvida.
E ladrou-me a história enquanto eu, simultaneamente, lhe sacudia as moscas.
- “ O avô do bisavô, da filha da minha bisavó, era um cão muito feroz. Toda a gente fugia dele com medo. Um dia, os homens fartos de tanto sofrer, foram queixar-se ao Deus-Cão.
Depois de os ouvir, Ele proibiu o avô do bisavô, da filha da minha bisavó, de morder nas pessoas.
A partir desse dia, todos se vingaram do mal que ele lhes tinha feito: os mais velhos batiam-lhe, os mais novos atiravam-lhe pedras, davam-lhe pontapés.
O meu antepassado, não suportou aquela desgraçada vida de homem e foi queixar-se ao seu Deus, achando que era injusta aquela sentença e exagerado tão grande castigo.
Depois de o ouvir atentamente, o Deus-Cão, perguntou-lhe, com um sorriso bondoso:
- Eu proibi-te de morder nas pessoas. Acaso proibi que ladrasses? ”
Quando me preparava para lhe perguntar qual a moralidade da cábula (fábula de cães), ele desatou a correr atrás dum gato e, simultaneamente, eu acordei.
Ainda hoje não sei se há moral.
Eu, o cão e a moral… que troika!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Jurisprudência lusófona da África e Ásia

Sugestões de leitura, na Rede Mundial de Computadores, para o estudo da jurisprudência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e da República Democrática do Timor Leste:
— Angola
— Cabo Verde
— Guiné-Bissau

Salvo melhor juízo, o Supremo Tribunal de Justiça e os demais órgãos do Poder Judiciário de Guiné-Bissau, até a presente data (20/09/2011), não possuem sítio oficial na internet.
— Macau
— Moçambique
Tribunal Supremo de Moçambique (base de dados não oficial, disponível no portal SAFLII - Southern Africa Legal Information Institute)
— São Tomé e Príncipe
— Timor-Leste
— Mais sobre o assunto:
Pesquisa realizada por Hidemberg Alves da Frota em 18/09/2011, atualizada e revisada em 20/09/2011.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

INTIMIDADES


OS ÁGUIAS FUTEBOL CLUBE

A equipa, essa, formou-se pelo correr do tempo. Era um bando de miúdos que soía pousar numa das praças da vila, onde, entre outros jogos, com ou sem apetrechos mais que os corpos, era o futebol o que mais empolgava a pardalada que a ele se entregava de alma e coração, sem memória de necessidade de marcar encontro.
Aquilo funcionava mais ou menos assim. Com uma bola disponível num café vizinho, cujos proprietários tinham um filho que pertencia à trupe, os primeiros a chegarem ao pelado tratavam de agarrar no brinquedo para, de imediato, se entregarem aos chutos e às fintas.
Era Sol fugidio. Magicamente atraídos pelo cheiro da comida lá aterravam outros que se iam incorporando na jogatina, assim fazendo inchar as turmas até que um número razoável suscitasse a escolha das partes e, tudo feito segundo as regras, propiciasse o início do desafio do dia.
Não vou dizer que fosse o futebol o principal motivo daquele hábito de ali desaguarem tantos petizes. Na verdade, a maioria eram gaiatos de rua, isto é, sem qualquer sentido pejorativo, ganilha que por falta de condições domésticas eram forçados a passaren os seus tempos lúdicos fora de portas e, não só pela lei do menor esforço, não se decidiam a ir mais longe pelo que daquele largo faziam o seu ponto de encontro.
É certo que ao lado havia o jardim público da vila. Mas aí mandava o tio Epifânio, o encarregado da Junta de Freguesia pelo bom estado dos canteiros de flores e ele, o velho Bifanas, como os acessos de raiva faziam, entre nós, chamar-lhe, todo poderoso, jamais hesitava quanto a espingardar as correrias e, com isso, a excomungar veleidades, especialmente nocturnas, dada a iluminação, de utilizarmos os bancos como balizas para joguinhos de dois ou três sem guarda-redes.
Em todo o caso, era o desporto rei o preferido, não quero exagerar mas talvez o único a gerar unanimidades e apesar de todos os problemas a ele ligados, dos puxões de orelha, por via das queixas relativas a uma ou outra vidraça quebrada, aos esféricos apreendidos pelo poder dos mais velhos, apesar dessas vicissitudes, dizia eu, era o único jogo que nunca passava de moda e, ao contrário dos berlindes ou do peão, cada qual com épocas específicas, era aquela uma actividade que de sazonal nada tinha.
E, diga-se com justiça, até as miúdas gostavam de ver aqueles rodopios em busca do golo e quantos homens não pararam para admirarem os engenhos daqueles Eusebiozinhos.
Foi pela experimentação dos talentos e a descoberta das habilidades que as posições se foram definindo e não andarei longe da realidade se aqui escrever que, pelo menos à primeira vista, reuníamos um bom conjunto com todos os lugares preenchidos a contento.
Modo geral, todos éramos capazes de fazer fintar –como seria de esperar, uns mais desembaraçados que outros- e de passar as bolas à distância, tal como estávamos capacitados para remates de primeira ou a elaborar um centro minimamente aceitável.
Tínhamos horas e horas de treino diário que de nós faziam autênticos mouros de trabalho.
Para que não mace, entre os artistas escolherei apenas alguns. Dos outros, eventualmente poderei falar a propósito de outras coisas e em outras ocasiões.
O Almeida Dias, por exemplo, um lateral direito que em alguns momentos do jogo fazia de extremo e, geralmente, conseguia umas quatro ou cinco jogadas em que aparecia a centrar para a cabeça ou a bota de algum dos avançados ou de quem lhes vestisse a pele.
O Almeida Dias que foi precoce no abandono dos estudos e cedo entrou no mercado de trabalho, exactamente o mesmo que desde o princípio quis ser homenzinho e antes de todos deu o nó, sequer sem ter sido militar, aquele que hoje, depois de um começo como aprendiz, tem um negócio de tipografias que lhe oferece um padrão elevado.
Isto sem deixar de recordar o Toninho Careca, vá lá saber-se porquê a alcunha, o culpado de todas as derrotas, o guarda-redes por graça de cujas aselhices perdíamos e que na sua passividade de santo era esquecido em todos os momentos de glória.
António Manuel Azevedo Malveiro, o homem com a mão mais temível para jogar ao “palmo e cagada” (1), filho do dono do café, em tempos, ele próprio guardião de uma primeira equipa do Peniche, o Toninho que nada ligava à escola de que desistiu para ganhar a vida como empregado de balcão numa velha pastelaria da baixa pombalina, o keeper cujo ponto fraco eram as saídas, já que entre os postes tinha tiradas de se lhe tirar o chapéu.
Ou o Rui Madeira, o guias brancas, um mandrião com pés de ouro, verdadeiro exemplar do menino que acabou perdido em aventuras de Alibabá, vulgarmente um excelente armador de jogo de cuja arte saíam muitos dos golaços que nos faziam pular de alegria.
Pois foi com esse fermento que a equipa foi evoluindo para um clube.
Assunto sério, só poderia ter sido levado a peito e elegemos presidente e tudo, o Zé Augusto, o mais velho de todos e reconhecidamente considerado um indivíduo inteligente e responsável que, depois da escola industrial, entrou como operário para a Quimigal onde hoje ainda ganha o pão de cada dia.
Mas havia mais, muito mais.
O Luís Carlos, filho de comerciante em permanente abastança, possuía um sótão só para ele e as suas fantasias e, como é bom de ver, facilmente a camaradagem fez daquele espaço a sede do clube, onde, para além de alugarmos jogos uns aos outros o que só os mais afortunados pagavam, podíamos ostentar, numa prateleira, algumas taças pelo Toninho subtraídas às memórias paternas e que serviam para intimidar as visitas.
Posso mesmo evidenciar a realização de um torneio entre quatro times da freguesia que, sem o sabermos, acabaria por determinar a extinção do nosso, em função da selecção que o segundo lugar por nós alcançado provocou com a saída dos melhores de nós para os campeões.
Não foi isso que apagou aquela bianuidade de grande satisfação e orgulho com aquele a que todos os fundadores, em espontânea e esmagadora maioria que seria unânime não fosse o sportinguismo do Toninho, decidiram baptizar por “Águias Futebol Clube”.

Alvalade do Sado, 12 de Fevereiro de 1996