sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Livros d'África














RYSZARD KAPUSCINSKY  (1932, Pinsk – 2007, Varsóvia)

Nas últimas semanas que antecederam o 11 de Novembro de 1975, data da independência de Angola, este polaco era o único jornalista estrangeiro presente naquele futuro país. Acompanhou e registou a partida dos portugueses, o quotidiano de Luanda com a batalha de Kifangondo, ali tão perto, a progressão do exército sul-africano até Benguela, a resistência das mal armadas mas motivadas FAPLA, a chegada dos militares cubanos e, finalmente, a proclamação de independência pelo presidente Agostinho Neto.
A este registo, que é dos melhores que li até hoje sobre os últimos dias da descolonização, chamou “MAIS UM DIA DE VIDA – ANGOLA 1975” e foi publicado pela Editora Campo das Letras em 1997. Salman Rushdie disse sobre esta obra: “através da sua mistura extraordinária de reportagem e arte, chegamos tão perto quanto é possível, através da leitura, do que ele chama a imagem incomunicável da guerra.”

Quando pegamos neste livro só o largamos depois de lido. A sua escrita é quase cinematográfica e essa é uma das particularidades que nos prende. A descrição da “cidade de madeira”, como ele chama a Luanda por altura do frenesim do encaixotamento dos bens dos colonos, é notável.Alguns caixotes eram tão grandes como casas de férias, porque se tinha estabelecido, de um momento para o outro, uma escala social de caixotes. (…) As pessoas deixaram de pensar em termos de casas e apartamentos e falavam somente de caixotes. Em vez de dizerem: - Tenho que ir ver o que tenho em casa – diziam: - Tenho que ir passar revista ao meu caixote.”. Essa cidade, um dia, fez-se ao largo e só descansou na Europa…
Luanda ficou vazia. “Os cães estavam vivos. Viam-se cães de todas as raças, (…) abandonados, perdidos, percorriam a cidade em grandes matilhas, à procura de comida.”. Essas matilhas persistiram enquanto a tropa portuguesa as alimentou com rações da NATO. “Um dia desapareceram. Acho que seguiram o exemplo humano e deixaram Luanda, já que nunca deparei com um cão morto. (…) Depois do êxodo dos cães, a cidade caiu em rigor mortis. Por isso, decidi ir para a linha da frente.”.

Esta é uma obra (ainda) de urgente leitura.


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

QUARTO DA INÊS
 


LUÍS DELGADO

Óleo sobre Tela 60 x 70
 
 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

QUANTO VALE UMA PESSOA?


Porque é que o dinheiro tem mais valor que a pessoa?

Quanto vale uma pessoa no mundo capitalista de hoje?

Se eu fosse acionista de mim próprio quanto valeria nos mercados?

Se fosse à falência enquanto pessoa e tivesse que pedir empréstimos para me pagar a mim próprio, quanto pagaria de juros?

Se estivesse próximo da insolvência poderia comprar dívida de outra pessoa a juros mais baixos para ajudar a pagar a dívida da minha pessoa?
Não percebo nada de finanças e muito pouco de pessoas e consta que Deus não tinha contabilista. Parece-me que as coisas do dinheiro não poderão estar acima das culturas, dos povos e das crenças. Será que estou a pensar bem?
Se hoje em dia tudo é negócio e negociável, gostaria de saber se existe alguma margem negociável de me tornar solvente e como fazer para entrar nos mercados. Como será que isso funciona no mundo de hoje?
E em caso de resgate da minha pessoa que Troica poderá intervir para me valorizar (atribuir valor material, monetário) e definir os juros a aplicar.
Em suma, quanto vale uma pessoa? E eu? Eu, ser particular, existente concreto (dassein), quanto terei de valor nos mercados internacionais e quanto devo, para além das dívidas que contraí junto do meu banco e do supermercado para poder viver numa casa e comer todos os dias?


PEDRO VARGAS
MFI (Movimento das Forças Interrogativas)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



É preciso ter muito cuidado com as generalizações pois corremos sempre o risco de elas virem a ser, como tantas vezes acontece, abusivas. Eu sei que não podemos extrapolar a partir de um único caso particular mas, se alguma coisa poderemos concluir do que temos vindo a assistir nesta minúscula partícula que é a nossa comunidade do Vale da Esperança, é o facto de estarmos a observar um pequeno universo que eventualmente até poderá ser representativo daquilo que vai sucedendo na sociedade portuguesa nestes dias tão estranhos e simultaneamente tão intensos que decorrem à nossa volta. Aceitando o pressuposto de nesta simples amostra podermos estar a ver um filme ilustrativo do que, hoje em dia, se vai passando no nosso país, então eu diria que estamos assistindo ao estalar de rupturas mais ou menos profundas no tecido social, cujas implicações, por ora muito longe de sabermos se boas ou más, não só não compreendemos inteiramente, como ainda nem temos como avaliar se algumas nos continuarão ou não a escapar ao entendimento que sejamos capazes de estabelecer. Em alguns aspectos o poder está a cair na rua e em algumas localidades começam a esboçar-se formas de organização colectiva para tratar dos espaços e conveniências públicas e comuns. É o caso das comissões de moradores que vão pululando por aí e cuja moda chegou aqui, através de um grupo de residentes que dinamizou uma série de reuniões e encontros entre vizinhos, com o propósito de analisarem se algo há a fazer para alindar arruamentos e praças, como igualmente as tornar mais acolhedoras e compatíveis para todos e também o de organizar aqueles serviços colectivos, como os da limpeza e dos ajardinamentos, por exemplo, susceptíveis de serem assegurados localmente, sem recurso ao funcionalismo da Junta de Freguesia ou da Câmara Municipal. As pessoas agora manifestam-se e à medida que as semanas e os meses se sucedem, bem mais rápida e facilmente do que eu imaginava, vão perdendo quer os constrangimentos dos receios da révanche dos primeiros dias, quer o acanhamento de expor aos outros os seus pontos de vista. Sabem que não vão presas por falar e começam a tomar como adquirido que têm direito a expressar as suas opiniões e até a apresentarem as suas sugestões para os problemas que a todos dizem respeito. E já me deparei com situações em que a cada cabeça correspondeu a sua sentença, como seria de todo de esperar que acontecesse. Do mesmo modo que as ondas se agigantam em todas as tempestades e, tonelares e ruidosas se abatem sobre as praias e falésias, a agitação da vida colectiva, quando permanente, tende a transbordar de convulsões que podem ter mais ou menos impacto na estabilidade social. Mas tudo parte daí, agora as pessoas manifestam-se, exprimem o que pensam e isso, quer queiramos quer não, abala qualquer sociedade. E a portuguesa está a fracturar-se, neste momento e ninguém sabe o que daí possa vir a resultar. Não é só metaforicamente que ganha validade a observação que as gentes trocaram o interesse pelo futebol pela maior atenção para com a política. Com isso elas transportaram a atitude e defendem as respectivas cores com a mesma convicção e infelizmente com a mesma irracionalidade com que o faziam com os clubes desportivos. Surgiram dezenas de partidos e movimentos políticos e os portugueses repartem-se por seguidismos mais ou menos acríticos e ou mais ou menos radicais, alguns aparentemente inconciliáveis entre si e esperemos que não seja impossível a coexistência entre uns tantos deles. O Manuel é da opinião que tudo isto é normal pois assim foi em todas as revoluções. Ele que tem mais conhecimentos de História que eu, lá saberá das razões porque o diz e com o seu gosto pela Geologia, defende que é o período em que todos os estilhaços materiais provenientes de uma colisão cósmica, por exemplo, com um meteoro, pairam, em amálgama nebulosa, no ar, até que a gravidade se cumpre e os atrai para que de novo assentem pela superfície. Acrescenta que isso acarreta que brevemente todos regressarão ao normal das suas vidas e a sociedade retomará a calma diária de um mundo sem sobressaltos. Tenho a impressão que está redondamente enganado e que aquilo que vamos testemunhando mais se assemelha à progressão de um temporal que, ao invés de ser passageiro, antes prenuncia a sucessão de outros, muito maiores que, ameaçadores, se percebem no horizonte. Estamos aí para ver. E os partidos começam a apoderar-se de âmbitos da sociedade que nada têm a ver com o poder político, como ocorreu na Santa Casa da Misericórdia da Vila, onde o Provedor foi demitido pelos trabalhadores do hospital e, em assembleia, um grupo de associados conseguiu fazer eleger uma nova mesa administrativa só com elementos do partido a que aderiu aquele que substituiu o Presidente da Câmara deposto pela revolução. Razão teve o Gustavo quando se opôs ao grupo de jovens que pretendiam trazer a conflitualidade inter-partidária para a nossa associação, com base no argumento que mais do que se limitar a fazer o trabalho que tem vindo a levar a cabo no domínio da divulgação cultural e até política e cívica, deveria apostar na promoção de ideias e propósitos revolucionários. Foram longas horas de debates que se repetiram por uma boa mão cheia de sessões, cheias de ruído de fundo e com intervenções atabalhoadas a que o calor da noite e a fumarada juntaram o suor dos rostos e dos corpos, no fim dos quais os sócios votaram maioritariamente contra as alterações estatutárias e regulamentares e orgânicas que aqueles extremistas queriam introduzir.
Se eu fosse mais nova, ainda jovem sem responsabilidades familiares, atirar-me-ia à estrada para, in loco, ir escrevendo o diário da revolução que estamos a viver. São ocasiões únicas na História, possibilidades irrepetíveis de uma vida.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (49)

Big Ben, André Derain, 1905
Óleo Sobre Tela, 79x98cm

LIBERDADE
O amor une
A paixão divide
A amizade soma
A dor subtrai.
A liberdade

É faz de conta.

António Tapadinhas

sábado, 5 de outubro de 2013

Águas Livres 7


Horizontes claros na história, nevoeiro
Nas calçadas da Damaia antiga, D.João V
Perto da frutaria onde compro a manga
Para comermos os dois na cama, sementes
De sésamo para o leite na Praça do Mercado
Fechado e belo, dá-me a mão, beijo devagarinho
Num quarto suburbano, curtas pernas ao
beijar do teu colo encantado nos cabelinhos
Águas livres do contentamento perto do
Comboio para Lisboa ou Sintra, vamos amor
A Alta Damaia é o meu treino alternativo de
Marcha, flor do teu corpo no umbigo toco e o
Prazer é total como as fambroesas que trazemos
Do bosque onde entro e saio e te inundo

José Gil

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Burkini contra Bikini


Tribunal alemão não desobriga Alunas muçulmanas de frequentar as Aulas de Natação


por António Justo


Na Alemanha há meninas muçulmanas que se recusam a participar nas aulas mistas de natação por razões religiosas. O Tribunal Administrativo Federal deliberou em última instância, que as meninas não podem fugir ao dever de frequentar as aulas de ginástica porque para corresponderem às exigências do Corão podiam usar na natação um burkini (traje completo).

Uma jovem de 13 anos pretendia, com a queixa, a dispensa das aulas para muçulmanos por motivos de liberdade religiosa. Argumentou que não se queria expor aos olhares dos jovens nem usar o burkini e que o Corão proíbe ver jovens seminus. Para o tribunal a liberdade religiosa choca aqui com a missão educativa do Estado (Constituição), sendo de opinião que uma sociedade pluralista não pode considerar todas as preocupações religiosas.

A maioria da sociedade vê nesta atitude muçulmana o perigo dos alunos muçulmanos se segregarem dos colegas alemães e se habituarem a viver no incómodo de se afirmarem pela oposição.

Em todo o caso, aqui a vítima é a criança entre a interpretação do Corão e a interpretação do estado laico.

Entre muçulmanos tradicionalistas corre a voz de que à mulher que não tape o corpo, quando morrer, o fogo infernal queimará as partes do corpo, que durante a vida andavam publicamente descobertas. O medo impera onde a razão dorme.

António da Cunha Duarte Justo



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

DA DOR AO PRAZER, O SENTIDO DA VIDA


Dois princípios parecem reger a nossa vida, o prazer e a dor. Parecem ser as bussolas do dia-a-dia. Os Utilitaristas defendiam que a vida humana se orienta pela fuga à dor e pela busca do prazer. Provavelmente é o ao binómio vida /morte, corda bamba da existência.
Por mim parece-me bem. Andamos em fuga. Fugimos ao que nos parece mal e nos agride. Queremos manter a vida e atingir o prazer. Provavelmente este será o centro da nossa existência, no sentido filosófico (existencialista); existir é “ex”, “ser para fora”, para a viver com os outros e procurar a plenitude. Aliás, nada mais faria sentido se não fosse esta procura incessante de “estar bem” consigo próprio e com os outros.
A plenitude poderá ser a procura do bem-estar, a felicidade, a vivência dos prazeres que nos tornam humanos.
 Viver em prazer é existir. É para isso que faz sentido andar por aqui. Será? Penso que sim. Não tenho a certeza. Mas que sentido faz a vida se nos centrarmos na dor, no mal-estar e na dor pela dor?


PEDRO VARGAS
(MFI - Movimento das Forças Interrogativas)


terça-feira, 1 de outubro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Lá vamos dando os primeiros passos da liberdade recém-conquistada e soltos que estão das mordaças da censura e dos punhos repressores da PIDE e da guarda que costumava refrescar os ímpetos contestatários dos trabalhadores com a ameaça das espingardas, os portugueses reivindicam agora as moedas que lhes podem melhorar o sustento e alargar a esperança de vir a dar aos filhos o futuro que, no passado, a eles foi negado. Quanto a mim seria de esperar que tal viesse a suceder e pessoalmente não me espanta que os jornaleiros nos tenham feito saber que querem um aumento de vinte e cinco tostões no preço do seu esforço e que os tiradores de cortiça tenham feito o mesmo quando o Acácio foi para acertar com eles a campanha deste Verão que vai ter início dentro de dias. Há greves por esses campos e nos restantes sectores, especialmente nas grandes concentrações industriais, os movimentos organizativos da actividade sindical estão se instalando a par da agitação em torno das melhorias salariais e das condições laborais. Os carteiros preparam-se para entrar em greve e avançam-se ideias para promover a consciencialização entre os funcionários, com atitudes como a que os noticiários relataram, de alguns deles terem feito descalços a distribuição do correio. Agora que o direito à greve foi estabelecido pelas leis que o governo provisório e a Junta de Salvação Nacional aprovaram, é natural que os portugueses exerçam essa pressão que acaba por ser um dos mecanismos daquilo que podemos ver como uma das manifestações de um processo de redistribuição da riqueza. Mas temo que se possam perder as noções dos limites e se ultrapassem patamares a que a economia não tenha como chegar e disso parecem ser indicadores certos protestos que aqui se fizeram sentir, entre alguns operários, ainda que poucos e percentualmente inexpressivos, como se as regalias sociais que aqui têm, como a escola gratuita dos filhos ou os cuidados de saúde garantidos, para além das certezas de reforma e casas confortáveis no presente, a rendas mais que exequíveis para os vencimentos que recebem, não fossem todas essas coisas uma forma de lhes exponenciar esses mesmos salários. Mas é a expressão de um país que se começa a dividir pelos partidos que vão aparecendo como cogumelos e começam a implantar-se um pouco por toda a parte, uns, como é o caso dos comunistas, muito melhor preparados que outros, alguns com propostas radicais de revolução social que, por via de militâncias e propaganda mais aguerridas, conseguem uma notoriedade que, muito provavelmente, a sua distribuição pelo terreno de modo algum consente. A verdade é que todos se sentem donos do caminho certo e a sociedade portuguesa começa assim a fracturar-se nessa pluralidade em alguns casos e aspectos irreconciliável e conflituosa. A democracia também tem que ser isto, não tenho dúvida e por muitos erros que se cometam e venham a cometer, temos de aceitar que toda esta convulsão que estamos vivendo faz parte da aprendizagem por que os portugueses terão necessariamente que passar. Estarão eles preparados para viverem em democracia, como aqui e ali vamos ouvindo? Com toda a sinceridade, tenho para mim que se trata de uma falsa questão. Ninguém está. É claro que há populações que podem ser mais esclarecidas que outras e portanto tenham mais e melhores suportes para se adaptarem a uma vida livre e com a possibilidade de escolha entre diferentes correntes políticas mas, mesmo essas terão que passar pela aprendizagem da tolerância e a aceitação da coexistência que isso implica. Pelo menos é a lição que podemos extrair desta comunidade que criámos já lá vão mais de trinta anos. Ora nós não somos menos capazes que os outros e, em conformidade, igualmente conseguiremos fazê-lo. O que é a democracia? Genericamente diz-se que é o governo do povo, pelo povo e para o povo, com o que se pretende significar que a população escolhe ou deve escolher aqueles que quer por governantes que, dessa maneira, exercem o poder em seu nome, sendo de esperar que o façam em função do bem comum, isto é, dos interesses da maioria, sem esquecer aqueles que dela possam estar arredados, especialmente, entre esses, os mais pobre e os mais fracos. Francamente, não vejo qualquer motivo para que os portugueses não possam chegar a tanto. Será que a América dos princípios do século dezanove que o francês Alexis de Tocquevile visitou e que tão bem descreveu e analisou em “De La Democratie En Amérique”, estaria mais preparada para deixar vingar uma tal forma de sociedade do que nós possamos estar hoje? Não creio. Creio, isso sim que não teremos como fugir à experimentação e à possibilidade de erro e, em conformidade, à necessidade de irmos caminhando e procurando aprender à medida que o formos fazendo. É pois decisivo que os homens do poder, deste novo poder, compreendam a importância da educação e através disso de um bom sistema de ensino a que todo e qualquer português tenha acesso e que lhe permita alcançar os meios para mais tarde saberem aprender a fazer as escolhas políticas de que sobrevivem os regimes democráticos e, ao mesmo tempo, todos os hábitos de responsabilidade cívica que fazem com que aqueles, mais que aceites, partam do consentimento e da consciência individual que os podem transformar num modo de vida. É tal e qual o ensinamento que podemos obter num romance maravilhoso de William Golding que o Carlos Manuel me ofereceu no aniversário; a civilização começa precisamente na cabeça de cada um de nós e é aí que reside a primeira barreira para toda e qualquer selvajaria. É facilmente perceptível que, para tanto, a escola terá sempre um papel fundamental pois sem voltar a cair numa ditadura, não teríamos como pretender que todas as famílias o fizessem de igual modo. Da mesma maneira que para evitar que os mais fortes se aproveitem da liberdade para, em seu proveito, esmagarem os mais fracos, há que lançar desde já os alicerces de um sistema de justiça eficaz e que, de igual forma, possa aplicar a lei a todos. Não seremos nós capazes de o levar à prática? Nada me leva a pensar o contrário.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (48)

O Emigrante, Malhoa, 1918
Óleo sobre Tela, 57x49 cm


Com uma lágrima na partida
E com duas ao regressar
Se assim tu me quiseres
Prometo nunca mais chorar.

António Tapadinhas

domingo, 29 de setembro de 2013




 
 

CONTRA O AVANÇO DO DESERTO

 

Das sombras conseguir elevar-se

Dos medos conseguir emergir

Ao querer fazê-lo ousar-se

Para fazer o que falta e construir.

                                                                                                    
 
 
                                                                                                              Manuel João Croca
 
 
 


Pintura: Luís da Silva Delgado (óleo sobre tela)

sábado, 28 de setembro de 2013

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM



IV

Os começos e os fins ou nem por isso
“(...)
A ideia de dia conseguido é, por conseguinte, para ti e por agora, válida enquanto quarto poder, após as ideias de instante conseguido, de vida eterna ou vida única conseguidas? E há algo que te impele a atribuir ao dia conseguido um perfume que não se evapore mas que, independentemente do que possa acontecer amanhã, permanece sob esta ou aquela forma? E é outra vez o momento de perguntar: Como é que imaginas em pormenor um tal dia?
(...)”
 HANDKE, Peter. Ensaio sobre o dia conseguido

Comecemos pelos princípios. E estes podem estar no fim. Tal como os últimos são os primeiros. Diz-se. Vale o que vale. Também se repete. Avancemos. Ou recuemos. Até aos fins. Aos princípios. Há um livro extraordinário do Peter Handke que se chama Ensaio sobre o dia conseguido. Peter Handke é também o autor dos diálogos do filme Asas do Desejo. Eu adoro este autor, este filme e adoro este livro, Ensaio sobre o dia conseguido. Para além de que é um tema que toca a todos. Quem não teve já repetidamente a sensação de ter falhado completamente o dia? De o seu dia ter sido uma sucessão de fracassos, fraquezas e falhas irreparáveis cuja única solução só poderia ser o suicídio? E de onde vem esse desespero, essa crença no irremediável? Vem de outra crença de que o dia começa quando nos levantamos e termina quando nos deitamos. Ora tal não tem de ser assim. Eu posso
Re
começar
o parágrafo é propositado, senhores puristas J
o meu dia a qualquer momento, as vezes que eu quiser. Não gostei disto que fiz, disto que me aconteceu? Muito bem, faço de conta que foi um sonho,
na verdade foi um sonho,
começo agora o dia. As vezes que forem precisas. Posso ter de recomeçar muitas vezes, mas depois os recomeços tornam-se mais espaçados.
- Oh! Que pena! É tão divertido recomeçar!
Então, recomecemos. Também este é um bom pretexto para começar o dia muitas vezes. Assim se multiplica um dia em muitos dias, assim se transforma o tempo em eternidade, assim me transformo realmente em criadora dos meus dias.
E os fins? Que têm a ver com os princípios?
Por causa dos meios.
Conto-vos uma história real. Verdadeiramente Real, passe a aparente redundância.
Aqui há tempos
existe um vídeo na internet…
 numa corrida de atletismo, um dos atletas estava quase a cortar a meta, mas ia, creio, em segundo lugar. Quando, o que ia à frente dele, caiu.
É aqui que se coloca a questão da meta. Onde fica a meta, para este homem quase a cortar a meta, não fosse o seu colega caído? Para ele foi claro que a meta era ali. Parou, socorreu. Os fins, por muito sonhados, desejados e até justos, podem não justificar os meios. Antes, ao lado, ou depois de uma meta visível existem várias metas que apenas cada um consegue ver. Chegar à meta, custe o que custar, contra tudo e contra todos, pode ser uma forma de a perder. Mesmo que os louros dos homens nos coroem, mesmo que ninguém se aperceba. Mas renunciar à meta em favor de uma meta maior que só eu vejo é ser coroado pelos deuses. Com um louro invisível mas indelevelmente perfumado como aqueles dispensadores de aromas que de vez em quando libertam um perfume de felicidade.
É muito importante saber reconhecer onde está nossa meta. Mesmo que todos nos apontem para um único ou diversificados lugares, só nós poderemos encontrá-la, porque ela apenas se mostra aos olhos de cada um. Para os que queiram ver.


Risoleta Pinto Pedro


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Livros d'África




                        INÁCIO REBELO DE ANDRADE  

Nasceu no Huambo, Angola, em 1935. Em 1950 parte para Portugal para terminar o Curso de Regentes Agrícolas, em Santarém. Regressa a Angola em 1956 para trabalhar na Junta de Exportação de Cereais e posteriormente no Instituto de Investigação Agronómica da Chianga, Huambo. Retoma os estudos em 1965 e licencia-se em Agronomia iniciando a carreira docente na Universidade de Luanda. Viria a doutorar-se em Engenharia Agronómica, já em Lisboa, prosseguindo a carreira na Universidade de Évora onde atinge o topo da carreira como Presidente do Conselho Científico da Universidade a partir de 1993.
Com Ernesto Lara Filho, irmão da poetisa Alda Lara, fundou no Huambo a “Colecção Bailundo”, no rasto e à imagem do que faziam já Leonel Cosme e Garibaldino de Andrade com a “Colecção Imbondeiro”, no Lubango.
Da sua amizade com o cronista e poeta Ernesto Lara Filho nasceu uma das mais belas obras que tenho lido sobre a saudade: “SAUDADES DO HUAMBO”, publicado pela Pendor em 1994.
“Dói mexer no passado. Mas dói não apenas por se sentir saudades e guardar lembranças (umas boas, outras más), mas sobretudo por se não estar realmente lá, por se não se poderem aproveitar as oportunidades perdidas, por se não ter já a ingenuidade de acreditar no que não haveria de vir.

A obra é um relato emotivo sobre as peripécias e dificuldades (financeiras e políticas) dos primeiros lançamentos das obras de autores como Alda Lara, o próprio Ernesto Lara Filho ou o poeta cabo-verdiano Onésimo da Silveira. Mas é sobretudo sobre a personalidade de Ernesto Lara Filho, cujo génio rimava com boémio, simbiose que o transformou no maior cronista angolano de sempre, é em nome de uma profunda e recíproca amizade que o Autor se debruça.
No final, para além da pungente saudade expressa em todo o livro, fica, talvez, o mais belo epitáfio que a um amigo se pode dedicar:
“Como gostava de poder contar com pormenor como o meu Amigo passou os últimos anos da sua existência, como vibrou com a independência da sua Pátria, que sentimentos de exaltação (ou, se calhar, de desilusão) experimentou no seu coração, que madrugadas de esperanças esperou ver surgir um dia. Como gostava de poder contar tudo isso! Mas não posso, porque eu não estive lá, porque quis mesmo não estar lá, porque não voltei para tirar tudo a limpo…
Soube por alguém que o fim chegou numa noite de 1977, na Avenida da Granja, em Nova Lisboa: não quando o catuítuí cantava nas pitangueiras, nas mangueiras ou nas papaeiras, mas quando a má sina o vitimou, lhe cortou o bico e lhe quebrou as asas. Foi então que a ave ferida deixou de voar e se enrolou a “morrer de dor”.
No seu enterro não tocou o N’Gola Ritmos; o seu caixão não foi levado no maximbombo da linha do Cemitério; ninguém tocou a Cidralha nem convidou a Marcha dos Invejados; ninguém declamou versos até enrouquecer – e tudo isso talvez porque a guerra rondava perto e a morte de um poeta era igual a tantas outras…”

E não há maneira de não me comover quando releio isto, porque o poeta “deixou de voar”…

Catuituí – pequena ave canora
N’Gola Ritmos – grupo musical angolano em voga nos anos 50/60
Machimbombo – autocarro
Cidralha – canção carnavalesca
Marcha dos Invejados – grupo carnavalesco de Luanda


Tomás Lima Coelho


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

FRUTEIRA COM GARRAFA E CADEIRA
 


LUÍS DELGADO

Óleo sobre Tela, 50 x 61
 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

POEMA DA SEMANA


VAIDADE

É um simplicíssimo poema que versa sobre um comportamento humano
que infelizmente ainda se faz notar nas nossas sociedades.

Veja-o aqui neste link:
http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Vaidade/index.htm

Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia.
Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.euclidescavaco.com


terça-feira, 24 de setembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Estamos a viver os dias de graça deste novo poder, como se estivéssemos a assistir a uma lua-de-mel entre os portugueses e a vivência em democracia. Como é bom de ver, o povo, esse, continua alegre e sorridente e pela primeira vez na minha vida, coisa impensável há um mês atrás, vejo o lugar que o futebol sempre ocupou à mesa do café ser substituído pelos temas mais improváveis do que tem a ver com a organização da vida em sociedade. É incrível mas é verdade, neste últimos dias, quando entro no café ou no bar da associação, o que vejo e ouço são as pessoas a discutirem ideias sobre tudo e mais alguma coisa e da mesma maneira que antes era vulgar qualquer homem ter opinião sobre os lances, os golos, o desenrolar e o desfecho de um jogo da bola, todos têm agora a sua própria leitura e as mais variadas propostas a respeito dos mais intrincados problemas que afectam o país. Por sua vez, a política estatelou-se pelas praças e açambarcou o centro de todas as atenções. É certo e sabido que há nuvens negras no nosso horizonte e nas montanhas que teremos que escalar e vencer adivinham-se longos e espinhosos caminhos que deveremos ultrapassar para nos desenvencilharmos dos piores obstáculos a uma vida livre e começarmos a consolidar os alicerces da democracia, mas até isso conflui para que eu ache tudo isto um espectáculo maravilhoso e tenho a certeza de como os meus queridos pais se alegrariam com a oportunidade de assistirem a tamanha ventura. Os partidos políticos começam a organizar-se, uns surgindo da noite da clandestinidade, outros recentemente fundados nas possibilidades que esta abertura deu aos cidadãos e os militares, de acordo com o previsto, através da Junta de Salvação Nacional, decidiram entregar a chefia do governo a um civil, o Professor Adelino da Palma Carlos, conhecida figura das lutas da oposição ao salazarismo que, na qualidade de Primeiro-Ministro, constituiu uma equipa que reúne representantes dos vários quadrantes e sensibilidades que, pelo menos por enquanto, manifestaram maior expressão e visibilidade no panorama nacional e dentro de dias tomará posse para dar início à estabilidade governativa que garantirá a consolidação da legalidade e, com ela, do novo regime que se pretende democrático. A ser cumprido o programa do Movimento das Forças Armadas, dentro de alguns meses teremos eleições livres para uma assembleia que irá elaborar e aprovar uma nova constituição, a partir da qual os portugueses passarão a escolher aqueles que querem ter por governantes e, dessa forma, a viverem aquilo que poderemos designar pela normalidade de um regime democrático. Para já, toda a gente sabe o que é pior ou melhor para Portugal e não há cão nem gato que não esteja seguro que um certo nome seja preferível numa determinada pasta. A dar ouvidos às vozes que se vão fazendo escutar e avaliando apenas pela pequena amostra que decorre do quotidiano das minhas relações, os problemas são mais que muitos, às vezes até parece que está tudo por fazer o que também não é bem assim e vão desde aqueles que se queixam porque a electricidade ainda não chegou às suas ruas e casas ou que lhes faltam os esgotos devidos e apropriados a uma habitação saudável, até às lonjuras de escolas para os mais novinhos e a miséria de salários que só o rol dos merceeiros impede muitas e muitas famílias de terminarem o mês sem comida no prato. E tudo leva a crer que todos se sentem como que na obrigação de dizer qualquer coisa e tantas são as opiniões que quase se poderia afirmar ser esta uma daquelas situações em que temos tantas sentenças quantas as cabeças. Felizmente, aqui, nesta nossa comunidade que já conta perto de duas centenas de habitantes pois, enquanto povoado, já não podemos contabilizar apenas os núcleos familiares dos membros da cooperativa, seja como for, ainda bem que aqui no Vale da Esperança, todos os adultos são alfabetizados e, na sua larguíssima maioria, por via do trabalho que tanto a escola como a associação cultural desenvolveram, quer em conjunto e coordenadamente, quer cada uma por si, devido a isso temos homens e mulheres que não só sabem ler e escrever, como igualmente estão capacitados para lerem e compreenderem os textos mais diversos. Talvez por isso a consciência do que importa aprender seja mais aguçada e não espanta que tenham surgido pedidos e sugestões para que através da associação se organizem cursos de iniciação à política para quem queira conhecer mais de perto essas matérias, coisa que a comissão cultural começou já a tratar e que na direcção da nossa escola, por simpatia, gerou a ideia de, no próximo ano lectivo, transformar a disciplina de organização política e administrativa da nação, dos cursos complementares, num verdadeiro curriculum de introdução aos conhecimentos e teorias políticas, bem como do funcionamento e características dos diversos tipos de regimes políticos e sociais. É a gestação da vida democrática e, tal como em todos os períodos em que a gravidez é desejada, é um real encanto de se ver. Mas como é de se esperar em cada parto, é natural que venha a dar dores que só não sabemos quão fortes poderão ser. Há pois um vulcão que se alimenta desta sede de expor e participar, há toda uma caldeira que vai inchando e pressionando a chaminé e certamente explodirá e dessa corrente de lava sairá muito do que poderá vir a influenciar os contornos de um amanhã que, pessoalmente, é o meu mais profundo desejo, espero venha a ser o mais justo possível, o mesmo é dizer, onde os filhos dos mais pobres, pelo mérito do seu esforço de aprendizagem e empreendimento, possam aspirar a algo mais que a repetição da pobreza que tiveram nas casas em que foram criados.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (47)

           Jardim com Girassóis, Gustav Klimt,1906

                      Óleo sobre tela, 110 × 110 cm


Tenho umas flores no meu jardim, das quais não sei o nome, que se abrem logo que o sol desaparece. Ao observá-las, cheguei à conclusão que elas abrem as pétalas para recolher a humidade da noite, e a guardam ciosamente, em pequenas gotas de vida, protegidas dos raios solares, durante o dia. Fazem o contrário do girassol que volta o pescoço olhando sempre o sol de frente!

 


Concluo: Cada um tem a sua fórmula para chegar ao Criador...

domingo, 22 de setembro de 2013


 
 



Pintura de Luís Delgado (óleo sobre tela)



PELO SONHO QUE FICOU, VOU.

No sonho tinha tudo do que precisava. Tudo tão deslumbrante e intenso que acordado o sonhado ainda lembrava. Não lembrava de tudo mas tudo o que precisava estaria lá já que o estado de felicidade era total.

Havia uma fogueira e tinha uma roda de gente que cantava e dançava. O riso brincava nos rostos e os olhares encontravam-se. Iluminavam-se em milagres de luz de espelhos frente a espelhos. No sonho, o projectado misturava-se com o vivenciado. O sonho tornava-se real e o real tornava-se sonho.

Foi assim que se entoou em coro a ária popular que escutara no Alvito e que, por sobre o dedilhar das violas campaniças, cantava assim.

 

“Venho da ilha dos vidros

da praia dos diamantes

ando no mundo perdido

pelos teus olhos brilhantes

pelos teus olhos brilhantes

pelo teu rosto de prata

ter amores não me custa

deixá-los é que me mata.

 

Quero cantar ser alegre

que a tristeza nada tem

ainda não vi a tristeza

dar de comer a ninguém.

 

O sol é que alegra o dia

pela manhã quando nasce

ai de nós o que seria

se o sol um dia faltasse.

 

Venho da ilha dos vidros

da praia dos diamantes

ando no mundo perdido

pelos teus olhos brilhantes

pelos teus olhos brilhantes

pelo teu rosto de prata

ter amores não me custa

deixá-los é que me mata.“(*)

 

(*) – do cancioneiro popular.

 

Não havia medos. Isso sentia-se. Nos olhares serenos, nos gestos confiantes. E a paisagem,… Deus meu. Havia planícies que se elevavam até formarem montanhas, que a seguir desciam para sombras frescas de vales. Ouviam-se sons de água correndo. E por todos esses caminhos pessoas caminhavam. Em grupo ou sozinhas. Havia muita cor. Havia paz, harmonia e de toda essa (i) realidade os propósitos nasciam.

Não sei, ou não consigo contar, tudo o que ali havia, o que sei e pretendo partilhar é que nada está perdido e, acredito, caminhamos, mesmo se através da noite, para ver nascer esse dia.


Manuel João Croca

 
Foto: Edgar Cantante

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Agostinho da Silva no Brasil


Agostinho da Silva passou 25 anos no Brasil num auto exílio forçado pelo governo de Salazar. Foi para o Brasil em 1944 com 38 anos de idade. Ali ganhou dupla nacionalidade, ali construiu parte da imensa obra que nos legou.

Agostinho foi Professor em várias Faculdades do Brasil, de norte a sul do país  (Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraíba, Bahia, Brasília...), participou na fundação de várias Universidades (Universidade da Paraíba, de Santa Catarina e de Brasília) e criou alguns Centros de Estudos (Centro de Estudos Afro Orientais, na Universidade Federal da Bahia, o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, na Universidade de Brasília, e o Centro de Estudos Brasileiros, na Universidade de Goiás...); e foi até assessor do Presidente da República do Brasil Jânio Quadros, na altura em que estava na Bahia.

Em livro de António Risério, intitulado “Avant Garde na Bahia”, uma tese de Mestrado em Sociologia que fala da intensa dinâmica cultural que se viveu ao redor da Universidade Federal da Bahia na transição da década de 50 para a década de 60 do século passado, justamente no período em que Agostinho esteve nesta Universidade, onde muito se fala do reconhecido magnífico Reitor Edgard Santos, como uma pessoa de vistas largas que soube juntar um grupo de intelectuais que transformaram de forma radical o panorama educativo e cultural da Bahia e do Brasil. Agostinho da Silva ali esteve, com outros, no fervilhar desse caldeirão cultural que acabariam por dar lugar, por exemplo, ao Tropicalismo (de Caetano Veloso, Gilberto Gil...), ao Cinema Novo (Glauber Rocha), mas como também a uma imensa criação artística em várias área como a arquitetura, a antropologia, o teatro, a música, a fotografia...

Neste livro, há um interessante depoimento de Caetano Veloso que diz assim: "Certa vez, tive uma conversa fascinante sobre a canção Tropicália, num castelo medieval em Sesimbra, com Roberto Pinho e um senhor português que era tido como alquimista. O ponto de ligação entre eles era o professor Agostinho da Silva, um intelectual português que foi perseguido por Salazar e veio para o Brasil (...) Em Salvador disseminou uma forma de sebastianismo erudito de inspiração pessoana que atraiu algumas pessoas que me pareciam atraentes. Não foi sem pensar neles que eu incluí a declamação de um poema de Mensagem, de Fernando Pessoa, no happening que foi a apresentação da canção É Proibido Proibir num concurso de música popular na televisão em 1968. Mas eu não tinha embarcado na viagem desses sebastianistas nem como estudioso nem como militante. Apenas me parecera interessante que houvesse gente falando no Reino do Espírito Santo e numa futura civilização do Atlântico Sul, numa época em que todo mundo falava em mais-valia e nas teses científicas de transformar o mundo através da classe operária. E, sobretudo, foi por causa disso que eu entrei em contacto com o livro Mensagem, que revelou para mim a grandeza da poesia de Fernando Pessoa. Não me parecia possível que se demonstrasse mais fundo conhecimento do ser da língua portuguesa do que nesses poemas, por causa de cada sílaba, cada som, cada sugestão de idéia como se aqueles poemas fossem fundadores da língua ou sua justificação final. O fato de Mensagem ter como tema o mito da volta de Dom Sebastião e da grandiosidade de uma adiado destino português, enobrecia, a meus olhos, os interesses daquele grupo de pessoas que cultivavam tais mitos. De modo que, em Sesimbra, comecei a ver Tropicália - e a pensar o tropicalismo - também à luz do sebastianismo, que consistia em adivinhações do que fosse o sebastianismo deles. Eu, no entanto, sempre fui muito cético". E continua o autor do livro, António Risério, "Mais nitidamente, o sebastianismo esteve sempre entre as preocupações de Glauber Rocha, artista-ideólogo marcadamente messiânico. E Agostinho deixou ao menos um discípulo brilhante no Brasil, o antropólogo Roberto Pinho." (António Risério, avant-garde na bahia, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, Brasil, pp.82-83)

Luís Santos