quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Dores Nascimento e Leonel Coelho - Conto


O ANÚNCIO

Os donos do café “Flor da Aldeia” e alguns fregueses da casa, sabendo das necessidades do tio Zé , vulgarmente tratado por Piça Daço, trataram de o incitar a responder ao anúncio, e eles próprios formulavam frases para a resposta, com esta ou aquela variação da conversa habitual em situações análogas: sou homem honesto, trabalhador, tenho terras e gado, e estou na posse integral das minha faculdades físicas mas  sinto-me muito só desde que a infelicidade da viuvez me bateu à porta…

E assim, num dia que não ficou marcado em calendário, chegou na carreira uma bela mulher com um mala de viagem na mão, que se dirigiu ao referido café, ali a dois passos da paragem. Tempo frio, o Inverno era ali, naquele rigoroso interior.

Com passos pouco decididos entrou e logo foi identificada pelos olhos espertalhões da Etelvina que acotevelou o marido e lhe disse entredentes: Lá vem a tal de Joana.

-É a menina Joana? Muito prazer, eu sou o dono deste estabelecimento e esta é a minha mulher, Etelvina. – Muito gosto. -Ponha-se à vontade. Este é o senhor Zé, vulgo  Piça Daço. Um aperto de mão, algumas palmas por parte da atenta assistência e assim se cumpria a primeira parte deste episódio que quase se escondeu como o sol à noite. Joana faz um gesto para pegar na mala, mas Zé antecipou-se e lá foram os dois a caminho de casa.

-A minha casa é aquela ali, disse o Zé para não estar calado. Aquele gato preto no telhado, é meu. É um bom caçador de ratos. Â medida que a aldeia se despovoa, ratos e ratazanas são cada vez mais. Está frio. Ontem fui  tirar água do poço, para me lavar e estava gelada. Já era altura de amaciar o tempo.  E nada mais foi dito.

E neste monólogo foram engolidos pelas paredes da casa, e nada mais se sabe para além do que ficou escrito numa mensagem deixada por Joana sobre a mesa da cozinha, no dia em que partiu na mesma carreira que a trouxera, um mês exatamente decorrido desde a chegada.

O tio Zé Piça Daço, já com a vista a faltar-lhe, e fracos conhecimentos escolares, agarrou no papel e levou-o aos seus amigos do café para que lho lessem, mas baixinho, e assim se soube logo ali, e mais tarde por toda a aldeia, o conteúdo da mensagem.

-Vamos para ali, ti Zé. Posso começar?

-Lê, homem, lê.

 Serve esta carta como despedida e justificação.

A minha sincera vontade era ter regressado no dia em que cá cheguei. Não o fiz, primeiro por acanhamento e segundo porque não havia carreira. Como não o fiz nesse dia, resolvi dar uma oportunidade à situação, ou seja a si e a mim e não digo nós porque nós nunca existiu.

Quando olhei para si, vi a figura do meu pai que desgraçou a minha mãe com maus tratos. Não a mim, que saí de casa quase criança para uma vida de esquinas na noite a fazer favores sexuais a homens de toda a espécie. Aconselhada por gente que conheci e me tinha estima, estudei qualquer coisa e trabalhei num lar de idosos. Mas a solidão moía-me e os anos passavam e nada de arranjar companhia, daí o anúncio. Imaginava-me numa aldeia, com um homem a quem estimaria e por quem seria estimada, com umas galinhas e uma horta para tratar, via-me a estender a roupa da cama na frescura do amanhecer, coisas simples.

Ao entrar na sua casa senti revolta. Tudo desarrumado. Ratoeiras por toda a casa com ratos mortos, loiça apinhada por lavar, ceroulas misturadas com toalhas de mesa, cheiro a podre no frigorífico e cama sem lençõis. Nada sem solução até aqui. Nada que uma boa limpeza não resolvesse.

Mas porque carga de água,  havendo água quente e um esquentador vulcano praticamente novo na casa de banho, tomava você banho e se lavava na água do poço queixando-se da sua frieza? Porque razão tendo gavetas cheias de meias novas só calçava meias rotas? Porque razão tendo loiça nova nos armários só quer comer em loiça rachada, porque razão mantem uma pilha de medicamentos da sua falecida mulher que recusa deitar fora, Por que razão...

Enfim, talvez a solução para si seja de outra natureza. Eu por mim fiz o que pude e que a mim própria prometi. Organizei a sua vida por fora. Por dentro, não tenho para isso nem habilidade nem habilitação.  Lavei, desinfetei e arejei a casa. Livrei-me de toda a roupa rota, estragada, e debotada e cosi a que valia a pena aproveitar. Organizei as gavetas da cómoda por ceroulas, cuecas, meias de verão e de inverno, camisas, camisolas e pijamas. As calças e o fato estão em cruzetas no guarda fatos. Livrei-me da pratalhada partida e dos tachos, cafeteiras e púcaros rotos ou sem asas. A casa de banho está apetrechada de lexívia, papel higiénico, e espero que não perca  o hábito de lavar os dentes. Deixei duas pastas novas na prateleira e uma escova suplente. Continue a tomar o duche de água quente e lave bem os tornozelos, as orelhas, as partes e entre os dedos dos pés.

No frigorífico há sopa feita e um guisado que fiz com o coelho que comprei ontem à Etelvina do café, comprei mas não paguei, não se esqueça de o pagar. Deixei dois queijos, um pão e  também uns restos de comida para o gato.

Se mantiver alguma disciplina no que comigo aprendeu, talvez arranje uma companheira que o queira.

Não fui feliz aqui, mas encaro  o mês que aqui passei como uma missão. Você não é má pessoa mas também não foi boa pessoa e lamento não me ter deitado consigo. Se disso se tiver gabado, quando lerem esta carta, que estou certa será mais divulgada que o meu anúncio, logo saberão que mentiu. Se tiver falado verdade, será mais respeitado.

 A estas horas, já estarei longe daqui. Outro homem que respondeu ao anúncio há mais de quinze dias, veio buscar-me hoje, porque eu disse-lhe que tinha de cá ficar um mês. Adeus e felicidades. Já me esquecia, odiei a sua alcunha.

A que nunca foi sua

Joana



Tao Te Ching





25 

Havia algo sem forma e perfeito, antes do universo nascer. 
É sereno.  
Vazio. 
Solitário. 
Imutável. 
Infinito.  
Eternamente presente. 
É a mãe do universo. 
Por falta de um nome melhor, eu o chamo de Dao.  
Ela flui através de todas as coisas, dentro e fora, e retorna para a origem de todas as coisas.  
O Dao é grandioso. 
O universo é grandioso.                                                                                                                           A terra é grandiosa. 
O homem é grandioso. 
Estas são as quatro grandiosas potências.  
O homem segue a terra. 
A terra segue o universo. 
O universo segue o Dao. 
O Dao segue apenas a si mesmo. 

Nota Importante: Livro traduzido do Inglês para Português por Luís Gonçalves que diz estar disponível para quem o solicitar.


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim-de-semana calmo e tranquilo, ainda que ontem tenha sido arrancado da cama em horário de dia normal de trabalho, por causa da conclusão do envernizamento do chão da nova sala e do pequeno hall que dará acesso ao piso superior do apartamento. 

E se na sexta-feira jantámos fora por causa do cheiro e da intensidade acre do verniz no ar, ontem tivemos que passar algum tempo da tarde em casa, pois a Matilde convidara duas amigas para brincar e lanchar com ela. Mas assim que o calor amainou, saímos para um passeio pelo parque novo, com bicicleta e trotinetas que, depois de levarmos as amiguinhas do pardalito a casa, deu lugar a um bom par de horas com as pernas esticadas, à volta de uma boa mesa de caracóis e conversas de circunstância. 

Quando regressámos a casa, o pior tinha passado. 



Hoje, como foi o dia da comunhão da Beatriz, as minhas filhas passaram toda a tarde em casa da amiga e os pais aproveitaram para ir ao cinema. 
“O Dia Depois de Amanhã”, uma aventura de coragem e esperança entre um pai e um filho na contingência de uma hecatombe climática que, no espaço de uma semana, originou uma nova era glaciar no hemisfério norte. 

Tecnicamente irrepreensível, este filme do realizador de “O Dia da Independência”, acaba por nos chamar a atenção para a cegueira com que temos vindo a enfrentar o impacto do desenvolvimento sobre o meio ambiente e ainda mais para a solidariedade entre os humanos que tão necessária é para salvaguardarmos a casa comum em que vivemos. 

Foi uma boa tarde de Domingo. 



Na sexta-feira, entre a aula de música e a de moral, os alunos aprenderam a palavra peixe, a qual serviu de mote para o trabalho de casa. 



O nosso primeiro-ministro e os seus pares é que parecem estar de cabeça perdida. 
Cá para mim, a desorientação resulta de já não terem qualquer margem de manobra para traçarem políticas próprias nos mais variados sectores – se é que alguma vez as tiveram em mente – subjugados que estão aos interesses parcelares e particulares de lóbis diversos, alguns de cariz manifestamente mafioso, todos eles poderosos e mais ou menos esconsos. 

É o lento mas paulatino desmantelamento do serviço nacional de saúde com a entrega de unidades hospitalares públicas à exploração privada, sem que daí decorra outra coisa para além do aumento da rede de cuidados médicos para as seguradoras e as estruturas materiais dos seguros respectivos. 
Foi o episódio do salário contratado para o novo Director-Geral das Finanças, verba inconstitucional e ilegal, isto segundo alguns especialistas na matéria, paga em parte pelo banco privado de que aquele quadro é oriundo, deixando a porta aberta a especulações antecipadas quanto à independência e imparcialidade de tão preponderante alto funcionário. 

Enfim, o ror dos disparates – infelizmente sequer o são – seria grande. 

O desvario chegou ao ponto de vermos Lobo Xavier, influente dirigente centrista, num programa de comentário político semanal, debruçar-se sobre o problema da saída de Mourinho do Futebol Clube do Porto – ao que chegámos – e justificar o ponto de vista do clube, explicando em que é que o treinador tinha agido mal, o mesmo é dizer, pelas palavras que utilizou, segundo o que é normal e usual naquela casa, o que é que o homem fez de errado, o que é que nas suas atitudes colidiu com aquela tradição. Conseguimos atingir o nível em que intérpretes do poder político se prestam a dar recados a terceiros. 

Agora parece que o ministro do ambiente foi demitido por manifestar reservas quanto ao modelo de privatização das águas de Portugal e por ter definido que os dinheiros daí obtidos, em vez de serem usados para a contenção do défice, deveriam ser investidos na rede de distribuição e abastecimento do precioso líquido, tanto para a agricultura e demais actividades económicas como para o consumo doméstico. 

Portugal está sob o domínio de tubarões cheios de apetite e de força para o saciar. 
Paira sobre nós o espectro de uma nova espécie de totalitarismo que vestirá as aparências de uma sociedade aberta. 
Temos que ser suficientemente inteligentes para lhe sabermos identificar os contornos. 



Naipaul, outra vez, “Para Além da Crença”, o mundo islâmico não árabe que, sob o molde de narrativa de viagens, não só nos traça um elaborado panegírico desses povos e sociedades, como ainda nos permite compreender como o Islão, ou certas interpretações do Islão, melhor será dizer assim, têm interferido e modelado a vida dos crentes e do meio social em que vivem. Vemos ali o fermento de que se fez e faz o integrismo mais radical. 
Mais ainda que cheia de interesse, esta é uma daquelas leituras enriquecedoras. 



Mas o melhor ficou para o fim. 

Na tarde de Sábado, a Luísa recebeu um telefonema dos serviços camarários que informaram que a Margarida foi premiada no concurso de poesia das escolas básicas do concelho. 

Uau! O pai inchou de contentamento e, é claro, toda a família deu os parabéns ao piolhito. 

Concorrendo no escalão etário dos dez aos doze anos de idade, este meu amorzinho competiu com miúdos do quinto e do sexto ano e ainda assim ficou num dos três primeiros lugares. 
Que alegria! 

E logo ela se manifestou cheia de receios e hesitações perante o pedido para que leia um dos seus poemas, naturalmente o premiado, na sessão da entrega dos prémios. 


A noite é sempre tão serena quando nos enchemos de felicidade. 


Alhos Vedros 
  30/05/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Naipaul, V. S., PARA ALÉM DA CRENÇA, Tradução de Alexandre Emílio, Dom Quixote (1ª. Edição), Lisboa, 2001

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Senhor dos cata-ventos



De Alagoas/Brasil para o Estudo Geral/Portugal

título: Senhor dos cata-ventos

photo: Kity Amaral

2019

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Estudo Geral: 9 anos

EDITORIAL

por Luís Santos

Hoje, 23 de janeiro, o Estudo Geral faz 9 anos.

Permanece a ideia de um pasquim que permite a publicação de artigos multimédia, onde texto, música e imagem, podem coabitar numa única página digital, num panorama em que as formas de edição e de publicação também muito se alterararam, e ficaram mais fáceis para todos.

Como temos por cá, em Alhos Vedros, uma Feira do Livro que se realiza, consecutivamente, há 47 anos, e se constitui como uma das mais duradoiras do país, o gosto pela escrita é coisa que vai germinando com alguma facilidade. Hoje temos por aqui, e pelas redondezas, uma sólida frente literária e o Estudo Geral não deixa de o acusar.

Por outro lado, as criatividades ligadas às artes plásticas e ao audiovisual, também estão significativamente mais abundantes. Disso mesmo dá testemunho uma ininterrupta publicação semanal de pintura que se faz desde que o EG nasceu, até hoje.

Outra novidade relativamente recente, como sabemos, é a mundialização que qualquer artigo, desde logo, ganha ao ser publicado. Este facto tem permitido uma fácil internacionalização do EG que conta entre os seus colaboradores com muitos autores de vários países, de todos os continentes, sobretudo, no que à Língua Portuguesa diz respeito. De resto, muito nos move a causa lusófona, num projeto que mais aproxime os países e as comunidades de língua oficial portuguesa, mas sem que se neguem ou subalternizem quaisquer outros países, outras formas de expressão.

A participação nas publicações deste mês de janeiro, de Manuel (d’Angola) de Sousa com um dos seus infinitos poemas, e de um texto que partilhamos vindo dos Diálogos Lusófonos, coordenados desde sempre pela mineira, brasileira, Margarida de Castro, ambos parceiros desde a primeira hora deste Estudo Geral, dão conta disso mesmo, e garantem a realização de um triângulo lusófono no Atlântico Sul que muito mais despertos nos deixam.

Mas não deixe de se (re)acentuar que é num devir universal comum, ecuménico, que nos temos mantido apostados, e é nesse caminho que prosseguiremos. 

Amem.


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
20


É como dizes, o homo sapiens sapiens ou seja, a espécie humana tal como a conhecemos não resultou da passagem linear entre as diversas ramificações mas sim da sobreposição de umas nas outras o que, pela dinâmica natural da população, terá provocado a substituição das primeiras pelas segundas. 
Foi assim que alhures, em África, começaram a reproduzir-se exemplares desta nova família que aí se mantiveram um punhado de dezenas de milhares de anos, sempre em frágil equilíbrio e riscos de extinção dado, por um lado, o seu número reduzido e, por outro lado, as adversidades e a concorrência de outros animais que tiveram que enfrentar, entre os quais se encontrava os seus parceiros de árvore genealógica. 
Mas a verdade é que este novo homem, dotado de capacidades mentais que nenhum dos ancestrais possuiu e, simultaneamente, herdeiro das respectivas conquistas culturais de que a caça e o domínio do fogo são exemplos relevantes, mais do que qualquer outro estava preparado para se lançar à conquista do planeta tanto no que diz respeito ao uso da terra e dos seus recursos, tal como no referente à adaptação do meio ambiente às suas necessidades. 
Ora olhando o rasto genético, a História aponta que certamente mais pela força das alterações climáticas que terão reduzido as melhores zonas habitáveis e as reservas alimentares disponíveis, um pequeno grupo terá atravessado o Mar Vermelho para a Península Arábica e dele descendem aqueles que viriam a colonizar todo o planeta. 
Como isso aconteceu não é possível saber com certeza mas não é muito difícil de imaginar; temos conhecimentos e instrumentos que o permitem. O aumento demográfico e a busca de novos espaços com fontes de alimento devem ter-se cruzado para que os seres humanos se tivessem espalhado pelo planeta. E não demoraram muito a fazê-lo. A saída de África que não repetiu o caminho que a Arqueologia atribuiu ao homo erectus e, como já vimos, teve lugar no Mar Vermelho, terá ocorrido à volta de oitenta mil anos. Naturalmente que isso não se deveu apenas à curiosidade. Razões mais fortes de ordem bio-climática devem ter empurrado essas dezenas de indivíduos para a outra margem que seria então avistável a partir de certos pontos do corno de África e que estaria mais perto que na actualidade. E aí devem ter encontrado um território inexplorado e farto que teve o condão de ser o Éden para esses imigrantes. 
Pois foi por lá que permaneceram e se multiplicaram e de onde se dirigiram para Leste e para Norte. Em mais ou menos quinze mil anos chegaram ao sub-continente indiano e à península indo-chinesa e outros tantos depois começaram a penetrar em terrenos europeus e na direcção do setentrião eurasiático. 
É provável que a progressiva substituição que a partir dessa altura se verificou entre o neanderthalense e o sapiens sapiens tenha tido por motores tanto a mistura como a predação pura e simples, assim como pela influência da concorrência relativamente aos habitats e dietas disponíveis. Com efeito, parece que há dados que apontam para que hajam sérias probabilidades de que todas essas hipóteses tenham ocorrido, sendo que as duas últimas se baseiam mais em induções e a primeira delas tenha algum suporte em dados que recentemente foram recolhidos em Portugal com o esqueleto da criança de Lapedo que, pelo menos segundo alguns especialistas, apresenta características comuns ao Neanderthal e ao Sapiens Sapiens. 
Seja como for, tal fenómeno sucedeu um pouco por toda a parte e foi já nos últimos trinta mil anos que, enfrentando uma Idade do Gelo, os nossos antepassados terão transposto a pé o estreito de Bering e chegado ao continente norte-americano para, em pouco mais de uma dezena de milhares de anos atingirem o seu extremo Sul. 
Somos, desta forma, todos filhos da mesma espécie, todos descendentes do grupo que provavelmente não ultrapassaria em muito a centena de pessoas e passou de África para a Península Arábica. E foi a partir dessa dispersão dos últimos cinquenta mil anos que as colorações da pele e os diversos aspectos físicos dos seres humanos se foram adaptando ao aumento das latitudes e, como resposta à inclinação da radiação solar, escurecendo na proximidade do Equador e clareando na direcção oposta.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O PORTO FOI CAMPEÃO!

Ontem foi noite de euforia na cidade do Porto, com milhares de pessoas nas ruas e no estádio do dragão para vitoriarem os novos campeões europeus em que os seus atletas se entronaram. 
O Futebol Clube do Porto venceu o Mónaco por três a zero e com isso conquistou a taça mais ambicionada no futebol do velho continente. 

E o povo entrou em delírio o que não tem mal algum. 


Mas já é de lamentar que o Presidente da República diga que aquela vitória ajuda à retoma. 
Enfim, malhas que tece um país que entre a ciência e a bola escolheu o esférico como mais-valia. 



Nestes dois dias os alunos têm feito exercícios em torno da nova palavra. 
“-Demos o bra.” –Disse a Matilde à mãe com um ar ironicamente suspeito. 
É claro que se refreia ao bra, bre, bri, bro, bru. 
“-Diz lá o nome de um país que usa a sílaba bra.” –Entrou o pai na conversa. 
“-Brasil.” 
“-Muito bem! E uma cidade?” 
“-Braga.” 
“-Uau! Palmas para a Matilde.” –Interveio a mãe. 
“-E outra?” 
“-Bragança.” 

E assim se vai fazendo o encanto de ver crescer este amorzinho tão querido. 


 Alhos Vedros
  27/05/2004

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (336)


Berço, Autora Berthe Morisot, 1872
Óleo sobre Tela, 46x56 cm

Berthe Marie Pauline Morisot nasceu em Bourges – Cher, na França a 14 de Janeiro de 1841 e morreu em Paris a 2 de Março de 1895.
Foi uma pintora impressionista francesa.
Expôs seus trabalhos, pela primeira vez, no prestigiado Salão de Paris, em 1864, patrocinado pela Académie des Beaux-Arts de Paris. Suas obras foram seleccionadas para as exposições seguintes, com os maiores pintores da sua época: Paul Cézanne, Claude Monet, Camille Pissarro, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley...
Ser pintora em uma época em que às mulheres eram negados alguns direitos foi difícil, mas Berthe Morisot sempre se impôs e por esse motivo foi muito importante para que as mulheres começassem a contar, também no mundo da pintura.

Foi casada com Eugène Manet, irmão do famoso pintor, Édouard Manet.

Selecção de António Tapadinhas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

“Desejos Extravasantes Da Cabeça De Testa Hirsuta E Farta De Leis De Inata Ortodoxia”


Tenho desejos que não cabem na cabeça de ninguém e nem na minha Cofio a barba rala por desfazer para manter a honra intacta Passo a pente fino e aquecido em brasa as pestanas postiças Franzo a testa hirsuta e as fartas sobrancelhas pretas e lisas Aliso as rugas e as olheiras de uma noite passada com insónias Ando de lado e alentado em bicos-de-pé para fora do cenário Descubro o lado oculto da Lua destapando-lhe o rosto obscuro Parto os pratos e copos usados na santa ceia à maneira Russa Viro-me do avesso e transformo-me em um sêr nada ortodoxo Desrespeito as leis da vida rasgando os regulamentos e os direitos Entorto e distorço as barras de chocolate e de ferro que me prendem Solto um grito de liberdade que se ouve na antiga Sibéria inteira Fragmento os fundamentos essenciais em tantas e incontáveis partes Fracciono em fracções mínimas e máximas alguns inconcebíveis temores Cortejo princesas que correm descalças em grupo dos bailes de meia-noite Jogo a coroa faz-de-conta de idílico príncipe romanesco para o lixo Desmembro a língua dos membros e órgãos e autonomizo-a de repente Automatizo-a aquando de certas mudanças simplesmente teóricas e retóricas Desdramatizo a peça teatral do julgamento final dantesco comovido Limpo o nariz empertigado e ao mesmo tempo tímido a um lenço imaculado Canalizo fluxos de energias anímica e psíquica para as pontas sensíveis dos dedos… Aceno um último adeus de que todos desconfiam ser um de muitos porvires e por vir…
Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 7 de Janeiro de 2018, em Homenagem a todos aqueles que mantem o estado de constante espirito de esperança, positividade, paz harmonia e construtividade fraterna e solidaria para com a humanidade e o futuro por vir… Aos meus batalhadores e sacrificados Antepassados, os quais, me mostraram e ensinaram a não ter medo da Vida, por muito difícil ou árdua que fosse, abrindo-me assim caminho para a permanente visão esperançada e imaginativa, que me permite hoje caminhar de cabeça erguida…

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje os alunos aprenderam uma nova palavra, zebra e, como é habitual nestas ocasiões, ocuparam a manhã com exercícios e fichas sobre o assunto. 



Mas é também o último dia de laboração da antiga “Sorefame”. 
A direcção da empresa canadiana que ficou com aquela unidade produtiva, decidiu fechar umas quantas fábricas na Europa, alegadamente por falta de encomendas que viabilizassem a rentabilidade de tais unidades industriais. 
Com isto se perderá um capital inestimável de tecnologia e sabedoria no âmbito da produção de material ferroviário. 
E fica a nu a falta de visão que sempre reinou nos nossos decisores políticos, incapazes de perceberem que a ferrovia era a aposta certa para encurtar distâncias num país como o nosso e que isso daria à indústria nacional as pernas que permitiriam competir nos mercados globais. 

Infelizmente não foi assim e o futuro de muitos trabalhadores está cheio de nuvens negras no horizonte. 



E amanhã o país estará suspenso no pequeno ecrã, pelo menos durante uma hora e meia. 
O Futebol Clube do Porto disputará a final da liga dos campeões. 



Ficou hoje definitivamente pronta a parte de alvenaria com os últimos retoques de pintura. 

Assinei um cheque de dois mil quinhentos oitenta e seis euros. 



O CDS-PP quer que os protestos na Assembleia da República sejam tratados como o fenómeno do hooliganismo nas bancadas dos estádios de futebol. 

Nada a dizer.
Aquele é o partido dos netos de funcionários e outros bafejados do Estado Novo. 


Estamos entregues aos bichos? 

Alhos Vedros
  25/05/2004

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A Pintura de AnA Pereira


AnA Pereira
e-mail: apfiat@live.com.pt
website:https://ana-isabel-castanheira-e-pereira.webnode.pt/ 
facebook:https://www.facebook.com/Ana-Pereira-Artes-Pl%C3%A1sticas-1234204616639689/?pnref=story&hc_location=ufi 


                   

IRRACIONALIDADES 
«Intelectualmente, temos muita razão para nos sentirmos modestos. A capacidade de pensamento lógico pode muito bem ser parte da nossa constituição. Contudo, o facto de essa capacidade aí se encontrar permite a possibilidade da sua utilização se certos outros factores estiverem presentes. Um desses factores pertence à história humana. Não há duvida de que a maior parte dos nossos feitos intelectuais são colectivos. Eles dependem de incontactáveis gerações anteriores, cada uma das quais legou algumas parcelas de um conhecimento novo e, algumas novas formas de aumentar ainda mais, o conhecimento para a geração seguinte. Muitos dos erros de pensamento que discutimos continuam connosco, depois de milénios de história humana e, ocorrem quer estejamos sós ou em grupo. A nossa racionalidade é limitada pelo hábito, pela circunstancia e, pelo facto de a nossa capacidade de pensamento ter limites» -PSICOLOGIA-Henry Gleitman «A intuição alimenta-se das experiências e informações acumuladas ao longo do tempo. Será pois uma espécie de "know-how" (saber fazer) guardado na chamada memória implícita. Todd Lubart elaborou uma teoria a que chamou de "ressonância emocional" que ajuda a explicar a intuição. Através desse processo, cada elemento que se apresente em nossa memória é associado a traços emocionais correspondentes a experiências vividas anteriormente. É assim: de cada vez que nos confrontamos com as várias situações da vida (a todo o momento) o cérebro estabelece uma ligação com os conhecimentos armazenados levando a uma associação criativa de conceitos em nossa mente (isso nos ajuda a mantermo-nos conhecedores do mundo que nos rodeia e entender o que se passa). É um trabalho contínuo de reconhecimento da realidade e que nos permite cartografar mentalmente o que se passa remetendo todo o material novo para a memória associando-se ao que já lá existe guardado. O indivíduo inteligente é também um sujeito que sabe usar sua intuição. Ele aprende a ler nas subtilezas dos eventos, nos pormenores que escapam à maioria. E faz outra coisa deveras importante: reúne muita informação. Ele não se satisfaz apenas com o que sabe. Ele é um curioso e gosta de saber mais e mais, indo além da sua especialização. A sua intuição é assim o resultado de saberes e experiências acumuladas.» _ Nelson S Lima «É Somente nas misteriosas equações do amor, que alguma lógica real pode ser encontrada» - John Nash -
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Biografia: Nasci  em Lisboa  no ano de 1969 , voltei meus estudos   na area das artes plasticas,  licenciando-me em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa . Numa das curvas do viver  em Beja  fiz o  Curso de Cenografia com o professor Barbieri  integrando o Projecto Arte Publica .  Recentemente os pendulos deste caminhar impeliram-me a concluir uma Pós Graduação em  Gerontologia Social  pela Universidade Lusofona 
Exposições: 
1992-Colectiva Galeria Escudeiros-Beja
1996-Individual «Homenagem a Miguel Torga», Livraria Obras Completas, Carnaxide
1998-Colectiva«concurso de Pintura- Arábia Saudita pela Expo 98» Hotel Meridien, Lisboa e, participação no mural colectivo para Expo 98.
2014- Exposição Colectiva Nacional 70 CAVAQUINHOS 70 ARTISTAS
2015-Exposição Mensagem de Fernando Pessoa por 25 Artistas Plasticos - Palácio da Independencia
2016- " " " - Casa dos Cubos

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje os alunos prosseguiram e concluíram os exercícios da aula anterior. 



E eu nem tive tempo para ver se o dia esteve bonito ou feio. 



Portugal está subjugado a poderes no mínimo muito duvidosos. 

O PSD de Gondomar queixa-se de falta de solidariedade por parte da direcção do partido. 
Segundo o líder da concelhia, no momento difícil que se vive naquele concelho, seria de esperar uma palavra de reconhecimento e apoio e, ao invés, verificou-se a perda de importância no concelho nacional, desde logo, com a substituição do major Valentim Loureiro na mesa directiva daquele organismo. 

Começou a queda do presidente da câmara de Gondomar e da liga de clubes que acabará no papel de bode expiatório nisto da operação apito dourado. 

Enquanto isso, o primeiro-ministro presta vassalagem a Pinto da Costa com a sua deslocação à final europeia da próxima quarta-feira. 


Por aqui se vê quem manda. 



Hoje há grilares na noite. 


Alhos Vedros
  24/05/2004

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (335)


Luxe, Calme e Volupté, Matisse, 1904Óleo sobre Tela 98,3 x 118,5 cm


Henri Matisse nasceu a 31 de Dezembro de 1869, em Le Cateau-Cambrésis e morreu em Nice a 3 de Novembro de 1954.
O seu trajecto como pintor atravessa toda a metade do século XX, mas na história da arte é vinculado normalmente ao fauvismo, um dos movimentos mais importantes da primeira metade do século, pouco antes do aparecimento do cubismo.
A maneira como Matisse dominava a linguagem expressiva da cor e do desenho tornaram esta corrente a proposta mais avançada da pintura do seu tempo e valeu-lhe o reconhecimento como figura na liderança da arte moderna.
O quadro que apresento, cujo título é extraido de um verso de Baudelaire, é um exemplo de uma breve, mas importante, fase divisionista no seu percurso, por influência do seu amigo Signac.

Aproveito para desejar a todos os amigos, fiéis leitores deste Blogue, que a Beleza e a Arte os acompanhe durante todo o Ano de 2019.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 29 de dezembro de 2018

QUEM FOI JESUS? ONDE NASCEU?


in, Diálogos Lusófonos
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

(Por Frederico Lourenço, tradutor da Bíblia a partir do grego, professor da Universidade de Coimbra)

Quem foi o homem cujo nascimento hoje celebramos? Desde o século XIX, o estudo crítico do Novo Testamento e do primeiro cristianismo tem tentado reconstituir quem terá sido o «Jesus histórico». Em que ponto estamos desta investigação? Vou dar-vos uma proposta de biografia do Jesus real.

Jesus nasceu em Nazaré, no fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria. Era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.

Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.

Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.

Jesus tomou a decisão de ser baptizado por João; mas, depois de João ser preso, passou a ter uma actuação independente. A mensagem de Jesus, de que o «reino» divino estava próximo, era coincidente com a de João, mas Jesus sublinhou acima de tudo a tolerância e compadecimento divinos e a ideia de que nenhum de nós perdeu em definitivo a oportunidade de se «salvar». No cerne da mensagem de Jesus, sempre, o amor: «amai os vossos inimigos, fazei bem a quem vos odeia».

Com esta mensagem, Jesus levou uma vida de pregador peripatético na Palestina, falando sobretudo em pequenas localidades na parte norte do lago da Galileia. Escolheu como destinatários homens simples – pescadores, agricultores –, assim como pobres, doentes, e excluídos da sociedade, como prostitutas, etc. De forma talvez surpreendente para a época, não excluiu dos seus potenciais destinatários pessoas do sexo feminino, entre as quais temos de contar como a mais importante Maria de Magdala, conhecida como Maria Madalena (que não era uma prostituta – nada confirma essa ideia nos textos que nos chegaram).

A família de Jesus, nesta fase, achou que ele era um louco, embora mais tarde se tenha aproximado da sua mensagem; em especial, o seu irmão Tiago assumiu um papel relevante depois da sua morte (Tiago acabou por ser morto também).

A imagem de Deus que Jesus transmitiu deu vida nova a dois entendimentos antigos (e presentes na Escritura judaica): Deus como Rei e Deus como Pai. No entanto, «rei» foi somente um conceito implícito na boca de Jesus, já que o conceito que lhe interessou foi «reino».

Ao encantamento das suas palavras não era alheia a força poética das muitas parábolas que lhe são atribuídas. Para o encantamento da sua presença, muito contribuiu a sua fama de milagreiro carismático. Terá Jesus multiplicado pães, transformado água em vinho, caminhado sobre a água, curado doentes e expulsado «demónios»? Compreende-se que a força da sua personalidade tenha levado a que fossem projectados nele tais poderes.

Embora respeitando a Lei judaica, Jesus mostrou uma atitude bem liberal e tolerante relativamente a muitos aspectos dessa Lei. «O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado». Essa atitude valeu-lhe a má vontade da elite sacerdotal, que procurou entrar em discussão com ele e enredá-lo em contradições e blasfémias. A forma como Jesus atacou directamente o Templo como antro de materialismo, quando finalmente levou a sua mensagem para Jerusalém, determinou o seu fim.

Antes desse fim, ele estabeleceu – como substituição dos ritos sacrificiais judaicos no templo – um rito novo: uma refeição de amor fraterno, uma partilha de pão e de vinho, para ser continuamente feita em memória dele. Não quis morrer sem antes lavar os pés dos seus amigos mais íntimos. «Os últimos serão os primeiros».

No mundo romano, fazia parte do castigo atroz da crucificação os crucificados não serem enterrados: eram deixados na cruz depois de mortos, como pasto para aves de rapina. É-nos transmitido que, no caso de Jesus, isso não aconteceu, graças à intercessão e poder económico de José de Arimateia. Será verdade? Não sabemos.

O relato mais antigo (Marcos) do que aconteceu a seguir à morte de Jesus diz-nos que Maria Madalena e mais duas mulheres chegaram ao túmulo e lá encontraram um jovem vestido de branco que lhe disse que «Jesus, o Nazareno» ressuscitara (vincando, nas suas palavras, o facto de ele ser originário de Nazaré). As mulheres fugiram, espavoridas, «e nada disseram a ninguém: tinham medo, pois».

Outras tradições desenvolveram o tópico das aparições de Jesus «post mortem». Um judeu helenizado chamado Paulo (que nunca conheceu Jesus) registou que Jesus teria aparecido a 500 pessoas. Será verdade?

A resposta a essa pergunta não compete ao estudo académico do Novo Testamento, mas sim a outro âmbito, que é a fé. Todos somos livres de acreditar – ou não.

Seja como for, celebramos hoje o nascimento de alguém que marcou a história da humanidade de forma indelével. O que ele disse e fez continua válido hoje – por isso eu tenho uma admiração infinita por Jesus. O que fizeram dele – nomeadamente os muitos cristianismos fundados em seu nome, com os seus emaranhados de ficções teológicas – será outra coisa. Maus cristãos houve sempre. Mais importante é que sempre houve, e sempre haverá, bons cristãos.

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O PROBLEMA DE BELÉM
ONDE NASCEU JESUS?

Há tempos, num jantar cá em Coimbra, alguém falava da emoção sentida, numa viagem a Israel, na igreja que marca o lugar onde Jesus nasceu em Belém. Solidarizei-me com essa emoção, porque, para mim, tudo o que leve as pessoas a sentir coisas boas por causa de Jesus é bom.

No entanto, é altamente improvável que Jesus tenha nascido em Belém. A lenda o nascimento em Belém - ausente de Marcos, o evangelho mais antigo, e de João, talvez o evangelho mais fidedigno (mas isso também é discutível) - faz parte de um conjunto de invenções que aparecem em Mateus e Lucas, que constituem uma tentativa de contenção de danos relativamente a um «Messias» (palavra que, para espanto de muitas pessoas, ocorre somente duas vezes em todo o Novo Testamento) que não nasceu em Belém e cuja filiação era duvidosa.

Em João 7:42, lemos: “não diz a Escritura que o Cristo vem da semente de David e de Belém?”

A identidade de Jesus está a ser debatida no meio de uma multidão.. Uns dizem que Jesus era “o profeta” (v. 40); outros que era “o Cristo” (v. 41). Outros duvidam que o Messias possa vir da Galileia. Ora este episódio relatado por João mostra-nos, quase em tempo real, a nascença do mito do nascimento de Jesus em Belém. João e Marcos nunca dizem que Jesus nasceu em Belém, mas essa é a versão “crístico-mítica” que encontramos em Mateus e Lucas, evangelhos escritos com o propósito de “provar” que a Escritura estava certa e que Jesus cumpria a Escritura (neste caso concreto a passagem do profeta Miqueias 5:2 “e tu, Belém... de ti virá o regente que apascentará o meu povo de Israel”). Neste episódio narrado por João, o não-nascimento de Jesus em Belém é claramente visto por alguns como prova de que ele não pode ser o Messias. É por isso que, na Nova Escritura de Mateus e Lucas, a História é reescrita de modo a compatibilizá-la com a Escritura Antiga.

Por outro lado, em João 8:41 os fariseus dizem a Jesus: “nós não nascemos da prostituição”. A palavra "porneia" significa literalmente “prostituição”, já que a "pornê" é a “prostituta” (a palavra vem do verbo pérnêmi, “vender”). O que está subentendido como insulto grosseiro nas palavras dos fariseus, ao dizerem que não nasceram da prostituição, é que o mesmo não se aplica a Jesus (cf. o indispensável comentário de Barrett, p. 348: “a implicação é que Jesus nasceu da porneia”). Esta acusação é feita abertamente nos apócrifos Atos de Pilatos 2:3.

Portanto: o Messias tinha nascido "de pai incerto" e no lugar errado. Como dar a volta a essa situação?

A ideia de que ele teria sido dado à luz por uma virgem resolveu muita coisa (apesar de tal noção ser desconhecida de Marcos, de João, de Paulo - na realidade, de 25 dos 27 livros do Novo Testamento).

Quanto a Belém, Lucas e Mateus dão-nos tentativas contrastantes e contraditórias. Em Lucas, José e Maria são naturais de Nazaré, mas vão a Belém por causa de um censo (historicamente não existente), para que lá nasça o Menino.

Em Mateus, José e Maria são naturais de Belém - e é lá que nasce o Menino, na residência (pressupõe-se) dos pais.

Mas por causa da maldade de Herodes, a Sagrada Família foge supostamente para o Egipto (episódio ausente dos outros evangelhos); e de lá regressa, não para Belém, o mas sim para Nazaré.

Para justificar essa situação, Mateus até inventa uma profecia não existente do Antigo Testamento: alegadamente os profetas teriam dito que o Menino chamar-se-ia «nazareno» (ou «nazoreu»).

Há várias interpretações apologéticas (feitas por cristãos empenhados em fazer sentido de uma narrativa que não faz sentido) desta palavra grega ναζωραῖος.

Algum profeta bíblico terá dito alguma coisa sobre um Menino que vai viver para Nazaré?

A realidade objectiva é que a cidade de Nazaré é ela própria completamente desconhecida do Antigo Testamento. Além de não ter nascido em Belém, o Menino nasceu, afinal, numa cidade sem o mínimo de pedigree.

Se não foi em Belém, como deveria ter sido, mas numa qualquer Porcalhota da altura (Nazaré), ainda bem.

"De Nazaré pode vir alguma coisa boa?", pergunta-se, com cepticismo, em João 1:46. A resposta é simples: SIM.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Não faz grande sentido dizer-se que os judeus deram um contributo para a cultura europeia. 
Se bem que religiosamente distintos da maioria demográfica de matiz cristã, afirmá-lo é partir do pressuposto que aquelas populações não são uma parcela dos povos que habitam este território continental e sim um mundo à parte, ainda que aí instalado. 
Ora esse sempre foi o princípio das diversas visões de exclusão a respeito de tais indivíduos, desde a inquisição ao nazismo, passando pelos fundamentos teóricos do racismo do século dezanove. Mas estamos a falar de ideografias, não de factos e, neste particular, aquelas não têm qualquer correspondência naqueles. Com efeito, desde que se fizeram diáspora em terras europeias, sempre se inseriram nos tecidos económicos dos territórios em que viveram e, mesmo tendo em conta os guetos, por via disso, igualmente fizeram parte integrante dessas sociedades. 
Desde logo ao nível gnosiológico, a afirmação inicial carece de toda e qualquer propriedade. Mais do que isso, enquanto preconceito ideológico que é, tem o efeito pernicioso de nos impedir de compreender o que realmente se verificou e verifica e que é muito simplesmente o facto de os judeus serem um dos elementos constituintes do que poderemos muito genericamente designar por cultura europeia. E eu acrescento que são um dos pilares mais importantes. 
Precisamente aquilo que de Nietzsche para cá se classifica depreciativamente como a “herança judaico-cristã” é o que nos distingue das outras grandes manchas culturais que perfazem as expressões da Humanidade sobre este planeta tão bonito. 
Todos nós temos, em boa parte, uma costela judaica, não porque tenhamos na nossa árvore genealógica alguém daquela Fé, mas sim porque transportamos conceitos e ideias, valores e instituições que têm origem mais ou menos remota no judaísmo e enculturámo-nos em mundos que se organizam também em redor desse legado. 
Só para vermos um exemplo primordial reparemos quão pouquíssimas vezes nos damos conta que a ideia de pessoa, a noção de indivíduo e a partir daí, um valor como o conceito de dignidade humana, não teriam sido possíveis de formular se não tivesse acontecido a revolução monoteísta a que a Revelação a Abraão deu lugar. 
Demo-nos ao trabalho de pensar e rapidamente concluiremos que, a partir dali, é muito aquilo que devemos aos descendentes de Isaac. 



Pois enquanto estive a escrever as palavras anteriores, mais uma vez na companhia dos King Crimson que estão a ser a banda sonora deste fim-de-semana, a Matilde, depois de feito o trabalho de casa, está a escrever frases de uma história infantil na videowriter. 
A mãe e a Margarida foram ao escritório para que o piolhinho treine a execução de uma pasta. 

Assim se faz o repouso de uma família, agora que os dias se enfrentam invariavelmente de manga curta. 



E o congresso do PSD lá continua oco como seria de esperar. 

Nada de novo e uma vez terminado, os problemas que o país enfrenta continuarão por enfrentar. 

Mas há a registar a curiosidade de escutarmos o líder do partido e primeiro-ministro acusando o clientelismo instalado na região autónoma dos Açores, onde alegadamente se vive num período de quase ditadura em que tudo tem que obedecer aos interesses do governo regional, o mesmo é dizer daqueles que lhe detêm as rédeas. 

Isto dito na presença de João Jardim não dá vontade de rir, nada que se pareça com isso. 

No entanto, pior foi a sua proclamação inflamada de responsabilização dos comunistas por eventuais problemas de falta de segurança no Euro 2004, tudo isso pela agitação que, segundo Durão Barroso, têm vindo a provocar nas forças da ordem. 

Não há palavras que descrevam a falta de bom gosto de uma acusação destas que está na melhor linha dos progroms estalinistas e maoistas sobre determinados estratos sociais. 
Mesmo no contexto do consumo interno de um congresso, não se admite este género de discursos. 


Mas é o entendimento da democracia subjacente a um tal modo de proceder que está bem de acordo com o homem que adiou uma visita de estado para ir assistir a uma final de futebol e prestar vassalagem a uma das figuras que mais tem contribuído para minar os valores do estado de direito em Portugal. 



Caracóis na Júlia, ao fim da tarde. 

Conversa com a Cláudia e o Afonso, acabados de chegar do Dubai, onde passaram uma semana de férias. 


E as pernas repousaram, assim como o espírito, sob o efeito de uma leve brisa amena. 

Uma família em paz, lanchando sob a piadeirada das asas preparando-se para a passagem da noite. 


Alhos Vedros 
  23/05/2004 

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim de tarde amarelo, a luz amarelada que fez as andorinhas acoitarem-se nos ninhos e os sons dos trovões, ao longe, remetendo-nos para a tranquilidade do lar adornado pelas alegrias dos King Crimson na aparelhagem de som. 



A Matilde entrou definitivamente na fase da leitura. É vulgar vê-la soletrar palavras por tudo quanto é sítio, desde os rótulos a livros e jornais, com aquele seu ar sorridente mas concentrado, como se estivesse perante uma avaliação qualquer. 

“-Ba… lá… da. A balada. Dó. Do. Mar. Sal… gá… dó… Salgado. A balada do mar salgado..” –Deitada no chão da sala, olhos postos na capa do livro de Hugo Pratt. 

Eu que parara à entrada para gozar o momento, mal a leitura foi concluída, aplaudi e ajoelhei-me para a beijar nos cabelinhos, ao mesmo tempo que dizia, cheio de orgulho, é bom de ver: “-Palmas para a Matilde!” 
E acrescentei: 
“-Ena pá! Agora já toda a família sabe ler.” –Enquanto regressei à postura bípede. 
Boquinha rasgada, inclinou a cabeça e retorquiu de imediato. 
“-Ó pai, mas há uma que é só assim assim.” 

E eu ri-me de contentamento. O abraço que lhe dei fez-lhe ver que vai muito bem para o que está dando os primeiros passos. 



Fico siderado pelo elevado número de pessoas que não nutre qualquer respeito pela ideia democrática e a democracia enquanto sistema de organização política e social. 
Mas a verdade é que pelas reacções que vamos observando ao problema iraquiano e ao conflito israelo-palestiniano, damos conta que muito do anti-americanismo subjacente às críticas às operações militares dos aliados naquele país, tem como pano de fundo uma mundivisão que não se coaduna com os princípios das ideias e comportamentos democráticos, chegando em muitos casos à incompatibilidade com aqueles. 
Tal é patente, por exemplo, não só quando se aceita que o terrorismo tenha causa nos factores internos das sociedades abertas do ocidente, ou quando se igualiza este universo ao mundo totalitário de que aquele é oriundo e que pretende ordenar. 
No primeiro caso estamos a justificar a razoabilidade dos ataques que aquele faz às democracias ocidentais o que, se atendermos a que os objectivos propalados têm a finalidade última da destruição pura e simples daquelas, é escolher objectivamente o lado contrário e inimigo do nosso modo de vida. No segundo desqualificamos as nossas pretensões e consideramo-las ao nível daqueles para quem a vida humana nada mais vale que o sacrifício de um holocausto. 
Naturalmente, isto acaba por pôr em questão não só a intervenção militar, nem também apenas os Estados Unidos da América ou o Reino Unido, mas sobretudo e em primeiríssimo lugar a ideia de democracia em si. 

Como se chegou aqui não sei, é assunto que requer uma reflexão profunda que, no entanto, me parece necessária. 
Que estamos num caminho perigoso, não tenho a menor dúvida. 


Espanta-me, isso não sou capaz de evitar, como gente simples que vive do seu trabalho vai atrás destas lengalengas. Até parece que são aristocratas. Distraídos, no mínimo, é o que são, a não ser que tenham mesmo uma predilecção pelas ditaduras ou por qualquer forma de despotismo esclarecido. Talvez preferissem viver numa espécie de feudalismo, serem proibidos de caçarem lebres que seriam propriedade de um qualquer senhor, a quem teriam que pagar tributo e que, nos dias coevos, muito provavelmente teria o aspecto de um Al Capone com punhos de renda. 

Será que as pessoas não se dão conta que é esta a alternativa para a civilização democrática que se vive no Ocidente? Ou ainda restará dúvidas a alguém que mesmo uma qualquer solução de uma sociedade mais justa e socialista, jamais poderá deixar de se expressar na forma da democracia? Pelo menos por enquanto, não conhecemos uma forma melhor de controlar o exercício do poder em sociedade. E poderíamos desde já, assim de um momento para o outro, abdicar do poder de estado? Não me parece. 



Hoje, os alunos, para além das aulas de moral e de música, esta última em que aprenderam novas canções, fizeram exercício com números e a nova palavra dada. 



Começou o congresso do PSD. 
Já sabemos como vai acabar. Todos serão unânimes em aplaudir o líder e dirão que o governo está bem e a trabalhar melhor e que, por causa disso, o país vai no bom caminho, na demanda da retoma económica e da recuperação do atraso relativamente aos países mais ricos da União Europeia. 
Santana Lopes lá terá o protagonismo que a sua obra e capacidades não subscrevem e por fim todos irão contentes para casa, os instalados com a garantia de que as prebendas não secarão nos tempos mais próximos. 

Em Julho, provavelmente perderão as europeias mas todos já sabem que um partido que está no poder e vai a votos a meio do exercício do mandato, sempre tem muitas probabilidades de ver o desgaste governativo inflacionar-lhe significativamente o número de eleitores. 



Ainda não decidi a quem oferecer o meu voto nessas eleições, mas no bloco central não será, com toda a certeza. 

Querem ver que vou votar no PCP? 


 Alhos Vedros 
  21/05/2004

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (334)

Composição VIII, KandinsKy, 1922
Óleo sobre Tela, 96 x 106 cm

Wassily Kandinsky nasceu em Moscovo a 16 de Dezembro de 1866 e morreu em Neuilly-sur-Seine, a 13 de Dezembro de 1944.
Foi um artista plástico russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.
Durante os seus primeiros anos, a pintura foi apenas a paixão de um jovem romântico, mas tornou-se uma das mais importantes conquistas da história da Arte contemporânea.

Foi considerado o fundador da pintura abstracta.   

Selecção de António Tapadinhas