terça-feira, 19 de novembro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A cidade é monumental.


Aqui o Sol aparece e desaparece por detrás dos montes e no meio ficam as corcundas e os chapéus de bico que fazem com que a terra se faça a miúde, com vertentes quase a pique e que a mão do homem encheu de casinhas e casarões coloridos a ladearem ruas pavimentadas com pedras negras salientes e multiformes.


Haculumy é o ponto mais alto, acima dos mil e setecentos metros; as vistas são impressionantes.



A disposição do casario reflecte os contornos das colinas e montes e vemo-nos forçados a subir e a descer as vertentes, fugindo, dentro do possível, às mais íngremes e fazendo escalas em pontos de interesse ou em lojas de artesanato que se espalham, aqui e ali, por algumas das ruas secundárias que da praça principal descem em direcção ao rio.


Ouro Preto é uma cidade histórica da rota do início da exploração mineira que de imediato se seguiu à fixação demográfica que os bandeirantes possibilitaram, com as suas expedições, logo no início do século dezassete.
Ainda hoje em dia há laboração em torno do minério e na vizinhança até é possível visitar uma mina de ouro que cessou a actividade há pouco mais de dez anos. À entrada da urbe, do lado de quem vem de Ouro Branco, há mesmo uma grande unidade industrial para aqueles fins. Mas a actualidade do burgo centra-se mais na universidade e em todo o movimento que se gera em seu redor; estamos naquilo que podemos chamar uma cidade universitária o que é bem visível nas muitas repúblicas de estudantes, cujas tabuletas também muito contribuem para o pitoresco e a singularidade do lugar.

E neste fim-de-semana que trás o fim das férias de Julho, nota-se os magotes da estudantada estridente e gargalhante, contente pelo regresso ou o ingresso que, como em todos os sítios assim, são os caloiros quem mais se diverte com os ares dos primeiros dias e nem mesmo a geada da madrugada impede que a boémia dure até aos primeiros cantares dos galos.


Diz-se que Ouro Preto é a cidade das igrejas e na verdade pululam às mãos cheias, com os seus campanários altaneiros e destaque acima dos telhados ou dos balandraus da vegetação e é difícil olharmos a paisagem sem que em ângulo algum deixemos de avistar pelo menos uma. E também é um facto a imponência de algumas delas, tanto quanto à dimensão diz respeito como à riqueza dos ornamentos barrocos dos traçados.
Mas não é menos verdade que aquelas são afinal a imagem comum que tanto os pequenos povoados como as urbes maiores ostentam por estas bandas. Tenho para mim que esse é o principal legado português para este futuro que é o presente que vivemos.


Justamente foram elas um dos nossos objectivos do dia e se bem que não tão ricas quanto seria de esperar – ainda hoje recordo uma custódia do meu tamanho que vi em Parati – mas não duvidando que as peças mais valiosas e impressionantes estejam guardadas, são, contudo, em todos os exemplares em que entrámos, obras de arte dignas de serem apreciadas e gozadas, onde até nos sabe bem empregar um bom lapso de tempo para que meditemos nos mistérios dos primórdios de um local como este.


E lá estão as técnicas de pintura de tectos que nos cria a ilusão de movimento em certas figuras ou nos olhos com que os santos continuam a fixar os nossos quando rodamos para a posição contrária em que nos encontrávamos em relação a eles.

A Igreja de São Francisco de Assis, a obra prima do Aleijadinho, foi a que mais encantos despertou entre a família que anda em viagem.


No entanto há mais para ver, a começar pelas pinturas naifs dos vendedores de rua ou em lojinhas de artesanato, como também edifícios de interesse, como a Casa do Conto, onde para além do mobiliário e documentos de variados géneros de séculos idos, demos de caras com uma exposição de moedas que, desde o início da colonização portuguesa, por ali circularam.



O cansaço que sentimos é bem compensado por aquilo que vimos.



Criamos espaços de repouso, ao fim da tarde, com a recolha aos quartos para que os miúdos brinquem e os pais possam, no nosso caso, ler ou dormitar.

“-Ficas aqui junto dos avós que a mãe vai ver o tio Daniel.” –Disse a Matilde ao pousar um dos seus bonecos aos pés da cama em que me estendi para ler.



Thomas Mann na maturidade, com uma história que parece ter sido escolhida a propósito para ler neste cenário, a busca de identidade de um escritor alemão do norte no fim do século dezanove, (1) justamente a época desta arquitectura civil do lugar e desta pousada também.



Guardámos os carros na garagem; estamos no domínio dos caminhantes.


 Ouro Preto



NOTA 

(1) Mann, Thomas, TÖNIO KRÜGER 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Mann, Thomas, TÖNIO KRÜGER, Tradução de Cláudia Gonçalves, Dom Quixote (2ª. Edição), Lisboa, 2003

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (372)


RIACHO, Autor Iberê Camargo, 1942 
óleo sobre tela, 30 x 40 cm

Iberê Camargo nasceu a 18 de Novembro de 1914, Restinga Seca, Rio Grande do Sul, Brasil e faleceu a 9 de Agosto de 1994, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Iniciou os seus estudos no Rio Grande do Sul, na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, com Parlagreco e Frederico Lobe.

Entre 1936 e 1939 tirou o curso técnico de Arquitectura do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, com a orientação do professor Fahrion.

Em 1942, Iberê mudou-se para o Rio de Janeiro, onde frequentou a Escola Nacional de Belas Artes, com uma bolsa de estudos concedida pelo governo do Rio Grande do Sul.

Ao longo de sua vida, Iberê produziu mais de sete mil obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e guaches, entre elas, “Dentro do Mato” (1942), “Auto Retrato” (1943), “Lapa” (1947), “Carretel Branco” (1967), “Ciclistas” (1989) e “A Idiota” (1991). Entre suas publicações estão: “Tratado Sobre Gravura em Metal” (1964), o livro técnico “A Gravura” (1992) e o livro de contos “No Andar do Tempo: 9 Contos e um Esboço Autobiográfico” (1988).

É em Porto Alegre, num prédio projectado pelo arquitecto português Álvaro Siza, que hoje funciona a Fundação Iberê Camargo, que reúne além de vasta produção artística, os diversos documentos que completam sua obra e registam sua trajectória, que o artista e sua esposa Maria Coussirat Camargo, tiveram o cuidado de preservar.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A Poesia de Manuel (D'Angola) de Sousa



“Aquém E Além De Mim Mesmo Já Não Há Volta A Dar Ao Destino”

Estou redondamente decepcionado
Nunca pensei encontrar tal vida
Supunha-a muito mais prática

Arrependi-me tão logo abri olhos
Chorei compulsivamente para voltar
Lamento não ter ficado agarrado à origem

Ninguém em absoluto me entende
Ando frustrado desde então
Desejo desviar o rumo

Apago do livro o passado
Não aceito ter vindo das cinzas
Nego ainda o pó que me acoberta

Sinto-me como uma errante alma penada
Nem vale a pena reclamar muito
Meu destino já está traçado

Grito a sós por socorro
Seguro-me bem à bóia salva-vidas
De nada me vale esconder-me atrás de mim mesmo

Jamais me será permitido voltar ao princípio de tudo
Queira eu ou não reiniciar noutra condição
O caminho leva-me sem apêlo…

Escuto além cancões de todos os tempos e existências a uma só voz… 

Escrito por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 5 de Novembro de 2019, em Luanda, Angola, em Alusão a toda a Matéria que suporta o milagre da Vida Existencial e que, na forma de Astros vários e de uma infinita multidão de Galáxias, suporta a formatação presencial da Alma Cósmica em todos os recantos do maravilhoso e supra intrincado Universo…

“Viva a Suprema e Omnisciente Inteligência, que está em cada um e em todos nós, e ainda, em todos os recantos Cósmicos do Universo, sob as mais variadas e múltiplas formas de Vida e sob Sua Orientação, Plano e Comando…”

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A geografia física encanta. 

Do alto dos promontórios o horizonte ondula-se em outros promontórios mais ou menos altos e o verde espalha-se-nos pelos olhos, em quantidades de infinito na forma de fazendas de gado que a legislação força a que se deixem mesclar pela mata atlântica densa mas de pequeno porte, em compactos de arvoredo nativo e arbustos, uma vez por outra salpicados pela importação de eucaliptos que as celuloses plantam para consumo próprio. 
Casas térreas dos que trabalham a terra polvilham as margens das propriedades que sempre apresentam grandes casarões quase na totalidade modernos. 
Circulando pelo topo ou nos vales mais alongados, o céu faz um enlace de oceano com as montanhas.



Chegámos a Ouro Preto de noite. 
Fomos recebidos pelo Alan, um jovem que o acaso colocou à entrada da cidade com o propósito de se oferecer para nos acompanhar na procura de uma pousada ou hotel para nos instalarmos. 


Alan é um dos muitos garotos e crescidos que informalmente procuram ganhar o sustento desempenhando o papel de guias turísticos. Diz que estuda turismo na universidade local mas não sei que credibilidade merece a indicação. Seja como for, sem aviso e nem sempre a propósito dispara dados sobre a história da cidade e os edifícios por que passamos. Nem é precisa a moeda do poema do Pessoa; ele abre a boca e solta a gravação de livre e espontânea vontade. Basta que estejamos calados. E repete a última frase de cada intervenção. 
No entanto foi eficaz no serviço e para o cansaço que trazíamos foi isso uma nota agradável. 



Os miúdos acabaram por sucumbir à cadência de uma estrada em que só a Lua cheia se deu ao trabalho de ocultar as estrelas. 


 Ouro Preto

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (371)


O Castelo dos Papas, Avignon, 1900
Óleo sobre Tela

O pintor Francês Paulo Victor Jules mais conhecido por Paul Signac nasceu no dia onze do mês de Novembro do ano de 1863 em Paris e faleceu no dia quinze do mês de Agosto do ano de 1935 em Paris.
Signac foi juntamente com Georges Seurat, o criador do "pontilhismo" (1883-1884) que consistia na aplicação de cores puras em pequenas pinceladas.
Pintou sobretudo paisagens, principalmente de Saint-Tropez, naquela altura uma tranquila aldeia piscatória, onde comprou uma vivenda em 1893.
Reconhecidamente ganhou o respeito dos seus colegas pintores como se prova por ter permanecido como Presidente da Sociedade dos Independentes até à data da sua morte.

Selecção de António Tapadinhas

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O CÉU ESTÁ COBERTO DE TI PAI


José Gil


O CÉU ESTÁ COBERTO DE TI PAI

a Manuel Gusmão, poeta,

ativei o cavalo que galopas no digital da solidão
toca Eric Satie neste momento de humidade do céu
o céu está coberto de ti no cérebro sensível de todos
os atores jovens no palco
como em todas as pessoas nas arenas e plateias
os atores são uma tribo intranquila e resiliente
exigentes e capazes de ariscar
tens gavetinhas pai em todo o corpo como Dali no
interior escondido
no movimento mais lento do amor entre nós
toca a testa na mão clara dos cabelos curtos
da rotação do teu corpo amor
no meu no último dia
as minhas pernas saltam da cama de madrugada
guardo nestes poemas as rugas da face
escrevo como quem bebe limonada de resistência
a garganta dói e está rouca no verão em longos sorvos
assobiados de crueldade humana de evitar o fim da
pobreza da ignorância da iliteracia
o céu
és amor sem saberes
a minha gaforina desgrenhada
aqui vou deixar morrer o poema
o silêncio está a refluir
ontem a pé na estrada
só de madrugada no campo pequeno
um carro veio contra mim em marcha atrás
senti o corpo frio com o mármore
e depois travou perto de mim
parecia estar no palco
sobre um asfalto sintético negro
alguns móveis muitos livros
encarnações de mofo
até uma cheirava a bafio
os miolos cheios de larvas e enguias podres

há quanto tempo não vou ao cinema
conheço-te a tricotar todos os dias
uma malha de vida e sangue
o teu sentido oculto como Pessoa,
"e não teres sentido oculto nenhum" ator

Praias de Cascais,
20:39h
31-10-2019

José Gil,
Foto Catarina Gil

terça-feira, 5 de novembro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Viagem pelo sudeste de Minas Gerais; o nosso destino é Ouro Preto. 

O carro rola ao compasso de música para encher as paisagens que, mal se começa a subir em direcção a Petrópolis, deixa a planície com cumes ao fundo para se compor de maciços que por aqui e ali, abrindo grandes vales verdes de mata e decorados pelo castanho férreo da rocha crua dos enormes blocos de rocha que se deixam ver abruptos a dar corpo a cumes repentinamente muito elevados. 
Deep Purple in concert, há quantos anos não ouvia estes sons. 


Fico com a ideia que ao escalarmos as serras que fazem a fronteira entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, estamos no planalto central brasileiro em que provavelmente assentará todo este território que me parece estar a muitas centenas de metros acima do nível médio das águas do mar. 
Pelo menos nesta região sudeste, Minas Gerais tem um aspecto montanhoso. O horizonte recorta-se de corcundas mais ou menos altas e imponentes que não se fizeram rogadas para formarem serranias também elas, ora aqui de pequeno, ora ali de grande porte. 


Como somos muitos, viajamos em carros separados. 
Sigo com o Luís no van que transporta as bagagens e os demais no automóvel que alugámos quando aqui chegámos. 

Segundo a mãe, as minhas filhas estiveram sossegadas e participaram nas conversas de circunstância.

Mas infelizmente o Quim não registou o trajecto com a sua câmara digital. 



Desvio para Tiradentes, uma surpresa deliciosa que justifica plenamente os mais de cem quilómetros que a tanto obriga. 

Uma pequena localidade cheia de interesse histórico na rota das cidades do ouro que inicialmente terminava em Parati. 

O núcleo urbano antigo faz-se de casas tradicionais bem preservadas nos seus aspectos e pinturas que dão colorido à praça e às ruas que daí partem até à igreja barroca que se ergue num dos limites do povoado; imaginamos os carros de bois com rodas de madeira sobre estes pavimentos de calhau grandes e arredondados, ou lajes calcárias multiformes e atapetadas em desalinho. 

À entrada, a placa toponímica tem o símbolo de uma estância termal. As pequenas carroças puxadas por potros que se alinham, à direita, na praça principal, oferecem uma visita pelos pontos de interesse e os pisos térreos abrem portas a restaurantes e bares e às muitas casinhas de venda do mais variado artesanato que vai das simples bugigangas ao mobiliário, passando pela pintura e as tapeçarias e demais artes têxteis. 

Na estação ferroviária, cruzámo-nos com um comboio a carvão que me pareceu servir para passeios turísticos. 


 Tiradentes

segunda-feira, 4 de novembro de 2019



Porto de Paranaguá, Autor, Alfredo Andersen 
Óleo sobre tela, 55 x 76 cm

Alfredo Andersen nasceu em Christianssand, Noruega, a 3 de Novembro de 1860 e faleceu em Curitiba, Brasil, a 9 de Agosto de 1935.

Foi um pintor, escultor, decorador e professor norueguês radicado no Brasil.

O artista é considerado o “Pai da Pintura Paranaense”.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

EG #117


ESTUDO GERAL
out/nov     2019           Nº117


"O mundo é Deus sendo."


Sumário


2.              As Nossas Cores – António Tapadinhas
exposição de pintura

3.              Plena Gratitude – Luís Santos
largo da graça

4.              O Diário da Matilde – Luís F. de A. Gomes
diarística

5.              Um Poema – Manuel de Sousa
D’Angola

educassão é icenssial
 
livros que se recomendam



---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Manuel (D'Angola) de Sousa: Um Poema


“Na Ponta De Um Pincel Feito De Silábicas Palavras E De Fonéticas Existências”

Partilho tudo com a Humanidade e até a Alma
Ao primeiro sopro Divino levanto do pó e do barro
A primeira coisa que faço é ir à fonte Cósmica beber água

Personalizo-me no interior da matéria rígida
Formato a personalidade identificativa e assumo
Alguém me baptiza à força e chama-me nomes à parte

Ainda grito e choro pela primeira vez reclamando
Chamo pelos três Anjos da Criação sem me lembrar deles
Esqueço como se chamam e no que acabaram por me transformar

Sinto-me como que um menino do coro e do Paraíso
Alimentam-me de papas de trigo e cevada de bibe enfiado
Sou mimado por todos e ainda pela Babá e pelo Jardim de Infância

Há quem me trate por bebé do princípio ao fim
Vivo com o pêso das sucessivas fraldas e suas memórias
Convencem-me um dia a sentar no penico das necessidades

Jogo ao berlinde pela primeira vez num campo
Deixo de suportar o cheiro da cebola e do leite de vaca
Dou meus primeiros passos e fonetizo as primeiras silabas

Percorro a calçada decorada aos saltos e ao pé-coxinho
Marco passo a disparar setas num longo arco em marcha lenta
Não me recordo mais onde está a meta ou o objectivo traçado a pincel…

Reencarno em mil e um corpos astrais pelo Universo e ando nas calmas pela Existência…

Escrito por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Luanda, Angola, a 25 de Setembro de 2019, em Homenagem a todos os Seres que Pronunciaram o Verbo e o Sentido Fonético do Aventureiro Desejo Divino, ao longo de toda a Existência e de Suas Omnipresença e Omnisciente Manifestação ao longo de todo o Universo Cósmico, desde os mais recônditos e infinitos quadrantes aos mais próximos, e tanto aos níveis imaginário e abstracto, como nos âmbito real e concreto da Realidade e em todos os seus planos invisíveis e visíveis…

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Passeio pelo Rio velho, a Rua Saara e os camelôs das imediações. 
É ali que o povo se agita em compras e vendas de pobre e que o raro estrangeiro que por lá se atreve tem a sensação de que pode ser roubado a qualquer instante. 
Contudo, é uma moldura humana de primeira grandeza, os tons da pele que circulam do mais preto ao mais alvo e tenho para mim que não se entende a cidade se não se vir o esforço que a miséria faz para sobreviver. 


Mal deu para nos deleitarmos na Igreja da Candelária, onde decorria uma missa para formandos de medicina. 
Em contrapartida, a sede do Banco do Brasil adaptou um centro de cultura no primeiro piso de um edifício redondo, de cujo pátio central vemos as nuvens através de uma claraboia com funções de cúpula; gostei especialmente de uma grande exposição de pinturas e esculturas de artistas que eram jovens em início de obra nos primeiros anos da década de oitenta, quando o sonho democrático empolgou a sua geração. 

Ontem visitámos o forte, um aquartelamento do exército que tem uma excelente panorâmica sobre Copacabana e a entrada da baía de Guanabara e onde vimos o museu histórico daquele ramo das forças armadas brasileiras. 


À saída deparámo-nos com uma coluna militar motorizada e pronta a entrar em acção. 

Tenho pena de não ter comprado os jornais desta manhã, pois parece que a tropa entrou numa favela à procura de armas roubadas precisamente daquele regimento. 


Antes estivemos no Museu da H. Stern, uma empresa especializada na produção e comércio de joias, desde o primeiro momento da extracção mineira à execução final das peças, passando pela lapidação e tratamento das pedras preciosas ou o designe e a elaboração das preciosidades, fase que tivemos ensejo de presenciar através do percurso da mostra museográfica, devidamente acompanhada por uma gravação em que nos explicam as diversas operações que vamos vendo. 


Fiquei a saber que no Brasil existe a única mina de topázio imperial que existe no mundo. 


A transparência das águas marinhas azula a luz que a atravessa. 



A Margarida simpatizou particularmente com a prima Daniela, com quem muito gosta de conversar sabe-se lá sobre o quê. 
Sei no entanto que faz muitas perguntas, aparentemente sem temática definida, a respeito de tudo um pouco. 

Nos passeios aproxima-se dos mais velhos e entra nas conversas como se fosse uma pessoa adulta. 


As minhas filhas deixam-me cheio de orgulho. 

 Rio de Janeiro

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL...(369)


Francis Bacon
"Estudo segundo o retrato do Papa Inocêncio X de Velázquez", 1953
Óleo sobre tela, 153 x 118 cm

Bacon nasceu em Dublin, a 28 de Outubro de 1909, de um pai australiano e mãe inglesa. Morreu a 28 de Abril de 1992, em Madrid.
Seu pai, Viande Bacon, foi um veterano da Segunda Guerra dos Bôeres e se tornou um treinador de corrida de cavalos. Sua mãe Winnie, herdeira de um negócio de aço e de uma mina de carvão, era notável pela sua natureza saliente, gregária, um total contraste em relação ao seu marido. Francis foi cuidado pela enfermeira da família, Jessie Lightfoot. Criança asmática e com muitas alergias a cães e cavalos, Bacon muitas vezes teve que tomar morfina para aliviar seus sofrimentos durante os ataques. A sua família mudou muitas vezes de casa, e durante esse período mudou-se entre a Irlanda e a Inglaterra, levando a um sentimento de displicência que permaneceu com o artista durante toda a sua vida. Em 1911 a família morou em Cannycourt House, próximo a Kilcullen, no Condado de Kildare, mas posteriormente mudou-se para Westbourne Terrace, em Londres, próximo a onde Eddi Bacon trabalhou Exército Territorial.

A sua primeira exposição individual na Lefevre Gallery, em 1945, provocou um choque e não foi bem recebida. Toda a gente estava farta de guerra e de horrores, só se falava da "construção da paz" e as imagens de entranhas dos quadros de Bacon, com os seus tons sanguíneos, provocaram mais repulsa do que admiração.

Como homem do seu tempo, Bacon transmitiu a ideia de que o ser humano, ao conquistar e fazer uso da sua própria liberdade, também liberta a besta que existe dentro de si. Pouca diferença faz dos animais irracionais, tanto na vida - ao levar a cabo as funções essenciais da existência como o sexo ou a defecação - como na solidão da morte; representando o homem como um pedaço de carne.

A sua obra esteve em exposição, em Serralves, na cidade do Porto, Portugal, em 2003.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Plena Gratitude



"Flor do Lácio", pintura de capa, da genial pintora brasileira, mineira, Kity Amaral.


aos meus alunos

Mais dia, menos dia, faz 32 anos de Professor. Anos e anos de estudo: licenciatura em Antropologia, mestrado em Educação e Desenvolvimento, doutoramento em Filosofia da Educação (2015).

Nos agradecimentos da tese de doutoramento, diz-se assim: "A todos os meus alunos, que ao longo dos anos tiveram muito que aturar, mas também de aprender, ainda que pouco, porque sempre estiveram presentes em cada uma das palavras que ergue este estudo. Todos eles sempre trago comigo."

Enfim, as coisas são o que são.


aos meus amigos

a tese de doutoramento tem um agradecimento especial aos amigos. Depois dos seis anos de curso e das mais de 300 páginas em que ficou o livro, onde se faz um resumo possível das ideias do Professor Agostinho da Silva, figura maior da cultura portuguesa, lusófona, universal, entre outros certamente, deixo-vos o vosso poema em forma de retribuição, que inicia a tese e, de alguma forma, a sintetiza, porque sem a vossa amizade o estudo jamais seria possível. Diz assim:

Se eu chegasse a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte.

Agostinho da Silva, uns poemas de agostinho. Lisboa: ulmeiro, 1990, p.106 (2ª ed.)


aos meus professores

já que aconteceu fazer-se referência ao doutoramento, mesmo sabendo daquela "mosca sem valor...", de António Aleixo, não podia deixar de, reconhecidamente, os relembrar:

. Conceição Miranda, a "santinha", pré-primária, porque ao que consta nenhuma criança faleceu às suas mãos
. Palmira Santos, em Niza, aldeia do Espírito Santo
. Aura Maria Rodrigues, educação não formal, reconhecidamente aureolada

. Vasco Soares, engenharia mecânica dos tempos livres
. José Batista, biologia da arte de ser professor
. Eduardo Espírito Santo, professor de meditação

. João Paulo, professor de história, liceu da Moita
. Raul Iturra, chileno, exilado político, antropologia
. Joaquim Coelho Rosa, dada a sua mestria em filosofia

. Agostinho da Silva, professor de todas as letras e dos espaços vazios entre as palavras
. Maria Violante Vieira, presidente da unicef em Portugal que, sem ensinar nada, ensinava tudo
. Paulo Borges, na luz da mística cristã e budismo.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Visita ao Zoo com regresso pelo CEASA e a rota do centro que atravessa a favela da Madalena. Para lá rodeámos a Mangueira, onde se destaca o cor-de-rosa e o verde da sua escola de samba.



Tarde de repouso com jantar em casa do meu cunhado, uma vez que ontem, todos nós, mais a Daniela que esta manhã nos acompanhou, nos decidimos pela picanha de um restaurante do Down Town, um shopping nas imediações da casa do Luís.



Para a ganilha foi bom.

A Marga esteve a ver um filme do Harry Potter e a Matoldas e o Daniel fartaram-se de brincar.



Dia de jornais brasileiros, onde se destaca a vitória do Brasil sobre a Argentina, na final da copa americana das nações, em futebol.


Mas também há novas sobre o aumento do investimento e a descida do desemprego.

Ainda que no “Globo” o partido do Presidente esteja debaixo de fogo.


O orçamento federal comporta uma verba de dezasseis milhões de reais para a educação o que se não é comparável com os cento e oitenta milhões para a defesa, pode muito bem ser confrontada com a opção de trinta milhões para o desporto, ou os oitenta e sete para o que se possa entender como desenvolvimento social, facto esse que nos deixa sem saber se a formação da população integrará ou não. (1) 

É assim no país do favelado e, não por acaso, os gastos com pessoal absorvem importantes maquias que necessariamente são desviadas do investimento público tão imperioso, justamente, na educação. (2) 



Infelizmente, a esta distância de um oceano, temo que seja para este mundo que o meu país está a caminhar. 

Como é que aqui, no Brasil, se chegou a esta situação? 
Nem sempre o tecido social brasileiro esteve tão marcado pela corrupção e a criminalidade. A miséria sempre existiu; endémica com o fim da escravatura que muito explica das incapacidades posteriores das descendências geradas, exponenciou-se, especialmente nas grandes cidades, pelo normal crescimento demográfico que o êxodo rural aí provocou e uma maior taxa de natalidade de muitos desses estratos contribuiu para reforçar. Mas ainda assim, de uma ou outra maneira, foram existindo poderes capazes de controlar o aumento e a sofisticação do crime, particularmente na vertente organizada, mas também no que diz respeito à pequena criminalidade que espontânea e aleatoriamente vai catando a cidade. 
Pois nos últimos trinta anos assistiu-se à multiplicação dos crimes e se isso de deveu em primeiríssimo lugar à dinâmica própria da delinquência, por si, igualmente encontrou causas tanto no hábito continuado das práticas corruptas entre os cidadãos e organizações de todo o tipo e o estado, como nas consequências que isso teve em termos de obstruir a justiça e desacreditá-la junto das pessoas comuns. 

Ora é precisamente aqui que nos começamos a aproximar do caso deste estado continental e federalista; não tenho dúvidas que as palhaçadas que vêm caracterizando os casos do apito dourado ou da pedofilia deixarão marcas e terão consequências práticas que irão no sentido de estiolar o estado de direito, se é que para o mesmo, entre nós, ainda não tocaram os sinos a rebate. 
Da corrupção temos tudo dito, não é assim? 


E haverá fuga à miséria sem liberdade ou, por outras palavras, haverá liberdade sem estado de direito? Terá aquele condições para ser real e eficaz sem que aquela seja um dado adquirido? 


Pelo que as espoleta, são estas dúvidas inquietantes.

Rio de Janeiro


NOTAS 

(1) Oliveira, Eliane e Alvarez, Regina, A DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS, p. 15 
(2) Idem, GASTOS COM PESSOAL BLOQUEIAM INVESTIMENTOS 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Oliveira, Eliane e Alvarez, Regina, A DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS, In “Globo”, nº. 25922, de 27/0/2004; GASTOS COM PESSOAL BLOQUEIAM INVESTIMENTOS, In “Globo”, nº. 25922, de 27/07/2004

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

GRAFFITAR A LITERATURA (XX)


             
             Foto de Luís Souta, 2015                                            Foto de Luís Souta, 2019
Rua Afonso Sanches, nº60, Cascais
                     
                                                                                                                                       
«– Atenção, meninos, vames fazere o ditade. Quem fazer erres, é castigade.
E não se esqueçam, ditade com “ó” no fim.»
(“Falares Ilhéus” in Arsénio e Rendas Velhas, Ricardo França Jardim, 1996: 24)

Este graffiti não assinado, do Muraliza 2015 – Festival de Arte Mural de Cascais, remete-nos, de imediato, para os caminhos do abc e o ensino das primeiras letras (do título da tese de doutoramento, de 1994, do querido e saudoso amigo Rogério Fernandes). A ineficácia das aprendizagens escolares agrava-se sempre que há mudanças linguísticas introduzidas pelos acordos ortográficos.
Recordo aqui um texto de 1971 “Um Instrumento Maravilhoso Atravessava a Cidade…” incluído num livro de «histórias e invenções» (segundo a categorização do próprio autor, José Gomes Ferreira, 1900-1985) – O Irreal Quotidiano: 
«Parece impossível!» – descompuseram-me. – «Escreveres vaca só com um «c». Assim nunca serás alguém na vida!» E a senhora professora, vexada por eu ter apanhado um suficiente (a classificação predilecta do meu cadastro estudantil pela existência fora), mandou-me escrever, por castigo, cinquenta vezes a palavra vacca com dois «cc»… Uma manada que nunca mais acabava de pastar na lentidão da planície sonolenta do caderno…
Por felicidade, decorridos dois ou três anos, proclamou-se a República e eu vinguei-me. Vim para a rua com o coração sangrento de bandeiras alegres (foi o dia mais feliz da minha infância!) e, enquanto os carbonários guardavam os bancos (só com um «c») eu, com o tempestuoso furor dos iconoclastas de coisas mínimas, destruía todas as letras dobradas que encontrava nos livros (vivam os erros de ortografia!), os «cc», os «tt» e, por fim, os «ph ph» e os «th th» sem falar nos «yyy», da minha especial embirração, por andarem a fingir de perfurantes e profundos.» (p. 14)

Um outro livro, de «crónica, romance, memorial e testamento», nas palavras do seu autor (Miguel Torga, 1907-1995) – A Criação do Mundo - o Primeiro Dia, publicado em 1937 (e refundido na 4ª edição de 1969), remete-nos também para esse universo da escola primária, e das (difíceis) aprendizagens da escrita e do ‘ruído’ que as novas ortografias acarretam:
«– Papel de trinta e cinco linhas. Ditado!
A esta palavra, a sala ficava silenciosa. (…)
O mestre, encostado à secretária, o livro na mão esquerda, a cana da Índia na direita, continuava:
– O calor, vírgula; a luz, vírgula; o som, vírgula; são agentes físicos. Ponto. Fí-si-cos... Já se não usa o ph, como lhes tenho ensinado. Há ainda certos autores que o empregam, mas só por caturrice…» (p. 15)

O terceiro livro – Alma (1995) de Manuel Alegre – fala-nos de um professor primário empenhado na defesa a todo o custo (nem que para isso tenha que recorrer a uma ‘pedagogia musculada’) do património linguístico:
«Ninguém ensinava gramática como Lencastre. (…)
Tinha com a língua portuguesa uma relação, por assim dizer, carnal. Ou religiosa. Ou ambas. Sentia que a missão da sua vida era defender a língua, ensinar a falá-la com as sílabas todas, obrigar a escrevê-la sem erros, o predicado a concordar com o sujeito. Ai de quem, na leitura, comesse a última sílaba, ou de quem, na cópia, borrasse a escrita. Lencastre podia ficar completamente alterado por causa de uma sílaba engolida, uma vírgula mal posta, um erro de ortografia, um verbo mal conjugado.» (p. 78)

Estes três extractos ilustram bem a realidade educativa do país, no século XX, no que respeita ao ensino da língua materna (em particular na vertente da correcção ortográfica).

E hoje? Não é nada fácil ser-se professor de Português quando o AO90 lançou a confusão no que parecia ser consensual – ‘como escrever sem erros’. Infelizmente, «o caos ortográfico está instalado» (Mª Filomena Molder, Público, 4/5/15, p. 47). Qualquer docente (e muito em especial o de Português) vive, presentemente, num dilema profissional: aceitar as directivas da tutela (reforçadas no seguidismo acrítico dos sindicatos) que obrigam a aplicar as directivas desse ‘acordo’ ou seguir o que estipulava (e bem) o relatório académico que antecedeu o acordo de 1945 (e que Nuno Pacheco, jornalista do Público, nos relembra no seu artigo de 11/3/16, p. 54): «Não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única.»

O resultado desta deriva, na sociedade e na escola, está aí e é por demais evidente: o AO90 «desfigurou a fisionomia do Português (…) e o resultado é que não se fica a escrever nem em Português nem na ortografia imposta, escreve-se em língua que não existe, não é a da lei, nem a usual!» (Mª Alzira Seixo, Público, 25/2/14). Entretanto, o jornalista Nuno Pacheco acabou de publicar um livro imperdível: Acordo Ortográfico – Um Beco com Saída (Gradiva, 2019).
Até a língua hoje nos desune!

Post Scriptum
Da EDP (controlada pela China Three Gorges e dirigida, há anos, pelo CEO António Mexia) todos conhecemos desmandos, prepotências e arbitrariedades. É uma ‘toda poderosa’ que esbulha os clientes e fala grosso com os governantes, mansos e submissos (perante o Capital) e que olvidam o mandato democrático de que foram investidos – baterem-se pelo «bem comum».
Este caso, que aqui reporto, é uma minudência, sem dúvida, mas denota a arrogância do quero-posso-e-mando da EDP. No âmbito do Muraliza 2015, João Samina brindou-nos com um mural, numa vivenda degradada, no cruzamento da Travessa do Visconde da Luz com a Rua Affonso Sanches (assim mesmo, com letra dobrada, como ainda ver na antiga placa toponímica); no nº 60 desta rua, no muro da frente, desenharam uma criança (poderia ser o neto do velho pescador do stencil de Samina) segurando um cartaz onde se lê «Educassão é icenssial». Tal frase serviu-me então de mote ao texto, publicado no Estudo Geral de 23/04/2016, sobre as tropelias ortográficas cometidas pelos alunos da primária do século XX, ilustradas em obras de José Gomes Ferreira, Miguel Torga e Manuel Alegre.
Pois naquela longa rua, a EDP foi colocar a caixa de electricidade mesmo em frente do graffiti (ficou a cabeça do miúdo para testemunhar o atentado de que foi alvo). Esta atitude dos serviços técnicos da EDP revela o desdém pela arte de rua, pois actua como se o espaço público fosse pertença sua, regendo-se pelos seus critérios, onde os estéticos estão, naturalmente, omissos.
Num tempo em que se vulgarizou a figura do provedor (e há-os para quase tudo), talvez a Câmara Municipal devesse criar o lugar de «provedor da street art».

Luís Souta