"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

terça-feira, 31 de julho de 2012

FRESCOS


Entre a luz e a contra-luz, cinzentas e iodorizadas, as nuvens executam um desfile sólido de figuras em marcha pelo céu.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


O Verão está a chegar ao fim mas esteve chochinho, provavelmente como estes tempos que passam, cheios de nuvens negras e incertezas na curvatura dos dias. O mundo continua doido, envolvido numa guerra de demência que se algum sinal dá de querer parar, esse é o pior que se poderia desejar ou não estivesse a Alemanha hitleriana expandindo o seu poderio e o seu domínio avassalador e bestial sobre outros povos que, pelos ecos que nos chegam e as tragédias que vamos conseguindo apurar nas entrelinhas do que é permitido escrever, trata de modo desumano e brutal. Agora foi a vez da Rússia soçobrar perante aquela máquina de destruição e morte e fica assim derrubada a última barreira que, no continente, lhe poderia fazer frente. Não há pois quem os possa deter e o Félix que passou uns dias em Lisboa para dar uma mãozinha a umas quantas famílias de refugiados, algumas das quais com vontade de permanecerem no nosso país, a maioria com o manifesto propósito de estar em trânsito para os Estados Unidos da América, voltou a trazer-nos relatos de populações deslocadas e escravizadas e de um manto de repressão que, mesmo para nós que todos os dias vivemos no medo dos olhos e ouvidos da polícia política, é difícil de imaginar. Quanto aos judeus diz-se que continuam a ser mortos aos milhares e este nosso amigo falou de denúncias secretas de matanças em plena rua numa zona ocupada da União Soviética. Resta a Inglaterra, isolada na sua ilha e à mercê dos ataques e das bombas da aviação alemã e mesmo esse imenso império parece enfraquecido com a derrocada que os japoneses lhe têm imposto na Ásia. Oxalá consigamos ficar a salvo de todo este inferno, se bem que a negra noite que se abateu pelo continente europeu se estenda necessariamente para nos preencher o horizonte com todo o horror das suas trevas. E até parece que o estio respondeu com um calor arredio de manhãs nublentas e tardes frescas e com muito poucos momentos de suores suplicantes por uma sombra. É certo que a lezíria, lá em baixo, floresceu como sempre deverá ter acontecido e dos vermelhos das papoilas, aos azuis arroxeados das bocas de lobo, aqui e ali ilhados por tufos amarelos e brancos dos malmequeres, as cores espalharam-se pelas ladeiras dos caminhos e das planuras em pousio e mais para cima, no montado, a neve das estevas voltou a salpicar o verdume do matagal que só agora começa a acastanhar. Ao meio-dia a quietude esteve de facto entregue à tagarelice das cigarras e no escuro mais uma vez se deu o regresso dos toques de pífaros que só os grilos sabem fazer e as oratórias das rãs quando à procura do acasalamento. Mas houve muita água derramada pelas nuvens e se bem que as poças tenham secado, a terra nunca teve aquela secura que leva o torrão a desfazer-se em grãos de areia. Em perfeito contraste está a nossa alegria, de tal maneira ao rubro que acabou por ser suficiente para compensar a timidez da canícula em que não houve uma única noite em que tivesse apetecido dormir ao relento. Quando eu era miúda gostava bastante dos Invernos. Era tão bom estar em casa e escutar os uivos do vento nas arestas e o gotejar das chuvas sobre o parapeito das janelas. Quando a minha mãe punha o braseiro na sala onde costumava dar-se aos seus bordados e leituras e o ar aquecido se instalava e embaciava os vidros, passava por mim uma sensação de aconchego e segurança tão agradáveis que me lembro de imaginar como seria belo se aquela calma acolhedora pudesse durar para sempre. É mais ou menos isso que sinto neste recanto do mundo onde o amanhã se está florindo prenhe de pétalas de esperança. Acabámos de realizar os nossos primeiros proventos e o saldo superou as nossas melhores expectativas. Vendemos a cortiça e também a azeitona do extenso olival de que dispomos e a verdade é que em vez de um, temos agora três tractores com que amanhámos as terras que pretendemos searar e com que deixámos os trabalhadores rurais das vizinhanças de boca aberta e olhos arregalados. Até eu aprendi a dirigir a máquina e sobre ela passei horas e horas de solavancos que me desfizeram os músculos dos braços e das pernas e me atiraram para a cama em transe nas regiões lombares. Teve a contrapartida de sonos de pedra mal o lençol se pousava sobre o formato do corpo. Mas o varejo das ramadas carregadas de brincos acastanhados e negros, esse ainda mais me prostrou em fins de tarde em que só as obrigações do alimento, a mim e a todos, arrancava ao anseio do repouso. Vá lá que escapámos ao tórrido de uma soleira mais rigorosa. Nem tudo foram rosas e, neste caso, os espinhos foram as decisões que, pela primeira vez desde que aqui estamos, saíram de uma unanimidade prevalecente para se fundamentarem na autoridade de um voto de maioria. Deu para ver que há filosofias contraditórias na abordagem do modo como pretendemos organizar a vida aqui, entre nós. Foi pacífica a aplicação de boa parte dos réditos no pagamento ao José Pedro que ainda ficou com metade do que colocou à disposição de todos por receber e não sofreu qualquer contestação todo o investimento que efectuámos em maquinaria, bem como o montante que pusemos de parte para reforçarmos e aumentarmos a represa que se estende no baixio do vale sobre o qual se debruça o casario onde habitamos. Já o pouco que afectámos para dividir entre todos foi objecto de acalorada discussão e foi aí que os pontos de vista pautaram pela divergência. Na opinião do Rui Aranda e, como não seria de estranhar da Teresa, a sua mulher, a que se juntaram uns primos do José Pedro de quem eu nunca consegui decorar os nomes e um empertigado que tem a mania que sabe tudo e está constantemente armado em chefe e a dar ordens e opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, o Raul que estava para ser professor de liceu, ainda que desta vez aceitassem que a divisão da renda se fizesse de maneira equitativa, até por nenhum deles ter sido capaz de explicar como poderíamos medir os contributos de cada um, de modo a determinar aqueles que tinham sido mais e menos relevantes, propunham para o futuro uma solução que passasse por uma espécie de assalariamento de acordo com o labor desempenhado por cada um de nós. Não gostei mesmo nada como deixaram pairar a insinuação que não poderíamos comparar a importância do seu esforço com, por exemplo, o da dona Noémia, a mulher do senhor Abel que, na sua surdez àquela eloquência balofa, não acusou o remoque. Mas eu não gostei e ainda estive para lhes devolver uma alfinetada, embora tenha acabado por preferir o silêncio que desdramatiza aquilo que, se calhar, até nem tem qualquer significado que valha a pena considerar. Opôs-se desde logo o Félix que, por sua vez, admitindo que na realidade seria mesmo uma certeza que aconteceriam contribuições mais importantes que outras e que os empenhos de cada um não estivessem todos ao mesmo nível e que portanto houvesse mais entusiasmo nuns que noutros, ainda assim defendeu que, pesadas bem as coisas, essas não seriam com toda a certeza diferenças substanciais pelo que a repartição equitativa dos ganhos seria justa e a melhor maneira de conferirmos um espírito solidário e fraterno às relações que, entre nós, aqui pretendemos construir. E como muito bem acrescentou o Quico, afinal não podemos estar aqui com os mesmos pressupostos individualistas, para não dizer egoístas que até me parece o termo mais adequado, em que se alicerça o mundo que, em última instância, ao embarcarmos nesta aventura, quisemos deixar para trás. Foi esta posição que recolheu o apreço da maioria. Como é óbvio, foi este o sentido do meu apoio.
Em Agosto recebemos a visita dos meus queridos pais, até ao momento, os únicos que aqui vieram para nos ver e passar uns dias connosco. Sem o menor laivo de vaidade, sinto um inconfessável orgulho por isso. O paizinho foi uma simpatia e em vez do par que lhe pedi, ofereceu-nos meia dúzia de telas, entre elas aquela que sempre foi a da minha preferência, uma falésia batida pelas ondas que me impressiona pela luminosidade que transmite e a misteriosa sensação que as gaivotas estão mesmo voando em brincadeiras sobre a espuma brilhante. A mãezinha é que não se cansou de fazer perguntas sobre tudo o que viu e o que achou que deveria ver ou ter visto. Talvez por se satisfazer com as respostas, lá partiu sorridente e tranquila, toda ela transbordante de felicitações e votos para que tudo nos corra a contento. O meu pai, esse, sempre parco no transparecer dos sentimentos quando fora da intimidade, conferiu a seriedade do beneplácito na confidência com que fez acompanhar o beijo de despedida, ao dizer-me o quanto estava feliz por mim.

sábado, 28 de julho de 2012

Por eleições mais justas - assinem e divulguem


Já está no ar a «Petição pela Reforma da Lei Eleitoral da Assembleia da República», fruto do trabalho de um grupo que coordenei.

Podem assiná-la neste link: http://www.peticaopublica.com/?pi=P2012N27156

Para saberem mais acerca dos motivos pelos quais é importante assinar esta petição - como o facto de mais de meio milhão de votos válidos terem sido ignorados nas Legislativas de 2011 - podem visitar http://pan.com.pt/reformaeleitoral

Se só é preciso alterar três artigos da Lei Eleitoral para melhorar um pouco a qualidade da nossa democracia, temos de agir para que essa mudança aconteça.

Depois de subscreverem a petição, divulguem-na pelos vossos contactos.

Obrigado,
Luís Teixeira

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado. Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 


 Em 
o escritor
diz a

- Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, 
nunca me senti escritor importante, grande homem; 

apenas escritor e homem.


Naquela casa,
onde já moram 150,
tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 25,9 milhões de visitas.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCIX



Sem Título Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela 65x54cm

Já devem ter notado que eu tenho uma infinidade de séries em que nunca faço a última obra e, outras, em que não passo da primeira…
Este quadro foi cuidadosamente planeado, para ser a pedra de toque de uma série, que me entusiasmou na sua concepção.
Toda a tela foi coberta com diversas camadas de tinta, até ficar completamente lisa, para receber o desenho final. Em algumas zonas, passei com lixa de água para a sua superfície ficar sem qualquer irregularidade. Utilizei uma paleta muito limitada: Titanium White, Ivory Black, Ultramarine Blue, Winsor Violet e Permanent Rose. Depois de satisfeito com o tom base da pintura, em que foram utilizadas todas as cores que mencionei, operação indispensável para harmonizar o fundo com o desenho, comecei por distribuir a cor escura pela tela. Neste caso, não se pode dizer que comecei a pintar da sombra para a luz, ou do escuro para o claro, porque a cor é uniforme. Não pintei com preto puro: fiz uma ligeira mistura de Permanent Rose, para “aquecer” o Ivory Black. Utilizei seguidamente o Permanent Rose com uma pitada de Titanium White, apenas para reforçar o fraco poder de cobertura do cor-de-rosa.
Francamente gostei do resultado. Não me perguntem por que razão não continuou a série.
Ah! É verdade! Deixei sem título para não condicionar os comentários…

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Silêncio



Fernanda Leite Bião


Quando o silêncio se faz cá fora
Cá dentro o barulho é ensurdecedor

Clama um coração aflito
Em busca de um pouco de alegria

Um pouco da energia de gente
Que aquece sem acender
A chama existente

Do amor, quem sabe?
Da companhia, talvez?
E a esperança, possível?
Um dia de cada vez...


terça-feira, 24 de julho de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


As casas estão de pé. Ainda não sabemos se haveremos de demarcar os quintais com muros ou sebes ou qualquer outro tipo de vedações em madeira ou não. É o que falta para que os espaços de cada um estejam completos e considerarmos este primeiro problema definitivamente encerrado. Contudo, vemos agora o aspecto que terá a paisagem desta nossa comunidade e ainda que alguns tenham sugerido que no futuro teremos que embelezar com ajardinamento e fontanário e até com algo alusivo ao empreendimento, em si, o que se fez uma espécie de largo de acesso à ladeira onde se acavalitam os brancos das fachadas e o baço alaranjado dos telhados, é possível perceber como será a aldeia resultante desta combinação deste novel casario com os edifícios pré-existentes. Não há quem não esteja satisfeito com os resultados, quer no que diz respeito às condições de habitabilidade que conseguimos para cada uma das famílias, quer no tocante ao enquadramento estético que o produto final deixa transparecer. O senhor Abel não se cansa de se dar a admirar o efeito da obra e fez questão de se erguer da cama a tempo de ver o Sol raiar sobre as telhas que mais próximas estão do alto da colina. Brevemente poderemos gozar o requinte de uma casa só para nós e eu já sinto o frenesim da alegria de conceber como iremos instalar e decorar os interiores. Vou pedir ao paizinho que me ofereça duas ou três telas das que costuma pintar para que possamos ornamentar as paredes. Estou tão, tão contente. Sinto-me feliz. Mas ainda vamos ter que esperar pelo princípio do Outono para procedermos a mais esta mudança e finalmente podermos abrir e eliminar os caixotes que trazem os tarecos e enxovais de cada casal. Organiza quem sabe e no dizer dos que, entre nós, são entendidos na matéria, é preciso deixar passar o tempo para que as casas sequem, creio ser assim que se diz, para o que, o período de uma estação, não sendo o ideal, parece ser um tempo minimamente suficiente. Façamos votos para que este Verão seja quente. Seja como for, ainda ontem comemorámos o evento e fizemos da fogueira de Santo António o corolário de uma festa que teve início num jantar para que convidámos aqueles que aqui trabalharam connosco e as respectivas famílias. O ajudante do carpinteiro que fez as portas e as janelas e os armários das cozinhas, deixou escapar a má ideia que fazia a nosso respeito e que se esfumou, disse-o no entredentes desta confissão, ao ponto de o levar a admitir que até gostaria de aqui viver. Pudera… Afinal, ele acabou por ver o que, pelo seu entender, costumam ser pertenças de ricos. Cheias de luz e arejadas, com divisões amplas e assoalhadas, todas apetrechadas com cozinhas e casas de banho, uma no piso térreo e outra com tudo preparado para o vir a ser se as necessidades determinarem o aproveitamento das águas furtadas que já ficaram prontas para virem a ter os quartos da filharada, são três as divisões, por ora em tijolo, para o efeito e ainda espaço para uma casa de jantar ao lado da cozinha, uma ampla sala de estar na entrada, de onde se abrem as portas do nosso quarto de dormir e de uma divisão mais pequena onde contamos fazer um escritório e a nossa biblioteca particular. Para quem vive ao monte em casebres, deparar-se com o simples facto de haver água encanada e ver tudo a preceito para vir a receber o abastecimento eléctrico, não me custa muito compreender que se ache perante a mansão de um qualquer senhor. Aqui os Invernos são frios, avisou o José Pedro para quem o termos calafetado bem as portas e janelas será crucial para o conforto que haveremos de sentir no interior, quando as temperaturas cá fora se aproximarem do zero. E isso ainda mais impressionou o rapaz que viu a novidade de vidros duplos no janelame que o nosso amigo trouxe das suas estadias na Alemanha, como mais um toque de um requinte de todo inimaginável. Para nós, tudo isso se traduz por um elemento que ajuda a materializar um horizonte de esperança. Tanto mais que nos preparamos para começar a tirar os primeiros rendimentos da propriedade e com isso a darmos o arranque propriamente dito deste modo de vida que escolhemos. Nós temos condições excepcionais e agora compreendo a insistência do José Pedro que, em face das hesitações e objecções dos que procurava arregimentar, assegurava que muito embora tivéssemos pela frente trabalho árduo e restrições, a par de sacrifícios e privações que dificilmente seríamos capazes de imaginar, sem que isso deixasse de ser assim, tudo apontava para que o projecto pudesse vir a ser levado a bom porto, pois de modo algum se poderia argumentar ser ele um sonhador, quando partíamos com todas as condições para da terra tirarmos ganhos que, no limite do pouco ou nada querermos fazer, dariam para conseguirmos uma vida minimamente confortável. Pois agora vejo que assim é. Para a semana vamos começar a extrair a cortiça das árvores que iremos vender às fábricas da região e dos concelhos em frente a Lisboa, o que nos deixará uma receita que, segundo os cálculos daqueles que são mais expeditos nestas coisas da economia, nos permitirá não só garantir um rendimento aceitável para cada um, isto para aliviar aqueles que aqui chegaram com as menores reservas e que, no caso da família do senhor Abel, pode acarretar alguma aflição, mas também nos possibilitará o bastante para amortizarmos metade da dívida que todos contraímos com o José Pedro e até comprar um tractor e algumas alfaias agrícolas. E com os mais ou menos cento e vinte hectares repletos de sobreiral que possuímos, temos a garantia de todos os anos termos à disposição uma renda semelhante. As bases do nosso futuro estão assim lançadas e tudo leva a crer que poderemos manter uma certa tranquilidade perante o mesmo.
As pessoas são mesmo más. O paizinho é um verdadeiro optimista para quem a natureza humana é intrinsecamente boa e a que apenas as vicissitudes de um mundo de injustiças é susceptível de alterar no sentido da maldade. Eu não sei se será dessa forma e temos assistido a tamanhas desgraças nos tempos que correm que não me é difícil pôr em dúvida esse ponto de vista. Depois há aqueles sentimentos muito próprios de cada pessoa, como a inveja ou o rancor que o meu querido pai, por ser alguém desapossado de maus instintos ou ansiedades incompreendidas, não costuma considerar quando reflecte sobre estes assuntos. Mas tenho para mim que ele se engana e que, ao contrário, é a maldade ela própria que é capaz de ser inerente à natureza humana. Nós somos naturalmente egoístas, trazemos connosco um instinto de sobrevivência que nos leva a que em primeiríssimo lugar pensemos em nós e na defesa daquilo que possamos considerar os nossos interesses. E num mundo como aquele em que vivemos em que cada um depende de si, não só essa característica tem chão com fartura para se tornar mais visível, como ainda para adquirir um peso maior do que seria desejável. É isso que abre as portas à maldade que, tantas vezes e em tantos e tantos casos, leva tanta gente a rejubilar com o mal do próximo, chegando ao cúmulo de encontrar mais satisfação pela infelicidade alheia do que aquela que poderiam sentir pela sua própria felicidade. E quando a isso se associa a ignorância, temos normalmente os piores desfechos. No que pessoalmente me diz respeito, em parte é a isso que aqui quero fugir. De outra forma, como entender o que, segundo o carpinteiro e o ajudante que, entre aqueles a quem contratámos o trabalho, foram os que mais privaram connosco, se dizia e seguramente continua a dizer-se nos lugares de conversa da Vila, onde é voz corrente que somos um bando de desavergonhados e gente perversa que vive na promiscuidade e, quando se trata de mexericos entre beatas, no pecado. Nem vou aqui entrar em detalhes e pormenores porque são tão ofensivos e sórdidos que, só de pensar neles, fico sem saber se me encho de espanto ou de raiva. Mas é assim a vida e a massa humana com que afinal temos que lidar. Felizmente não me parece que daí possam advir consequências de maior para esta paz em que queremos viver e isso chega e sobra para que não precisemos nada mais que um simples encolher de ombros para resposta. Não é o próprio povo quem diz que vozes de burro não chegam ao céu?
Agora tenho que dormir, mas era bom que o Manuel ainda estivesse acordado.

FRESCOS


Junto às rochas existe um mistério de espuma e de luar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Visiono um mundo mais justo para todos, humanos e não-humanos. Um mundo onde explorar e violentar um homem ou um animal seja motivo de exclusão social. Um mundo de concidadãos da consciência e da sensibilidade, tenham patas, mãos ou asas. Podem dizer que é utopia, como já foi tanta coisa que hoje é bem real. Mas é nesse mundo que eu e cada vez mais pessoas em todo o planeta vivemos e respiramos. E não descansaremos enquanto não for bem concreto e tangível. Contamos contigo. Desperta do sono e junta-te à grande família do futuro já presente.


Paulo Borges

domingo, 22 de julho de 2012

Mamilo



Foto de Lucas Rosa

sábado, 21 de julho de 2012

Poder



Ávido de poder reclamo a sorte
que me cabe no negócio: o amor
tolhe os movimentos. O corpo
cede à angústia de estar vivo. A sorte
é instante acordado. O poder trafega
a ilusão da luz apagada. A lanterna
cessa a sombra imaginada. O destino
presente na ponta dos dedos. Águas
sôfregas rasgam a terra e depositam
mensagens de descobrimento.

Aviso em praça pública: o poder
combina a estática com o movimento
em falso do adormecido.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Aforismos


Está tudo certo
para o bem e para o mal,
será bom ser desperto

Se ficarmos todos mais perto
ficaremos mais bem que mal
mais certo do que é (a)final.

Luís Santos

quinta-feira, 19 de julho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCVIII

Sem Título Autor António Tapadinhas

Acrílico sobre Tela 70x50cm

Numa entrada, pedi aos meus amigos e visitantes, a sugestão do título para uma obra de que eu fazia a descrição, enquadramento e técnica usada. Como seria de esperar, as colaborações foram muitas e de grande qualidade.
Um amigo, deixou-me o seguinte comentário:
Deixo-te um desafio. Correndo apenas o senão...de não ser do teu agrado.

Nem que seja um mero exercício. Apresenta uma tela tua, com título, e sem a descrição ou brilhante narrativa como fazes.
Deixa ser o teu visitante, a descobrir (a interrogar) a sensibilidade da tua criatividade. Depois... BUM! Descoberta do facto.


Pois bem! O desafio foi aceite, mas com um pormenor diferente: o quadro não tem título para não cercear a criatividade a ninguém.

A tela está aí: é toda vossa!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lourenço Marques: Do seu estabelecimento


A baía que começou por ser chamada de Baía da Lagoaaparece já nos mapas de Cantino de 1502, o que garante que terá sido visitada logo a seguir à viagem de Vasco da Gama. Alguns anos mais tarde um comerciante português, Lourenço Marques, em 1544, terá sido o primeiro europeu a estabelecer algum contato com os naturais daquela região.
Logo que D. João III tomou disto conhecimento mandou reconhecer os rios que ali desaguam e assentar na margem direita do Rio do Espírito Santo, uma feitoria e fortificação.
Assim começa a exploração do comércio daquela região, com o próprio Lourenço Marques e António Caldeira como os primeiros europeus ali assentes, e com estabelecimentos ainda nas ilhas da Inhaca e dos Elefantes. Todos eles foram de pequena duração. No entanto todos os anos ali aportavam naus, unicamente para o resgate de marfim, e a região ficava entregue a si própria, levantando a cobiça de ingleses e até de austríacos, que lá se fixaram.
Portugal entendeu que aquele território lhe pertencia e tratou de correr com os “intrusos”, e foi só em 1781 que se fundou uma feitoria que veio dar lugar à mais tarde cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo.
O contato dos portugueses com os nativos, durante todo este tempo, tinha sido relegado para eventuais “resgates”, tendo os régulos feito tratos com os ingleses, oferecendo-lhes terras e garantindo os necessários fornecimentos.
Com a chegada de Joaquim de Araujo, ouve que restabelecer esses contatos, indispensáveis para o comércio e convivência pacífica. Eram vários os régulos da região: Mafumo, Capela, Matola, a quem se dava o título de reis.



Com o fim da “ocupação inglesa/austríaca”, houve que refazer os contatos com essas autoridades. Curioso verificar como esses tratados eram celebrados. Transcreve-se, a seguir, o relato da visita do régulo da Matola à fragata portuguesa. (Outros se seguirão)

Em o dia 21 fiz expedir pessoas com aquelles saguates2 do costume, a dizer ao rei Capella, e ao rei Matolla, que lhe pretendia fallar,e que es­perava que determinassem o dia em que queriam vir a bordo da fragata de Sua Majestade Fidelíssima, para os mandar buscar no escaler; a pes­soa que foi ao rei Matolla recolheu no dia 3, dizendo que vinha o dito rei Matolla. Em o dia 4 muito cedo appareceu o rei Matolla na praia, que sendo visto da fragata, se lhe mandou escaler para o conduzir, o que fez trazendo em sua companhia três mulheres suas, e um grande numero de cafres que o acompanhavam; chegaram á fragata onde foi recebido e conduzido à camara do commandante com parte da sua comitiva, aonde depois de muitos cumprimentos, e demonstrações de amizade que queria tratar com os portuguezes, que bem conhecia terem sido os primeiros que conquistaram aquellas terras; mas que os mesmos portuguezes as tinham abandonado, não indo ali ha tantos tempos a commerciar, nem a le­varem-lhe aquelles géneros de que elle precisa e a sua gente, e que por este esquecimento em que os tínhamos posto, fazia com que tivessem trato com os imperiaes3; mas que tornando nós com trato antigo, e ami­zade, que elle inviolavelmente queria tratar com os portuguezes, pois elle era irmão de Sua Magestade, á saúde de quem bebia com toda a vene­ração e respeito; a esta saúde salvou a fragata com vinte e um tiros, o que o rei gostou, e a sua comitiva toda; depois tivemos varias conferen­cias, em que o dito rei deu bastantes provas de não ser muito selvagem, a tudo se lhe respondeu, e foi-lhe assegurado que d'aqui por diante ha­viam de vir muitas embarcações cheias de géneros e roupas de seu uso, e que elle tivesse o maior cuidado em que se respeitasse n/aquelles logares a bandeira portugueza, e que nenhuma consentisse arvorar n'aquelles territórios por serem pertencentes á coroa de Portugal; a tudo res­pondeu que sim, e que não queria senão aos portuguezes, porque todos eram irmãos, e eram os seus primeiros paes. Entraram a comer e a be­ber muito demasiadamente, e depois de serem bem satisfeitos, o não fi­caram com os pannos que se lhe deram de saguate por serem poucos, e muito grossos, e respondeu o rei, que aquelle saguate não era próprio para elle, nem parecia ser dadiva de uns homens tão grandes como os portuguezes; que elle esperava lhe fosse dado um presente, que podesse mostrar á sua gente toda, que aliás elle não poderia dizer que tinha vindo de uma fragata de guerra portugueza; a isto respondeu o tenente coronel que as fragatas de guerra não faziam saguates por obrigação, que tudo aquíllo que se lhe oferecia eram demonstrações de amizade e ob­séquio, e que não devia pretender dos portuguezes o mesmo que estava recebendo d'aquelles individuamente que vinham ali commerciar; que se contentasse com o que lhe era dado, e que devia receber tudo com muita satisfação e gosto; esteve o rei attento ouvindo tudo e respondeu, que elle queria que o tenente coronel fosse a sua casa visita-lo, para lhe dar um saguate como devia; escusou-se o tenente coronel, o rei aceitou os pannos, e repartiu-os pela sua gente, e depois d'isto ter feito, entrou a pedir copos, facas, garfos e tudo quanto viu, por ultimo deu-lhe o tenente co­ronel e o commandante da fragata algum fato, com que o rei satisfeito, se despediu, promettendo ordenar, para virem todos os viveres preci­sos para a fragata, e do mais que fosse preciso das suas terras estava prompto para mandar, e que esperava não fizessem violência á sua gente; o dito rei mandou três vaccas de presente, a fragata ao retirar-se o rei se lhe deram cinco tiros de bombarda, e se foi muito satisfeito; tudo isto se passou presentes os officiaes que se achavam a bordo, e por verdade o escrevi, e me assinei.
= António Joaquim Pinto Collares, escrivão.

1.- 2 de Abril de 1781
2.- Presentes, ofertas
3.- Austríacos

Francisco Gomes Amorim
17/07/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

FRESCOS


As nuvens são a rebeldia colorida do Sol e as gaivotas gritam, de passagem, e o silêncio persiste, como outrora, na ponta descaída para o mar.
Duas ilhas, uma verde, a outra é um enigma de distância mas, à superfície das águas, continuam os ziguezagues de asas brancas, como outrora, na ponta descaída para o mar.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Bem, não posso afiançar que todos tenham a intenção de permanecer aqui para o resto das nossas vidas. Falo por mim e mesmo no que me diz respeito não sou capaz de afirmar que é essa a minha vontade e isto fora do âmbito daquela sabedoria do senso comum que está contida em expressões do género de o futuro a Deus pertence ou que daquele só Ele sabe. O que se passa é que para falar com franqueza, neste momento não sei se é isso que eu quero, se está nos meus planos aqui ficar até que a velhice chegue e um dia os olhos se me fechem para a eternidade do último e mais misterioso dos sonos pois, como é óbvio, não conto com a eventualidade de uma interrupção abrupta que oxalá não aconteça. A vida é tão bela e viver uma aventura tão empolgante. Honestamente não sei se me agradará o desenrolar desta experiência e se, em função disso, continuarei a pensar ser ela preferível a uma qualquer mudança de rumo alternativa. Isso dependerá de tantos factores, quiçá alguns deles nem eu seja capaz de conceber neste presente que nem o mais inteligente dos seres conseguiria prever como todos eles se poderiam conjugar para confluírem num ou noutro desenlace. Sei lá como me virei a relacionar com estas pessoas, ou como irei reagir perante as agruras que certamente nos esperam. Até como me adaptarei a uma maneira e a condições de vida e trabalho que de todo me são estranhas e que jamais considerara experienciar. A vontade, quer dizer, a intencionalidade no empenho para contribuir o melhor possível para que tudo corra bem, essa tenho-a, aliás, essa pode ser dada como adquirida para todos nós, de outro modo seria uma tontice da parte de quem em tal condição se não apresentasse. É claro que labutarei com todo o afinco para que aqui sejamos capazes de construir um pequeno pedaço de mundo melhor para todos. Falta passá-la à prática e é aí que as dificuldades se situam e é a partir daí que deixamos de ser capazes de prever os efeitos da multiplicidade de factores susceptíveis de influenciarem a forma como tal se processará e se seremos ou não capazes de virmos a ser bem sucedidos. Se calhar não andarei muito longe daquilo que os outros pensam, mas esta é a minha óptica e é só por ela que eu posso dar a cara, como só a mim ela pode responsabilizar. Não sei pois se haverá, à partida, um intento colectivo ou na maioria das outras pessoas de aqui passarem o que todos seguramente esperam venha a ser o muito que ainda temos para o resto das nossas vidas. Estou tentada a dizer que não, até por mera reserva de prudência. Logo se verá. Seja como for, começa a ser uma evidência que, pelo menos, nos anos mais próximos vamos querer ficar. Ninguém se esforça na construção de um ninho para o abandonar de seguida. Seria um desperdício sem sentido. Lembra-me as palavras do senhor Fernando no casamento da Marianinha, sua filha e minha amiga desde que fomos parceiras da primeira à quarta classe, dirigindo-se aos noivos para os felicitar e advertir sobre a responsabilidade do acto que haviam consumado, avisando que se seguiria então a formação do ninho para que ambos se consciencializassem que seria ali onde haveriam de querer ficar e criar raízes para se aprestarem a deixar as sementes que deles se esperavam. E a verdade é que muito embora ténues, também nós aqui começamos a estabelecer os alicerces das primeiras raízes e com elas nos estamos a preparar para enfrentar os anos mais próximos. E não é tanto pela azáfama que temos desenvolvido em torno das casas que já vão nos acabamentos, ou nas reparações e restauros de palheiros e armazéns que já iniciámos que o afirmo. Se o faço é mais por ver que as reuniões após o jantar têm versado sobretudo no que tomamos como o melhor para o que queremos que venha a ser a safra do próximo ano. Como não poderia deixar de ser, a nossa sobrevivência e permanência neste local dependerá da fonte de rendimentos que sejamos capazes de arranjar e essa, forçosamente, terá que ter a ver com actividades agrícolas. No total temos à disposição pouco mais de três centenas de hectares de terras aráveis e, nas palavras do José Pedro e de todas as vozes entendidas que tenho ouvido, bastante férteis e nesse todo temos solos que nos permitirão afectar várias dezenas de hectare ao alagar de arrozais e muitas outras ao sequeiro de cereais e, pela abundância de água que possuímos e já está em projecto vir a represar, culturas mais dependentes da rega, como, por exemplo, a exploração de pomares de fruta que é uma sugestão que ficou a pairar no ar. Ele há uma certa desorganização na maneira como as coisas se vão discutindo e, porque não confessá-lo, há também uma certa infantilidade, um dado ar de fantasia no modo como se vão estabelecendo os objectivos produtivos de que estou a falar. Às vezes até parece que mais não somos que um bando de adolescentes a quem deram um brinquedo desconhecido e que se entregam a explorá-lo com todo o enleio que à volta gera a suspensão do mundo. Contudo as conclusões têm aparecido e, ainda que eu não tenha bases suficientes para o avaliar, tudo indica que as metas a que nos propomos estão ao nosso alcance pelo que há sensatez naquilo que por aqui se tem dito. Será isto o começo de uma aventura que durará o resto das nossas vidas? Não sei, apesar do que disse, continuo sem o saber, mas que as raízes se vão afundando, disso tenho a certeza absoluta. E o que melhor o simboliza é que a Catarina está grávida. Ontem, todos lhe demos os parabéns, a ela e ao Alberto, como é bom de ver.
Não vejo a hora de escrever estas linhas no conforto do escritório que haveremos de ter em casa.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Da Integralidade na Realidade


Do nada, da inércia aparente, que não o é, iremos assistir a padrões de comportamento isentos de quaisquer competitividade ou agressividade. Na nudez cerebral surgirão implantes correspondentes a sementes de comportamentos já existentes em civilizações espalhadas pelo Cosmos, as quais aguardam com serenidade que este belo planeta azul recupere dos milhões de anos em que não foi identificado como um ser vivo, capaz de se manifestar e querer a sua integração numa Paz Cósmica.
O individuo de superfície terá que optar entre um alinhamento com esferas superiores ou será conduzido amorosamente a planos de existência compatíveis com a energia vibratória que emite aguardando na escala evolutiva mais uma oportunidade para exprimir comportamentos compatíveis com a Integralidade na Realidade.

A.A.

sábado, 14 de julho de 2012

Óculos de visão nouturna



De noite a construção de almas dá-se,
Constelação de todas as coisas anormais,
A lua que dita a regular filosofia do mundo,
Contempla-se perfeita em todos os seres animais.

Profundo amor humano
Contemplando também ele a noite,
Manifesta-se em silêncio meditando,
Na imagem que sente vista do monte.

Que alegre companhia!

Nos ramos, o vento suave ressoa,
Acompanha a matéria na razão de existir,
Solitária é a visão de quem só se faz sentir
Pela lua se vê o beijo que na terra ecoa.

O cão que uiva e o sino da igreja toca.
Todo o universo é tão belo quanto isto,
Na paz da noite o ruído toma,
O oculto sentido impossível de ser visto.


Diogo Correia
Cabeção - Alentejo
3/julho/2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma noite em Ilhéus


Aos amigos uma estória da Bahia

Rugendas- Custumes do Rio de Janeiro 
Desde que da nau capitânia cabralina gritou-se “ Terra à vista” que estas terras tropicais foram motivo de interesse e curiosidade por parte dos europeus. Franceses, holandeses, ingleses, espanhóis, além é claro dos seus descobridores oficiais, os portugueses, chegaram a estas paragens em busca de aventura e riquezas.
Seguindo o rastro de seus patrícios antecessores, o escritor Charles Expilly,  por motivos indefinidos, resolveu se estabelecer no Brasil e ao mesmo tempo fazer um trabalho de pesquisa sobre o país e sua gente. Mais que relatar o que viu, o francês deu sua opinião “civilizada” sobre os luso-brasileiros e seus bárbaros costumes. Mesmo não tendo êxito integral no seu projeto, fez uma bela descrição da natureza e dos episódios por que passou, ou ouviu contar, usando cores fortes e palavras bem colocadas, tornando viva a história.
Num dos seus relatos, contou-nos o que se passou com uma  jovem da Terra. Apesar de estar apaixonada por Agostinho, Brígida, de família  fidalga empobrecida, escolheu para casar  Manuel Rebentão, um tosco e velho traficante de negros escravos, porém um dos homens mais ricos de São Jorge de Ilhéus.
Após o casamento, o casal foi morar numa vasta e confortável propriedade junto à praia, entre São Jorge e Olivença.  Manuel fazia de tudo para impressionar a mulher e a sociedade local com suas extravagantes despesas. Dava festas exóticas, comprava produtos estrangeiros, encomendava roupas da moda, vindas de Paris, para a mulher.  Não se cansava de mostrar o quanto o seu poder financeiro podia materialmente adquirir e ofuscar a sua origem. 
Quando chegou a São Jorge de Ihéus um refinado o piano Érard, foi um alarde geral. Vaidoso, o comprador, Manuel Rebentão, programou uma grande festa para exibir o renomado instrumento. Iria tocá-lo, para deleite dos convivas, a sua jovem esposa. Dentre os convidados estava o jovem músico e vizinho de fazenda  Sr. Agostinho, antigo namorado de Brígida.
Os preparativos corriam céleres.  A  visível ansiedade de Brígida não passou desapercebida ao marido, que julgou ser pelo presente que chegava. Com os carregadores, seus escravos, foi buscar a valiosa peça a São Jorge.  Na volta, na estrada, Manuel Rebentão encontrou Gregório, escravo de sua mulher,  com um  ramo de flores nas mãos que o vizinho, Sr. Agostinho,  recomendou entregar a D. Brígida, com uma pauta musical, para que ela tocasse no dia da festa. Era a resposta ao recado que ela havia mandado entregar ao músico, disse o escravo. 
Espicaçado pelo ciúme, visivelmente alterado, arrancou as flores das mãos do negro e, dizendo-lhe que ele mesmo as entregaria, adiantou-se ao grupo e dirigiu-se à casa de uma velha, conhecida nas redondezas como  sendo advinha. Contou-lhe o que se passava e pediu-lhe que interpretasse o que aquele buquê  queria dizer. Luzia, que conhecia a linguagem das  flores, depois de olha-las e observá-las demoradamente  diz ao marido desconfiado:
As flores que Vosmecê me pede para desvendar falam de um amor fiel, verdadeiro, porém infeliz pela ausência, que se alimenta de raros momentos felizes. Pedem uma entrevista romântica.
Rebentão tremeu. Pagou  a velha com algumas moedas e, corroído  pelo ciúme, mentalmente  arquitetou uma  vingança. Voltou para a estrada. Novamente encontrou os escravos carregando o piano e finalmente juntos chegaram a casa. Fingindo indiferença, para não levantar suspeitas, entregou  o buque  e a música à mulher. Era a resposta ao convite para a festa, disse dissimulado à esposa.   Acreditando que o marido de nada desconfiava, tornou a enviar no dia seguinte um recado, desta vez pela fiel mucama, herança de família. Instruía o amante como deveriam fazer.  Após o jantar, quando os convivas fossem em bando à pescaria com fachos, como nas noites estreladas de verão costumava acontecer, ele deveria se retirar com alguma desculpa. Ela faria o mesmo . Então, a sós,  se encontrariam em segredo, enquanto os demais estivessem na brincadeira noturna.
No dia seguinte, sem perceber que estava sendo vigiada,  a escrava da Sinhá saiu sorrateiramente da casa, escondendo um papel no bolso do avental. No caminho, Manuel Rebentão interceptou-a com xingamentos e palavreado grosseiro.  Ameaçou-a de morte, ordenou-lhe que entregasse a carta que portava. E que nada revelasse à D. Brígida,  se não já sabia o que a esperava...
Finalmente a noite festiva, residência cheia, jantar magnífico. Todos elogiavam  a música  que a bela dona da casa tirava do afamado piano. O negreiro a todos solícito, porém,  não perdia a esposa de vista.  A brisa fresca, após o dia calorento, o brilho da lua,  em lençol de prata sobre o mar, o arrulhar constante das pequenas ondas a quebrar na praia, eram um convite a embarcarem nas canoas iluminadas com tochas para pescar. Seria uma noite agradável, divertida,  não fosse o triste episódio que a todos surpreendeu, menos ao dono da casa.
O Sr. Agostinho se despediu. E quando os convivas se preparavam para a pescaria noturna, uma gritaria histérica se ouviu. Era o cavalo do Sr. Agostinho,   em cavalgada desenfreada, arrastando o seu cavaleiro,  que entrava  no pátio da casa grande em cena apocalíptica. Olhos esbugalhados, ejetados, narinas chispando fogo, incendiadas, pinoteando, enlouquecido pela dor, numa cena dantesca, o pobre animal em desespero se lançou sobre a muralha que protegia a propriedade do mar. As tentativas dos escravos para segurar o animal foram em vão. Cavalo e cavaleiro se precipitaram no ar, caíram em baque surdo, pesado, sobre as pedras, junto ao mar. O choque foi geral, ninguém queria acreditar no que via.  Brígida estupefata desmaiou, segurou-a o marido. Momentos antes daquela terrível cena, sem que o jovem Agostinho percebesse,  seguindo as ordens do Sinhô Manuel, o escravo que lhe segurava o cavalo enquanto montava acendeu uma isca de madeira com o charuto que trazia na boca e meteu-a na narina do infeliz animal. O resto já se sabe. O salto foi fatal.
Quando Brígida  se recuperou, já haviam trazido  o corpo dilacerado de Agostinho.  Sem se importar com os outros, abraçou o corpo do amante em pranto convulsivo, enquanto ouvia do marido  a cruel  acusação;  aquilo tudo acontecera por culpa dela, quando resolvera traí-lo. Além da dor da perda, ele lhe impunha o terrível castigo, o remorso pela da morte de Agostinho.   Revoltada com tão selvagem vingança, isolou-se em seus aposentos e dias depois abandonou Rebentão. Voltou para a casa do pai, que conhecedor da estória amparou a filha. Brígida levou consigo a mucama e os seus dois escravos, João e Gregório. 
O tempo passou, porém o ódio e o desejo de vingança cresciam dia a dia no coração da jovem Brígida. Até que um dia, tomou a terrível decisão, eliminaria da face da terra o odioso marido.  Convocou os seus dois escravos e,  prometendo-lhes a alforria, encomendou o assassinato do negreiro. Queria que ele morresse sabendo que quem o mandara matar tinha sido ela, D. Brígida.
Quando João e Gregório chegaram à fazenda, Manuel Rebentão saía montado no seu alazão, enquanto a escravaria dormitava, após a refeição, junto às bananeiras. Curioso para saber o que os  trazia lá, o negreiro se aproximou dos escravos de Brígida.  Não percebeu as facas sob os camisolões de  algodão grosseiro dos escravos.  Fingindo trazer um recado, João  apresentou ao negreiro um papel dobrado que ele supôs ser uma carta. Ao estender o braço para pegá-lo,  Gregório, o outro escravo,  atingiu-o com uma facada certeira no peito. Letalmente ferido,  emitindo um gemido,  caiu por terra. Esfaquearam-no até a morte, dizendo-lhe a cada estocada que quem os mandara tinha sido D. Brigida, sua mulher.  Ao ver a vítima morta, fugiram enquanto os escravos do negreiro em gritaria tudo assistiam, no entanto, sem fazer nada...
A jovem viúva  recebeu a notícia numa calma satisfação, sentia-se vingada. Os escravos estavam livres da senhora, mas não da lei. Tornaram-se fugitivos. Apesar das suspeitas, a ela nada aconteceu. Afinal de que valia a a palavra de escravo contra a de uma sinhá, branca , fidalga e rica...
Já de volta à França, o escritor francês comentou com teatral espanto o episódio daquela noite em Ilhéus. Foi  um ato de selvageria, de desprezo pela lei de Deus e dos homens, de deturpação de costumes, só visto  em terras selvagens tropicais, colonizadas por gente bárbara e escravos, dizia.  Provavelmente, ao comentar a sanguinária estória de D. Brígida, o frustrado imigrante Frances se  esqueceu da história da sua pátria e de suas colônias...
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 06/07/12
Fonte dos dados:
Mulheres e Costumes do Brasil ( Charles Expilly)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCVII



Pôr-do-Sol em Alburrica Autor António Tapadinhas

Acrílico sobre Tela 30x40cm

A luz do sol não varia com a hora dos nossos dias. A nossa atmosfera serve de filtro a essa luz que nós vemos que, por uma questão de comodidade, se costuma dividir em seis cores, por ordem de frequência crescente: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.
Neste quadro, foram estas três primeiras cores que privilegiei, tornando coerente a sua luz/cor visível. Não utilizei o processo científico que estimula a conversão de energia numa porção de luz, como se diz em inglês “light amplification by stimulated emission of radiation” ou, para simplificar, fazendo o acrónimo com as iniciais destas palavras – laser…
Utilizei “apenas” a visão dos humanos: A nossa capacidade de distinguir cores e tons não tem limites definidos...
...tal como a nossa capacidade de amar!


quarta-feira, 11 de julho de 2012

MFI



Um dos modelos de "t-shirt" do Movimento das Forças Interrogativas concebido por José Pereira (clique em cima para ampliar a imagem).

terça-feira, 10 de julho de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Qual é o sentido da vida? Haverá alguma razão para estarmos aqui? Teremos, por ter nascido, por estarmos vivos, alguma missão particular em que tenhamos que nos cumprir? De onde viemos, se é que não viemos do nada? E para onde vamos? Será que haverá uma qualquer forma de continuidade depois da morte? Ou será que esta é uma passagem extemporânea, um mero lapso de tempo em que nos é dado existir e que se eclipsará irremediável e irreversivelmente no momento em que este sopro se extinga?
Estas são questões que têm acompanhado a Filosofia desde sempre e para as quais não temos respostas ou, melhor dizendo, para as quais não existem respostas unânimes, ao mesmo tempo que nada indica que possa essa pretensa unanimidade vir algum dia a ser alcançada. Nem a ciência nos serve de muito a estes níveis. Se no domínio da compreensão da matéria os avanços têm sido significativos, estamos ainda muito longe de conseguir explicar os mistérios em que a vida se alicerça que, por isso, permanecem no âmbito da Filosofia que, para eles, reúne respostas tão variadas quanta é a diversidade das várias escolas de pensamento. E será que algum dia conseguirá o Homem resolver cientificamente tais mistérios? Daí não é o vazio que resulta, uma vez que são múltiplas as propostas e que entre elas acabamos por poder escolher aquela que mais nos preencha. Antes é uma sensação de angústia que, para alguns, se concretiza num verdadeiro temor perante o desconhecido o que não é o meu caso, devo dizer, muito embora me deixe na incerteza de saber que uma qualquer escolha que faça me possa acarretar o trilho de um caminho errado. Para o meu querido pai é precisamente isso que valoriza a vida, o facto de nunca sermos capazes de estarmos certos que tomamos as melhores decisões. Para ele que acima de tudo crê no poder da ciência e na genialidade do ser humano para, através dela, não só explicar os fenómenos que nos rodeiam, como melhorar a sua própria condição de vida, esse é o desafio que acaba por dar gozo ao acto de viver, o jogo que temos que jogar e acertar a todo o momento sem que do mesmo tenhamos instruções, no que dependemos apenas da nossa perspicácia e inteligência para o conseguir que simultaneamente é a mola propulsora de virtudes como a humildade ou a capacidade de esforço e sacrifício, sem as quais, para as pessoas simples, como nós que não temos como impor as respectivas vontades aos outros, dificilmente conseguiremos sobreviver em moldes razoáveis e decentes. Mas essa é a leitura que o paizinho faz destas coisas e que eu, desde a mais tenra idade, vim aprendendo com ele. Só que ainda sou muito nova e inexperiente e estou tão longe da sólida cultura que ele tem… Nem estes foram os problemas que mais me entusiasmaram no decorrer do curso. Como é natural, também eu me imaginei especializada a trabalhar na produção de pensamento e textos filosóficos que, como seria de esperar, haveriam de ter a sua relevância e impacto. Mais tarde vim a compreender o sorriso benevolente e carinhoso com que o paizinho procurava não me desapontar quando via o meu entusiasmo ao perguntar-lhe se poderia aspirar a vir a ter um lugar no professorado superior. Depois percebi que o gracejo sobre o que teria que vir a ser a primeira grande filósofa da academia, bem lá no fundo tinha menos a ver com os costumes deste mundo em que às mulheres pouco mais se aceita que o papel de mães e esposas, do que com a sua própria condição de proscrito por um regime de gente medíocre e vingativa que obviamente haveriam de estender o castigo do próprio aos propósitos dos seus descendentes. Mas eu via-me mais a trabalhar na área da gnosiologia que, até pela influência das conversas que ia mantendo com o paizinho, foi ainda desde os tempos do sétimo ano do liceu aquilo que sempre mais me interessou nos meus estudos e a única área em que estou certa de que seria capaz de vir a estabelecer alguma luz de inovação. Mais do que os destinos ou as origens do Homem, sempre me impressionou como é que somos capazes de prodígios tão grandes como compreender os movimentos dos planetas e a dinâmica das estrelas, ou como é que um animal tão simples e desamparado como o ser humano que nem mesmo é capaz de andar como o mais inepto dos carneirinhos acabados de nascer e que tudo tem que aprender sob pena de nada ser, como é que um ser desses conseguiu descobrir e dominar a electricidade ou inventar a verdadeira magia que são as emissões de telefonia. Será que os cientistas acedem às descobertas que fazem e às teorias que elaboram pelo respeito da aplicação de quaisqueres regras do método científico? Não o creio e vendo o caso de Isaac Newton, por exemplo, diria que tudo acontece mais por momentos de clarividência do que por qualquer atitude teórica pré-estabelecida. Mas é claro que sendo filha de quem sou, ainda mais mulher, jamais me seria dado o privilégio de me pagarem para elaborar conhecimento, não fosse a rapariga um dia ainda vir a contribuir com subsídios teóricos para a subversão. Logo eu, para quem aquelas grandes questões filosóficas jamais mereceram mais do que a preocupação de me preparar para um exame. Nunca fui o género de pessoa que se preocupa com a morte que não me assusta e ainda que tenha de um dia vir a deixar este mundo tão bonito, tão cheio de beleza e motivos da mais elevada felicidade, o que lamento profundamente, daquela não tenho qualquer medo. Mas já tenho dado por mim com pena de não ser como alguns crentes cheios de fé, para quem a morte mais não significa que a entrada para o paraíso e uma vida de eternidade, para quem tudo é simples e todas aquelas dúvidas que me angustiam têm o sentido da vida feita na comunhão com os princípios de um Deus Todo-Poderoso.
Eu disse no outro dia que gostaria de me debruçar sobre as ideias que ouvi à Viviana atribuir ao seu marido, o Gustavo. E vem tudo isto a propósito disso mesmo, pois foi esta a perplexidade com que então as escutei e desde aí têm bulido nas cogitações avulsas em que me vou evadindo da azáfama que nos tem submergido nestas últimas semanas. O que pode ter levado alguém como ele a querer dar corpo a uma alteração tão radical para a sua vida? Podem as ideias ter um poder tão devastador que nos levem a modificações tão substanciais? Podem, claro que podem e disso está o mundo cheio de exemplos e não só nos termos colectivos das transformações revolucionárias, mesmo a nível individual muitos foram aqueles que se modificaram e às suas vidas em função de ideais. A estranheza brota apenas pelo facto de pessoalmente nunca antes haver conhecido quem tal o tivesse ousado. Ao vir para aqui, do senhor Abel poderemos dizer com propriedade que muito simplesmente mudou de vida, mas, mesmo assim, ainda poderíamos interrogar-nos se ele teria efectivamente escolhido a vida que levava. Entre os restantes, tanto quanto me é dado perceber, pelo menos até este momento, o único que possuía um caminho certo, isto é, um meio de vida profissional e familiar com um rumo certo e um futuro previsível, esse era o Gustavo. Ao que parece, todos os outros se encontravam no limiar das escolhas, naquela posição em que, naturalmente para aqueles que o possam fazer, ainda temos que decidir o que pretendemos fazer na e da vida. Apesar da juventude, condição que aliás é comum aos outros, com a excepção do senhor Abel e da mulher, afinal ele era um engenheiro com provas dadas de competência e capacidade empreendedora, com uma sólida posição na empresa do pai que, graças às obras públicas, se transformou numa das maiores se não a maior construtora do país. Nessa meia dúzia de anos enriqueceu e a perspectiva, nesse patamar, seria a de continuar a acumular fortuna e poder. Casado com uma mulher maravilhosa que tem tanto de bonita como de inteligente e ainda com a vida própria de uma profissão tão nobre como é o exercício da medicina, dir-se-ia que ele tinha todas as condições para, como é costume dizer-se, ter tudo o que quisesse na vida. Ora o que pode ter levado um homem assim a sentir-se aborrecido com o seu dia a dia e consigo próprio a ponto de se desiludir e, pelas palavras da Viviana, a sentir-se vazio pela percepção de que mais nada estava a fazer que a limitar-se a cumprir aquilo que todos os que o rodeavam esperavam dele? É isso que me intriga e ao mesmo tempo me fascina. A Viviana não se perdeu em detalhes nem nos porquês, contou apenas que um dia ele chegou a casa descontente, sem que soubesse explicar porquê, no entanto sentindo tratar-se de um estado inerente à vida que levava. E foi por aí que a dúvida o começou a assaltar, a dúvida quanto à vida ter que se limitar a ser apenas aquilo que fazia, no fundo, resumir-se apenas a trabalhar para enriquecer. É como escrevi, daí deriva a minha perplexidade pois foi esta a primeira vez que me defrontei com alguém assim e o que me desconcerta é que não sou capaz de encontrar respostas que me possibilitem compreender tal atitude. Talvez um dia venha a sabê-lo pela boca do próprio.

FRESCOS

CINCO MINUTOS DE OLHAR PARA UMA PAPOILA DEGENARADA

 
A Floresta Mágica é um espírito florido
que vagueia através de Shangri-lá.
 
 
O Sol é o complemento definitivamente directo
as alegrias bamboleantes das árvores
reflectidas na pequena tela sensorial feita pelas águas do lago,
mas cedo somos assaltados pela frescura dos malmequeres brancos
e no rádio, os Rolling Stones soltam Paint In Black nas nossas cabeças,
borboletas e pássaros voando em cantares de papoila.

Regresso à inocência. No azul do céu pigmentado pelas nuvens espalhadas,
gaivotas voam acima da extensão verde que abraça o horizonte.

Alhos Vedros, 15/05/1981

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Mística Cristã



“Não se vai ao Pai senão através de mim…
...O Reino está dentro de vós."
 (Jesus)

Só se conhece depois de ter recebido o Espírito que é dado… Deus precede-nos… sem ouro não se faz ouro. Reconhecem-se vários caminhos entre os místicos cristãos:
  1. O Caminho Monástico
O Monaquismo, termo que significa viver em solidão, não é uma tradição que se inicia com o cristianismo, antes é uma tradição que se encontra em várias religiões. Os eremitas típicos de tradições orientais são disso um bom exemplo. Na Índia já antecede o Budismo.
Ascese (anacorese), jejum, abstinência sexual, clausura.
O deserto, o combate contra as tentações, as forças invisíveis, as visões, as obsessões… violentas ou aprazíveis… para fixar o Espírito Santo.
  1. O Caminho Devocional
Chegar a Deus através da busca da união amorosa. O exemplo das cantigas de amigo na poesia trovadoresca, medieval.
  1. O Caminho Intelectivo
A procura de inteligência que ultrapasse o entender vulgar… entender o que não se entende. Começa em Pseudo-Dionísio, o Aeropagita.
  1. O Caminho Volitivo
Do puro Amor. Da oração afetiva, mental. Do Espírito Santo que faz tudo em mim, do abandono de mim.

“…a verdadeira razão de ser de uma Escola Iniciática é a de preparar os humanos para a realização do Reino de Deus na terra, quer dizer, para que a fraternidade exista entre os humanos. Para fazer este trabalho não precisais de ser clarividentes nem de possuir poderes excepcionais: apenas tendes de vos tornar cada vez mais sábios, mais puros, mais generosos, mais desinteressados e mais senhores de vós próprios.” (Omraam Mikhaël Aïvanhov)

Carlos Rodrigues


domingo, 8 de julho de 2012

Testemunho da 41ª Feira do Livro de Alhos Vedros





Terminou a 41ª Feira do Livro de Alhos Vedros, uma das mais antigas de Portugal. Este ano a Feira contou com uma banca de 8 escritores locais, uma das muitas atrações da edição deste ano. Nas fotos podem ver-se alguns dos escritores. Na 1ª foto, Luís Gomes e António Tapadinhas, os dois primeiros da esquerda, a seguir o categorizado apresentador cujo nome me escapou e, de costas, Leonel Coelho. Nas fotos seguintes, os livros, a animação e Leonel Coelho, desde sempre, um dos membros da Comissão Organizadora e da direção da Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, a entidade organizadora. A Comunidade está de parabéns.

Fotos e texto de Lucas Rosa